Jacques Le Goff - Historia e Memoria - Capitulo Memoria

  • View
    714

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

MEMRIA

[Pg. 423] O conceito de memria crucial. Embora o presente ensaio seja exclusivamente dedicado memria tal como ela surge nas cincias humanas (fundamentalmente na histria e na antropologia), e se ocupe mais da memria coletiva que das memrias individuais, importante descrever sumariamente a nebulosa memria no campo cientfico global. A memria, como propriedade de conservar certas informaes, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funes psquicas, graas s quais o homem pode atualizar impresses ou informaes passadas, ou que ele representa como passadas. Deste ponto de vista, o estudo da memria abarca a psicologia, a psicofisiologia, a neurofisiologia, a biologia e, quanto s perturbaes da memria, das quais a amnsia a principal, a psiquiatria [cf. Meudlers, Brion e Ueury, 1971; Flors, 1972]. Certos aspectos do estudo da memria, no interior de qualquer uma destas cincias, podem evocar, de forma metafrica ou de forma concreta, traos e problemas da memria histrica e da memria social [cf. Morin e Piattelli Palmarini, 1974]. A noo de aprendizagem, importante na fase de aquisio da memria, desperta o interesse pelos diversos sistemas de educao da memria que existiram nas vrias sociedades e em diferentes pocas: as mnemotcnicas. [Pg. 424] Todas as teorias que conduzem de algum modo idia de uma atualizao mais ou menos mecnica de vestgios mnemnicos foram abandonadas, em favor de concepes mais complexas da atividade mnemnica do crebro e do sistema nervoso: "O processo da memria no homem faz intervir no s a ordenao de vestgios, mas tambm a releitura desses vestgios" e os processos de releitura podem fazer intervir centros nervosos muito complexos e uma grande parte do crtex", mas existe "um certo nmero de centros cerebrais especializados na fixao do percurso mnsico" [Changeux, 1972, p. 356]. O estudo da aquisio da memria pelas crianas permitiu assim constatar o grande papel desempenhado pela inteligncia (cf. Piaget e Inheller, 1968). Na linha desta tese, Scandia de, Schonen declara: "A caracterstica das condutas

perceptivocognitivas que nos parece fundamental o aspecto ativo e construtivo dessas condutas" [1974, p. 294], e acrescenta: "Podemos pois concluir que se desenvolveram ulteriores investigaes que tratam do problema das atividades mnsicas, integradas ao

conjunto das atividades perceptivo-cognitivas, no mbito das atividades que visam organizar-se da mesma maneira, na mesma situao, ou adaptarem-se a novas situaes. E talvez s pagando este preo compreenderemos um dia a natureza da recordao humana que impede to prodigiosamente as nossas problemticas" [ibid., p. 302]. Descendem daqui diversas concepes recentes da memria, que pem a tnica nos aspectos de estruturao, nas atividades de auto-organizao. Os fenmenos da memria, tanto nos seus aspectos biolgicos como nos psicolgicos, mais no so do que os resultados de sistemas dinmicos de organizao e apenas existem "na medida em que a organizao os mantm ou os reconstitui". Alguns cientistas foram assim levados a aproximar a memria de fenmenos diretamente ligados esfera das cincias humanas e sociais. Assim, Pierre Janet "considera que o ato mnemnico fundamental o "comportamento narrativo" que se caracteriza antes de mais nada pela sua funo social, pois que comunicao [Pg. 425] a outrem de uma informao, na ausncia do acontecimento ou do objeto que constitui o seu motivo" [Flors, 1972, p. 12]. Aqui intervm a "linguagem, ela prpria produto da sociedade" (ibid). Deste modo, Henri Atlan, estudando os sistemas auto-organizadores, aproxima "linguagens e memrias"; "A utilizao de uma linguagem falada, depois escrita, de fato uma extenso fundamental das possibilidades de armazenamento da nossa memria que, graas a isso, pode sair dos limites fsicos do nosso corpo para estar interposta quer nos outros quer nas bibliotecas. Isto significa que, antes de ser falada ou escrita, existe uma certa linguagem sob a forma de armazenamento de informaes na nossa memria" [1972, p. 461]. Ainda mais evidente que as perturbaes da memria, que, ao lado da amnsia, se podem manifestar tambm no nvel da linguagem na afasia, devem em numerosos casos esclarecerse se tambm luz das cincias sociais. Por outro lado, num nvel metafrico, mas significativo, a amnsia no s uma perturbao no indivduo, que envolve perturbaes mais ou menos graves da presena da personalidade, mas tambm a falta ou a perda, voluntria ou involuntria, da memria coletiva nos povos e nas naes que pode determinar perturbaes graves da identidade coletiva. As ligaes entre as diferentes formas de memria podem, alis, apresentar caracteres no-metafricos, mas reais. Goody, por exemplo, observa: "Em todas as sociedades, os indivduos detm uma grande quantidade de informaes no seu patrimnio gentico, na sua memria a longo prazo e, temporariamente, na memria

ativa" [1977a, p. 35]. Leroi-Gourhan considera a memria em sentido lato e distingue trs tipos de memria: memria especfica, memria tnica, memria artificial: "Memria entendida, nesta obra, em sentido muito lato. No uma propriedade da inteligncia, mas a base, seja ela qual for, sobre a qual se inscrevem as concatenaes de atos. Podemos a este ttulo falar de uma "memria especfica" para definir a fixao dos comportamentos de espcies animais, de uma memria "tnica" que assegura a reproduo dos comportamentos nas sociedades humanas e, no mesmo sentido, de uma memria "artificial", eletrnica em sua forma mais [Pg. 426] recente, que assegura, sem recurso ao instinto ou reflexo, a reproduo de atos mecnicos encadeados" [ 196465, p. 269]. Numa poca muito recente, os desenvolvimentos da ciberntica e da biologia enriqueceram consideravelmente, sobretudo metaforicamente e em relao com a memria humana consciente, a noo de memria. Fala-se da memria central dos computadores e o cdigo gentico apresentado como uma memria da hereditariedade [cf. Jacob', 1970]. Mas esta extenso da memria mquina e vida e, paradoxalmente, a uma e a outra conjuntamente, teve repercusses diretas sobre as pesquisas dos psiclogos sobre a memria, passando-se de um estgio fundamentalmente emprico a um estgio mais tcnico: "A partir de 1950, os interesses mudaram radicalmente, em parte por influncia de novas cincias como a ciberntica e a lingstica, para tomarem uma opo mais terica" [Disury, em Meudlers, Brion e Levry, 1971, p. 789]. Finalmente, os psicanalistas e os psiclogos insistiram, quer a propsito da recordao, quer a propsito do esquecimento (nomeadamente no seguimento de Ebbinghaus), nas manipulaes conscientes ou inconscientes que o interesse, a afetividade, o desejo, a inibio, a censura exercem sobre a memria individual. Do mesmo modo, a memria coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das foras sociais pelo poder. Tornarem-se senhores da memria e do esquecimento uma das grandes preocupaes das classes, dos grupos, dos indivduos que dominaram e dominam as sociedades histricas. Os esquecimentos e os silncios da histria so reveladores desses mecanismos de manipulao da memria coletiva. O estudo da memria social um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da histria, relativamente aos quais a memria est ora em retraimento, ora em transbordamento. No estudo histrico da memria histrica necessrio dar uma importncia

especial s diferenas entre sociedades de memria essencialmente oral e sociedades de memria essencialmente escrita como tambm s fases de transio da oralidade escrita, a que Jack Goody chama "a domesticao do pensamento selvagem". [Pg. 427] Estudaremos pois sucessivamente: 1) a memria tnica nas sociedades sem escrita, ditas "selvagens"; 2) o desenvolvimento da memria, da oralidade escrita, da Pr-histria Antiguidade; 3) a memria medieval, em equilbrio entre o oral e o escrito; 4) os progressos da memria escrita, do sculo XVI aos nossos dias; 5) os desenvolvimentos atuais da memria. Este procedimento inspira-se no de Leroi-Gourhan: "A histria da memria coletiva pode dividir-se em cinco perodos: o da transmisso oral, o da transmisso escrita com tbuas ou ndices, o das fichas simples, o da mecanografia e o da,seriao eletrnica" [1964-65, p. 65]. Pareceu prefervel, para valorizar melhor as relaes entre a memria e a histria, que constituem o horizonte principal deste ensaio, evocar separadamente a memria nas sociedades sem escrita antigas ou modernas distinguindo na histria da memria, nas sociedades que tm simultaneamente memria oral e memria escrita, a fase antiga de predominncia da memria oral em que a memria escrita ou figurada tem funes especficas; a fase medieval de equilbrio entre as duas memrias com transformaes importantes das funes de cada uma delas; a fase moderna de processos decisivos da memria escrita, ligada imprensa e alfabetizao; e, por fim, reagrupar os desenvolvimentos do ltimo sculo relativamente ao que Leroi-Gourhan chama "a memria em expanso".

1. A memria tnica

Contrariamente a Leroi-Gourhan que aplica este termo a todas as sociedades humanas, preferir-se- reservar a designao de memria coletiva para os povos sem escrita. Notemos, sem insistir mas sem esquecer a importncia do fenmeno, que a atividade mnsica fora da escrita uma atividade constante no s nas sociedades sem escrita, como nas que a possuem. Goody lembrou-o recentemente com pertinncia: "Na maior parte das culturas sem escrita, e em numerosos setores da nossa, a acumulao de elementos na memria faz parte da vida cotidiana" [1977a, p. 35]. [Pg. 428] Esta distino entre culturas orais e culturas escritas, relativamente s funes confiadas memria, parece fundada no fato de as relaes entre estas culturas se

situarem a meio caminho de duas correntes igualmente erradas pelo seu radicalismo, "uma afirmando que todos os homens tm as mesmas possibilidades; a outra estabelecendo, implcita ou explicitamente, uma distino maior entre 'eles' e 'ns"' [ibid., p. 151. A verdade que a cultura dos homens sem escrita diferente, mas no absolutamente diversa. O primeiro domnio on