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Kalagatos Kalagatos Kalagatos Kalagatos Kalagatos - REVISTA DE FILOSOFIA DO MESTRADO ACADÊMICO EM FILOSOFIA DA UECE FORTALEZA, V.2 N.4, VERÃO 2005, P. 137-167. l L 137 Jorge Vasconcellos * * Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Professor do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Gama Filho - UGF, Professor Adjunto da Escola de Comunicação e Artes da UniverCidade e Editor da Revista Ethica. RESUMO Este artigo pretende apresentar a filosofia de Gilles Deleuze como um pensamento da imanência, uma filosofia que defende a univocidade do ser, constituindo-se, para tal, como uma ontologia do devir. A concepção deleuziana de “Diferença” é fundamental para este percurso na obra do filósofo. PALAVRAS-CHAVE: Gilles Deleuze. Imanência. Diferença. Devir. Ontologia. ABSTRACT This paper intends to present Gilles Deleuze’s philosophy as a immanent thought. A philosophy that defends the univocity of being, and for that, turning to an ontology of becoming. In that sense, the conception of “difference” is essential to Deleuze’s work. KEY-WORDS:Gilles Deleuze. Immanence. Difference. Becoming. Ontology. A ONTOLOGIA DO DEVIR DE G ILLES D ELEUZE

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    Jorge Vasconcellos *

    * Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ,Professor do Programa de Ps-graduao em Filosofia da Universidade GamaFilho - UGF, Professor Adjunto da Escola de Comunicao e Artes daUniverCidade e Editor da Revista Ethica.

    RESUMO

    Este artigo pretende apresentar a filosofia de Gilles Deleuzecomo um pensamento da imanncia, uma filosofia quedefende a univocidade do ser, constituindo-se, para tal, comouma ontologia do devir. A concepo deleuziana deDiferena fundamental para este percurso na obra dofilsofo.

    PALAVRAS-CHAVE: Gilles Deleuze. Imanncia.Diferena. Devir. Ontologia.

    ABSTRACT

    This paper intends to present Gilles Deleuzes philosophy asa immanent thought. A philosophy that defends the univocityof being, and for that, turning to an ontology of becoming.In that sense, the conception of difference is essential toDeleuzes work.

    KEY-WORDS:Gilles Deleuze. Immanence. Difference.Becoming. Ontology.

    AONTOLOGIA DO DEVIRDE GILLES DELEUZE

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    A filosofia de Gilles Deleuze1 , antes de mais nada,uma ontologia do devir 2.

    No desenvolvimento que pretendo empreender daconcepo de ontologia da filosofia deleuziana preciso marcaralgumas posies para que no sejam lanadas dvidas e mal-entendidos que nada mais fazem do que confundir e atrapalharo rigor do pensamento. Em primeiro lugar, a ontologia deleuziana mais que a resposta ao enunciado fundamental heideggeriano,que denuncia a histria da filosofia ocidental como, na verdade,constituindo-se enquanto histria da metafsica. Ou ainda, quemetafsica de fato sinnimo de onto-teologia. Todavia, paraDeleuze, essa onto-teologia pode ser chamada para alm de seumdico nome designada historicamente de metafsica , demodo estratgico sua prpria filosofia, de platonismo. A rigor,a histria da metafsica confunde-se com a constituio doplatonismo para Deleuze; em vrios momentos de sua obra,um clamor entoado em letras expressas: preciso reverter oplatonismo!, o que, dito de outro modo, o mesmo que convidara um combate: preciso derrotar a filosofia da representao!, pois essa filosofia da representao que, personificada pelo platonismo,subordina a diferena s potncias do Uno, s relaes do

    1 Trata-se de uma verso bastante modificada do primeiro captulo deminha Tese de Doutoramento em Filosofia, defendida sob o ttulo Deleuze,e pensamento e o cinema, orientada por Guilherme Castelo Branco, aoPrograma de Ps-graduao em Filosofia da Universidade Federal doRio de Janeiro, em maio de 2004.2 Nesse percurso, um dos comentadores de Deleuze nos serviu deinterlocutor privilegiado, principalmente no que se refere concepoontolgica deleuziana, para esta empreitada: Franois Zourabichvili. Ahiptese geral que norteou seu trabalho relaciona ontologia e a noo deimplicao. ZOURABICHVILI, Franois. Deleuze. Une philosophie delvnement. Paris: PUF, 1994.

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    Anlogo, s similitudes do Semelhante e identidade do Mesmo,por intermdio de seu mtodo da diviso. Foi essa filosofia queconstituiu as bases do que Heidegger chama de onto-teologia.

    No obstante, as relaes entre ontologia e diferenaganhariam um novo sentido propriamente com Aristteles,pois com o estagirita que aparece a idia de gnero e adiferena especfica, isto , desenha-se a subordinao dasdiferenas e a impossibilidade de pensar as singularidades,que so subsumidas s generalidades pela exigncia do Mesmoe pela universalizao do conceito. Deleuze escreve:

    Nosso erro tentar compreender a diviso platnica apartir das exigncias de Aristteles. Segundo Aristteles,trata-se de dividir um gnero em espcies opostas; ora,este procedimento no carece de razo por si mesmo,mas tambm de uma razo pela qual se decida que algoest do lado de tal espcie mais do que tal outra. Por exemplo,divide-se a arte em artes de produo e de aquisio; maspor que a pesca com linha est do lado da aquisio? O queest faltando a mediao, isto , a identidade de um conceitocapaz de servir de meio-termo. Mas evidente que a objeocai, se a diviso platnica de modo algum se prope adeterminar as espcies de um gnero 3.

    Quem de fato constri a diviso em espcies e, porconseguinte, cria as condies para o desenvolvimento deuma filosofia da representao Aristteles. Seu conceitomediador a analogia.

    A mediao do Ser pela representao somente foivivel, segundo Deleuze, pelo conceito de analogia.Entretanto, Aristteles censuraria Plato por no t-la

    3 DELEUZE, Gilles. Diffrence et Rptition, Paris, PUF, 1968, p. 83 [111-112].

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    descoberto antes, partindo o filsofo ateniense diretamentedo modelo formal da Idia cpia sensvel da matria.Aristteles, por sua vez, ao subordinar a diferena oposio, semelhana e prpria analogia teria garantido a mediaoque fez da diferena ao longo da histria da filosofia umrecalque da identidade. O Ser, mediado pelo plano daidentidade, acabou por ser determinado por duas grandescaractersticas: tornou-se distributivo e hierrquico, ou seja,distribui-se, equivocamente, de modo compartilhado, e remetea um sentido primeiro regulando todas as suas emanaes.Essa, grosso modo, a arquitetura do modelo onto-teolgicoque Heidegger aponta ao longo da histria do pensamento,que teria entificado o Ser, ou seja, deixamos de ter acesso aoser, apenas estaramos no horizonte do ente 4.

    Deleuze ultrapassa essa onto-teologia criticada porHeidegger, uma vez que em sua obra o que est em jogo umaontologia de sentido aberto. Isso significa que, em sua concepoontolgica, o ser no pensado como permanncia e imobilidade,tais como so constitudas as ontologias metafsicas.4 Cf. HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Traduo de Mrcia de SCavalcante, Petrpolis, Vozes, 1989. O clebre livro de Heidegger, de1927, procura colocar o sentido do Ser, isto , colocar o ser como questo,mostrando seu esquecimento enquanto problema. A questo do sentidodo Ser nos d a ver seu esquecimento pela tradio filosfica ocidental,de Plato e Aristteles at o pensamento moderno, procurando apresent-la (a questo) como uma tese que comportaria trs ngulos: 1) O ser mundo; 2) O ser desvelamento original de si mesmo num a (Da-sein), o ser-a ou presena, que ns somos e que, no entanto, no ohomem, mas o ser do homem; 3) O Da-sein finitude finitude dohomem enquanto compreenso do ser. O conceito de onto-teologia desenvolvido por Heidegger como uma derivao dessa problemtica, oesquecimento do ser. Mais precisamente em 1929, na conferncia Que a metafsica.

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    A ontologia deleuziana, pelo contrrio, refratria subordinao do ser aos pressupostos que foram construdospelo legado platnico-aristotlico, constituindo-se, dessaforma, como uma ontologia no-metafsica.

    Segundo comentrio de Michel Foucault,5 a ontologiadeleuziana caracteriza-se por o ser se dizer em todas as suasdiferenas, ou seja, ele a repetio como diferena, repetioque no pode reduzir-se, mecnica ou materialmente, sexigncias do Mesmo e do Idntico, alm de defender quea diferena seja liberada do jugo da identidade e dasemelhana. Liber-la do estado de subordinao identidade e a prevalncia ao erro que o pensamento darepresentao lhe outorgou o papel da filosofia paraDeleuze: Tirar a diferena de seu estado de maldio parece ser,assim, a tarefa da filosofia da diferena. 6.

    duvidoso pensar que a grande contribuio daconcepo de ontologia da filosofia deleuziana comporteapenas que h uma repetio da diferena e afirme pura esimplesmente a potncia da diferena. Outras filosofiasdestacaram a importncia da diferena, do outro, daquilo queescapa identidade e semelhana, alm de perceber seucarter repetidor. No entanto, elas se enganaram, segundo5 Foucault, em sua leitura dos livros de Gilles Deleuze, Lgica do sentido eDiferena e repetio apresenta dois problemas fundamentais da filosofiadeleuziana: o que o acontecimento?, o que pode o pensamento? Ou, ditode outro modo, at que ponto a filosofia deleuziana (que Foucault evocacomo aquela que ser ainda determinante ao sculo XX) trata-se, na verdade,da constituio de uma ontologia das diferenas, instaurada por umpensamento acategorial em sua dupla luta: contra o senso comum e o bomsenso, contra a negatividade e a dialtica. Cf. FOUCAULT, Michel.Theatrum philosophicum in Dits et crits II (1970-1975). Paris, PUF, 1994.6 DELEUZE, Gilles. Diffrence et Rptition, p. 44 [65].

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    Deleuze, ao confundir a diferena com a diferena conceitual,caindo desse modo nas armadilhas da representao:

    Talvez o engano da filosofia da diferena, de Aristteles aHegel, passando por Leibniz, tenha sido o de confundir oconceito da diferena com uma diferena simplesmenteconceitual, contentando-se com inscrever a diferena noconceito em geral. Na realidade, enquanto se inscreve adiferena no conceito em geral, no se tem nenhuma Idiasingular da diferena, permanecendo-se apenas noelemento de uma diferena j mediatizada pelarepresentao7.

    Deleuze constituiu um pensamento que fez dadiferena seu ponto angular. mais do que simplesmentedizer: viva a diferena! , antes disso, pensar a diferena.Mais que isso, fazer uma filosofia da diferena. Construiruma filosofia da diferena, em ltima instncia, consiste emreverter o pensamento representacional, isto , afirmar adiferena em seu gozo pleno, revertendo o legado deixadopelo platonismo. Plato construiu inmeras estratgias paraencurralar as singularidades. Essas estratgias levaram por suavez subordinao da diferena, ao empreender seu combate filosofia sofstica, e, segundo Deleuze, conseguiu atravsdas artimanhas da dialtica, produzir um efeito de superfcie,ludibriando os leitores mais apressados ao apresentar porintermdio de seu mtodo seletivo o privilgio do modelosobre as cpias. De fato, o que importa ao platonismo no esta primeira clivagem entre cpia e modelo, mas aquela quedeterminada pelo rigor do modelo pode determinar e separaras boas e as ms cpias. Ou seja, as cpias que aspiram aomodelo e as cpias degradadas que no lhe tm mais nenhuma7 DELEUZE, G. op. cit., p. 41 [61].

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    similitude. Dito de outro modo, o principal movimentoestratgico do platonismo no foi privilegiar o modelo cpia,mas selecionar as boas cpias das mal fundadas, que, por seudistanciamento do modelo, passaram s formas denominadasde simulacros-fantasmas ou, simplesmente, simulacros. Ahiptese de Deleuze bem explicitada em uma passagem daLgica do sentido, na qual as intenes do platonismo soapresentadas, tanto as manifestas, quanto as latentes:

    Partamos de uma primeira determinao do motivoplatnico: distinguir a essncia e a aparncia, o inteligvele o sensvel, a Idia e a imagem, o original e a cpia, omodelo e o simulacro. Mas j vemos que estas expressesno so equivalentes. A distino se desloca entre duasespcies de imagens. As cpias so possuidoras em segundolugar, pretendentes bem fundadas, garantidos pelasemelhana; os simulacros so como os falsos pretendentes,construdos a partir de uma dissimilitude, implicando umaperverso, um desvio essenciais. nesse sentido que Platodivide em dois o domnio das imagens-dolo: de uma lado,as cpias-cones, de outro os simulacros-fantasmas. Podemosento definir melhor o conjunto da motivao platnica:trata-se de selecionar os pretendentes, distinguindo as boase as ms cpias ou antes as cpias sempre bem fundadase os simulacros sempre submersos na dessemelhana.Trata-se de assegurar o triunfo das cpias sobre ossimulacros, de recalcar os simulacros, de mant-losencadeados no fundo, de impedi-los de subir superfciee de se insinuar por toda parte 8.

    Assim, o platonismo nada mais fez que instaurar umainstncia predefinidora e julgadora, cujos artifcios dialticoslevavam, antes de tudo, a selecionar os bons e os maus8 DELEUZE, Gilles. Logique du Sens, Paris, Minuit, 1969, p. 295-96 [262].

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    pretendentes. Aqueles que seriam selecionados pelo rigor doMesmo. O que se estaria perdendo ento? A diferena. O quefazer? Diz Deleuze: desafiar o Modelo, afirmar todas e quaisquercpias, potencializar o simulacro. Este o primeiro e maissignificativo dos procedimentos de reverso da filosofia darepresentao, inaugurada por Plato e desenvolvida por Aristteles.

    Roberto Machado defende que, apesar de a filosofiada representao ter sido erguida pelo pensamento platnico,foi com Aristteles que ela constituiu-se como a lgica depensamento que vigoraria ao longo da histria da filosofia:

    Se Plato o momento originrio da representao, nosentido em que, com ele, a diferena considerada em simesma impensvel e subordinada s potncias do Mesmoe do Semelhante, tambm com ele o resultado do projetode uma filosofia da representao duvidoso, visto quePlato ainda no elaborou as categorias que permitemdesenvolver sua potncia. Segundo uma imagem queaparece algumas vezes no texto deleuziano, como se omundo heracltico e sofstico da diferena, qual um animalno momento em que domado, ainda rosnasse noplatonismo resistindo a seu jugo. Com a teoria das Idias,Plato baliza seu domnio funda-o, seleciona-o, exclui oque o ameaa , mas, certamente inspirado em Nietzsche,Deleuze se empenha em assinalar que a motivao ou razoque preside sua deciso de exorcizar o simulacro eminentemente moral. No, evidentemente, que essa visomoral do mundo caracterstica deste primeiro momentodesaparea da filosofia da representao. O que ele pretenderessaltar que Aristteles quem, rigorosamente falando,funda ou estabelece a lgica da representao, criandoseus conceitos bsicos [...] 9.

    9 MACHADO, Roberto. Deleuze e a filosofia, Rio de Janeiro, Graal, 1999, p. 37.

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    Continuando em sua anlise, Roberto Machado dizainda que, embora saibamos que o conceito de analogia nofoi propriamente criado por Aristteles, mas por suainterpretao medieval, por meio de Toms de Aquino,10 oque se mostra fundamental para a interpretao de Deleuzeno a autoria do conceito, mas a apropriao dessaimportante idia para a constituio do espao darepresentao e para a elaborao de uma filosofiarepresentacional.

    No obstante, se, por um lado, a filosofia da diferenaproposta por Deleuze denuncia a subordinao da diferenaa relaes de analogia ao Mesmo e Semelhana, por outro,essa filosofia confirma sua chancela diferena, afirmando osimulacro e instaurando um pensamento sobre o tempo.Afirmo que h uma inequvoca relao entre a filosofia dadiferena deleuziana e um pensamento sobre o tempo, o que, a meu ver, uma porta de acesso sua concepo deontologia. Tematizando o tempo na obra deleuziana,principalmente em sua relao com o que pensar?, torna-sepossvel estabelecer condies para melhor explicitar a questoontolgica na filosofia de Gilles Deleuze.

    O tempo uma relao entre dimensesheterogneas. Estas dimenses so concorrentes em virtude deseu poder individuante: cada um se atualiza excluindo os outros(um indivduo dado), mas todos so o tempo, as diferenas no

    10 Pierre Aubenque, em seu j clssico estudo sobre a filosofia deAristteles afirma, que a idia da analogia do Ser na verdade no estpresente na obra aristotlica, que, de fato, esta foi uma interpretaomedieval que acabou por tornar-se uma idia pronta adotada praticamentepela fortuna crtica do filsofo grego. Cf. AUBENQUE, Pierre, Le problmede ltre chez Aristote. Paris, PUF, 1977.

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    tempo, ou ainda as diferenas como tal, na medida em que otempo pura diferena. O tempo a diferena das diferenas.

    Da o problema da diferena interna, ou diferenaem si; uma coisa que s se difere mudando de natureza.Somente a pura forma da mudana pode corresponder aesse conceito que define o tempo sem depender da essnciaou da identidade. O tempo annimo e individuante,impessoal e inqualificvel, fonte de toda identidade e diferena.O tempo a fora motriz que instaura as diferenciaesqualitativas da matria, e esta se modifica internamente pelaao do tempo que, por conseguinte, torna-se produtor desingularidades. De todo modo, preciso no confundirdiferena interna e diferena especfica.

    A diferena interna no nem o Uno nem o Mltiplo: uma multiplicidade. Deleuze designa sob este conceito ummodo de unidade imanente, de identidade imediata do uno edo mltiplo. H multiplicidade quando a unidade do diversono reclama a mediao de um gnero ou h um conceito doidntico a subsumi-la.

    Um paradoxo fundamental nasce da: O que retorna?O tempo a diferena a multiplicidade? A sada a criaoconceitual feita por Gilles Deleuze, distinguindo diferen[ci ]aoe diferen[a]o.

    Diferenciao e diferenao foi a estratgia criada porDeleuze para dar conta do problema do tempo no plano dasrelaes entre o real e o virtual, porque o virtual no se opeao real. O virtual ope-se, na verdade, ao atual: a atualizaodas virtualidades uma das faces do tempo. A virtualidadepode mesmo ser vista como um dos nomes do tempo para

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    Deleuze. Opor virtual e atual uma das tentativas fundamentaisdo projeto deleuziano de escapar dos pressupostos metafsicosda filosofia da representao. Nesse sentido, um dos avataresdessa filosofia, no que diz respeito s relaes entre o movimentoe o tempo, partindo da concepo de devir aristotlica assentadana idia de ato e potncia, desenvolvida especialmente pelopensamento medieval, ope o real ao possvel e no o atual aovirtual como pretende Deleuze: O virtual no se ope ao real, massomente ao atual. O virtual possui uma plena realidade enquanto virtual.11.

    11 Diffrence et Rptition, 269 [335]. Deleuze diz as mesmas coisas emtexto dos anos 60 guisa de comentar o Estruturalismo, comoencomenda para o projeto de Franois Chtelet de uma Histria daFilosofia: Talvez o termo virtualidade designasse exatamente o modo da estruturaou objeto da teoria. Com a condio de retirarmos dele todo carter vago; porque ovirtual tem uma realidade que lhe prpria, mas que no se confunde com nenhumarealidade atual, com nenhuma atualidade presente ou passada; ele tem uma idealidadeque lhe prpria, mas no se confunde com nenhuma imagem possvel, com nenhumaidia abstrata. Lle Dsert et Autres Textes, textes et entretiens,1953-1974. Aquoi reconnaiti-on le structuralisme. Edio preparada por David LAPUJADE,Paris, Minuit, 2002, 238-269, p. 250. CHTELET, F. Histria da Filosofia,Idias e Doutrinas, vol. 8, O Sculo XX. Em que se Pode Reconhecer oEstruturalismo. Traduo de Hilton Japiass, Rio de Janeiro, ZaharEditor, 1974, 271-303, p. 283. Outro texto importante, que pode nosajudar a melhor entender o problema da virtualidade um pequenoartigo escrito por Deleuze em 1995 e publicado como anexo 2 ediode Dialogues. Nesse texto, a coalescncia da imagem virtual imagematual do objeto apresentada enquanto elemento de toda multiplicidades singularidades que recortam e dividem o plano de imanncia: Afilosofia a teoria das multiplicidades. Toda multiplicidade implica elementos atuaise elementos virtuais. No h objeto puramente atual. [...] O virtual nunca independente das singularidades que o recortam e dividem-no no plano de imanncia.Lactuel et le virtuel in Dialogues, com Claire Parnet, Paris, Flammarion,1996, 177-185, p. 179-80. ric Alliez publicou este artigo como anexoem seu livro Deleuze, filosofia virtual. Traduo de Heloisa B. S. Rocha,So Paulo, editora 34, 1996, 39-57, p. 49-51.

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    De todo modo, para Deleuze, o virtual deve ser vistocomo real. Ele existe enquanto tal. Deve mesmo serreconhecido como parte do objeto real. Mais precisamentefalando, como uma das duas metades do real. Como se todoobjeto comportasse uma metade atual, presentificada em umponto distendida e uma metade virtual, em devir, contrada.Assim, tenho o direito de dizer que todo objeto comportauma duplicidade: uma metade, imagem virtual, outra metade,imagem atual. A diferenciao e a diferenao so no plano dadiferena as duas metades do objeto: o atual e o virtual. Adiferenciao e a diferenao implicam a integralidade do objeto,a dupla face da diferena:

    A diferenciao com a segunda parte da diferena, e preciso formar a noo complexa de diferen- /ci -aopara designar a integridade ou integralidade do objeto. O e o ci so aqui o trao distintivo ou a relao fonolgicada diferena. Todo objeto duplo, sem que suas duasmetades se assemelhem, sendo uma a imagem virtual e, aoutra, a imagem atual 12.

    A diferena no cessa de retornar em todas as suasdiferenciaes. Eis a o paradoxo: ela se repete se diferenciando,portanto, no se repete de modo algum da mesma maneira. Arepetio no se confunde com a reproduo do Mesmo. Adiferenciao da diferena correlata a uma repetio quediverge sem deixar de repetir-se.

    O ttulo daquele que , talvez, o mais importante livrode Gilles Deleuze na verdade um par conceitual fundamental:Diferena e Repetio apresenta a lgica da multiplicidadeintensiva como conceito do tempo. No sem certeza afirmo

    12 Diffrence et Rptition, p. 270-1 [337].

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    que a interpretao deleuziana do problema do eterno retornoem Nietzsche repousa sobre essa correlao entre aDIFERENA e a REPETIO. Essa correlaoestabelecida enseja desdobramentos fundamentais para afilosofia deleuziana como, por exemplo, as relaes entretempo e pensamento, particularmente entre o passado e aconservao das lembranas, o presente e a atualizao davirtualidade, o futuro e o porvir da criao.

    Em Deleuze, a diferena no s uma dimensointensiva do tempo, mas tambm um ponto de vista sobre asdemais dimenses, criando uma mltipla implicao recprocaem todas as dimenses do tempo. Cada diferena entotodas as outras, a diferena constitui um certo ponto de vistasobre todas as diferenciaes.

    A idia de heterognese e sua relao com avirtualidade aqui fundamental para Deleuze enfrentar essaquesto. Cada diferena repetida de outro modo, em outronvel, envolvendo assim virtualmente a distncia entre todasas demais diferenciaes. Repetir por uma diferena retomara distncia, abrir uma perspectiva sobre esses pontos de vistaque so sempre heterogneos. Deleuze defende aheterogeneidade do tempo, melhor dizendo, sua heterognese,isto , o sentido gentico das coisas mesmas deve ser buscado,no o princpio fundador ou fundante do real. A lgica que dase infere rejeita todo dualismo, implicando uma nova espciede monismo, com a seguinte frmula: MONISMO =PLURALISMO. Compreende-se desse modo uma lgica querompe com um dos mais importantes princpios darepresentao, em especial com o princpio de identidade,fundamento lgico do bom senso e da doxa, produtor de

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    generalizaes e recognies. Essa lgica postula o sentidocomo efeito de superfcie do no-sentido, logo, excluindodaquele quaisquer fundamentos por intermdio de essncias,profundidades ou alturas do conceito. Essa lgica do sentidoem Deleuze assume o paradoxo. Ela de fato uma lgica damultiplicidade.

    A lgica da multiplicidade13 acaba com a dicotomia, nos entre sujeito e objeto, uno e mltiplo, como tambm entremesmo e outro; , de todo modo, uma lgica solidria idiade implicao, de uma implicao recproca. Por outro lado, aimplicao recproca nos coloca no campo da imanncia: cadaser representa todos os outros diferentemente, como se osseres se repetissem diferentemente. A repetio da diferena o prprio Ser. Um ser imanente e em permanente devir.

    Em Deleuze, o ser se diz do devir, que o mesmoque dizer: o ser a afirmao do devir:

    Ora, preciso refletir longamente para compreender o quesignifica fazer do devir uma afirmao. Sem dvida significa,em primeiro lugar, que s h o devir. Sem dvida afirmaro devir. Mas afirma-se tambm o ser do devir, diz-se que odevir afirma o ser ou que o ser se afirma no devir. 14.

    13 A idia de lgica das multiplicidades a operao do pensamento desubtrair de seu funcionamento as figuras do Mesmo, do Semelhante e doAnlogo, fazendo com que a Diferena se constitua como o que pode edeve ser pensado.14 Nietzsche et la Philosophie, p. 27 [19]. Segundo Peter Pl Pelbart, em seuestudo sobre a concepo de tempo na obra deleuziana O tempo No-reconciliado: imagens de tempo em Deleuze, So Paulo, Perspectiva, 1998 ,nem sempre o termo devir teve em Deleuze um prestgio expressivocomo ele demonstra em Nietzsche e a filosofia. Em O bergsonismo, porexemplo, o filsofo recusava enfaticamente o termo, considerado ento

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    Este enunciado caracteriza que a concepo deontologia deleuziana merece de minha parte algunsesclarecimentos. Em primeiro lugar, quando se diz daafirmao do devir para se falar do ser, o que est em jogopara Deleuze mostrar que na verdade no h nada paraalm do devir, isto , o ser, o que , no pode ser visto comuma preexistncia calcada no princpio do idntico e domesmo, que venha por seu intermdio dar sentido ao real. Amultiplicidade sua principal caracterstica, isto , o real multiplicidade, que se afirma enquanto tal como devir. Emdecorrncia, o devir no pode ser visto como aparncia ouiluso: Pois no h ser alm do devir, no h um alm do mltiplo,nem o devir so aparncias ou iluses.15. Deleuze ento me permitedizer que o devir o prprio movimento de constituio edesapario das singularidades, a emergncia do mundo emtoda sua multiplicidade, em toda multiplicidade. Isso significaque o devir sempre o que est entre dois, isto , entre doistermos, entre dois pontos: a abelha e a orqudea, Acab e abaleia, eu e minha infncia; nesse sentido, no a operaode substituio de um termo por outro ou a transformaode um em um outro, por imitao, semelhana ouidentificao. Entre um termo e outro, entre um e outro,cria-se uma zona de indiscernibilidade, de vizinhana, como,

    CONTINUAO DA NOTA 14:apenas uma combinao de conceitos contrrios (o Um e o Mltiplo)tomados no grau extremo de sua generalidade. Seguindo Bergson,Deleuze contrapunha ao devir a idia de Durao. O devir comportariaapenas uma multiplicidade qualitativa. no seu estudo sobre a filosofiade Nietzsche, dissociado de seu sentido dialtico, o devir pde serreapresentado precisamente como multiplicidade, diferena e sobretudocomo objeto de plena afirmao da vida.15 Op. cit., p. 27 [19].

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    por exemplo, um devir entre um homem e um inseto, ou umdevir entre um homem e um lobo: um devir-animal. Um devir sempre um devir-outro em Deleuze.

    Um devir no uma correspondncia de relaes. Mastampouco ele uma semelhana, uma imitao e, em ltimainstncia, uma identificao. Toda crtica estruturalista dasrie parece inevitvel. Devir no progredir nem regredirsegundo uma srie. E sobretudo devir no se faz naimaginao, mesmo quando a imaginao atinge o nvelcsmico ou dinmico mais elevado, como em Jung ouBachelard. Os devires-animais no so sonhos nemfantasmas. Eles so perfeitamente reais. Mas de que realidadese trata? pois se o devir animal no consiste em se fazer deanimal ou imit-lo, evidente tambm que o homem no setorna realmente animal, como tampouco o animal se tornarealmente outra coisa. O devir no produz outra coisa senoele prprio. uma falsa alternativa que nos faz dizer: ouimitamos ou somos. O que real o prprio devir, o blocode devir, e no os termos supostamente fixos pelos quaispassaria aquele que se torna16.

    A afirmao do ser do devir como multiplicidade aafirmao do mundo, afirmao da vida. de um vitalismoque se trata. Esse vitalismo presente em Deleuze expressoem sua concepo de ontologia. Nela h uma implicao entreser, devir e imanncia.

    O termo imanncia significa que no h nada almdas aparncias, que no h essncias formais a esculpir a vida:nada alm, nada aqum da vida; porm, a vida em si no algo que seja dado: a vida inventada, reinventada; uma vida,IMANNCIA ABSOLUTA:16 DELEUZE, G e GUATTARI, F. Mille Plateaux, Paris, Minuit, 1980, p.291. [v. 4, p.18].

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    A imanncia no se remete a Qualquer coisa como unidadesuperior a toda coisa, nem a um Sujeito como ato queopera a sntese das coisas: quando a imanncia no mais a imanncia a outra coisa que no ela mesma, quepodemos falar de um plano de imanncia. Assim como ocampo transcendental no se define pela conscincia, oplano de imanncia no se define por um Sujeito ou porum Objeto capazes de o conter.Diremos da pura imanncia que ela UMA VIDA, e nadamais. Ela no imanncia vida, mas a imanncia est emnada e em si mesma a vida. Uma vida a imanncia deuma imanncia, a imanncia absoluta: ela potncia ebeatitudes completas 17.

    17 DELEUZE, G. Limmanence: une vie... in Philosophie, n 47, edioespecial dedicada obra do filsofo, Paris Minuit, setembro, 1995, p. 4.Traduo de Jorge Vasconcellos, publicado em Gilles Deleuze, imagens deum filsofo da imanncia. VASCONCELLOS, Jorge e FRAGOSO, EmanuelA. R., Londrina, Editora da Universidade Estadual de Londrina, 1997,pp. 16-7. Nesse artigo, Deleuze indaga: o que um campo transcendental? ,para logo em seguida responder que ele (o campo transcendental) sedistingue da experincia, no remete a objetos nem a sujeitos,apresentando a conscincia de modo a-subjetiva e pr-reflexiva, umaconscincia sem-EU. Em outras palavras, Deleuze nos diz que otranscendental faz oposio a tudo o que constitui um mundo em quesujeito e objeto forme um par inseparvel no acesso ao real. Uma novoempirismo, distinto de sua forma clssica: um empirismo transcendental.O empirismo transcendental uma espcie de mtodo da filosofia dadiferena. Seu fazer uma incessante construo de conceitos, estamosaqui diante de um construtivismo em filosofia. O empirismo deleuzianoque resgata a noo kantiana de transcendental, produzindo com elauma inusitada articulao com o empirismo. Seu sentido fica mais clarocom o aparecimento de uma espcie de plano subjacente a todo conceito:o plano de imanncia. A idia de plano de imanncia est diretamenteligada idia de conceito em Deleuze, sobrevida dos conceitosfilosficos. O plano de imanncia o solo dos conceitos. Em Deleuze,

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    A imanncia se afirma na histria da filosofia atravs dotema da univocidade, e, quando se fala em univocidade, pensemosna leitura deleuziana de Duns Scot, Spinoza e Nietzsche sobreo problema. Univocidade um outro nome para imannciaem Deleuze. Em Diferena e repetio h uma histria daunivocidade, que teria se iniciado com Duns Scot. Diz Deleuze:

    S houve uma proposio ontolgica: o Ser unvoco. Shouve apenas uma ontologia, a de Duns Scot, que d aoser uma s voz. Dizemos Duns Scot porque ele soubelevar o ser unvoco ao mais elevado ponto de sutileza,mesmo que custa de abstrao. Mas, de Parmnides aHeidegger, a mesma voz retomada num eco que formapor si s todo o desdobramento do unvoco. Uma svoz faz o clamor do ser 18.

    Alain Badiou ressalta a importncia do problema daunivocidade do ser para a filosofia deleuziana. Dentro dessa

    CONTINUAO DA NOTA 17:os conceitos so totalidades fragmentrias que no se ajustam umas soutras, j que suas bordas no coincidem; nascem de um lance de dados,no compem um quebra-cabea. Dessa maneira, eles ressoam filosofiaque os cria, pois s filosofia um pensamento que possa engendrarconceitos. Todavia, os conceitos no constituem por si s um plano deimanncia. O plano de imanncia no um conceito particular ou umconceito geral, nem, por sua vez, um Grande Conceito englobante dosdemais, ele a precondio de existncia de todo conceito, constituindo-se, desse modo, como uma instncia pr-filosfica. O plano de imanncia a terra do conceito. Alm de seu plano que traado na imanncia,colado vida, a filosofia possui outros dois elementos fundamentais,segundo Deleuze, os personagens conceituais, que seriam pr-filosficos(o Scrates de Plato e o Zaratustra de Nietzsche, por exemplo) eos prprios conceitos, como terceiro e decisivo elemento. Cf. DELEUZE,G. e GUATTARI, F. Quest-ce que la philosophie?, Paris, Minuit, 1991.18 DELEUZE, Gilles. Diffrence et Rptition, p. 52 [74-5].

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    perspectiva, concordo com Badiou quando ele designa que,em ltima instncia, a filosofia deleuziana uma ontologia,como destaquei, uma ontologia no-metafsica. Badiou afirma:A questo colocada por Deleuze a questo do Ser. De uma extremidade outra da sua obra, trata-se, sob o domnio dos casos inumerveis esujeitos ao acaso, de pensar o pensamento (seu ato, seu movimento)sobre o fundo de uma pr-compreenso ontolgica do Ser como Uno.[...]Deleuze identifica pura e simplesmente a filosofia com a ontologia.19

    Em Lgica do sentido, Deleuze reafirma o carterontolgico de sua filosofia, apontando para a primazia daunivocidade, em relao equivocidade e a analogia. Noentanto, de acordo com as definies propostas por Tomsde Aquino, segundo as quais poderamos pensar o Serpartindo das relaes entre o nome e a coisa, teramos naUnivocidade um mesmo nome atribudo a diversos sujeitosem um sentido absolutamente semelhante. J na Equivocidadeum mesmo nome atribudo a diversos sujeitos em umsentido totalmente diferente. Por fim, a Analogia designa um

    19 BADIOU, Alain. Deleuze, la clameur de ltre, Paris, Hachette, 1997, p.32 [29]. Em outro texto, Badiou vai mais longe em uma definioontolgica para a filosofia deleuziana, chegando a uma conclusofundamental para a concepo de ontologia de Deleuze:univocidade=imanncia. E mais, que a ontologia deleuziana , nessesentido, tambm, uma ontologia vitalista, pois, como vimos, em Deleuze,imanncia vida [...] imanncia, uma vida. Diz Badiou: O caminho porque segue aquilo que chama a univocidade ou a imanncia. a mesma coisa.Deleuze escr eveu-me, certo dia, em letras maisculas:IMANNCIA=UNIVOCIDADE. Porm, do que se trata? Trata-se daimpropriedade de o ser nada ser seno a defeco das propriedades atravs da suavirtualizao; e de, ao invs, as propriedades do sendo no serem nada mais que osimulacro terminal da atualizao.[...] a razo fundamental pela qual o ser mereceo nome de vida. BADIOU, A. Breve tratado de ontologia transitria, Lisboa,Instituto Piaget Diviso Editorial, 1998, p. 64-5.

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    mesmo nome quando atribudo a diversos sujeitos, emsentidos parcialmente igual e parcialmente diferente. EmToms de Aquino h a primazia da analogia, pois as coisas eseus nomes esto em relao, ou seja, comparao, semelhanaimperfeita, com o Ser supremo, que Deus; sendo assim, arigor, pensar a equivocidade e a analogia uma impossibilidadelgica, e, por conseguinte, teolgica, onto-teolgica, diriaHeidegger. Deleuze no tem dvidas: o ser se diz em uma svoz. Essa a sentena fundamental de uma ontologiaimanente, que busca a afirmao irrestrita da vida. Pensar oser, para Deleuze, reverter sua viso analgica, afirmando,dessa maneira, a filosofia como um pensamento daunivocidade: A filosofia se confunde com a ontologia. Mas a ontologiase confunde com a univocidade do ser (a analogia foi sempre uma visoteolgica, no filosfica, adaptada s formas de Deus, do mundo e doeu). A univocidade do ser no significa que haja um s e mesmo ser: aocontrrio, os existentes so mltiplos e diferentes [...]. 20.

    Michel Foucault mostrou muito bem como a filosofiada diferena de Gilles Deleuze uma ontologia, e de quemodo esse pensamento ontolgico tem como linha de foraa adeso irrestrita univocidade do ser:

    [...] preciso inventar um pensamento acategrico. Inventar,no realmente a palavra adequada, j que houve, pelomenos duas vezes na histria da filosofia, formulaesradicais da univocidade do ser. Duns Scot e Spinoza. Semdvida, Duns Scot afirma que o ser era neutro e Spinozapensava que era substncia; tanto um quanto outro, aevidncia das categorias, a afirmao que o ser se diz damesma maneira de todas as coisas no tinha sem dvidaoutro fim seno manter, em cada instncia, a unidade do

    20 DELEUZE, Gilles. Logique du Sens, p. 210 [185].

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    ser. Imaginemos ao contrrio, uma ontologia em que o serse diga, da mesma maneira, de todas as diferenas; pormque s se diga as diferenas; ento as coisas j no estariamocultas, como em Duns Scot, pela grande abstraomonocular do ser, e os modos spinozistas no girariam aoredor da unidade substancial; as diferenas girariam emredor de si mesmas, dizendo-se o ser, da mesma maneira,de todas elas, e o ser no seria a unidade que as guia edistribui, mas a sua repetio como diferena. Em Deleuze,o carter unvoco no categorial do ser no une diretamenteo mltiplo com a unidade mesma (neutralidade universaldo ser ou fora expressiva da substncia); mas que fazjulgar o ser como o que se diz respectivamente da diferena;o ser o retorno da diferena, sem que haja diferena namaneira de dizer o ser 21.

    A ontologia de Gilles Deleuze umpensamento que afirma a diferena e implica a potncia dosimulacro em um jogo que funciona como um lance de dadosem que o ser se diz por uma voz e se expressa em um sem-nmero de singularidades.

    Diante disso, possvel afirmar que a implicao omovimento lgico fundamental da filosofia de Gilles Deleuze.Em cada um de seus livros ou em quase toda sua obra, enunciado: as coisas se enrolam e se desenrolam, se envolveme se desenvolvem, se dobram e se desdobram, se implicam e seexplicam, e assim se complicam. Porm, a implicao o temafundamental porque aparece duas vezes no sistema da dobra: acomplicao uma implicao em si, a explicao uma implicaoem outra coisa. O conjunto forma uma lgica da expresso.

    21 FOUCAULT, Michel. Theatrum philosophicum in Dits et crits II(1970-1975). Paris, PUF, 1994, p. 91-2.

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    A implicao a terceira caracterstica da intensidade,aquela que sintetiza, segundo Deleuze, as duas primeiras, a saber:o desigual em si e a afirmao da diferena. Na primeira desuas caractersticas, a intensidade nos possibilita pensar adesigualdade como termo lgico, procurando escapar da tiraniada ordenao, do nmero ordinal, fazendo com que acardinalidade explique a ordinalidade numrica. Essepressuposto possui uma dupla face, uma lgica, das relaesentre cardinalidade e ordinalidade numricas, e uma ontolgica:compreendendo o desigual em si, sendo este a diferena, aintensidade afirma esta diferena. A intensidade faz da diferenaum objeto de afirmao. Dessa forma, a intensidade quantitativamente implicada e qualitativamente diferente. Istosignifica que a diferena diferena de intensidade, implicando-se quantitativa e qualitativamente: [...] a diferena essencialmenteimplicada, que o ser da diferena a implicao.22.

    Essa lgica da implicao presente no pensamentoontolgico deleuziano aponta para uma nova concepo dasubjetividade, que descarta a dualidade interior/exterior parapropor uma prega ou dobra que unifica a constituio dasubjetividade, abandonando princpios transcendentais queprovocam ruptura na forma-Eu [que daria sentido as coisas]e enfraquecem a forma-Homem [que faria das coisas sentido].Sendo que ambas, a forma-Eu e a forma-Homem, soprodutos de um pensamento da representao e produtorasde recognio, isto , conhecer as coisas e seus estados se fazpor reconhecimento conhecer lembrar. Quer dizer:conhecer o exterior, os estados de coisas, por nosso interior,a alma ou a conscincia. Logo, do conhecimento das coisas,construmos sentido.22 Diffrence et Rptition, p. 293 [364].

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    A filosofia da diferena proposta por Deleuze vnesta dicotomia de complementaridade interior/exterioruma enorme incapacidade, de apenas ela (a dicotomia)explicar a subjetividade. Partindo da anlise do pensamentode Michel Foucault, e inspirado em Leibniz, Nietzsche eBergson, Deleuze prope uma noo que explicite asrelaes entre um dentro (dedans) e um de-fora (dehors), o queele chama de interioridade da exterioridade23. Esta nootorna-se o conceito de dobra (pli) que, em ltima instncia,designa a subjetividade como uma espcie de ponto vazio,uma sntese qualitativa de uma multiplicidade virtual. Noentanto, o interesse de Deleuze pela questo menos peloproblema da subjetividade e suas relaes com a dicotomiainterioridade/exterioridade, mas com a questo dopensamento, e como este se articula a esta subjetividadepara a criao do novo; analisando as trs ontologias queele prope como chave de leitura para a obra foucaultiana,a saber: a ontologia do saber, do poder e do si (dasubjetividade), Deleuze destaca a importncia da questoque est presente em Foucault, como em sua prpria obrainspirada em Heidegger, o que significa pensar?

    Certamente, uma coisa perturba Foucault, e opensamento. Que significa pensar? O que se chamapensar? a pergunta lanada por Heidegger, retomadapor Foucault, a mais importante de suas flechas. Umahistria, mas do pensamento enquanto tal. Pensar

    23 Cf. DELEUZE, G. Le pli Leibniz et le Baroque, Paris, Minuit, 1988.Nos livros dedicados a Nietzsche Nietzsche et la philosophie e a Bergson Le Bergsonisme , tambm se encontram referncias ao problema dasubjetividade, isso sem falar da obra escrita em parceria com Flix GuattariMille Plateaux.

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    experimentar, problematizar. O saber, o poder e o si soa tripla raiz de uma problematizao do pensamento24.

    retomado aqui o problema do pensamento em suaradicalidade e o dilogo da filosofia da diferena deleuzianacom Heidegger. O que importa, como vimos, reverter umacerta imagem do pensamento, que faz do sujeito um produtorde conhecimento, que faz do conhecimento, um reconhecimento.Uma imagem pensamento que no faz da prtica do pensarno criao, mas uma espontaneidade, retirando dopensamento uma caracterstica essencial: pensamos porquesomos forados a pensar. O pensamento impulsionado porforas que lhe so exterior. Com Foucault, Deleuze propeum de-fora do pensamento.

    Um ltimo ponto que aqui tratarei sobre a concepode ontologia da filosofia deleuziana, o que apontadeterminados termos opostos leia-se, universal/singular,particular/geral como uma lgica de implicao. A questo: como essa lgica implicativa remete ao problemaontolgico? O estudo de Zourabichvili 25 tenta explicar aoenunciar que implicar estabelece uma relao de contigidadeentre dois ou mais termos. As coisas deixam de ser isto ouaquilo ou seja uma rosa uma flor; para se ligarem umarosa e uma flor. O verbo ser sendo substitudo pelaconjuno e. No entanto, Zourabichvili, por outro lado,nos diz que o problema das relaes colocado no nvel dasintensidades, a relao de uma intensidade com outra, deuma dimenso com outra, no sendo de contigidade ou dejustaposio, mas de implicao.

    24 Foucault, So Paulo, Brasiliense, 1988, p. 124.25 Cf. ZOURABICHVILI, F. op. cit.

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    Uma boa maneira de definir esta idia de implicaoem relao ao tempo pens-la como uma condensao ouuma complicao de pocas ou de correspondncias nocausais. O destino como um lance de dados:ontologicamente uno, formalmente mltiplo.

    Retomando o problema da idia de implicao dotempo na filosofia de Gilles Deleuze, constatamos, comovimos, que a implicao a terceira caracterstica daintensidade, alm do o desigual em si e afirmar adiferena. A implicao temporal que remete a ontologiado devir deleuziana nos d a ver uma nova concepopara as relaes entre espao e tempo. A espacialidadedar lugar ao espao-qualquer, no plano cinematogrfico,e o tempo deixa de estar a reboque do movimento. Noobstante, possvel apontar uma relao de implicaoentre tempo e pensamento em Gilles Deleuze.

    O espao e o tempo so intuies puras, sendo oespao uma quantidade e o tempo uma qualidade, ambasintensivas, segundo a leitura deleuziana de Kant. As intuiespuras, no sentido kantiano, nos do as condies depossibilidade para todo pensamento possvel. Deleuze torceKant, utilizando-se de Bergson um Kant transvertido deBergson , para propor uma radical concepo detemporalidade. O tempo passa, todavia s o tempopermanece. Existe um tempo que no passa, o tempo puro,que s pode ser capturado pelo pensamento; um tempoque nos d a ver novas maneiras de intuir, nos d a produzirnovas formas de pensar. Dito isto, afirmo que o problemada ontologia em Deleuze passa pelas novas formas por meio

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    das quais podemos conceber o pensamento, ou ainda, pornovas maneiras de fazer e pensar, que encontram sua maisgenerosa acolhida na arte, na cincia e na filosofia. A dmarchedeleuziana desenha uma estranha solidariedade entre essestrs modos do pensamento. A essa solidariedade oureciprocidade, chamarei de mtua intercesso, ou encontros,como quer Deleuze.

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    ______ . La Metaphysique. Traduo de J. Tricot, 2 v. Paris:Vrin, 1976.

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