José de Alencar - Mãe (teatro)

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É um coração de mãe como o teu. A diferença está em que a Providência o colocou o mais baixo que era possível na escala social, para que o amor estreme e a abnegação sublime o elevassem tão alto, que ante ele se curvassem a virtude e a inteligência; isto é, quanto se apura de melhor na lia humana. D. ANA J. DE ALENCAR Drama em Quatro Atos À MINHA MÃE Acharás neste livro uma história simples; simples quanto pode ser. Desta vez não foi uma página, mas o livro todo. Mãe,

Text of José de Alencar - Mãe (teatro)

  • ME

    Jos de Alencar

    Drama em Quatro Atos

    MINHA ME

    E MINHA SENHORA

    D. ANA J. DE ALENCAR

    Me,

    Em todos os meus livros h uma pgina que me foi inspirada por ti. aquela em que falaesse amor sublime que se reparte sem dividir-se e remoa quando todas as afeiescaducam.

    Desta vez no foi uma pgina, mas o livro todo.

    Escrevi-o com o pensamento em ti, cheio de tua imagem, bebendo em tua alma perfumesque nos vm do cu pelos lbios maternos. Se, pois, encontrares ai uma dessas palavras quedizendo nada exprimem tanto, deves sorrir-te; porque foste tu, sem o querer e sem o saberquem me ensinou a compreender essa linguagem.

    Achars neste livro uma histria simples; simples quanto pode ser.

    um corao de me como o teu. A diferena est em que a Providncia o colocou o maisbaixo que era possvel na escala social, para que o amor estreme e a abnegao sublime oelevassem to alto, que ante ele se curvassem a virtude e a inteligncia; isto , quanto seapura de melhor na lia humana.

  • A outra que no a ti causaria reparo que eu fosse procurar a maternidade entre a ignorncia ea rudeza do cativeiro, podendo encontr-la nas salas trajando sedas. Mas sentes que se hdiamante inaltervel o corao materno, que mais brilha quanto mais espessa a treva.Rainha ou escrava, a me sempre me.

    Tu me deste a vida e a imaginao ardente que faz que eu me veja tantas vezes viver em ti,como vives em mim; embora mil circunstncias tenham modificado a obra primitiva. Me desteo corao que o mundo no gastou, no; mas cerrou-o tanto e to forte, que s, como agora,no silncio da viglia, na solido da noite, posso abri-lo e vaz-lo nestas pginas que te envio.

    Recebe, pois, Me, do filho a quem deste tanto, esta pequena parcela da alma que bafejaste.

    J. DE ALENCAR

    Rio de Janeiro, 1859

    PERSONAGENS

    DR. LIMAJORGEGOMES PEIXOTOVICENTEELISAJOANA

    A cena no Rio de JaneiroA poca 1855.

    ATO PRIMEIRO

    Em casa de GOMES. Sala de visitas.

    CENA PRIMEIRA

    ELISA e GOMES

  • GOMES - J ests cosendo, minha filha?

    ELISA - Acordei to cedo... No tinha que fazer.

    GOMES - Por que me ocultas o teu generoso sacrifcio? Cuidas que no adivinhei?

    ELISA - O que, meu pai?... Que fiz eu?...

    GOMES - So as tuas costuras que tm suprido esta semana as nossas despesas.Conheceste que eu no tinha dinheiro para os gastos da casa e no me pediste... trabalhaste!

    ELISA - No era a minha obrigao, meu pai?

    GOMES - Oh! E preciso que isto tenha um termo!

    ELISA - Tambm hoje 3 do ms... Vm. receber o seu ordenado.

    GOMES - Meu ordenado?... J o recebi.

    ELISA - Ah! Precisou dele para pagar a casa?

    GOMES - Depois que morreu tua me, Elisa, tenho sofrido muito. Alm dessa perdairreparvel, as despesas da molstia me atrasaram de modo, que no sei quando podereipagar as dvidas que pesam sobre mim.

    ELISA - E so muitas?

    GOMES - Nem eu sei... J perdi a cabea! Mas isto vai acabar... No possvel viver assim.

    ELISA - Que diz, meu pai!

    GOMES - Perdoa, Elisa. Foi um grito de desespero... s vezes, confesso-te, tenho medo deenlouquecer! At logo.

  • CENA II

    ELISA e JOANA

    JOANA - Bom dia, iai.

    ELISA - Adeus, Joana.

    JOANA - Iai est boa?

    ELISA - Boa, obrigada.

    JOANA - Sr. Gomes j foi para a repartio...

    ELISA - Saiu agora mesmo.

    JOANA - Encontrei ele na escada. Hoje no dia de lio de nhonh Jorge?

    ELISA - Segunda-feira.... , e ainda nem tive tempo de passar os olhos por ela.

    JOANA - Ento como h de ser?

    ELISA - Estou acabando esta costura. J vou estudar.

    JOANA - Pois enquanto iai cose, eu vou arrumando a sala: pode vir gente.

    ELISA - Mas, Joana... Teu senhor no h de gostar disto!

    JOANA - De que, iai?

    ELISA - Tu nos serves, como se fosses nossa escrava. Todas as manhs vens arranjar-nos acasa. Varres tudo, espanas os trastes, lavas a loua e at cozinhas o nosso jantar.

  • JOANA - Ora, iai! que me custa a fazer isso?... Nhonh sai muito cedinho, logo s 7 horas;eu endireito tudo l por cima, num momento, porque tambm tem pouco que fazer; e depoisvenho ajudar a iai que se mata com tanto trabalho.

    ELISA - E o Sr. Jorge sabe disto?

    JOANA - Que tem que saiba?... No nada de mal!

    ELISA - Muitos senhores no gostam que seus escravos sirvam a pessoas estranhas.

    JOANA - Iai no nenhuma pessoa estranha... Depois, Vm. no conhece meu nhonh? Nosabe como ele bom?...

    ELISA - Oh! sei!... H um ano que nosso vizinho, e nesse pouco tempo quanto lhedevemos!

    JOANA - Mas iai uma moa bonita!... E eu que sou sua mulata velha... desde que nhonhJorge nasceu que o sirvo, e nunca brigou comigo! Se ele no sabe ralhar... Olhe, iai! Todasas festas me d um vestido bonito... E no d mais porque pobre!

    ELISA - Foste tu que o criaste?

    JOANA - Foi, iai. Nunca mamou outro leite seno o meu...

    ELISA - E por que ele no te chama - mame Joana?

    JOANA - Mame!... No diga isto, iai!

    ELISA - De que te espantas? Uma coisa to natural!

    JOANA - Nhonh no deve me chamar assim!... Eu sou escrava, e ele meu senhor.

    ELISA - Mas teu filho de leite.

    JOANA - Meu filho morreu!

  • ELISA - Ah! Agora compreendo!... Esse nome de me te lembra a perda que sofreste!...Perdoa, Joana.

    JOANA - No tem de que, iai. Mas Joana lhe pede... Se no quer ver ela triste, no fale maisnisto.

    ELISA - Eu te prometo.

    JOANA - Obrigada, iai. (Pausa.)

    ELISA - Devem ser perto de nove horas... O Sr. Jorge no tarda.

    JOANA - mesmo!... Ele que vem sempre hora certa.

    ELISA - Nem tenho vontade de estudar.

    JOANA - Esto batendo.

    CENA III

    ELISA, JOANA e PFIXOTO

    PEIXOTO - Viva, minha senhora! O Sr. Gomes?

    ELISA - H pouco saiu.

    PEIXOTO - J saiu! To cedo!... Ainda no so nove horas.

    JOANA - Meu senhor, ele teve que fazer.

    PEIXOTO - Nem de propsito! Sempre que o procuro, o Sr. Gomes no est em casa.

  • ELISA - O senhor no quer sentar-se?

    PEIXOTO - Obrigado; tenho pressa.

    ELISA - Por que no o procura na repartio?

    PEIXOTO - No estou para isso. Queria dizer-lhe que o Peixoto aqui veio e voltar dentro demeia hora.

    ELISA - Sim, senhor.

    PEIXOTO - Sem mais!

    CENA IV

    JOANA e ELISA

    JOANA - Cruzes!... Que homem grosseiro, minha Virgem Santssima!... Um senhor assim eraum purgatrio.

    ELISA - Coitado! A culpa no dele!

    JOANA - De quem ento?

    ELISA - Dos pais, que no lhe souberam dar educao.

    JOANA - Que bom corao tem iai!... Desculpa tudo.

    ELISA - Para que me desculpem tambm os meus defeitos, Joana.

    JOANA - o que iai no tem. Oh! Joana sabe conhecer gente! E ento iai que est mesmomostrando o que , nesse rostinho de prata!

  • ELISA - Deixa-te disso, Joana.

    JOANA - Ah! se iai soubesse como eu lhe quero bem!...

    ELISA - Assim te pudesse eu agradecer como desejava!

    JOANA - Inda mais, iai?

    ELISA - Ests brincando!... Nunca te dei nada.

    JOANA - Ento iai!... Cuida que pouco ver meu nhonh feliz?

    ELISA - Joana!...

    JOANA - No se zangue, no, iai, com sua mulata velha.

    ELISA - Para que falas dessas coisas? No gosto.

    JOANA - Est bom! Eu calo a boca. Ento ele no merece?

    ELISA - Merece muito mais; porm...

    JOANA - Ora, iai!... No disfarce!...

    ELISA - Outra vez?

    JOANA - Eu s peo uma coisa. Nosso Senhor no me mate sem que eu veja isso. H de seruma festa!..

    ELISA - Queres que eu me agaste deveras, hein?

    JOANA - No, iai, no! Mas que noivo bonito, e a noiva, hi!... Feitinhos um para o outro!

  • ELISA - Eu te peo, Joana...

    JOANA - Nesse dia... Olhe, iai! Hei de pr meu cabeo novo, como as mulatinhas daBahia... Que pensa! No faa pouco na sua escrava, iai! Joana tambm j foi moa... sabiariar o pixaim e bater com o taco da chinelinha na calada; s - taco, taco, tataco! Oh! hei deme lembrar do meu tempo... Se eu j estou chorando de contente!... E meu nhonh como noh de ficar alegre!

    ELISA - No gosto destas graas, j te disse.

    JOANA - Que mal faz? uma coisa que h de acontecer.

    ELISA - Ests bem livre!

    JOANA - Se iai no pagasse a meu nhonh todo o bem que lhe quer...

    ELISA - Que farias?

    JOANA - Eu, iai?... Nada! Que pode fazer uma escrava?... Mas iai era ingrata!

    ELISA Pois serei.

    JOANA - Iai jura?... No capaz!... Nem que esse corao no estivesse a saltando!

    ELISA - Se continuas... Vou-me embora! (Batem.)

    JOANA - Querem ver que nhonh!

    ELISA - Bico!... Ouviste?

    JOANA - Joana sabe guardar um segredo, iai.

    CENA V

  • As mesmas e JORGE

    JORGE - Como passou, D. Elisa?... Ah! Joana est lhe fazendo companhia!

    ELISA - Veio conversar comigo.

    JORGE - Quando precise de mandar por ela fazer alguma coisa, no tenha acanhamento, D.Elisa.

    ELISA - J lhe sou to obrigada, Sr. Jorge!

    JOANA - Eu no lhe disse, iai?

    JORGE - O qu?

    JOANA - No v, nhonh, que estes dias, desde que o escravo do Sr. Gomes foi doente paraa Misericrdia, eu venho fazer algum servio, pouco...

    JORGE - Tu s sempre boa, Joana!

    JOANA - No digas isso, nhonh!

    JORGE - Digo, sim! - D. Elisa, creio que minha me, a quem no conheci, no me teria maisamor do que esta segunda me, que me criou.

    JOANA - H gente, nhonh! Isso so modos de tratar sua escrava.

    ELISA - O Sr. tem razo, Sr. Jorge.

    JOANA - No tem! No tem!

    ELISA - Basta ouvi-la falar do senhor.

    JORGE - Ah! Ela falou-lhe de mim?... Que disse?...

  • JOANA - Nada, nhonh.

    ELISA - Em outras palavras, o que o senhor acaba de repetir.

    JOANA - Iai... Eu disse que queria bem a meu senhor, como uma escrava pode querer... s!