Joselia Aguiar

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Joselia Aguiar

Text of Joselia Aguiar

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    UNIVERSIDADE DE SO PAULO

    FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE HISTRIA

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM HISTRIA SOCIAL

    JOSLIA AGUIAR

    O corpo das ruas A fotografia de Pierre Verger

    na construo da Bahia iorub

    So Paulo

    2008

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    UNIVERSIDADE DE SO PAULO

    FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE HISTRIA

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM HISTRIA SOCIAL

    O corpo das ruas: A fotografia de Pierre Verger

    na construo da Bahia iorub

    Joslia Aguiar

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-

    Graduao em Histria Social do Departamento

    de Histria da Faculdade de Filosofia, Letras e

    Cincias Humanas da Universidade de So

    Paulo, para a obteno do ttulo de Mestre

    Orientador: Prof. Dr. Ulpiano T. Bezerra de Meneses

    So Paulo

    2008

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    Resumo

    Este estudo investiga a atuao do fotgrafo francs Pierre Verger (1902-1996) com o propsito de compreender a relao entre suas fotografias da Bahia e as tentativas de definir, por meados do sculo XX, uma identidade baiana. Vista muitas vezes como calcada na herana iorub, mas quase sempre tratada quase como uma essncia mstica por escritores, msicos, artistas, cronistas e cientistas sociais, esta imagem foi mais tarde apropriada pela poltica, economia (includo o turismo), mdia e indstria cultural. No entanto, a singularidade da Bahia revela-se, nas lentes de Verger, como concreta, territorialmente encarnada, expressando-se no corpo e na corporalidade dos prprios lugares, de herana africana sim, mas sem traos explcitos iorub. Palavras-chave: Histria cultural. Identidade baiana. Baianidade. Fotografia. Pierre Verger. Corpo. Corporalidade africana.

    Abstract

    This dissertation intends to understand the role played by the French photographer turned into an ethnographer Pierre Verger (2002-1996) as a contributor to the efforts of artists, writers and scholars in mid-20th century Bahia aiming at creating and circulating a local Afro-brazilian identity ethnically understood as of Yoruba origin. Vergers photographs, instead of abstract and desimbodied features, offer a deeply territorialized vision of Bahias identity, mediated by a corporality that transcends the limits of Yoruba heritage. Key words: Cultural History. Bahias cultural identity. Photography. Pierre Verger. Body. African corporalty.

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    Agradecimentos

    Agradeo ao meu orientador, Prof. Dr. Ulpiano Toledo Bezerra de

    Meneses, pela excelncia, rigor e compreenso.

    Agradeo aos membros da banca de qualificao, Prof. Dra. Lilia Katri

    Moritz Schwarcz e Prof. Dra. Marina de Mello e Souza, pelas observaes

    e sugestes.

    Agradeo a minha famlia, to perto apesar de longe, meus amigos e

    colegas, pelo afeto e incentivo.

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    Sumrio

    Resumo 03

    Agradecimentos 04

    Introduo 06

    Captulo 1 Baianidade: balano bibliogrfico 13

    Captulo 2 A fotografia de Salvador na primeira

    metade do sculo XX 35

    Captulo 3 De fotgrafo a feiticeiro: Pierre

    Verger africaniza-se na Bahia 42

    Captulo 4 A cidade como corpo: Um estudo

    do lbum fotogrfico Retratos da Bahia 58

    Captulo 5 guisa de concluso 86

    Fontes 90

    Bibliografia 92

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    Introduo

    Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), fotgrafo-viajante convertido

    mais tarde em africanista, inicia em 1932 seu giro pelo mundo, quando

    parte de Paris, sua cidade natal, para as ilhas da Polinsia. A partir de

    ento, tendo sempre a capital francesa como base provisria, percorrer

    pelos quinze anos seguintes os cinco continentes e realizar como free

    lancer fotografias para jornais, revistas, agncias fotogrficas,

    exposies e museus de carter etnogrfico. Jornais da poca o

    descrevem como um globe trotter lrico, avesso ao toucador e

    publicidade de sua obra, interessado em civilizaes desaparecidas ou

    em vias de desaparecer1. Constitui-se, assim, um acervo fotogrfico

    com volume superior a 62 mil negativos.

    O desembarque na Bahia no dia 5 de agosto de 1946 seria

    inmeras vezes lembrado pelo fotgrafo francs como um 1 Citamos, aqui, recortes de jornais em espanhol e portugus, sem identificao do veculo ou data, encontrados na primeira pasta da coleo de recortes do acervo da Fundao Pierre Verger. Presume-se que sejam da dcada de 40, quando chega Amrica Latina.

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    acontecimento que modifica sua vida. Sem querer explicar pela

    razo2[2], o fazia pela emoo: declarava grande amor Bahia, e

    tambm frica, para ele sempre ligadas, em diversos escritos e

    depoimentos. Considera, a partir de ento, Salvador como sua

    residncia, mesmo quando se ausenta por longos perodos de atividade

    de pesquisa e ensino no Daom, atual Benin, e na Nigria.

    Paulatinamente, deixa de fotografar e dedica-se publicao de

    artigos e obras cientficas. Em 1979, aos 77 anos, encerra de vez as

    viagens ao continente africano. Com o vasto material acumulado, inicia

    a publicao de seus livros no Brasil uma parte j editada no exterior,

    outra parte indita --, incentivado principalmente pela existncia de

    uma editora, criada por um grupo de admiradores, denominada Corrupio,

    em referncia ao antigo nome do bairro onde habitou durante suas

    ltimas duas dcadas.

    Pierre Verger notabiliza-se na Bahia do sculo XX tanto pela

    coleo fotogrfica, quanto pela obra escrita, de carter multidisciplinar,

    que aborda do Candombl histria da escravido. Jorge Amado

    (1910-2001), talvez o mais conhecido intrprete da Bahia, dizia que

    Verger revelou a Bahia aos baianos com frases similares, outras

    personalidades referiam-se assim ao francs, sempre como algum que

    conhecia mais a Bahia do que os prprios habitantes3[3].

    2[2] Explicar matar as coisas, dizia o francs, que se recusava a responder a perguntas que comeavam com por que, obrigando, assim, o interlocutor a ter de refaz-las com como. (Entrevista autora, 1993). 3[3] Thales de Azevedo (1904-1995), um das figuras centrais nas cincias sociais da Bahia, referiu-se certa vez a Pierre Verger como sendo doutor em coisas baianas (Azevedo, 1985).

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    Quando lhe indagavam a razo de ter-se enraizado na Bahia, aps

    tantos anos de itinerncia, a resposta, quando vinha, consistia numa

    declarao de amor ao lugar, descrito como de charme

    incomparvel4[4] quando pela primeira vez o viu, no final dos anos 40.

    A partir de sua chegada a Salvador, o fotgrafo somou-se a um grupo

    de artistas, escritores e intelectuais que participaram - - assim como

    governo e setor econmico, que no sero aqui discutidos da

    construo da baianidade no sculo XX. Tal auto-referncia

    mobiliza traos de personalidade de base, padres de sociabilidade,

    eventualmente atributos somticos, hbitos corporais, prticas e

    costumes ou vetores assemelhados. No entanto esses so todos, em

    ltima instncia, vetores desterritorializados. Para seus intrpretes, a

    Bahia -- como se aludiu acima -- Salvador, com acrscimos nas suas

    redondezas no Recncavo Baiano.

    Poderia a "baianidade" ser gerada e medrar fora de Salvador? No

    investigaremos essa questo, mas procuraremos entender o que, em

    Salvador, poderia ter criado as condies favorveis para tanto. Do meio

    das complexas variveis econmicas, sociais, polticas e

    culturais, preocupa-nos, apenas, o que diz respeito quelas de carter

    representacional. E nessa vertente que entra Verger. Sua Salvador

    no uma cidade misticamente desencarnada. E seus baianos no so

    exclusivamente corpos sensorialmente apreensveis e

    cativantes que ocorrem e vivem num espao abstrato -- ou ento, sem

    espao visual, como muitas vezes, para legitimamente acentuar seus

    propsitos, Caryb realiza em seus desenhos. Ao contrrio, esses corpos

    4[4] A frase, tambm dita em vrias ocasies, foi proferida pela ltima vez por Verger na vspera de morrer, durante entrevista a Gilberto Gil e Lula Buarque de Holanda, que, com o material coletado, compuseram o documentrio Mensageiro entre dois mundos, de 1998.

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    vivem e agem num espao encarnado. Num espao, alis, que suas

    lentes captam tambm como corpos.

    Assim, o que esta dissertao procurar sugerir que a principal

    contribuio de Verger para essa construo imaginria de uma Bahia

    iorub reside na imbricao de um espao singular com aqueles que o

    praticam como habitantes. Cremos que Verger foi o nico ou, ao menos,

    o primeiro, ou, ainda, aquele que de maneira mais convincente, por

    intermdio de sua fotografia, territorializou a "baianidade". Se Joo do

    R