Josué de Castro e a agricultura de sustentação em Geografia da fome

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  • Sociologias, Porto Alegre, ano 16, no 35, jan/abr 2014, p. 306-338

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    INTERFACE

    Josu de Castro e a agricultura de sustentao em Geografia da fome

    Sirlndia Schappo*

    * Universidade de Santa Catarina (UFSC), Florianpolis, Santa Catarina, Brasil.

    Resumo

    Neste artigo, destacam-se as anlises de Josu de Castro sobre a agricultura de sustentao presentes em um de seus principais livros: Geografia da Fome (1946), articulando-as ao contexto histrico e intelectual da poca. O autor con-cebe o termo agricultura de sustentao ao se referir aos cultivos de sustento, especialmente aqueles existentes nos quilombos e no Serto, que possibilitam a ampliao das possibilidades alimentares de uma regio e que resultam dire-tamente no atendimento das necessidades da populao. As influncias para o desvendamento da importncia da agricultura de sustentao no pensamento de Josu de Castro advm tanto da sua trajetria de vida, das influncias tericas, bem como do contexto, dos espaos e grupos nos quais o autor circulou. Desta-cam-se aspectos considerados primordiais na consolidao de seu projeto poltico ancorado no combate fome por meio do incentivo agricultura de sustentao e do combate ao latifndio e monocultura como seus pilares essenciais.

    Palavras-chave: Josu de Castro. Agricultura de sustentao. Geografia da fome.

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    O

    Josu de Castro and subsistence agriculture in The geography of hunger1

    Abstract

    This article focuses on Josu de Castros analysis about subsistence agricul-ture as presented in one of his main works: The Geography of Hunger (1946). Castros work is reviewed against the historical and intellectual context of the time it was produced. The author conceives the term subsistence agriculture referring to self-sufficiency farming, especially that practiced in quilombos and Serto, whi-ch enables the expansion of the food possibilities of a region and allows meeting the population needs. The relevance of subsistence agriculture in the thought of Josu de Castro is derived from his personal trajectory, theoretical influences, as well as the context of groups and spaces frequented by the author. Emphasis is given to the aspects considered crucial for the consolidation of his political project grounded in fighting hunger by encouraging subsistence agriculture and suppor-ting the fight against landlordism and monoculture.

    Keywords: Josu de Castro. Subsistence agriculture. The Geography of hunger.

    1 Um convite leitura de Geografia da Fome

    1 As principais reflexes contidas nesse artigo foram desenvolvidas em minha tese de doutorado (especialmente no captulo 4) apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Sociologia do Insti-tuto de Filosofia e Cincias Humanas da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, em 2008.2 Em 1945, Josu publica na revista mexicana America Indgena, vol. 5, n. 3, um artigo que con-grega uma espcie de sntese do livro Geografia da fome, publicado no Brasil em 1946. Nele o autor antecipa muitas questes abordadas posteriormente em um de seus principais livros.

    livro Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 19462, expressa no pensamento de Josu a transio dos estudos regionais para os de mbito nacional, bem como a consagrao do autor enquanto um intrpre-te da realidade do Brasil. A repercusso dessa obra no

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    pensamento social brasileiro encontra-se em parte refletida no imenso nmero de crticos que sobre ela se debruaram na poca, como Raquel de Queiroz, Srgio Milliet, Olvio Montenegro, Lus da Cmara Cascudo, Nelson Werneck Sodr, entre outros.3

    Em Geografia da Fome Josu de Castro aprimora sua discusso sobre agricultura de sustentao e enfatiza a necessidade de um plano de poltica alimentar, destacando um conjunto de medidas de carter urgente que visa-vam reformular a economia agrria do pas, entre elas o combate ao latifndio e monocultura e o incentivo poli-agricultura. Suas ideias encontravam-se inseridas nas discusses daquela poca que visavam uma soluo para a problemtica da alimentao, agravada com o processo de urbanizao. O perodo marcado por um clima de preocupao poltica frente amplitude e ao aprofundamento da crise alimentar que o pas enfrentava.

    Josu de Castro concebe o termo agricultura de sustentao ao se referir aos cultivos de sustento que possibilitam a ampliao das possibi-lidades alimentares de uma regio e que resultam diretamente no aten-dimento das necessidades da populao. Nessa agricultura encontram-se presentes relaes de cooperao, policultivos, prticas sustentveis em termos econmicos, sociais, ambientais e culturais. Para a realizao desta analise Josu baseia-se nos histricos cultivos tradicionais, especialmente dos quilombolas e sertanejos, revelando a importncia da agricultura de sustentao no combate a fome.

    A partir das constantes referncias de Josu a esse tipo de agricul-tura ele constri, a partir delas, um projeto poltico de incentivo a esses cultivos. a partir desse intuito que ele prope, na dcada de 1950, um projeto de reforma agrria, visando ampliao das possibilidades

    3 A partir da segunda edio, o autor inclui como apndice A contribuio da crtica brasileira, contendo as principais sugestes dos diversos crticos que contriburam para a elaborao dos volumes seguintes.

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    alimentares. O pensamento de Josu de Castro, na primeira edio de Geografia da fome (1946), no esboa ainda um ntido projeto de re-forma agrria objetivando uma ampla distribuio de terras, como em edies posteriores do livro. No entanto, pretende-se analisar neste artigo o quanto so incisivas suas afirmativas sobre a necessidade de um plano de poltica alimentar que tem, entre suas metas, o combate ao latifndio improdutivo e monocultura e o incentivo agricultura de sustentao. Sua proposta poltica enfatiza a necessidade de transformar o campo bra-sileiro de modo a assegurar o combate a fome com incentivo produo de alimentos, compreendendo como prioridade desse processo o atendi-mento das necessidades humanas.

    Compreende-se que as sugestes de Antonio Candido, no que se refere anlise de uma obra, so fundamentais para a compreenso des-ta enquanto produto tanto da iniciativa individual quanto de condies sociais, e no como alternativas mutuamente exclusivas. (Candido, 1973; 1968). Nesse sentido, busca-se analisar as ideias de Josu de Castro como fruto tanto das mais diversas discusses, fatos e relaes estabelecidas e vividas pelo autor, quanto do que ela tem de especfico, revelando-se no apenas como a conformao de tendncias e influncias, mas tendo ela mesma uma especificidade. Esta revelada, especificamente aqui, nas analises do autor sobre a importncia da agricultura de sustentao na formao scio-histrica do pas e sua imprescindvel contribuio no combate fome, anlise esta refletida em suas proposies polticas de reforma agrria e de incentivos a essa agricultura.

    O pensamento e a trajetria intelectual de Josu de Castro (1908-1973), especialmente a partir da dcada de 1930, expressam suas con-tribuies para a superao das concepes naturalizadoras em relao ao fenmeno da fome. Mesclando fico e realidade, Josu revelou parte significativa de sua prpria vida no seu romance Homens e caranguejos

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    (1967). No incio do romance, Josu afirma que a temtica do livro a histria da descoberta da fome nos seus anos de infncia, nos alagados da cidade do Recife, onde o autor conviveu com os afogados naquele mar de misria, habitantes dos mangues do Capibaribe.

    Foi com estas sombrias imagens dos mangues e da lama que comecei a criar o mundo da minha infncia. Nada eu via que no me provocasse a sensao de uma verdadeira descoberta. Foi assim que eu vi e senti formigar dentro de mim a terrvel descoberta da fome (Castro, 2003, p. 4).

    O livro Homens e caranguejos descreve a paisagem dos mangues, caranguejos e mocambos na infncia de um menino na cidade do Recife. O romance desvenda ainda, atravs de papos e causos relembrados e contados por amigos e familiares, questes que para Josu eram essen-ciais para a manuteno da fome: um processo de modernizao mal conduzido e a permanncia do latifndio e da monocultura. As desigual-dades sociais so expressas na imagem de uma cidade que se moderniza-va e se dividia ao mesmo tempo. Nela, perpetuava-se o contraste entre o lado dos ricos e o lado dos pobres. Neste ltimo, os mangues e alagados eram tomados por mocambos construdos por uma populao que s ali encontra a terra da promisso o paraso dos caranguejos.

    O romance Homens e caranguejos, alm de ser um relato autobio-grfico, especialmente sobre a infncia de Josu, pode tambm ser consi-derado parte significativa de Geografia da fome contada de forma literria. No romance constam as dificuldades de subsistncia das populaes do Serto e da Amaznia ao conviverem com o monoplio e com a mono-cultura, uma realidade expressa em um ambiente urbano que tambm oprime as populaes migrantes frente s desigualdades sociais oriundas de uma modernizao perversa.

    Aps formar-se em medicina (1929), Josu morou em Recife at 1935, este perodo correspondeu ao contexto intelectual de emergncia

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    dos escritores da chamada literatura social nordestina. O acervo de Josu revela as fecundas amizades e trocas de ideias e de opinies com esses escritores. Pode-se destacar os artigos de Josu sobre o romance social nor-destino, o prefcio ao livro de Jos Amrico de Almeida, A Parayba e seus problemas, a crtica ao livro Moleque