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p. 1-494 Repositório autorizado de jurisprudência do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, Registro nº 16, Portaria nº 12/90. Os acórdãos selecionados para esta Revista correspondem, na íntegra, às cópias dos originais obtidas na Secretaria do STJ. Repositório autorizado de jurisprudência do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, a partir do dia 17.02.2000, conforme Inscrição nº 27/00, no Livro de Publicações Autorizadas daquela Corte. Jurisprudência Mineira Belo Horizonte a. 56 v. 172 janeiro/março 2005 Jurisprudência Mineira Órgão Oficial do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Jurisprudência Mineira_ed.172

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  • p. 1-494

    Repositrio autorizado de jurisprudncia do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIA, Registro n 16,Portaria n 12/90.

    Os acrdos selecionados para esta Revista correspondem, na ntegra, s cpias dos originais obtidasna Secretaria do STJ.

    Repositrio autorizado de jurisprudncia do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, a partir do dia17.02.2000, conforme Inscrio n 27/00, no Livro de Publicaes Autorizadas daquela Corte.

    Jurisprudncia Mineira Belo Horizonte a. 56 v. 172 janeiro/maro 2005

    Jurisprudncia Mineirargo Oficial do Tribunal de Justia

    do Estado de Minas Gerais

  • Fotos da Capa:

    Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza - Sobrado em Ouro Preto onde funcionou o antigo Tribunal da Relao - Palcio da Justia Rodrigues Campos, sede do Tribunal de Justia de Minas Gerais

    Srgio Faria Daian - Montanhas de Minas GeraisRodrigo Albert - Corte Superior do Tribunal de Justia de Minas Gerais

    Projeto Grfico: ASCOM/COVICDiagramao: EJEF/GEDOC/COTEC - Marcos Aurlio Rodrigues e Thales Augusto BentoNormalizao Bibliogrfica: EJEF/GEDOC/COBIB

    SuperintendenteDes. Srgio Antnio de Resende

    Superintendente AdjuntaDes. Jane Ribeiro Silva

    Diretora ExecutivaMaria Ceclia Belo

    Gerente de Documentao, Pesquisa eInformao EspecializadaPedro Jorge Fonseca

    Assessoria JurdicaMaria da Consolao SantosMaria Helena Duarte

    Coordenao de Comunicao TcnicaEliana Whately Moreira - Coordenadora

    urea SantiagoEdvano Pinheiro de LimaMaria Clia da SilveiraMaria Mnica Ribeiro RochaMaria Tereza AlvesMarisa Martins FerreiraMaricelle da Silva MedeirosMeire Aparecida Furbino MarquesSvio Capanema Ferreira de MeloTadeu Rodrigo RibeiroVera Lcia Camilo Guimares

    Escola Judicial Des. Edsio Fernandes

    Escola Judicial Desembargador Edsio FernandesRua Guajajaras, 40 - 17 andar - Centro - Ed. Mirafiori - Telefone: (31) 3247-890030180-100 - Belo Horizonte/MG - Brasilwww.tjmg.gov.br/ejef - [email protected]

    Enviamos em permuta - Enviamos en canje - Nous envoyons en change- Inviamo in cambio - We send in exchange - Wir senden in tausch

    Qualquer parte desta publicao pode ser reproduzida, desde que citada a fonte.

    ISSN 0447-1768

    JURISPRUDNCIA MINEIRA, Ano 1 n 1 1950-2005Belo Horizonte, Tribunal de Justia do Estado de Minas Gerais

    Trimestral.ISSQN 0447-1768

    1. Direito - Jurisprudncia. 2. Tribunal de Justia. Peridico. I.Minas Gerais. Tribunal de Justia.

    CDU 340.142 (815.1)

    Equipe da Unidade Francisco Sales

    Daysilane Alvarenga Ribeiro - Diretora de Jurisprudncia e Pesquisa

    Maria Beatriz da Conceio Medona - Coordenadora da Diviso de RedaoJoo Dias de vilaJoo Oscar de Almeida FalcoLiliane Maria BorattoMaria Amlia Ribeiro KasakoffShirley de Paiva

    Alexandre Silva Habib - Coordenador da Diviso de RevisoCeclia Maria Alves CostaLuiz Gustavo Villas Boas GivisiezMauro Teles CardosoMyriam Goulart de OliveiraJoo Dutra Moreira - Digitador

  • PresidenteDesembargador MRCIO ANTNIO ABREU CORRA DE MARINS

    Primeiro Vice-PresidenteDesembargador ORLANDO ADO DE CARVALHO

    Segundo Vice-PresidenteDesembargador SRGIO ANTNIO DE RESENDE

    Terceiro Vice-PresidenteDesembargador MRIO LCIO CARREIRA MACHADO

    Corregedor-Geral de JustiaDesembargador RONEY OLIVEIRA

    Tribunal Pleno

    Desembargadores

    (por ordem de antiguidade em 31.03.2005)

    Tribunal de Justia do Estado de Minas Gerais

    Francisco de Assis FigueiredoGudesteu Biber SampaioEdelberto Lellis SantiagoMrcio Antnio Abreu Corra de MarinsHugo Bengtsson JniorOrlando Ado de CarvalhoAntnio Hlio Silva

    Cludio Renato dos Santos CostaKelsen do Prado CarneiroIsalino Romualdo da Silva LisbaSrgio Antnio de ResendeArmando Pinheiro LagoRoney Oliveira

    Nilo Schalcher VenturaReynaldo Ximenes Carneiro

    Joaquim Herculano RodriguesMrio Lcio Carreira MachadoJos Tarczio de Almeida MeloJos Antonino Baa Borges

    Lucas Svio de Vasconcellos Gomes

    Jos Francisco Bueno

    Clio Csar Paduani

    Hyparco de Vasconcellos ImmesiKildare Gonalves CarvalhoMrcia Maria Milanez Carneiro

    Nilson Reis

    Dorival Guimares Pereira

    Jarbas de Carvalho Ladeira FilhoJse Altivo Brando TeixeiraJos Domingues Ferreira Esteves

    Jane Ribeiro Silva

    Antnio Marcos Alvim SoaresEduardo Guimares AndradeAntnio Carlos Cruvinel

    Fernando Brulio Ribeiro TerraEdivaldo George dos Santos

    Silas Rodrigues VieiraWander Paulo Marotta MoreiraSrgio Augusto Fortes BragaMaria Elza de Campos ZettelGeraldo Augusto de AlmeidaCaetano Levi Lopes

    Lamberto de Oliveira SantAnnaLuiz Audebert Delage FilhoErnane Fidlis dos SantosJos Nepomuceno da SilvaCelso Maciel PereiraErony da Silva

    Manuel Bravo SaramagoBelizrio Antnio de Lacerda

  • Jos Edgard Penna Amorim PereiraJos Carlos Moreira DinizPaulo Czar Dias

    Jos Luciano Gouva RiosVanessa Verdolim Hudson Andrade

    Edilson Olmpio FernandesCarlos Batista FrancoGeraldo Jos Duarte de PaulaBeatriz Pinheiro Caires

    Armando Freire

    Delmival de Almeida Campos

    Alvimar de vila

    Drcio Lopardi Mendes

    Valdez Leite Machado

    Alexandre Victor de CarvalhoTeresa Cristina da Cunha PeixotoEduardo Marin da CunhaMaria Celeste Porto TeixeiraAlberto Vilas Boas Vieira de SousaEulina do Carmo Santos AlmeidaJos Affonso da Costa Crtes

    Antnio Armando dos Anjos

    Jos Geraldo Saldanha da FonsecaGeraldo Domingos CoelhoOsmando Almeida

    Roberto Borges de Oliveira

    Eli Lucas de Mendona

    Alberto Aluzio Pacheco de Andrade

    Francisco Kupidlowski

    Antoninho Vieira de BritoGuilherme Luciano Baeta Nunes

    Maurcio Barros

    Paulo Roberto Pereira da SilvaMauro Soares de Freitas

    Ediwal Jos de Morais

    Ddimo Inocncio de Paula

    Unias Silva

    Eduardo Brum Vieira ChavesWilliam Silvestrini

    Maria das Graas Silva Albergaria dos SantosCosta

    Jos de Dom Vioso RodriguesElias Camilo SobrinhoPedro Bernardes de OliveiraAntnio Srvulo dos SantosFrancisco Batista de AbreuHelosa Helena de Ruiz CombatJos Amncio de Sousa FilhoSebastio Pereira de Souza

    Selma Maria Marques de SouzaJos Flvio de Almeida

    Tarcsio Jos Martins CostaEvangelina Castilho Duarte

    Otvio de Abreu Portes

    Nilo Nvio Lacerda

    Walter Pinto da Rocha

    Irmar Ferreira Campos

    Luciano Pinto

    Mrcia De Paoli Balbino

    Hlcio Valentim de Andrade FilhoAntnio de Pdua OliveiraFernando Caldeira Brant

    Hilda Maria Prto de Paula Teixeira da CostaJos de Anchieta da Mota e SilvaJos Afrnio Vilela

    Elpdio Donizetti NunesFbio Maia Viani

    Renato Martins Jacob

  • Composio de Cmaras e Grupos - Dias de Sesso

    Primeira Cmara CvelTeras-feiras

    Segunda Cmara CvelTeras-feiras

    Primeiro Grupo deCmaras Cveis

    1 quarta-feira do ms(Primeira e Segunda

    Cmaras, sob a Presidnciado Des. Francisco Figueiredo)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Hugo Bengtsson Jnior *Eduardo Guimares AndradeGeraldo Augusto de AlmeidaJos Luciano Gouva Rios

    Vanessa Verdolim Hudson Andrade* Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Francisco de Assis Figueiredo*Nilson Reis

    Jarbas Ladeira

    Jos Altivo Brando TeixeiraCaetano Levi Lopes

    Terceira Cmara CvelQuintas-feiras

    Quarta Cmara CvelQuintas-feiras

    Segundo Grupo deCmaras Cveis

    1 quarta-feira do ms(Terceira e Quarta Cmaras,sob a Presidncia do Des.

    Antnio Hlio Silva)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Nilo Schalcher Ventura*Lucas Svio de Vasconcellos Gomes

    Kildare Gonalves CarvalhoLamberto de Oliveira Sant'Anna

    Celso Maciel Pereira * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Antnio Hlio Silva*

    Jos Tarczio de Almeida MeloClio Csar Paduani

    Luiz Audebert Delage FilhoJos Carlos Moreira Diniz

    Quinta Cmara CvelQuintas-feiras

    Sexta Cmara CvelSegundas-feiras

    Terceiro Grupo deCmaras Cveis

    3 quarta-feira do ms(Quinta e Sexta Cmaras,sob a Presidncia do Des.

    Cludio Costa)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Cludio Renato dos Santos CostaJos Francisco Bueno*

    Dorival Guimares Pereira

    Maria Elza de Campos ZettelJos Nepomuceno da Silva * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Jos Domingues Ferreira Esteves*

    Ernane Fidlis dos SantosManuel Bravo Saramago

    Edilson Olmpio FernandesCarlos Batista Franco

    Stima Cmara CvelSegundas-feiras

    Oitava Cmara CvelSegundas-feiras

    Quarto Grupo de CmarasCveis

    3 quarta-feira do ms(Stima e Oitava Cmaras,

    sob a Presidncia doDes. Isalino Lisba)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Armando Pinheiro Lago*Antnio Marcos Alvim SoaresEdivaldo George dos Santos

    Wander Paulo Marotta MoreiraBelizrio Antnio de Lacerda * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Isalino Romualdo da Silva Lisba*Fernando Brulio Ribeiro Terra

    Silas Rodrigues VieiraJos Edgard Penna Amorim Pereira

    Geraldo Jos Duarte de Paula

  • Desembargadores

    Eduardo Marin da Cunha

    Walter Pinto da Rocha*

    Irmar Ferreira Campos

    Luciano Pinto

    Mrcia De Paoli Balbino

    Nona Cmara CvelTeras-feiras

    Dcima Cmara CvelTeras-feiras Quinto Grupo de Cmaras

    Cveis

    2 tera-feira do ms(Nona e Dcima Cmaras,

    sob a Presidncia doDes. Alberto Vilas Boas)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Osmando Almeida*

    Pedro Bernardes de OliveiraTarcsio Jos Martins CostaAntnio de Pdua OliveiraFernando Caldeira Brant * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Alberto Vilas Boas Vieira de Sousa *Roberto Borges de Oliveira

    Alberto Aluzio Pacheco de Andrade

    Paulo Roberto Pereira da SilvaEvangelina Castilho Duarte

    Dcima Primeira Cmara CvelQuartas-feiras

    Dcima Segunda Cmara CvelQuartas-feiras

    Sexto Grupo de CmarasCveis

    3 quarta-feira do ms(Dcima Primeira e DcimaSegunda Cmaras, sob a

    Presidncia da Des. TeresaCristina da Cunha Peixoto)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Teresa Cristina da Cunha Peixoto*

    Maurcio Barros

    Maria das Graas Silva Albergaria dosSantos Costa

    Selma Maria Marques de SouzaJos Afrnio Vilela * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Alvimar de vila

    Jos Geraldo Saldanha da Fonseca*Geraldo Domingos Coelho

    Antnio Srvulo dos SantosJos Flvio de Almeida

    Nilo Nvio Lacerda

    Dcima Terceira Cmara CvelQuintas-feiras

    Dcima Quarta Cmara CvelQuintas-feiras

    Stimo Grupo de CmarasCveis

    2 quinta-feira do ms(Dcima Terceira e Dcima

    Quarta Cmaras, sob aPresidncia do Des. Drcio

    Lopardi Mendes)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Eulina do Carmo Santos Almeida*Francisco Kupidlowski

    Hilda Maria Prto de Paula Teixeira da CostaElpdio Donizetti Nunes

    Fbio Maia Viani

    * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Drcio Lopardi Mendes*

    Valdez Leite Machado

    Ddimo Inocncio de Paula

    Elias Camilo SobrinhoHelosa Helena de Ruiz Combat

    Renato Martins Jacob

    Dcima Quinta Cmara CvelQuintas-feiras

    Dcima Sexta Cmara CvelQuartas-feiras

    Oitavo Grupo de CmarasCveis

    3 quarta-feira do ms(Dcima Quinta, Dcima Sextae Dcima Stima Cmaras, soba Presidncia do Des. Eduardo

    Marin da Cunha)

    - Horrio: 13 horas -

    Desembargadores

    Jos Affonso da Costa Crtes*

    Guilherme Luciano Baeta Nunes

    Unias Silva

    Jos de Dom Vioso RodriguesJos de Anchieta da Mota e Silva

    * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Mauro Soares de Freitas*

    Francisco Batista de AbreuJos Amncio de Sousa FilhoSebastio Pereira de Souza

    Otvio de Abreu Portes

    Dcima Stima Cmara CvelQuintas-feiras

  • Primeira Cmara CriminalTeras-feiras

    Segunda Cmara CriminalQuintas-feiras

    Terceira Cmara CriminalTeras-feiras

    Desembargadores

    Gudesteu Biber Sampaio

    Edelberto Lellis Santiago

    Mrcia Maria Milanez Carneiro

    Srgio Augusto Fortes Braga

    Armando Freire*

    Desembargadores

    Reynaldo Ximenes Carneiro*

    Joaquim Herculano Rodrigues

    Jos Antonino Baa Borges

    Hyparco Immesi

    Beatriz Pinheiro Caires

    Desembargadores

    Kelsen do Prado Carneiro*

    Jane Ribeiro Silva

    Antnio Carlos Cruvinel

    Erony da Silva

    Paulo Czar Dias

    * Presidente da Cmara

    Primeiro Grupo de Cmaras Criminais (2 segunda-feira do ms) - Horrio: 13 horasPrimeira, Segunda e Terceira Cmaras, sob a Presidncia do Des. Gudesteu Biber

    Segundo Grupo de Cmaras Criminais (2 tera-feira do ms) - Horrio: 13 horasQuarta e Quinta Cmaras, sob a Presidncia do Des. Delmival de Almeida Campos

    * Presidente da Cmara

    Desembargadores

    Delmival de Almeida Campos*

    Eli Lucas de Mendona

    Ediwal Jos de Morais

    Eduardo Brum Vieira ChavesWilliam Silvestrini

    Desembargadores

    Alexandre Victor de Carvalho

    Maria Celeste Porto Teixeira

    Antnio Armando dos Anjos*

    Antoninho Vieira de Brito

    Hlcio Valentim de Andrade Filho

    Quarta Cmara CriminalQuartas-feiras

    Quinta Cmara CriminalTeras-feiras

    Conselho da Magistratura (Sesso na primeira segunda-feira do ms) - Horrio: 14 horas

    Mrcio Antnio Abreu Corra de MarinsPresidente

    Orlando Ado de CarvalhoPrimeiro Vice-Presidente

    Srgio Antnio de ResendeSegundo Vice-Presidente

    Mrio Lcio Carreira MachadoTerceiro Vice-Presidente

    Desembargadores

    Roney Oliveira

    Corregedor-Geral de Justia

    Mrcia Maria Milanez CarneiroNilson Reis

    Jarbas de Carvalho Ladeira FilhoJos Altivo Brando Teixeira

    Jos Domingues Ferreira Esteves

    Jane Silva

  • Corte Superior (Sesses nas segundas e quartas-feiras do ms - Horrio: 13 horas)

    Mrcio Antnio Abreu Corra de MarinsPresidente

    Orlando Ado de CarvalhoPrimeiro Vice-Presidente

    Srgio Antnio de ResendeSegundo Vice-Presidente

    Mrio Lcio Carreira MachadoTerceiro Vice-Presidente

    Roney OliveiraCorregedor-Geral de Justia

    Francisco de Assis FigueiredoGudesteu Biber SampaioEdelberto Lellis SantiagoHugo Bengtsson Jnior

    Antnio Hlio Silva

    Cludio Renato dos Santos CostaKelsen do Prado Carneiro

    Presidente do TRE

    Isalino Romualdo da Silva LisbaArmando Pinheiro Lago

    Vice-Presidente do TRE

    Nilo Schalcher VenturaReynaldo Ximenes Carneiro

    Joaquim Herculano RodriguesJos Tarczio de Almeida Melo

    Jos Antonino Baa BorgesLucas Svio de Vasconcellos Gomes

    Jos Francisco Bueno

    Clio Csar Paduani

    Hyparco Immesi

    Kildare Gonalves CarvalhoDorival Guimares Pereira

    Desembargadores

    Procurador-Geral de Justia: Dr. Jarbas Soares Jnior

  • Escola Judicial Des. Edsio Fernandes

    SuperintendenteDes. Srgio Antnio de Resende

    Superintendente AdjuntaDes. Jane Ribeiro Silva

    Comit Tcnico

    Des. Srgio Antnio de Resende - PresidenteDes. Jane Ribeiro Silva

    Maria Ceclia BeloThelma Regina Cardoso

    Maria Teresa Santos de Arajo RibeiroDes. Vanessa Verdolim Hudson Andrade

    Des. Nilson ReisDes. Antnio Carlos Cruvinel

    Dr. Selma Maria Marques de SouzaDr. Pedro Carlos Bitencourt Marcondes

    Des. Caetano Levi Lopes - Assessor Especial

    Diretora ExecutivaMaria Ceclia Belo

    Gerente de Documentao, Pesquisa e Informao EspecializadaPedro Jorge Fonseca

    Assessoria JurdicaMaria da Consolao Santos

    Maria Helena Duarte

    Coordenadora de Comunicao TcnicaEliana Whately Moreira

    Coordenador de Pesquisa e Orientao TcnicaBernardino Senna de Oliveira

    Coordenadora de Documentao e BibliotecaDenise Maria Ribeiro Moreira

  • Comisso de Divulgao e Jurisprudncia

    Desembargadores

    Orlando Ado de Carvalho - Presidente

    Eduardo Guimares Andrade - 1 Cvel

    Caetano Levi Lopes - 2 Cvel

    Kildare Gonalves Carvalho - 3 Cvel

    Jos Carlos Moreira Diniz - 4 Cvel

    Maria Elza de Campos Zettel - 5 Cvel

    Ernane Fidlis dos Santos - 6 Cvel

    Antnio Marcos Alvim Soares - 7 Cvel

    Silas Rodrigues Vieira - 8 Cvel

    Osmando Almeida - 9 Cvel

    Paulo Roberto Pereira da Silva - 10 Cvel

    Jos Afrnio Vilela - 11 Cvel

    Geraldo Domingos Coelho - 12 Cvel

    Francisco Kupidlowski - 13 Cvel

    Helosa Helena de Ruiz Combat - 14 Cvel

    Jos Affonso da Costa Crtes - 15 Cvel

    Sebastio Pereira de Souza - 16 Cvel

    Antnio Lucas Pereira - 17 Cvel

    Srgio Augusto Fortes Braga - 1 Criminal

    Beatriz Pinheiro Caires - 2 Criminal

    Jane Ribeiro Silva - 3 Criminal

    Eli Lucas de Mendona - 4 Criminal

    Maria Celeste Porto Teixeira - 5 Criminal

  • SUMRIO

    MEMRIA DO JUDICIRIO MINEIRO

    Desembargador Jos Guido de Andrade - Nota biogrfica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

    Di Cavalcanti e o TJMG - Nota histrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

    DOUTRINA

    A falncia: inovaes introduzidas pela Lei n 11.101/2005 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

    O papel do magistrado na efetivao do princpio do contraditrio no processo penal . . . . . . . . . . 37

    TRIBUNAL DE JUSTIA D E MINAS GERAIS

    1 Corte Superior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

    2 Jurisprudncia Cvel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49

    3 Jurisprudncia Criminal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311

    SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 395

    SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 423

    NDICE NUMRICO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 455

    NDICE ALFABTICO E REMISSIVO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 459

  • Mem

    ria

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    Judi

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    Desembargador JOS GUIDO DE ANDRADE

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    Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 13-18, jan./mar. 2005 15

    MEMRIA DO JUDICIRIO MINEIRO

    Nota biogrfica

    Desembargador Jos Guido de Andrade

    Filho do coletor federal Joo da Cruz de Andrade e de Enedina Cunha de Andrade, oDesembargador Jos Guido de Andrade nasceu em Andrelndia, Minas Gerais, em 18 de outubro de1932.

    Bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1956 e, nos anosseguintes, exerceu a advocacia em sua terra natal, onde tambm foi professor de Histria e Geografia.No Ministrio Pblico, exerceu funes de Promotor adjunto na Comarca de Ipanema e Promotor deJustia, por concurso, na Comarca de Ibiraci.

    Seu ingresso na magistratura se deu por concurso pblico em 1961 e, desde ento, passoupelas Comarcas de Resende Costa, So Gotardo, Caranda e Juiz de Fora, chegando finalmente Comarca de Belo Horizonte, por merecimento, em 1979.

    Nos juzos que dirigiu, destacou-se por sua postura liberal na instruo processual, permitindo,muitas vezes, que os prprios advogados tomassem depoimento sob sua superviso.

    Na carreira docente, lecionou a disciplina Direito Processual Penal na Universidade Federal deJuiz de Fora e na Faculdade de Cincias Jurdicas e Sociais Melo Viana Jnior. Foi o primeiro Diretorda Associao dos Magistrados Mineiros da Zona da Mata, realizando-se, em sua gesto, o primeiroencontro de magistrados no interior do Estado para o Ciclo de Conferncias da Escola Judicial doTribunal de Justia, em convnio com a referida associao. Em agosto de 1982, foi designado Diretordo Foro Eleitoral de Belo Horizonte.

    Em 1984, foi promovido, por merecimento, para o Tribunal de Alada de Minas Gerais e, em abrilde 1988, chegou a Desembargador. No Tribunal de Justia ocupou os cargos de Vice-Corregedor,Corregedor-Geral de Justia e, na AMAGIS - Associao dos Magistrados Mineiros -, foi 1 Vice-Presidente e, posteriormente, Presidente.

    Entre as comendas, medalhas e ttulos que recebeu, destacam-se os de Comendador da Ordemdos Bandeirantes, diploma de benemrito da Polcia Militar de Juiz de Fora, Medalha Santos Dumont,Medalha de Honra da Inconfidncia, ttulo Cidado Honorrio de Juiz de Fora e o trofu PequenoJornaleiro como personalidade do ano no setor Justia. Em sua terra natal, recebeu justas homenagens,e a principal delas foi a de ter uma das dependncias do frum local com seu nome.

    O Desembargador Jos Guido marcou sua passagem pela magistratura mineira, despertandoadmirao e respeito dos colegas, serventurios e jurisdicionados. Era tolerante e humano e, comomagistrado, competente e independente.

    Em outubro de 2004, a magistratura mineira viu-se consternada com sua perda. Dono de umapersonalidade simples e equilibrada, o Desembargador Jos Guido de Andrade enobreceu a magis-tratura mineira.

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 13-18, jan./mar. 200516

    Referncias bibliogrficas:Dicionrio Biogrfico de Minas Gerais - perodo republicano -1889-1991/ Coordenao de Norma de GisMonteiro. Belo Horizonte: Assemblia Legislativa do Estado de Minas Gerais, 1994, p. 45-6.Minas Gerais. 30 Anos Amagis, 2002. 54 p.Juiz do trabalho aposentado e professor da UFMG - Dr. Silva Paula Otaclio.

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  • Mem

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    Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 13-18, jan./mar. 2005 17

    Nota histrica

    Di Cavalcanti e o TJMG

    Andrea Vanessa da Costa Val*

    O trabalho de um dos maiores nomes da pintura nacional est presente no Tribunal de Justiae merece ser admirado.

    So dois belssimos murais assinados pelo nosso famoso artista Emiliano Di Cavalcanti, sendoum deles localizado esquerda, do saguo do Anexo I, e outro no auditrio do mesmo prdio. Nessesdois trabalhos, podemos perceber todas as caractersticas do seu trao que o fizeram conhecido e reco-nhecido como o mais carioca dos pintores, ou melhor, o mais brasileiro dos artistas plsticos.

    Sua pintura difundiu pelo mundo a imagem do Brasil, reafirmando, assim, uma das propostasdo movimento modernista brasileiro, do qual Di Cavalcanti fizera parte ao lado de Anita Malfatti, Mriode Andrade, Oswald de Andrade e outros.

    Uma arte puramente nacionalista, que ser tornou conhecida como um abrasileiramento temtico.Retratou o cotidiano do nosso povo em figuras genuinamente brasileiras. A mulata, o folio, o pescador,o universo folclrico e o carnaval foram a expresso maior de sua obra.

    Apesar de ter cursado a Faculdade de Direito, foi nas artes plsticas que o pintor alcanou noto-riedade nacional e internacional.

    Sem ttulos, os murais assinados por Di Cavalcanti pintados entre os anos de 1950 e 1951, locali-zados no Tribunal de Justia de Minas Gerais, so significativos exemplares do trabalho do pintor. Ambosapresentam caractersticas semelhantes, prprias do seu trabalho. As cenas do cotidiano do povobrasileiro juntamente com a percia tcnica do pintor do s obras o seu carter nacionalista-modernista.A ousadia esttica que se v na relao harmoniosa de planos e volumes acompanhada pela riquezade cores e luminosidade. O tratamento dado cor e pintura so elementos usados para dar umaatmosfera quente obra. A deformao da figura humana para ressaltar sentimento tambm pode serconsiderada um dos seus traos tpicos usado para transmitir emoo brasilidade do tema. E, ainda,as paisagens urbana e rural como cenrio para os personagens presentes na pintura, como forma deabranger todo o universo nacional.

    So obras de grande relevncia, assim como todo o acervo deixado pelo artista.

    Di Cavalcanti nasceu em 1897 no Rio de Janeiro.

    Sua trajetria comea em 1922, quando idealizou e organizou a Semana da Arte Moderna,criando todas as peas promocionais para o evento (catlogo e programa). A repercusso dessemovimento cultural, que trouxe o sentimento nacionalista aos que dele participaram, direcionou todo

    *Assessora da Memria do Judicirio Mineiro.

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 13-18, jan./mar. 200518

    o trabalho de Di Cavalcanti e foi a partir da que sua carreira tomou impulso para ganhar, definitiva-mente, o cenrio internacional.

    Parte para Paris e por l permanece durante dois anos. Nesse perodo, expe em vrias capitaiseuropias e conhece artistas j renomados, como Picasso e Matisse.

    Ao retornar ao Brasil, ingressa no Partido Comunista.

    O momento poltico do Pas e sua identificao com as causas nacionais fazem dele um pintorsocial militante, e sua arte apresenta um tom anrquico, misto de orgulho e deboche.

    J na dcada de 40, torna-se preso poltico e se v obrigado a voltar a Paris, agora como exilado,depois da publicao de trabalhos que satirizavam o militarismo da poca. Aps 4 anos na Europa, como advento da 2 Guerra Mundial, Di Cavalcanti retorna ao Brasil, fixando residncia na Cidade do Rio deJaneiro.

    A essa altura, seu nome e seu trabalho j se encontram consolidados no rol dos grandes pintores.

    Faz exposies em pases latinos, e sua obra comea a lhe render premiaes nos anos quese seguem.

    Artista verstil, Di Cavalcanti tambm escreveu e ilustrou livros, revistas e painis, cenrios parateatro e murais em locais diversos.

    Por serem consideradas obras fixas, os murais merecem destaque especial, pois, alm de conce-berem arte a funo social e coletiva, atuam tambm como elemento complementar ao suavizarem oambiente onde se encontram.

    Registram-se, portanto, a importncia e a grandeza do trabalho deste nosso grande mestre dapintura nacional, que conseguiu retratar o Brasil de uma forma to exuberante e fiel, com um destaqueespecial para os murais existentes no Anexo I.

    Emiliano Di Cavalcanti faleceu, em 26 de outubro de 1976, no Rio de Janeiro, e deixou cercade 5.000 trabalhos realizados.

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    DOUTRINA

    A falncia: inovaes introduzidas pela Lei n 11.101/2005*

    Dr. Moacyr Lobato de Campos Filho**

    Sumrio: 1 Introduo. 2 O Dec.-lei n 7.661/1945. 3 A falncia na Lei n 11.101, de 09 de fevereirode 2005. 4 Escopo do processo falimentar. 5 Legitimidade ativa na falncia. 5.1 Auto-falncia. 6 Legitimidadepassiva na falncia. 7 Juzo competente. 8 Hipteses de falncia. 9 Contestao do requerido. 9.1 A recu-perao judicial em virtude do pedido de falncia. 9.2 O depsito elisivo. 10 A sentena falimentar: naturezae especificaes. 11 Recursos. 12 Efeitos da sentena decretatria de falncia. 13 Classificao dos crditosna falncia. 13.1 Crditos extraconcursais. 13.2 Obrigaes alimentcias na falncia. 14 Principais inovaesquanto ao pedido de restituio. 15 Principais inovaes quanto ao revocatria. 16 Realizao do ativo.17 Assemblia geral, comit de credores e administrao judicial. 18 Concluso.

    1 Introduo

    A necessidade de alterao dos mecanismos existentes no trato da insolvncia patrimonial constitui,por certo, elemento fundamental que propiciou a alterao do sistema legal vigente com a edio da Lei n11.101, de 09 de fevereiro de 2005. Disciplina, entre ns, os institutos da recuperao judicial e extrajudicialde empresas, extingue a concordata, tanto a preventiva quanto a suspensiva, e preserva a falncia, ade-quando-a s necessidades que a vida econmica contempornea est a exigir.

    2 O Dec.-lei n 7.661/1945

    Vem a nova lei substituir modelo legal vigente por praticamente 60 anos - o Dec.-lei n 7.661, de21 de junho de 1945 -, que consagrou o processo falimentar como instrumento destinado a promover oacertamento da situao jurdica do devedor impontual.

    Ao lado dele, vigia, no diploma legal de 1945, o instituto da concordata, de divergente significadojurdico em relao ao contedo etimolgico, na medida em que a obteno da concordata pelo devedorno tinha, como pressuposto, a aquiescncia de seus credores.

    3 A falncia na Lei n 11.101, de 09 de fevereiro de 2005

    Diversamente do que ocorre com a recuperao judicial, ainda indita no Brasil, mas que co-nhece precedentes no direito comparado, a falncia conta com o benefcio da experincia, merc de

    (*) Palestra proferida no seminrio "A Nova Lei de Falncias" - EJEF/TJMG, 06.05.2005, Belo Horizonte/MG.(**) Mestre em Direito Comercial pela Faculdade de Direito da UFMG. Ps-graduado em Direito da Economia e da Empresa pelaFundao Getlio Vargas. Professor de Direito Empresarial da Faculdade Mineira de Direito da PUC-MG. Coordenador doCurso de Ps-Graduao em Direito de Empresa do Centro de Atualizao em Direito - CAD/Universidade Gama Filho. rbitroda Cmara de Arbitragem Empresarial-Brasil (CAMARB). Procurador do Estado de Minas Gerais.

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    longa convivncia doutrinria e jurisprudencial com a matria, de resto objeto de normao antesmesmo do advento do Cdigo Comercial de 1850.

    No obstante balizadas opinies terem sustentado que o processo falimentar regido pelo Dec.-lein 7.661, de 1945, tem finalidade marcadamente liquidatria, constituindo-se, pois, uma seqncia de atospraticados com a finalidade de arrecadar os bens que integram a massa e vend-los para pagamento aoscredores, na verdade, constatou-se, durante o longo perodo de vigncia do diploma falimentar de 1945,que os processos falimentares duravam muito mais que o desejado e previsto em lei, frustrando credores,estabelecendo a incerteza quanto aos devedores e o perecimento, muitas vezes, de bens que, uma vezarrecadados, perdiam substncia e valor pelo no-uso ou pela ausncia de conservao.

    A rigor, o processo falimentar sob a gide do texto de 1945 esteve muito mais prximo, sempre,de promover a regulao da situao jurdica do devedor impontual do que, propriamente, atender aosinteresses dos credores, cujos crditos tivessem sido declarados no juzo falimentar ou reconhecidospor ele quando provenientes de declarao em outros juzos.

    4 Escopo do processo falimentar

    A falncia, segundo dico do art. 75 da Lei n 11.101/2005: visa a preservar a utilizao produtivados bens, ativos e recursos produtivos, inclusive os intangveis da empresa. Celeridade e economiaprocessual so princpios cuja observncia o processo de falncia dever atender, conforme o disposto nopargrafo nico do mencionado art. 75.

    H evidente alterao quanto finalidade do processo falimentar, visto que a nova lei, ao proclamara preservao da utilizao produtiva dos bens, ativos e recursos, aponta o crdito como objeto de pro-teo, procurando assegurar ao credor a possibilidade de realizao deste e, ainda, evitar o perecimentode ativos decorrentes do no-uso continuado ou de m conservao.

    Um dos mais acesos debates durante o perodo de tramitao do projeto, sobretudo nos ltimos doisanos anteriores sua aprovao, diz respeito preocupao do legislador com a higidez do crdito, vindoestampada no texto com a indita declarao do art. 75, no sentido de reconhecer que a preservao dosativos representa um dos pilares de sustentao da lei.

    O economista Aloisio Arajo, membro do grupo de trabalho que assessorou o Ministrio daFazenda durante toda a tramitao do projeto, em palestra proferida na Federao do Comrcio doRio de Janeiro, em abril de 2005, informou que o Brasil est entre os pases de menor taxa de retornode crdito concedido em processos falimentares, bem abaixo, alis, da mdia geral da Amrica Latina,que se insere entre as menores do mundo.

    A possibilidade de que a falncia seja instrumento de recuperao do crdito est fortementeidentificada no texto legal, juntamente com a preservao da utilizao produtiva dos bens e ativos, jprestigiada pelos nossos tribunais, pelo denominado princpio da preservao da empresa.

    Aqui reside um ponto interessante. O processo de falncia, tal como disciplinado na Lei n11.101/2005, poder tornar-se clere com o atendimento aos credores de forma muito mais rpida doque tem ocorrido at ento. A realizao do ativo, logo aps a arrecadao dos bens, constitui medidaperfeitamente adequada aos interesses dos credores.

    Do mesmo modo, a transferncia desses bens a terceiros, provavelmente com melhores condi-es de explorao do que o devedor falido, poder assegurar permanncia do nvel de atividade

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    econmica, que, certamente, seria diminudo se os bens e recursos, at ento utilizados pelo falido,no tivessem sido transferidos.

    Quero dizer, ento, que a preservao da atividade da empresa poder, quem sabe, ocorrer demodo mais claro e efetivo na falncia do que na prpria recuperao judicial. Os instrumentos paratanto esto previstos em lei, a saber:

    a) realizao imediata do ativo, logo aps a arrecadao dos bens (art. 139 da Lei n 11.101/2005);

    b) ausncia de responsabilidade tributria do adquirente dos bens em processo falimentar, j consa-grada pela jurisprudncia, mas reafirmada pelo disposto no art. 133 do Cdigo Tributrio Nacional, comredao que lhe foi dada pelo art. 1 da Lei Complementar n 118, de 09 de fevereiro de 2005.

    Nada impede que se imagine, portanto, que o processo de falncia poder responder, de modomais eficiente, aspirao de satisfao do crdito e preservao da atividade da empresa.

    5 Legitimidade ativa na falncia

    A falncia provm de trs possibilidades legalmente definidas.

    Pode decorrer de pedido de recuperao no atendido, por negativa dos credores reunidos emassemblia ou pelo no-cumprimento de obrigaes assumidas pelo devedor na prpria recuperaojudicial e por ele no adimplidas.

    A falncia tambm poder ser decretada em virtude de requerimento apresentado pelo prpriodevedor, que, estando em crise econmico-financeira, expe ao juiz as razes da impossibilidade deprosseguimento da atividade empresarial, se no puder pleitear sua recuperao judicial em razo dono-atendimento aos requisitos legalmente estabelecidos para a concesso do benefcio. a chamadaautofalncia.

    A outra hiptese, por certo a mais comum delas, a que decorre de pedido deduzido em juzoe apresentado por credor. Da exsurge a questo da legitimidade ativa para pedir a falncia.

    O art. 97, inc. IV, da Lei n 11.101, de 09 de fevereiro de 2005, indica que qualquer credor poderequerer a falncia do devedor. Assim, sendo titular de uma obrigao lquida no paga no vencimento, semque o devedor tenha relevante razo de direito para tanto, o credor ter legitimidade processual ativa pararequerer a falncia do devedor, independentemente da natureza do seu crdito, na hiptese prevista no inc.I do art. 94. Se a hiptese corresponder prtica de atos falimentares, sobretudo aqueles previstos nasalneas do inc. III do mesmo artigo, bastar o credor demonstrar essa condio, independentemente dovencimento do ttulo e de sua natureza.

    Quer dizer ento que o legislador conferiu ampla legitimidade ativa, de modo que, em princpio,estaro todos os titulares de crditos habilitados ao pedido de decretao da falncia do devedor.

    Se, no entanto, o credor for empresrio, estar obrigado a apresentar certido expedida peloRegistro Pblico de Empresas, que comprove a regularidade de suas atividades, valendo dizer que oCdigo Civil Brasileiro estabeleceu que todo empresrio sujeito a registro e que tal configuraojurdica (empresrio) decorrer, forosamente, do exerccio regular da atividade.

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 19-41, jan./mar. 200522

    Muito se discutiu, durante a vigncia do Dec.-lei n 7.661/1945, se a Fazenda Pblica teria interesseprocessual para requerer a falncia de devedor, isto , se o crdito fiscal ou no suficiente para que seutitular esteja habilitado para pedir a falncia.

    O Tribunal de Justia de Minas Gerais, em acrdo proferido por sua 2 Cmara Cvel, deixouassentado sob ementa:

    Falncia - Fazenda Pblica - Crdito fiscal - Ausncia de interesse - Inteligncia do art. 5 da Lei n6.830/80. - O Fisco estadual, ainda que detentor de ttulo lquido e certo, representado por CDA, notem interesse processual para pleitear a quebra do devedor de tributo (Apelao Cvel n 75.754-2,Des. Abreu Leite, 2 Cmara Cvel, julgado em 1.7.97).

    O Superior Tribunal de Justia, em acrdo relatado pelo Min. Slvio de Figueiredo Teixeira(REsp n 164.389-MG), decidiu por sua Segunda Seo ... adotar o entendimento de que a FazendaPblica no tem legitimidade, e nem interesse de agir, para requerer a falncia do devedor fiscal.

    Diante da ausncia de restrio trazida pela atual lei falimentar, pode-se concluir que, sob arubrica de qualquer credor, estar includa a Fazenda Pblica, legitimada para o pedido de falncia dedevedor de tributo, em que pesem os ponderveis argumentos restringentes da possibilidade de aFazenda Pblica pleitear falncia de devedor.

    Muito se tem dito que a Fazenda Pblica no teria legitimidade e interesse, do ponto de vistaprocessual, na medida em que dispe de farta e especfica legislao protetiva de seu crdito, e que,sendo a Lei de Execues Fiscais posterior ao Dec.-lei n 7.661/1945, no haveria sentido, nem razojurdica, que abrigasse a pretenso estatal de requerer a falncia do devedor fiscal.

    Ocorre que a Lei n 11.101/2005 no restringiu a hiptese, no sentido de que qualquer credor possaeleger a via da ao falimentar, de tal modo que no h restrio de ordem legal para que a Fazenda Pblicaintente o pedido de falncia. Eventual renncia hiptese atender a razes de outra natureza, mormenteas de ndole econmica ou social, que no aconselhem o ajuizamento do pedido de falncia.

    5.1 Autofalncia

    Os arts. 105 a 107 da Lei n 11.101, de 09 de fevereiro de 2005, disciplinam a falncia requeridapelo prprio devedor.

    REQUIO1, sob a gide do diploma legal antigo, entende que o devedor pode e deve requerer adeclarao judicial de sua prpria falncia, naturalmente quando no puder pagar no vencimento obrigaolquida.

    O art. 105 aponta os documentos que devero instruir o requerimento de autofalncia, estabele-cendo o art. 106 que o juiz determinar que seja emendada a inicial se o pedido no estiver regularmenteinstrudo. A sentena a ser proferida, decretando a falncia, observar a forma prescrita no art. 99.

    Prev a lei falimentar que a falncia poder ser requerida pelo cnjuge sobrevivente, por qualquerherdeiro do devedor ou pelo inventariante, prevalecendo na hiptese o disposto no 1 do art. 96, queestabelece a impossibilidade de decretao da falncia do esplio, aps um ano da morte do devedor.

    1 REQUIO, Rubens. Curso de direito falimentar. 16. ed. So Paulo: Saraiva, 1995. p. 88.

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 19-41, jan./mar. 2005 23

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    Importante questo est vinculada ao requerimento de autofalncia de pessoa jurdica, no caso,de sociedade empresria.

    A Lei n 6.404/76 dela se ocupa quando, ao dispor sobre competncia privativa de assembliageral de companhia, prev no inc. IX do art. 122 que compete privativamente assemblia geralautorizar os administradores a confessar falncia e pedir concordata.

    O mesmo art. 122 prev hiptese de confisso de falncia em carter de urgncia, nosseguintes termos:

    Art.122 - (...)Pargrafo nico. Em caso de urgncia, a confisso de falncia ou o pedido de concordata poderser formulado pelos administradores, com a concordncia do acionista controlador, se houver, con-vocando-se imediatamente a assemblia geral, para manifestar-se sobre a matria.

    A Lei de Sociedades por Aes, ao fixar competncia exclusiva da assemblia geral, enumera no art.122 as matrias cuja deliberao seja indelegvel a outros rgos da companhia ou a outras pessoas.

    Entende CARVALHOSA2 que o princpio legal da indelegabilidade no absoluto, na medidaem que a prpria norma estabelece a delegao aos administradores para confessar a falncia, desdeque ouvidos os controladores.

    O Cdigo Civil Brasileiro, inexplicavelmente, deixou de regular a matria, quando essencial seria adefinio de quem representa a sociedade empresria no caso de requerimento de sua prpria falncia.

    Ao disciplinar as sociedades limitadas, o legislador cuidou apenas do pedido de concordata, institutocuja extino se encontra marcada no tempo, ao estabelecer que depende da deliberao dos scios, den-tre outras matrias, o pedido de concordata, conforme art. 1.071, inc. VIII. Ainda sobre o pedido de con-cordata, os administradores podero requer-la, se houver urgncia e com autorizao de titulares de maisda metade do capital social. o que prev o 4 do art. 1.072 do Cdigo Civil.

    Para que se possa requerer a falncia, a lei exige do credor empresrio a comprovao da regulari-dade de suas atividades, mediante certido expedida pelo Registro Pblico de Empresas ( 1), e cauorelativa s custas e ao pagamento de indenizao no caso de falncia requerida com dolo do credor que notiver domiclio no Brasil ( 2).

    6 Legitimidade passiva na falncia

    O Dec.-lei n 7.661/1945 foi editado sob a gide do Cdigo Comercial de 1850, que, expressamente,declarava ser comerciante no Brasil quem fizesse da mercancia profisso habitual, enquanto que o diplo-ma falimentar consignava ser falido o comerciante que no pagasse no vencimento obrigao lquida cons-tante de ttulo que ensejasse a execuo.

    Convivemos, ento, com a caracterstica de ser a falncia instituto tipicamente mercantil, isto ,destinado a regular a insolvncia do comerciante por intermdio de uma declarao judicial. A insolvncia

    2 CARVALHOSA, Modesto. Comentrios Lei de Sociedades Annimas: Lei n 6.404, de 15 de dezembro de 1976, com as modi-ficaes das Leis n 9.457, de 05 de maio de 1997, e n 10.303, de 31 de outubro de 2001. 3. ed., rev. e atual. So Paulo: Saraiva,2003, p. 615.

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 19-41, jan./mar. 200524

    patrimonial de no-comerciantes estava, portanto, afastada do mbito de incidncia da lei falimentar.Havia, assim, nesse contexto, um trao corporativo no trato legal da falncia.

    A mercantilidade do instituto falimentar deixou de prevalecer no Brasil graas ao Cdigo Civil de2002, que, ao revogar toda a Parte Primeira do Cdigo Comercial do Imprio, deitou por terra a definiode comerciante, substituindo-a pela noo de empresrio, assim entendido como aquele que se dedicaprofissionalmente ao exerccio de atividade econmica organizada para a produo ou a circulao debens ou de servios.

    Amplia-se, destarte, o mbito de sujeio passiva dos processos falimentares, que tem, como desti-natrios, agora, o empresrio ou a sociedade empresria, includos, portanto, muitos daqueles que outroraestiveram fora do alcance da falncia exatamente pelo fato de que suas atividades no correspondiam, emmuitos casos, aos contornos legalmente estabelecidos para a definio de comerciante.

    Este, sem dvida, constitui aspecto de relevncia no tratamento legal dispensado falncia pelo novotexto falimentar, embora j alargado o mbito de incidncia da lei, desde a promulgao do Cdigo Civil.

    7 Juzo competente

    Ser competente para decretar a falncia o juzo do principal estabelecimento do devedor, bemcomo da filial de empresa que tenha sede fora do Brasil, nos termos do art. 3 da nova lei, que, nesteponto, quase literalmente repete disposio legal constante do art. 7 do Dec.-lei n 7.661/1945.

    8 Hipteses de falncia

    A lei falimentar prev a possibilidade de decretao da falncia do devedor que no paga, novencimento e sem relevante razo de direito, obrigao lquida constante de ttulo ou ttulos executivosprotestados cuja soma ultrapasse o equivalente a 40 salrios mnimos na data do pedido (art. 94, I).

    Tambm constitui razes juridicamente aptas propositura judicial da falncia o disposto nosincs. II e III, alneas a a g, do art. 94. O inc. II estabelece que ser decretada a falncia do devedorque, executado por qualquer quantia lquida, no paga, no deposita e no nomeia penhora benssuficientes dentro do prazo legal.

    Repete o legislador, quase integralmente, a mesma redao constante do inc. I do art. 2 do diplo-ma falimentar anterior, inovando, contudo, quanto nomeao de bens penhora, ao mencionar benssuficientes. No basta, pois, a indicao de bens penhora, sendo necessrio que sejam suficientes.

    Salvo se fizerem parte do plano de recuperao judicial, os atos relacionados no inc. III do art. 94constituem atos falimentares, correspondendo, a maioria deles, aos incs. II a VII do art. 2 do Dec.-lei n7.661/1945. Assim, se o devedor procede liquidao precipitada de seus ativos ou lana mo de meioruinoso ou fraudulento para realizar pagamentos; (inc. III, a).

    Ausente na relao de atos falimentares do art. 94, o disposto no inc. III do Dec.-lei n 7.661/1945considerava ato suficiente ao pedido de falncia a convocao, pelo devedor, dos credores e a propostade dilao, remisso de crditos ou cesso de bens. Se, poca da edio da lei falimentar de 1945, essepoderia ser considerado um ato falimentar, hoje, nenhum sentido faz a restrio anteriormente imposta at

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 19-41, jan./mar. 2005 25

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    porque a nova lei consagra o Captulo VI Recuperao Extrajudicial, que, em ltima anlise, significa acomposio entre devedor e seus credores.

    O art. 94 considera ato falimentar a iniciativa do credor que realiza ou, por atos inequvocos, tentarealizar, com o objetivo de retardar pagamentos ou fraudar credores, negcio simulado ou alienao de parte ouda totalidade de seu ativo a terceiro, credor ou no; (inc. III, b).

    A transferncia de estabelecimento a terceiro nas condies previstas na alnea c do inc. III do art. 94tambm caracteriza ato erigido condio de ensejador do pedido de falncia, transfere estabelecimento aterceiro, credor ou no, sem consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes parasolver seu passivo.

    A alnea d do inc. III do mesmo artigo apresenta novidade em relao aos atos falimentares inte-grantes do rol previsto no art. 2 da lei falimentar anterior. que a simulao de transferncia do principalestabelecimento, na forma prevista na alnea indicada, constitui razo juridicamente suficiente para opedido de falncia, desde que seja realizado com o objetivo de burlar a legislao ou a fiscalizao ou,ainda, para prejudicar credor. Convm assinalar que o principal estabelecimento define a competnciajudicial para decretar a falncia, nos exatos termos do art. 3 da Lei n 11.101, de 09 de fevereiro de 2005.Assim, estabelece o art. 94, III, d: simula a transferncia de seu principal estabelecimento com o objetivode burlar a legislao ou a fiscalizao ou para prejudicar credor.

    A garantia concedida pelo devedor, em razo de dvida contrada anteriormente, integra o rol dosatos qualificados pelo legislador como falimentares, salvo se ficar o devedor com bens livres e desemba-raados para saldar seu passivo. Presume-se que o reforo de garantia ou mesmo sua concesso emnegcio j realizado tenha o objetivo de dotar o crdito, anteriormente constitudo, de melhor condio derecebimento pelo credor de seu efetivo valor. De lembrar que a classificao dos crditos na falncia temagora nova configurao, sendo certo que os crditos com garantia real at o limite do valor do bemgravado preferem, no geral, os crditos tributrios, sendo superados, apenas, pelos crditos derivados dalegislao do trabalho, com limite legal correspondente a 150 salrios mnimos por credor, e os derivadosde acidentes de trabalho, sem limitao legal quanto ao valor (art. 83, I, II e III).

    Dispe o art. 94, III, e: d ou refora garantia a credor por dvida contrada anteriormente semficar com bens livres e desembaraados suficientes para saldar seu passivo.

    O sexto motivo, legalmente suficiente para que se possa requerer a falncia do devedor, estprevisto na letra f do inc. III do art. 94. O devedor que se ausenta, que tenta ocultar-se do seu domiclio ouque abandona o estabelecimento nas condies previstas na mencionada alnea estar praticando atofalimentar. Uma vez mais, o legislador deve ter idealizado a previso normativa, tendo em vista a velhanoo de comerciante que permeou quase todo texto do Dec.-lei n 7.661/1945. A hiptese fica quase querestrita s situaes que envolvam o empresrio individual, visto que so seus atos, sobretudo, os que pres-supem deslocamento fsico que daro ensejo possibilidade legal de declarao judicial da falncia.Ausentar-se, abandonar, ocultar-se constituem um conjunto de iniciativas no compatveis com a organi-zao empresarial societria, mormente aquelas em que a administrao se encontra disseminada pordiversas instncias internas de poder. De toda sorte, releva notar a profunda semelhana do dispositivo daatual lei de falncia em relao ao diploma legal anterior revogado:

    Art. 94, III, f - ausenta-se sem deixar representante habilitado e com recursos suficientes para pagaros credores, abandona estabelecimento ou tenta ocultar-se de seu domiclio, do local de sua sedeou de seu principal estabelecimento.

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 19-41, jan./mar. 200526

    O ltimo dos atos falimentares da relao contida no art. 94 corresponde hiptese de obrigaoassumida e no adimplida pelo devedor no plano de recuperao judicial. No existe correspondnciacom as hipteses contempladas no art. 2 do revogado Dec.-lei n 7.661/1945. A concordata, regida pelodiploma anterior, continha previso no sentido de que, a qualquer tempo, desde que o juiz considerassepresentes os bices legais impeditivos ao processamento do pedido, declararia, de plano, aberta afalncia. Tambm estaria o juiz obrigado decretao da falncia se no atendidos os pressupostosobjetivos e subjetivos, ou na inexatido de qualquer dos documentos apresentados pelo devedor com apetio inicial da concordata. Finalmente, a concordata, uma vez concedida, poderia ser objeto deresciso por sentena proferida pelo juiz, se verificada qualquer das hipteses que a configurasse.

    Da forma em que se encontra redigida a alnea g do inc. III do art. 94, qualquer obrigao, assumidano plano de recuperao judicial e que no seja tempestivamente cumprida pelo devedor, dar azo decla-rao judicial da falncia. No se pode deixar de considerar defeito grave, de natureza redacional, que com-promete o exato alcance da norma. O devedor, no plano de recuperao judicial, assume considervelnmero de obrigaes, sendo que a principal delas reside no cumprimento do plano propriamente dito, comas modificaes sugeridas pelos credores, reunidos em assemblia, ou introduzidas durante a fase decumprimento do plano com a aquiescncia deles. Mas h um sem-nmero de obrigaes satlites que, isola-damente, pouco ou nada representam. Assim, a obrigao inadimplida, suficiente para caracterizar a faln-cia, dever ser aquela correspondente prpria execuo do plano.

    Cabe ressaltar que, uma vez rejeitado o plano de recuperao pela assemblia geral de cre-dores, o juiz decretar a falncia de acordo com o 4 do art. 56. O mesmo ocorrer, por deciso dojuiz, na chamada convolao da recuperao judicial em falncia, arts. 73 e 74 da nova lei falimentar.

    9 Contestao do requerido

    Uma vez citado, o devedor poder contestar o pedido no prazo de 10 dias (art. 98, caput). A alteraodo prazo constitui uma das mais importantes inovaes da nova lei falimentar na fase pr-falencial. De fato, agora o prazo razovel, pois permite ao devedor reunir provas, juntar documentos, preparando-se, enfim,para enfrentar o pedido de decretao de sua falncia - se empresrio individual - ou da sociedade da qualfaa parte e a represente. O sistema anterior estabelecia um prazo inexplicavelmente curto, de 24 horas ape-nas, para que o devedor pudesse defender-se de um pedido judicial que, uma vez julgado procedente, iriaalterar, quem sabe, para sempre, os rumos da sua vida, com intensas conseqncias em todos os aspectos.O compromisso com a celeridade processual jamais constituiu razo juridicamente aceitvel para um prazoto exguo como o constante no Dec.-lei n 7.661/1945.

    Outro ponto digno de destaque a fixao de valor superior a 40 salrios mnimos, do ttulo outtulos executivos protestados, indispensvel ao requerimento de falncia do devedor, que, sem rele-vante razo de direito, no paga no vencimento obrigao lquida.

    No obstante a discricionariedade do legislador em estabelecer limite mnimo para o pedido defalncia, com base no inc. I do art. 94, certo que a lei anterior nada dispunha sobre a questo, o que,muitas vezes, deu ensejo ao ajuizamento de pedidos de falncia com base em valores insignificantes.

    9.1 A recuperao judicial requerida em virtude do pedido de falncia

    A lei falimentar anterior, ao estabelecer as relevantes razes de direito impeditivas da declarao judi-cial da falncia da pessoa contra quem tivesse sido o pedido dirigido, apontava o requerimento de concor-data preventiva anterior citao como causa eficiente para impedir a decretao da falncia.

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    O requerimento de concordata devia, pois, ser anterior citao, no sendo possvel, nem vlido, opedido de concordata oferecido no prazo de defesa do devedor demandado na falncia. A lei atual, ao con-trrio, expressamente admite que, no prazo da contestao ao pedido de falncia apresentado, possa odevedor pleitear sua recuperao judicial. H, neste ponto, expressiva novidade no confronto com o sistemado Dec.-lei n 7.661/1945.

    A recuperao judicial comporta fases distintas, iniciando-se pelo pedido do devedor com a juntadade documentos exigidos em lei, havendo, em seguida, deciso proferida pelo juiz, que deferir o processa-mento da recuperao judicial, se em termos a documentao exigida por lei. Aps a deciso mencionada,o devedor ter o prazo de 60 dias, contados da publicao da deciso que houver deferido o processamentoda recuperao judicial, para apresentar o plano de recuperao. Somem-se a esse prazo os 30 dias con-cedidos por lei a qualquer credor que queira manifestar sua objeo ao plano de recuperao judicial, prazoque se conta da publicao da relao de credores, de iniciativa do administrador judicial. Na hiptese deobjeo ao plano de recuperao por qualquer credor, o juiz convocar assemblia geral de credores paradeliberar sobre o plano de recuperao judicial apresentado. Insta observar que a realizao da assembliageral no poder exceder 150 dias contados do deferimento do processamento da recuperao judicial.

    fcil constatar que, entre o momento do pedido de recuperao judicial e sua efetiva concessoou decretao de falncia, decorrente de rejeio de plano de recuperao pela assemblia geral de cre-dores, haver o transcurso de perodo de tempo razovel e que importar na indefinio quanto ao pedidode falncia que tenha sido apresentado por credor legitimado para tanto.

    No h dvida de que o juiz, ao exame preliminar dos documentos apresentados pelo devedor emseu pedido de recuperao judicial, poder indeferir o processamento do pedido. Uma questo se apre-senta de forma imediata: o devedor que usar a possibilidade de apresentar pedido de recuperao judicial,no prazo de contestao do pedido de falncia, ter que contest-lo?

    Para responder a tal indagao, preciso reafirmar que a falncia e a recuperao judicial cons-tituem aes no sentido tcnico-processual, isto , configuram direito subjetivo tutela jurisdicional. A ao o direito de pedir tutela jurisdicional.

    Ento, como ao autnoma que , a recuperao judicial no constitui, tecnicamente, matria dedefesa a ser oposta pelo devedor em face de pedido de falncia formulado por algum credor seu, a menosque se reconhea que uma ao judicial possa vir a ser contestada por outra ao judicial. O que se tem, naverdade, a prerrogativa chancelada pelo legislador em prol daquele que tenha, contra si, um pedido dedeclarao judicial de falncia. Nesse sentido, a propositura da recuperao judicial evitaria ou retardaria aprolao da sentena falimentar e a produo de todos os efeitos jurdicos que lhe so prprios.

    Claro est que os mesmos requisitos exigidos por lei para que o devedor alcance a recuperaojudicial pretendida, em pedido originrio, se aplicam aos pedidos de recuperao judicial motivadospelo requerimento de falncia.

    Ora, se o legislador admitiu expressamente a hiptese de que, no prazo da contestao, sejarequerida pelo devedor sua recuperao judicial, parece claro que o pedido autnomo e apenasapresentado no prazo correspondente ao da contestao.

    Cabe observar, ainda, que a recuperao judicial pleiteada naquele prazo estar limitada s hip-teses de falncia com base no art. 94, I, da nova lei falimentar, isto , os pedidos de falncia fundados nono-pagamento de obrigao lquida materializada em ttulo ou ttulos executivos protestados. que o art.96 estabelece que a falncia, requerida com base no dispositivo mencionado, no ser decretada no casoda apresentao do pedido de recuperao no prazo de contestao (inc. VII).

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    9.2 O depsito elisivo

    O pargrafo nico do art. 98 estabelece que, nos casos de pedidos de falncia em que o devedor nopague, no vencimento, obrigao lquida sem relevante razo de direito para no faz-lo, ou que, executadopor qualquer quantia lquida, no pague, no deposite ou no nomeie bens suficientes penhora, poder omesmo depositar o valor correspondente ao total do crdito, a includos juros e honorrios advocatcios,mais correo monetria, impedindo, dessa forma, a decretao da falncia. o depsito elisivo, de previsolegal constante da lei anterior que determinava que o mesmo fosse realizado no prazo de defesa, ou seja,nas exguas 24 horas. A norma atual reproduz a mesma obrigatoriedade no sentido de que o depsito sejafeito no prazo da contestao, ou seja, nos 10 dias posteriores citao.

    10 A sentena falimentar: natureza e especificaes

    Diversamente do que ocorre na estrutura do processo civil, em que a sentena o ato pelo qualo juiz pe termo ao processo, decidindo ou no o mrito da causa, a sentena de que trata o art. 99da Lei n 11.101, de 09 de fevereiro de 2005, tem outro significado.

    De fato, o juiz, ao acolher o pedido de falncia apresentado pelo credor ou pelo prprio devedor,extingue a fase pr-falencial, caracterizada pela apresentao do pedido e pela possibilidade de oposiodo devedor, inaugurando o processo falimentar propriamente dito.

    Segundo REQUIO3, em virtude da insolvncia confessada pelo devedor ou denunciada emrequerimento do credor, o estado de fato se transforma em estado de direito por meio da sentenajudicial que declara a falncia. Uma vez declarada a falncia, inicia-se o procedimento falencial pro-priamente dito. Assim, antes da sentena decretatria, inexiste o estado de falncia.

    Atua a sentena prevista no art. 99 como verdadeiro divisor de guas, na medida em que extinguea fase pr-falencial, de natureza cognitiva, processo de conhecimento que , dando incio efetivo aoprocesso de falncia. Basta, para tanto, que se verifique o contedo da sentena falimentar que decretaa falncia acolhendo pleito neste sentido. Estabelece o art. 99:

    I - conter a sntese do pedido, a identificao do falido e os nomes dos que forem a esse temposeus administradores;II - fixar o termo legal da falncia, sem poder retrotra-lo por mais de 90 (noventa) dias contados

    do pedido de falncia, do pedido de recuperao judicial ou do primeiro protesto por falta de paga-mento, excluindo-se, para esta finalidade, os protestos que tenham sido cancelados.

    O termo legal da falncia, para muitos chamado tambm de perodo suspeito, significa o lapsode tempo que medeia entre a sentena que decreta a falncia e o dia fixado pelo juiz, no passado,sem que se possa retrotra-lo por mais de 90 dias. Serve para a identificao de atos que, praticadospelo devedor, sejam prejudiciais aos credores com a quebra do princpio da par condicio creditorum.

    como se a sentena que decreta a falncia do devedor, em alguns casos, produzisse seus efeitosem perodo anterior sua prolao, pois, se certo que, com a decretao da falncia, o devedor perde aadministrao de seus bens e o direito de deles dispor, a lei considera a hiptese de que, em determinadascircunstncias, os efeitos impeditivos para que o devedor pratique atos vlidos incidam mesmo antes deproferida a sentena falimentar.

    3 REQUIO, Rubens. Curso de direito falimentar. 16. ed. So Paulo: Saraiva, 1995, p. 78/79.

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    Para efeito de melhor compreenso do tema, tome-se como exemplo o disposto no art. 129, incs. I, IIe III, da nova lei. Segundo dico do caput do artigo, so ineficazes em relao massa falida os atosprevistos nos mencionados incisos, independentemente de o contratante ter ou no conhecimento do estadode crise econmico-financeira do devedor, sendo ou no inteno do devedor fraudar credores. Assim, sehouver o pagamento de dvidas no vencidas, se houver o pagamento de dvidas vencidas e exigveis porqualquer outra forma que no a prevista no contrato e desde que tais pagamentos tenham sido realizadosdentro do termo legal da falncia, so os mesmos ineficazes em relao massa falida.

    O termo legal da falncia, a ser fixado na sentena que a decreta, constitui, na verdade, o perodo emque se presumem fraudatrios da par condicio creditorum os atos enumerados em lei.

    III - ordenar ao falido que apresente, no prazo mximo de 5 (cinco) dias, relao nominal dos cre-dores, indicando endereo, importncia, natureza e classificao dos respectivos crditos, se estaj no se encontrar nos autos, sob pena de desobedincia;

    O inc. III do art. 99 estabelece a obrigao do falido de apresentar a relao detalhada de credores,especificando valor, natureza e classificao dos crditos com a indicao do endereo de cada um dessescredores. A desobedincia constitui tipo penal previsto no art. 330 do Cdigo Penal, cuja pena varia de 15dias a 6 meses de deteno e multa.

    IV - explicitar o prazo para as habilitaes de crdito, observado o disposto no 1 do art. 7;

    Prev o art. 7 da Lei n 11.101, de 09 de fevereiro de 2005, que a verificao dos crditos serrealizada pelo administrador judicial, que poder contar com o auxlio de profissionais ou empresasespecializadas e ter por fundamento os livros contbeis, os documentos comerciais e fiscais dodevedor e os documentos apresentados pelos credores. Uma vez publicado o edital a que se refere opargrafo nico desse artigo, os credores tero prazo de 15 dias para apresentar suas habilitaes aoadministrador judicial.

    V - ordenar a suspenso de todas as aes ou execues contra o falido, ressalvadas as hiptesesprevistas nos 1 e 2 do art. 6;

    A suspenso das aes e execues propostas contra o devedor em razo da falncia decre-tada depende agora de ordem judicial, diferentemente do que ocorria no sistema legal anterior no quala referida suspenso constitua efeito prprio da lei.

    Para que se efetive a universalidade do juzo falimentar, mister que os credores que tenham inici-ado suas aes e execues individuais se dirijam ao juzo falimentar para que nele postulem os seuscrditos, declarando-os na forma da lei, a fim de que sejam, ao final, admitidos e de que participem doacervo patrimonial da massa. Constitui tambm a suspenso das aes e execues individuais umadas formas de se efetivar na falncia o princpio da par condicio creditorum, isto , a regra de igualdaderelativa entre os credores, titulares de crdito de mesma natureza.

    VI - proibir a prtica de qualquer ato de disposio ou onerao de bens do falido, submetendo-os preli-minarmente autorizao judicial e do Comit, se houver, ressalvados os bens cuja venda faa partedas atividades normais do devedor se autorizada a continuao provisria nos termos do inciso XI;

    A expresso falido quer significar, naturalmente, o empresrio individual ou sociedade empre-sria. A decretao da falncia impe a constituio de uma nova realidade patrimonial, com o afasta-mento do devedor da administrao dos bens que, por efeito da arrecadao, iro integrar a massa

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    falida. Nesse sentido o prprio art. 103 da lei estabelece que o devedor perde o direito de administraros seus bens ou, deles dispor, desde a decretao da falncia ou do seqestro.

    VII - determinar as diligncias necessrias para salvaguardar os interesses das partes envolvidas,podendo ordenar a priso preventiva do falido ou de seus administradores quando requerida comfundamento em provas da prtica de crime definido nesta Lei;

    A lei menciona a hiptese de o juiz, na sentena que decretar a falncia do devedor, ordenar apriso preventiva do falido ou de seus administradores, quando houver provas da prtica de crimedefinido nesta lei.

    VIII - ordenar ao Registro Pblico de Empresas que proceda anotao da falncia no registro dodevedor, para que conste a expresso Falido, a data de decretao da falncia e a inabilitao deque trata o art. 102;

    A Lei n 8.934, de 18 de novembro de 1994, dispe sobre Registro Pblico de EmpresasMercantis e Atividades Afins. Destacam-se, entre suas finalidades, dar garantia, publicidade, autenti-cidade, segurana e eficcia aos atos jurdicos das empresas mercantis que estejam submetidos aregistro na forma da lei (art. 1, I).

    Razovel, portanto, que conste anotao da falncia do que a Lei n 11.101, de 09 de fevereirode 2005, denomina registro do devedor.

    A Lei de Sociedades por Aes exige que o liquidante dever usar a denominao da companhia,em todos os atos ou operaes, seguida das palavras em liquidao, na forma do art. 212.

    O falido ficar inabilitado para exercer qualquer atividade empresarial a partir da decretao dafalncia, situao que perdurar at a sentena que extinguir suas obrigaes nos termos do art. 102da lei falimentar.

    IX - nomear o administrador judicial, que desempenhar suas funes na forma do art. 22, inciso III,sem prejuzo do disposto no art. 35, inciso II, a;

    No sistema do Dec.-lei n 7.661/1945, o administrador judicial era denominado sndico na falncia.No fcil determinar a natureza jurdica das funes do sndico, ensina REQUIO, pois, no constituindoa massa falida pessoa jurdica, o sndico no seria seu representante legal. Tampouco ser mandatrio, nemrepresentante dos credores, muito menos do falido. No h consenso doutrinrio que determine a referidanatureza de modo abrangente, variando desde a identificao do sndico como oficial pblico at a que odenomina sndico-magistrado, passando por correntes que o tratavam como representante dos credores oudo prprio falido.

    Atualmente, o administrador judicial exerce sua atividade sob a fiscalizao do juiz e do Comit,com deveres e atribuies previstos no art. 22 da lei, podendo ser substitudo por deliberao daassemblia geral de credores.

    X - determinar a expedio de ofcios aos rgos e reparties pblica e outras entidades paraque informe a existncia de bens e direitos do falido;XI - pronunciar-se- a respeito da continuao provisria das atividades do falido com o administradorjudicial ou da lacrao dos estabelecimentos, observado o disposto no art. 109 desta Lei;

    O inc. XI prev a hiptese de continuao do negcio ou das atividades do falido a exemplo doque ocorria no art. 74 do Dec.-lei n 7.661/1945. A diferena, fundamental, alis, que no sistema legal

  • Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 56, n 172, p. 19-41, jan./mar. 2005 31

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    vigente ser o prprio juiz que, por ocasio da prolao da sentena que decretar a falncia, dir arespeito da continuao do negcio ou da lacrao do estabelecimento, sempre que houver risco paraarrecadao desses mesmos bens da massa ou dos interesses dos credores.

    A legitimidade estreita conferida pelo decreto-lei, revogado apenas ao falido para requerer acontinuao do negcio, agora outorgada ao juiz. No entanto, sua manifestao sobre o tema estaradstrita ao momento da prolao da sentena. Nesse ponto, no andou bem o legislador, na medidaem que o juiz, ao proferir a sentena que decreta a falncia, dificilmente ir dispor de um conjunto satis-fatrio de informaes que lhe permitam decidir com segurana sobre a espcie.

    XII - determinar, quando entender conveniente, a convocao da assemblia geral de credores para aconstituio de Comit de Credores, podendo ainda autorizar a manuteno do Comit eventualmenteem funcionamento na recuperao judicial quando da decretao da falncia;

    A assemblia geral de credores ser convocada para constituio do Comit de Credores, paradeliberar sobre a adoo de outras modalidades de realizao do ativo, ou qualquer outra matria quepossa afetar os interesses dos credores (art. 35, II, b, c e d). A assemblia geral, prevista no texto de1945, era convocada apenas para deliberar sobre a realizao do ativo (arts. 122 e 123).

    Outro aspecto de realce contido no inc. XII, diz respeito, exatamente, ao Comit de Credores, depreviso legal na Seo III, arts. 21 a 34 da presente lei, que tambm regula as atribuies do adminis-trador judicial.

    XIII - ordenar a intimao do Ministrio Pblico e a comunicao por carta s Fazendas PblicasFederal e de todos os Estados e Municpios em que o devedor tiver estabelecimento, para que tomemconhecimento da falncia.

    As Fazendas Pblicas Federal, Estaduais e Municipais sero comunicadas por carta da sentenadecretatria de falncia.

    11 Recursos

    Art. 100 - Da deciso que decreta a falncia cabe agravo, e da sentena que julga a improcednciado pedido cabe apelao.

    Basicamente, o sistema recursal estabelecido em razo da sentena decretatria de falncia nanova lei idntico quele previsto no Dec.-lei n 7.661/1945, exceo dos embargos que podiam seropostos quando a falncia tivesse sido decretada com base no no-pagamento de obrigao lquida.

    O processo falimentar possui estrutura diferente da prevista no Cdigo de Processo Civil para oprocesso de conhecimento. No CPC, a sentena o ato pelo qual o juiz pe termo ao processo, decidindoou no o mrito. Constitui, efetivamente, a entrega da prestao jurisdicional, pois que o Estado, chamado,se manifesta por meio do juiz para dirimir o conflito estabelecido entre as partes. De tal sorte, o recurso ade-quado em virtude da sentena decretatria de falncia seria o de apelao. Tal no ocorre, porm, em decor-rncia da natureza da sentena falimentar muito mais prxima de deciso interlocutria do que propriamentede ato que pe termo ao processo.

    Interposto diretamente no tribunal, o relator pode atribuir-lhe efeito suspensivo de acordo como que dispe o art. 527, III, do CPC.

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    O prazo de interposio, os efeitos e todos os outros aspectos relacionados ao recurso so osprevistos no Cdigo de Processo Civil.

    No caso de sentena denegatria de falncia, o recurso cabvel ser o de apelao, tambmcom prazo de interposio e efeitos do Cdigo de Processo Civil.

    12 Efeitos da sentena decretatria de falncia

    A inabilitao empresarial do falido e a falncia dos scios ilimitadamente responsveis estoincludas entre as principais inovaes do processo falimentar. A inabilitao perdura desde a decretaoda falncia at a sentena que extingue as obrigaes do falido (art. 102).

    Quanto decretao judicial da falncia do scio ilimitadamente responsvel, a nova lei, em seu art.81, estabelece que o mesmo ficar sujeito aos efeitos jurdicos produzidos em relao sociedade falida,diferentemente do previsto no art. 5 do Dec.-lei n 7.661/1945, que, embora sujeitasse os scios aos efeitosjurdicos da sentena falimentar, no estendia a falncia aos mesmos.

    13 Classificao dos crditos na falncia

    Precedida de intensa polmica por ocasio da tramitao congressual, a classificao dos crditos nafalncia consagra algumas expressivas alteraes em face do texto anterior que resultaram na prelao esta-belecida no art. 83.

    Em fiel observncia aos lindes da presente manifestao, limito-me a anotar o que de mais relevanteexsurge da nova classificao dos crditos na falncia.

    Os crditos trabalhistas continuam a ocupar lugar de realce entre os chamados crditos privile-giados, s que, agora, limitados ao valor de 150 (cento e cinqenta) salrios mnimos. Ao seu lado,figuram os crditos decorrentes de acidente do trabalho, para os quais a lei no estabeleceu qualquerespcie de limitao de valor. O crdito acidentrio continua a ser aquele decorrente de culpa doempregador, no se confundindo, pois, com a indenizao paga pela Previdncia Social.

    O crdito com garantia real ganha posies no quadro de classificao, imediatamente aps os decor-rentes da legislao trabalhista e por acidente do trabalho, garantidos at o limite do bem gravado.

    Para o excedente do crdito com garantia real, assim como para o valor excedente a 150salrios mnimos nas hipteses dos crditos decorrentes da legislao trabalhista, a lei reservou a cat-egoria de quirografrios, criando, por assim dizer, um tipo de par conditio creditorum residual, se me permitida a licenciosidade.

    Os crditos tributrios esto previstos a seguir, independentemente da sua natureza e tempo deconstituio, o que, sem dvida, agrava a situao dos crditos que lhe so posteriores na classificaodo art. 83.

    Insta considerar, ainda no campo da classificao dos crditos na falncia, a instituio dochamado crdito subordinado, previsto na lei ou no contrato, como tambm o crdito do scio ouadministrador sem vnculo empregatcio.

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    A criao, em lei, do chamado crdito subordinado tem, para mim, forte caracterstica de atecnia,porquanto quirografrio ser o crdito destitudo de preferncia, seja revelada por um privilgio (sempreresultante da lei), seja pela constituio de uma garantia real, de tal modo que quirografrios seriam todosos outros crditos no destacados por uma preferncia, quer legal, quer contratual.

    13.1 Crditos extraconcursais

    As remuneraes devidas ao administrador judicial e seus auxiliares, alm dos outros previstosno art. 84, compem o quadro dos chamados crditos extraconcursais e que sero pagos com prece-dncia sobre os mencionados no art. 83.

    Assim, a tormentosa questo relacionada remunerao do sndico da massa falida, mitigada coma edio da Smula 219 do Superior Tribunal de Justia - que equipara a remunerao do sndico aos privi-lgios dos crditos trabalhistas -, mereceu tratamento adequado da lei nova.

    13.2 Obrigaes alimentcias na falncia

    No so exigveis na falncia as obrigaes a ttulo gratuito e as despesas que os credores fizerempara tomar parte na falncia, salvo custas judiciais decorrentes de litgio com o devedor. A nova lei no repro-duz a excluso contida no Dec.-lei n 7.661/1945 (art. 23, pargrafo nico), quanto s prestaes aliment-cias. A primeira doutrina sobre o tema entende que a alterao trazida pela nova lei foi no sentido de noexcluir a exigibilidade das prestaes alimentcias.

    A no-excluso anunciada dever produzir importantes reflexos na medida em que os empresriosindividuais correspondiam, no ano de 2003, a 45% do total das atividades empresariais exercidas em MinasGerais, segundo dados estatsticos da Junta Comercial do Estado.

    14 Principais inovaes quanto ao pedido de restituio

    No sistema anterior cabia restituio de coisa arrecadada em poder do falido quando devida em vir-tude de direito real ou de contrato. A Lei n 11.101/2005, em seu art. 85, estabelece: O proprietrio debem arrecadado no processo de falncia ou que se encontre em poder do devedor na data da decretaoda falncia poder pedir sua restituio (...).

    A restituio em dinheiro se aplica aos valores entregues ao devedor pelo contratante de boa-fna hiptese de revogao ou ineficcia do contrato.

    15 Principais inovaes quanto ao revocatria

    A nova lei cuida da ineficcia e da revogao de atos praticados antes da falncia. A ineficciapoder ser declarada de ofcio pelo juiz, alegada em defesa ou pleiteada mediante ao prpria ouincidentalmente no curso do processo.

    O prazo para propositura da ao revocatria (atos revogveis com a inteno de prejudicarcredores) agora de 3 (trs) anos, contado da decretao da falncia.

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    16 Realizao do ativo

    A nova lei tambm visa evitar o perecimento de ativos decorrentes do no-uso continuado oude m conservao. Dessa forma, seu art. 139 determina o incio imediato da realizao do ativo, logoaps a arrecadao dos bens, independentemente da formao do quadro geral de credores (art. 140, 2). Tal definio constitui uma medida perfeitamente adequada aos interesses dos credores.

    Do mesmo modo, a transferncia de bens a terceiros, provavelmente com melhores condies deexplorao do que o devedor falido, poder assegurar permanncia do nvel de atividade econmica, que,certamente, seria diminudo se os bens e recursos, at ento utilizados pelo falido, no tivessem sidotransferidos.

    17 Assemblia geral, comit de credores e administrador judicial

    A previso legal de existncia no processo falimentar do comit de credores no conhece expe-rincia similar no Dec.-lei n 7.661/1945. A competncia do comit de credores est regulada no art.27 da nova lei falimentar.

    Quanto assemblia geral, a possibilidade de convocao estava restrita hiptese de deliberaosobre o modo de realizao do ativo.

    Na falncia, competir assemblia a constituio do comit; a escolha dos seus membros eseus substitutos; a aprovao de outra modalidade de realizao do ativo, alm das previstas em leipara que sejam homologadas judicialmente; e, ainda, a deliberao sobre qualquer outra matria queseja de interesse dos credores (art. 35, II).

    A aplicao da lei revelar eventual superposio de competncias decorrentes da instauraodo comit e da assemblia geral de credores.

    Desaparece a figura do sndico para surgir a do administrador judicial, com funes assemelhadasao rol de deveres e atribuies elencados no diploma falimentar anterior.

    18 Concluso

    I - Em linhas gerais, a caraterizao do estado falimentar prevista na Lei n 11.101/2005 bastantesemelhante configurao dessa mesma situao disciplinada pelo Dec.-lei n 7.661/1945.

    II - Fundamentalmente, as modificaes mais sensveis foram introduzidas quanto aos objetivosda falncia, preconizados pelo art. 75 da nova lei, no sentido de preservao de ativos e liquidaoimediata de patrimnio.

    III - O prazo de contestao , hoje, muito mais razovel, pois que conferidos ao devedor 10dias, ao contrrio das 24 horas previstas no sistema anterior.

    IV - O valor mnimo para o pedido de falncia corresponde a 40 salrios mnimos, inexistindotal previso no regime do Dec.-lei n 7.661/1945.

    V - No prazo de contestao, poder o devedor cuja falncia tenha sido requerida pleitear suarecuperao judicial.

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    VI - Em razo da possibilidade de requerimento pelo devedor da recuperao judicial, no prazo decontestao ao pedido de falncia ajuizado, o nmero de falncias decretadas dever sofrer drsticareduo, pelo menos nos primeiros anos de vigncia da Lei n 11.101/2005.

    VII - As obrigaes alimentcias, no reclamveis na falncia segundo o Dec.-lei n 7.661/1945,podero ser pleiteadas com o advento da nova lei, em razo da ausncia de restrio em seu texto.

    VIII - O pedido de restituio deixa de contemplar as relaes contratuais diferentemente do quedispe o Dec.-lei n 7.661/1945.

    IX - Quanto revocatria, a ineficcia de atos praticados antes da falncia poder ser declaradade ofcio pelo juiz, alegada em defesa ou, ainda, pleiteada mediante ao prpria.

    X - A Lei n 11.101/2005 prev a existncia do comit de credores, instncia no conhecida nombito da lei falimentar anterior.

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    O papel do magistrado na efetivao do princpio do contraditrio no processo penal

    Dr. Felipe Martins Pinto*

    1 Histrico da funo judicante

    Perquirindo-se a origem histria da funo judicante, verificar-se- a sua existncia desde ospovos mais primitivos, sendo que, nestes, as diversas funes do Estado, inclusive a jurisdicional,aparecem entrelaadas e entregues a um nico rgo.

    O perodo feudal pulverizou o poder do Estado: os diversos senhores feudais eram verdadeirosdspotas em sua poro de terras, no reportando suas aes ao rei, que consistia em mera figuradecorativa. Dentro deste contexto, existia o tribunal real, que jamais ousava contrariar os interessesdos senhores feudais, e, paralelamente, existiam outros tribunais que se tornaram necessrios paradirimir litgios entre os proprietrios de terra e os arrendatrios, tribunais estes sempre informados pelaregra que atribua aos primeiros a tarefa de fazer justia aos segundos1.

    Neste momento histrico, os julgadores no possuam autonomia, mas, muito pelo contrrio,estavam vinculados aos senhores feudais e, por esta razo, no podiam desagrad-los. Dessamaneira, as decises dos tribunais eram manipuladas para atender aos interesses daqueles senhores.A estrutura poltica entrelaada com o poder jurisdicional impedia que o provimento fosse gerado deforma legtima, a partir da discusso em contraditrio entre as partes. A funo jurisdicional cumpria opapel de fortalecer e perpetuar o poder dos senhores feudais.

    O crepsculo do Feudalismo propiciou o rearranjo da estrutura de poder do Estado, que novamenteretornou para as mos do governante. Buscou-se implodir a impunidade estabelecida no sistema feudale estabelecer um novo mtodo para o julgamento dos delitos cometidos. Foram criadas normas rgidasque mitigavam a liberdade do julgador, limitando-se, desta forma, a pessoalidade que predominava noexerccio da funo do juiz.

    Dessa reestruturao processual, surgiu o processo inquisitrio, desaparecendo a frgil relaoprocessual triangular que existia e nascendo uma relao linear entre o juiz e o ru, tendo este ltimo setornado um objeto de investigao e passado a sofrer tormentos fsicos e psicolgicos terrveis, sob o pre-texto de se investigar a verdade real dos fatos.

    No exerccio da investigao, o julgador, despido de liberdade, seguia cegamente o prottipode cdigo penal e de processo penal da poca, o Martelo das Bruxas ou Maleus Maleficarum, no qualestavam descritas as infraes, as respectivas punies e os ritos, contendo, inclusive, relatos de tor-turas que serviam de referncia para os juzes-inquisidores.

    Durante a inquisio, os julgadores-acusadores valiam-se da instruo processual no para for-mar o seu convencimento, mas para obter elementos que corroborassem a acusao por eles formu-lada. Para estes juzes-inquisidores quanto menores fossem as oportunidades de defesa do acusado,

    (*) Advogado Criminalista. Mestre em Cincias Penais pela UFMG. Diretor de Comunicaes do Instituto de Cincias Penais.1 TORNAGHI, Helio. Instituies de processo penal. Rio de Janeiro: Forense, 1959, v. II, p. 278.

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    mais fcil seria a sustentao da acusao por eles apresentada. Assim, a sentena condenatria erao triunfo das alegaes do magistrado formuladas na exordial.

    A partir do ano 1276, o Rei Henrique II organizou o sistema repressivo na Inglaterra, introduzindogarantias aos rus, com o objetivo de extirpar as atrocidades at ento praticadas. Valendo-se dos juzesambulantes ou juzes de circuito2, que permitiam que o poder real se aproximasse do povo, os julgamentoalcanavam o interior do pas, garantindo a soluo dos litgios, inclusive dos indivduos pertencentes scamadas inferiores da sociedade. Ademais, nos julgamentos, passou-se a ouvir os presos e a relaxar apriso provisria dos mesmos, nos casos de descabimento.

    Ademais, estes juzes ambulantes, freqentemente, debatiam sobre os casos mais inquietantese, a partir destas discusses, estabeleciam as referncias para os julgamentos futuros, originando-sedesta estrutura o sistema Common Law.

    Em 1789, a partir das influncias dos ideais iluministas, ocorreu a Revoluo Francesa, havendo sidoproclamada a Declarao Universal dos Direitos do Homem e iniciando-se uma busca pela defesa dosdireitos individuais. O julgador deixou de exercer a funo de acusador, agora desempenhada pelo repre-sentante do Ministrio Pblico, e o acusado, no mais objeto do processo, conquistou direitos e garantiasque, em razo da natureza liberal do Estado, mantiveram-se apenas no plano formal.

    A supresso da funo acusatria da pessoa do magistrado consistiu em um passo fundamental paraviabilizar a construo do atual modelo de princpio do contraditrio, pois assentou o Julgador em uma posioeqidistante das partes, retirando-lhe a parcialidade que o modelo inquisitorial lhe havia outorgado.

    Na histria do Brasil, desde a Constituio de 1824, reconhece-se a funo judicante como inte-grante dos Poderes do Estado3. No entanto, neste momento histrico, havia uma estreita vinculaoentre o Imperador e o magistrado, sendo que cabia ao primeiro nomear os magistrados4. Ademais,apesar dos destaques que o texto constitucional imprimiu independncia do Poder Judicial e per-petuidade dos juzes de direito, no lhes foi assegurada a inamovibilidade5, sendo, ainda, facultado aoImperador suspender os magistrados por faltas praticadas6. Esta subordinao do Poder Judicial aoImperador comprometia a autonomia dos magistrados e, conseqentemente, inviabilizava a adequadaobservncia do princpio do contraditrio.

    Paulatinamente, as Constituies subseqentes foram conferindo aos membros da Magis-tratura novas garantias e foram desvinculando o Poder Judicirio do Poder Executivo, assegurando,desta maneira, uma progressiva autonomia para o exerccio da funo judicante, a qual culminou coma promulgao da Carta Constitucional de 1988, que propiciou uma alterao substancial na naturezado Estado, retirando as vendas postas pelo modelo ditatorial e abrindo os olhos de todos para umfecundo horizonte de liberdade e participao do povo nas emanaes de poder do Estado.

    2 TORNAGHI, Helio. Instituies de processo penal. Rio de Janeiro: Forense, 1959, v. II, p. 281.3 Art. 10. Os Poderes Politicos reconhecidos pela Constituio do Imperio do Brazil so quatro: o Poder Legislativo, o PoderModerador, o Poder Executivo, e o Poder Judicial.4 Art. 102. O Imperador o Chefe do Poder Executivo, e o exercita pelos seus Ministros de Estado.(...)III. Nomear Magistrados.5 Art. 153. Os Juizes de Direito sero perpetuos, o que todavia se no entende, que no possam ser mudados de uns paraoutros Logares pelo tempo, e maneira, que a Lei determinar.6 Art. 154. O Imperador poder suspendel-os por queixas contra elles feitas, precedendo audiencia dos mesmos Juizes, infor-mao necessaria, e ouvido o Conselho de Estado. Os papeis, que lhes so concernentes, sero remettidos Relao dorespectivo Districto, para proceder na frma da Lei.

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    Contemporaneamente, o Poder Judicirio, alm das garantias previstas pelas Constituiesanteriores, alcanou novas prerrogativas e vive hoje o apogeu de sua independncia, possuindo,inclusive, a autonomia financeira e administrativa.

    Esta independncia do Poder Judicirio propicia o terreno adequado para o florescimento de umaestrutura processual democrtica, balizada na simtrica igualdade de posies das partes. O magistradopode zelar pela adequada observncia do princpio do contraditrio sem o receio de sofrer prejuzos profis-sionais e sem o risco de ser afligido por retaliaes advindas dos demais Poderes constitudos do Estado.

    O fortalecimento do Poder Judicirio condio sine qua non para a edificao de um modelodemocrtico de Estado, que pressupe a participao dos indivduos no apenas na escolha dos gover-nantes, mas em todos os estratos de poder. Nesta tarefa, os tribunais so os elos entre os indivduos e oEstado, zelando para que todas as leses a direitos individuais ou coletivos sejam apuradas e caso e,quando couber, sejam devidamente reparadas.

    2 O magistrado como elemento indispensvel para a efetivao da estrutura processual penaldemocrtica

    Ao observar o aparato solene da ctedra, das togas, da priso, dos penachos dos carabineiros atrs do juiz-presidente, do Ministrio Pblico que acusa, dos advogados que defendem, do pblico que assiste, entre tensoe apaixonado, fcil as pessoas terem a iluso de que o que sai dos lbios do juiz, ao final do processo, averdade. Pode ocorrer de a sentena exprimir a verdade, no entanto, ningum o sabe. Poder ser que sim, podeser que no.7

    A busca do ideal de justia e da verdade dos fatos deve sempre iluminar a mente dos operadoresdo Direito, como diretriz tica a ser seguida, no devendo o seu papel ultrapassar este patamar, sob penade tornar fictcia e fantasiosa a aplicao do Direito.

    O ordenamento jurdico contemporneo rompeu os discursos falaciosos que outorgavammatizes transcendentais atividade judicante, conferindo ao julgador, em alguns momentos histricos,exce