Karin Boye - Kalocaína

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Em um país em constante guerra, um cientista cria a droga da verdade perfeita.

Text of Karin Boye - Kalocaína

Karin BoyeKalocanaTraduzido do sueco porJaner Cristaldo1974

Este livro que me proponho a escrever parecer sem sentido para muitos se ao menos ouso pensar que muitos podero l-lo , pois o iniciei espontaneamente, sem ordens de ningum e, no entanto nem certamente eu mesmo sei qual meu objetivo. Quero e preciso, isso tudo. Pouco a pouco, inexoravelmente, acabamos nos perguntando pelo objetivo e mtodo do que fazemos e dizemos, de modo que palavra alguma caia ao azar mas o autor deste livro foi forado a tomar o caminho oposto, em direo ao intil. Pois apesar de meus anos aqui como prisioneiro e qumico sero mais de vinte, penso terem sido suficientemente cheios de trabalho e pressa, algo me disse no ser isto suficiente e me conduziu e fez vislumbrar um outro trabalho dentro de mim, que eu pessoalmente no tinha possibilidade alguma de descobrir, embora estivesse profunda e dolorosamente interessado nele. Este trabalho estar concludo quando eu tiver escrito meu livro. Percebo tambm quo ilgicos se apresentam meus escritos aos pensadores racionais e prticos. Mesmo assim escrevo.Talvez no tivesse ousado antes. Talvez tenha sido o aprisionamento que me tornou frvolo. Minhas condies de vida agora pouco se diferenciam de quando vivia como homem livre. A comida apresenta-se um pouco pior aqui com isto a gente se acostuma. A maca um pouco mais dura que minha cama, em casa, na Cidade Qumica n 4 com isto tambm a gente se acostuma. O pior foi a perda de minha mulher e meus filhos, principalmente porque nada soube nem sei de seus destinos; isto encheu meus primeiros anos de priso de inquietude e angstia. Mas com o correr do tempo, comecei a sentir-se mais tranquilo que antes e inclusive a gostar mais e mais de minha existncia. Aqui nada me inquietava. No tinha subordinados nem chefes exceto os vigias da priso, que raramente me atrapalhavam e apenas se preocupavam em saber se eu tinha seguido as instrues. No tinha protetores nem concorrentes. Os cientistas com quem s vezes me reunia para acompanhar novas experincias no campo da qumica, tratavam-me com polidez e objetividade, ainda que condescendentes em razo de minha nacionalidade estrangeira. Sabia que ningum julgava ter razes para invejar-me. Em suma: de certa forma, podia sentir-me mais livre que em liberdade. Mas junto com a tranquilidade, crescia tambm em mim este estranho trabalho com o passado, e no posso aspirar a nenhuma calma antes de ter escrito as memrias de um perodo cheio de significado em minha vida. A possibilidade de escrever me foi dada em razo de meus trabalhos cientficos, e o controle se exercia apenas no momento em que eu entregava um trabalho pronto. Posso assim pagar-me esta nica alegria, embora talvez seja minha ltima chance.Na poca em que meu relato comea, eu me aproximava dos quarenta. Se, de resto, preciso apresentar-me, posso talvez falar sobre a imagem que fao da vida. Existem poucas coisas que me digam mais sobre um homem que sua concepo de vida; se a v como um caminho, um campo de batalha, uma rvore que cresce ou um mar tempestuoso. De minha parte, vejo-a com os olhos ingnuos de um colegial, como uma escada por onde subimos de degrau em degrau, to rpido quanto possvel, com a respirao opressa e os adversrios nos calcanhares. Em verdade, eu no tinha adversrios. A maioria de meus colegas do laboratrio havia dirigido todas as suas ambies ao servio militar e viam o trabalho dirio como uma desagradvel interrupo daquele servio. Pessoalmente, no queria confessar-lhes que estava mais interessado em minha qumica que no servio militar, embora estivesse consciente de no ser mau soldado. Seja como for, eu subira em minha escada. Sobre quantos degraus deixara para trs, jamais havia cogitado; tampouco no que de esplendoroso poderia existir no topo. Talvez imaginasse nebulosamente a casa da vida como uma de nossas casas comuns da cidade, por onde se subia do interior da terra at chegar ao terrao, ao ar livre, ao vento e luz do dia. O que corresponderia luz ao vento em minha peregrinao pela vida, no fao idia. Sabia apenas que cada avano de degrau era indicado por curtos comunicados oficiais de escales superiores sobre um exame realizado, uma prova superada, uma transferncia para um campo de atividades mais significativo. Eu tinha uma longa srie destes vitais pontos de partida e chegada atrs de mim, embora nem tantos para que um novo empalidecesse em significado. Por isso eu voltara com uma gota de febre no sangue no curto telefonema que me comunicara que poderia esperar meu chefe no dia seguinte e assim comear experincias com material humano. Amanh aconteceria ento a prova de fogo da minha at agora inveno.Eu estava to excitado que me foi difcil comear algo novo durante os dez minutos que ainda restavam de trabalho. Em vez disso, sabotei um bocado do servio acredito que pela primeira vez em minha vida e comecei a instalar antecipadamente a aparelhagem, lenta e cuidadosamente, enquanto olhava sub-repticiamente para ambos os lados, atravs das paredes de vidro, para ver se algum me vigiava. To logo a campainha anunciou o fim da jornada, avancei rapidamente pelos corredores, entre os primeiros da torrente. Tomei uma ducha rpida, troquei as roupas de trabalho pelo uniforme de lazer, corri ao elevador e parei alguns segundos em cima, na rua. Como havia recebido residncia em meu distrito de trabalho, tinha licena de superfcie e sempre a aproveitava para dar uma esticada ao ar livre.Em frente estao de metr, ocorreu-me que poderia esperar Linda. Como era bastante cedo, ela certamente ainda no tivera tempo de chegar em casa, cerca de vinte minutos de metr, da fbrica de alimentos onde trabalhava. Um trem acabara de chegar, e um rio de gente jorrou da terra, estreitou-se entre os portes de sada onde as licenas de superfcie eram controladas, e filtrou-se pelas ruas prximas. Alm das plataformas agora vazias, alm das persianas cinza-montanha e verde-grama levantadas, que em dez minutos poderiam camuflar a cidade, tornando-a invisvel, contemplei a multido formigante de cidados-soldados em uniforme de lazer que retornavam para casa, e subitamente me apercebi de que talvez todos alimentassem o mesmo sonho que eu: sonhavam com o caminho mais para o alto.A idia fulminou-me. Sabia que antes, durante a poca civil, os homens tinham de ser atrados ao trabalho e fadiga com a esperana de residncias mais espaosas, comida melhor e roupas mais bonitas. Agora nada disso era necessrio. O apartamento modelo um quarto para os solteiros, dois para as famlias satisfazia a todos, desde os mais modestos aos mais merecedores. A comida das cozinhas centrais alimentava to bem o general como o recruta. O uniforme geral um para o trabalho, um para o lazer e outro para o servio militar e policial era igual para todos, para homem e mulher, superior e subalterno, exceto quanto s distines de grau. Inclusive este no era mais pomposo para o primeiro do que para o segundo. O desejvel em um mais alto grau estava apenas naquilo que simbolizava. To altamente espiritualizado, pensei feliz, cada cidado-soldado do Estado Mundial, que mal concebe o mais alto valor da vida com forma mais concreta que trs divisas pretas no brao trs divisas pretas que so para ela uma garantia, tanto para sua auto-estima quanto para o respeito de outrem. Bem-estar material pode-se ter o suficiente e mais que o suficiente exatamente por isto suspeito que os apartamentos de doze quartos dos antigos civis capitalistas eram pouco mais que um smbolo mas o mais sutil de todos, que se persegue sob a forma da distino de grau, no d a ningum mais comida. Ningum alcana tanta considerao e auto-estima a ponto de no desejar alcanar mais. No mais espiritualizado, no mais etreo e inacessvel de tudo, repousa nossa ordem estabelecida, tranquila e fixa por todos os tempos.Assim meditava eu na sada do metr e via como em um sonho o vigia ir e voltar ao longo dos pontiagudos muros do distrito. Quatro trens haviam chegado, quatro vezes a multido jorrou na luz do dia, quando finalmente Linda passou pelos controles. Apressei o passo e continuamos lado a lado. Naturalmente no podamos falar devido aos exerccios areos das esquadrilhas, que dia e noite no permitiam que se mantivesse qualquer conversa fora de casa. Em todo caso, ela viu minha fisionomia alegre e cumprimentou-me com a cabea, embora sria como sempre. At que chegssemos ao prdio residencial e o elevador nos descesse at nosso apartamento, envolveu-nos um relativo silncio o rudo do metr, que sacudia as paredes, j no era to forte, de modo que se podia falar mas mesmo assim evitamos qualquer conversa at entrar. Se algum nos surpreendesse falando no elevador, seria perfeitamente natural a suspeita que discutamos assuntos que no queramos que as crianas ou a criada ouvissem. Tais casos haviam ocorrido, quando subversivos e outros criminosos queriam empregar o elevador como local de conspirao; era um lugar adequado, pois por motivos tcnicos os olhos e ouvidos da polcia no podiam ser montados num elevador e, alm disso, o porteiro geralmente tinha coisas mais importantes a fazer do que correr e escutar nas escadarias. Mesmo assim nos calamos cautelosamente at entrar na sala de estar familiar, onde a criada da semana j havia posto a mesa com a janta e esperava com as crianas, que havia apanhado na creche do prdio. Parecia ser meticulosa e gentil, e nossa amvel saudao no dependia apenas de sabermos que ela, no fim de semana, tinha de deixar um relatrio sobre a famlia uma reforma que se supunha ter melhorado a atmosfera de muitos lares. Uma ambincia de alegria e bem-estar envolvia nossa mesa, principalmente quando Ossu, nosso filho mais velho estava conosco. Ele havia chegado do acampamento infantil, pois era sua noite de ficar em casa. Tenho boas novas disse para Linda, por cima da sopa de batatas Meu experimento chegou a um ponto tal que amanh posso comear com material humano, sob a superviso de um chefe de controle. Que achas que ser? perguntou Linda.Ningum notou nada, mas sobressal

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