LER DORT Fatores Psicossociais

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    As LER/DORT como um Fenmeno multifatorial e multidimensional: Um Estudo sobre os Fatores Organizacionais e Psicossociais.

    Autoria: Paulo Wenderson Teixeira Moraes

    O mundo do trabalho na contemporaneidade est relacionado com a proliferao de

    diversas doenas, sobretudo devido precarizao das condies laborais, como reduo dos salrios, sobrecarga de tarefas e estresse. Nesse contexto, tem aumentado a incidncia das Leses por Esforo Repetitivo/Distrbios Osteomusculares Relacionados com o Trabalho (LER/DORT), que so comumente definidos como uma doena relacionada com o trabalho que atinge principalmente pessoas submetidas a intensas atividades repetitivas e vem provocando sequelas irreversveis aos trabalhadores, podendo at acarretar na invalidez permanente. Em 2008, foram gastos mais de 89 milhes com 108.844 auxlios para essa doena, de acordo com a Previdncia Socal do Brasil (DATAPREV). J nos EUA, os custos com LER/DORT so em torno de U$ 50 bi por ano, segundo o Departamento do Trabalho dos EUA. Alm das despesas previdencirias, h o custo organizacional, como, por exemplo, a diminuio da produtividade e recolocao de funcionrios, que desencadeia o aumento do absentesmo, reduz a lucratividade e diminui a qualidade nos servios. Os trabalhadores enfrentam um intenso sofrimento psquico, estresse e insatisfao com o trabalho, que afetam a capacidade de sentir prazer e a qualidade de vida. O objetivo deste artigo foi analisar a complexidade dos fatores psicossociais das LER/DORT e a fragmentao das pesquisas na rea de Administrao atravs da reviso da literatura. A complexidade da dimenso psicossocial decorrente da prpria complexidade do fator humano e os instrumentos estatsticos tm avanado na produo de resultados e incorporao dessa complexidade nos desenhos de pesquisa. O conceito de singularidade que vem da prpria fsica muito apropriado para descrever essa situao: ainda no se domina os fatores causadores das singularidades e utiliza-se de probabilidades para se aproximar do fenmeno. Nesse sentido, o avano das tcnicas estatsticas tm sido de grande valia na compreenso dessa complexidade, seja na fsica ou nos fatores psicossociais. Apesar das pesquisas sobre LER/DORT e dos programas de preveno e interveno inicialmente terem se concentrado quase que exclusivamente nos fatores biofsicos, como a ergonomia e a fisiologia, algumas contribuies relevantes tm destacado os outros fatores de risco. Trabalhos focalizando a organizao do trabalho e os fatores psicossociais vm demonstrando que a satisfao com o trabalho, o suporte social, autonomia na tarefa e o estilo de gesto so variveis que interferem no desencadeamento, desenvolvimento e reabilitao dessa doena. As LER/DORT so um fenmeno multifatorial (fatores: biomecnicos, organizacionais e psicossocais) e multidimensional (dimenses: individual, grupal e social). Um desafio para a pesquisa compreender como os fatores e as dimenses interagem entre si para produzir ou potencializar os sintomas e como impactam na reabilitao e preveno. Diversos estudos tm apontado que no mais possvel considerar apenas os aspectos biomecnicos e deixar em segundo plano os fatores organizacionais e psicossociais.

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    INTRODUO As Leses por Esforo Repetitivo / Distrbios Osteomusculares Relacionados com o

    Trabalho (LER/DORT), so comumente definidas como uma doena relacionada ao trabalho que atinge principalmente pessoas submetidas a intensas atividades repetitivas. No existe uma causa nica, porm os fatores fsicos so destacados tanto na preveno quanto no tratamento.

    Apesar do nome Leso, nem sempre existe uma leso correspondente. Algumas das doenas subjacentes ao termo LER/DORT so tedinite, epicondilite e sndrome do tnel do Carpo, porm o diagnstico LER/DORT por si s no especifica a presena de alguma dessas doenas e nem mesmo indica em que lugar do corpo encontra-se a debilidade. Portanto, o principal problema do conceito de LER que no encerra um diagnstico em si, pois o que ocorre no uma leso generalizada, mas leses especficas. O diagnstico LER pouco especfico, pois no diz em qual ponto a leso. Isso criou um grande transtorno, pois, em muitos casos, no h nem mesmo leso subjacente queixa de dor, tornando o diagnstico difcil e problemtico. (ANATONALIA, 2008).

    Muitas vezes, um quadro de queixa de dor intensa num membro ou na coluna de uma pessoa que trabalha com movimentos repetitivos pode conduzir a um diagnstico de LER/DORT, mesmo que nos exames no sejam encontradas as leses correspondentes. Toda dor deve ser considerada como real e legtima, independentemente da sua origem psicolgia ou fsica. Tanto uma dor fsica pode provocar impactos na dimenso psicolgica, que reflexamente agrava o quadro da dor, quanto uma dor de origem psicolgica pode impactar no corpo, tambm reflexamente agravando a situao. Tratando-se de LER/DORT, ambos os caminhos so possveis de acontecer (MERSKEY, 1996).

    Este fenmeno vem provocando seqelas irreversveis aos trabalhadores que podem implicar na invalidez permanente. A dor e fragilidade nos membros ou na coluna podem tornar-se crnicas e impossibilitar at mesmo a realizao das tarefas mais simples e banais do cotidiano. De acordo com o CESAT/SESAB (2009), foram notificados 3317 casos de LER/DORT, na Bahia, em 2009, sendo 1543 casos em Salvador. Vale ressaltar, que existe uma grande subnotificao, tendo em vista as implicaes sociais, polticas e pessoais que esto fortemente associadas a essa doena (COUTO, 2007; ANATONALIA, 2008). Ou seja, nem todos os casos de LER/DORT so notificados aos rgos de sade pblica.

    Em 2008, foram gastos no Brasil R$ 89.390.000,00 com 108.844 auxlios-doena relacionados com as Doenas do Sistema Osteomuscular e do Tecido Conjuntivo (PREVIDNCIA SOCAL DO BRASIL - DATAPREV). Nos EUA os custos com LER/DORT so em torno de 50 bi U$ por ano, segundo The U.S. Department of Labor (COOVERT, M. D.; THOMPSON, 2003). Alm das despesas previdencirias, h o custo organizacional, como diminuio da produtividade e recolocao de funcionrios, alm de desencadear o aumento do absentesmo, reduo da lucratividade e da qualidade nos servios. J os trabalhadores efrentam um intenso sofrimento psquico, estresse e insatisfao com o trabalho, que afetam a capacidade de sentir prazer e a qualidade de vida.

    O objetivo deste artigo foi analisar a complexidade dos fatores psicossociais das LER/DORT e a fragmentao das pesquisas na rea, atravs de uma reviso da literatura. Primeiramente foi apresentada uma breve histria da terminologia do fenmeno. Depois foi apresentado um mapa conceitual no qual as referncias foram organizadas em categorias. Os trabalhos foram apresentados de acordo com tais categorias. No final, foram feitas as consideraes finais.

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    A HISTRIA DO TERMO LER/DORT As LER/DORT so um fenmeno relativamente antigo associado a trabalhos manuais

    repetitivos. Ramazzini, em 1713, denominou "doena dos escreventes e caixas" (diseases of clerks and scribes), aquela que tem como causa o uso repetitivo, em posio esttica, das mos, produzindo tenso psicolgica. J em 1833, Charles Bell descreveu a cimbra dos escritores ("writer's cramp"). Em 1882, era descrita a cimbra dos telegrafistas e, em 1888, surgiu a denominao neurose ocupacional cunhada por Gower. Para este ltimo, a cimbra dos escritores relacionava-se com problemas no sistema nervoso central e que os sujeitos tinham um temperamento nervoso distinto, eram irritveis, sensitivos, toleravam sobrecarga de trabalho, alm de serem gravemente ansiosos. Em 1891 surgiu o termo tendinite, com DeQuervain. Em 1938 houve o reconhecimento previdencirio da doena nos EUA. (IRELAND, 1995; GERR e outros, 1991). Na figura 1, a seguir, possvel observar os diferentes nomes que antecederam a terminologia LER/DORT desde o sculo XVIII.

    Figura 1: histrico dos nomes anteriores LER/DORT A denominao repetition strain injury (RSI), tornou-se famosa apenas na dcada

    de 1980, devido, sobretudo, ao que ficou conhecida como epidemia australiana. Na Austrlia, houve um crescimento rpido da doena que acabou repercutindo em outros pases. Aqui no Brasil, a primeira denominao leso por esforo repetitivo (LER) praticamente a traduo direta de RSI e foi reconhecida pela Previdncia Social do Brasil, em 1987. O que chamou a ateno na histria desse fenmeno que ele se intensifica com grandes mudanas da tecnologia e da organizao do trabalho que so introduzidas, fragilizando e desestabilizando um grande contingente de trabalhadores. Os termos tm uma ligao com a tecnologia subjacente ao momento histrico: a mquina de escrever, o telgrafo e o computador.

    A aceitao do tratamento em relao aos casos nos quais so constatadas desordens inflamatrias, j est bastante consolidada. Porm, quanto s queixas no especficas de formigamento, enfraquecimento e desconforto nos membros superiores, o dilema assustador (HIGGS; MACKINNON, 1995). O embarao para a medicina no pequeno e o caminho natural foi a construo de uma nova denominao: cumulative trauma disorder (CTD). Essa terminologia, entretanto, no especifica a relao com o trabalho e no garante que o diagnstico aponte apenas para as causas fsicas e palpveis, como a Sndrome do Tnel de Carpo, Tendinites e Tenosinovites. O organismo o foco da maioria dos estudos biomdicos, contribuindo para consolidar a idia de uma predisposio orgnica doena, ou seja, a predisposio de um organismo submetido a uma forma de funcionamento inadequado. Entretanto, mesmo nesse modelo, possvel observar que as causas no se resumem somente

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    repetio. Na lngua inglesa, encontra-se a terminologia work related upper limb disorder

    (WRULD) e work related upper extremity disorder (WRUED), enquanto que na Frana, usa-se troubles musculosquelettiques (TMS), termo que na traduo para o ingls equivale a musculoskeletal disorders (MSD). No Brasil, foi cunhada a expresso Distrbios Osteomusculares Relacionados ao