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  • LER - LESES POR ESFOROS REPETITIVOS: UMA REFLE-XO SOBRE OS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS*

    Mareia Elena Rodrigues Gravina*

    * Resumo da Dissertao de Mestrado apresentada no Departamento de Sade Ambiental da Faculdade de Sade Pblica da Universidade de So Paulo ** Fonoaudiloga, Mestre em Sade Pblica e relacionamento integrado de RH da Caixa Econmica Federal, e-mail: marcia.gravina@caixa.gov.br

    RESUMO: O objetivo deste estudo foi o de contribuir para a compreenso dos fenmenos que envolvem as LER e sua relao com o mundo do trabalho, refletindo sobre a multiplicidade dos fatores, dando nfase dimenso psicossocial a partir de depoimentos de pessoas com LER. A opo foi pela metodologia qualitativa e, pelas caractersticas da pesquisa, o instrumental escolhido foi o estudo de caso. Foram realizadas entrevistas com quatro bancrias com diagnstico de LER e que estavam afastadas do trabalho. As entrevistas foram realizadas individualmente utilizando-se um roteiro semi estruturado, em data e horrios previamente marcados e tiveram a durao media de duas horas cada uma. As pessoas apresentaram: descrdito no adoecimento; insatisfao e revolta por no poder mais fazer coisas importantes para a vida pessoal; dificuldades em mostrar a doena e fazer com que os outros acreditem nela; falta de reconhecimento pelo trabalho realizado; perda de identidade; ansiedade pelo desconhecido; estado de estresse e esgotamento muito acentuado; limitaes impostas pela doena. Em concluso pode ser apresentado: interferncia da organizao do trabalho e das relaes de trabalho no adoecimento; o sofrimento fsico que antecede e precede o adoecimento; onipresena da dor e as limitaes impostas em nvel fsico e mental que impossibilitam projetos de vida; dificuldades no diagnstico e tratamento; comprometimento da vida pessoal e familiar.

    PALAVRAS-CHAVE: Leses por Esforos Repetitivos; Aspectos Psicossociais; Trabalho bancrio.

    mailto:marcia.gravina@caixa.gov.br

  • AS TRANSFORMAES NO MUNDO DO TRABALHO E A AUTOMAO BANCRIA

    Um marco nas relaes de trabalho se d a partir da Revoluo Industrial que teve

    seu incio no Sculo XIX na Europa, seguida da Amrica do Norte e modificou a vida das

    pessoas. Grupos familiares abandonaram o trabalho autnomo de artesanato para se dedicar

    s atividades fabris onde pouca ou nenhuma habilidade era exigida, devido ao uso das

    mquinas.

    Foi o comeo da era industrial e do capitalismo e, para alcanar a produo desejada

    era necessrio o uso de mtodos de trabalho diferentes. Foram muitas as tentativas de

    codificar a administrao e torn-la o mais cientfica possvel. Vrios estudiosos se

    concentravam em procurar formas pormenorizadas de controle e mtodos com a inteno

    de atender s exigncias de produtividade determinadas pela nova sociedade. Entre eles

    foi importante a contribuio dada por TAYLOR, um engenheiro americano que escreveu

    Princpios da Administrao Cientfica, na primeira metade do Sculo XX. Na mesma poca

    Ford procurou operacionalizar a demanda existente entre consumidores potenciais atravs

    da criao de um modelo de carro que pudesse ser dirigido por qualquer pessoa. Para tanto

    criou um sistema adequado ao pronto atendimento de produo.

    A principal caracterstica deste tipo de produo foi a separao entre a mente e o

    corpo, ou seja para a produo no necessrio utilizar a inteligncia ou a criatividade, o

    homem est destinado a produzir. Apesar de terem sido realizados estudos a respeito das

    necessidades humanas e da motivao, a influncia da administrao cientfica muito

    forte e perdura at hoje, podendo ser notada em muitas cadeias de refeies rpidas,

    linhas de montagem das fbricas, escritrios, entre outras.

    O processo histrico mostra um investimento cada vez maior na tecnologia ocorrendo

    uma diminuio da participao do trabalhador no processo produtivo. As modificaes

    acentuam-se fundamentalmente nos pases de capitalismo avanado, principalmente na

    estrutura produtiva, na representao sindical e poltica.

    Como o presente estudo foi feito em um banco importante se abordar as

    repercusses da automao bancria, uma vez que foi em torno dela que se deu a forma de

    organizao do trabalho no setor. A automao est ligada agilizao de procedimentos

    bancrios, visando o oferecimento de servios e produtos com rapidez e segurana.

  • Em 1964, como poltica governamental, foram criados os CPD - Centro de

    Processamento de Dados, quando grandes computadores controlavam as informaes

    financeiras do pas. No final dos anos 70 foi introduzido o sistema on-line, exigindo uma

    melhoria nas telecomunicaes no pas. No final dos anos 80 houve uma intensificao do

    uso do sistema, com a implementao de servios de auto atendimento e homebanking. A

    partir dos anos 90 destacam-se aes inovadoras como banco virtual, caixas eletrnicos,

    cartes magnticos, etc. As mquinas fazem a maior parte do servio.

    A automao bancria brasileira proporcionou mudanas no relacionamento do

    banco com os clientes, fazendo-os operar com a tecnologia de ponta, que j est incorporada

    no cotidiano das pessoas.

    Isto porque, a no ser para clientes especiais, os bancos no tm estimulado o

    contato com as pessoas, pelo contrrio, o objetivo fazer com que os clientes no

    compaream s agncias bancrias, se tornem virtuais. Para os bancos a automao traz

    aumento de mercado, alm da reduo de custos, pois diminuem as tarefas de contabilidade

    e compensao. Por outro lado, com relao organizao do trabalho ocorre um aumento

    do volume e padronizao das tarefas, crescendo tambm o controle sobre tempos e

    qualidade dos servios. As mquinas acabam fazendo a maior quantidade de trabalho,

    desqualificando a experincia profissional, tornando o bancrio um trabalhador facilmente

    substituvel.

    Em estudo realizado pelo DIESAT (1989), foram identificadas como caractersticas

    da atividade bancria: compartimentalizao das atividades; rotinas individualizadas; extrema

    diviso de tarefas; possibilidade de rpida substituio do empregado; ritmo acelerado;

    perodos de maior atividade fazendo com que o trabalhador esteja em constante estado de

    tenso. O mesmo estudo aponta como fontes de tenso e cansao: ritmo intensivo;

    prolongamento da jornada de trabalho; controle; presso; responsabilidade excessiva;

    natureza e contedo das tarefas; plano de carreira insatisfatrio; risco de assalto; ateno

    concentrada; rudo no ambiente de trabalho; etc.

    Algumas das conseqncias deste tipo de organizao do trabalho so: cansao

    generalizado; dores no corpo; infeces da garganta e resfriados; gastrites e lceras; varizes;

    crises mentais; queda da motivao; dificuldades de socializao.

    A automao trouxe repercusses para a vida do bancrio tanto com relao sua

    desqualificao profissional; quanto a sua sade. Ou seja ao que tudo indica a sobrecarga

  • quantitativa expressada pela necessidade de produo, aliada ao requisito qualitativo, que

    significa ser eficiente e eficaz, acabam provocando cansao e extrema fadiga mental.

    LER - LESES POR ESFOROS REPETITIVOS

    As Leses por Esforos Repetitivos no so doenas novas para a Medicina do

    Trabalho, em 1700, RAMAZZINI em seu trabalho De Morbis Artifcum Diatriba, descreveu

    as Doenas dos Escribas e Notarios. Mas a partir da Revoluo Industrial que comeam

    a aparecer casos com maior freqncia, intensificando-se com a mecanizao da produo,

    principalmente com o advento do computador e mais recentemente a automao.

    Praticamente no mundo todo a doena j foi reconhecida entre os trabalhadores.

    MAEDA (1997) coloca que no Japo em 1958 foram descritos os primeiros casos de

    Occupational Cervichobrachial Disorder. Na Austrlia, a doena teve seu conceito definido

    por BROWNE et ai (1984) em 1970 com o nome Repetitive Strain Injuries. Na Sua as

    pesquisas vem sendo feitas a partir de 1980 coordenadas por HUNTING et ai (1981). Nos

    Estados Unidos, ARMSTRONG (1986) apresentou o conceito de Cumulative Trauma

    Disorders citanod sndorme do tnel do carpo e tendinites como exemplos tpicos.

    No Brasil a primeira preocupao com esta patologia partiu de AHMED ALI, mdico

    que investigou a sua ocorrncia em agncias bancrias no sul do pas. Em 1973 foram

    apresentados casos em lavadeiras, limpadoras e engomadeiras no XII Congresso Nacional

    de Preveno de Acidentes. Com a luta dos profissionais de processamento de dados, em

    1986, o INAMPS - Instituto Nacional de Assistncia Mdica e Previdncia Social reconheceu

    a tenossinovite como doena do trabalho nas atividades de esforo repetitivo. A partir de

    presses dos trabalhadores, em 1990, o Ministrio do Trabalho alterou a Norma

    Regulamentadora 17 atualizando-a. A mais recente alterao foi a publicao da Ordem de

    Servio nQ 606 de 5/8/98 do INSS - Instituto Nacional da Seguridade Social que estabeleceu

    atualizao clnica e critrios para a avaliao da incapacidade laborativa, instituindo para

    tanto a denominao DORT - Distrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.

    Para este estudo foi adotada a descrio da Secretaria de Estado de Sade de So

    Paulo (1992) que diz: "LER um conjunto de afeces que podem acometer tendes,

    sinovias, msculos, nervos, fscias e ligamentos, solada ou associadamente, com ou sem

    degenerao de tecidos, atingindo principalmente, porm no somente, membros superiores,

  • regio escapulare pescoo, sendo de origem ocupacional e decorrente, de forma combinada

    ou no de: uso repetitivo de grupos musculares, uso forado de grupos musculares e

    manuteno de postura inadequada."