Limites Para Um Planeta Sustentavel Sciam

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CIENCIAS DO AMBIENTE

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  • Cientistas estabeleceram valores para processos ambientaisbsicos que, se ultrapassados, podem arneacar a sustentabilidadeda Terra. Lamentavelmente, tres deles j foram excedidos

    POR JONATHAN FOLEY

    LIMI;TESPARA UM;

    PLANETA SUSTENTAVEL

    CONCEITOS-CHAVE Embora a mudan~ dimti-

    ca seja foco de grandeaten~o, a perda de biodi-versidade e a polui~o pornitrogenio excedem oslimites seguros em grausmais acentuados. Outrosprocessos ambientais ru-mam para niveis perigosos.

    Adotar imediatamentefontes de energia de baixaemisso de carbono, res-tringir o desmatamento erevolucionar as prticasagrcolas so medidas de-cisivas para tomar a vidahumana na Terra maissustentvel.

    - Os editores

    28 SCIENTlFIC AMERICAN BRASil

    Durantequase 10 mil anos - desde os primr-dios da civilizaco e do Holoceno -, nossomundo foi inimaginavelmente grande. Vas-tides de terras e oceanos ofereciam recursos infi-nitos. Os humanos podiam poluir a vontade e evi-tavam repercusses locais simplesmente ao se mu-dar para outro lugar. POyOSconstruram impriose sistemas econmicos alicercados em sua capaci-dade de explorar o que presumiam ser riquezas ine-xaurveis. E jamais se deram conta de que esse pri-vilgio teria fimo

    Entretanto, gra\=as aos avances na sade pbli-ca, a Revoluco Industrial e, mais tarde, a Revolu-co Verde, a populaco mundial saltou de cerca de1 bilho de pessoas, em 1800, para quase 7 bilheshojeo S nos ltimos 50 anos, nosso nmero maisque dobrou. Alimentada pela riqueza, a utilizacode recursos tambm atingiu nveis assustadores. Em50 anos, o consumo global de alimentos e guadoce mais que triplicoue o de combustveis fsseisquadruplicou. Agora, cooptamos entre 30% e 50%de toda a fotossntese no planeta.

    Esse crescimento arbitrrio fez com que a polui-\=aopassasse de um problema local para um ataqueglobal. A reduco do oznio estratosfrico e as con-centraces dos gases de efeito estufa so complica-ces bvias, porm muitos outros efeitos nefastosesto se manifestando.

    A sbita aceleraco do crescimento populacional,o consumo de recursos e os danos ambientais mu-daram a face da Terra. Passamos a viver em um pla-

    Oqevit-Ias?chefiadalincia deEuropa,dostrlia - procurlmeio de urna Q1abrangente:crticos" planetrios,te global em umde tudo o que j Coi Wito

    Aps examinar llIIlIIt10SC

    nares de sistemas fSicos e -~c-que nove proeessos ambieocs amiopllmcial de ar-ruinar a capacidade do planeta de susrmrnr vida hu-mana. Em seguida, estipulamos limites para eJes -urna faixa dentro da qual a bnmanidade pode operarem seguranca, Sete processos apresenram um limitepreciso (ver ilustraflio no pg. 29), definido cientfi-camente por um niro nmero (que obviamente con-tm certa margem de incerteza). Tris deles - a mu-danca climtica, a acidificaco ocenica e a reduco

    Junho 2010

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  • C02. Em nossa anlise propomos uma meta conser-vadora, em longo prazo, de 350 ppm, para manter oplaneta bem distante de pontos crticos climticos.Mas, para atingir essa meta, o mundo precisa agirimediatamente para estabilizar as emisses e, nasprximas dcadas, reduzi-las substancialmente .

    Acidificafiio oce!inica - Esse o primo menos co-nhecido da mudanca climtica. A medida que asconcentraces atmosfricas de C02 aumentam, aquantidade de dixido de carbono que se dissolve nagua em forma de cido carbnico cresce, deixandoa superficie ocenica mais cida. Os oceanos so na-turalmente neutros, com um pH de aproximada-mente 8,2,mas os dados mostram que esse valor jcaiu para quase 8 e continua baixando. A mensura-

  • concordam com os nmeros que estipulamos. Talvezo comentrio mais importante seja que, ao determi-nar limites, podemos estar encorajando as pessoas apensar que a destruico ambiental aceitvel, desdeque ela semantenha dentro dessas delimitaces, Paraque fique bem claro, isso nao o que propomos! Asociedade nao deve permitir que o mundo se enea-minhe para um limite antes de agir. Um avance de30% a 60% rumo a qualquer fronteira de seguran-ea tambm causar danos severos. Instamos as pes-soas a serem suficientemente espertas e altrustas(em relaco a geraces futuras) e ficarem o mais lon-ge possvel dos limites, porque todos eles represen-tam uma crise ambiental.

    A maioria das crticas tem sido razovel, e previ-mos muitas delas. Sabamos que a noco de limitesexigira mais estudos - particularmente para aprimo-rar os nmeros. Mas sentimos que o conceito era po-deroso e ajudaria a estruturar um pensamento coleti-vo sobre limites ambientais para a existencia humana.E espervamos que os resultados estimulassem dis-cuss6es na comunidade cientfica. Parece que esse de-sejo se concretizou.

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    Ponto de PartidaA medida que o mundo se empenha em atender asexigencias econmicas, sociais e ambientais para asustentabilidade global, preciso respeitar um amploconjunto de limites planetrios. A sociedade j come-cou a enfrentar alguns desafios, mas apenas de ummodo incipiente e parcial, tomando cada limite isola-damente. Entretanto, as delimitaces esto intima-mente interligadas. Quando um limiar transposto,ele exerce presso sobre outros, aumentando o riscode excede-los. Por exemplo, ultrapassar a barreira daseguranca climtica pode impulsionar os ndices deextinco. Similarmente, a poluico por nitrognio efsforo tem o potencial de minar a capacidade de re-cuperaco de ecossistemas aquticos, acelerandoacentuadamente a perda de biodiversidade. Indepen-dentemente de quanto as nossas soluces trn sidobem-intencionadas, a tentativa de resolver um fatorde cada vez fracassar com grande probabilidade.

    Nesse momento crtico, nao basta que os cientis-tas apenas definam os problemas e cruzem os bracos,necessrio comecar a propor soluces. Eis algumasideias iniciais:

    Fazer a transico para um sistema energticoeficiente, de baixo teor de carbono. As premen-tes questes da mudanca climtica e acidifica-c;ao ocenica exigem que estabilizemos as con-centraces atmosfricas de C02 o quanto antese preferivelmente abaixo de 350 ppm. Essa mu-danca implicar grandes aprimoramentos da

    www.sciam.com.br

    GIGANTESCAS FLOREScENCIAS DEalgas no mar Negro (redemoinhosverdes na parte inferior) soalimentadas por escoamentosagrcolas levados pelo rioDanbio (embaixo), matando avida aqutica - um exemplo danatureza interligada deprocessos ambientais vitais,como o uso da terra e dabiodiversidade.

    PARACONHECER MAlS

    A safe operating space forhumanity. Johan Rockstrrn et al.,em Nature, vol. 461, pgs. 472-475,24 de setembro de 2009.

    Commentaries: planetaryboundaries. Nature ReportsClimate Change, vol. 3, pgs.112-119,outubro de 2009.http://blogs.nature.com/climatefeedback/2009/09/planetary-boundaries.html

    Planetary boundaries: exploringthe safe operating space forhumanity, Johan Rockstrrn et al.,em Ec%gy and Society, vol. 14,n 2, artigo 32, 2009.www.stockholmresilience.org/planetary-boundaries

    eficiencia energtica e uma subsequente ofertaproporcional de fontes alternativas de energiade baixo carbono.

    Refrear drasticamente o desmatamento, sobre-tudo nos trpicos, e a degradaco das terras.Muitos limites planetrios, particularmente aperda de biodiversidade, esto comprometidosem raza o da incessante expanso de assenta-mentos humanos.

    Investir em prticas agrcolas revolucionrias.Vrios limites, inclusive os ligados a poluico denitrognio e ao consumo de gua, so afetadospor nossos sistemas agrcolas industrializados.Abordagens inovadoras so possveis, entre elaso desenvolvimento de novas variedades deplantas e tcnicas de agricultura de precisa o,alm da utilizaco muito mais eficiente de guae fertilizantes.

    A medida que implantarmos soluces, devemosreconhecer que nao existe um simples manual deregras para alcancar um futuro mais sustentvel.Ao avancarrnos, desenvolveremos novos princ-pios operacionais para nossos sistemas econmi-cos, instituices polticas e aces sociais, manten-do-nos rigorosamente atentos a nossa limitadacompreenso dos processos humanos e ambien-tais. Quaisquer padr6es de referencia ou prticasinovadoras devem nos permitir reagir a alteracesnos indicadores da sade ambiental e necessidadessociais. Isso nos ajudaria simultaneamente a me-!horar a resilincia de sistemas naturais e humanos,para que eles se tornem mais robustos e menos vul-nerveis a choques inesperados com muita proba-bilidade de ocorrer. Para maximizar essa capaci-dade rpida de recuperaco, teremos de fazer omelhor possvel para viver dentro dos limites deum planeta que est enco!hendo. _

    SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL 31

  • COMOENFRENTARAMEACASI

    Especialistas revelam El ScIENllFIC AMERICAN quais aces rnsntero os processos sob controle

    CICLO DO NITROGENIOo PERDA DE BIODIVERSIDADE.......................... _ _ .Gretchen C. Daily, professora de ciencia ambiental, Stanford University Robert Howarth, professor de ecologia e biologia ambiental,

    Come" University

    mneas, em vez de milho, pois as perdasde nitrogenio so muito inferiores.

    A poluko por nitroqnio resultanteda chamada Operaco Concentrada deAlimenta~oAnimal (Cafo, na sigla emingles) constitui um problema enorme.H relativamente pouco tempo, nosanos 70, a maioria dos animais era ali-mentada com plantas cultivadas local-mente e os dejetos retomavam as lavou-ras como adubo. Hoje, porm, eles sotratados com produtos cultivados a cen-tenas de quilmetros de distancia, tor-nando o retomo do esterco ao campo"antieconmico". A solu~o? Exigir queos praticantes da Cafo processem osrefugos animais, exatamente como osmunicpios so obrigados