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Língua Portuguesa e Literaturas 2ª Fase

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  • LNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS

    Provas Comentadas Lngua Potuguesa e Literaturas de Lngua Portuguesa 2 Fase

    INTRODUO A prova de Lngua Portuguesa e Literaturas de Lngua Portuguesa avaliou a capacidade do candidato de refletir sobre o funcionamento da lngua e de elaborar sua reflexo metalingustica em textos objetivos e consistentes; avaliou igualmente sua capacidade de refletir sobre o texto literrio, tomando como objeto as obras constantes da relao indicada pela Unicamp para o seu vestibular. A prova procurou, assim, avaliar o candidato quanto sua maturidade no que diz respeito elaborao do discurso metalingustico. As questes de 1 a 6 tinham como objeto os diversos nveis de funcionamento da lngua (indo do fonolgico ao textual/discursivo), tomados no interior de enunciados reais, como recursos lingusticos de que o falante dispe para produzir seu discurso. A resoluo das questes pressupunha, em primeiro lugar, a habilidade de leitura e compreenso, sem a qual as anlises requeridas no poderiam ser levadas a cabo satisfatoriamente. Tambm foi objeto de avaliao a formulao das respostas, isto , a capacidade de construir textos analticos claros, coerentes e com o grau de objetividade que se requer de um estudante universitrio. As questes de 7 a 12 pressupunham, obviamente, a leitura das obras indicadas para o vestibular, porm o candidato deveria demonstrar a capacidade de interagir com o texto literrio de um modo que transcendesse a mera leitura por entretenimento. Nesse sentido, importante frisar que a prova no apenas de verificao de leitura, mas busca avaliar a habilidade de refletir sobre o texto literrio, nos diversos planos com que ele se relaciona. O modo de elaborao das respostas tambm fundamental no processo avaliativo. Assim, tambm nesse grupo de questes, a capacidade de estruturar o texto de maneira objetiva e coerente foi fundamental para um bom resultado. Em linhas gerais, o que se percebeu nas provas foi uma grande dificuldade dos candidatos em lidar com o que chamamos de discurso metalingustico, isto , para um bom desempenho no bastava apenas saber a resposta, isto intuir o funcionamento da lngua ou do texto literrio que se estava focalizando, mas ser capaz de formular esta intuio do modo mais claro e objetivo possvel. No material que segue, apresentamos as questes da prova de lngua portuguesa e literaturas, acompanhadas da expectativa de resposta e de dois exemplos de resoluo, um com nota acima da mdia e outro com nota abaixo da mdia, com comentrios da banca elaboradora. Esperamos que os estudantes possam desenvolver as suas habilidades a partir da leitura do material, de maneira a obter o melhor resultado possvel nos exames a que vier a se submeter.

    Questo 1 NOITE DE AUTGRAFOS

    Ivan ngelo A leitora, vistosa, usando culos escuros num ambiente em que no eram necessrios, se posta diante do autor sentado do outro lado da mesa de autgrafos e estende-lhe o livro, junto com uma pergunta:

    O que crnica? O escritor considera responder com a clebre tirada de Rubem Braga, se no aguda, crnica, mas

    se contm, temendo que ela no goste da brincadeira. (...) Responde com aquele jeito de quem falou disso algumas vezes:

    um texto de escritor, necessariamente de escritor, no de jornalista, que a imprensa usa para pr um pouco de lirismo, de leveza e de emoo no meio daquelas pginas e pginas de dados objetivos, informaes, grficos, notcias... coisa efmera: jornal dura um dia, revista dura uma semana.

    J se prepara para escrever a dedicatria e ela volta a perguntar: E o livro de crnicas, ento? Ele olha a fila, constrangido. Escreve algo brevssimo, assina e devolve o livro leitora (...). Ela recebe o

    volume e no se vai, esperando a resposta. Ele abrevia, irnico: a crnica tentando escapar da reciclagem do papel. Ela fica com ambio de estante, pretensiosa,

    quer status literrio. Ou ento pretensioso o autor, que acha que ela merece ser salva e promovida. (...) Mais respeito. A crnica a nossa ltima reserva de estilo.

    (Veja So Paulo, So Paulo, 25/07/2012, p. 170.) efmero: de pouca durao; passageiro, transitrio. A certa altura do dilogo, a leitora pergunta ao escritor que dava autgrafos:

    E o livro de crnicas, ento?

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    a) A pergunta da leitora incide sobre uma das caractersticas do gnero crnica mencionadas pelo escritor. Explique que caracterstica esta.

    b) Explique o funcionamento da palavra ento na pergunta em questo, considerando o sentido que esta pergunta expressa.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato explique que a caracterstica da crnica sobre a qual a pergunta da leitora incide a transitoriedade desse gnero, decorrente da relao que esse tipo de texto estabelece com os fatos do cotidiano e com eventos contemporneos, em funo de ser publicado normalmente em jornal e constituir uma leitura rpida, em suportes nos quais se leem outros tipos de texto sem pretenso literria. A questo tambm se presta ao exame de outro aspecto importante do processo de leitura, que envolve necessariamente o domnio do sistema lingustico, especialmente de elementos da gramtica cujo funcionamento se d sobretudo no plano discursivo. Assim, espera-se que o candidato compreenda o funcionamento do operador ento e seja capaz de descrever esse funcionamento. Tomando-se o enunciado no plano proposicional, temos uma proposio, com forte apelo retrico, que no se encontra completamente explcita, da qual o operador ento faz parte: se a crnica , como afirma o cronista, esse gnero efmero e destinado a um consumo rpido, a uma leitura superficial, ento por que coloc-la em livro, que um suporte destinado perenidade das bibliotecas? A palavra ento funciona, assim, no enunciado, como um operador de concluso, colocado numa pergunta em que a concluso de um raciocnio objeto de dvida. isto que torna possvel tomar j no plano enunciativo - o operador ento como um marcador de contradio, contestao, como se a leitora dissesse: O livro de crnicas no seria um paradoxo?.

    Exemplo Acima da Mdia

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    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) Houve dificuldades de interpretao de texto na resposta ao primeiro item, isto , no foi imediatamente transparente para a maioria dos candidatos que a caracterstica requerida pela pergunta era a efemeridade da crnica. E mesmo quando a caracterstica foi identificada, houve dificuldade em explic-la, tendo sido relacionada ao fato de a crnica ser publicada em suportes como o jornal ou a revista semanal, ou ao fato de tratar de temas do cotidiano. b) A resoluo do item apresentou sobretudo dificuldades na elaborao do discurso metalingustico. Era requerido que se explicasse o funcionamento do operador ento na pergunta destacada. A grande dificuldade era de formulao do discurso metalingustico, ou seja, como explicitar o funcionamento do item em questo, levando em considerao seu papel na articulao da conversao. Isso implicava retomar o dilogo em que o item estava inserido e refazer a argumentao com parfrases prximas, tarefa que a grande maioria dos candidatos no estava devidamente preparada para desempenhar.

    Questo 2 A experincia que comprovou a existncia da partcula conhecida como bson de Higgs teve ampla repercusso na imprensa de todo o mundo, pelo papel fundamental que tal partcula teria no funcionamento do universo. Leia o comentrio abaixo, retirado de um texto jornalstico, e responda s questes propostas.

    Por alguma razo, em lngua portuguesa convencionou-se traduzir o apelido do bson como partcula de Deus e no partcula Deus, que seria a forma correta.

    (Folha de So Paulo, So Paulo, 05/07/2012, Caderno Cincia, p. 10.) a) Explique a diferena sinttica que se pode identificar entre as duas expresses mencionadas no trecho

    reproduzido: partcula de Deus e partcula Deus.

    b) Explique a diferena de sentido entre uma e outra expresso em portugus.

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    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato perceba que as duas expresses mencionadas no trecho jornalstico correspondem a duas estruturas sintticas diferentes e explique essa diferena. A primeira expresso partcula de Deus uma construo em que o termo de Deus funciona como um adjunto adnominal do termo partcula, o que pode ser descrito em outros termos, atribuindo-se ao termo de Deus o papel de determinante do termo partcula ou tomando-o como uma expresso de natureza adjetiva. J a segunda expresso partcula Deus uma construo em que o termo Deus pode ser tomado como um aposto de partcula (funo que pode ser descrita como um termo equivalente sintaticamente ao termo partcula, isto , ambos so de natureza substantiva). Ou, numa outra leitura possvel, o substantivo Deus desempenha diretamente uma funo adjetiva, o que leva a um deslocamento metafrico de sentido. Espera-se ainda que o candidato explicite as diferenas semnticas que o emprego de uma ou outra expresso implica. Dessa maneira, na construo partcula de Deus, uma vez que o termo de Deus um adjunto adnominal, partcula qualificada como algo divino ou que pertence a Deus ou provm de Deus. No segundo caso, partcula e Deus tm o mesmo referente, ou o nome atribudo partcula Deus, ou ainda a partcula tem a prpria natureza de Deus, e de alguma forma equivale a ele.

    Exemplo Acima da Mdia

    Exemplo Abaixo da Mdia

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    Comentrios a) A questo 2 exigia bastante elaborao metalingustica por parte do candidato, explorando a relao forma e sentido. No caso do primeiro item, a grande dificuldade est no nvel da percepo e anlise das estruturas, tomadas na sua forma. Ou seja, o grande problema foi traduzir a diferena de sentido entre as estruturas (tratada no item b) em diferenas estruturais. Uma boa parte dos candidatos teve exatamente essa dificuldade, reportando-se total ou parcialmente s diferenas de sentido entre as expresses. Pouqussimos candidatos usaram uma metalinguagem mais precisa, opondo a estrutura de aposto estrutura de adjunto adnominal, ainda que, no item b, reconhecessem a diferena semntica que corresponde a essa distino. Quando ocorria a tentativa de descrio formal, a utilizao da metalinguagem aprendida na escola geralmente resvalava em imprecises, o que revela que os candidatos no so expostos ao exerccio de construir o discurso usando a metalinguagem de descrio formal. b) O item b requeria uma elaborao discursiva que traduzisse a diferena de sentido entre as expresses. No se esperava que os candidatos tivessem maiores dificuldades com a interpretao das expresses, o que de fato tendeu a no ocorrer, e as parfrases utilizadas para dar conta da diferena de sentido, em geral traduziam, com algum grau de preciso a diferena entre as expresses.

    Questo 3 Reproduzimos abaixo a chamada de capa e a notcia publicadas em um jornal brasileiro que apresenta um estilo mais informal. Governo quer fazer a galera pendurar a chuteira mais tarde Duro de parar Como a vovozada vive at mais tarde, a inteno, agora, criar regra para aumentar a idade mnima exigida para a aposentadoria; objetivo impedir que o INSS quebre de vez Pgina 12 Descanso mais longe

    O brasileiro t vivendo cada vez mais o que bom. S que quanto mais ele vive, mais a situao do INSS se complica, e mais o governo trata de dificultar a aposentadoria do pessoal pelo teto (o valor integral que a pessoa teria direito de receber quando pendura as chuteiras) o que no to bom.

    A ltima novidade que j t em discusso l em Braslia botar pra funcionar a regra 85/95, que diz que s se aposenta ganhando o teto quem somar 85 anos entre idade e tempo de contribuio (se for mulher) e 95 anos (se for homem).

    Ou seja, uma mulher de 60 anos s levaria a grana toda se tivesse trampado registrada por 25 anos (60+25=85) e um homem da mesma idade, se tivesse contribudo por 35 (60+35=95).

    Quem quiser se aposentar antes, pode s que vai receber menos do que teria direito com a conta fechada.

    (notcia J, Campinas, 30/06/2012, p.1 e 12.) a) Retire dos textos duas marcas que caracterizariam a informalidade pretendida pela publicao, explicitando

    de que tipo elas so (sintticas, morfolgicas, fonolgicas ou lexicais, isto , de vocabulrio).

    b) Pode-se afirmar que certas expresses empregadas no texto, como t e botar, se diferenciam de outras, como galera e grana, quanto ao modo como funcionam na sociedade brasileira. Explique que diferena essa.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato indique duas marcas da informalidade pretendida pelo texto jornalstico em questo e, como solicita o enunciado, expresse a que nvel de anlise esto relacionadas. A maior parte das marcas de natureza lexical, como galera, vovozada, quebrar, trampado, grana, botar. H marcas como pra, t, que podem ser tomadas como variantes de pronncia representadas na escrita. Espera-se tambm que o candidato perceba que, quanto ao funcionamento social de algumas dessas marcas, h aquelas que so fortemente relacionadas a grupos especficos como galera, grana e aquelas que so de uso geral, como t, botar, que funcionam no portugus brasileiro como marcas de informalidade para todos os falantes.

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    Comentrios a) O item a no demandou maiores elaboraes discursivas, j que solicitava a identificao das formas variantes e a especificao do nvel de anlise lingustica a que pertenceriam. Porm, neste ltimo caso, os candidatos apresentaram certa dificuldade, o que acarretou perda de nota em funo de no identificarem corretamente o nvel lingustico. O que se percebeu que a aplicao da terminologia de anlise a fenmenos diversos da lngua em funcionamento causa certa dificuldade. Assim, se de um lado os candidatos, em geral, no tinham maiores dificuldades em perceber as formas variantes com as quais o texto operava, de outro no foram to eficazes em relacionar, com preciso, o material ao nvel de funcionamento da lngua, usando a terminologia correta. b) O item b operava com o aspecto social do funcionamento das formas variantes. Nos ltimos tempos, tem-se observado, no ensino mdio, certa nfase nos aspectos sociais das formas lingusticas, o que, de certa maneira, facilitaria o trabalho dos candidatos. A questo oferecia, no entanto, uma dificuldade: props uma distino de uso que no se recobre apenas pelo eixo da formalidade (mais ou menos formal) ou da correo gramatical. Tratava-se de opor o geral (formas que caracterizam o portugus usado no Brasil por diferentes grupos sociais)

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    versus o particular (formas que caracterizam grupos especficos). Foi na identificao dessa oposio que os candidatos tiveram maior dificuldade, tanto de percepo como de formulao. Em geral, percebiam as formas caractersticas de grupos especficos, mas revelaram dificuldade em formular a oposio, tal como se solicitava.

    Questo 4 Leia a propaganda (adaptada) da Fundao SOS Mata Atlntica reproduzida abaixo e responda s questes propostas.

    a) H no texto uma expresso de duplo sentido sobre a qual o apelo da propaganda construdo. Transcreva

    tal expresso e explique os dois sentidos que ela pode ter.

    b) H tambm uma ironia no texto da propaganda, que contribui para o seu efeito reivindicativo, expressa no enunciado: Aproveita enquanto tem gua. Explique a ironia contida no enunciado e a maneira como ele se relaciona aos elementos visuais presentes no cartaz.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato indique que a expresso de duplo sentido encontrada na propaganda lavar as mos e que explicite os dois sentidos que podem ser atribudos a ela: o sentido decorrente da combinao dos sentidos do verbo lavar e do sintagma as mos, equivalendo a algo como limpar com gua as prprias mos, e o sentido atribudo expresso idiomtica, j incorporada ao lxico da lngua, lavar as mos: no assumir as prprias responsabilidades diante de um evento de que se tem conhecimento. Igualmente se espera que o candidato perceba a ironia presente no cartaz, que decorre da articulao da expresso ambgua, mencionada acima, com o enunciado Aproveita enquanto tem gua. Como a propaganda quer chamar a ateno para os efeitos danosos do desmatamento, entre eles a escassez de gua, se o leitor lava as mos (desresponsabiliza-se) para o desmatamento, ele pode ficar sem gua para lavar as mos (limpar as mos com gua). A conclamao imperativa Aproveita enquanto tem gua funciona ironicamente, justamente por contradizer os prprios objetivos da campanha, ou seja, no se deseja que, de fato, o leitor aproveite a gua que ainda resta. Os elementos visuais do cartaz convergem para o mesmo apelo reivindicativo do enunciado Aproveita enquanto tem gua: a torneira de onde sai a gua apenas uma gota est ligada a uma floresta de rvores secas, ou seja, o leitor lembrado de que o fornecimento de gua nos aglomerados urbanos necessariamente depende de florestas que esto, muitas vezes, longe dos olhos. Se essas florestas morrem, a gua cessa.

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    Comentrios a) O item a assim como o item b dessa questo talvez sejam os melhores exemplos dos problemas relativos construo do discurso metalingustico, mencionados em nossa Introduo (acima). Foi possvel depreender das respostas que a maioria dos candidatos no teve maiores problemas para entender o sentido da propaganda na forma de cartaz. Mas a compreenso do cartaz no era o objetivo central da questo e sim a elaborao metalingustica dessa compreenso. Os candidatos, em geral, no tiveram dificuldade em indicar a expresso cuja ambiguidade explorada (em muitos casos, porm, falharam mesmo na identificao da expresso, transcrevendo todo o enunciado no qual a expresso se encontrava). Porm, na explicitao dos sentidos, atestou-se certa dificuldade na construo de parfrases que de fato explicitassem os dois sentidos.

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    b) O item b oferecia maiores dificuldades de formulao do que o item anterior. A questo se dividia em dois comandos: explicitar a ironia contida no enunciado Aproveita enquanto tem gua e relacionar o enunciado aos elementos visuais do cartaz. No primeiro caso, a explicitao da ironia exigia a recuperao da expresso de duplo sentido e, ao mesmo tempo, a percepo de que ao fazer um apelo aproveita o enunciado no est, de fato, dizendo para o leitor aproveitar a gua. A dificuldade de explicitao dos mecanismos pelos quais se obtm a ironia foi grande entre os candidatos, o que no implica que no tenham entendido o sentido expresso. A dificuldade est em transformar o processo de acesso aos sentidos em um objeto de discurso externo ao falante. No segundo caso relacionar o enunciado aos elementos visuais , boa parcela dos candidatos teve xito. Percebeu-se uma dificuldade em atribuir sentido aos elementos visuais e no simplesmente descrev-los. Os candidatos precisam estar atentos a isto: interpretar construir sentido e a explicitao discursiva deve deixar claro o sentido que os elementos visuais adquirem em dado contexto.

    Questo 5 Millr Fernandes foi dramaturgo, jornalista, humorista e autor de frases que se tornaram clebres. Em uma delas, l-se:

    Por qu? filosofia. Porque pretenso. a) Explique a diferena no funcionamento lingustico da expresso porque indicada nas duas formas de

    graf-la.

    b) Explique o sentido do segundo enunciado do texto (Porque pretenso), levando em considerao a forma como ele se contrape ao primeiro enunciado. Considere em sua resposta apenas o sentido atribudo palavra pretenso que se encontra abaixo.

    pretenso: vaidade exagerada, presuno.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato explicite as diferenas de funcionamento que envolvem a expresso porque indicadas nas duas formas de graf-la. A forma ortogrfica por qu representa o que as gramticas costumam rotular como advrbio interrogativo; j a forma ortogrfica porque representa o que se costuma rotular de conjuno. Essa diferena pode ser expressa pelo candidato de outras maneiras, desde que apontem para os dois funcionamentos de que trata a questo: a primeira forma substitui a informao requerida em frases interrogativas; a segunda articula proposies ligadas por uma relao de causa ou enunciados ligados por uma relao de explicao. No se espera que o candidato justifique a acentuao grfica em por qu, mas o fato de abord-la, desde que juntamente com as diferenas acima descritas, no interfere na avaliao. Com relao ao segundo enunciado, espera-se que o candidato demonstre a ironia nele contida, que contraria a expectativa do senso comum, segundo a qual, o que valem so as respostas. Na frase de Millr, perguntar filosofar; , portanto, o lugar do conhecimento; responder j seria um ato pretensioso, um ato de soberba que distancia o sujeito do lugar do conhecimento. Nesse sentido, a dvida mais importante do que a certeza.

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    Comentrios a) O item a podia parecer uma questo banal, j que solicita uma distino ortogrfica citada com muita frequncia em manuais de lngua portuguesa. Se o leitor atentar para a formulao da questo, ver que era necessrio descrever o funcionamento lingustico que a diferena ortogrfica traduz. Novamente, temos o problema da formulao do discurso metalingustico. Embora aparentassem conhecer o emprego escrito de uma e outra forma, os candidatos tiveram muita dificuldade em fugir da oposio um pra perguntar e outro para responder. Essa formulao no responde adequadamente questo. Era necessrio, como o enunciado solicita, que se descrevesse o funcionamento de cada item representado: um advrbio interrogativo, o outro conjuno. Poucos candidatos descreveram com preciso um e outro funcionamento (e note que apenas a rotulao terminolgica no era suficiente e nem era o que se pretendia com a questo). b) O item b visava interpretao do enunciado, articulando-a s formas tratadas no item a. Poucos candidatos chegaram ao cerne do que o pequeno texto prope: o papel fundamental da pergunta na construo do conhecimento. O substantivo usado pretenso levou muitos candidatos a operar com um juzo de valor sobre o indivduo pretensioso aquele que tem todas as respostas sem encaminhar a interpretao para o jogo proposto: o lugar do conhecimento est na pergunta. Ou seja, o texto no uma crtica queles que acham que sabem tudo, no uma crtica aos indivduos que julgam saber a resposta.

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    Questo 6 Os textos abaixo integram uma matria de divulgao cientfica sobre o tamanho de criaturas marinhas, ilustrada com fotos dos animais mencionados.

    (Escalas Marinhas, em SuperInteressante, So Paulo, jun. 2012, p. 72-73.)

    a) Pode-se afirmar que a compreenso do texto 2 depende da imagem que o acompanha. Destaque do texto a

    expresso responsvel por essa dependncia e explique por que seu funcionamento causa esse efeito.

    b) No que diz respeito organizao textual, que diferena se pode apontar entre os dois textos, quanto ao modo como o pronome eles se relaciona com os termos a que se refere?

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato identifique a expresso responsvel pela dependncia do texto 2 em relao imagem: o sintagma este cavalo-marinho, ou, mais precisamente, o pronome demonstrativo este. Essa relao de dependncia decorre do funcionamento do pronome este, que consiste em trazer para o interior do discurso referentes diretamente extrados do lugar de enunciao, operao conhecida como dixis. Espera-se que o candidato explicite tal funcionamento, mesmo que com descries no amparadas na metalinguagem mais tcnica. Elas devem, no entanto, ser precisas o suficiente para revel-lo. Quanto ao modo como se organiza a estrutura textual, espera-se que o candidato perceba que, no primeiro texto, o pronome eles est disposto antes do termo a que se refere, processo conhecido como catfora, enquanto que, no segundo texto, o pronome se encontra aps o termo a que se refere, procedimento conhecido como anfora.

    TEXTO 1

    Eles nascem com milmetros e alcanam metros de comprimento, nadam das praias rasas s guas abissais. Em fotos nicas, produzidas em tanques especiais, conhea as medidas dos animais do fundo do mar.

    TEXTO 2 ESCALA MILIMTRICA

    Enquanto este cavalo-marinho pode chegar a 30 cm, os filhotes medem poucos milmetros ao nascer. Eles surgem depois que a fmea deposita vulos em uma bolsa na barriga do macho, que responsvel pela fertilizao.

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    Exemplo Acima da Mdia

    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) Identificar a expresso responsvel pelo efeito de dependncia da imagem no representou uma dificuldade maior para os candidatos, embora o acerto, nesse caso, no tenha sido a tendncia preponderante. Mais complicado foi explicitar o funcionamento da expresso e, novamente, a dificuldade foi de formulao, ou seja, era possvel perceber que, intuitivamente, o candidato conhecia o funcionamento da expresso, mas a explicitao de tal funcionamento requeria que conseguisse identificar a propriedade do pronome este a dixis e conseguisse express-la em termos gerais. Em muitos casos a resposta acabava ficando circular: se tirar, no houver a figura, no faz sentido, quando este era exatamente o ponto da questo explicar qual a propriedade envolvida. b) O item b apresentou menores desafios para a formulao discursiva propriamente: o candidato que conseguiu distinguir a propriedade envolvida anfora ou catfora em geral encontrou meios de expressar a distino. Os candidatos que no atingiram o acerto, em geral, tiveram dificuldade em extrair da instruo da questo o

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    modo como o pronome eles se relaciona com os termos a que se refere quanto organizao textual, em especial desta ltima expresso. Uma resposta muito comum foi relacionar o pronome a seus referentes animais do fundo do mar e filhotes sem considerar o aspecto de organizao textual, que levaria a pensar na ordenao do pronome em relao ao termo a que se refere. Ou seja, para os candidatos colocou-se mais propriamente a dificuldade de chegar ao resultado esperado a partir do enunciado da questo do que um problema de formulao.

    Questo 7 Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossvel imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dvida e apresentou-a timidamente ao irmo. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moas bem-vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao esprito, soprou-a no ouvido do irmo. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questo intricada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossvel, ningum conservaria to grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. No tinham sido feitas por gente. E os indivduos que mexiam nelas cometiam imprudncia. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para no desencadear as foras estranhas que elas porventura encerrassem.

    (Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2012, p.82.) Sinha Vitria precisava falar. Se ficasse calada, seria como um p de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e a quentura medonha, as rvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silncio no valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos prximos, os espinhos, as arribaes, os urubus que farejavam carnia. Falou no passado, confundiu-se com o futuro. No poderiam voltar a ser o que j tinham sido?

    (Idem, p.120.)

    a) O contraste entre as preciosidades dos altares da igreja e das prateleiras das lojas, no primeiro excerto, e as rvores transformadas em garranchos, no segundo, caracteriza o conflito que perpassa toda a narrativa de Vidas secas. Em que consiste este conflito?

    b) No primeiro excerto, encontra-se posta uma questo recorrente em Vidas secas: a relao entre linguagem e

    mundo. Explique em que consiste esta relao na passagem acima.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato indique que o conflito consiste na opresso social vivida pelas personagens da famlia de Fabiano. A seca, mais do que uma fatalidade da natureza, pensada nesse romance a partir das relaes sociais que as personagens estabelecem entre si e com o ambiente fsico. riqueza material da igreja e do comrcio se contrape a pobreza de uma paisagem devastada pela seca. Ser capaz de perceber a natureza desse conflito e de relacion-lo ao contraste entre os dois espaos, fsico e social, significa entender a economia da narrativa de Vidas Secas. Na passagem em questo, os meninos, por no saberem os nomes das coisas, acreditam que o mundo das mercadorias ou dos objetos sagrados das igrejas so foras misteriosas e incontrolveis. Portanto, saber os nomes das coisas significaria, na perspectiva das personagens, domin-las e alcanar certa autonomia. Espera-se que o candidato indique o poder da linguagem na organizao do mundo, o que franqueia ao homem a compreenso desse mundo ou a submisso a esse mundo.

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    Exemplo Acima da Mdia

    Exemplo Abaixo da Mdia

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    Comentrios a) Na resposta acima da mdia, o candidato identifica e explica corretamente a natureza do conflito que perpassa toda a narrativa de Vidas secas, a saber, a opresso social vivida pelas personagens da famlia de Fabiano. Nota-se, ainda, que o candidato estabelece adequadamente a relao entre o primeiro excerto, que expe o sentimento de admirao dos garotos diante dos objetos da igreja, e o contexto geral do romance, no qual todos os membros da famlia esto alijados da riqueza material produzida pela sociedade. Em contrapartida, na resposta abaixo da mdia, o candidato, embora indique ser a sociedade a causa da opresso dos sertanejos, se equivoca ao restringir a oposio espacial dos excertos s noes de reconhecimento social, imobilidade e silncio. b) Ao argumentar que a falta da posse da palavra torna socialmente vulnerveis as personagens de Vidas secas, a resposta acima da mdia explicita o poder da linguagem na organizao do mundo, sobretudo na constituio das relaes sociais de dominao e submisso. Todavia, o candidato da resposta abaixo da mdia se limita afirmao genrica da importncia da comunicao, sem estabelecer corretamente as implicaes entre a ausncia dos nomes dos filhos de Fabiano e a possibilidade de existir nomes para as coisas vistas na cidade.

    Questo 8 O excerto abaixo foi extrado do poema Ode no Cinquentenrio do Poeta Brasileiro, de Carlos Drummond de Andrade, que homenageia o tambm poeta Manuel Bandeira. (...) Por isso sofremos: pela mensagem que nos

    [confias entre nibus, abafada pelo prego dos jornais e mil

    [queixas operrias; essa insistente mas discreta mensagem que, aos cinquenta anos, poeta, nos trazes; e essa fidelidade a ti mesmo com que nos apareces sem uma queixa no rosto entretanto experiente, mo firme estendida para o aperto fraterno o poeta acima da guerra e do dio entre os homens -, o poeta ainda capaz de amar Esmeralda embora a

    [alma anoitea, o poeta melhor que ns todos, o poeta mais forte

    mas haver lugar para a poesia? Efetivamente o poeta Rimbaud fartou-se de escrever, o poeta Maiakovski suicidou-se, o poeta Schmidt abastece de gua o Distrito Federal... Em meio a palavras melanclicas, ouve-se o surdo rumor de combates longnquos

    (cada vez mais perto, mais, daqui a pouco dentro [de ns).

    E enquanto homens suspiram, combatem ou [simplesmente ganham dinheiro,

    ningum percebe que o poeta faz cinquenta anos, que o poeta permaneceu o mesmo, embora alguma

    [coisa de extraordinrio se houvesse passado, alguma coisa encoberta de ns, que nem os olhos

    [traram nem as mos apalparam, susto, emoo, enternecimento, desejo de dizer: Emanuel, disfarado na meiguice

    [elstica dos abraos, e uma confiana maior no poeta e um pedido

    [lancinante para que no nos deixe sozinhos nesta [[cidade

    em que nos sentimos pequenos espera dos maiores [acontecimentos. (...)

    (Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. So Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 49.)

    a) O que, no poema, leva o eu lrico a perguntar: mas haver lugar para a poesia?

    b) possvel afirmar que a figura de Manuel Bandeira, evocada pelo poeta, se contrape ao sentimento de

    pessimismo expresso no poema e no livro Sentimento do mundo. Explique por qu.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato relacione a dvida do poeta s transformaes histricas e sociais da primeira metade do sculo XX, principalmente aquelas que afetaram direta ou indiretamente a sociedade brasileira: os sinais de uma vida urbana em crescente expanso na cidade do Rio de Janeiro, o que se nota nas novas demandas da vida social (as mil queixas operrias), na proeminncia do jornal (prego dos jornais) em contraste com a mensagem do poeta que circula ou confiada pelo poeta entre nibus e est despida dos altissonantes lugares de enunciao. Cabe indicar, nesse contexto histrico, e com base no poema, a guerra e o combate, expresses decisivas que identificam uma poca de luta e violncia. Portanto, indicado o contexto que provoca a

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    dvida no poeta, espera-se ainda que o candidato aponte o modo como os poetas reagem a tais acontecimentos histricos (o suicdio, a desistncia da escrita e o interesse comercial). Ao duvidar se haver lugar para a poesia, e parece no haver, se nos fiarmos nas atitudes dos poetas Rimbaud, Maiakovski e Schmidt, o eu lrico contrape o pessimismo insistente mas discreta mensagem de Manuel Bandeira. Espera-se que o candidato seja capaz de relacionar a figura desse poeta a uma atitude otimista de perseverana e esperana, presente nas expresses confiana maior e pedido lancinante para que no nos deixe sozinhos.

    Exemplo Acima da Mdia

    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) Na resposta acima da mdia, o candidato relaciona precisamente a dvida do poeta ao contexto scio-poltico do perodo. Todavia, verifica-se, no encadeamento do raciocnio, uma falha lgica, ao se imputar ao momento histrico uma atmosfera catica em virtude da falncia das instituies (Estado, Igreja e famlia) e do prprio ser humano. Ainda, neste vis genrico, pode-se avaliar a questo abaixo da mdia, que, embora localize a razo da dvida do poeta no carter da sociedade moderna, no consegue descrever justamente os traos constitutivos desta sociedade. b) De maneira semelhante ao que se verificou no item anterior, a resposta abaixo da mdia aborda genericamente o motivo da figura de Manuel Bandeira se contrapor ao pessimismo constante no poema citado e no conjunto do livro Sentimento do mundo. As supostas qualidades da poesia de Manuel Bandeira, bem como o efeito esttico da leitura de sua obra no foram suficientemente explicados pelo candidato. Mais consistente a

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    formulao do candidato da resposta acima da mdia, uma vez que, apesar de associar a ocorrncia da palavra guerra decadncia social de um modo abrupto, ele consegue apontar para os traos de constncia e resistncia em Manuel Bandeira, tangenciando o campo semntico das noes de perseverana e esperana.

    Questo 9 Leia os seguintes trechos de Viagens na minha terra e de Memrias Pstumas de Brs Cubas: Benvolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda conscincia, um resto de conscincia: acabemos com estas digresses e perenais divagaes minhas.

    (Almeida Garret, Viagens na minha terra. So Paulo: Difuso Europeia do Livro, 1969, p.187.) Neste despropositado e inclassificvel livro das minhas Viagens, no que se quebre, mas enreda-se o fio das histrias e das observaes por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, s com muita pacincia se pode deslindar e seguir em to embaraada meada.

    (Idem, p. 292.) Mas o livro enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contrao cadavrica; vcio grave, e alis ntimo, por que o maior defeito deste livro s tu, leitor. Tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narrao direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo so como os brios, guinam direita e esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaam o cu, escorregam e caem...

    (Machado de Assis, Memrias Pstumas de Brs Cubas, em Romances, vol I. Rio de Janeiro: Garnier, 1993, p. 140.) a) No que diz respeito forma de narrar, que semelhanas entre os dois livros so evidenciadas pelos trechos

    acima?

    b) Que tipo de leitor esta forma de narrar procura frustrar, e de que maneira esse leitor tratado por ambos os narradores?

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Tendo em vista a forma de narrar nos dois livros, espera-se que o candidato identifique as seguintes semelhanas: o carter digressivo da narrativa, que no se preocupa em alinhavar toda a matria exposta ao leitor (a embaraada meada em Garret e estilo brio em Machado de Assis); a reduzida importncia da ao dramtica, fenmeno causado em parte pela quantidade expressiva de comentrios irnicos do narrador e sua constante interpelao dos leitores (Benvolo e paciente leitor em Garret, e o maior defeito deste livro s tu, leitor, em Machado de Assis). Espera-se que o candidato observe que tal forma de narrar deseja frustrar o leitor impaciente e ingnuo, acostumado s convenes do gnero narrativo, sendo que, nas duas obras, o leitor recebe um tratamento irnico por parte do narrador.

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    Exemplo Acima da Mdia

    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) Apesar de algumas imprecises terminolgicas, a resposta acima da mdia identifica trs semelhanas fundamentais presentes nos livros em questo: a digresso, a interpelao dos leitores e o carter autorreflexivo da narrativa, que, na terminologia utilizada pelo candidato, aparece na expresso metalinguagem. Na resposta abaixo da mdia, nota-se que o candidato apenas assinalou uma semelhana (a interpelao do leitor), no desenvolvendo, ainda que sucintamente, os demais traos em comum. b) Em que pese o problema de redao no primeiro enunciado da resposta acima da mdia, nota-se sua consistncia, pois o candidato indica que as duas narrativas procuram frustrar o leitor impaciente, tratando-o de modo irnico. A resposta abaixo da mdia opera equivocadamente com as distines de bondade e maldade para qualificar o tipo de leitor em jogo nas duas narrativas, sem especificar o significado dessas distines para o conjunto dos romances.

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    Questo 10 (...) Quando o Bugre sai da furna, mau sinal: vem ao faro do sangue como a ona. No foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz garbo disso! Ento voc cuida que ele anda atrs de algum? Sou capaz de apostar. uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jo Fera, ou houve morte ou no tarda. Estremeceu Inh com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa: Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou casa de Zana, e no apareceu nenhuma desgraa. que anda farejando, ou seno deram-lhe no rasto e esto-lhe na cola. Coitado! Se o prendem! Ora qual. Danar um bocadinho na corda! Voc no tem pena? De um malvado, Inh! Pois eu tenho!

    (Jos de Alencar, Til, em Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958, p. 825.) O trecho do romance Til transcrito acima evidencia a ambivalncia que caracteriza a personagem Jo Fera ao longo de toda a narrativa. a) Explicite quais so as duas faces dessa ambivalncia.

    b) Exemplifique cada face dessa ambivalncia com um episdio do romance.

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Espera-se que o candidato identifique em Jo Fera uma personagem ambivalente, que no pode ser classificada puramente como vilo ou heri. Jo Fera tornou-se um assassino cruel por conta das vicissitudes que lhe marcaram a vida. Em sua juventude Jo Fera viu Besita, a moa por quem estava apaixonado, e a cujo amor renunciara por no se julgar digno dela, ser violada por Lus Galvo, seu melhor amigo, e, posteriormente, ser assassinada pelo marido. Esses fatos o levaram a trilhar o caminho do crime. Mas a lembrana de seu amor por Besita persiste em sua adorao pela filha dela, Berta, a quem se mantm fiel e a quem protege de todos os perigos ao longo de todo o romance. Essa ambivalncia da personagem pode ser exemplificada de vrias maneiras. Jo Fera matador profissional. Se em uma passagem do romance chega a despedaar um inimigo com as prprias mos, em outra salva Berta do ataque de um bando de queixadas. Mas talvez a melhor caracterizao dessa ambivalncia se encontre naquelas passagens do romance em que as duas faces de Jo Fera se manifestam ao mesmo tempo, evidenciando o profundo sofrimento da personagem com seu destino: tendo aceitado pagamento para matar um homem, descobre que se tratava de Lus Galvo, seu amigo de infncia, o violador de Besita, a cuja famlia, no entanto, se sente ligado por deveres de gratido, e procura de todas as maneiras restituir o dinheiro recebido para se desobrigar do crime. Tambm em seu estranho conceito de honra: mesmo sendo matador profissional, nunca ataca sua vtima traio, pelas costas, sempre de frente, para que ela tenha a possibilidade de se defender. Essa atitude, por outro lado, revela a secreta esperana de ser morto e pr um fim a sua vida infeliz. Talvez o clmax de sua ciso ntima esteja no captulo em que, protegendo Berta de seus inimigos, sente ao mesmo tempo despertar em si um violento desejo sexual pela moa, quase chegando a tom-la fora, mas se contendo a tempo.

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    Exemplo Acima da Mdia

    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) A resposta acima da mdia identifica e desenvolve adequadamente as duas faces da ambivalncia de Jo Fera, a saber, uma personalidade que oscila entre ser vilo e heri. Alm disso, o candidato explica a gnese dessa ambivalncia na trajetria percorrida pela personagem. Procedimento semelhante no se encontra na resposta abaixo da mdia, uma vez que se nota a caracterizao parcialmente correta da ambivalncia de Jo Fera, isto , se a primeira parte do enunciado assinala a face vil de Jo Fera, a segunda parte caracteriza-o como um pobre coitado, termo impreciso para o campo semntico da noo de heri. b) Enquanto na resposta acima da mdia possvel verificar o registro de alguns episdios nos quais a ambivalncia da personagem revelada, na resposta abaixo da mdia apenas uma das faces dessa ambivalncia contemplada (a condio de vilo), faltando indicar concretamente em qual episdio o amor de Jo Fera por Berta explicitado e, sobretudo, caracterizar a natureza desse sentimento amoroso no mbito da virtude.

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    Questo 11 Em uma passagem clebre de Memrias de um sargento de milcias, pode-se ler, a respeito da personagem de Leonardo Pataca, que o homem era romntico, como se diz hoje, e babo, como se dizia naquele tempo.

    (Manuel Antnio de Almeida, Memrias de um sargento de milcias. Rio de Janeiro: Livros Tcnicos e Cientficos, 1978, p. 19.) a) De que maneira a passagem acima explicita o lugar peculiar ocupado pelo livro de Manuel Antnio de

    Almeida no Romantismo brasileiro?

    b) Como essa peculiaridade do livro se manifesta, de maneira geral, na caracterizao das personagens e na construo do enredo?

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) No Romantismo brasileiro, o livro de Manuel Antnio de Almeida representa uma tendncia satrica, que faz largo uso do humor e da ironia no retrato dos costumes brasileiros do tempo em que a corte portuguesa havia se transferido para o Brasil. Espera-se, ento, que o candidato reconhea que as Memrias de um sargento de milcias se diferenciam sensivelmente da tendncia dominante na fico romntica de seus contemporneos tanto por seu teor cmico e satrico como por sua linguagem, que, ao tom elevado e sublime, prefere a fluidez e a coloquialidade. Por tais caractersticas, parte da crtica chegou mesmo a consider-lo um precursor do Realismo literrio entre ns. Sendo um romance satrico, o livro de Manuel Antnio de Almeida apresenta personagens pouco idealizados, desde seu protagonista, o primeiro exemplo da figura de um malandro na literatura brasileira, at o Major Vidigal, o chefe da polcia e representante da lei e da ordem, que, ao final da trama, ajeita arbitrariamente a situao de Leonardo em troca dos amores de Maria Regalada, por quem nutria uma antiga paixo. Fazendo com que suas personagens encontrem a sada para seus conflitos por meio de artimanhas nem sempre muito honestas, o autor evita as solues sentimentais e dispensa o heri de se regenerar para merecer o final feliz a que suas aventuras o conduzem.

    Exemplo Acima da Mdia

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    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) Ao elencar os princpios bsicos da escola romntica, como a idealizao amorosa e a distino moral (o atributo da perfeio concedido s personagens), contrapondo-os aos traos ostensivos do romance Memrias de um sargento de milcias, a saber, a stira e o humor, a resposta acima da mdia indica satisfatoriamente o lugar peculiar do romance em questo. Ainda que o candidato afirme que o excerto citado um exemplo desse humor, faltou explicitar a questo do tratamento informal da linguagem, presente, por exemplo, na ocorrncia do termo babo. Por sua vez, a resposta abaixo da mdia apenas enuncia que o romance de Manuel Antonio de Almeida se situa na transio entre o Romantismo e o Realismo, no fornecendo elementos consistentes para determinar o significado desse perodo de transio e a importncia dele para pensar o lugar peculiar ocupado pelo romance. b) Embora retome parte dos princpios da esttica romntica, a resposta acima da mdia caracteriza os aspectos fundamentais das personagens: a linguagem coloquial, o padro moral bastante flexvel, o que se verifica na construo de um heri nada convencional, encarnado na figura do malandro. Se o candidato consegue relacionar a peculiaridade do livro caracterizao das personagens, em contrapartida, faltou-lhe desenvolver tal relao no mbito do enredo. Menos exitosa a resposta abaixo da mdia, que somente descreve genericamente os elementos da narrativa, como faz, por exemplo, ao opor o ideal romntico aos acontecimentos cmicos presentes no romance.

    Questo12 Leia o seguinte trecho do romance Capites da Areia, de Jorge Amado: Agora [Pedro Bala] comanda uma brigada de choque formada pelos Capites da Areia. O destino deles mudou, tudo agora diverso. Intervm em comcios, em greves, em lutas obreiras. O destino deles outro. A luta mudou seus destinos.

    (Jorge Amado, Capites da Areia. So Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 268.) a) Explique a mudana pela qual os Capites da Areia passaram, e o que a tornou possvel.

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    b) Que relao se pode estabelecer entre esse desfecho e a tendncia poltica do romance de Jorge Amado?

    Resposta Esperada (cada item vale 2 pontos) Ao final do romance, os Capites da Areia deixam de ser um bando de infratores para se engajar em uma atividade poltica. Espera-se que o candidato reconhea nesse desfecho o fim de um processo de conscientizao que se torna possvel porque, na viso do romance, os Capites da Areia no so criminosos, e sim vtimas de uma sociedade injusta e excludente. Isso permite a passagem da simples luta pela sobrevivncia para a luta pela transformao do mundo. Elementos importantes dessa passagem so a descoberta por Joo Bala de que seu pai fora um lder sindical, e o encontro do jovem infrator com o estudante Alberto, que passa a doutrinar o grupo de acordo com a ideologia da organizao poltica a que pertence. Espera-se ainda que o candidato relacione Capites da Areia literatura de contedo social produzida pela gerao dos romancistas da dcada de 1930, qual pertence Jorge Amado. Nessa poca o escritor era filiado ao Partido Comunista Brasileiro, e esta tambm a tendncia que orientar a nova forma de luta adotada pelos Capites da Areia. A esperana revolucionria leva a um desfecho otimista e tambm responsvel pelo carter algo panfletrio do romance, expresso nas palavras que o concluem: a revoluo uma ptria e uma famlia.

    Exemplo Acima da Mdia

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    Exemplo Abaixo da Mdia

    Comentrios a) Na resposta acima da mdia, tanto a mudana ocorrida com o grupo de meninos infratores (a passagem da delinquncia para a ao poltica) quanto uma das causas dessa mudana (a descoberta do passado de Pedro Bala e a sua posio de lder poltico do grupo) esto devidamente explicadas. Situao diferente ocorre na resposta abaixo da mdia, pois ainda que o candidato assinale no que consistiu a mudana do grupo, no foi capaz de dissertar sobre o que tornou possvel essa mudana, apenas formulando de um modo vago a ideia do amadurecimento das personagens. b) A resposta acima da mdia relaciona satisfatoriamente o desfecho (o engajamento social e a luta pela revoluo) tendncia poltica do romance, caracterizada pelo candidato como crtica s desigualdades inerentes ao sistema capitalista e adeso s ideias socialistas. Em contrapartida, a resposta abaixo da mdia, como ocorreu no item anterior, no consegue estabelecer adequadamente a relao solicitada, exceto ao aludir inteno poltica do romancista (revelar sociedade as condies pelas quais passam as diversas pessoas) e luta do grupo por mudanas sociais (a luta que estas empregam em busca de uma vida melhor).