LINGUAGEM E PINTURA EM MERLEAU- ?· Merleau-Ponty, M. “Le roman et la metaphysique”, in . Sens et…

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    PROJETO DE PS-DOUTORADO

    LINGUAGEM E PINTURA EM MERLEAU-PONTY

    Leandro Neves Cardim

    I RESUMO

    Este projeto pretende abordar temas tanto do perodo intermedirio quanto da

    ltima produo filosfica de Merleau-Ponty. Trata-se da retomada e da ultrapassagem

    da vida perceptiva na dimenso da cultura. Investigando os temas da linguagem e da

    pintura alcanaremos o territrio propcio para a elaborao da ontologia do ltimo

    perodo. Para isto, nos dedicaremos, no que diz respeito aos temas relacionados

    linguagem, a uma pesquisa sobre a teoria da verdade e sobre a teoria da

    intersubjetividade. Em relao pintura, trata-se, principalmente, de examinar a

    doutrina da expresso criadora e, em particular, da expresso pictrica.

    II INTRODUO E JUSTIFICATIVA

    Este projeto a continuao e o prolongamento necessrio da pesquisa realizada

    no perodo do doutorado, o qual se encerrou com a tese A ambigidade na

    Fenomenologia da percepo de Maurice Merleau-Ponty. Trata-se, agora, de levar a

    cabo uma pesquisa que tem por horizonte uma interrogao geral sobre a relao, na

    obra de Merleau-Ponty, entre a filosofia e a no-filosofia. Ora, desde o seu primeiro

    perodo, o filsofo j se preocupava em formular uma experincia do mundo, um

    contato como o mundo que precede todo o pensamento sobre o mundo. 1 Mas para que

    uma inteno como esta possa ser posta em prtica indispensvel reconhecer, por

    exemplo, que a tarefa da literatura e da filosofia no podem mais estar separadas. E

    isto, porque a expresso filosfica assume as mesmas ambigidades que a expresso

    literria. Esta declarao deve ser compreendida no sentido de que, ao contrrio da

    tradio que relaciona o que existe de metafsico no homem a um alm do ser emprico

    Deus e conscincia agora, em seu prprio ser [...] que o homem metafsico.

    A propsito, o objetivo do filsofo sempre foi recolocar o sujeito no bero do sensvel,

    1 Merleau-Ponty, M. Le roman et la metaphysique, in Sens et non-sens, Paris, Nagel, 1966, p.48; este livro passa a ser citado com a sigla SNS.

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    que ele transforma sem abandonar. 2 Isto significa que a filosofia assume como seu

    territrio legtimo a prpria percepo e a vida percebida. neste sentido que Merleau-

    Ponty nos diz que se filosofar descobrir o sentido primeiro do ser, no se filosofa

    deixando a situao humana: preciso, ao contrrio, mergulhar nela. O saber absoluto

    do filsofo a percepo. 3 Mas se assim for, no estamos muito distantes de certas

    teses de O visvel e o invisvel onde a percepo compreendida como o arqutipo do

    encontro originrio. 4 Em suas notas de preparao para aquilo que veio a ser O visvel

    e o invisvel ele nos diz que a Fenomenologia da percepo no poderia ser considerada

    como simples psicologia, mas que tal livro j era, na realidade, ontologia (cf. VI, 228).

    preciso observar, porm, que o amadurecimento do filsofo e a conseqente

    radicalizao de seu projeto filosfico suscitam divergncias interpretativas que

    merecem ser discutidas. Em seus ltimos textos Merleau-Ponty procura empreender

    uma retomada, um aprofundamento e uma retificao de seus primeiros trabalhos na

    perspectiva da ontologia (cf. VI, 220). Assim, uma vez que nosso trabalho atual se

    prope analisar os textos deste filsofo a partir do perodo intermedirio,

    indispensvel compreender, em primeiro lugar, como se deu este amadurecimento e no

    opor, pura e simplesmente, uma fase fenomenolgica a uma fase ontolgica.

    precisamente aqui que as opinies divergem. J se viu na passagem do perodo

    intermedirio aos textos do ltimo perodo uma ruptura radical. 5 Ao que nos parece,

    2 Idem,. Le primat de la perception et ses consquences philosophiques, Lagrasse, Verdier, 1996, p.68. 3 Idem,. loge de la philosophie et autres essais, Paris, Gallimard, p.23. 4 Cf. idem,. Le visible et le invisible, Gallimard, Paris, p.208; livro citado com a sigla VI. 5 Barbaras, R. De la parole ltre, in De ltre du phnomne. Sur lontologie de Merleau-Ponty, Grenoble, Jrme Millon, 1991, p.70. Neste texto Barbaras interpreta a mudana no itinerrio como ruptura radical porque Merleau-Ponty estaria continuando, em A prosa do mundo (1952), o trabalho empreendido em sua Fenomenologia da percepo de 1945. Mas tudo se passa como se Merleau-Ponty tivesse descoberto, durante a redao do livro de 1952, as insuficincias de sua primeira teoria, o que resultaria no nascimento de uma nova perspectiva que a de O visvel e o invisvel. Outros intrpretes consideram que o giro ontolgico dado por Merleau-Ponty s descries da percepo devido, principalmente, a uma releitura dos textos de Husserl e do segundo Heidegger (cf. Robert, F. Phnomnologie et ontologie. Merleau-Ponty lecteur de Husserl et Heidegger, Paris, LHarmattan, 2005, cf. p.20-21). Mas h, ainda, interpretes como Duchne que consideram que o tema da temporalidade j fornece a Merleau-Ponty, desde 1945, material para elaborar uma nova ontologia. Em uma nota do artigo em questo este autor nos diz que as ltimas obras de Merleau-Ponty no desenvolvem perspectivas to novas como certos comentadores o fazem entender. No existe ruptura na obra do autor, nem converso metafsica. As ltimas obras generalizam ao visvel, ao espao, linguagem a afeco de si por si feita de imanncia e de transcendncia descoberta desde a Fenomenologia da percepo a propsito do tempo. Como o tempo, o visvel, o sensvel, a linguagem tem duas faces e objeto-sujeito, visvel-vidente, sensiente-sensvel. A carne esta estrutura generalizada (Duchne, J. La structure de la phnomnalisation dans la Phnomnologie de la perception de Merleau-Ponty, in Revue de mtaphysique et de morale, n3, 1978, p.392 e 395 - nota). Ora, em uma perspectiva deste tipo que devemos nos situar se quisermos apreender o sentido do projeto filosfico de Merleau-Ponty. Todavia, preciso lembrar que esta generalizao exige, justamente, um aprofundamento e uma retificao da pesquisa. Por fim, a autocrtica de Merleau-Ponty deve ser compreendida como uma instncia de reviso

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    preciso abordar a questo da relao entre a fenomenologia e a ontologia a partir do

    problema da expresso, afinal, ele pode ser lido como a melhor chave para aceder aos

    ltimos textos de Merleau-Ponty. 6 A partir de um ponto de vista como este, torna-se

    indispensvel acompanhar o desdobramento da noo de expresso no interior dos trs

    perodos desta filosofia. A tese de que h continuidade e mudana nos modelos da

    doutrina da expresso nos parece a mais convincente e nos ajudar a desenhar o perfil

    deste projeto filosfico que desde o incio apresentava a filosofia como a explorao do

    mundo da vida. Isto o mesmo que dizer que no h mais rivalidade ou antinomia entre

    o Lebenswelt como Ser universal e a filosofia como produto extremo do mundo

    aqui, a filosofia desvela o mundo (cf. VI, 222). Portanto, seria interessante considerar

    com outros olhos as teses j presentes no livro de 1945 de que h um sentido

    imanente ao sensvel e de que a fala originria a consumao do prprio

    pensamento. Reconhecer isto j encontrar-se em regime de nova ontologia. 7

    a partir deste contexto que os temas da percepo, da linguagem e da pintura

    devem ser abordados na obra de Merleau-Ponty. Alis, isto nos permite levantar

    algumas questes de horizonte que serviro de baliza para este projeto. Como

    compreender que o sensvel, assim como a vida, possa ser um tesouro sempre pleno de

    coisas a dizer para aquele que filsofo ou seja, escritor (VI, 300) ? Qual a relao

    entre a filosofia, por um lado, e a linguagem e a pintura, por outro? Como entender que

    a filosofia se relacione com a no-filosofia ou seja, um conjunto de prticas que no que no nega a continuidade da pesquisa, uma continuidade que se consagra a novas aproximaes e no exclui novas concluses (Carbone, M La visibilit de linvisible. Merleau-Ponty entre Czanne et Proust, New York, Georgs Olms Verlag, 2001, p.89). 6 Ricur, P. Langage (Philosophie), in Dictionnaire de la philosophie Encyclopaedia Universalis, Paris, Albin Michel, 2000, p.951. 7 Moura, C.A.R. Entre fenomenologia e ontologia: Merleau-Ponty na encruzilhada, in Racionalidade e crise. Estudos de Histria da filosofia moderna e contempornea, So Paulo, Discurso Editorial e Editora da UFPR, 2001, p.287 e seguintes. A interpretao dada por Moura da relao entre fenomenologia e ontologia nos ensina que o projeto ontolgico de Merleau-Ponty presente desde a Fenomenologia da percepo visa garantir um lugar natural para o conceito de expresso, o que ter como resultado a potencializao mxima do prprio cdigo fenomenolgico de interpretao da experincia. E ele levar instalao do logos at ao menor detalhe do mundo, que sempre poder ser visto, a partir de agora, como representao de alguma coisa. Assim, a abordagem merleaupontiana da linguagem ou da percepo j traz, em filigrana, os desdobramentos futuros da ontologia do ltimo perodo. Como ler a trajetria de Merleau-Ponty a partir de um ponto de vista como este? Ora, trata-se de um trajeto no qual ns mudamos de cidade, mas permanecemos no interior do mesmo pas. [...] Trata-se aqui, no fundo, do aprofundamento de uma mesma estratgia destinada a dar direito de cidadania noo merleaupontiana de expresso. Desde ento, a noo de expresso entendida como novo comentrio da intencionalidade e calcada no a priori material nos faz estabelecer uma relao interna entre o representante e o representado