Livro História da Filosofia Ocidental - Bertrand Russell

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HISTRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL

HISTRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL

BERTRAND RUSSELL

Histria DA FILOSOFIA OCIDENTAL

e sua conexo poltica e social desde os tempos primitivos at hoje

BERTRAND RUSSELL

LIVROS HORIZONTE

PORTUGAL BRASIL

Ttulo original

HISTORY OF WESTERN PHILOSOPHY

arid its ConnecUon with Political and Social Circunistances from the Earliest Times to the Presente Day

Traduo do PROF. DOUTOR VIEIRA DE ALMEIDA

Reservados os direitos de publicao para Portugal pela

EDITORIAL GLEBA, L.DA / LIVROS HORIZONTE, L.DA

Venda interdita no Brasil

PREFCIO

Algumas palavras de explicao e apologia podero evitar a este livro maior censura do que a que sem dvida merece.

Deve-se a apologia aos especialistas das vrias escolas e dos filsofos individualmente considerados. Exceptuando talvez Leibniz, cada filsofo que trato mais conhecido de outros do que de mim. Mas se livros campo vasto devem escrever-se, inevitvel, pois no somos imortais que os autores gastem menos tempo em cada parte do que um homem, concentrado em um s autor ou um perodo breve. Concluiro alguns com erudita e severa austeridade, que tais livros no devem escrever-se ou ento devem ser constitudos por monografias de vrios autores. No entanto, alguma coisa se perde nessa colaborao. Se h qualquer unidade no movimento da histria., se h alguma relao ntima entre o antes e o depois, necessrio que um s esprito sintetize os perodos anterior e ulterior. O estudioso de Rousseau pode ter dificuldade em apreciar a sua conexo com a Esparta de Plato e Plutarco; o historiador de Esparta pode no estar profeticamente cnscio de Hobbes, Fichte e Lenine. Mostrar relaes desse gnero o fim deste livro, fim que s por uma larga viso de conjunto pode atingir-se.

H muitas histrias da filosofia, mas nenhuma do meu conhecimento com o objectivo de esta. Os filsofos so efeito e causa. Muitos efeitos das circunstncias e da poltica e instituies do seu tempo; causa (se tiverem essa fortuna) de crenas modeladoras da poltica e instituies de pocas ulteriores. Na mor parte das histrias da filosofia, cada filsofo aparece no vcuo. As suas opinies so irrelacionadas, excepto na melhor hiptese para os filsofos primitivos. Eu tentei, ao contrrio mostrar cada filsofo, tanto quanto a verdade permite, como result

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do seu milieu, como homem em que se cristalizam e concentram vagos e difusos pensamentos e sentimentos da comunidade a que pertence. (1)

Isto exigiu alguns captulos de pura histria social. Ningum compreende esticos e epicuristas sem algum conhecimento da idade helenstica, ou os escolsticos sem o do desenvolvimento da Igreja do sculo v ao XIII. Por isso tratei brevemente os esboos puramente histricos de maior influncia no meu parecer sobre o pensamento filosfico, e mais demoradamente onde a histria provavelmente menos familiar a alguns leitores - por exemplo, a da Alta Idade Mdia. Mas nesses captulos histricos exclu quanto me pareceu de pequena ou nula influncia na filosofia contempornea ou subsequente (2).

Em livros como este o problema da seleco difcil. Sem pormenor o livro vazio e sem interesse; com pormenor, pode tornar-se de lentido intolervel. Optei por um compromisso, tratando s de filsofos que julguei de importncia capital e mencionando em relao com eles, pormenores que se no tm importncia fundamental tm valor como exemplo e vivificao.

(1)Este ponto de vista de Russell parece-nos merecer uma reflexo particularmente atenta. Se inegvel que as histrias da filosofia, na maior parte, nos apresentam as opinies de cada filsofo isoladas do contexto histrico-social em que se Inscrevem, no sero porventura mais complexos do que o sugere Russell os laos que os ligam ao seu tempo? A esse propsito afigura-se-nos oportuno citar um texto de Gramsci em que o pensador italiano, com a sua reconhecida lucidez, foca o problema com maior preciso: Do ponto de vista que nos preocupa, o estudo da histria e da lgica das diferentes filosofias dos filsofos no suficiente. Quanto mais no seja do que como orientao metdica, preciso chamar a ateno para as outras partes da histria da filosofia, quer dizer para as concepes do mundo das grandes massas, para as dos grupos dirigentes mais restritos (os Intelectuais) e finalmente para os liames que unem estes diferentes conjuntos culturais com a filosofia dos filsofos. A filosofia de uma poca no a filosofia deste ou daquele filsofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, deste ou daquele grande agrupamento das massas populares: uma combinao de todos estes elementos que tem o seu apogeu numa direco determinada, em que este apogeu se tornou em norma de aco colectiva, quer dizer histria concreta e completa (integral. Traduzimos este fragmento do volume Oeuvres Choisies, traduction et notes par Gbert Moget et Armand Monjo, prface de Georges Cogniot, Paris [1959], p. 43. (E. P.) () Cremos que Bertrand Russell nem sempre solucionou acuradamente este problema. Assim, por exemplo, afigura-se-nos que o Autor no atribuiu a devida Importncia aos materialistas franceses do sculo XVIII, a despeito de constiturem uma das fontes e partes constituintes de uma das mais vigorosas correntes da filosofia contempornea, o materialismo dialctico. (R. F.)

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A filosofia desde os primeiros tempos foi no apenas mera questo de escolas ou disputa entre um pugilo de homens cultos, mas parte integrante da vida da comunidade, e como tal procurei considerd-1a. Se h mrito neste livro, deriva desse ponto de vista.

O livro deve a existncia ao Dr. Albert C. Barnes, por ter sido originariamente planeado e em parte apresentado em conferncias na Barnes Foundation, de Pensilvnia.

Como na maior parte da minha obra desde 1932 auxiliou-me na investigao e em muitas outras formas minha mulher, Patrcia Russell.

INTRODUO

As concepes da vida e do mundo a que chamamos filosficas so

produto de dois factores: um, herana de concepes religiosas e ticas; outro, aquela investigao que pode ter nome cientifica, usando o termo no sentido mais lato. Individualmente os filsofos largamente divergiram na proporo destes dois factores nos seus sistemas, mas a presena de ambos em qualquer grau o que caracteriza a filosofia.

Filosofia termo com vrios sentidos, mais latos ou mais estritos. Us-lo-ei no sentido lato que vou explicar.

Filosofia como entenderei a palavra algo intermdio entre teologia e cincia. Como a teologia, consiste em especulaes sobre matrias inacessveis at agora ao conhecimento definido, mas como a cincia, apela para a razo de preferncia autoridade, quer da tradio quer da revelao. Todo conhecimento definido - assim o sustento - pertence cincia; todo dogma, como o que excede o conhecimento definido, pertence teologia. Mas entre teologia e cincia h uma terra-sem-dono, exposta ao ataque de ambos os lados; a filosofia. As questes de maior interesse para espritos especulativos raro tm resposta cientifica, e as respostas confiantes de telogos j no parecem to convincentes como nos sculos anteriores. Estar o mundo dividido em esprito e matria, e sendo assim, que esprito e que matria? Est a alma sujeita matria, ou tem energias independentes? Tem o Universo unidade ou fim? Evolve para algum objectivo? H realmente leis da natureza, ou cremos nelas devido ao nosso inato amor da ordem? o homem o que parece ao astrnomo um pequeno conjunto de carvo impuro e gua, a arrastar-se impotente sobre um pequeno planeta sem importncia? Ou o que pensava Hamlet? Ser as duas coisas? H um tipo nobre e um

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tipo baixo de vida, ou so todos meramente fteis? Se um deles nobre, em que consiste e como realiz-lo? Deve o bem ser eterno para poder ser apreciado, ou merece procurar-se ainda quando o Universo caminhe inexoravelmente para a morte? Existe de facto a sabedoria ou no passa de requinte derradeiro de loucura? No h resposta em laboratrio para tais questes. Pretenderam teologias dar respostas, todas demasiado definidas, o que as torna suspeitas a espritos modernos. Estudar essas questes, se no responder-lhes, a tarefa da filosofia.

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Ma ento, dir-se-, por que perder tempo com problemas insolveis? Pode responder-se como historiador ou como homem em face do terror da solido csmica.

A resposta do historiador, tanto quanto posso d-la, ver-se- nesta obra, Desde que os homens foram capazes de especular livremente, as

suas aces em inmeros aspectos importantes dependeram das suas teorias sobre o mundo e a vida humana, assim como sobre o bem e o mal. Assim hoje como foi antes. Para compreender uma idade ou uma nao temos de compreender-lhe a filosofia, e para isso temos de ser em qualquer grau filsofos. H aqui uma causalidade recproca. As circunstncias da vida do homem concorrem muito para determinar a sua filosofia, e reciprocamente, a sua filosofia determina em muito as suas circunstncias. Esta interaco multissecular o tpico das pginas seguintes.

H no entanto uma resposta mais pessoal. A cincia diz-nos o que sabemos, e pouco; e se esquecemos quanto ignoramos ficaremos insensveis a muitos factos da maior importncia. Por outro lado, a teologia induz a crer dogmaticamente que temos conhecimento onde realmente s temos ignorncia, e assim produz uma espcie de impertinente arrogncia em relao ao Universo. A incerteza perante esperanas vivas e receios dolorosa mas tem de suportar-se se quisermos viver sem o conforto de contos de fadas. Nem bom esquecer as questes postas pela filosofia, nem persuadirmo-nos de que 1 ** he achmos resposta indubitvel. Ensinar a viver sem certeza e sem ser paralisado pela hesitao talvez o mais importante dom da filosofia do nosso tempo a quem a estuda.

Filosofia, como distinta da teologia, comeou na Grcia, no sculo vi a. C.. Depois foi de novo submergida pela teologia com a vinda do