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[Livro] Mitologia Greco-Romana Vol. III

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  • REN MENARD

    VOLUME III

  • Titulo do original francs

    LA MYTHOLOGIE DANS L'ART ANCIEN ET MODERNE

    EDITOR

    DIREO EDITORIAL

    TRADUO

    REVISO FINAL

    MONTAGEM E ARTE FINAL

    EQUIPE DE ARTE

    EQUIPE DE REDAO

    PIETRO MACERA

    SALVATORE MACERA NETO

    Nossos agradecimentos pelo constante incentivo que recebemos de:

    MARGHERITA STEFANELLI MACERA IN MEMORIAM

    R. MARIO STEFANELLI SALVATORE MACERA

    CHRISTINA MACERA NICOLA STEFANELLIANGELINO MACERA GIOVANNI GRILO

    EMILIA GIOVANNA A. MACERA JOS LASTORINA

    MARIANA MACERA

  • Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode

    ser reproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer mtodo, eletrnico ou mecnico, sem autorizao prvia por escrito dos Editores.

    1 Edio 1985 2 Edio 1991

    Impresso no Brasil Printed in Brazil

  • Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Mnard, Ren, 1827-1887.

    Mitologia greco-romana / Rene Menard ; traduo Aldo Della Nina. So Paulo : Opus, 1991.

    91-1334

    Obra em 3 v.

    1. Mitologia grega 2. Mitologia romana I. Ttulo.

    CDD-292

    ndices para catlogo sistemtico: 1. Mitologia greco-romana 292

  • CAPITULO VI

    CUPIDO

    Nascimento de Cupido. Educao de Cupido. Tipo e atributos de Cupido. Esaco. Pico e Circe. O cabelo de Niso.

    Nascimento de Cupido

    Cupido nos tempos primitivos considerado um dos grandes princpios do universo e at o mais antigo dos deuses. Representa a fora poderosa que faz com que todos os seres sejam atrados uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raas. Mitologicamente, no sabemos quem seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vnus por me, e realmente naturalssimo que Cupido seja filho da beleza.

  • O nascimento de Cupido proporcionou a Lesueur o tema de uma encantadora composio. Vnus sentada nas nuvens est rodeada das trs Graas, uma das quais lhe apresenta o gracioso menino. Uma das Horas, que paira no cu, esparze flores sobre o grupo (fig. 372).

    Educao de Cupido

    Notando Vnus que Eros (Cupido) no crescia e permanecia sempre menino, perguntou o motivo a Tmis. A resposta foi que o menino cresceria quando tivesse um companheiro que o amasse. Vnus deu-lhe, ento, por amigo Anteros (o amor partilhado). Quando esto juntos, Cupido cresce, mas volta a ser menino quando Anteros o deixa. uma alegoria cujo sentido que o afeto necessita de ser correspondido para desenvolver-se.

    A educao de Cupido por Vnus proporcionou assunto para uma multido de maravilhosas composies em pedras gravadas. Vnus brinca com ele de mil modos diversos, pegando-lhe o arco ou as setas e seguindo-lhe com o olhar os graciosos movimentos (fig. 376). Mas o malicioso menino vinga-se, e vrias vezes a me experimenta o efeito das suas flechadas.

    Cupido era freqentemente considerado um civilizador que soube mitigar a rudeza dos costumes primitivos. A arte apoderou-se dessa idia, apresentando-nos os animais ferozes submetidos ao irresistvel poder do filho de Vnus. Nas pedras gravadas antigas vemos Cupido montado num leo a quem enfeitia com os seus acordes; outras vezes atrela animais ferozes ao seu carro, aps domestic-los, ou ento quebra os atributos dos deuses, porque o universo lhe est submetido (figs. 374 e 375). No obstante o seu poder, jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou as Musas.

  • Cupido o espanto dos homens e dos deuses. Jpiter, prevendo os males que ele causaria, quis obrigar Vnus a desfazer-se dele. Para o furtar clera do senhor dos deuses, viu-se Vnus obrigada a ocult-lo nos bosques.

    Fig. 372 Nascimento de Cupido (segundo um quadro de Lesueur).

    onde ele sugou o leite de animais ferozes. Tambm os poetas falam sem cessar da crueldade de Cupido: "Formosa Vnus, filha do mar e do rei do Olimpo, que

  • ressentimento tens contra ns? Por que deste a vida a tal flagelo, Cupido, o deus feroz, impiedoso, cujo esprito corresponde to pouco aos encantos que o embelezam? Por que recebeu asas e o poder de lanar setas, a fim de que no pudssemos safar-nos dos seus terrveis golpes?" (Bon).

    Fig. 373 Vnus e Cupido.

    Um epigrama de Mosco mostra a que ponto conhecia Cupido o seu poder, at contra Jpiter. "Tendo deposto o arco e o archote, Cupido, de cabelos encaracolados, pegou um aguilho de boieiro e suspendeu ao pescoo o alforje de semeador; depois, atrelou ao jugo uma parelha de bois vigorosos e nos sulcos atirou o trigo de Ceres. Olhando, ento para o cu, disse ao prprio Jpiter: "Fecunda estes campos, ou ento, touro da Europa, eu te atrelarei a este arado." (Antologia).

  • Fig. 374 A fora de Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).

    Fig. 375 Cupido triunfante [segundo uma pedra gravada antiga Cupido pode ser considerado aqui por amor ao vinho, em virtude

    dos seus atributos bquicos.

  • Luciano, nos seus dilogos dos deuses, assim formula as queixas de Jpiter a Cupido:

    "Cupido. Sim, se cometi um erro, perdoa-me, Jpiter. Sou ainda menino e no atingi a idade da razo.

    Jpiter. Tu, Cupido, um menino?! Mas se s mais velho que Japeto. Por no teres barba nem cabelos

    Fig. 376 Vnus e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).

    brancos, julgas-te ainda menino? No. s velho e velho maldoso.

    Cupido. E que mal te fez, pois, este velho, como dizes, para que penses em encade-lo?

    Jpiter. V, pequenino malandro, se no grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse da forma de stiro, touro, cisne e guia. No fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim prprio,

  • e no sei absolutamente que, pelo teu sortilgio, eu tenha conseguido agradar a uma que fosse. Pelo contrrio, devo recorrer a metamorfoses e ocultar-me. verdade que amam o touro ou o cisne, mas se me vissem morreriam de medo." (Luciano).

    Cupido inspirou encantadores trechos a Anacreonte: "No meio da noite, na hora em que todos os mortais dormem, Cupido chega e, batendo minha porta, faz estremecer o ferrolho: "Quem bate assim? exclamei. Quem vem interromper-me os sonhos cheios de encanto? Abre, responde-me Cupido, no temas, sou pequenino. Estou molhado pela chuva, a lua desapareceu e eu me perdi dentro da noite." Ouvindo tais palavras apiedei-me; acendo a lmpada, abro e vejo um menino alado, armado de arco e aljava; levo-o ao p da lareira, aqueo-lhe os dedinhos entre as minhas mos, e enxugo-lhe os cabelos encharcados de gua. Mal se reanima: "Vamos, diz-me, experimentemos o arco. Vejamos se a umidade o no estragou." Estica-o, ento, e vara-me o corao, como faria uma abelha; depois, salta, rindo com malcia: "Meu hspede, diz, rejubila-te. O meu arco est funcionando perfeitamente bem, mas o teu corao est agora enfermo." (Anacreonte).

    "Um dia, Cupido, no percebendo uma abelha adormecida nas rosas, foi por ela picado. Ferido no dedinho da mo, solua, corre, voa para o lado de sua me: "Estou perdido, morro! Uma serpentezinha alada me picou. Os lavradores dizem que uma abelha." Vnus responde-lhe: "Se o aguilho de uma simples abelha te faz chorar, meu filho, reflete como devem sofrer aqueles a quem tu atinges com as setas!" (Anacreonte).

    Tipo e atributos de Cupido

    Na arte Cupido apresenta dois tipos distintos, pois uma das vezes o vemos como adolescente, outras sob o

  • aspecto de gracioso menino. Mas o primeiro de tais tipos o mais antigo. Uma pedra gravada nos mostra Cupido de estilo antigo, representado por um febo alado e disparando uma seta (fig. 377). O arco, as setas e as asas so sempre os atributos de Cupido.

    Fig. 377 Cupido de antigo estilo (segundo uma pedra gravada)

    O tipo de Cupido adolescente est fixado perfeitamente num tronco do museu. Pio-Clementino (fig. 378). Os membros, infelizmente, faltam. Os ombros apresentam vestgios de orifcios abertos para acolherem o p das asas. A cabea, de delicada beleza, est coberta de cabelos encaracolados.

    Foi Praxteles, contemporneo de Alexandre, que fixou na arte o tipo de Cupido. Sabe-se que o grande escultor era freqentador assduo da famosa cortes Frinia. Esta, ao lhe pedir um dia que ele lhe cedesse a mais bela das suas esttuas, teve o prazer de ser ouvida. Mas Praxteles no lhe explicou qual delas seria. Frinia, ento, mandou que um escravo fosse casa do escultor, e dali a pouco o escravo voltou dizendo que um incndio destrura a casa de Praxteles e com ela a maior

  • parte dos seus trabalhos; no entanto, acrescentou, que nem tudo desaparecera, Praxteles precipitou-se imediatamente para a porta, gritando que estaria perdido todo o fruto dos seus longos esforos, se o incndio lhe no tivesse poupado o Cupido e o Stiro. Frinia tranqilizou-o assegurando-lhe que nada estava queimado e que, graas ao ardil, ficara sabendo dele prprio o que de melhor havia em escultura. Escolheu, assim, o Cupido. Mas no era para guard-la que a cortes pedira a obra-prima ao grande escultor, pois, na Grcia, os costumes licenciosos no impediam sentimentos elevados. Frinia doou a esttua cidade de Tspies, sua ptria, que Alexandre

    Fig. 378 Cupido adolescente (segundo um busto antigo).

    acabara de devastar. A escultura foi consagrada num antigo templo de Cupido, e foi graas a esse Destino religioso que se tornou espcie de compensao para uma cidade destruda pela guerra. "Tspies j no mais nada, diz Ccero, mas conserva o Cupido de Praxteles, e no h viajante que no v visit-la para conhecer to esplndida obra-prima." Esse Cupido era de mrmore, as asas eram douradas, e ele empunhava o arco. Calgula mandou que o transportassem para Roma; Cludio devolveu-o aos habitantes de Tspies, Nero roubou-o de novo.

  • A clebre esttua foi, ento, colocada em Roma sob os prticos de Otvio, onde pouco depois a destruiu um incndio.

    O escultor Lisipo tambm fizera uma esttua de Cupido para os habitantes de Tspies, colocada ao lado da obra-prima de Praxteles. A famosa esttua conhecida pelo nome de Cupido empunhando o arco passa por ser cpia de uma dessas duas obras (fig. 379). Via-se tambm no templo de Vnus em Atenas um famosssimo quadro de Zuxis, representando Cupido coroado de rosas.

    Fig. 379 Cupido entesando o arco (segundo uma esttua antiga).

  • At a conquista romana, quase sempre fora Cupido representado como adolescente de formas esbeltas e elegantes. A partir de tal poca, surge mais freqentemente sob o aspecto de menino.

    A arte dos ltimos sculos representou muitas vezes Cupido. No quarto de banho da cardeal Bibbiena, no Vaticano. Rafael fixou Cupido triunfante, fazendo puxar o carro por borboletas, cisnes, etc. Numa multido de encantadoras composies mostra-o doidejando ao lado de sua me ou ento abandonando-a, aps hav-la picado.

    Parmeggianino fez com Cupido e o seu, arco uma graciosa figura que, por longo tempo foi atribuda a Correggio. Correggio e Ticiano, por sua vez, fixaram Cupido em todas as suas formas, mas nenhum pintor o representou tantas vezes quantas Rubens. Os cupidos frescos e bochechudos do grande mestre flamengo podem ser vistos em todas as galerias, brigando, brincando. voando, correndo, colhendo frutos, etc.

    Na Escola francesa, le Poussin representou muitas vezes Cupido, mas le Sueur pintou a histria completa nos sales do palcio Lambert, e o austero pintor de So Bruno soube evidenciar, sem jamais deixar de ser casto, uma graa encantadora nesses temas mitolgicos.

    Vemos, desde os primrdios do sculo dezoito, a importncia desmedida que Cupido ter nas produes artsticas da poca. Coypel pintara, nos sales do cardeal Dubois, um forro representando o Grupo celestial desarmado pelos cupidos. Nota-se ali, diz o bigrafo do pintor, um desses pequeninos deuses que se eleva, rindo, na guia de Jpiter; mas quem ousa tentar apoderar-se do raio, queima-se, arrepende-se e foge. Outro, mais obstinado, nota com despeito que todas as suas setas se partem contra a gide de Minerva, e tenta inutilmente novos esforos. O Tempo detm pela asa o temerrio que acaba de lhe roubar o relgio e a foice, V-se a balaustrada que encima a cornija desabar sob os passos do impiedoso destruidor. O resto da composio apresenta aos olhos a simptica e nobre brincadeira que tanto apraz ao esprito e da qual somente o esprito pode ser inventor.

    Cupido fazendo o seu arco, de Bouchardon, atualmente no museu do Louvre (fig. 381), encontrava-se, outrora numa ilha no meio do lago do Trianon. A formosa

  • esttua, fortemente desdenhada no comeo deste sculo, conforma-se bastante ao esprito do sculo dezoito. Cupido, vencedor dos deuses e dos homens, apoderou-se, sem nenhum trabalho, da maa de Hrcules, e enquanto se

    Fig. 380 Cupido (segundo uma esttua antiga).

    ocupa em dela fazer um arco, inclina a cabea com um movimento de faceirice algo afetado, mas cheio de graa. Na mesma poca, Boucher cobria os seus entrepanos de cupidozinhos rechonchudos, cheios de encanto, mas que s

  • possuem longnqua relao com o tipo fixado por Praxteles e Lisipo.

    Citemos uma Mercadora de cupidos, imitao de antiga pintura famosa, que reproduzimos (fig. 383) ; a escola imperial representou freqentemente Cupido. Mas entre os artistas dos ltimos sculos, nenhum o representou tantas vezes como Prudhon.

    Fig. 381 Cupido fazendo o seu arco (por Bouchardon, museu do Louvre).

    Embora tais composies pequem, uma vez que outra, por um pouco de afetao, so quase sempre encantadoras. A maioria foi popularizada pela gravura ou pela litografia. Aqui, vemos Cupido de p, asas abertas, passar os braos em volta do pescoo da Inocncia sentada num cabeo. Mais longe, a Inocncia seduzida por Cupido arrastada pelo Prazer e seguida pelo Arrependimento. Outras vezes, o autor representa Cupido preso por um elo de ferro ao pedestal de um busto de Minerva e pisando com o pequenino p, mas em troca, outras Cupido triunfante que se vinga da mulher insensata a qual julgou encade-lo para sempre.

  • Cupido fere muitas vezes sem ver, e d origem a sentimentos que nem o mrito, nem a beleza explicam suficientemente. Foi o que Correggio pretendeu exprimir ao representar Vnus prendendo uma venda sobre os olhos do filho. Ticiano pintou o mesmo tema que se v reproduzido com freqncia na arte dos ltimos sculos.

    Fig. 382 Cupido num hipocampo (segundo uma pedra gravada

    antiga).

    Esaco

    Cupido produz naqueles aos quais fere efeitos sur-preendentes, que na Lenda se traduzem sempre por meta-morfoses. Assim, o mergulho uma ave que voa sempre acima das guas e nela mergulha freqentemente. Noutros tempos, tratava-se do filho de um rei, que tinha

  • averso corte do pai e evitava participar das festas que ali se realizavam, preferindo ir aos bosques, por ter a esperana de encontrar a ninfa Hespria a quem amava ternamente. Entretanto Esaco, assim se chamava ele, no era correspondido. Um dia, estando a ninfa a fugir-lhe perseguio amorosa, foi picada por uma serpente venenosa e morreu. Esaco, desesperado por lhe ter causado a morte, atirou-se ao mar do alto de um rochedo. Mas Ttis, comovida, sustentou-o na queda, cobriu-o de penas, antes que ele casse na gua e impediu-o, assim, de morrer, por maior que fosse o seu desejo de no sobreviver querida Hespria. Indignado contra a mo favorvel que o protege, queixa-se da crueldade do Destino que o fora a viver. Eleva-se no ar, depois se precipita com impetuosidade na gua; mas as penas o sustm e reduzem o esforo que ele faz para morrer. Furioso, mergulha a todo instante no mar, e procura a morte que o evita. O amor tornou-o magro, tem coxas longas e descarnadas e um pescoo muito comprido. Ama as guas, e pelo fato de nelas mergulhar constantemente que se chama mergulho. (Ovdio).

    Pico e Circe

    Pico, filho de Saturno e rei da Itlia, era um jovem prncipe de maravilhosa beleza. Todas as ninfas o admiravam quando o viam, mas a feiticeira Circe no se contentou com admir-lo, e quis que ele a desposasse. No entanto, s colheu desdm. pois ele amava perdidamente Canenta, filha de Jano. Um dia, tendo ido caar javalis, encontrou Circe, que lhe confessou abertamente a sua paixo. Vendo-se desdenhada, a feiticeira proferiu as terrveis palavras de que se serve para fazer empalidecer a lua ou obscurecer o sol. Pico, aterrorizado com as frmulas mgicas, comeou a fugir; mas imediatamente

  • notou que estava correndo muito mais velozmente do que de hbito, ou antes que estava voando, visto que fora metamorfoseado em ave. Na sua clera, ps-se a dar fortes bicadas nas rvores; as penas tinham conservado a cor das vestes usadas por ele naquele dia, e o broche de ouro que as prendia ficou assinalado no seu pescoo por uma mancha amarelada, brilhante. Canenta chorou tanto que o seu formoso corpo terminou por se evaporar nos ares. e dela nada mais restou,

    O cubelo de Niso

    De todas as metamorfoses operadas por Cupido, no h nenhuma que seja to surpreendente como a de que foi vtima Cila, filha do rei Niso.

    O rei de Creta, Minos, aps devastar as costas de Megara, iniciara o cerco da cidade, cujo Destino dependia de um cabelo de ouro que Niso, rei do pas trazia entre os cabelos brancos. O stio j durava havia seis meses sem que a sorte se declarasse nem por um partido, nem por outro. Em Megara havia uma torre cujas muralhas produziam um som harmonioso desde que Apolo ali deixara a sua lira. A filha do rei, Cila, subia freqentemente, em tempo de paz, a essa torre, para ter o prazer de produzir nas muralhas alguns sons atirando-lhes pequeninas pedras. Durante o cerco, tambm visitava o mesmo lugar para de l ver os ataques e os combates feridos em torno da cidade Como fizesse bastante tempo que os inimigos se achavam acampados em torno, ela conhecia os principais oficiais, as suas armas, os seus cavalos e a sua maneira de combater. Nota sobretudo o chefe, Minos, com particular ateno e mais do que o necessrio para a sua tranqilidade, tanto que a paixo atingiu tal ponto que ela resolveu sacrificar o pas glria do estrangeiro a quem amava.

  • Uma noite, enquanto a cidade inteira estava imersa no sono, penetrou no aposento do pai e cortou-lhe o cabelo fatal. Munida do precioso objeto, a infeliz Cila, a quem o crime dava nova ousadia, saiu da cidade, atravessou o campo inimigo, chegou tenda de Minos a quem confiou o cabelo do qual dependia a salvao da cidade. Minos sentiu averso por to desnaturada filha, e recusou-se a

    Fig. 383 Mercadora de cupidos (segundo uma pintura antiga).

    v-la. O cabelo estava cortado, a cidade caiu entre as mos dos inimigos, mas Minos partiu imediatamente depois, proibindo o embarque de Cila nos seus navios. Foi em vo que ela alcanou, banhada em lgrimas, a praia, cabelos desalinhados, braos estendidos para o homem que a repelia. Viu partir o navio, e, no seu desespero, atirou-se ao mar para seguir a nado o ente amado. Mas notou seu pai, Niso, que, metamorfoseado em gavio, a perseguia, e comeava a cair sobre ela para a dilacerar a bicadas. Assim, em vez de nadar, Cila comea tambm

  • a voar sobre a superfcie da gua, pois estava, por sua vez transformada em calhandra. Desde ento a ave de rapina, que ela to indignamente trara. no cessa de lhe fazer cruel guerra. (Ovdio).

    Fig. 384 Arco e aljava de Cupido com a borboleta de Psique.

  • CAPTULO VII

    PSIQUE

    Beleza de Psique. Cime de Vnus. O orculo de Apolo. Psique raptada por Zfiro. O palcio de Psique. As irms de Psique. A gota de azeite. Clera de Vnus. As npcias de Psique. A alma humana.

    Beleza de Psique

    Tinha um rei trs filhas belssimas. Mas, por mais encantadoras que fossem as duas mais velhas, era possvel encontrar na linguagem humana elogios proporcionados ao seu mrito, ao passo que a menor era de perfeio to rara, to maravilhosa, que no havia termos que a exprimissem. Os habitantes do pas, os forasteiros, enfim todos acorriam, atrados pela reputao de semelhante prodgio; e depois de contemplarem tal beleza de que nada se aproximava, ficavam confusos de admirao, e,

  • prosternando-se, a adoravam com religioso respeito, como se se tratasse da prpria Vnus.

    Em breve, espalhou-se a nova de que era a prpria Vnus que vinha habitar a terra sob a aparncia de simples mortal, e o prestgio da verdadeira deusa ficou abalado. Ningum mais ia a Cnido, ningum mais ia a Pafos, ningum mais navegava para a risonha ilha de Ctara. Os antigos templos de Vnus estavam vazios, as cerimnias negligenciadas, os sacrifcios suspensos, e os seus altares solitrios s apresentavam uma cinza fria no lugar do fogo onde antes ardiam incensos. Mas quando Psique passava, o povo, apinhado, tomando-a por Vnus, lhe apresentava grinaldas, atirava-lhe flores, dirigia-lhe votos e preces. De todas as partes do mundo vinham peregrinos oferecer-lhe vitimas. Essa homenagem beleza, to de acordo com o esprito antigo, constitui o tema de uma composio de Rafael (fig. 385).

    Fig. 385 O povo ajoelhado perante Psique (segundo uma composio de Rafael)

  • Cime de Vnus

    Vnus, que do alto do cu via tudo, no pde refrear a indignao. "Como? dizia ela. Eu, Vnus, a primeira alma da natureza, origem e germe de todos os elementos, eu que fecundo o universo inteiro, devo partilhar com uma simples mortal as honras devidas minha posio suprema ! Dever o meu nome, que consagrado no cu, ser profanado na terra, terei eu de ver os meus altares descuidados por uma criatura destinada a morrer? Ah, a que assim usurpa os meus direitos vai arrepender-se da sua insolente beleza!"

    Imediatamente chama o filho, o menino de asas, to audaz, o qual, na sua perversidade, desafia a moral pblica, arma-se de archotes e setas, cometendo com impunidade as maiores desordens e jamais fazendo o menor bem. Excita-o com as suas palavras, e diante dele d vazo a todo o seu enorme despeito. "Meu filho, em nome da ternura que te une a mim, vinga tua me ultrajada; mas vinga-a plenamente. S te peo uma coisa: faze que a jovem se inflame da mais violenta paixo pelo ltimo dos homens, por um infeliz condenado pela sorte a no ter nem posio social, nem patrimnio, nem segurana de vida; enfim, por um ser de tal modo ignbil que no mundo inteiro no se encontre outro igual !" Assim falando, beijava o filhinho amado.

    O orculo de Apolo

    Vnus, por sua vez, extravasava a sua clera, cujos efeitos j se faziam sentir, porque, enquanto as duas irms de Psique desposavam reis, a infeliz jovem, culpada

  • de excesso de beleza, encontra por toda parte adoradores, mas no marido, e seu pai, desconfiando de que uma divindade qualquer obstaculasse o homem da filha, vai consultar o mcula de Apolo que lhe ordena expor a filha num rochedo para um himeneu de morte. Seu marido no ser um mortal: traz asas como as aves de rapina cuja crueldade ele possui e escraviza os homens e os prprios deuses. Sempre necessrio obedecer, quando um deus fala. Aps vrios dias consagrados ao pranto e tristeza, prepara-se a pompa do fnebre himeneu. O archote nupcial representado por archotes cor de fuligem e cinza. Os cantos jubilosos de himeneu se transformam em uivos lgubres, e a jovem noiva enxuga as lgrimas com o prprio vu de casamento.

    Psique raptada por Zfiro

    Uma vez terminado o cerimonial de morte, conduziram a infeliz Psique ao rochedo em que deveria aguardar o esposo. Era uma montanha alcantilada. Quando ali chegou, apagaram-se os archotes nupciais que haviam iluminado a festa fnebre do triste himeneu, e cada um voltou para casa. Os pais de Psique, encerrados no palcio, recusaram-se a sair, condenando-se s trevas eternas. Tremendo de espanto, Psique afogava-se nas lgrimas no pico da montanha, quando de sbito o delicado sopro do Zfiro, agitando amorosamente os ares, faz ondular dos dois lados a veste que a protegia, cujas dobras se enchem insensivelmente. Soerguida sem violncia, Psique reconhece que um sopro tranqilo a transporta suavemente.

    O rapto de Psique pelos Zfiros uma das mais arrebatadoras composies de Prudhon (fig. 386). Mais leves que as nuvens, os graciosos meninos alados se elevam docemente no ar e arrebatam Psique sem lhe

  • perturbarem o sono tranqilo. Da a pouco Psique desliza por um declive insensvel at um profundo vale situado abaixo dela, e v-se sentada no meio de uma relva coalhada de flores.

    Fig. 386 Rapto de Psique (segundo Prudhon). Deposta sobre espessa e tenra relva que formava um fresco

    tapete de verdura, ela olha em volta de si e percebe uma fonte transparente como cristal, no meio de rvores altas e copadas. Perto das margens, ergue-se uma morada real no construda por mos mortais seno mediante arte

  • que s pode ser divina. Os muros esto recobertos de baixos-relevos de prata e os soalhos so de mosaico de pedras preciosas cortadas em mil pedacinhos e combinadas em variadas pinturas.

    O palcio de Psique

    Convidada pelo encanto de to lindo lugar, Psique cria nimo a ponto de ultrapassar o limiar, e, cedendo atrao de to grande nmero de maravilhas, lana c e l olhares de admirao. Mas o que ao mesmo tempo a impressiona a solido absoluta em que se encontra. Uma voz sada de um corpo invisvel lhe fere, subitamente, os ouvidos: "Por que, soberana minha, vos admirais de to grande opulncia? Tudo quanto vedes vosso. Entrai nestes aposentos, aguarda-vos um banho, para refazerdes as foras, e o banquete real que vos destinado no se far esperar. Ns, cuja voz estais ouvindo, estamos s vossas ordens, e executaremos atentamente as vossas ordens."

    Psique viu realmente um repasto magnificamente preparado. Sentou-se, ento, mesa, e diante dela se sucediam os vinhos mais deliciosos, as iguarias mais incomuns, mas aparentemente trazidas por um sopro, pois no distinguia nenhum ser humano. Um delicioso concerto a alegrou, mas os cantores eram invisveis. Admirada, e ao mesmo tempo, assustada, pensando no esposo que aguardava, cedeu, no entanto, fadiga e adormeceu sem que ningum lhe perturbasse o repouso. Quando desperta, ouve as mesmas vozes misteriosas que na vspera, e recebe os mesmos cuidados de seres que no consegue distinguir. Vrios dias transcorrem sem que lhe seja dado ver alma viva. Se o esposo invisvel a visitou foi com certeza quando estava adormecida, pois ela nada

  • enxergou, e o amo do palcio em que est lhe to desconhecido como os criados que a servem.

    Psique recebendo o primeiro beijo de Cupido inspirou a Grard um belssimo quadro que se encontra no Louvre (fig. 388). A borboleta, smbolo da alma, esvoaa sobre

    Fig. 387 Cupido e Psique (segundo um monumento antigo, no

    museu Capitolino).

    a cabea da jovem sentada num cabeo de relva; o seu aspecto ingnuo e algo espantado se explica pela presena de Cupido que, invisvel para ela, lhe d um beijo na testa. No entanto, o esposo existia, pois embora ela o no visse, lhe ouvia a doce voz a preveni-la de um perigo que

  • correria. "Psique, minha doce amiga, dizia a voz, minha companheira adorada, a sorte cruel te ameaa de um terrvel perigo; tuas irms, j turbadas com a idia da tua morte, procuram-te, e no tardaro em chegar a este

    Fig. 388 Cupido e Psique (segundo o quadro de Gerard, museu do Louvre).

    rochedo. No te comovas com os seus falsos queixumes, e no cedas aos perniciosos conselhos que elas te derem para levar-te a me ver. E acrescentou que a sacrlega

  • curiosidade os separaria para sempre e a mergulharia num abismo de males. Psique agradeceu ao marido os conselhos Alis, o tom daquela voz era to penetrante que se sentia atrada a ele por urna fora desconhecida. Assim, prometeu-lhe que obedeceria.

    As irms de Psique

    Entretanto, Psique, lembrando-se do orculo de Apolo, tremia de espanto. pensando que, apesar da voz to doce, fosse o esposo sem dvida um horrvel monstro, visto que o temiam homens e deuses. Estando a devanear, ouviu de sbito, ao longe, vozes de mulheres, de mistura com gemidos e SOJUCCS, e, pouco depois, escutando, reconheceu-as pelas de suas irms que a choravam. Comoveu-se, apesar de tudo, e, desejando tranqilizar a famlia, pediu mentalmente ao invisvel marido permisso para dispor de Zfiro.

    As duas irms foram ento arrebatadas como o fora Psique e transportadas para o palcio. Aps os primeiros abraos e beijos, Psique, com insistncia de criana. mostrou-lhes os magnficos mveis, os deliciosos jardins, os terraos de onde se descortinavam horizontes sem fim. Tantas maravilhas s lograram aumentar o cime nutrido pelas duas irms havia tempo, e elas a cobriram de perguntas embaraadoras sobre o esposo que tanta riqueza lhe proporcionava. A pobre Psique, que ainda o no vira, no pde satisfazer-lhes a indiscreta curiosidade. Todos os dias elas lhe pintavam o marido como horrvel drago repulsivo. A infeliz no resistiu.

  • A gota de azeite

    Chegada a noite, espera que todos estejam dormindo na casa. Acende, ento, a sua lmpada, aproxima-se do leito e reconhece o filho de Vnus, perto de quem esto o arco, a aljava e as setas. Psique pega uma e fere levemente um dos dedos, inoculando, assim, em si prpria e em elevada dose amor ao prprio Cupido. Mas enquanto contempla com arrebatamento o deus que lhe esposo, cai sobre o ombro de Cupido uma gota de azeite. A partir de ento, j Psique no tem mais esposo, pois Cupido desaparece, deixando-a no seu palcio solitrio. A formosa cena foi freqentemente representada na arte dos ltimos sculos, e Picot, de quem todos se riam tanto h alguns anos, comps maravilhoso quadro (fig. 389).

    Fig. 389 Cupido abandonando Psique (segundo um quadro de Picot).

  • Psique, desesperada, corre doida pelos campos e se precipita a um rio de guas revoltas. Mas o rio no a quer, e as ondas a devolvem s e salva margem. O deus P, que l se encontrava, lhe revela as impiedosas ordens que Cupido recebera de Vnus.

    Fig. 390 Psique (segundo uma esttua antiga).

    As irms de Psique, desejosas de saber se o conselho fora seguido, vo ao rochedo do qual Zfiro as arrebatara.

  • Quando o vento comea a soprar, julgam que o mensageiro que vai conduzi-las ao p da irm e, entregando-se-lhe sem desconfiana, tombam ao p do rochedo onde foram encontradas no dia seguinte, mortas. Zfiro, com efeito, no pde receber ordens de Cupido, pois Cupido est doente, e, vigiado no leito, ouve as censuras de sua me ultrajada: "Que lindo pai de famlia no serieis! dizia-lhe Vnus. E eu, por minha vez, no tenho idade e dignidade para que me chamem de vov?

    Clera de Vnus

    Vnus manda procurar Psique por toda a terra, e, na sua clera cheia de cime, pergunta a si prpria que suplcio lhe deve infligir. No contente de mandar que a vergastem, quer impor-lhe trabalhos superiores s suas foras, e ordena-lhe que v aos infernos pedir a Prosrpina uma caixa de beleza de que necessita para o seu atavio. Psique parte, certa de que nunca mais voltar; mas no caminho encontra uma velha torre que sabe falar e lhe ensina como deve proceder, recomendando-lhe bem, quando estiver de posse da caixa, que no ceda tentao de uma curiosidade que j lhe foi funesta uma vez.

    Esclarecida pela torre, Psique atravessa o rio das mortes na barca de Caronte, faz calar Crbero atirando-lhe um bio com mel e chega presena de Prosrpina que lhe entrega a caixa de beleza exigida por Vnus. Quando volta terra, Psique, sozinha, e de posse da caixa cujo contedo conhece, comea a refletir. Por que no h de servir prpria Psique essa beleza que o seu odioso tirano a mandou procurar no meio de mil perigos? E se roubasse uma partezinha, quem sabe se no conseguiria reconquistar o marido desaparecido? Aps muita hesitao, a caixa cede finalmente ao esforo por ela feito, mas em vez da beleza o que sai um vapor sonfero e Psique,

  • desmaiada, tomba com a face voltada para o cho. Perto dela, todavia, est um amigo, o prprio Cupido, que, vigiado de perto no palcio de sua me, conseguiu, no

    Fig. 391 Cupido reanimando Psique (por Thorwaldsen).

    Fig. 392 Psique pensativa.

    obstante, escapar pela janela. Desperta Psique com a ponta de uma das suas setas e pede-lhe que v casa de sua me, que ele se incumbir do resto.

  • As npcias de Psique

    Cupido voa ao p do trono de Jpiter que, enternecido pelas suas lgrimas, d a imortalidade a Psique e convida todos os deuses para o banquete de npcias. Um baixo-relevo antigo do museu Britnico mostra Cupido e Psique deitados no leito nupcial (fig. 393) : Cupido d de beber esposa a quem abraa. Um cupidozinho lhes traz uma pomba, smbolo do afeto mtuo, e outro, colocado perto da mesa em que se realizou o banquete, brinca com uma lebre, smbolo da fecundidade.

    Fig. 393 Npcias de Cupido e Psique (segundo um baixo-relevo antigo do museu

    Britnico).

    O banquete nupcial de Cupido e Psique foi representado por Rafael de maneira muito mais suntuosa. Vemos as Graas vertendo perfumes sobre Psique, colocada ao lado de Cupido, e as Horas espalham flores sobre os convidados.

    Psique, admitida ao seio dos imortais, torna-se inseparvel do marido. O sentido da alegoria fcil de com-preender. Psique o smbolo da alma: uma indiscreta curiosidade a impeliu e ela sofreu espantosas torturas. Mas, purificada por uma srie de provas de que saiu vitoriosa, encontra a felicidade com a imortalidade. Conhecemos poucos monumentos antigos que fixem os pormenores da histria de Apulio. Mas o encantador grupo de Cupido

  • e Psique, no museu Capitolino, apresenta sob a sua forma plstica a unio da alma e do corpo (fig. 387).

    O famoso grupo de Canova, no Louvre, nos apresenta o mesmo tema, concebido de maneira totalmente diversa. O hbil escultor italiano, apesar de um pouco de afetao. conseguiu imprimir um carter verdadeiramente etreo s suas duas figuras de mrmore (fig. 394). "A fico

    Fig. 394 Cupido e Psique (segundo um grupo de Canova, museu

    do Louvre).

    do Amor e de Psique, diz Creuzer, rene em maravilhosa aliana o gnio da forma, que lisonjeia os sentidos, e o do fundo que mergulha a alma num devaneio sem fim. Eros, segurando uma borboleta suspensa acima de um archote encarado poeticamente um perfeito emblema

  • dos tormentos do amor, encarado no sentido dos mistrios, esse emblema contm a idia profunda e salutar das manchas da matria e dos sofrimentos da alma purificada pelo fogo do impuro contacto."

    A lenda de Cupido e Psique, tal qual a narramos, segundo Apulio, parece ter sido quase estranha aos artistas da antiguidade, os quais, no entanto, longe esto de lhe haverem desconhecido o esprito. Um incrvel nmero de pedras gravadas representa Psique nas suas relaes com Cupido, e fixa as dores e as alegrias da resultantes. Aqui, vemos Cupido queimando num archote

    Fig. 395 Cupido e Psique (segundo um vidro antigo).

    a borboleta, smbolo da alma humana, e voltando a cabea, em pranto, para no ver o mal que faz (fig. 399). Ali, so as alegrias e as esperanas do himeneu que o artista nos apresenta. As cenas de casamento so freqentemente representadas pela unio de Psique e Cupido. Assim, vemos numa pedra gravada antiga dois esposos sob o aspecto de Cupido e Psique, com a cabea coberta por um vu e segurando pombas, smbolos do amor conjugal. Um cupidozinho, segurando a cadeia que liga os esposos, condu-los para o leito nupcial, e outro,

  • colocado atrs deles, segura-lhes sobre a cabea um cesto de frutos, emblema de fecundidade (fig. 395). Tais camafeus eram dados como presentes de npcias.

    A borboleta (1) era para os antigos a forma visvel da alma humana, e por isso que as asas de borboletas constituam o atributo de Psique. Os camafeus no-la mostram freqentemente sentada e sonhadora (fig. :392). a alma de um vivo que pensa na imortalidade, ou a alma de um morto que j a conquistou?

    Fig. 396 Cupido e Psique (segundo uma pedra gravada antiga)

    s vezes a crueldade de Cupido aparece sob luz mais brutal. As dores que ele causa, as torturas que inflige alma, so personificadas por uma alma que ele segura

    __________________________ (1) Psique, em grego, significa alma e borboleta.

  • pelos cabelos, e que j no lhe pode escapar (fig. 397). No necessita mais do arco, porque o ferimento est feito, mas conserva o archote para queimar a vtima.

    Fig. 397 Cupido amarrando Psique (segundo uma pedra gravada

    antiga).

    A alma humana

    Segundo as crenas admitidas pelos filsofos, e que, de acordo com alguns escritores, teriam sido objeto de ensino especial nos mistrios, as almas existem anteriormente ao nascimento terreno, e so atradas para a vida

  • pela volpia, ou se assim quisermos, por Vnus. Giram em torno da terra, como as borboletas em torno da luz, e, quando chegam bem perto, no podem mais afastar-se e so condenadas vida, cuja imagem sedutora vem num espelho mstico, to freqentemente representado nas urnas fnebres. Sofrem a tentao de beber na taa da vida, na taa de Baco, e, mal tocam com os lbios o licor sagrado, se encarnam num corpo. "A unio das almas com os corpos mortais, diz Creuzer, se deve a vrias causas : diversos motivos as impelem para as esferas inferiores. Algumas ali descem, porque ainda no tinham

    Fig. 398 Mercrio prende s costas de Psique as asas de Cupido

    agrilhoado (segundo uma pedra gravada antiga).

    descido e so necessrias manuteno da economia do mundo. So as almas novas ou novias. Outras voltam aos corpos para expiarem culpas anteriores Outras, enfim, cedem voluntariamente sua inclinao pela terra. Tal inclinao provm de haverem elas contemplado o espelho, o mesmo espelho em que se vira Dionsio, antes de criar as existncias individuais. Mal vem a prpria imagem, um desejo violento se apodera de todas elas, e o que almejam descer e viver individualmente. As almas, na sua sede de existncia individual, abandonam a morada celestial e partem em busca de novos destinos.

  • Uma vez que tenham bebido na taa de Liber-Pater, embriagadas, apaixonadas pela matria, perdem pouco a pouco a recordao da origem. E tal esquecimento que as impele a unir-se aos corpos. As melhores dentre elas, temendo o nascimento, evitam a fatal beberagem cuja seduo as conduziria terra. At entre as que no sabem resistir, h uma diferena. As mais nobres bebem comedidamente, prendem-se fortemente ao Gnio tutelar que lhes destinado para acompanh-las na Terra, tm os olhos fitos nele e obedecem-lhe voz. Outras, porm, no so assim. Bebem a largos sorvos, e este mundo, que no passa de tenebrosa caverna, lhes parece belo. Acabam, pois, de esquecer-se, fascinadas pelos atrativos, pelas delcias da gruta de Dionsio, smbolo do mundo sensvel e das suas voluptuosidades." (Creuzer).

    "0 que chamamos vida, diz Ccero, uma verdadeira morte. A nossa alma s comea a viver quando, livre dos entraves do corpo, participa da eternidade e, de fato, as antigas tradies nos ensinam que a morte foi concedida pelos deuses imortais, como recompensa aos que eles amavam." (Ccero).

    "Os que choramos no nos foram tirados para sempre, e no esto perdidos para ns; esto apenas distantes da nossa vista e do nosso contacto por determinado tempo. Assim, quando ns tambm chegarmos ao termo que a natureza nos prescreveu, voltaremos a privar com eles." (Ccero).

    Fig. 399 Cupido queimando num archote a borboleta.

  • LIVRO VI

    MERCRIO E VESTA

  • CAPTULO I

    MERCRIO

    Tipo e atributos de Mercrio. Mercrio, inventor da lira. Mercrio, deus dos ladres. Mercrio, deus do comrcio. Mercrio, deus dos ginsios. Mercrio pedagogo. Mercrio criforo. Mercrio, guarda das estradas. Mercrio, deus da eloqncia. Mercrio, mensageiro dos deuses. Mercrio, condutor das almas. Queixas de Mercrio.

    Tipo e atributos de Mercrio

    A mudana, a transio, a passagem de um estado a outro foram personificados em Mercrio. (Hermes). Mensageiro celeste, leva aos deuses as preces dos homens e aos homens os benefcios dos deuses; condutor das sombras, a transio entre a vida e a morte; deus da eloqncia e dos tratados, faz passar ao esprito dos

  • outros o pensamento de um orador ou de um legado. o deus dos ginsios, porque na luta h troca de foras; o deus do comrcio e dos ladres, porque um objeto vendido ou roubado passa de uma mo a outra. Nos monumentos de estilo arcaico, e principalmente nos vasos. Mercrio surge como homem na plenitude da idade, com barba espessa e pontiaguda, longos cabelos encaracolados, um chapu de viagem, asas talares e na mo o caduceu que freqentemente se assemelha a um cetro. Mercrio barbudo aparece tambm. algumas vezes, em belssimas pedras gravadas de poca posterior, mas que so imitaes evidentes de um tipo mais antigo.

    Fig. 400 Mercrio barbudo (segundo uma pedra gravada antiga).

    Na grande poca da arte, esse deus se revestiu de carter muitssimo diferente. Mercrio torna-se, ento, um efebo, macio e gil, sempre imberbe, de cabelos curtos e apresentando o tipo perfeito dos jovens que freqentam os ginsios. O seu rosto nunca tem a majestosidade de Jpiter, nem a altivez de Apolo, mas freqentemente o cunho de uma grande finura, de acordo cem o seu papel na Lenda, em que personifica sempre a astcia e a habilidade.

  • Fig. 401 Mercrio (segundo uma esttua antiga).

  • O ptaso alado e o caduceu so os atributos de Mercrio. O ptaso um chapu tessaliano que em Mercrio s tem de particular as asas; quando o deus est de cabea descoberta, como na figura 404, as asas esto simplesmente plantadas nos cabelos, guisa de pontas. O caduceu uma vareta entrelaada de serpentes e por vezes acompanhada de duas pequeninas asas; tem uma origem mitolgica. Mercrio, vendo duas serpentes que se batiam, separou-as com a sua vareta, em torno da qual elas se entrelaam. s vezes, deparam-se-nos asas nos ps de Mercrio (fig. 400), mas nunca nas costas.

    Fig. 402 Mercrio associado a Vnus (numa medalha de Septmio

    Severo).

    D-se ainda a Mercrio outra srie de atributos em relao com as suas diferentes funes. Como divindade pastoral, acompanhado uma ou outra vez de um carneiro ou uma cabra; como inventor da lira, coloca-se-lhe ao lado uma tartaruga. um galo que o caracteriza como

  • deus do ginsio, e a bolsa que segura com a mo revela o deus da mudana. Todos esses atributos se encontram reunidos numa bela pedra gravada antiga (fig. 410). A bolsa aparece, sobretudo, nas figuras da poca romana, em que o carter comerciante do deus acaba por preponderar sobre os demais.

    Fig. 403 Hermafrodita (segundo uma esttua antiga).

    Mercrio nasceu da unio de Jpiter e de Maia, filha do Tit Atlas. Divindade arcdia, numa gruta do monte Cilene que v o dia pela primeira vez, e por isso que alguns lhe do o nome de deus de Cilene. Poucas divindades aparecem to freqentemente como Mercrio na mitologia; o seu papel importantssimo, e em numeresos casos , como os nossos criados de comdia, o personagem que tudo faz, embora sempre dependente.

    Alm das cenas da Lenda, das quais participa diretamente, Mercrio surge em alguns monumentos ao lado de outras divindades, s quais se liga simbolicamente. Uma moeda de Marco Aurlio apresenta-o ao lado de Minerva, em virtude da relao existente entre o deus do

  • Fig. 404 Mercrio (segundo uma esttua antiga, museu do Louvre).

  • comrcio e a deusa da indstria. As relaes com Vnus so ainda mais diretas, pois da unio de ambos que nasce Hermafrodita (Hermes-Aphrodite). Plutarco explica tal unio dizendo que a eloqncia e o encanto da linguagem devem associar-se ao atrativo da beleza.

    Mercrio, inventor da lira

    Mercrio inventou a lira no mesmo dia em que nasceu. "Mal saiu do seio materno, no ficou envolto nos sagrados cueiros; pelo contrrio, imediatamente ultrapassou o limiar do antro sombrio. Encontrou uma tartaruga e dela se apoderou. Estava ela na entrada da gruta, arrastando-se devagar e comendo as flores do campo. Ao v-la o filho de Jpiter alegra-se; pega-a com ambas as mos, e volta para a sua morada, com o interessante amigo. Esvazia a escama com o cinzel de brilhante ao e arranca a vida tartaruga. Em seguida, corta alguns canios, na medida certa, e com eles fura o costado da tartaruga de escama de pedra ; em volta estende com habilidade uma pele de boi, adapta um cabo, no qual, nos dois lados, mergulha cavilhas; em seguida, acrescenta sete cordas harmoniosas de tripa de ovelha.

    "Terminado o trabalho, ergue o delicioso instrumento, bate-o com cadncia empregando o arco, e a sua mo produz retumbante som. Ento o deus canta improvisando harmoniosos versos, e assim como os jovens nos festins se entregam alegria, ele tambm conta as entrevistas entre Jpiter e a formosa Maia, sua me, celebra o seu nascimento ilustre, canta as companheiras da ninfa, as suas ricas moradas, os trips e os suntuosos tanques que se encontram na gruta." (Hino homrico).

    A tartaruga o atributo de Mercrio pois com a escama de uma tartaruga que ele fez o primeiro modelo da lira. Nos monumentos que o representam, vemos

  • muitas vezes uma tartaruga sob o p do deus (fig. 405), ou uma lira: o jovem deus, com fisionomia cheia de malcia, acaba de ajustar dois chifres de carneiro numa carapua de tartaruga, e, tocando pela primeira vez as cordas estendidas, ouve com surpresa os sons que lhe encantam os ouvidos arrebatados.

    Fig. 405 Mercrio inventor da lira (segundo unia esttua antiga).

    Fig. 406 Mercrio sentado (segundo um bronze do museu

    de Npoles).

  • Mercrio, deus dos ladres

    Desde a mais tenra infncia mostrou Mercrio as qualidades que dele iriam fazer o deus dos ladres. No mesmo dia em que nasceu, roubou o tridente de Netuno, as setas de Cupido, a espada de Marte, a cintura de Vnus, etc. Foi para fechar to belo dia que foi roubar os bois guardados por Apolo, e para que ningum lhe seguisse as pegadas, resolveu faz-los caminhar de costas. Levou-os assim at Pilos, onde imolou dois aos deuses do Olimpo, e ocultou os demais numa caverna.

    Mercrio desconfiou que o pastor Bato, o qual guarda em tal lugar os rebanhos do rico Neleu, divulgaria o seu roubo, se fosse interrogado, e sobretudo se disso lhe adviesse alguma vantagem ; assim, aproximando-se-lhe, ps-se a acarici-lo, e disse-lhe pegando-o pela mo : "Meu amigo, se por acaso algum vier pedir-te novas deste rebanho, dize que o no viste; como recompensa, dou-te esta bela novilha. Podes estar certo, retrucou Bato, recebendo-a; esta pedra que vs ser mais capaz de trair-te o segredo do que eu." Mercrio fingiu, ento, afastar-se, e voltando um instante depois sob outro aspecto: "Bom homem, disse-lhe, se viste passar por aqui um rebanho, peo-te que me ajudes a procur-lo; no favoreas com o teu silncio o roubo que sofri; dar-te-ei uma vaca e um touro." O ancio, vendo que lhe ofereciam o dobro do que recebera : "Penso, respondeu, que o teu rebanho deve estar nas cercanias desta montanha; sim, deve estar, se me no engano." Mercrio, rindo-se de tais palavras, disse-lhe: "Ah, tu me trais, no verdade? Prfido, enganas-me!" Assim dizendo, metamorfoseou-o na pedra que se chama de toque, a qual serve para reconhecer-se se o ouro de boa liga ou se falso. (Ovdio).

    Quando sobreveio o dia, Mercrio voltou s alturas de Cilene. Ali, curva-se e esgueira-se para dentro da morada, entrando pela fechadura. Caminha com passo furtivo no reduto sagrado da gruta, penetra sem rudo como faz habitualmente na Terra, e assim chega at o seu leito, onde se cobre com fraldas, como qualquer

  • criancinha e fica deitado, com uma das mos brincando com a faixa, e com a outra empunhando a melodiosa lira. Mas o deus no pudera ocultar a fuga a sua me, que lhe dirigiu a palavra nestes termos: "Pequenino astuto, menino cheio de audcia, de onde vens durante a treva da noite? Temo que o poderoso filho de Latona te cubra os membros de pesados laos, te arranque a esta morada, ou te surpreenda nos vales, ocupado em temerrios roubos."

    Mercrio respondeu-lhe com palavras cheias de astcia: "Mame, por que pretendes assustar-me como se eu fora uma criana dbil que mal conhece uma fraude e treme ouvindo a voz de sua me? Quero continuar a exercer esta arte que me parece a melhor para a tua glria e a minha". (Hino homrico).

    Apolo no conseguira informaes sobre os bois; mas notando um pssaro que cruza o cu, com as asas abertas, reconhece imediatamente, na sua qualidade de profeta e ugure, que o ladro o filho .de Jpiter. Atira-se com rapidez aos picos de Cilene, e penetra na gruta, onde Maia deu luz Mercrio. O menino, vendo Apolo irritado pelo roubo das reses, amontoa-se numa bola e envolve-se nas fraldas.

    O filho de Latona, aps procurar por toda parte, dirige estas palavras a Mercrio : "Menino, que repousas neste bero, dize-me imediatamente onde esto as minhas reses; se o no fizeres, erguer-se-o entre ns funestos debates ; agarrar-te-ei e precipitar-te-ei no sombrio Trtaro, no seio das sombras funestas e horrveis. Nem teu pai, nem tua me venervel podero devolver-te luz, e tu vivers eternamente sob a Terra." Mercrio responde-lhe com astcia : Filho de Latona, por que falas de maneira to impressionante comigo? Por que vens procurar aqui as tuas reses? Eu nunca as vi, e delas nunca ouvi falar; no me possvel indicar-lhe o ladro; por conseguinte, no receberia a recompensa prometida a quem fizer com que o descubras. No tenho a fora de homem capaz de roubar rebanhos. No esse o meu trabalho, porquanto outros cuidados me reclamam: preciso do suave sono, do leite de minha me, destas fraldas que me cobrem, e dos banhos mornos. Trata de evitar, pelo contrrio, que se saiba desta divergncia: seria um escndalo para todos

  • os imortais saberem que um menino recm-nascido transps o limiar de tua morada com reses no domesticadas. O que dizes so palavras de insensato. Nasci ontem, as pedras houveram dilacerado a pele delicada dos meus ps; mas se exiges pronunciarei um juramento terrvel: jurarei pela cabea de meu pai que no conheo o ladro das tuas reses." (Hino homrico).

    Fig. 407 Mercrio, deus dos ladres

    (segundo uma esttua antiga do museu Pio-Clementino).

    Entretanto, Apolo no se deu por vencido, e pegando o garoto ao colo, o levou a Jpiter, a quem pediu os bois que o filho lhe roubara. Mercrio comeou por negar descaradamente o roubo; mas Jpiter, que tudo sabe, ordenou-lhe que devolvesse o que pegara indevidamente, e o menino conduziu Apolo para a gruta em que ocultara os animais. Enquanto Apolo os contava, Mercrio comeou a tocar lira, instrumento que ele acabara de inventar, e Apolo ficou de tal modo encantado que quis comprar-lho. Mercrio, na sua qualidade de deus do comrcio, valeu-se da ocasio para um bom negcio, e pediu em troca os bois. Apolo, imediatamente, tentou tocar lira, mas enquanto lidava para arrancar os acordes, Mercrio descobriu o meio de inventar o clamo. Apolo desejou tambm o novo instrumento, que Mercrio lhe vendeu em troca

  • do caduceu, vareta mgica, entrelaada de serpentes e que lhe serviu mais tarde para adormecer Argos. O descaramento com o qual Mercrio soube mentir no mesmo dia em que nascera, e a inteligncia com a qual defendeu uma pssima causa, lhe garantiram o patronato dos advogados.

    Fig. 408 Busto e atributos de Mercrio.

    Um epigrama da Antologia zomba do deus dos ladres: "Posso tocar numa couve, deus de Cilene? No, transeunte. Que vergonha h nisso? No h vergonha, mas existe uma lei que probe apoderar-se do bem alheio. Que coisa estranha! Mercrio estabeleceu uma lei contra o roubo!"

  • Mercrio, deus do comrcio

    Desde o nascimento possura Mercrio o gnio da permuta, e por isso que o deus do comrcio. A arte o caracteriza, ento, pela bolsa segura pela mo. O emblema o mesmo que o que se atribui ao deus dos ladres; mas em vez de aparecer sob as feies de um menino que acaba de fazer uma peraltice, apresenta a grave fisionomia de homem que refletiu e pesa o valor dos atos.

    Fig. 409 Medalhas arcdias e romanas, com o galo, atributo

    de Mercrio.

    Considerado como deus do comrcio e da permuta, Mercrio segura habitualmente uma bolsa: traz o mesmo atributo quando deus dos ladres, mas neste caso est representado com as feies de menino que sorri malicio-samente, por aluso s aventuras que lhe assinalaram a mais tenra infncia. Uma esttua do museu Pio-Clementino assim o representa, segurando uma bolsa com uma

  • das mos, e aplicando com significativo sorriso um dedo sobre os lbios, como que recomendando silncio (fig. 407).

    Temos no Louvre duas esttuas de anlogo carter; numa delas, o menino usa uma camisa curta, na outra um pequenino manto guarnecido de capuz.

    Fig. 410 Mercrio (segundo uma pedra gravada antiga).

    Mercrio, deus dos ginsios

    Mercrio preside aos exerccios. Mas sob tal aspecto, a arte lhe modifica o carter; no traz mais o capacete e as asas, e se apresenta inteiramente nu sob o aspecto de vigoroso efebo, que ocupa o lugar mdio entre o carter delgado de um Apolo e o carter robusto de um Hrcules. Numa soberba esttua do museu Pio-Clementino, que fora erradamente denominada Antinoo, Mercrio est apoiado

  • um tronco de palmeira, e traz a clmide enrolada em volta do brao esquerdo (fig. 411).

    Os atributos de Mercrio como deus dos ginsios so a palmeira e o galo. O galo , por excelncia, a ave de luta, e os combates de galos eram um grande divertimento para os gregos. No de surpreender, portanto, que tenha sido escolhido para simbolizar a luta e os exerccios que a ela se ligam.

    Fig. 411 Mercrio, deus dos ginsios (segundo uma esttua antiga

    do museu Pio-Clementino).

    As imagens de Mercrio figuravam sempre nos ginsios. "Aqui se colocou, para proteger este belo ginsio, o deus que reina no monte Cilene e nas suas elevadas florestas, Mercrio, a quem os jovens gostam de oferecer amarantos, jacintos e violetas perfumadas." (Antologia).

    Essas imagens do deus eram s vezes uma simples cabea pousada numa msula. O deus ri-se, ele tambm, de tal uso, num epigrama da Antologia: "Chamam-me Hermes, o veloz. Ah, no me coloqueis nos ginsios, privado de ps e de mos ! Sobre uma base, sem mos e sem ps, como poderei ser veloz na corrida ou hbil na luta?"

  • Mercrio pedagogo

    As letras servem para a transmisso das idias. Como deus da permuta e da tradio, Mercrio , pois, inventor das letras: ensinando aos homens a transformao das suas idias em caracteres que as exprimem, esse deus tornou-se naturalmente protetor dos ginsios. Invocam-no os mestres que ensinam aos meninos os elementos da cincia; invocam-no tambm os escrives pblicos e todos os que se dedicam a escrever. Os instrumentos de que nos servimos para a escrita, para a geometria, fazem parte das suas atribuies, e os que ganham a vida, deles se valendo, os dedicam ao deus quando so demasiado velhos. o que se v num pequenino trecho da Antologia grega, onde um velho mestre de escola se coloca sob a proteo do deus a quem serviu. "Um disco de chumbo negro para traar linhas, uma rgua que assegura a constncia de direo, vasos de liquido negro para escrever, penas bem aparadas, a dura pedra que agua o canio e lhe devolve a finura, o ferro que o modela com a sua ponta e a sua lmina, todos esses instrumentos do seu ofcio, Menedemotos consagra, Mercrio, pois que a idade lhe toldou os olhos. E tu, deus prestativo, no deixes morrer de fome o teu obreiro."

    Fig. 412 Mercrio-menino no seu carro (segundo um

    baixo-relevo antigo),

  • Mercrio criforo

    A Arcdia, um dos principais centros da velha raa pelsgica, sonharia em Mercrio, ou antes em Hermes, uma personificao da potncia protetora da natureza e especialmente da terra. Era figurado na origem por um pedao de madeira encimado por uma cabea, e ali se fixava um smbolo grosseiro, que entre os povos pastores exprime simplesmente a fora geratriz. Esse carter pastoral desaparece, de resto, rapidamente, para passar ao deus P, que em vrias tradies filho de Mercrio. Mas o carneiro, que lhe consagrado, e que vemos s vezes entre os seus atributos, relembra o seu antigo carter de divindade campestre, e sob tal aspecto que se chama Mercrio criforo, ou porta-carneiro.

    Fig. 413 O carneiro de Mercrio.

    Um monumento antigo nos mostra o carneiro de Mercrio trazendo a bolsa do deus (fig. 413), que numa antiga moeda parece estar montado num carneiro: uma espiga, na sua frente, indica o seu carter pastoral (fig. 414).

  • Mercrio, guarda das estradas

    Mercrio, como deus do comrcio, naturalmente protetor das estradas e da navegao. Nos tempos primitivos, montes de pedras colocados nas encruzilhadas dos caminhos serviam de altares destinados ao deus: mais tarde, foram feitos de outra maneira, mas sempre com o mesmo Destino. Uma linda pedra gravada nos apresenta Mercrio tocando uma coluna miliar com o seu caduceu. A coluna est ornada de um ramo, e um bordo recurvo, do tipo dos usados pelos viajantes, se acha no altar que a suporta. H de notar-se que o deus, no sendo aqui considerado como mensageiro, est desprovido de asas. O manto aberto ao lado, chamado paenula, e o gorro, indicam o costume habitual dos viajantes de quem Mercrio o deus tutelar (fig. 415).

    Fig. 414 Mercrio no carneiro (segundo uma medalha antiga).

    Mercrio, deus da eloqncia

    Os monumentos da arte do a Mercrio, quando considerado como deus da eloqncia, uma atitude particular: ele levanta levemente o brao direito como se

  • pretendesse demonstrar alguma coisa. Pode ver-se essa atitude tio Germnico do Louvre, que no um Germnico, seno um orador romano com os atributos de Mercrio, como indica a tartaruga posta ao seu lado. Mas os monumentos em que o prprio deus est representado com o gesto caracterstico do orador so assaz raros, embora os autores falem constantemente deles. Entretanto, vemo-lo sob tal aspecto numa linda pedra gravada, em que o deus se acha caracterizado pelo caduceu alado que ele empunha com a outra mo.

    Fig. 415 Mercrio, deus dos viajantes (segundo uma pedra

    gravada antiga).

    A arte de comunicar as idias pela linguagem participava naturalmente dos atributos de Mercrio, porque ele o deus da permuta sob todas as formas. Era ele tambm que todos invocavam para adquirir os dons da memria e da palavra, como se pode ver num hino rfico a Mercrio que contm as litanias do deus: "Filho bem amado de Maia e de Jpiter, deus viajante, mensageiro dos imortais, dotado de grande corao, censor severo dos homens, deus prudente de mi] formas, assassino de

  • Fig. 416 Mercrio, cognominado Germnico (esttua antiga no

    museu do Louvre).

    Fig. 417 Mercrio, deus da eloqncia (segundo uma pedra

    gravada antiga).

  • Argos, deus de ps alados, amigo dos homens, protetor da eloqncia, tu que gostas da astcia e dos combates, intrprete de todas as lnguas, amigo da paz, que trazes um caduceu sangrento, deus venturoso, deus utilssimo, que presides aos trabalhos e s necessidades dos homens, generoso auxiliar para a lngua dos mortais, ouve as minhas preces, concede um feliz fim minha existncia, concede-me felizes obras, um esprito dotado de memria e de palavras escolhidas." (Hino rfico).

    Mercrio, mensageiro dos deuses

    Mercrio transmite aos deuses as preces dos homens e faz subir a eles a fumaa dos sacrifcios. Mas sobretudo o mensageiro dos deuses e o fiel intrprete das ordens que est incumbido de levar. ele que por ordem de Jpiter conduz as trs deusas presena do pastor Paris encarregado de lhes adjudicar o prmio da beleza. Possui asas no ptaso e tem asas talares para indicar a rapidez do seu vo. Devotado mais especialmente a Jpiter, torna-se, se preciso, ministro complacente dos seus prazeres. O caduceu usado por Mercrio parece ter significados diversos: primitivamente era apenas a vareta usada pelos arautos que iam e vinham por diversos pases em prol das relaes internacionais. Em outras circunstncias a vareta reveste-se de uma espcie de carter mgico: com ela que Mercrio adormece Argos e dela que se serve para evocar as sombras. Em torno dos emblemas que caracterizam Mercrio, Gabriel de Saint-Aubin colocou mariposas para indicar a leveza e a rapidez do vo. "0 apelido de mensageiro, de servidor, diz Creuzer, to freqentemente dado a Hermes, est quase sempre acompanhado do de assassino de Argos, em que se revelam to bem nas lendas pelsgicas as suas relaes com a lua e o cu estrelado. A vaca Io, efetivamente, e o vigilante

  • Fig. 418 Mercrio, esttua de bronze (por Gian di Bologna. em Florena).

  • Argos, que traz os seus inmeros olhos fitos nela, no parecem ser outra coisa. Quanto a Hermes, enviado pelo senhor dos deuses a libertar a sua amante de to incmoda vigilncia, nada mais faz, ao matar Argos, do que cumprir a misso que lhe confiada, de presidir alternativa do dia e da noite, da vida e da morte." (Creuzer).

    0 famoso Mercrio de Gian di Bologna, em Florena, mostra o deus sob o seu aspecto de mensageiro, correndo com extrema leveza e empunhando o caduceu (fig. 418).

    Fig. 419 Mercrio, mensageiro dos deuses (segundo uma pedra

    gravada antiga).

    Mercrio, condutor de almas

    Alm do seu papel de mensageiro dos deuses, Mercrio est especialmente incumbido de transportar as almas dos mortos ao reino de Pluto. Vrios monumentos no-lo apresentam sob tal aspecto, que, alis, se conforma s narraes dos poetas. Assim que, numa

  • pintura antiga, vemos Pluto e Prosrpina sentados num trono e recebendo uma jovem que Mercrio lhes conduz. Est protegido por uma ampla clmide envolta sobre o brao e traz o ptaso alado. Com uma das mos, empunha o caduceu e com a outra conduz a jovem, seguida por sua vez de outra mulher velada (fig. 421).

    Fig. 420 Mercrio, condutor das almas (segundo uma pedra

    gravada antiga).

    Vemos tambm, por vezes, Mercrio caminhando rapidamente e segurando com a mo uma almazinha caracterizada pelas asas de borboleta: por isso que Horcio, invocando Mercrio, lhe dirige estas palavras: "s tu que, amado igualmente pelos deuses do Olimpo e pelos deuses do Inferno, renes com a tua varinha de ouro as sombras leves e conduzes as almas piedosas venturosa morada que lhes est reservada."

    Uma interessante pedra gravada antiga nos apresenta Mercrio evocando uma sombra a quem ajuda a sair da Terra (fig. 422). Dessa feita no uma alma que ele conduz aos infernos, pois, muito pelo contrrio, a tira

  • Fig. 421 Mercrio conduzindo uma alma ao reino de Pluto.

    Fig. 422 Mercrio evocando urna sombra (segundo uma pedra

    gravada antiga).

  • do reino subterrneo. Embora fatos semelhantes no constitussem nada de surpreendente na mitologia, difcil determinar a que lenda essa pedra gravada faz referencia.

    Queixas de Mercrio

    Dentre todos os deuses da antiguidade, no h nenhum que tenha exercido tantas ocupaes como Mercrio. Intrprete e ministro fiel dos demais deuses, e em particular de Jpiter, seu pai, serve-os nos seus problemas ou nos seus prazeres com infatigvel zelo.

    Fig. 423 Atributos de Mercrio.

    A multiplicidade das funes de Mercrio verdadeiramente extraordinria, e o mais ativo dos deuses chega s vezes a lamentar-se. "H, por acaso, um deus

  • mais Infeliz do que eu? Ter, sozinho, que fazer tanta coisa. sempre curvado ao peso de tantos trabalhos! Desde o romper do dia, devo levantar-me para varrer a sala do banquete; depois, quando j estendi tapetes para a assemblia e pus tudo em ordem, preciso ir ao p de Jpiter, a fim de levar ordens Terra, como verdadeiro correio. Mal regresso, ainda coberto de p, devo servir-lhe a ambrsia, e antes da chegada do escano, era eu quem lhe dava o nctar. O mais desagradvel, porm, que, nico dentre os deuses, no fecho olho durante a noite, pois tenho de conduzir as almas a Pluto, levar-lhe os mortos e sentar-me ao tribunal. Os trabalhos do dia no tm fim; alm de assistir aos jogos, de fazer o papel de arauto nas assemblias, de dar aulas aos oradores, encarrego-me, simultaneamente, de tudo quanto diz respeito s pompas fnebres." (Luciano).

  • CAPTULO II

    P, DEUS DA ARCDIA

    Nascimento de P. Cupido, vencedor de P. P e Syrinx. Ptis metamorfoseada em pinheiro. P e a ninfa Eco. P, filho de Mercrio. P, divindade pastoril. P, deus universal.

    Nascimento de P

    P, antiqussima divindade pelsgica especial Arcdia, o guarda dos rebanhos que ele tem por misso fazer multiplicar. Deus dos bosques e dos pastos, protetor dos pastores, veio ao mundo com chifres e pernas de bode. P filho de Mercrio. Era assaz natural que o mensageiro dos deuses, sempre considerado intermedirio, estabelecesse a transio entre os deuses de forma humana e os de forma animal. Parece, contudo, que o nascimento de P provocou certa emoo em sua me, assustadssima

  • com to esquisita conformao: e as ms lnguas pretendem at que, quando Mercrio apresentou o filho aos demais deuses, todo o Olimpo desatou a rir. Mas como provvel que haja nisso um pouco de exagero, convm restabelecer os fatos na sua verdade, e eis o que diz o hino homrico sobre a estranha aventura. "Mercrio chegou Arcdia fecunda em rebanhos ; ali se estende o campo sagrado de Cilene; nesses pramos, ele, deus poderoso, guardou as alvas ovelhas de um simples mortal, pois concebera o mais vivo desejo de se unir a uma bela ninfa, filha de Drops. Realizou-se enfim o doce himeneu. A jovem ninfa deu luz o filho de Mercrio, menino esquisito, de ps de bode, e testa armada de dois chifres. Ao v-lo, a nutriz abandona-o e foge. Espantam-na aquele olhar terrvel e aquela barba to espessa. Mas o benvolo Mercrio, recebendo-o imediatamente, p-lo ao colo, rejubilante. Chega assim morada dos imortais ocultando cuidadosamente o filho na pele aveludada de uma lebre. Depois, colocando-se em frente de Jpiter e dos demais deuses, apresenta-lhes o menino. Todos os imortais se alegram, sobretudo Baco, e do-lhe o nome de P, visto que para todos constituiu objeto de diverso."

    Figs. 424, 425 Cabeas de P (segundo antigas moedas).

    Na esttua de P, que se acha no Louvre, possui a cabea um carter de animalidade muito bem expresso pela conformao estreita da testa, pela disposio dos olhos e pela curvatura do nariz, que relembra a cabea do bode (fig. 430). s vezes, tem pernas de homem, e em vrias moedas o vemos sob a forma de rapaz. Est,

  • alis, perfeitamente caracterizado pelo cajado pastoril (fig. 427). Mas nas tradies mitolgicas, sempre velho e contrasta, mediante a estrema fealdade, com as outras divindades.

    Fig. 426 P (segundo uma moeda de Messena). (Siclia).

    Fig. 427 P (segundo uma antiga moeda arcdia).

    Cupido, vencedor de P

    As ninfas zombavam incessantemente do pobre P em virtude do seu rosto repulsivo, e o infeliz deus, ao que se diz, tomou a resoluo de nunca amar. Mas Cupido cruel e afirma uma tradio que P, desejando um dia lutar corpo a corpo com ele, foi vencido e abatido, diante das ninfas que se riam. O duelo est

  • figurado em pinturas antigas e Carraci, na gravura que fez sobre o tema, escreveu em baixo como divisa: Omnia vincit amor (P, em grego, significa omnia em latim. ou tudo, em portugus). Deparam-se-nos ali duas ninfas contemplando com um sorriso malicioso o singular combate, em que o menino alado agarra o brao nervoso do velho P que no pode mais resistir (fig. 428).

    Fig. 428 Cupido. vencedor de P.

    P e Syrinx

    Um dia percorria P o monte Liceu, segundo o seu hbito, e encontrou a ninfa Syrinx que jamais quisera receber as homenagens de nenhuma das divindades e que

  • s tinha uma paixo : a caa. Aproximou-se dela, e como nos costumes campestres se vai imediatamente ao objetivo, sem nenhum artifcio, sem nenhum desvio, disse-lhe: "Cedei, formosa ninfa, aos desejos de um deus que pretende tornar-se vosso esposo. (Ovdio).

    Fig. 429 P (segundo uma esttua antiga).

    Queria falar mais; mas Syrinx, pouco sensvel quelas palavras, deitou a correr, e j chegara perto do rio Ladon, seu pai, quando, vendo-se detida, rogou s ninfas, suas irms, que a acudissem. P, que lhe sara no encalo, quis abra-la, mas em vez de uma ninfa, s abraou canios. Suspirou e os canios agitados emitiram um som doce e queixoso. O deus, comovido com o que acabava de ouvir, pegou alguns canios de tamanho desigual e, unindo-os

  • Fig. 430 aps (esttua antiga. museu do Louvre),

  • com cera, formou a espcie de instrumentos que se chama syrinx e que constitui a flauta de sete tubos, transformada em atributo de P.

    Numa composio cheia de vida e movimento, Rbens representou o deus P perseguindo Syrinx. Antoine Coypel, por sua vez, nos apresenta o deus segurando instrumentos que acaba de fabricar, enquanto o maligno Cupido lhe anuncia que os sons amorosos que ele dali tirar atrair, apesar de toda a sua fealdade, as belezas que o desdenham.

    Ptis metamorfoseada em pinheiro

    Com efeito, em breve, os melodiosos acordes fazem acorrer de toda parte as ninfas que vm danar em volta do deus chifrudo. A ninfa Ptis parece to enternecida que P renasce com a esperana e cr que o seu talento faz com que seja esquecido o rosto. Sempre tocando a flauta de sete tubos, comea a procurar lugares solitrios e percebe, finalmente, um rochedo escarpado no alto do qual resolve sentar-se. Ptis segue-o. Para melhor ouvi-lo. aproxima-se cada vez mais, tanto que P, vendo-a bem perto, julga o momento oportuno para lhe falar. No sabia o infeliz que Ptis era amada por Breas, o terrvel vento do norte, que naquele instante soprava com grande violncia. Vendo a amante perto de um deus estranho, Breas foi acometido de um acesso de cime furioso, e, no se contendo, soprou com tal impetuosidade que a ninfa caiu no precipcio, e despedaou contra as pedras o formoso corpo, imediatamente transformado pelos deuses em pinheiro. Foi depois disso que essa rvore, que traz o nome da ninfa (Ptis significa, em grego, pinheiro) foi consagrada a P, e por esse mesmo motivo que nas representaes figuradas, a cabea de P est muitas vezes coroada de ramos de pinheiro.

  • P e a ninfa Eco

    O destino de P era amar sempre sem que nunca lograsse unir-se criatura amada. Continuando a fazer msica na montanha, ouviu, sada do fundo do vale, uma terna voz que parecia repetir-lhe os acordes. Era a voz da ninfa Eco, filha do Ar e da Terra. Desceu, ento, para procurar a que lhe havia respondido, sem nunca poder atingi-la, embora ela lhe respondesse constantemente; a cruel ninfa parecia rir-se dele. Mas, francamente, ningum a pode censurar por isso. Quando se ama o belo Narciso, como possvel encarar o velho P? P sempre velho, apesar de ter tido por pai Mercrio, que eter-namente jovem.

    P, filho de Mercrio

    Um dia o pai e o filho encontraram-se: P. Bom dia, Mercrio, meu pai ! Mercrio. Bom dia. Como dizes que sou teu pai? P No s Mercrio, o deus de Cilene? Mercrio. Sim. Mas como s meu filho?... Ah, por Jpiter!

    Lembro-me agora da aventura! Quer dizer que eu, que tanto me orgulho desta minha beleza, e que no tenho barba, devo ser chamado teu pai ! Todos se riro de mim, por ser meu filho um sujeito to bonito assim!

    P. Mas eu no vos desonro, meu pai. Sou msico e toco muito bem flauta. Baco no d um passo sem mim. Escolheu-me por amigo e companheiro das danas, e sou eu quem lhe conduz os coros.

  • Mercrio. Pois bem, P (creio que esse o teu nome), sabes como podes ser-me agradvel? E queres, alm disso, conceder-me um favor?

    P. Ordenai, meu pai, e ns veremos. Mercrio. Vem c, d-me um abrao. Mas cuida de me

    no chamares de pai na presena de estranhos. (Luciano) .

    P, divindade pastoril

    Como smbolo da obscuridade, P causa nos homens os terrores pnicos, isto , sem motivo. Na batalha de Maratona, inspirou aos persas um desses terrores sbitos, o que contribuiu bastante para assegurar a vitria aos gregos. Foi por causa desse auxlio que os atenienses lhe consagraram uma gruta na Acrpole.

    Todavia, a princpio, P nada mais era do que a divindade pastoril dos arcdios que o invocavam para que lhes multiplicasse os rebanhos. "Glauco e Coridon, que conduzem juntos os seus rebanhos de bois pelas montanhas, ambos arcdios, imolaram a P, guarda do monte Cilene, a novilha de lindas pontas; e as pontas, de doze palmas, prenderam-nas em sua honra, mediante um longo cravo, ao tronco deste pltano copado, bela oferta ao deus dos pastres." (Antologia).

    As imagens primitivas de P eram providas de um smbolo cuja crueza significativa nada possua naquele tempo de licencioso. O seu culto, que posteriormente se sumiu diante do das divindades do Olimpo, extremamente antigo na Arcdia e muito certamente anterior a qualquer civilizao. "Quando a educao do gado no prosperava, diz Creuzer, os pastores arcdios golpeavam os dolos do deus P, costume que prova a sua profunda barbaridade em matria de religio,"

  • P, deus universal

    Sob a influncia da poesia rfica, o deus P tornou-se o smbolo pantesta fundado na interpretao do seu nome: a flauta de sete tubos representa, ento, as sete notas da harmonia universal, e a fuso das formas animais com as formas humanas corresponde ao carter mltiplo cia vida no universo. sob tal aspecto que P nos surge numa linda composio de Gillot. Essa imagem corresponde idia que da antiguidade tinha o sculo dezoito. Toda a natureza est em festa diante do deus que simboliza a universalidade dos seres; mas tal festa, to repleta de vida e de movimento, nos lembra as quermesses flamengas muito mais que os baixos-relevos antigos.

    Sob o reinado de Tibrio, estando um navio ancorado, ouviu-se uma voz misteriosa que gritava: "O grande deus P morreu!" Desde ento, nunca mais se ouviu falar dele.

    Fig. 431 Sacrifcio a P (segundo uma pedra gravada antiga).

  • CAPITULO III

    VESTA

    Tipo e atributos de Vesta. O altar domstico. A chegada da noiva. As vestais romanas. Os lares domsticos. Os gnios.

    Tipo e atributos de Vesta

    Vesta a personificao do lar, onde se mantm o fogo sagrado que preside aos destinos da famlia ou da cidade. No possui lenda: era a primeira filha nascida de Saturno e de Ra, e foi como as outras engolida por seu pai. Mais tarde, quando tornou a ver a luz, recusou-se a desposar qualquer um dos deuses. "Os trabalhos de Vnus no so agradveis a Vesta, virgem venervel, a primeira gerada pelo astuto Saturno, e a ltima, segundo a vontade do poderoso Jpiter. Apolo e Mercrio desejavam desposar a augusta deusa, mas ela no concordou, recusou-se constantemente a ceder e, tocando a cabea do

  • poderoso deus com a gide, proferiu o grande juramento que sempre manteve de ficar virgem para sempre. Em vez do himeneu, seu pai a premiou com uma belssima prerrogativa : com efeito, no lar, ela recebe todas as primcias das ofertas, honrada em todos os templos dos deuses e para os mortais a mais augusta das deusas." (Extrato do hino homrico a Vnus).

    Fig 432 Vesta (segundo uma estatueta antiga).

    Em toda a antiguidade foi o lar considerado smbolo da vida domstica, cuja felicidade repousa na castidade da esposa. Vesta era a guarda da famlia e ligava-se aos deuses penates, isto , aos antepassados protetores dos membros vivos da famlia: o seu lugar era, pois, no meio da casa. Por conseqncia, tinha um altar na cidade como guarda da comunidade, e quando os colonos partiam para fundar nova cidade, cuidavam de levar o fogo do lar comum que ardia na cidade para acender o que iriam estabelecer na nova ptria. Ovdio, nos seus Fastos.

  • assim fala de Vesta: "Devemos ver em Vesta apenas a chama ativa e pura ; e no h corpo que nasa do fogo. Portanto, ela virgem com todos os direitos e gosta de ter companheiras na sua virgindade. O teto recurvo do templo de Vesta no ocultava nenhuma imagem. um fogo inextinguvel que se esconde nesse santurio. Nem Vesta, nem o fogo tm imagens. A terra se sustenta pela sua prpria fora; Vesta tira, portanto, o seu nome do fato de se suster pela sua prpria fora, mas o lar assim chamado em virtude das chamas e do fato de aquecer e avivar todas as coisas. Figurava, antigamente, entre as primeiras peas do aposento; da tambm, creio eu, que se derivou a palavra vestbulo, e por isso que nas preces dizemos ainda a Vesta: tu que ocupas os primeiros lugares. Era costume outrora sentar-se em longos bancos, diante do lar, e supor que os deuses assistiam ao festim."

    Engana-se evidentemente Ovdio quando diz que Vesta no tem imagens. O que sucede, na verdade, que so extremamente raras. Plnio cita uma esttua de Vesta, esculpida por Scopas, que gozava de grande fama. A que reproduzimos uma das rarssimas imagens da deusa chegadas at ns. Est vestida da tnica talar, apertada por um cinto, e por cima usa ampla manta. Um longo vu lhe cai sobre os ombros; empunha uma lmpada, smbolo do fogo eterno. Vemos, por vezes, lmpadas consagradas a Vesta, que se caracterizam por uma cabea de burro. Esse animal aparecia igualmente em certas festas em honra da deusa, onde se pretendia relembrar o servio que fora prestado a Vesta pelo burro de Sileno. Um dia, Prapo, divindade campestre de carter jovial e pouqussima disposta venerao, notou a deusa que adormecera sobre a relva e, julgando no ser visto, aproximou-se sorrateiramente dela para a abraar. Mas o burro de Sileno, que pastava pela vizinhana, indignou-se ao ver que se pretendia fazer tamanha afronta augusta deusa, e ps-se a zurrar to fortemente que todo o Olimpo despertou.

  • O altar domstico

    Toda casa antiga continha um altar no qual devia haver sempre um pouco de cinza e carves ardentes. Esse altar, era o lar, que Vesta personifica. O fogo sagrado devia ficar puro de qualquer imundcie. A ele no era permitido atirar objetos sujos, e a sua luz no podia iluminar aes inconvenientes ou culposas. O fogo jamais se extinguia, e devia arder enquanto existisse a famlia. Se, por desgraa morria, s era possvel tornar a acend-lo mediante certos ritos que recordam o descobrimento do fogo. Era preciso, para acender o fogo sagrado, concentrar num ponto os raios do sol, e esfregar rapidamente dois pedacinhos de madeira de determinada espcie, para deles fazer saltar uma fagulha. A no ser assim, o fogo era considerado impuro. Ningum saa de casa sem dirigir uma prece ao lar, pois este era o deus da famlia.

    O repasto da famlia era para os antigos um ato religioso, pois os alimentos se coziam no lar. Antes de comer, atiravam-se s chamas as primcias do alimento, e sobre elas se espalhava a libao do vinho: era a parte da deusa, e quando as chamas se erguiam ningum duvidava da existncia de uma comunho ntima entre a famlia e a sua divindade protetora. Em torno do lar vigiam os antepassados, pois o culto dos manes se ligava Intimamente ao de Vesta, que, sendo o lar, constitui natu-ralmente o centro da famlia. Se tem o seu templo na cidade por ser o centro das famlias que a esta compem. Se honrada por toda parte como grande deusa por ser o centro do mundo.

  • A chegada da noiva

    Embora a deusa esteja por toda parte, na famlia que ela tem o seu princpio. Assim, no no templo que se contraem as npcias, diante do lar. A cerimnia do casamento compreende trs atos que se prendem, todos, ao lar. Em primeiro lugar, o pretendente se apresenta ao pai da .jovem, o qual rene a famlia em torno do seu lar, oferece um sacrifcio, e quando a chama arde declara mediante uma frmula consagrada que autoriza a filha a renunciar aos seus antepassados, e a deixar o seu lar para ir partilhar do do marido. Depois, a jovem, vestida de branco, inteiramente coberta por um grande vu, cabea coroada de flores, conduzida pelo esposo nova morada. Precede-a um portador de archote: o archote do himeneu. Chegada frente da casa, cantam todos um hino religioso e, na frente do limiar, se realiza uma cerimnia caracterstica, o rapto. A jovem no entra por si na casa; pelo contrrio, coloca-se no meio das mulheres da famlia a que deixa de pertencer, como que lhes pedindo proteo. Estas fingem, realmente, defend-la, mas o esposo, aps uma luta simulada, pega a noiva, ergue-a nos braos, f-la ultrapassar a soleira da porta, cuidando bastante de que os seus ps no toquem o cho. Se ela entrar tocando o limiar com os ps, estar no interior como forasteira a quem se recebe, ao passo que ali deve estar como a criana que nasceu na casa, e que no veio de fora. Ento a noiva se aproxima do fogo sagrado, olha os retratos dos antepassados que rodeiam a sala, e que j agora so os seus: na chama do lar pedem-lhe que coza um po recitando preces, e quando o po est pronto, os dois esposos o comem. A partir de tal momento, a esposa mudou inteiramente de famlia. aos antepassados do marido que far ofertas, por se terem tornado os seus. O casamento para ela um segundo nascimento, e o lar que arde na sua morada , por fim, a sua divindade protetora.

  • As vestais romanas

    O colgio das vestais em Roma foi particularmente famoso na antiguidade. As vestais tinham por misso guardar o fogo sagrado, que no podiam deixar se extinguir. Para ser admitida a jovem devia ter pelo menos seis anos e no mximo dez, ser filha de pais livres e estimados, e no apresentar defeito fsico. As suas funes duravam trinta anos: os dez primeiros eram consa-grados ao noviciado, os dez seguintes prtica dos ritos sagrados, os dez ltimos ao ensino das novias. As vestais faziam voto de virgindade enquanto lhes durassem as funes As que os violassem eram enterradas vivas, e o homem que houvesse ultrajado uma vestal condenado a ser flagelado at morrer. Durante mil e cem anos que durou a instituio, vinte foram as vestais acusadas de impureza, e treze foram condenadas.

    Fig. 433 Vestal (segundo urna esttua antiga).

  • A cerimnia do sepultamento de uma vestal culpada realizava-se em lugar especial, situado dentro dos muros de Roma, e obedecia aos ritos prescritos. Preparava-se uma sepultura qual se podia penetrar por uma abertura praticada na superfcie do solo, e ali se armava um leito. Perto do leito, punha-se uma lmpada acesa, po, gua, um pote de leite e uma pequenina proviso de azeite. A vestal culpada atravessava a cidade numa liteira hermeticamente fechada, e a multido recebia ordem de, sua passagem, manter o mais rigoroso silncio. Quando o cortejo chegava ao lugar do suplcio, os lictores desprendiam as correias da liteira, enquanto o grande pontfice recitava as preces consagradas. Ento, a vestal, coberta de um grande vu, descia ao seu tmulo que era imediatamente fechado.

    s vezes, como no que se chamava juzo de Deus, na Idade Mdia, a deusa provava mediante um milagre a inocncia da sacerdotisa acusada. Foi assim que a vestal Cludia Quinta provou a sua virtude conduzindo, com apenas o auxlio do seu cinto, no porto do Tibre, o navio que trazia a esttua da deusa Cibele, que tala dera de presente aos romanos, e que nenhum esforo conseguira at ento mover.

    As vestais que haviam terminado o seu tempo de servio religioso podiam casar-se. Enquanto sacerdotisas, habitavam o templo e eram alimentadas a expensas do tesouro pblico. Vrias esttuas antigas nos transmitiam o costume das vestais. Essas sacerdotisas gozavam de grande considerao : a sua palavra era acreditada, e elas no prestavam juramento. Caminhavam precedidas de um lictor com os feixes, e se, durante o percurso, uma delas encontrasse um criminoso conduzido ao suplcio, salvava-lhe a vida, contanto que afirmasse ser aquele um encontro fortuito e no premeditado. Enfim, por toda parte em que as vestais se apresentassem, tinham assegurado lugar de honra. Durante a decadncia, as vestais, que primitivamente traziam uma longa tnica branca, uma faixa e um vu, abandonaram em grande parte a simplicidade do comeo. O colgio das vestais foi abolido definitivamente pelo imperador cristo Teodsio, no ano de 389 da nossa era.

  • Uma medalha de Luclia, mulher de Lcio Vero, nos apresenta seis vestais sacrificando num altar aceso, diante de um pequeno templo redondo com a esttua de Vesta (fig. 434).

    Fig. 434 Vestais sacrificando (segundo uma medalha antiga).

    Os lares domsticos

    Os lares ou manes so deuses da famlia cujo culto se liga estreitamente ao da deusa do lar. Presidiam guarda das casas e das famlias de que eram, de certo modo, gnios tutelares. As figurinhas que os representam eram em geral postas num nicho contguo ao lar; o co lhes especialmente consagrado. O lar familiar nos surge, freqentemente, sob a forma de menino aga-chado que tem um co aos ps. Traz, por vezes, o co aos ombros e um cesto de provises lhe est na frente. pois deve cuidar de que famlia nada falte (fig. 435).

  • Era crena universalmente difundida poder a alma dos mortos voltar teria a fim de proteger os parentes ou amigos. Mas para tanto, mister se fazia que os mortos tivessem sido inumados segundo os ritos, e da advm a importncia que se atribua s cerimnias fnebres e o temor que todos tinham de v-las faltar por ocasio do sepultamento.

    Fig. 435 Lar privado (segundo uma esttua antiga).

    Os gnios

    A arte raramente representou os lares privados, mas reproduziu sob toda espcie de aspectos os demnios ou gnios, seres intermedirios entre o homem e a divindade, e cujo papel nunca foi bem definido. Vemo-los freqentemente nos sarcfagos, onde personificam sem

  • dvida os gostos do defunto. Lutam no estdio, correm em carros no hipdromo, caam javalis ou cervos, participam do cortejo das divindades marinhas, colhem uvas, e exercem outros mil misteres. H gnios lavradores, gnios cordoeiros, gnios lutadores, gnios caa-dores, etc. Com freqncia brincam uns com os outros, e pregam-se mutuamente peas cheias de esprito. Os artistas gregos colocavam-nos por toda parte e a profuso com a qual os semeavam nos monumentos provm de uma razo decorativa e de uma razo mitolgica.

    A arte dos ltimos sculos deu s vezes aos anjos a forma de gnios; mas como as ocupaes dos anjos no so demasiadamente variadas, foi preciso voltar a concepes pags. Foi o que fez Rafael em vrias circunstncias, e notadamente no seu encantador Ronda de Gnios. Os meninos alados danam alegremente no prado, ao som da msica tocada por dois cupidos, reconhecveis pela aljava que lhes est perto.

    Fig. 436 Gnios das corridas de carros (segundo um baixo-relevo antigo).

    Os gnios eram geralmente benficos. Muito embora dotados de poder assaz limitado, todos se preocupavam em satisfaz-los. Gostavam da alegria e das pessoas alegres. O que se entregasse tristeza afligia o seu gnio, pois que todo homem tem o seu. ele que leva a alma ao corpo que ela deve habitar, e a escolta sorridente quando deixa a terra para ir ao pas das sombras. A melancolia sempre foi desconhecida da antiguidade. Quando um gnio parte para a grande viagem, os

  • companheiros abandonam um instante o folguedo para assistir aos seus funerais, como no-lo mostra le Poussin, numa das suas graciosas composies (fig. 437).

    Fig. 437 Funeral de um gnio.

  • LIVRO VII

    BACO E O SEU CORTEJO

  • CAPITULO I

    TIPO E ATRIBUTOS DE BACO

    Baco oriental. Baco tebano. A vinha, a hera e o tirso. O cisto e a serpente bquica. Os animais bquicos. Baco inspirados. Baco, inventor do teatro. A taa mstica. As festas de Baco.

    Baco oriental

    Baco (Dionisos) a personificao do vinho. O seu culto, menos antigo que o dos demais deuses, revestiu-se de certa importncia, medida que se foi ampliando a cultura da vinha. Associou-se, ento, a Ceres, e ambos foram honrados nas mesmas festas como prncipes soberanos da agricultura,

  • "A Grcia antiga dos tempos primitivos, diz Ottfried Mueller, contentava-se de um Hermes flico, como representao figurada desse deus; e a arte grega de todas as pocas conservou o hbito de erigir cabeas de Baco, sozinhas, ou at simples mscaras dessa divindade. O Hermes flico foi em breve substitudo pela figura soberba e majestosa do velho Baco; a cabea est ornada de uma cabeleira magnfica cujas madeixas so seguras por meio de uma mitra, descendo a barba em linhas sinuosas, e respirando em todos os traos da sua fisionomia algo de aberto. O seu costume, de magnificncia oriental, quase o de uma mulher, e o deus segura geralmente nas mos o rhyton e um pmpano. Foi somente mais tarde, na poca de Praxteles, que do cinzel do escultor saiu o jovem Baco, representado e concebido com as feies de um efebo, ou de um adolescente em quem as formas do corpo, suavemente fundidas e sem musculatura bem acentuada, anunciam a natureza quase feminina do deus; as

    Figs. 438, 439 Cabeas de Baco (segundo moedas antigas).

    feies da fisionomia constituem uma singular mescla do delrio bquico e de um ardor indeterminado, sem precisa finalidade. Nessa fisionomia se manifesta e fala claramente a voz da alma de Baco partilhando o entusiasmo e o delrio que ele causa. As formas e as feies dessa representao figurada de Baco deixam lugar, contudo, expresso grandiosa e imponente que revela em Baco o filho do raio, o deus a cujo poder