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Olhares em Josenia Antunes Vieira • Regina Célia Pagliuchi da Silveira • Célia Maria Magalhães • André Lúcio Bento • Francisca Cordélia Oliveira da Silva • Georgina Amazonas Mandarino • Harrison da Rocha • Janaína de Aquino Ferraz • Joana da Silva Ormundo • Walkyria Wetter Bernardes Análise de Discurso Crítica

Livro - Olhares em análise de discurso e crítica (JOSENIA ANTUNES VIEIRA, outros)

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Text of Livro - Olhares em análise de discurso e crítica (JOSENIA ANTUNES VIEIRA, outros)

  • Olhares em

    Josenia Antunes Vieira Regina Clia Pagliuchi da Silveira Clia Maria Magalhes Andr Lcio Bento

    Francisca Cordlia Oliveira da Silva Georgina Amazonas Mandarino Harrison da Rocha Janana

    de Aquino Ferraz Joana da Silva Ormundo Walkyria Wetter Bernardes

    Anlise de Discurso Crtica

  • Ficha Catalogrfica

    2009, by Josenia Antunes Vieira

    Regina Clia Pagliuchi da Silveira

    Clia Maria Magalhes

    Andr Lcio Bento

    Francisca Cordlia Oliveira da Silva

    Georgina Amazonas Mandarino

    Harrison da Rocha

    Janana de Aquino Ferraz

    Joana da Silva Ormundo

    Walkyria Wetter Bernardes

    Reservam-se os direitos desta edio aos autores

    Reviso: Harrison da Rocha, Andr Lcio Bento, Josenia Antunes Vieira e Cludia Gomes Paiva

    Superviso de Editorao e de Reviso: Harrison da Rocha

    E-mail: [email protected]

    Projeto grfico e capa: Iracema F. da Silva

    Imagem da capa: Mrcia Filippi

    Olhares em anlise de discurso crtica. Editora: Josenia An-tunes Vieira. Vieira, Josenia Antunes; Pagliuchi, Regina Clia da Silveira; Magalhes, Clia Maria; Bento, Andr Lcio; Silva, Francisca Cordlia Oliveira da; Mandarino, Georgina Amazo-nas; Rocha, Harrison da; Ferraz, Janana de Aquino; Ormundo, Joana da Silva; Bernardes, Walkyria Wetter Braslia: www.cepadic.com, 2009.

    236 p.

    ISBN 978-85-909318-0-5

    Inclui bibliografia.

    1. Anlise de discurso crtica. 2. Multimodalidade.

  • Braslia, 2009

    Olhares em

    Josenia Antunes Vieira Regina Clia Pagliuchi da Silveira Clia Maria Magalhes Andr Lcio Bento

    Francisca Cordlia Oliveira da Silva Georgina Amazonas Mandarino Harrison da Rocha Janana

    de Aquino Ferraz Joana da Silva Ormundo Walkyria Wetter Bernardes

    Anlise de Discurso Crtica

  • apresentao ..............................................................................7

    parte I camInhos terIcos

    PERCuRSOS dAS ABORdAGENS dISCuRSIVAS ASSOCIAdAS LINGStICA SIStMICA FuNCIONAL

    Clia Maria Magalhes (UFMG) .....................................................17

    parte II dIscurso e IdentIdade

    O uSO dE MEtFORAS E A CONStRuO dE IdENtIdAdES tNICAS

    Francisca Cordlia Oliveira da Silva (UnB) ......................................39

    A SuPERMOdERNIdAdE: CuLtuRA dO POdER E dO CONSuMISMO

    Georgina Amazonas Mandarino (CEPADIC).....................................59

    PS-MOdERNIdAdE, MdIA E PERFIL IdENtItRIO FEMININO

    Walkyria Wetter Bernardes (UnB) ...................................................75

    parte III dIscurso e educao

    GRAMtICA tRAdICIONAL E LNGuA ESCRItA: duAS FACES dE uM MESMO POdER

    Harrison da Rocha (UnB) .............................................................. 91

    O dISCuRSO MERCANtILIStA dO ENSINO BRASILEIRO

    Josenia Antunes Vieira (UnB) ...................................................... 117

    Sumrio

  • parte IV dIscurso e lngua portuguesa

    A MuLtIMOdALIdAdE E A FORMAO dOS SENtIdOS EM PORtuGuS COMO SEGuNdA LNGuA

    Janana de Aquino Ferraz (UnB) .................................................. 153

    FORMAS dE SOLICItAO, AFIRMAES E RESPOStAS dIALGICAS dO PORtuGuS BRASILEIRO

    Regina Clia Pagliuchi da Silveira (PUC/SP) .................................. 177

    parte V dIscurso e multImodalIdade

    E AGORA, LuLA?: A IMAGEM INtERtExtuAL EM MAtRIA dO CORREIO BRAzIlIEnSE

    Andr lcio Bento (UnB) ............................................................ 191

    parte VI dIscurso e contextos on-line

    A dINMICA dO uSO SOCIAL dOS dIRIOS On-lInE

    Joana da Silva Ormundo (UnIP/CEPADIC) .................................... 203

  • apreSentao

    Esta obra composta por uma srie de artigos situados na Anlise de discurso Crtica (AdC), que interpreta o discurso o uso da linguagem na fala, na escrita e na imagem como uma forma de prtica social.

    O fato de analisar o discurso como prtica social sugere uma dialtica entre o social e o particular. Nesse sentido, o social pode ser definido tanto como discursos pblicos institucionais quanto como eventos discursivos particulares. A dialtica entre o social e o particular entendida medida que o social guia o particular e este modifica aquele.

    de forma geral, a AdC est associada Escola de Filosofia de Frankfurt e surge devido crescente importncia, atribuda, contemporaneamente, linguagem na vida social e tem por ponto de partida que, geralmente, os indivduos no tm conscincia de como o discurso intervm para controlar e moldar as cognies sociais. Sendo assim, analisar o discurso de forma crtica revelar o que no consciente para as pessoas em suas prticas sociais e denunciar quais estratgias so utilizadas para o controle de suas mentes. Por essa razo, a AdC est envol-vida com problemas sociais de forma a considerar que as expresses lingsticas so materializaes da ideologia e que todo uso da linguagem ideolgico; dessa forma, as expresses lingsticas so terreno de conflitos sociais.

    Fairclough e W. Wodak (no artigo Anlises Crtico del discurso, publicado por teun A. van dijk, em maro de 2000, trad. espanhola de Helena Amarengue, Barcelona: Ed. Gedisa) comentam que os filsofos dessa escola sustentam que no possvel tratar os produtos culturais como meros epifenmenos da economia, tal qual o fizeram os filsofos marxistas, pois os conhecimentos so expresses relativamente autnomas de contradies dentro do todo social, medida que as cognies sociais, de grupo para grupo, so conflitantes. Segundo os autores, o pensamento de Bakhtin destaca as propriedades dialgicas dos textos, sua intertex-

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    tualidade, no sentido atribudo por Kristeva (1986), em sua obra World dialogue and novel, que a idia de que qualquer texto est intertextualizado em uma cadeia de texto, isto , mantm relaes de reao, de incorporao e de transformao com outros textos. tal concepo contribui para uma viso social do discurso, pela dialtica do social com o individual.

    Segundo Fairclough e Wodak (2000), denomina-se Anlise de discurso Crtica a anlise crtica aplicada linguagem que se desenvolveu no marxismo Ocidental. de forma geral, o marxismo Ocidental deu nfase maior do que as outras formas do marxismo dimenso cultural e deu relevncia ao fato de que as relaes sociais capitalistas se estabelecem e se mantm (reproduzem-se) em boa parte no seio da cultura (por enfraquecimento da ideologia) e no somente, nem primordialmente, na base econmica. Embora os analistas crticos do discurso nem sempre se integrem explicitamente dentro dessa herana, principalmente no que se refere cultura e ideologia, ela, ainda assim, constitui o marco de seu trabalho.

    O termo crtico est associado Escola de Filosofia de Frankfurt. Os filsofos dessa escola consideram que os produtos sociais so expresses relativamente aut-nomas de contradies dentro do todo social e propem que as formas lingsticas de expresso (re)produzem, dinamicamente, o social no individual, embora este altere aquele. dessa forma, a AdC busca analisar o discurso com um interesse crtico pela linguagem na sociedade contempornea. Para tanto, busca uma conscincia crtica para tratar das prticas lingsticas cotidianas que so responsveis pelas mudanas fundamentais nas funes que a linguagem cumpre na vida social.

    H diferentes vertentes para analisar o discurso sob a viso crtica, pois h diferena na maneira pela qual essas vertentes interpretam a mediao entre o texto e o social. Por um lado, considera-se que os processos sociocognitivos controlam as relaes discursivas; por outro, supe-se que os mediadores entre o social e as prticas discursivas so gneros discursivos especficos. A AdC, devido a suas di-ferentes vertentes, privilegia tanto textos exclusivamente lingsticos quanto textos multimodais e, tendo por pressuposto, conforme Halliday, que os textos cumprem e realizam vrias funes ao mesmo tempo, analisar com viso crtica o discurso considerar as vrias funes presentes ao mesmo tempo nos textos, tais como: funo ideativa, intertextual e textual.

    Segundo as diferentes vertentes, a AdC privilegia:

    1. A Lingstica Crtica Sistmica Esta vertente se desenvolveu na Gr-Bre-tanha, na dcada de 1980, e seus principais representantes so Fowler; Kress e Hodge que esto intimamente ligados teoria Lingstica Sistmica de Halliday. Segundo essa vertente, as caractersticas gramaticais de um texto so

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    escolhas significativas dentro de um conjunto de possibilidades disponveis nos sistemas gramaticais; assim, a gramtica tem funo ideolgica, pois as escolhas gramaticais significativas contribuem para a reproduo ideolgica de relaes de dominao. Ainda, segundo essa vertente, importante tratar da significao ideolgica da funo sistmica, de forma a examinar como ela se encontra em textos que se transformam em outros textos no correr do tempo. Os lingistas crticos, tambm, chamam a ateno sobre o potencial ideolgico do sistema de categorizao dos implcitos em vocbulos, ou seja, as maneiras particulares de lexicalizar, social e institucionalmente, a experincia nos dicionrios.

    2. A Semitica Social Esta vertente se preocupa com o carter multissemitico da maior parte dos textos na sociedade contempornea e explora mtodos de anlise aplicveis s imagens visuais assim como relao existente entre a linguagem verbal e as imagens visuais, tal como procedem Kress e van Leeuwen, dentre outros. Os resultados obtidos da anlise crtica das imagens visuais tm propiciado repensar as teorias de base apenas lingstica. A ver-tente com base na Semitica Social d maior ateno do que a Lingstica Crtica Sistmica s prticas de produo e de interpretao relacionadas a distintos tipos de textos com mltiplas modalidades semiticas.

    3. A mudana sociocultural e mudana no discurso um dos principais representantes desta vertente Fairclough, que se dedica ao estudo das re-laes entre a mudana sociocultural e a mudana no discurso. A mudana no discurso analisada, com viso crtica, em termos da combinao de discursos e de gneros dentro de um texto, tendo como ponto de partida que o tempo reestrutura as relaes entre: a) distintas prticas discursivas no seio das instituies; b) distintas instituies com suas prticas discur-sivas correspondentes a determinados domnios sociais. Fairclough e seus colaboradores tambm trataram das implicaes da AdC para a educao, postulando uma conscincia crtica da linguagem como componente-chave do ensino da lngua nas escolas e em outras instituies.

    4. O exame sociocognitivo um dos principais representantes desta vertente van dijk, que se dedica ao estudo da reproduo do preconceito tnico no discurso e na comunicao. O autor descobriu que os temas mais freqentes na imprensa correspondem a preconceitos tnicos predominantes nas con-versaes cotidianas. Em seus trabalhos mais recentes, van dijk voltou-se ao estudo de questes mais gerais relativas ao abuso de poder e reproduo da desigualdade por meio da ideologia. Segundo ele, a cognio uma das categorias analticas do discurso, com viso crtica, e postula uma inter-

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    relao entre as categorias sociedade, cognio e discurso, de forma a tratar das representaes sociais em suas funes discursivas nos diferentes grupos sociais; dessa forma, tem se preocupado, mais recentemente, com as relaes entre cultura e ideologia para caracterizar os conhecimentos sociais.

    5. O mtodo histrico-discursivo uma das principais representantes desta vertente Ruth Wodak. Ela e seus colaboradores propem um procedimento que denominaram mtodo histrico-discursivo. Este mtodo originado na Sociolingstica, com base em Bernstein e recebe influncia da Escola de Frankfurt, principalmente, de Jrgeen Habermas, alm de van dijk, no que se refere existncia de diferentes tipos de esquemas mentais que tm importncia para a produo e para a compreenso do texto. um dos prin-cipais objetivos desse tipo de investigao crtica a possibilidade de sua aplicao. um trao caracterstico dessa vertente crtica consiste em integrar sistematicamente toda informao disponvel no contexto para a anlise e para a interpretao de textos falados ou escritos. A metodologia histrico-discursiva foi idealizada para tornar possvel a anlise de emisses verbais que contm valores preconceituosos implcitos e tambm para identificar e para denunciar cdigos e aluses contidas em discursos preconceituosos.

    6. As anlises da leitura um dos principais representantes desta vertente utz Maas, que remete s principais idias do pensamento de Michel Foucault e combina-as com a metodologia hermenutica que designa a anlise da leitura. dessa forma, analisa, com viso crtica, o discurso, por formas ling-sticas em correlao com prticas sociais, investigadas de modo sociolgico e histrico, no contexto em que se manifestam. A anlise do texto torna-se anlise do discurso, medida que correlaciona o texto ao discurso, isto , por uma prtica social formada historicamente. Nesse sentido, um discurso no um conjunto arbitrrio de textos, definido pelo tempo e pelo espao, mas um discurso define-se, intencionalmente, pelo seu contedo, como, por exemplo, discurso machista, discurso fascista. Cada texto remete-se a outros textos tanto sincrnica quanto diacronicamente. Para o autor, analisar o discurso com viso crtica colocar, de forma explcita, as especificidades dos discursos institucionalizados e pblicos.

    7. Escola Duisburg um dos maiores representantes desta vertente Siegfried Jger, que, com a influncia de Michel Foucault, trata das caractersticas lin-gsticas icnicas do discurso e dos smbolos coletivos que desempenham importantes funes no texto. Para Jger, os discursos so modalidades de fala institucionalizadas e convencionadas que tm relao com o comportamento e com a dominao. O autor prope uma metodologia explcita para analisar sistematicamente fragmentos de discurso levando em conta a intertextuali-

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    dade. O autor concentrou a micro-anlise do texto no smbolo coletivo, nas metforas e nas estruturas agentivas e mostrou que, em diferentes jornais e revistas publicadas, havia grande similitude entre os signos coletivos.

    de forma geral, com suas diferentes vertentes, a AdC ocupa-se dos problemas sociais e analisa, com viso crtica, os aspectos lingsticos e semiticos dos pro-cessos e dos problemas sociais, de forma a propor que as mudanas sociais e pol-ticas, na sociedade contempornea, incluem, geralmente, um elemento discursivo substancial de mudana cultural e ideolgica.

    Para os problemas sociais tratados, h privilgio da anlise da ideologia. A AdC sublinha o carter fundamentalmente lingstico e discursivo das relaes sociais de poder na sociedade contempornea, o que resulta, em parte, de como se exerce e negocia a relao de poder no interior do discurso. Privilegia, tambm, o tratamento do poder dentro do discurso e o poder sobre o discurso, como uma capacidade de controlar e de modificar as regras do jogo das prticas discursivas e da ordem do discurso. A AdC trata, tambm, de como o discurso constitui a sociedade e a cultura, da mesma forma que constitudo por ela. Isto implica que toda instncia de uso da linguagem d sua prpria contribuio reproduo e/ou transformao da sociedade e da cultura, includas na relao de poder.

    A presente obra d importncia s diferentes vertentes da AdC. Ela rene um conjunto de autores que apresentam os seguintes trabalhos:

    1. Clia Maria Magalhes (uFMG) apresenta Percursos das abordagens discur-sivas associadas Lingstica Sistemtica Funcional, de forma a tratar das diferentes abordagens da anlise lingstica que tm por foco o discurso. Seu artigo apresenta vertentes discursivas com base na Lingstica Sistmica e Funcional e objetiva o mapeamento das escolas inglesas conhecidas como Anlise de discurso Crtica, alm de divulgar um projeto de mapeamento de trabalho de pesquisadores brasileiros e portugueses em AdC, a partir da ltima dcada do sculo xx.

    2. Francisca Cordlia Oliveira da Silva (unB), em seu artigo O uso de metforas em construo de identidades tnicas, trata do uso de metforas presentes em textos que tm por tema cotas para negros nas universidades brasileiras. Seus resultados obtidos indicam que as metforas so usadas para consti-tuir as identidades dos negros nos textos. A autora considera que o modo como o negro visto e representado pelo outro influencia o modo como ele v e representa a si mesmo, pois o eu do negro forma-se, em parte, pelas representaes que so feitas dele pela sociedade. Assim, para fugir da auto-identificao, os informantes da pesquisa recorrem a metforas para representar a sua cor negra.

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    3. Georgina Amazonas Madarino (CEPAdIC), com o texto intitulado A super-modernidade: cultura do poder e do consumismo, objetiva examinar como a mass media contribui para a construo identitria do sujeito. A autora trata do smbolo da modernidade divulgado pela publicidade em geral, de forma a comprovar a identidade e como os referidos smbolos autorizam deslocamentos interpessoais. Seus resultados indicam que certos smbolos da supermodernidade propiciam a identificao de territrios em constante transformao e indicam, tambm, o resgate de multiplicidades sociais e culturais.

    4. Walkyria Weetter Bernandes (unB) apresenta o artigo intitulado Ps-moder-nidade, mdia e perfil identitrio feminino. O trabalho trata da investigao do papel identitrio da mulher e seu papel social no momento histrico da Ps-Modernidade, segundo as relaes existentes entre discurso, mdia e poder por meio do texto miditico, em suas caractersticas intertextual e multissemitica. O resultado obtido indica que a construo da identidade da mulher pela mdia impressa revela que ao mesmo tempo em que a mu-lher construtora de seu espao familiar e social, a ideologia dominante veiculada por um discurso ortodoxo e antilibertrio do feminino.

    5. Harrison da Rocha (unB), em seu artigo intitulado Gramtica tradicional e lngua escrita: duas faces de um mesmo poder, procura explicar algumas causas do fracasso do ensino de Lngua Portuguesa na escola brasileira. dessa forma, foca sua crtica no ensino apenas baseado na modalidade escrita, visto que em sociedade as pessoas se comunicam por diferentes modos semiticos. Para tanto, faz uma reviso do ensino de lngua desde a antiguidade clssica, bero do surgimento da gramtica tradicional, que, sendo representativa das elites, passa a ser norma imposta, ideologicamente, a todos. Percorre essa mesma prtica desde a Pennsula Ibrica, passando pelo Brasil Colnia, at nossos dias. Conclui que isso tem de ser repensado tendo em vista que a escrita e a fala so importantes para o ensino, mas os docentes de lngua portuguesa precisam cortejar seus currculos com uma estrutura ampla que d conta de uma enorme variedade de prticas comunicativas a escrita, a fala e o visual.

    6. Josenia Antunes Vieira (unB), em seu artigo intitulado O discurso mer-cantilista do ensino brasileiro tem por objetivo discutir as mudanas no discurso, relativas educao brasileira, focalizada na seduo da clientela aluno, que propiciaram profundas alteraes nas prticas discursivas. A autora considera que as mudanas no mundo e na atualidade brasileira contriburam para essas profundas alteraes e conclui que, enquanto as universidades federais pouco atuam para coibir as mudanas na educao superior, as

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    ISBN 978-85-909318-0-5 Apresentao

    universidades privadas multiplicam propagandas altamente agressivas para o recrutamento de novos alunos e, para tanto, gastam expressivas somas de seus oramentos para construir anncios que atraiam cada vez mais alunos para seus cursos. O artigo apresenta resultados de anlises de textos em linguagem multimodal.

    7. Janana de Aquino Ferraz (unB), em seu artigo A multimodalidade textual em materiais didticos de portugus lngua estrangeira trata das mudan-as ocorridas na configurao dos materiais didticos nos ltimos tempos, tendo em vista a abertura para os diversos usos da linguagem. Neste artigo, analisam-se, especialmente, sob luz da Anlise de discurso Crtica e da Semitica Social, as mudanas nas construes de sentido nos livros didticos de portugus para estrangeiros.

    8. Regina Clia Pagliuchi da Silveira (PuC/SP), em seu artigo intitulado Formas de solicitaes, afirmaes e respostas dialgicas do portugus brasileiro, trata dos implcitos culturais contidos no uso cotidiano de expresses lings-ticas do brasileiro, em turnos dialgicos, com o objetivo de focalizar aspectos da cultura brasileira que participam da memria social, a fim de contribuir com o ensino do portugus brasileiro para falantes de outras lnguas. Os resultados obtidos indicam que os implcitos culturais esto situados em dimenso sociocognitiva, diferente da dimenso da lngua, e que eles pre-cisam ser considerados para a produo de sentidos por locutores de outras lnguas. A autora est fundamentada na AdC, com vertente sociocognitiva, e situa os implcitos culturais nas cognies sociais de grupos especficos de brasileiros.

    9. Andr Lcio Bento (unB), em seu artigo E agora, Lula?: a imagem inter-textual em matria do Correio Braziliense, analisa o papel desenvolvido pela imagem na condio de elemento central de intertextualidade, notadamente em referncia ao poema Jos, de Carlos drummond. O exame levado a efeito neste trabalho tem como base terica a Anlise de discurso Crtica, especialmente Fairclough (2001 e 2003), bem como alguns pressupostos da denominada gramtica ou sintaxe visual, na contribuio de Kress e van Leeuwen (1996).

    10. Joana da Silva Ormundo (uNIP/CEPAdIC), em seu artigo A dinmica do uso social dos dirios: on-line analisa o uso de linguagem nos blogs, como uma prtica social e discursiva. O texto tem por base terica Fairclough. A autora trata dos processos interativos e a constituio de uma comunidade discursiva blog conforme a anlise de gnero de Bakhtin e o conceito de comunidade discursiva proposto por Swalles. dentre os resultados obtidos pela autora, esto: a prevalncia inicial de usurios adolescentes foi cedendo

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    espao para usurios mais adultos; a relevncia da mudana das temticas publicadas indica tambm mudana no perfil do produtor e do leitor do gnero blog; e a dinamicidade do uso das linguagens que aparece nos blogs caracterizada por uma escrita multimodal.

    Espero que os leitores recebam excelentes contribuies para seus estudos e investigaes.

    Regina Clia Pagliuchi da Silveira

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    ISBN 978-85-909318-0-5 Apresentao

    parte icaminhoS tericoS

    Clia Maria Magalhes

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    Apresentao ISBN 978-85-909318-0-5

  • percurSoS daS aBordagenS diScurSivaS aSSociadaS LingStica SiStmica FuncionaL

    Clia Maria Magalhes* (UFMG)

    Resumo: So diversas as abordagens consolidadas de anlise lingstica cujo foco de interesse o discurso. Este trabalho se prope a fazer uma reviso das abordagens discursivas que tm como teoria de base a Lingstica Sistmica Funcional (LSF). trata-se de reviso sucinta cujo objetivo mapear as publicaes recentes e mais representativas de tericos destas abordagens de modo a orientar novos interesses de pesquisa nesta rea. A reviso parte de textos fundacionais, focalizando sucintamente alguns dos conceitos bsicos neles abordados, para fazer um mapeamento das escolas inglesas conhecidas como discourse Analysis (dA) e Critical discourse Analysis (CdA) e, finalmente, divulgar um projeto de mapeamento de trabalhos realizados por pesquisadores brasileiros e portugueses em Anlise Crtica do discurso desde a ltima dcada do sculo passado.

    Palavras-chave: Abordagens discursivas; Anlise textual de Base Sistmica; Anlise Crtica do discurso (ACd).

    Abstract: there is a variety of linguistic approaches whose research object is discourse. this paper reviews some of the discourse approaches which stem from Systemic Functional Linguistics (SFL). It is a concise review which aims at mapping the most recent and representative theoretical work in the field. It also intends to guide new research interest in the area in Brazil. the review sets out from foundational texts, focusing on some of their basic concepts to include the English Schools of discourse Analysis (dA) and Critical discourse Analysis (CdA). the review also briefly presents a project which CdA research groups have been carrying out in Brazil and Portugal. this project aims at mapping out research work carried out by Brazilian and Portuguese scholars in the field of CdA from the nineties on.

    Keywords: discourse Approaches; textual (Systemic-Functional) Analysis; Critical discourse Analysis (CdA).

    * Clia Maria Magalhes professora-adjunta de traduo e de Anlise Crtica de discurso na Faculdade de Letras da universidade Federal de Minas Gerais (uFMG). Mestre em Lingstica e doutora em Literatura Comparada pela uFMG, com estgios de pesquisa em university of Nottingham, uK; York university e na university of British Columbia, Canad. tem ps-doutorado em Lancaster university, uK. Em conjunto com Adriana Pagano e Fabio Alves, autora de Traduzir com autonomia: estratgias para o tradutor em formao (Contexto, 2000); organizadora de Competncia em traduo: cognio e discurso (Editora uFMG, 2005). E-mail: [email protected]

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    Parte I Caminhos Tericos Percursos das Abordagens Discursivas Associadas lingstica Sistmica Funcional

    introduo

    Os rtulos abordagens discursivas e, em especial, anlise do discurso (Ad) compreendem escolas tericas e campos de estudo da linguagem os mais diver-sos, abrangendo diferentes grupos de pesquisadores franceses, americanos, ingleses e australianos, para listar apenas aqueles cuja base o pensamento ocidental. Proponho-me, neste artigo, fazer uma reviso terica das abordagens discursivas que tm como teoria de base a Lingstica Sistmica Funcional (LSF), referindo-me a quatro dcadas de publicaes desde a dcada de 1960, no Sculo xx, at os primeiros anos do Sculo xxI. Embora a tentativa seja a de abranger um perodo maior, a reviso a que me proponho sucinta de modo a constituir um mapeamento das referidas abordagens visando orientao de pesquisadores interessados no referido campo de estudo especfico. Vale ressaltar que no levarei em conta as abordagens de estudos da linguagem que so reconhecidas no mbito acadmico anglo-americano, como Anlise da Conversao (AC), Anlise da Narrativa, Anlise de Gnero e Pragmtica, Etnografia da Fala, dentre outras.

    Meu trabalho divide-se em seis sees. Na primeira, abordo o que intitulo de textos fundacionais das abordagens discursivas que tm como base a LSF; na se-gunda, abordo brevemente conceitos bsicos usados nessas abordagens; na terceira, pretendo constituir um mapa dessas abordagens de Ad no mbito internacional, por meio de coletneas de trabalhos editadas e/ou organizadas por autores de renome e que levam o termo discurso no ttulo; na quarta, o propsito fazer uma breve reviso de trabalhos que focalizam a Anlise Crtica do discurso (ACd) como perspectiva relevante dentro da Ad; na quinta, tento configurar um mapa das abordagens contemporneas de Ad que tm como fundamento a LSF, como a Anlise Positiva do discurso (APd), a ACd, a Anlise Multimodal do discurso (AMd) e a Semitica Social Crtica (SSC) e, finalmente, na sexta, termino o artigo descrevendo um projeto interinstitucional que coordeno e cujo objetivo mapear os trabalhos que pesquisadores brasileiros e portugueses tm desenvolvido com base na perspectiva de ACd desde a dcada de 1980 at os anos atuais.

    textos FundacionaisJ h trabalhos no mbito nacional (Pagano, no prelo, dentre outros) que fazem

    uma reviso do trabalho do lingista Michael Halliday, das dcadas de 1960 e 1970, com o propsito de verificar sua contribuio para os Estudos da traduo. tais trabalhos do autor, juntamente com vrios outros, culminaram em sua Introduction to functional grammar, cuja primeira verso publicada em 1985, reeditada em 1994 e revista e aumentada pelo prprio autor e Christie Matthiessen em 2004. dentre essas publicaes, me referirei a duas apenas: o estudo dos recursos coesivos da

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    ISBN 978-85-909318-0-5 Clia Maria Magalhes

    lngua inglesa (HALLIdAY; HASAN, 1976) e a proposta de linguagem como semi-tica social (HALLIdAY, 1978). A primeira desenvolve e legitima a noo de texto como unidade semntica e faz um estudo abrangente dos recursos coesivos da lngua inglesa, apresentando categorias teis para nomear tais recursos e usando exemplos variados de linguagem em uso para esse fim; a segunda apresenta a proposta de Halliday de linguagem como semitica social, meta funcional, usada pelos seres humanos na sociedade para atingir trs funes principais: falar de suas experincias externas e internas do mundo ao seu redor; estabelecer relaes interpessoais na sociedade e organizar a mensagem de modo a poder, com ela, agir e criar sentidos que sero entendidos por seus pares nas diversas instituies sociais das quais participam.

    Outros autores que, com base no trabalho de Halliday, constituem referncia no mbito da Ad inglesa so John Sinclair e Malcolm Coulthard. Estes autores, juntos (SINCLAIR; COuLtHARd, 1975), publicam um estudo da interao em sala de aula, descrevendo a interao oral entre professores e alunos, como unidade de sentido composta por estgios previsveis e provveis; descrio, poca, consi-derada valiosa, ainda que hoje a perspectiva seja a de que representa apenas um tipo de interao de um determinado contexto histrico-cultural da instituio educacional. Coulthard (1977) tambm uma referncia importante para o gru-po de estudiosos que se denominou escola de Ad no contexto ingls. Essa breve reviso j aponta para uma tendncia das abordagens de estudos da linguagem, cuja unidade mnima de anlise deixa de ser a frase e passa a uma unidade maior, de trabalhar, de um lado, com o texto escrito e, de outro, com o discurso oral. O que, de certa maneira, pode ser entendido como uma associao dos conceitos de texto e discurso com os modos escrito e oral da linguagem (ver o captulo 1 de van dIJK, 1997, sobre o sentido dicionarizado da palavra discurso). tratarei, na prxima seo, do uso de conceitos bsicos, como texto e discurso, alm de outros, no mbito dessas abordagens.

    alguns conceitos BsicosComo exposto acima, de um lado, os tericos da Ad inglesa usavam o conceito

    discurso e, conseqentemente, a colocao anlise do discurso, para significar uma unidade maior da linguagem oral em uso e a proposta de abordagem para anlise desta unidade, respectivamente; de outro, usavam o conceito texto e a colocao anlise de texto ou anlise textual para significar uma unidade maior da linguagem escrita em uso e a proposta de abordagem para anlise desta unidade, respectivamente. Era o perodo em que os estudiosos, embora j hou-vesse abordagens dedicadas anlise de outros signos semiticos diferentes da linguagem oral e escrita, concentravam-se na dicotomia oral/escrito, o que resul-

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    tou em vasta produo de trabalhos com descrio dos dois modos da linguagem. duas publicaes que devem ser mencionadas para fazer jus a estes trabalhos so aquelas editadas por Coulthard, Advances in spoken discourse analysis e Advances in written text analysis, em 1992 e 1994, respectivamente. Estas duas obras so colees de artigos que replicam, com sucesso, os procedimentos e tcnicas de Ad e de anlise textual criados por tericos, em sua maioria, com base na lingstica sistmico-funcional hallidayana. tambm devem ser registrados aqui os quatro volumes editados por van dijk na dcada de 1980 e intitulados The handbook of discourse analysis, sobre os quais no me estenderei tendo em vista o objetivo da minha proposta de reviso, de focalizar a ateno em abordagens de discurso que dialoguem com a lingstica sistmica.

    Os conceitos texto e discurso foram sendo usados ao longo destes trinta ou quarenta anos de modo a criar significados diferentes, alm de serem associados a uma gama de outras noes que se fizeram necessrias quando a unidade de interesse dos pesquisadores deixou de ser o texto oral ou escrito, conforme exposto acima. Esta unidade denominada de texto, agora entendido como unidade de significado em que se faz uso de recursos semiticos verbais, orais ou escritos, e no-verbais, como imagens, sons, gestos, dentre outros; analisado como um evento num dado contexto sociocultural e histrico de produo, de distribuio e de con-sumo. importante mencionar que Halliday (1978), em seu modelo de linguagem como semitica social, prope um modelo de descrio da linguagem em uso, abrangendo estratos de nveis diferentes, fonolgico, lxico-gramatical e semntico (este ltimo compreendendo as trs funes que o uso da linguagem pelos seres sociais preenche, as funes ideacional, a interpessoal e a textual). Seu modelo tambm contemplou o contexto social, em dois nveis diferentes, tendo como base o trabalho do antroplogo Malinowski. O primeiro, o contexto especfico de uso da linguagem, denominado contexto de situao e relacionado por Halliday ao con-ceito abstrato de registro que abrange as variveis de campo, relaes e modo, as quais, por sua vez, inter-relacionam-se com as funes do extrato semntico da linguagem. O segundo, o contexto mais amplo das instituies sociais em que a linguagem usada, denominado contexto da cultura. O poder e a ideologia so noes das quais o pesquisador no pode prescindir se pretende descrever o texto de modo a abranger seu contexto de cultura e, para tanto, a noo de gnero (para alguns do texto, para outros do discurso) se faz necessria (ver descries abrangentes de HALLIdAY; HASAN, 1985, sobre registro e gnero).

    Entender gneros como gneros de texto focalizar as convenes mais ou menos estveis historicamente, atribudas aos textos como eventos comunicativos das prticas das instituies sociais de uma dada cultura. J entender gneros como gneros de discurso privilegiar os discursos que so reproduzidos ou que se

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    constroem nos textos. Para desfazer a circularidade desta definio, preciso voltar ao conceito de discurso que, por algum tempo, esteve sempre associado lin-guagem oral nas abordagens de Ad inglesas. A partir do final dos anos 1970, um grupo de lingistas da universidade de East Anglia (ver FOWLER; HOdGE; KRESS; tREW, 1979; KRESS; HOdGE, 1979), afiliados a lingstica sistmico-funcional, e que se denominou lingistas crticos, iniciou um dilogo com tericos de outras reas de estudo, como o filsofo Habermas e, mais tarde, o filsofo Michel Foucault. O contato com esses tericos teve vrios desdobramentos para as abordagens dis-cursivas inglesas, dentre os quais destaco, nesta seo, a revisitao do conceito de discurso que levou a uma distino entre o uso do termo no singular e no plural. discurso, no singular, passa a significar a linguagem em uso (qualquer modo e com qualquer recurso semitico) em seu contexto de situao e de cultura. O termo discursos, no plural, resgata e se apropria do conceito de formaes discursivas de Foucault, significando representaes de mundo com base nas perspectivas socioculturais particulares (ver, ainda, sobre gnero, FAIRCLOuGH, 1989, 1992; KRESS, 1985; HOdGE; KRESS, 1988). tais desdobramentos propiciam a criao de grupos ou escolas de pesquisadores em torno de abordagens de estu-dos da linguagem um pouco diferenciadas, variando o seu objeto de estudo entre discurso e discursos.

    Cumpre, ainda, destacar o conceito de estrato da linguagem, intitulado se-mntica do discurso, de Martin (1992), que, pode-se dizer, renomeia o estrato semntico de Halliday, expandindo-o para alm dos seus componentes, as funes da linguagem, com as categorias de relaes lexicais, estrutura conversacio-nal, referncia e conjuno, cada uma dessas categorias associadas s funes ideacional, interpessoal e textual, respectivamente (sobre semntica do discurso, ver tambm EGGINS, 1994). Segundo Martin, em lugar de organizar um modelo de anlise da linguagem baseado em significados da orao (unidade mnima de anlise do modelo hallidayano) e que contrape gramtica e coeso, seu modelo contrape gramtica e semntica e focaliza os significados no nvel do texto, por isso a necessidade de um estrato denominado semntica do discurso. O autor faz, assim, uma conjuno de dois conceitos semntica e discurso associando-os ao significado do texto como unidade de anlise. de qualquer forma, o termo discurso, conforme usado pelo autor, parece ter uma configurao diferente daquelas que o conceito tm ao ser apropriado pelas escolas de lingistas crticos e analistas crticos do discurso e coincide com uma noo de texto como unidade semntica, mas j apontando para a sua vinculao a gneros.

    Finalmente, vale a pena ressaltar que, ao longo do desenvolvimento das aborda-gens discursivas contemporneas, os analistas tm se voltado para a descrio de gneros e de discursos. Entretanto, h tambm um movimento recente de resgate do

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    conceito de estilo, antes reservado apenas para os gneros literrios e associado a autores, pocas ou escolas literrias. Fowler (1966) j problematiza o conceito conforme utilizado apenas para textos literrios e Leech e Short (1981) instituem a noo de estilo do texto. Mais recentemente, Fairclough (2000, 2003) associa o estilo a traos pessoais de identificao dos usurios de textos. do conceito, conforme usado por Fairclough, van Leeuwen (2005) o expande, fazendo um per-curso interessante pelas noes de estilo individual, estilo social e estilos de vida. de qualquer modo, o movimento interessante medida que dois conceitos, o de gnero e estilo, antes associados apenas aos textos literrios, dessa forma, tornando-os uma classe de textos especiais em relao aos outros, na contempo-raneidade, mostram-se produtivos para a anlise de qualquer outro texto/evento de qualquer outra instituio social, o que parece reforar a proposta de Fowler (1981), da literatura como discurso social como qualquer outro. talvez hoje, na era dos conceitos de discurso(s) e poder, seja o momento de repensarmos a literatura no mais como discurso, mas como instituio social, como a religio, o Estado, a cincia, a mdia e o mercado, para falar apenas das cinco mais proeminentes nas culturas, que teve muito poder com a inveno da imprensa e sua introduo na instituio educacional ocidental e hoje tem seu poder dividido com outras mdias produtoras de outros recursos semiticos. A questo merece mais espao para discusso do que aquele que tenho aqui, neste artigo de reviso terica, por isso, deixo-a, por enquanto, em suspenso.

    No breve resumo acima sobre as concepes diferenciadas dos termos-chave em uso nas abordagens discursivas sobre as quais o foco deste trabalho recai, algumas vezes fiz referncia a escolas e/ou grupos de pesquisadores que foram se constituindo em torno do mesmo objeto de estudo, que varia do texto, passando pelo texto em contexto e chegando ao discurso. Na prxima seo, volto-me para uma breve reviso de coletneas que trazem o rtulo de discurso e que foram publicadas nos ltimos dez anos.

    mapa da pesquisa em ad publicada em Lngua inglesa por pesquisadores de Background inglsMeu propsito nesta seo de reviso bem focalizado. No pretendo me referir

    s inmeras publicaes de autores que se propem a introduzir a proposta de Ad, geralmente intituladas An introduction to discourse analysis. tambm no pretendo fazer referncia a obras como a de Schriffin (1994) ou de Mills (1997) ou, ainda, o de Blommaert (2005), cada qual com sua especificidade de abordagem ao tema. Volto-me para as coletneas, como a de van dijk (1997a, 1997b), Jaworski e Cou-pland (1999) e Schriffin, tannen e Hamilton (2001) que, acredito, constituem por si ss, um mapeamento de trabalhos cujo interesse de pesquisa pode ser considerado

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    como sendo o discurso, embora parta de diversas perspectivas interdisciplinares da lingstica e, simultaneamente, so um marco, ou a legitimao, do campo de estudos no universo do mundo acadmico, pelo menos, aquele que se expressa em lngua inglesa. Volto a frisar que no me proponho, contudo, a focalizar as escolas ou grupo de pesquisadores americanos, embora todas as trs coletneas incluam trabalhos os mais diversos de pesquisadores de lngua inglesa ou no.

    Ao analisar as coletneas editadas por van dijk em 1997, o que primeiro chama a ateno a distribuio dos trabalhos cujo interesse de pesquisa o discurso em dois volumes, cujos ttulos so Discourse as structure and process e Discourse as social interaction. Van dijk parece organizar as diversas contribuies, tomando como base as perspectivas por meio das quais o discurso est sendo abordado, como estrutura e processo e como interao social, incluindo as mltiplas possibilidades de dilogo entre a Ad e outros campos disciplinares da Lingstica. tomando como base as definies dos conceitos contemporneos de discurso(s), acima expostas, pode-se dizer que esses dois aspectos so inerentes ao(s) discurso(s) e que haveria, na organizao dos trabalhos, uma tentativa de reunir os trabalhos de acordo com seu foco de anlise em apenas um dos aspectos, o que perfeita-mente admissvel de acordo com as convenes acadmicas. O primeiro volume cobre trabalhos dentre os quais estudo e histria do discurso, semntica do dis-curso, discurso e gramtica, estilos de discurso, retrica, narrativa, argumentao, gneros e registros do discurso, semitica do discurso, cognio, cognio social e discurso. O segundo cobre pesquisas intituladas como discurso e interao na sociedade; pragmtica discursiva; AC e ao social como prticas de significao; dilogo institucional; gnero social no discurso; discurso, etnia, cultura e racismo; discurso organizacional; discurso e poltica; discurso e cultura; anlise crtica do discurso; anlise do discurso aplicada. Os dois volumes constituem referncia obri-gatria para os interessados no campo da Ad e os artigos ali reunidos constituem ponto de partida para qualquer tipo de abordagem do discurso com as diferentes possibilidades de entrecruzamento de teorias lingsticas.

    O volume Jaworski e Coupland (1999) intitula-se como reader e inclui tericos os quais, por assim dizer, podem ser tomados como precursores dos estudos de discurso, como o filsofo da linguagem Austin, J. L., o lingista Jakobson, R., e o terico e crtico dos estudos literrios, Bakhtin, M. M. O volume tem uma in-troduo em que os autores descrevem as diversas perspectivas da Ad, a partir dos mltiplos significados do conceito discurso. Apesar dessa multiplicidade de conceitos, pode-se dizer que afinal as perspectivas de Ad se renem em torno de trs abordagens: a primeira que toma discurso como qualquer unidade maior que a frase, a segunda como qualquer instncia de linguagem em uso e a terceira como qualquer instncia de linguagem como prtica social. Os autores tambm desta-

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    cam a Ad como interdisciplinar, abrangem as noes de discursos multimodais e multivozeados e chamam a ateno para as camadas de sentido social no discurso, descrevendo brevemente, por fim, as seguintes tradies de Ad: teoria de atos de fala e pragmtica, anlise da conversao, psicologia discursiva, etnografia da co-municao, sociolingstica interacional, anlise da narrativa e anlise crtica do discurso. O volume divide-se em sees temticas voltadas para o foco de interesse dos analistas que contribuem para a coletnea, com introduo explicativa dos editores. A Parte I, intitulada Discurso: significado e contexto, a Parte II, Mtodos e recursos para anlise de discurso, a Parte III, Seqncia e estrutura, a Parte IV, A negociao de relaes sociais, a Parte V, Identidade e subjetividade e, finalmente, a Parte VI, Poder, ideologia e controle.

    Vale a pena observar dois pontos. Primeiro, os autores incluem no volume textos de socilogos como Giddens e Bourdieu e do filsofo Foucault, cujos trabalhos se voltam ou se voltaram para o discurso e tm sido usados como pontes interdiscipli-nares valiosas por analistas do discurso. Segundo, embora muitas das abordagens de Ad partam da LSF, Jaworski e Coupland (1999) no incluem a Semitica Social de Halliday neste reader nem as diversas abordagens de Ad que tm como base a teoria hallidayana. Entretanto, reconhecido na comunidade acadmica internacional e nacional que Halliday elabora sua teoria de linguagem como Semitica Social, integrando noes de trabalhos sociolgicos, como os de Bernstein, de estudos antropolgicos, como os de Malinowski, e da escola de lingistas de Praga, para citar apenas alguns. Essa perspectiva terica de linguagem e sociedade, por si s, j apontaria para a necessidade de incluir o trabalho de Halliday no reader dos autores. Coupland e Jaworski (1997), entretanto, incluem as propostas de Halliday (1978) e de Hodge e Kress (1988), uma expanso da noo de linguagem como Semitica Social para incluir outros recursos semiticos para alm dos verbais, em um reader de Sociolingstica em que, curiosamente, na contribuio de Halliday, de sada, o autor j procure mostrar como seu trabalho se distingue do trabalho dos Sociolingstas.

    Na introduo de Schriffin, tannen, e Hamilton (2001), as autoras tambm partem das trs categorias conceituais que o termo discurso abrange e, con-seqentemente, organizam a publicao com uma gama de perspectivas de Ad. tais perspectivas tm como escopo a gama de questes que a Ad tem procurado descrever, variando de fenmenos lingsticos, passando por fenmenos interdis-ciplinares e chegando at questes sociais, como gnero social e discriminao. As autoras dividem as contribuies do volume em quatro partes. A primeira d uma viso geral das questes especificamente lingsticas para as quais a Ad pode contribuir para resolver, como coeso e textura, relevncia, estrutura da informa-o, anlise de registro, dentre outras. A segunda parte concentra-se nas prticas

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    de anlise, na relao dessas prticas ou metodologias com teorias. A terceira focaliza os contextos de interao em que a linguagem usada e subdivide-se em duas sees: a primeira ressaltando os domnios polticos, sociais e institucionais do uso da linguagem e os papis dos interlocutores nesses domnios; a segunda, embora no deixe de lado tais domnios, concentra-se em descrever o discurso de determinados grupos de pessoas em relao a gneros de discurso, a comunidades e a culturas, em contextos de situao especficos. Finalmente, a quarta e ltima parte, tenta dar conta das relaes de interdisciplinaridade na Ad, de como esta pode se expandir com o contato com outras disciplinas bem como da funo que a Ad pode ter na resoluo de questes de outras disciplinas.

    A preocupao, nesta seo, foi estabelecer uma reviso mnima de trabalhos que se constituem na consolidao e na legitimao do campo de estudos da Ad no mbito acadmico de lngua inglesa. Na prxima seo, volto-me para uma breve reviso de obras que focalizam a ACd como escola de relevo dentro da Ad.

    a acd: teoria, mtodo, escola de ad ou campo de estudos independente?No h, ainda, um reader reunindo trabalhos de ACd, o que pode ser uma

    indicao de que no se trata, ainda, de um campo de estudos independente, mas de escola ou abordagem consolidada dentro da Ad e em destaque na contempo-raneidade. A primeira obra que listo na minha reviso Caldas-Coulthard e Coul-thard (1996). Nesta obra, os editores renem, numa primeira parte, cinco textos de tericos proeminentes das escolas de Lingstica Crtica e de Anlise Crtica do discurso, quatro dos quais tm como base ou fazem largo uso da teoria sistmi-ca hallidayana em sua abordagem discursiva (FOWLER, Roger; KRESS, Gunther; VAN LEEuWEN, theo; FAIRCLOuGH, Norman). Na segunda parte, os editores renem trabalhos cuja prtica a abordagem crtica de textos, dentre eles artigos dos prprios editores e de outros tericos que usam a lingstica sistmica como ferramenta de anlise (con)textual.

    A segunda obra de Wodak e Meyer (2001) que rene trabalhos de autores proeminentes cujos princpios tericos de abordagem de discurso possibilitam con-figur-los como parte de um terreno comum, ainda que seus mtodos de descrio do mesmo objeto de estudo sejam os mais diversos, variando de ferramenta dos estudos cognitivos at as ferramentas de anlise sistmico-funcional. Vale a pena iniciar a leitura deste volume pelos dois artigos iniciais, dos editores. O primeiro deles, de Ruth Wodak, traa o desenvolvimento histrico da LC at tornar-se mais conhecida como ACd, aborda os principais conceitos e faz consideraes sobre os desenvolvimentos desta abordagem. curioso ressaltar as escolhas de itens lexicais,

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    usadas pela autora ao longo do artigo, para definir ou se referir ACd: estas variam de teoria, abordagem, escola, paradigma de Ad, pesquisa, grupo, dentre outras. Para alm da instabilidade na representao da ACd, o que o artigo desenvolve muito bem a noo de que o interesse dos pesquisadores de ACd estabelece-se em torno de questes sociais em que est envolvida a naturalizao de ideologias e abuso de poder e em torno de uma agenda de interveno e mudana social por meio do estudo das instncias de discurso. O segundo, de Michael Meyer, parece reconhecer a dificuldade de nomear a ACd como teoria, mtodo ou poltica devido diversidade de teorias s quais os analistas se afiliam e de mtodos que usam para atingir o seu propsito de anlise. O autor introduz os conceitos de posicionamento ou posio que parecem contemplar a diversidade inerente da ACd sem, contudo, deixar de ressaltar os princpios bsicos e comuns que permitem o mapeamento de um terreno comum para as diferentes abordagens.

    Finalmente, a terceira obra, de Weiss e Wodak (2003), traz uma introduo dos editores com reflexes sobre a formao de teorias em um nvel mais geral e sobre a formao da ACd como teoria multifacetada. Os autores tambm ressaltam a multiplicidade de mtodos usados pelos analistas para abordar suas trs questes de interesse principais: o discurso, a ideologia e o poder. O movimento interdisciplinar da ACd para dar conta destas questes, terminando por propor uma abordagem baseada num conceito de contexto com quatro nveis: o primeiro, de descrio imediata da linguagem; o segundo, de relao intertextual e interdiscursiva entre os textos, gneros e discursos; o terceiro, das variveis extralingsticas sociais relativas aos contextos de situao especficos das instituies onde a linguagem usada e, o quarto, os contextos sociopolticos e histricos em que as prticas discursivas institucionais se encaixam.

    As coletneas de teun van dijk e de debora Schriffin, debora tannen e Heidi Hamilton; o reader de Adam Jaworski e de Nicholas Coupland se preocupam em reunir trabalhos visando configurao e legitimao do campo de Ad, como exposto acima, os quais tm como objeto de interesse quaisquer unidades maiores que a frase e perspectivas as mais variadas em relao a estas unidades. As cole-tneas que focalizam a ACd, dentro, ou talvez j constituindo um espao que se configura para alm da Ad, renem trabalhos de pesquisadores que se interessam pelo discurso como prtica social, que tm um posicionamento comum frente questo do discurso, mas que o abordam a partir das mais diversas combinaes tericas interdisciplanares e usando os mais diversos mtodos de anlise textual. Na prxima seo, volto-me para a reviso de publicaes que se preocupam em reunir trabalhos de Ad que tm afiliao terica explcita com a LSF e que a utilizam, em graus variados, como teoria/mtodo base para atingir seu objetivo acadmico.

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    abordagens discursivas e a SFLNesta seo, pretendo citar, ainda que brevemente, seis obras. Apenas uma

    delas uma coletnea de trabalhos de ACd com base sistmica. As demais so descries de abordagens de Ad que partem da sistmica como teoria/mtodo de anlise textual para expandir seus horizontes de anlise, cada uma definindo muito bem as especificidades do seu terreno dentro do mapa de Ad.

    Inicio com Kress e van Leeuwen (1996) que constroem, a partir da gramtica funcional, uma gramtica do design visual, com foco na anlise de imagens. Em Kress e van Leeuwen (2001) os autores tratam de expandir o que antes denominaram de gramtica para o que chamam de discurso multimodal, focalizando os vrios modos e mdias da comunicao contempornea. As duas obras e vrias outras, que no sero listadas aqui tendo em vista o escopo do artigo, concentram-se, pois, nos mais variados recursos semiticos que reproduzem e simultaneamente ajudam a construir significados no mundo contemporneo das multimdias e so reconhecidas no mundo acadmico como Anlise Multimodal do discurso (AMd) ou teoria da Multimodalidade.

    No ano de 2003, h, pelo menos, trs publicaes de relevo a listar. A primeira de Fairclough (2003), que descreve sua abordagem de linguagem como pesquisa de cunho social, transdisciplinar, com teoria e mtodos prprios, cujo interesse principal o discurso, e que, por isso, tem como base a anlise textual fundamentada na LSF. A segunda de Kress (2003), a qual, com objetivos educacionais, volta-se para questes do letramento, produo e compreenso de textos na escola numa poca em que os textos so cada vez mais multimodais. A proposta do autor inclui um quadro terico para o letramento na escola na era da multimodalidade e da multimdia, com foco numa teoria social de gnero. A terceira Working with discourse: meaning beyond the clause, de Martin e Rose (2003), cuja preocupao a interpretao do discurso social por meio da anlise de textos em contextos sociais. Os autores consideram, de sada, tanto a orao, quanto o texto e a cultura como processos sociais que se desenvolvem em diferentes momentos histricos. Sua proposta , pode-se dizer, uma expanso do modelo de Martin (1992) em direo a uma abordagem hoje j conhecida como Anlise Positiva do discurso (APd), fortemente baseada na anlise de registro, gnero e contexto social. Os autores fecham o livro apresentando as diferenas de posicionamentos de sua abordagem, da AMd e da ACd; entretanto, chamando muito mais ateno para a possibilidade de conexes entre as abordagens.

    Finalmente, antes de fechar esta seo, listo a edio de Young e Harrison (2004) de uma coletnea de artigos cujo interesse de estudo a mudana social. Para abordar suas questes de pesquisa as quais envolvem o(s) discurso(s), os autores ali reunidos fazem uso da escola de ACd que tem como base a teoria da

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    LSF para anlise de textos em contextos sociais. O livro divide-se em trs sees, a primeira dedicada teoria, incluindo variao discursiva, sistemas de avaliao de sentido, representao de poder e base sociolgica para a anlise (con)textual fundamentada na Sistmica; a segunda e a terceira reunindo trabalhos que focali-zam questes de identidade nacional e institucional, respectivamente. Por fim, van Leeuwen (2005) uma obra de introduo Semitica Social crtica que define os princpios semiticos os quais norteiam a abordagem tais como os recursos, a mudana, as regras e as funes (associadas s funes hallidayanas); as dimen-ses da anlise semitica, incluindo discurso, gnero, estilo e modalidade, alm de preocupar-se com recursos de coeso multimodal, como o ritmo, a composio, a ligao de informao e o dilogo.

    At aqui, meu propsito foi traar brevemente um mapa para o campo de anlise do discurso, destacando a LSF como teoria precursora e alimentadora de novas abordagens dentro desse campo, incluindo as abordagens iniciadas ou criadas por pesquisadores, ou de background ingls, ou cuja lngua habitual de publicao seja o ingls, ou ainda outros pesquisadores que no se encaixem nas duas pri-meiras categorias, mas que j tm seus trabalhos aceitos no circuito acadmico internacional. Na prxima e ltima seo, tento explicar brevemente um projeto de mapeamento e referenciao, iniciado por um grupo de pesquisadores brasileiros e portugueses, de trabalhos de pesquisa cujo interesse seja o discurso como prtica social, publicados em Lngua Portuguesa ou Inglesa.

    mapeamento e referenciao de trabalhos de Brasileiros e portuguesesFoi realizado, na unB, em outubro de 2004, o VII Encontro Nacional de Inte-

    rao em Linguagem Verbal e No-Verbal e I Simpsio Internacional em Anlise de discurso Crtica (sendo este o ttulo usado pelo grupo de pesquisadore(a)s da unB que tm promovido o evento h sete anos), com a participao representati-va de pesquisadore(a)s brasileiro(a)s, e de pesquisadores de Portugal, Espanha, Inglaterra e Estados unidos. Neste encontro, ficou evidenciado que, desde a publi-cao, no Brasil, dos primeiros trabalhos de pesquisadoras pioneiras da unB e da uFSC (MAGALHES, I., 1986; CALdAS-COuLtHARd, 1993), usando abordagens de Ad e/ou afiliadas LSF, o nmero de trabalhos de brasileiros e portugueses, orientados e publicados dentro do campo de estudos, em universidades diversas, aumentou consideravelmente. H diversos grupos de pesquisadores brasileiros no contexto nacional, como o exemplo da PuC/SP, da uFSC, da uNISuL, da uFRJ e da uFMG. O grupo de pesquisa da unB edita, h vrios anos, a Revista linguagem e sociedade, com amplo espao para publicaes do campo de estudos em questo,

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    e lana agora o livro Olhares em anlise de discurso crtica, em que ora publico este trabalho. Para citar apenas as coletneas cujo ttulo inclui o rtulo ACd em Lngua Portuguesa, h a coletnea Pedro (1997), dividida em duas partes, a primeira com traduo de textos fundacionais de ACd e a segunda com trabalhos de aplicao da abordagem por pesquisadores portugueses; h, ainda, a coletnea Magalhes (2001), com a traduo de um texto de Norman Fairclough e com aplicaes de abordagens de ACd por professores, doutorandos e mestrandos. Mais recentemente, foram publicados dois volumes especiais de peridicos tematizados como ACd, Caldas-Coulthard e Figueiredo (2004) e Magalhes, I. e Rajagopalan (2005), reu-nindo trabalhos de pesquisadores nacionais, alm de tradues de outros textos escritos originalmente em Lngua Inglesa; e o volume do peridico organizado por Heberle e Meurer (2004), reunindo trabalhos, a maioria de brasileiros, de afiliao terica com a LSF.

    Na reunio de encerramento do Encontro, citado anteriormente, foi lanada a idia de integrarem-se o(a)s pesquisadore(a)s brasileiro(a)s e portuguese(a)s em uma lista de discusso dos termos da rea, com base em textos fundacionais traduzidos no Brasil e em Portugal. tal idia se inspirou no trabalho da equipe da PuC/SP e da universidade de Lisboa, que fez o caminho inverso, criando uma lista de discusso de termos na rea da Lingstica Sistmica, com o fim de padronizar a terminologia e de traduzir a gramtica funcional de Halliday (1985).

    Em 2005, elaborei uma proposta de projeto de mapeamento e de referencia-o cujo objetivo geral o mapeamento do campo de estudos Anlise Crtica do Discurso, dentro do escopo do grupo de pesquisa Corpus discursivo para Anlises Lingsticas e Literrias (CORdIALL), da uFMG. tal projeto focaliza trabalhos de pesquisadores brasileiros e portugueses cujo interesse de pesquisa o discurso como prtica social, que foi acolhido pelos demais grupos de pesquisadores. As abordagens discursivas que o projeto tem em mente so aquelas afiliadas LSF, alm de outras, cujo propsito de anlise possa ser contemplado por sistemas tridimensionais de discurso, representados nas Figuras 1 e 2, abaixo, idealizadas com base em Hodge e Kress (1988) e Fairclough (1992):

    Figura 1 Figura 2

  • 30 Olhares em Anlise de discurso Crtica

    Parte I Caminhos Tericos Percursos das Abordagens Discursivas Associadas lingstica Sistmica Funcional

    Em ambas as representaes, baseadas nos autores citados, possvel distinguir a abordagem de anlise em trs dimenses, as dimenses do texto, gnero e discurso. Na Fig. 1, todo evento em que a linguagem usada como semitica social h uma mensagem que produzida como texto, no plano da mmese, e interpretada como discurso, no plano da semiose; o gnero representa uma dimenso de ligao entre texto e discurso para permitir a interpretao desta ltima dimenso. Para o desenho da Fig. 2, revisitei o quadro tridimensional de Fairclough (1992). Nesta representa-o, o interesse muito mais sociolgico do que semitico, embora no se deixem de lado os recursos semiticos usados para se construir o discurso. Por isso, temos a dimenso do texto; a dimenso da prtica discursiva, o reino das instituies e de seus eventos discursivos que podem ser associados a gneros, e a dimenso da pr-tica social, o reino dos discursos, crenas, ideologias e poder. As representaes de Hodge e Kress e de Fairclough, ao fim e ao cabo, so apropriaes e transformaes do modelo tripartite de Semitica Social de Halliday em que a linguagem (texto) produzida em contextos de situao especficos em contextos de cultura mais abrangentes, para criar representaes e relaes interpessoais por meio de mensagens.

    O projeto de mapeamento do campo de estudos no Brasil e em Portugal tem como metas especficas:

    1. A consolidao de uma lista consensual de termos, elaborada com base em discusses de pesquisadore(a)s da unB, PuC/SP, uFRJ, uNISuL, e uFSC no mbito nacional; do pesquisador Carlos Gouveia, da universidade de Lisboa, e da pesquisadora Carmen Rosa Caldas-Coulthard, da university of Birmingham, no mbito internacional, com base nos subsdios de tradues j existentes para a Lngua Portuguesa. Alguns exemplos da lista de termos traduzidos at ento levantados e que estaro disponveis na lista de dis-cusso no incio do semestre letivo de 2006 so apresentados no Quadro 1, abaixo:

    traduo originalAparelhos Ideolgicos de Estado (AIEs) Ideological State Apparatuses (ISAs)

    Agncia Agency

    Agente Agent

    Agregao Aggregation

    Anacronismo Anachronism

    Anlise da Conversao (AC) Conversation Analysis (CA)

    Anlise de discurso Abrangente Comprehensive discourse Analysis

    Apagamento deletion

    Aspectos de polidez Politeness features

  • Olhares em Anlise de Discurso Crtica 31

    ISBN 978-85-909318-0-5 Clia Maria Magalhes

    Assimilao Assimilation

    Associao Association

    Ator social Social actor

    Autonomizao de enunciado uterrance autonomisation

    Beneficirios Beneficiaries

    Categorizao Categorisation

    Circunstncia de acompanhamento Circumstances of accompaniment

    Circunstancializao Circunstancialization

    Classificao Classification

    Cdigo elaborado Elaborated code

    Cdigo restrito Restricted code

    Quadro 1. Lista bilnge de termos em ACd.

    2. A compilao de resumos de dissertaes, teses e artigos acadmicos de pesquisadore(a)s do Brasil e de Portugal no campo da ACd, com base nas quais ser gerada uma lista de termos que sero associados aos temas de interesse dos referidos pesquisadores.

    3. A criao de um banco de dados, a ser sediado pela FALE/uFMG, com um diretrio constitudo pelos resumos e abstracts compilados, a lista de pa-lavras-chave norteadora dos trabalhos de pesquisadore(a)s brasileiro(a)s e portuguese(a)s e um diretrio de textos que venham a ser publicados com base no trabalho de mapeamento realizado e autorizados para divulgao na pgina do projeto http://net.letras.ufmg.br/acd/. Conforme exposto acima, j contamos com os peridicos e coletneas citadas, dentre outras publicaes cujos resumos e termos sero referenciados.

    consideraes FinaisRetomando a introduo deste trabalho, creio que os propsitos ali descritos

    foram atingidos, pelo menos, dentro do escopo pretendido. Concentrei-me, em primeiro lugar, nos textos fundacionais de Halliday e de outros seguidores de sua teoria que contriburam para difundir e criar escolas de anlise do discurso baseadas na LSF; fiz uma rpida descrio dos conceitos principais norteadores dessas escolas; fiz uma breve reviso de coletneas publicadas com trabalhos em Ad no mbito acadmico de Lngua Inglesa; parti dessa reviso para apresentar, de forma sucinta, algumas coletneas que tm se concentrado na ACd como tema e, ainda, abordagens de discurso de pesquisadores contemporneos que tm como teoria e mtodo de anlise textual a LSF. Por fim, relatei o esforo conjunto de pesquisadores brasileiros e portugueses para iniciar o projeto de mapeamento e referenciao dos trabalhos produzidos por seus grupos de pesquisadores, o qual

  • 32 Olhares em Anlise de discurso Crtica

    Parte I Caminhos Tericos Percursos das Abordagens Discursivas Associadas lingstica Sistmica Funcional

    est em andamento e tem previso para terminar ao final do ano de 2006. Como todo trabalho de reviso terica, o propsito contribuir com os demais pesquisa-dores que se interessam pelo discurso com base nas perspectivas citadas, fazendo referncia a trabalhos e a termos-chave dessas perspectivas. Alm disso, gostaria de atingir o objetivo subsidirio de incentivar tais pesquisadores a participar do projeto de mapeamento dos trabalhos brasileiros, incluindo no banco de dados os seus resumos e abstracts e participando da lista de discusso dos termos traduzidos para o portugus.

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  • Olhares em Anlise de Discurso Crtica 35

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  • parte iidiScurSo e identidade

    Francisca Cordlia Oliveira da Silva

    Georgina Amazonas Mandarino

    Walkyria Wetter Bernardes

  • o uSo de metForaS e a conStruo de identidadeS tnicaS

    Francisca Cordlia Oliveira da Silva* (UnB)

    Resumo: O artigo trata de metforas usadas em textos sobre cotas para negros nas universidades brasileiras e do modo como essas metforas so usadas para constituir as identidades dos negros. As expresses metafricas, em sua maioria, traduzem idias de inferioridade da etnia negra e expressam ideologias naturalizadas em nossa sociedade.

    Palavras-chave: Negros; Metforas; Identidades; Anlise de discurso Crtica (AdC).

    Abstract: the text deals with used metaphors in texts on quotas for blacks in the Brazilian universities and the way as these metaphors are used to constitute the identities of the blacks. In its majority, the metaphorical expressions translate ideas of inferiority of the black etnia and express ideologies naturalized in our society.

    Keywords: Blacks; Metaphors; Identities; Critical discourse Analysis (CdA).

    apresentao de idias

    As sociedades estruturam-se partindo de idias que parecem naturais e que parecem surgir do nada (ou de tudo) e que, por isso, geralmente, no so questionadas. A ideologia uma dessas idias e sua manifestao ocorre por meio de vrias estratgias, como as metforas.

    Constituir-se como sujeito, ter e assumir identidades no tarefa fcil, j que implica aceitao e, algumas vezes, rejeio. Quando o sujeito pertence ao grupo social majoritrio, pode enfrentar barreiras e ter uma de suas identidades questiona-da. Entretanto, ao pertencer a um grupo minoritrio, poder encontrar barreiras em vrios momentos de sua constituio como sujeito. Surge dessa construo social

    * Graduada em Letras, Mestre em Lingstica e doutoranda em Lingstica pela universidade de Braslia. Atualmente ministra cursos de Graduao e de Ps-Graduao na rea de Lngua Portuguesa. E-mail: [email protected]

  • 40 Olhares em Anlise de discurso Crtica

    Parte II Discurso e Identidade O Uso de Metforas e a Construo de Identidades tnicas

    desigual a necessidade de pesquisar a construo da identidade de grupos minori-trios, como negros e seus descendentes, objetivo desse artigo. Essas identidades sero investigadas por meio das metforas expressas em textos sobre o projeto de cotas para negros nas universidades brasileiras. O corpus analisado circulou na Internet nos momentos iniciais de debate sobre as cotas.

    A anlise empreendida responder aos seguintes questionamentos:

    que metforas so usadas em relao aos negros nos textos analisados?

    que identidades sociais essas metforas constroem para os negros?

    que ideologias so reificadas com essas metforas?

    Como resultados, sero verificadas identidades socialmente enfraquecidas, estigmatizadas, discriminadas, e o negro sendo representado como ser inferior, submisso, subalterno e dominado.

    O trabalho trata de uma perspectiva que se abre sobre a questo tnica no Brasil e das relaes identitrias e tnicas motivadas por questes histricas, por isso provoca reflexes, ideologias naturalizadas.

    dos caminhos terico-metodolgicosPara empreender a anlise e responder s questes propostas, alguns marcos

    tericos precisam ser balizados: o conceito de identidades, de ideologias, de me-tforas e de Anlise de discurso Crtica (AdC).

    a anlise de discurso crtica (adc): um caminho a percorrer

    A AdC apresenta vertentes crticas e no-crticas. Vieira (2002, p. 148) salienta que os analistas do discurso, crticos ou no, tm em comum o fato de defenderem a insero da linguagem em contextos sociais. Na perspectiva crtica, Fairclough (2001) prope o uso da linguagem como prtica social. Para tanto, devemos con-siderar que:

    o discurso um modo de ao e um modo de representao;

    o discurso e a estrutura social tm relao dialtica;

    o discurso moldado pela estrutura social;

    os eventos discursivos variam segundo o domnio social em que so gera-dos;

    o discurso contribui para a constituio das dimenses da estrutura social;

    o discurso uma prtica de representao e de significao do mundo.

  • Olhares em Anlise de Discurso Crtica 41

    ISBN 978-85-909318-0-5 Francisca Cordlia Oliveira da Silva

    Para van dijk (1997, p. 15-17), a AdC um planejamento especial destinado a estudar os textos orais e escritos. uma rea que apresenta princpios, prticas, teorias e mtodos de difcil delimitao. O autor apresenta alguns critrios que caracterizam a AdC:

    trabalha mais com problemas socias relevantes que com paradigmas;

    um posicionamento ou postura explicitamente crticos para estudar texto escrito e falando;

    trabalha inter e multidisciplinarmente com a relao entre discurso e socie-dade;

    parte de amplo aspecto de estudos crticos sobre a humanidade e as cincias sociais;

    no se limita ao estudo de discursos verbais;

    centra-se nas relaes de poder, de dominao e de desigualdade e em suas formas de reproduo ou de resistncia;

    trabalha as estruturas e as estratgias discursivas de dominao e de resis-tncia;

    estuda a ideologia e como ela reproduz a resistncia, a dominao e a desi-gualdade;

    busca descobrir e divulgar as relaes de dominao e as estratgias de ma-nipulao, de legitimao e de criao de consenso;

    uma postura de oposio ao poder e s elites;

    mantm postura solidria com relao aos grupos dominados.

    Pedro (1998, p. 23) corrobora o pensamento de van dijk (1997) ao apontar que a AdC trabalha com a inteleco de textos social e culturalmente situados e tambm com a ateno a aspectos sociais, co-textuais e culturais que permitem a garantia de categorias de explicao para a descrio de textos.

    Para Pedro (1998, p. 27-28), a AdC caracteriza-se pelos seguintes critrios:

    entender a linguagem como a mais importante prtica social;

    entender o texto como resultado da ao dos falantes e escritores socialmente situados, considerando as possibilidades de escolha que esses possuem, e o poder e a dominao implcitos nessas escolhas;

    considerar que os participantes na produo dos textos desempenham papis desiguais;

    prever que os significados veiculados nos textos dependem da interao;

    mostrar que os traos lingsticos so motivados socialmente;

    entender que a linguagem tem carter histrico;

  • 42 Olhares em Anlise de discurso Crtica

    Parte II Discurso e Identidade O Uso de Metforas e a Construo de Identidades tnicas

    empreender anlises baseadas na materialidade lingstica.

    Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 3) reforam a importncia da perspectiva crtica da linguagem na contemporaneidade e tratam do conceito de modernidade tardia, que envolve uma srie de mudanas sociais, polticas e econmicas que afeta as sociedades. traam uma verso para a AdC batizada como sntese mutante de outras teorias, a qual enfatiza o discurso como elemento semitico de prtica social, alm de proporcionar uma crtica coerente da sociedade na modernidade tardia e suas transformaes, apontado na direo de uma complementao entre a pesquisa social crtica e a AdC (MAGALHES, 2001, p. 27). Ademais, os autores apresentam a AdC como teoria e como mtodo de anlise das prticas sociais, o que a diferencia das demais pesquisas sociais crticas.

    Mais recentemente, Fairclough (2003, p. 3) aborda a linguagem como parte irredutvel da vida social, no entanto esclarece que no devemos reduzir a vida social linguagem, nem pensar que tudo discurso, mas entender que a pesquisa social tem a linguagem como foco e usa a AdC como mtodo. Alm disso, reitera que a anlise de textos essencial para a rea, uma vez que esses so eventos sociais que geram mudanas em nossas crenas, atitudes, valores (FAIRCLOuGH, 2003, p. 8). Fairclough (2003) prope-se a fornecer uma estrutura que seja til s pessoas envolvidas com as cincias sociais e humanas, de modo a sugerir como desenvolver anlises de lngua e como melhorar as pesquisas sociais.

    Fairclough, na mesma obra, oferece, ainda, introduo s anlises sociais de fala e de escrita, por considerar significativo o movimento em direo a estudos da lngua. Mas acredita que esses tm duas limitaes: temas e tpicos de alcance limitado. O autor pretende mostrar como um conjunto de anlises lingsticas pode ser usado para investigar diversos temas de interesse dos estudos sociais.

    Alguns pontos sobre AdC foram apresentados por serem essenciais para a anlise a ser empreendida, uma vez que essa ferramenta terica e analtica sustentar a anlise. Interessa, especialmente, a noo de discurso como prtica social, saber que o discurso no neutro, que produto de situao histrico-social e produz situao, tambm, histrica e social o discurso molda a sociedade e moldado por ela.

    das identidades sociais

    Para pesquisar e compreender como a identidade tnica tem sido construda no Brasil, preciso entender o que identidade, qual a sua importncia para os indivduos e para as coletividades sociais. Vrias linhas de estudo procuram des-velar os meandros das identidades, buscando entend-los e explic-los, mas no tm tido tarefa fcil.

  • Olhares em Anlise de Discurso Crtica 43

    ISBN 978-85-909318-0-5 Francisca Cordlia Oliveira da Silva

    Para entender alguns aspectos do conceito, principalmente sua relao com o estabelecimento e a manuteno de identidades tnicas, uma pesquisa terica voltada para o conceito de identidades ser apresentada, bem como sua relao com as identidades tnicas.

    Silva (2000, p. 74) entende identidades como simplesmente aquilo que se . Elas estabelecem-se principalmente por meio de diferenas, pois, para o autor, os conceitos identidades e diferena tm relao direta, so inseparveis, alm de serem social e culturalmente construdos por meio de atos de linguagem.

    Para torre (2002, p. 27), o conceito de identidades est relacionado com igualdade e com diferena, com a possibilidade de identificar-se ou no. Para a autora:

    ... quando se fala da identidade de algo, faz-se referncia a processos que nos permitem supor que uma coisa, em um momento e contexto determinados, ela mesma e no outra coisa (igualdade relativa consigo mesma e diferena tambm relativa com as outras), que possvel sua identificao e incluso em categorias e que tem uma continuidade (tambm relativa) no tempo.

    Salienta, ainda, torre (2002, p. 28) outra particularidade do conceito: as identi-dades podem ser consideradas em funo de fronteiras e limites, de igualdades e de diferenas que s tm sentido em determinado contexto. tal fato ocorre, por exemplo, quando as fronteiras e os limites, entre brancos, ndios e negros, so fixados de modo diferenciado em cada contexto cultural. Algumas culturas vo estabelecer limites rgidos, com separaes bem marcadas de ambientes e papis; e outras, no.

    No mundo contemporneo, essas fronteiras esto cada dia mais fluidas, em funo das crises de identidades que caracterizam a ps-modernidade e das rpi-das mudanas sociais que afetam as identidades sociais. Nesse sentido, torre, na mesma obra (p. 29), aponta que os limites no so sempre essenciais, estveis ou totalmente objetivos, mas quase sempre relativos, cambiantes, emergentes e socialmente construdos. Alm disso, eles podem ser mais ou menos objetivos e reais ou mais ou menos subjetivos.

    As identidades podem ser entendidas ainda como o elemento que d ao indivduo um carter de continuidade e que mantm um nvel de integridade que o ajuda a se diferenciar dos outros e a manter a estabilidade por meio de circunstncias diversas, de transformaes e de trocas.

    Seguindo outro ponto de vista, Woodward (2000, p. 38) aponta que as identi-dades podem ser entendidas como um ncleo essencial que distingue um grupo do outro; ou como a interseco de diferentes componentes (polticos, culturais e histricos). Para a autora, erroneamente, as identidades so vistas como fixas e mveis, como construto imutvel. Corrobora o pensamento da autora o fato de as identidades serem produzidas em momentos particulares no tempo.

  • 44 Olhares em Anlise de discurso Crtica

    Parte II Discurso e Identidade O Uso de Metforas e a Construo de Identidades tnicas

    torre (p. 29), indo ao encontro do pensamento de Woodward, afirma que as identidades no so para sempre, e que a diferena ocorre com relao aos outros e com relao a elas mesmas, devido s transformaes no tempo. Assim, para a autora, a continuidade e a ruptura so dimenses fundamentais das identidades, uma vez que trocas e mudanas sempre esto acontecendo.

    Importa, ainda, pensar nas dicotomias ou nas oposies binrias que a construo das identidades pressupe, pois as identidades so estabelecidas pela constatao de diferena, que ocorre por meio de sistemas simblicos de representao, de excluso social e de oposio de um grupo a outros (WOOdWARd, 2000, p. 39).

    um ponto consensual entre os pesquisadores que as identidades no so um processo acabado, elas esto, por meio da linguagem, em constante construo e reconstruo. Assim, a linguagem constitutiva do ser humano. E as identidades s adquirem sentido pela linguagem e pelos sistemas simblicos que as representam (WOOdWARd, 2000, p. 8).

    O ltimo ponto a observar que as identidades no so unificadas, so frag-mentadas e nelas podem ocorrer contradies, com as quais o sujeito precisa lidar, aprendendo a negociar as diferentes identidades que exerce. Esses conflitos de identidade podem desencadear crises de identidade, que se relacionam com a fluidez dos papis que desempenhamos ou tentamos desempenhar. Woodward (2000, p. 19-20) aponta que as identidades passam por crises que afetam o mbito pessoal, o local, o global e o poltico.

    As identidades so, ainda, conceitos culturalmente definidos, pois cada cultura produz identidades individuais e sociais especficas. Essas representaes incluem as prticas de significao e os sistemas simblicos, que produzem significados e posicionam os sujeitos. Na modernidade, elas so perpassadas por fatores comuns motivados pela Globalizao, que, alm de produzir novas identidades, provoca mudanas nas existentes.

    Quanto s identidades tnicas e culturais, elas formam-se e transformam-se pela atribuio de etiquetas e do discurso narrativo prprio, em que as elites polticas podem desempenhar um papel decisivo (CHAVEZ, 2002, p. 47). Para corroborar esse ponto de vista, West (2002, p. 9) aponta que o repdio s minorias, diretamente ligado ao discurso tnico, secularmente manifestado pelas classes hegemnicas, que tratam os membros das minorias como sendo seres degradados, odiados, opri-midos, explorados, marginalizados e desumanizados.

    Alm disso, as ideologias da supremacia branca atacam a inteligncia, a bele-za, a capacidade e o carter do negro, que precisa fazer esforos persistentes para reagir a essa construo social que ocorre por meio do discurso (WESt, 2002, p. 10). As prticas de supremacia branca, sustentadas pelas autoridades culturais da

  • Olhares em Anlise de Discurso Crtica 45

    ISBN 978-85-909318-0-5 Francisca Cordlia Oliveira da Silva

    igreja, pela mdia e pelos meios cientficos, promoveram a inferiorizao do negro e constituram-se em pano de fundo que levou s lutas dos negros por sua identidade (respeito, confiana e estima) e por recursos econmicos.

    Assim, as identidades culturais, nacionais, tnicas e sexuais so construdas por meio de smbolos de unidade cultura comum, linguagem, gnero. tais elementos, ao mesmo tempo que agrupam os indivduos, tambm os dispersam, evidenciando suas diferenas (KOuNdOuRA, 2002, p. 16). Ao Concordar com esse ponto de vista, que pretendo verificar como metforas usadas em textos sobre cotas nas universidades ajudam a construir as identidades tnicas do negro no Brasil.

    da ideologia

    A ideologia um aspecto essencial para o entendimento da construo e da representao das identidades. Entender o conceito de ideologia no fcil, tanto que Eagleton (1997, p. 15) afirma que a palavra ideologia , por assim dizer, um texto, tecido com uma trama inteira de diferentes fios conceituais; traado por divergentes histrias. Entretanto, ao pesquisar identidades, impossvel fugir do conceito de ideologia. Por isso, breve discusso sobre ela ser apresentada.

    O termo ideologia apareceu, em 1801, citado por destutt de tracy. O autor pretendia elaborar a cincia da gnese das idias, tratando-as como fenmenos naturais que exprimem a relao do corpo humano, enquanto organismo vivo, com o meio ambiente (CHAuI, 2001, p. 25).

    Mais tarde, Marx (apud CHAuI, 2001, p. 25) afirma que idelogo aquele que inverte as relaes entre as idias e o real. Atribui Marx ao termo sentido negati-vo, de cincia fora da realidade e postula que ela n