Logica Juridica

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Chaim Perelman

Text of Logica Juridica

  • LGICA JURDICA Nova Retrica

    Chaim Perelman Professor da Universidade de Bruxelas

    Traduo VERGNIA K. PUPI Reviso de Traduo

    MARIA ERMANTINA GALVO Reviso Tcnica

    DR. GILDO RIOS

    Martins Fontes So Paulo 2000

  • Esta obra foi publicada originalmente em francs com o ttulo LOGIQUE JURI DI QUE por dittons Dalloz-Sirey. Paris.

    Copyright 979. ditions DaUo:. 31-35, rue Eroidevaux, 75685 Paris Cedex 4 Erana.

    Copyright 1998, Livraria Martins Fontes Editoro Lida-, So Paulo, para a presente edio.

    V edio outubro de 1998

    3 e t iragem novembro de 2000

    Traduo VERGINIA K- PUPl

    Reviso tcnica Dr. Gildo S Leito Rios

    Reviso da traduo Maria Ermanlina Galvo

    Reviso grfica Solange Martins

    Sandra Rodrigues Garcia Produo grfica

    Geraldo Alves Paginao/Fotolitos

    Studio 3 Desenvolvimento Editorial (6957-7653)

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Perelman, Chaim Lgica jurdica : nova retrica / Chaim Perelman ; traduo de

    Verginia K. Pupi. - So Paulo : Martins Fontes, 1998. - (Ensino superior)

    Ttulo original: Logique juridique. Bibliografia. ISBN 85-336-0959-0

    1. Direito - Metodologia 2. Processo judicial-Frana3. Semntica (Direito) I. Ttulo. II. Srie.

    98-3847 C D U - 3 4 0 4

    ndices para catlogo sistemtico: 1. Direito : Metodologia 340.1

    Todos os direitos para a lngua portuguesa resenados Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

    Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 01325-000 So Paulo SP Brasil

    Tel. (11)239-3677 Fax (11) 3105-6867 e-mail: info@martinsfontes.com

    http :i'/www.martinsfontes.com

    ndice

    Introduo (n.s 1 a 14) 1

    PRIMEIRA PARTE

    TEORIAS RELATIVAS AO RACIOCNIO JUDICIRIO, SOBRETUDO EM DIREITO CONTINENTAL,

    DESDE O CDIGO DE NAPOLEO AT NOSSOS DIAS(n. s15a48)

    Captulo I - A escola da exegese (n.s 16 a 30) 31 Captulo II - As concepes teleolgica, funcional e

    sociolgica do direito (n.s 31 a 36) 69 Captulo III - O raciocnio judicirio depois de 1945

    (n.s37a48) 91

    SEGUNDAPARTE

    LGICA JURDICA E NOVA RETRICA (n.s 49 a 98)

    Captulo I - A nova retrica e os valores (n.s 51 a 70).... 141 Captulo II - A lgica jurdica e a argumentao (n.s 71

    a 98) 183

    Bibliografia 245 ndice remissivo 253

  • Introduo

    1. A palavra "raciocnio " designa tanto uma atividade da mente quanto o produto dessa atividade. A atividade mental de quem raciocina pode ser objeto de estudos psicolgicos, fisiolgicos, sociais e culturais. Estes podero revelar as in-tenes, os mbeis de quem elaborou um raciocnio, as influncias de toda espcie que ele sofreu e que permitem situar o fenmeno em seu contexto. Mas o raciocnio, como produto desta atividade intelectual, pode ser estudado inde-pendentemente das condies de sua elaborao: sero exa-minados o modo como foi formulado, o estatuto das premissas e da concluso, a validade do vnculo que as une, a estrutu-ra do raciocnio, sua conformidade a certas regras ou a cer-tos esquemas conhecidos de antemo: este exame pertence a uma disciplina que chamamos tradicionalmente de lgica.

    A anlise dos raciocnios explicitamente formulados em determinada lngua foi empreendida, de modo sistemtico, pelo Organon de Aristteles, que distingue os raciocnios ana-lticos dos raciocnios dialticos.

    Os raciocnios analticos so aqueles que, partindo de premissas necessrias, ou pelo menos indiscutivelmente ver-dadeiras, redundam, graas a inferncias vlidas, em con-cluses igualmente necessrias ou vlidas. Os raciocnios analticos transferem concluso a necessidade e a verdade das premissas: impossvel que a concluso seja falsa, se o raciocnio foi feito corretamente, a partir de premissas cor-

  • 2 LGICA JURDICA

    retas. O padro do raciocnio analtico era, para Aristteles, o silogismo, enunciado pelo clssico esquema: "Se todos os B so C e se todos os A so B, todos os A so C." Notemos que esse raciocnio vlido quaisquer que sejam os termos colocados no lugar das letras "A", "B" e "C".

    A validade da inferncia em nada depende da matria so-bre a qual raciocinamos, pois esta pode ser tirada dos mais diversos domnios do pensamento: a prpria forma do racio-cnio que lhe garante a validade. A lgica que estuda as infe-rncias vlidas, graas unicamente sua forma, chama-se lgica formal, pois a nica condio que ela requer para garan-tir a verdade da concluso, no caso de serem verdadeiras as premissas, que os smbolos "A", "B" e "C" sejam substitu-dos, sempre que se apresentem, pelos mesmos termos. Do mesmo modo, em lgebra, a verdade da equao "x = x" pres-supe que se substitua a letra "x" pelo mesmo valor numrico.

    2. Os raciocnios dialticos que Aristteles examinou nos Tpicos, na Retrica e nas Refutaes sofisticas se refe-rem, no s demonstraes cientficas, mas s deliberaes e s controvrsias. Dizem respeito aos meios de persuadir e de convencer pelo discurso, de criticar as teses do advers-rio, de defender e justificar as suas prprias, valendo-se de argumentos mais ou menos fortes.

    Em que os raciocnios dialticos diferem dos racioc-nios analticos e do silogismo dialtico, chamado entimema, do silogismo rigoroso da lgica formal? Aristteles nos diz que no entimema no so enunciadas todas as premissas -subentende-se que so conhecidas ou aceitas pelo auditrio - e aquelas em que nos fundamentamos seriam apenas verossmeis ou plausveis: a estrutura do raciocnio dialti-co seria, quanto ao resto, a do silogismo.

    Esta ltima afirmao parece, primeira vista, inconci-livel com sua afirmao de que a funo do discurso per-

    INTRODUO 3

    suasivo levar a uma deciso1. Com efeito, a estrutura da argumentao que motiva uma deciso parece muito dife-rente da de um silogismo pelo qual passamos das premissas a uma concluso. Enquanto no silogismo a passagem das premissas concluso obrigatria, o mesmo no acontece quando se trata de passar dos argumentos deciso: tal pas-sagem no de modo algum obrigatria, pois se o fosse no estaramos diante de uma deciso, que supe sempre a pos-sibilidade quer de decidir de outro modo, quer de no deci-dir de modo algum.

    3. Como j demonstrei noutro trabalho2, h sempre um meio de transformar uma argumentao qualquer em um silogismo, acrescentando-se uma ou vrias premissas suple-mentares.

    Suponhamos um argumento que julgue um homem a par-tir de seus atos: este homem corajoso porque, em dada situa-o, comportou-se corajosamente; aquele outro covarde, por-que comportou-se como covarde. Nada mais fcil do que trans-formar tais argumentos, em princpio contestveis, em um silo-gismo cuja premissa maior seria: todo homem possui a quali-dade que no hesitamos em atribuir a determinado ato seu. Mas quem no v que essa premissa maior seria, em toda a sua ge-neralidade, mais contestvel do que o argumento utilizado em um caso particular, pois algum que se comportasse uma vez corajosamente e outra vez covardemente deveria ser qualifica-do de corajoso e de covarde, o que nos levaria a uma inevitvel contradio. Em contrapartida, o uso de argumentos, em senti-dos opostos, nos obrigaria a pesar o valor de cada um deles e a chegar a uma posio mais matizada e razovel.

    1. Retrica, II, 18 (1391 b 8) 2. Cf. Ch. Perelman, "Le raisonnement pratique". La philoso-

    phie contemporaine, La Nuova Italia, Florena, vol. 1, pp. 168-176.

  • 4 LGICA JURDICA

    O que ganhamos ao transformar num silogismo, que pode redundar numa contradio, uma argumentao no coerciva, mas que permite justificar com boas razes uma opinio plausvel, a no ser a satisfao bastante pueril de demonstrar que possvel reduzir ao mesmo esquema silogs-tico todos os argumentos, quaisquer que sejam? O raciocnio dialtico, o argumento que justifica pelos seus atos a qualida-de atribuda ao agente, argumento sujeito a controvrsias, no foi transformado unicamente por causa de sua forma em um silogismo analtico, que escapa a qualquer discusso: ao con-trrio, a premissa acrescentada, por sua generalidade e rigi-dez, leva a uma concluso contraditria um argumento que no desprovido de valor quando manejado com prudncia. Inevitavelmente, a controvrsia referente fora do argumen-to, que liga a qualidade da pessoa dos seus atos, se transfor-mar em um debate referente verdade da maior acrescenta-da, sem a qual a argumentao no poderia ter-se tornado demonstrao, formalmente correta, mas praticamente inuti-lizvel. No ser muito difcil demonstrar a falsidade dessa maior, conseqncia do fato de se ter tratado um argumento plausvel, mas no-coercivo, como uma verdade universal. Ao querer reduzir um argumento qualquer a um esquema for-malmente vlido, s se pode pr em evidncia sua insuficin-cia. Mas, no por no ser uma demonstrao formalmente correta que uma argumentao deixa de ter valor.

    4. Ora, num reducionismo desses, que nega todo inte-resse ao argumento no-coercivo, que nos arriscamos a cair, se consideramos a lgica jurdica "a parte da lgica que exa-mina, do ponto de vista formal, as operaes intelectuais do jurista"3. Alis, foi o que no deixou de se dar no pensamen-to do professor Ulrich Klug, autor de um clebre tratado de

    3. G. Kalinowski, Introduction la logique juridique,,!,- G. D. J., Paris, 1965, p. 7.

    INTRODUO 5

    lgica jurdica, que no hesita em escrever: "Argumenta-se sempre, ou seja, infere-se. Utilizam-se nesse caso as leis l-gicas apropriadas de modo inconsciente ou, ao menos, sem refletir."4 No exato dizer que toda argumentao apenas inferncia, no sentido de deduo efetuada de acordo com regras preestabelecidas.

    Em contrapartida, estou de acordo, mas com uma restri-o que no deixa de ter importncia, com as concluses do artigo de Kalinowski, que deu origem controvrsia sobre a existncia da lgica jurdica: "No h, em nosso entender, seno uma lgica: a lgica pura e simples (pura e simples tom