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Lona 810 (Especial Leminski)

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JORNAL-LABORATÓRIO DIÁRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE POSITIVO.

Text of Lona 810 (Especial Leminski)

  • lona.redeteia.com

    EntrevistaA jornalista Aurea Leminski, filha

    do poeta, d entrevista exclusiva para o Lona.

    Edio EspEcialCuritiba, agosto de 2013 Edio 810

  • 2 ESPECIAL LEMINSKI

    Vou confessar uma coisa a voc antes de ser defenestrado: nunca fui adaptado ao universo de Pau-lo Leminski. Como a minha trajetria de oposio no mui-to profunda, sequer escreve um conto de Marcelino Freire alis, se puderem, leiam Da Paz, verti-gem e calamidade em altas dosagens apcri-fas , direi em breves tpicos o que me in-comoda na obra deste judoca e interessante compositor.[De sua obra musical, gosto especialmente de Luzes essa noite vai ter sol e de sua verso para Polonaise choveram lgrimas lmpidas, lgrimas ininterruptas , como se v, nada de muito incrvel, mas bonito.]1. DesacordoUm leitor, sobretu-do, um amante. Lem-bro-me de meu terror amoroso diante de minha primeira leitu-ra de Jlio Verne, aos sete anos. Era como se estivesse diante de mim um ciclone, co-locando tudo abaixo. Tive a mesma febre do rato quando co-nheci quase caniba-listicamente Charles

    Bukowski, Rubem Braga, Fernando Pes-soa e Adlia Prado. Ainda na adoles-cncia tive contato com os primeiros jo-grais literrios de Le-minski. Lembro-me de ter gostado. Al-guns at enviei para amigos. Outros escre-vi no caderno. Mas sabe aquela moa que a gente se encanta e quer conhecer bibli-camente? Ento, Le-minski no me impele ao corpo do texto, ao tero potico.Entro nele, rasgo-o e retorno do mesmo ta-manho. Por favor, no faa nenhuma aluso s prostitutas. Tenho maior respeito e ad-mirao por elas.2. TrucoEscrevo crnicas de baixo calibre h mais de dez anos. Por que estou a navegar ma-res to inexpressivos? Simples: escrever tem algumas boas doses de truque. Por exem-plo, j devo ter escri-to aproximadamente 213 crnicas articu-listas sobre a minha relao umbilical com Jlio Verne. um ti-que. Entrevista: como voc comeou a ler? Jlio Verne. O que literatura pra voc?

    Jlio Verne. O que as manifestaes por todo o Brasil dizem de nosso esprito cvi-co? Jlio Verne, Jlio Verne, Jlio Verne.Somos, em larga es-cala, uma repetio de nossos amores e dores, sertanejistica-mente falando. O que Leminski faz? Ele tem um baralho diferen-ciado, um baralho de

    muitas cartas, ele at combina estas car-tas de modo surpre-endente. Ento, ele truca. s vezes, a sua

    poesia casal maior, muitas vezes ble-fe, uma sucesso de jingles publicitrios, mgica para leitores de um livro ao ano, gente que mais gosta de dizer que gosta de poesia do que real-mente gosta de poe-sia. Entendeu?Entretanto, devo con-siderar que ele tem um castelinho, sim,

    que volto para visitar todo vero. esta po-esia aqui, que nunca sei se se chama Um homem com uma dor

    ou Dor Elegante. Sei que j me disseram inmeras vezes e por diversas vezes esque-ci. Porque memria tambm teso, a lembrana do corpo da mulher perdida:

    um homem com uma dor

    muito mais elegantecaminha assim de ladocomo se chegando

    atrasadoandasse mais adiante

    carrega o peso da dorcomo se portasse me-

    dalhasuma coroa um milho

    de dlaresou coisa que os valha

    pios dens analgsi-cos

    no me toquem nessa dor

    ela tudo o que me so-bra

    sofrer vai ser minha ltima obra

    Mas no se anime. O poema j foi at musi-cado pela Zlia Dun-can. Se quiser, arris-que. Avisei.3. Nunca perde essa maniaEm geral, sou pouco belicoso. Aceito que a mulher que eu amo me despreze, fao vis-ta grossa para dilemas

    familiares, convivo com amigos trucu-lentos sem necessa-riamente me esforar para delat-los de suas incongruncias at porque as tenho aos sulcos. O que te-nho mesmo so im-plicncias. Por exem-plo, Nando Reis. No consigo com o que ele escreve. Possivelmente desde a cano Fam-lia.E, olha, se no bastasse no conseguir entrar no universo de Le-minski, que no pode ser reduzido a minha leitura lesmtica de Toda Poesia e as pri-meiras 15 pginas de Catatau, no consigo com a famlia toda, papai, mame, titia. E eles esto por todos os cantos, jamais rene-gando o seio primeiro: deleite para os fs, an-ticlmax contnuo para os surdos como eu.Concluo: Leminski da minha prateleira de autores antpodas, ao largo de mim, em com-panhia de James Joyce, Marcel Proust, Home-ro, William Faulkner, gente que sempre me jogou pra fora do livro o que me faz supor que o derrotado nesta histria toda pode ser eu.

    O AntpodaDaniel Zanella

    Marietta Lopes

    Leminski-se Tatiana Michaud

    Como em toda for-ma de arte, h quem ame ou odeie Paulo Leminski e at mes-mo pessoas que no conhecem o trabalho do poeta curitibano tampouco gostam de poesia. Eu fao parte da trupe que admi-ra a forma crua e sem muitos floreios que

    expressa sentimentos mundanos. Paulo Leminski Filho partiu dessa para me-lhor um ano depois que eu nasci, em 1989 e foi cedo, com ape-nas 44 anos de idade. No posso dizer que marcou a minha in-fncia, no aprendi sobre seus poemas no

    colgio. Me ensinaram tudo sobre Clarice Lis-pector (outra grande admirao literria) e Carlos Drummond de Andrade. E por que Leminski no fez parte do currculo do Ensino Fundamental? Bem, talvez seja a for-ma que escreve, sem grandes pudores ou

    preocupaes com o convencional (e chato) certo e errado. Por esse mesmo moti-vo, o primeiro contato que tive com obras de Leminski foi ao aca-so como quase todo vcio cultural que cul-tivei at hoje. Estava na minibiblioteca que meu pai montou no quarto de servio l de casa e procurava algo novo para ler, ha-via cansado da minha prpria prateleira. Puxei Vidas Secas de Graciliano Ramos, e Ensaios e Anseios caiu no cho. A par-tir da, nunca mais abandonei os textos e poesias do poeta curi-tibano com o seu bi-gode enigmtico. Leminski no fala s sobre o amor ou o (des)amor, fala muito

    sobre a poesia em seus poemas. Descobrir em cada verso, desse tipo de poesia, uma dica de como funcio-nava o seu processo criativo de escrita era algo extraordinrio aos olhos de uma ad-miradora literria.

    parea e desaparea

    Parece que foi ontem.Tudo parecia alguma coisa.O dia parecia noite.E o vinho parecia rosas.At parece mentira,tudo parecia alguma coisa.O tempo parecia pouco,e a gente se parecia muito.A dor, sobretudo, parecia prazer. Parecer era tudoque as coisas sabiam fazer.

    O prximo, eu mesmo.To fcil ser semelhan-te,quando eu tinha um es-pelhopra me servir de exem-plo.Mas vice versa e vide a vida.Nada se parece com nada. A fita no coincideCom a tragdia ence-nada.Parece que foi ontem.O resto, as prprias coi-sas contem.

    Talvez seja a forma de tratar a dor, com um descaso sem prece-dentes, ou at mesmo o jeito de sempre tra-duzir o que no conse-guimos falar, do jeito mais simples e bonito. Independente do mo-tivo, Leminski-se!

    ExpedienteReitor: Jos Pio Martins Vice-Reitor e Pr-Reitor de Administrao: Arno Gnoatto Pr-Reitora Acadmica Marcia SebastianiCoordenadora do Curso de Jornalismo: Maria Zaclis Veiga Ferreira

    Professora-orientadora: Ana Paula MiraEditores: Jlio Rocha, Lucas de Lavor e Marina Geronazzo

    Dico

    Kre

    mer

  • 3ESPECIAL LEMINSKI

    loNa: Recentemente, a companhia das letras lanou o livro Toda poesia do leminski. Existia uma necessidade de realizar esse lanamento?

    aurea leminski: Teve um momento em que os li-vros do Leminski comearam a ser editados cada ttulo por uma editora diferente, no tnhamos uma editora nica. Com algumas delas consegui-mos um retorno interessante, que os livros fossem encontrados com facilidade em qualquer livraria. Mas em outros casos no. Mesmo com uma fina-lizao bonita, algumas obras sofreram com pro-blemas de distribuio e a estvamos ficando limi-tados. Chegou um momento em que a gente no podia mais ter essa limitao, falando de Paulo Le-minski. E a Companhia das Letras tem essa capa-cidade de estar em todos os lugares, onde quer que voc v, voc v aquela obra com o bigode preto e aquela capa laranja gritando. impressionante. Hoje a gente vai para qualquer cidade e no h uma livraria que no dedique um espao especial obra do Leminski.

    loNa: E o livro foi um sucesso, vendeu mais de vinte mil exemplares em um ano meio. a que voc atribui essa repercusso?

    al: No caso do Toda Poesia, a particularidade que, em primeiro lugar, muitos do livros de poesia dele estavam esgotados j fazia muito tempo. Sempre se falou muito da poesia de Le-minski, mas as pessoas tinham uma dificulda-de muito grande de adquirir esses exemplares. A partir do momento em que a gente reuniu toda a obra dele em um nico volume, todas as pessoas que quiseram adquirir as poesias tive-ram uma oportunidade com esse lanamento. E isso fez com que se voltasse a falar muito da poesia de Leminski. Fez com que ela ressur-gisse, tivesse uma nova vida. Muitas pessoas--chave comearam a falar sobre o livro, Nelson Motta falou, Pedro Bial falou. Ou seja, existe tambm o apelo das celebridades, das pessoas que so formadoras de opinio, so intelectuais e falam com um pblico muito amplo. Foi um processo no qual a poesia de Leminski quase se contagiou, ela voltou a ser falada nas universi-dades, em vrios meios. Ele nunca deixou de ser falado, mas acho que nunca foi falado tanto sobre sua obra. E tem ainda a exposio, que um projeto paralelo ao livro, mas que tambm acabou despertando o interesse nas pessoas.

    loNa: E qual foi a motivao por trs da expo-sio?al: Essa exposio do Mon, que se chama Mlti-plo Leminski, foi um convite do museu para que eu, minha me (Alice Ruiz) e minha irm (Estrela) fizssemos a curadoria. Nosso desafio era encher uma rea de 1700 m que tradicionalmente rece-be grandes exposies de artes visuais com uma exposio sobre algum cuja obra est ligada pa-lavra e msica. Ento, a gente chamou o Miguel Paladino, um designer argentino que est radica-do em SoPaulo e j fez outras exposies do Le-minski, para a gente conseguir fazer a concepo toda dessa exposio, transformar todas as nossas ideias em algo que pudesse s