Macroeconomia Aberta, Hegemonia e Cooperação: a Ortodoxia ...· Macroeconomia Aberta, Hegemonia

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Macroeconomia Aberta, Hegemonia e Cooperao: a Ortodoxia e sua Crtica

Ricardo Dathein*

Resumo: O artigo faz uma anlise das teorias macroeconmicas sobre economia aberta, em suas vertentes neoclssicas e keynesianas, examinando tambm concepes sobre hegemonia e cooperao supranacional. Inicialmente, so apresentadas as teorias ortodoxas para taxas de cmbio flexveis e fixas, e extenses tericas sobre expectativas e mercados de ativos. A seguir, examinam-se crticas keynesianas s vises neoclssicas e apresenta-se uma discusso sobre a teoria keynesiana em relao macroeconomia aberta. Analisam-se, tambm, concepes sobre hegemonia e cooperao, levando em conta as modificaes recentes no contexto econmico internacional, com o aumento do fluxo de capitais derivado da globalizao financeira. A partir disso, a concluso apresenta crticas tericas e sobre polticas s concepes ortodoxas, tendo em vista as distintas realidades dos pases desenvolvidos e no desenvolvidos. Palavras-chave: macroeconomia aberta; teorias neoclssicas e keynesianas; hegemonia; cooperao supranacional. Abstract: The paper makes an analysis of the macroeconomics theories about open economy, in their neoclassics and keynesians visions, also examining conceptions about hegemony and supranational cooperation. Initially, are presented the orthodox theories for flexible and fixed exchange rates, and theoretical extensions about expectations and assets markets. To proceed, are examined the keynesians critics to the neoclassics visions, and is presented a discussion about the keynesian theory in relation to the open macroeconomics. The article analyzes, also, conceptions about hegemony and cooperation, considering the recent modifications in the international economic context, with the increase of the flow of capitals caused by the financial globalization. In conclusion, are presented theoretical and about policies critics to the orthodox conceptions, having in mind the different realities of the developed and no developed countries. Key words: open macroeconomics; neoclassics and keynesians theories; hegemony; supranational cooperation. JEL Classification: F41, F42

A internacionalizao produtiva e a globalizao financeira crescentes provocaram

mudanas econmicas e institucionais fundamentais nos ltimos decnios, com amplos impactos sobre o desempenho das polticas econmicas nacionais. As teorias atualizaram-se concomitantemente, recolocando o debate econmico em novos patamares. Tendo isso em vista, o objetivo do artigo apresentar as teorias ortodoxas sobre macroeconomia internacional, fazer sua crtica e discutir concepes no ortodoxas alternativas. Inicia-se pela teoria macroeconmica aberta bsica, para taxas de cmbio flexveis e fixas, com extenses sobre expectativas e mercados de ativos, fundamentalmente segundo a viso novo-keynesiana. A seguir, discutem-se crticas aos fundamentos da teoria apresentada. Concepes sobre uma macroeconomia keynesiana aberta e vises alternativas sobre hegemonia e cooperao internacional formam a seqncia, a partir da qual apresentam-se concluses com crticas tericas e sobre polticas s * Professor Adjunto da Faculdade de Cincias Econmicas/UFRGS. E-mail: ricardo.dathein@ufrgs.br

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concepes ortodoxas, levando em conta as caractersticas distintas de pases desenvolvidos e no desenvolvidos. 1. Teoria ortodoxa bsica 1.1 Taxas de cmbio flexveis

A anlise novo-keynesiana sobre sistemas com taxas de cmbio flexveis parte da aplicao do modelo de Mundell-Fleming. Nesse enfoque, de curto prazo, o equilbrio de pleno emprego pode no estar ocorrendo, em decorrncia do fato de que os preos possuem rigidez. Aplica-se, ento, a anlise da sntese neoclssica de Keynes economia aberta.

No caso de taxas de cmbio flexveis, essas garantem o equilbrio do balano de pagamentos. Ou seja, a soma da balana comercial com a conta de capitais zerada. A balana comercial funo da taxa de cmbio real e da renda interna, e a conta de capitais depende da diferena entre as taxas de juros interna e externa. A anlise parte do pressuposto de que a condio de Marshall-Lerner satisfeita, isso , que a soma das elasticidades preo da demanda das exportaes e das importaes maior que a unidade e, portanto, uma depreciao cambial resulta em um maior saldo comercial no balano de pagamentos.

No caso de mobilidade perfeita de capitais, qualquer desequilbrio entre taxas de juros interna e externa provoca um fluxo de capitais que reequilibra as taxas (via operaes de arbitragem). Por outro lado, como esto dados os preos e a oferta monetria, e a taxa de juros interna igual externa (dada), a renda interna fica determinada. A taxa de cmbio encontrada pelo simultneo equilbrio do mercado de bens e do mercado monetrio, compatvel com a renda j especificada. Dessa forma, chega-se ao equilbrio simultneo do mercado de bens, do mercado de ativos (e, por conseqncia, do mercado monetrio) e do balano de pagamentos.

De acordo com esta anlise, as polticas fiscais so ineficazes. Um maior gasto governamental, ao invs de gerar maior renda, provocaria apenas crowding out e dficit comercial. A ineficcia da expanso fiscal ocorreria porque, com isso, a taxa interna de juros tenderia a elevar-se acima da taxa internacional, o que a perfeita mobilidade de capitais impede. O influxo de capitais provocaria uma apreciao cambial, gerando por isso um dficit comercial. Os setores exportadores perderiam renda num nvel exatamente igual ao acrscimo gerado pelo aumento do gasto governamental, o que faria a renda de equilbrio permanecer constante. Da mesma forma, chega-se concluso de que uma poltica protecionista tambm ineficaz.

Uma das conseqncias dessa anlise a concluso de que existe uma independncia de cada pas em relao ao ciclo econmico internacional, porquanto os impactos so amortecidos pela taxa de cmbio. No entanto, poderiam ocorrer impactos ou crescimento de renda em caso de coordenao de polticas fiscais entre pases. Por outro lado, a poltica interna de um pas muito importante tambm poderia afetar a taxa de juros internacional.

A poltica monetria, ao contrrio, efetiva quando se est abaixo do pleno emprego e se quer aumentar a renda. Um aumento da oferta monetria provoca a queda da taxa interna de juros, levando fuga de capitais. Isso provoca uma depreciao cambial (aumento do preo das importaes) e um conseqente maior gasto com bens produzidos internacionalmente, o que aumenta a demanda por moeda e, em vista disso, a taxa de juros interna tende a se elevar. Alm disso, ocorre aumento de exportaes. Ao final, a taxa de juros volta ao patamar internacional e cessa o fluxo de capitais, todavia a um nvel de renda maior. Essa poltica pode funcionar se for feita isoladamente ou por poucos pases, visto que, se ocorrerem depreciaes competitivas, o resultado ser a instabilidade cambial.

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No caso de mobilidade imperfeita de capitais, pode haver uma elevao da taxa interna de juros acima da internacional, a qual no rapidamente rebaixada porque o influxo de capitais menor. Desse modo, a poltica fiscal ganha alguma eficcia, dependendo do grau de mobilidade de capitais. De outra parte, a poltica monetria continua sendo eficaz.

A anlise novo-keynesiana e novo-clssica de longo prazo para a economia aberta

parte do pressuposto de que, nesse caso, os preos so plenamente flexveis e o mercado de trabalho se ajusta totalmente. Nesse contexto, como existe uma tendncia ao equilbrio, com mercados eficientes, sem rigidez institucional, a gesto da demanda agregada no teria eficcia. Na anlise de longo prazo essa gesto s seria aceitvel para acelerar ajustes, reduzir seus custos ou corrigir erros anteriores de polticas.

Com taxas de cmbio flexveis e perfeita mobilidade de capitais, a taxa de juros interna precisa igualar-se taxa internacional para garantir o equilbrio do balano de pagamentos. A interao desse equilbrio externo com as curvas IS e LM definem a curva de demanda agregada.

Pela tica da demanda agregada, dadas as polticas fiscal e monetria, uma variao nos preos corresponde a uma variao oposta no produto. A variao de preos determina mudana na quantidade real de moeda, o que chamado de efeito saldos monetrios reais. Tambm determina mudana na taxa de cmbio real, o chamado efeito comrcio exterior. Por outro lado, polticas monetrias, alm de fatores comerciais exgenos, deslocam a curva de demanda agregada. A taxa de cmbio endgena, enquanto a poltica fiscal, nesse contexto, leva a uma apreciao cambial que compensa os efeitos dos maiores gastos governamentais e, em vista disso, o resultado nulo sobre a demanda agregada.

A oferta agregada determinada pelo funcionamento do mercado de trabalho, sendo que o produto e o emprego s divergem do pleno emprego se houver rigidez institucional. No longo prazo, sem essa rigidez, a curva de oferta agregada torna-se vertical, no ponto de pleno emprego.

Nessa anlise, existe um mecanismo automtico de ajustamento ao equilbrio de longo prazo (pleno emprego), com todos os mercados, internos e externo, equilibrados. Por exemplo, se houver desemprego, os salrios tendem a cair para reequilibrar o mercado de trabalho, o que estimula o aumento da produo pela reduo de custos. A queda dos preos leva ao aumento da taxa de cmbio real, o que tende a melhorar a balana comercial. O efeito sobre a taxa de cmbio nominal ambguo, uma vez que a queda de preos leva ao aumento da oferta monetria real e queda da taxa interna de juros, induzindo sada de capitais que tenderia a aumentar o cmbio. Mas, por outro lado, o aumento de renda levaria a uma maior demanda por moeda, tendendo a elevar a taxa de juros e, por isso, a induzir entrada de capitais com conseqente queda da taxa cambial.

A poltica monetria pode ter efeitos no curto prazo, mas no no longo. Partindo do pleno emprego, o aument