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MAFALDA: AS QUESTÕES AMBIENTAIS NOS QUADRINHOS … · cheia de maledicência. Além disso, ainda temos Filipe, garoto sonhador, romântico, preguiçoso e por vezes desligado. Miguelito,

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  • MAFALDA: AS QUESTES AMBIENTAIS NOS QUADRINHOS DE QUINO

    talo DArtagnan Almeida

    Reijane Filho da Silva Macedo

    1. Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE [email protected]

    2. Licenciando em Letras PortugusLiteratura pela Universidade Estadual do Cear UECE [email protected]

    Resumo: As tirinhas da Mafalda, no caso deste estudo, so consideradas um veculo importante deinformao, descontrao, lazer e sensibilizao de jovens e adultos. Portanto, no presente estudo, buscouanalisar os contedos relacionados a temtica ambiental nas tirinhas de Quino, e sua importncia comoferramenta para o ensino e aprendizagem. Alm disso, identificar criticamente a conjuntura entre o meioambiente e a sociedade e como Quino reflete sobre as questes ambientais atravs de suas tirinhas cmicas ecomo elas podem ser utilizadas nas aulas de Geografia para a educao ambiental. A utilizao das tirinhasda Mafalda mostram-se incompletas para a educao ambiental, pois no sugerem possibilidades parasolues dos problemas apresentados, neste caso, imprescindvel o professor como mediador e estimuladordo uso e auxiliador na reflexo crtica de suas histrias.

    (83) [email protected]

  • Palavras chave: Mafalda, Educao Ambiental, Quadrinhos.

    INTRODUO

    As tiras cmicas progressivamente vm sendo reconhecidas como uma grande ferramenta

    pedaggica atravs de sua linguagem e humor, adotada por meio de construes de ideias e

    pensamentos humorsticos crticos sobre diversos temas sociais. Alm disso, as tirinhas focam nos

    aspectos transversais e interdisciplinares buscando a compreenso crtica do mundo por intermdio

    da risibilidade.

    A tese A linguagem da surpresa: uma proposta para o uso da piada de Clia Maria

    Carcagnolo Gil (1991) estabelece o sorriso como uma forma pedaggica de aprendizado

    fundamentando a experincia da utilizao do humor como um exerccio pedaggico. Inmeros

    aspectos pedaggicos podem ser elencados a partir de uma viso holstica do mundo e

    principalmente do reaprender a olhar e analisar atravs do riso e do humor as situaes do

    cotidiano. A humorizao uma forma leve e descontrada de abordar temticas por vezes coibidas

    ou que possam acarretar uma m interpretao ou injria.

    O livro Toda Mafalda de Quino, lanado em 2003, faz-se um importante contedo

    pedaggico, j que, encontramo-nos num momento em que a linguagem visual e suas vertentes

    exprimem contedos anlogos s prticas sociais. Indubitavelmente as tirinhas criadas pelo autor

    supracitado propem inmeras possibilidades de compreenso e interpretao o que conduz a sua

    potencialidade como objeto de ensino.

    No que tange ao ensino de Geografia disciplina esta, que busca o desenvolvimento crtico e

    analtico do aluno, dispe nas tirinhas da Mafalda possibilidades pedaggicas para a mediao do

    ensino e aprendizagem. Segundo Silva (2010), as tirinhas da Mafalda concentram-se em temticas

    bases do ensino geogrfico como cartografia, cidade e habitao, trabalho, transportes, geopoltica,

    globalizao e sociedade, entre outros, mas so sobre o meio ambiente e educao ambiental que

    este estudo se basear.

    Esta pesquisa se faz relevante por propiciar um aporte humorstico atravs das tirinhas da

    Mafalda, uma menina rebelde e que mostra sua indignao diante da realidade mundial. Nesse

    (83) [email protected]

  • contexto, abordamos as tirinhas com o meio ambiente como auxlio aos professores para possibilitar

    a educao ambiental atravs da leitura dos quadrinhos nas aulas de Geografia. Objetiva-se analisar

    os contedos relacionados as questes ambientais que fazem parte das tirinhas da Mafalda,

    identificar criticamente a conjuntura entre o meio ambiente e a sociedade e como o criador reflete

    sobre a questo da educao ambiental atravs de suas crticas cmicas e como elas podem ser

    utilizadas nas aulas de Geografia sobre educao ambiental.

    METODOLOGIA

    Esta pesquisa iniciou-se por meio de leituras de materiais bibliogrficos que norteassem os

    principais aspectos no que diz respeito s tirinhas cmicas e o ensino (SILVA, 2010; GIL, 1991;

    Ramos, 2009). Logo aps, remetemos a Quino (2003) em seu livro Toda Mafalda selecionando e

    analisando algumas tirinhas que conotassem o meio ambiente e a educao ambiental como a ideia

    principal de suas discusses e reflexes. Posteriormente, entrou-se em contato com a equipe

    editorial responsvel pelas tirinhas da Mafalda, tanto quanto a sua reproduo e direitos autorais,

    para solicitar o consentimento de reproduo das mesmas neste artigo, j que trata-se para fins

    acadmicos e no comerciais. Infelizmente, no houve consentimento hbil, o que no inviabilizou

    o estudo, j que as tirinhas encontram-se devidamente descritas e referenciadas para que o leitor

    possa encontra-las e analisa-las. Este estudo possui como mtodo, o qualitativo, atravs da anlise

    das tirinhas da Mafalda que induzissem a reflexo sobre o meio ambiente subsidiando a

    compreenso para a educao ambiental e aplicabilidade em sala de aula.

    LEITURA DE TIRINHAS

    Carvalho (2007, p.02) nos traz que ler uma prtica social, uma atividade que diz respeito

    a um processo discursivo, no qual se incluem os sujeitos produtores de sentido autor e leitor.

    Deste modo, significados so sobrepostos e transmitidos (pelo emissor tirinhas) ao receptor

    (leitor) para que processe a informao e para que o recebimento da mensagem seja concretizado.

    Ou seja, ler quadrinhos, charges ou tirinhas mais do que decodificar smbolos e sinais grficos, e

    sim, uma construo nica de sentido e compreenso.

    A escrita nas tirinhas cmicas abrange o som, o quadro a quadro, a imagem e a estimulao

    dos sentidos, principalmente de tempo e espao. Compreende-se ento a preocupao com a

    (83) [email protected]

  • interpretao do contexto em qual a histria est sendo contada atravs da composio do tempo

    entre cada quadro, formato dos bales, dos quadros e a expresso fsica e facial dos personagens,

    assim, esses elementos direcionam a entonao de como a leitura ser feita.

    As tirinhas esto inseridas nos livros didticos complementando informaes, imagens,

    introduzindo o contedo ou como exerccios para anlise interpretativa, um recurso que abarca

    inmeras potencialidades. De acordo com Luyten (1985, p. 8) (...) os quadrinhostirinhas

    exercitam a criatividade e a imaginao da criana quando bem utilizados. Pode servir de reforo a

    leitura e constituem uma linguagem altamente dinmica. Os recursos grficos utilizados para criar

    uma atmosfera dinmica atravs das figuras de linguagem, gestos, representaes de movimento,

    so pontos chaves da arte do desenhista que trazem um efeito enriquecedor para utilizao didtica.

    Para tanto Luyten (1985) diz que as tirinhas comearam a ser utilizadas para o aprendizado

    de adultos e tambm de crianas, pois tratam de assuntos dos mais diversos ramos das cincias

    como matemtica, comunicao, expresso, cincias fsicas e biolgicas, moral, cidadania, histria,

    civismo, religio entre outras. Assim, os Parmetros Curriculares Nacionais recomendam os

    quadrinhos como uma forma de alfabetizao e instrumento de desenvolvimento da leitura e da

    escrita.

    A TURMA DA MAFALDA

    Mafalda membro de uma tpica famlia de classe mdia que perpetua uma

    representatividade social atravs de suas crticas ao mundo e sua postura reflexiva s frivolidades

    femininas e sociais, representa ento o anti-conformismo da humanidade. Uma personagem que

    mostra sua indignao frente realidade poltica, ambiental, ao racismo, a injustia e defende com

    veemncia os direitos humanos e a democracia. Outros personagens se destacam nas tirinhas de

    Mafalda: Guille, irmo caula que comea a perceber o mundo. O pai e a me, casal de classe

    mdia tpico, limitados, passivos e falidos. Manolito, filho de comerciante e que vive preocupado

    com o capitalismo conservador/tradicional. Susanita, personagem contraditria ao senso de

    liberdade de Mafalda, compartilhando o aspecto machista da sociedade, pois sonha em se casar com

    um mdico, participar da sociedade burguesa e possui uma personalidade mesquinha e raivosa

    cheia de maledicncia. Alm disso, ainda temos Filipe, garoto sonhador, romntico, preguioso e

    por vezes desligado. Miguelito, filho nico, onde Quino inferiu a inocncia e a praticidade na

    (83) [email protected]

  • resoluo dos problemas mundiais, pois no se interessa a assuntos que no afetam o seu

    egocentrismo. E Liberdade que abusa do seu nvel intelectual e criticidade para reivindicar questes

    sociais e apoiar as revolues.

    Para Machado (2008) a leitura das tirinhas da Mafalda nos leva a uma srie de reflexes

    sobre a sociedade contempornea. O autor alega que ao mesmo tempo em que aprendemos e nos

    conscientizamos podemos tambm partilhar de momentos de diverso e que ao fazermos uma

    autocrtica nos identificamos com os aspectos levantados em suas histrias. Quino faz das tirinhas

    de Mafalda, histrias universais que perpetuam pelo tempo e ainda assim impactam na sociedade

    contempornea.

    EDUCAO AMBIENTAL

    Contemporaneamente a sociedade cada vez mais debate questes ambientais, j que,

    comumente o desenvolvimento humano perpassa vorazmente degradando o meio ambiente

    levianamente.

    A importncia de se trabalhar a educao ambiental est alicerada no Art. 2o : A educao

    ambiental um componente essencial e permanente da educao nacional, devendo estar presente,

    de forma articulada, em todos os nveis e modalidades do processo educativo, em carter formal e

    no-formal.1 Deve-se dessa forma o professor inserir atravs de prticas e maneiras positivas a

    integrao da educao ambiental e da sustentabilidade com o educando a fim de conscientizar e

    trabalhar a reflexo crtico social. Para tanto, surge a imprescindibilidade de se pensar em uma

    sociedade com prticas sustentveis, que proponham aes ecolgicas (ALMEIDA et al, 2013).

    De acordo com Guimares (1995), a relao desarmnica do homem com a natureza

    motivadora do desequilbrio no meio ambiente, tendo como exemplo a contaminao das guas, a

    destruio da camada de oznio e o efeito estufa.

    Carvalho (2006) cita que, desde que o primeiro homo sapiens jogou uma casca de fruta no

    rio, lago ou mar, que a nossa relao com o meio ambiente tem se pautado na dualidade consumir

    e poluir. Assim, de acordo com essa relao utilitarista com a natureza, os ecossistemas j mostram

    extremo esgotamento. Assim, o aumento populacional provocou o crescimento do consumismo, da

    1 LEI n 9.795, DE 27 DE ABRIL DE 1999 que dispe sobre a educao ambiental, institui a Poltica de EducaoAmbiental e d outras providncias. Disponvel em: >.Acessado em: 22 de Jul. de 2016.

    (83) [email protected]

  • urbanizao descontrolada, o despejo de resduos slidos e desperdcio de produtos reciclveis ao

    serem lanados na natureza prejudicando a flora e a fauna (ALMEIDA et al, 2013).

    Abordar a temtica da educao ambiental no ambiente escolar de extrema importncia,

    pois, influi na formao do educando como cidado tornando-os aptos para decidirem o que sua

    prpria influncia far ao meio ambiente (GRIO, 2010; GAMA et al, 2013).

    ` Para tanto Giesta (2002, p. 161) afirma que:

    Em paralelo s iniciativas de educao formal via currculo escolar, iniciativas de educaoinformal vo ganhando corpo. Textos propagando mensagens de ateno ao meio ambiente,no que se refere proteo, preservao, conservao e recuperao ambiental so cada vezmais presentes em reportagens, propagandas, letras de msicas, embalagens de produtosindustrializados, histrias em quadrinhos e tantos outros portadores de textos.

    Assim, Jacobi e Oliveira (1988, p.75) afirmam que O seu enfoque deve buscar uma

    perspectiva de ao holstica que relaciona o homem, a natureza e o universo, tomando como

    referncia o esgotamento dos recursos naturais e conscientizando-se de que o principal responsvel

    pela sua degradao o homem.

    MAFALDA: PRESERVAO E MEIO AMBIENTE

    O subttulo Mafalda: Preservao e Meio Ambiente foi concedido devido s vrias

    intervenes reflexivas que Mafalda e sua turma fazem sobre subjugao da natureza pelo

    capitalismo, distanciando o homem do meio natural. Essas reflexes induzem o leitor a pensar

    criticamente sobre o meio ambiente e sua preservao a merc do homem como usurpador das

    beneficies naturais.

    Na primeira tirinha2 analisada, est dividida em 4 quadros, Mafalda e Miguelito refletem

    sobre a poluio atmosfrica atravs da notcia veiculada no jornal. Mafalda: Oua isto, Miguelito:

    O metereologista Morris Sucger, da Universidade da Califrnia declarou que a poluio

    industrial do ar poderia exterminar a humanidade no ano de 2064. Miguelito escuta a notcia

    compenetrado, faz uma cara de desabono e alega: Fico imaginando o que vou fazer velho e

    2 Fonte: Quino (2003, p. 157, tira 2)

    (83) [email protected]

  • sozinho neste mundo despovoado. A informao fornecida de que a poluio industrial poderia

    exterminar a humanidade no ano de 2064.

    Essa tirinha traz a reflexo sobre a poluio do ar e seus malefcios a sade humana, pois os

    principais poluentes do ar esto na fumaa das grandes indstrias e dos automveis atravs de

    partculas inalveis de dixido de nitrognio e o monxido de carbono. Essa poluio no apenas

    altera o ecossistema e influi no clima como tambm acaba com o patrimnio histrico e cultural

    atravs da chuva cida que devasta as plantas, animais e corroe monumentos histricos, alm de,

    aumentar a temperatura do planeta devido ao efeito estufa (PEITER e TOBAR, 1998).

    Apenas nessa tirinha consegue-se abordar as questes da poluio do ar, chuva cida,

    degradao ambiental, efeito estufa e mudana climtica, sendo uma tima ferramenta para o ensino

    e aprendizagem. Alm disso, percebe-se na fala de Miguelito a questo do egocentrismo e

    individualismo que pode ser um objeto de anlise para estudos futuros.

    Na segunda tirinha3, Mafalda e sua me, debatem sobre a questo da poluio litornea. No

    primeiro quadro: Mafalda: Me, est praia tambm nossa ptria? Sua me responde: Claro que ,

    por que? No segundo quadro, Mafalda ao olhar a praia completamente poluda reflete: Porque

    parece que as pessoas acham que a nica coisa que se deve manter limpa na ptria o passado

    histrico e essas coisas.

    Nessa tirinha, Mafalda faz uma reflexo crtica de que o amor ptria perante a sociedade s

    invocado ao contexto histrico e que se esquecem de que a preservao natural dos ecossistemas

    presentes em seu territrio encontra-se intrnseco ao zelo ptrio. Nesta tirinha, h o esclarecimento

    sobre a falta de conscientizao ambiental da sociedade perante o seu egocentrismo. Um fator

    importante que deve ser comentado sobre este quadrinho a face dos pais de desabono ao perceber

    a realidade fazendo base para o relato de sua filha, trazendo a tona a reflexo do comportamento

    social e dos malefcios ambientais.

    Levando em considerao que as questes ambientais enveredam-se em complexidades de

    ordem sociolgica e demais reas e no apenas natural, possvel e permissvel pensar nos

    quadrinhos e outras mdias como veculo transmissor de informaes.

    Quino retrata muito bem as problemticas contemporneas atravs de um humor sarcstico

    remetendo a criticidade por ora, to esquecida na realidade social. Loureiro (2002) postula que a

    cidadania tem como cerne a educao ambiental, portanto, relaciona-se com o respeito, o exerccio

    3 Fonte: Quino (2003, p. 315, tira 3)

    (83) [email protected]

  • cvico e a luta sobre as questes ambientais (ALMEIDA et al, 2013). Neste sentido, Quino utiliza de

    suas tirinhas como uma ferramenta construtiva de cidadania e de aprendizagem.

    O uso da ludicidade na educao escolar contribui para as concepes psicopedaggicas,

    pois auxiliam a vivenciar fatos e corresponde-los com sua realidade. Desta maneira, a utilizao das

    tirinhas da Mafalda propicia a criatividade, o crescimento crtico despertando a cidadania e a tica.

    Na terceira tirinha4 a ser analisada (dividida em 04 quadros), Mafalda impede Miguelito de

    matar uma abelha deliberadamente utilizando argumentos sobre suas caractersticas: Mafalda: Oh!

    Olha! Uma abelhinha. / Miguelito: Vamos matar? / Mafalda: No! ...No se matam as abelinhas!

    / Miguelito: Ah, no? / Mafalda: No as abelhinhas so boas, trabalhadoras e fabricam o mel, que

    to rico e saudvel. Logo, Miguelito: Entendi. A gente no deve mata-las porque elas trabalham

    para ns, no ?

    Nesta tirinha perceptvel a preservao de acordo com o interesse do homem. Se no servir

    para o homem, pode ser destrudo. Essa a crtica principal deste quadrinho. Contudo, podemos

    utilizar para construir as definies de preservao, fauna, extrativismo animal e extino.

    A educao ambiental tornou-se uma necessidade e dimensiona ao processo educacional

    uma recente discusso sobre os problemas ambientais, suas atitudes e a todas as consequentes

    transformaes do conhecimento (GUIMARES, 1995). As tirinhas em quadrinhos rompem com a

    formalidade do piloto e do quadro branco e ainda promove a reflexo sobre temticas transversais

    em diversos nveis da educao, aproximando o conhecimento acadmico e escolar ao interesse do

    aluno.

    As tirinhas so uma forma de arte, uma linguagem visual, que detm o poder de influenciar

    sentimentos atravs de suas cores e mensagens seja por meio de smbolos, imagens, ou outros

    signos, verbais ou no verbais (DALACOSTA et al, 2009). Neste ensejo, utilizar das tirinhas em

    quadrinhos como forma de pautar a educao ambiental na educao escolar trata-se de uma

    estratgia educativa para a insero no currculo da instituio destacando os impactos, os

    problemas ambientais, os recursos naturais e as beneficies ambientais.

    Neste novo cenrio da educao brasileira, os professores buscam inmeras estratgias

    metodolgicas de captar a ateno do aluno atravs do ldico. Assim, atravs das produes de

    Quino os professores possuem uma ferramenta extensa com vertentes prprias e mutveis de acordo

    com necessidade do docente.

    4 Fonte: Quino (2003, p. 191, tira 3)

    (83) [email protected]

  • No que se refere quarta tirinha5, Mafalda foi levada pra vislumbrar um lago e sua paisagem

    (em dois quadros). Em tom severo faz uma crtica ao comportamento humano e sua relao com o

    meio ambiente.

    Me: E ento Mafalda? / Mafalda:Meu Deus! Isto to bonito que os homens vo pular

    miudinho para conseguir estragar!. Mafalda transmite uma sensao de inexorvel de

    conformidade e desrespeito do homem ao meio ambiente. O dilogo entre Mafalda ocorre em dois

    quadros, mas conseguem exprimir toda uma construo crtica reflexiva sobre os impactos

    ambientais e os principais causadores.

    DISCUTINDO AS MENSAGENS DAS TIRINHAS ANALISADAS

    Depois de escolher as principais tirinhas do Toda Mafalda (2003) e fazer uma anlise atravs

    de um olhar mais profundo, o primeiro item a ser destacado de que no h uma soluo

    propriamente argumentada em sua histria. Nas tirinhas 01, 02, e 04 so apresentados claramente os

    problemas, tratando-se do problema da poluio do ar, poluio do meio ambiente e a degradao

    ambiental. Constata-se que no h mensagens textuais ou imagens preconizando solues ou

    alternativas para reverter os problemas contidos nas histrias, a fim de sensibilizar as pessoas para

    uma converso de atitudes.

    Todas as tirinhas possuem uma reflexo e criticidade pautada no olhar infantil e por vezes

    adulto de Mafalda e seus amigos. Aluses, ironias e sarcasmos so peas fundamentais das tirinhas

    de Quino e das falas de seus personagens. A terceira tirinha traz como foco a extino como

    problema ambiental. Na fala de Miguelito, fica implcito que o contexto remete extino de

    espcies da fauna e da flora e da atitude do homem junto a esse fato, assim, dentro das principais

    causas de extino encontra-se a caa e a pesca predatria, desmatamento, queimadas, destruio de

    habitats e o desvanecer de ecossistemas.

    O discurso de s apresentar os problemas e no inserir a soluo torna-se vazio, pois Orlandi

    (1996) alega que no se educa apenas com catatrofismos ou apenas fatos desoladores, pois no

    possui eficcia pedaggica. Para tal, o professor deve mediar a reflexo do aluno para pensar nas

    contramedidas e solues para os problemas levantados.

    Outra questo pertinente a homogeneizao do ser humano como figurado nas tirinhas

    atravs de os homens (tirinha 04), para ns (tirinha 03) e as pessoas (tirinha 02). No existe

    5 Fonte: Quino (2003, p. 156, tira 6)

    (83) [email protected]

  • distino entre todas as culturas existentes, no fica claro a diversidade de povos e culturas e para

    isso, o autor Viezzer et al (1996, p. 150) afirma que:

    Um dos principais problemas de alguns paradidticos generalizar a ao destrutiva dohomem, sem especificar que esse homem branco, ocidental, participante de umacivilizao predatria em seu paradigma, vive no sculo XX, imerso no fenmeno daglobalizao.

    Alm disso, na tirinha 03 a perspectiva utilitarista fica evidenciada nas falas da Mafalda:

    No. As abelhinhas so boas, trabalhadoras, produzem o mel que to rico e saudvel e do

    Miguelito Entendi, ento no devemos mata-las por que elas trabalham para ns, no . Este

    utilitarismo vislumbra da concepo de uma sociedade moderna, contempornea pautada no

    capitalismo e no consumismo provindo do antropocentrismo. Quando remetemos ao

    antropocentrismo, remetemos a superioridade do homem sobre as outras espcies independente de

    sua humanizao adjetivada.

    CONCLUSO

    Este trabalho buscou compreender o discurso sobre o meio ambiente que ocorre nas tirinhas

    da Mafalda. A importncia desse estudo fica explicita quando as tirinhas cmicas so uma forma de

    arte e linguagem com capacidade de criar sentimentos e explicitar situaes levando a reflexo para

    com a realidade sendo estimuladoras de atitudes e criticidade.

    Percebe-se ao analisar as tirinhas que as que so voltadas para a temtica ambiental, no

    conseguem de todo proporcionar ao leitor uma educao ambiental, j que os temas so abordados

    de maneira catastrofista. A utilizao das tirinhas da Mafalda deve ser utilizada como um vis a

    mais do contedo, como uma forma de reflexo, uma ferramenta integradora da concepo didtica

    do professor. E no apenas como uma ferramenta solta, pois ela no detm essa capacidade. Faz-se

    importante frisar que se sugere aqui que ao trabalhar com as tirinhas, o professor medie novos

    tempos, situaes e espaos para que os alunos consigam compreender novos conceitos e novas

    atitudes e concepes. Inmeras so as possibilidades de conceitos a serem trabalhados frente as

    tirinhas abordadas aqui neste estudo, de poluio atmosfrica conservao ambiental, em diversas

    escalas e locus.

    (83) [email protected]

  • Para tal Giesta (2002) afirma que as historinhas em quadrinhos podem servir aos professores

    como recurso a ser utilizado nas escolas oportunizando a reflexo, desde que, o professor esteja

    preparado para extrair as mensagens contidas, o domnio do contedo e que estimule a discusso.

    Alm disso, alguns motivos podem ser elencados aqui como motivos bases para o incentivo

    da utilizao dos quadrinhos na educao ambiental: contribuem para a alfabetizao, desperta o

    interesse em todas as faixas etrias, estimulam a leitura, exercitam as habilidades cognitivas, trata-

    se de forma de entretenimento e cultura, possui fcil acesso e baixo custo.

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