MANIA DE EXPLICA‡ƒO

  • View
    839

  • Download
    17

Embed Size (px)

Text of MANIA DE EXPLICA‡ƒO

5 Uma Experincia Teatral com Crianas Pequenas: Indicaes MetodolgicasA presente pesquisa privilegiou como tcnica de trabalho o relato de experincia, de carter qualitativo, por entender que esse tipo de pesquisa traduz melhor a realidade com a qual lidamos, pois todo o tempo estivemos envolvidos com a prtica enquanto refetamos a l respeito da metodologia que amos experimentando com os sujeitos de pesquisa. Tentamos atravs desse estudo trazer impresses a respeito da existncia de uma prtica teatral organizada e freqente na Educao Infantil e quais seus possveis benefcios para o desenvolvimento global infantil. A nossa experincia teatral na creche Fiocruz comeou a partir do momento em que uma questo se imps de forma inequvoca: como trabalhar a linguagem teatral com crianas to pequenas, que s vezes no tinham adquirido sequer a linguagem falada? Como faz-las compreender a especificidade do teatro? Qual seria o material dramatrgico apropriado para o nvel de entendimento dessas crianas? Essas questes comearam a ser respondidas a partir do momento em que r solvemos e trabalhar com os contos de fadas, seguindo o iderio de Bettelheim a respeito da possibilidade dessa forma de narrativa atuar como ponte entre o mundo exterior e o imaginrio infantil. Em nosso entendimento, ao longo de todos esses anos, descobri os que m os contos realmente conseguem atingir o imaginrio da criana, atraindo seu interesse e possibilitando que o educador de teatro possa atingir seu objetivo de tornar o conto, o material fundamental para o exerccio da encenao teatral. Durante os quatro primeiros anos (desde 1993, mais ou menos dez anos) as oficinas de teatro eram ministradas para as turmas de maternal I (dois anos), maternal II (trs quatro anos) e jardim (quatro cinco anos), sem que acontecesse a montagem final das turmas de jardim, fato que passou a ocorrer de forma sistemtica a partir de 1997, com a encenao do conto O Casamento da Dona Baratinha, diante de uma platia composta por pais e funcionrios da creche Fiocruz. 50

A partir de 1998, passamos a dar oficinas de teatro tambm para as turmas de pr-maternal (um dois anos), guisa de experincia, diante dos resultados obtidos com as crianas maiores. Em 2003, o berrio tambm foi includo na experincia, devido solicitao das educadoras desse segmento que acreditavam que quanto mais cedo as crianas se acostumassem com a linguagem teatral, melhor seria para elas. Apesar de apresentarmos um projeto nico para todos os segmentos da creche, seja de expresso corporal ou de encenao de contos de fadas, a maneira d aplic-lo muda e conforme a faixa etria das crianas. Com as turmas de berrio e pr -maternal apenas narramos os contos, apresentamos fantoches e bonecos maiores, brincamos com a maquiagem, sugerimos alguma movimentao corporal. lgico que no podemos esperar das crianas menores desses dois segmentos as mesmas respostas das maiores. Ns as estimulamos a usar seu corpo durante exerccios de dana ou expresso, mas sem esperar, a princpio resultados to significativos, quanto obtemos com as maiores. O que esperamos que a semente lanada em seu imaginrio, frutifique ao longo de seu desenvolvimento na creche Fiocruz. As crianas dos segmentos de maternal I, II e jardim so apresentadas a todos os exerccios de um projeto e so estimuladas a responder a ele, a trocar idias com o educador de teatro, que pode modificar o projeto de encenao de contos ou de expresso corporal conforme acontea ou no a adeso das crianas ao que sugerido no projeto. A experincia teatral com crianas pequenas na creche Fiocruz propriamente dita, comea a cada incio de ano letivo, com jogos de expresso corporal, orientados para estimular a criana a trabalhar seu corpo ludicamente (Ver Anexo A). Ao final de mais ou menos dois meses, comeam os jogos teatrais, pois s ao final desse tempo acreditamos que a criana est mais adaptada ao ritmo da creche, j conhecendo e estabelecendo vnculos emocionais com seus professores e colegas. Comeamos a experincia contando a histria de fadas para as crianas reunidas em roda, ambiente apropriado para a comunicao delas entre si e com o educador, que utilizando -se da expresso teatral apropriada, tenta se colocar fisicamente nos personagens, mimetiz -los, transmitir, enfim, sua viso daquilo que apresenta. 51

A narrativa pode sofrer interrupes das crianas fazendo perguntas a respeito da histria. Assim vo formando sua prpria imagem do que ouvem, a partir de uma teia que se forma com fios de narrativa do adulto, da outra criana, do personagem que escapa por entre a tessitura. A histria que vai sendo elaborada no momento da oficina, nunca completamente aquela que est na pgina dos livros, na imaginao de quem a conta ou de quem a ouve, mas uma trana de diversas narrativas reais ou fictcias, que emerge, cobra invisvel, da boca da roda. Uma criana mais empolgada pode imitar para todas as outras a personagem que ela constri em sua mente e por algum tempo tomar as rdeas do que contado e propor novos caminhos. Muitos se revezam no comando e a cada mudana brusca de direo, a cobra vai pondo um ovo, que recolhido pelo educador. com um gesto infantil aqui, um fiapo de narrativa ali, que o material construdo pela interao entre as pessoas que constroem a experincia, filhote da realidade e da fantasia. Ao educador cabe a tarefa de propor a encenao da histria recm contada e de distribuir as crianas pelos personagens de seu interesse, podendo ocorrer uma multiplicidade de diferentes tipos, que so interpretados em grupo, enquanto o educador de teatro vai narrando outra vez e devolvendo os ovos recolhidos da primeira narrativa, para que as crianas rememorem o que elas prprias produziram. Cabe enaltecer algo diferente proposto pela criana, ou uma fala engraada, espirituosa que alguma outra tenha produzido e, em grupo, discutir o que de significativo tenha surgido, dando-lhes confiana para se soltarem cada vez mais, dentro de um ambiente de carinho e cuidado. Alguns dos ovos postos pela serpente invisvel, podem ser aproveitados pelo prprio educador de teatro, para que proponha algum projeto relacionado narrativa j apresentada e a partir dele possa evidenciar o cunho social presente nos contos de fadas. Em 2003, o ano em que comeamos a dar forma final a esta pesquisa, as observaes ficaram mais concentradas nas turmas de jardim da creche Fiocruz. Foram desenvolvidos trs projetos, culminando em duas peas teatrais, sendo uma um ensaio piloto e a outra a encenao final das crianas do jardim. A partir dos contos A Moura Torta e Branca de Neve, propusemos um projeto chamado O Espelho da Moura Torta no qual procuramos traar 52

paralelos entre as histrias: ambas possuem bruxas que cometem as maiores maldades por vaidade, sendo o espelho (objeto ou o da gua) um elemento fundamental nas duas, jque a partir da imagem refletida na superfcie que a ao malfica das duas bruxas se faz presente. Acentuamos particularidades entre uma e outra: na Moura Torta, a bruxa escrava, negra, humilhada, que procura vingana para escapar de uma situao soci l opressiva. Na outra, a Branca de Neve, a bruxa rainha, branca, poderosa, invejosa que ordena o assassinato cruel apenas por vaidade. Ressaltamos contextos diferentes, procurando inserir alguma discusso e reflexo a respeito da natureza da maldade e sua conseqncias na vida de quem a s produz e de quem sofre seus efeitos, tentando usar uma linguagem acessvel ao estgio de entendimento no qual a criana dessa idade se encontra. Na frente de um espelho na sala de aula, discutimos tambm a diversidade rac ial presente na turma: o cabelo liso e o crespo, o nariz arredondado e o fino, a textura das peles, tanto de educadores quanto das prprias crianas, que se deliciavam com a experincia de tocar na pele uns dos outros, de observar as diferenas fisionmica s de cada um. Em 2002, esse mesmo conto, A Moura Torta, serviu de base para uma das trs pequenas histrias do folclore brasileiro que compuseram a pea teatral de despedida das turmas de jardim daquele ano, Histrias do Brasil. Outro ovo recolhido a partir da experincia teatral com crianas foi o projeto desenvolvido a partir do conto de fadas Joo e Maria, Vamos dar de comer a Joo e Maria, no qual a partir da experincia fictcia das duas crianas rfs, que so abandonadas, sofrem violncias dos pais, ameaa de canibalismo, sem falar na explorao do trabalho infantil, procuramos trabalhar com as crianas aquilo que por acaso elas j soubessem a respeito de crianas abandonadas, que vivem nas ruas. Algumas j tinham uma noo ainda tnue da que sto, embora reproduzissem as falas dos adultos. Outras ainda no tinham reparado no problema. Mas ao terem contato com o enredo deste conto maravilhoso, as crianas, aos poucos, foram tomando conscincia da situao, se solidarizando com os rfos e toma ndo partido ao lado deles, opondo-se bruxa e madrasta. A partir dessa manifestao de solidariedade, que pudemos iniciar nosso projeto, puxando um fio da trana/narrativa que nos aproximasse da realidade, na 53

suposio de que se possvel educar crianas para o dio, a discriminao e o preconceito, tambm possvel e necessrio, educ-las contra a barbrie. Ao elaborarmos o projeto, tomamos o cuidado de inici-lo pela educao alimentar que ministrada na creche Fiocruz, atravs da apresentao da diversidade dos alimentos e do cuidado que devemos ter com aquilo que comemos e principalmente o que fazer com aquilo que sobra. Atravs da discusso desses hbitos, fomos aos poucos relacionando a fartura e a variedade de alimentos com as quais convivem na creche, com a fome vivida pelas crianas abandonadas na vida real e a das crianas do conto. Fomos alm, ao resolvermos encenar com as turmas do jardim o conto de fadas Joo e Maria no dia dos aniversariantes do ms, data na qual ocorre uma festa quando todas as crianas se renem para saudar aquelas que aniversariam. Esse movimento se constituiu no ensaio piloto que serviu de base para a montagem final de 2003, conforme referido na pgina setenta, par