Maonomics - Trecho

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O fim da Guerra Fria foi interpretado como um sinal do triunfo do capitalismo ocidental sobre o comunismo. Em seu mais recente trabalho, ganhador também do National Critics Choice, Maonomics: por que os comunistas chineses se saem melhores capitalistas do que nós, Loretta Napoleoni argumenta o oposto: o mundo está testemunhando, na verdade, o início do colapso do capitalismo e a vitória do “comunismo com a motivação do lucro”.

Text of Maonomics - Trecho

  • MAONOMICSPor que os comunistas chineses se saem melhores capitalistas do que ns

    LORETTANAPOLEONITraduo de Pedro Jorgensen

    Rio de Janeiro | 2014

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    Podem os acontecimentos no norte da frica e no Oriente Mdio em 2011 ser tomados como um marco adequado indispensvel avaliao crtica do sistema econmico e poltico ocidental? Pode tal anlise ser efetuada usando-se o modelo asitico de desenvolvimento no como uma alternativa ao tradicional paradigma socioeconmico ocidental, mas como algo distinto, novo, nico? Desde o incio da globalizao, essa nova frmula tem se mostrado bem-sucedida em todos os pases emergentes que a adotaram.

    Esse inusitado exerccio poderia nos ajudar a compreender os nossos erros e encontrar explicaes razoveis para a aparente falta de sintonia entre o nosso modelo econmico e o mundo em que vivemos. Quem sabe poderia tambm lanar alguma luz sobre a obscura com-plexidade da economia globalizada. Em nossa caminhada rumo a um mundo multipolar, fica cada vez mais claro que no h um modelo de desenvolvimento ideal, tampouco um sistema econmico e poltico que sirva a qualquer pas. Complexidade gera singularidade.

    A comparao entre o desempenho econmico de dois modelos dis-tintos de desenvolvimento, o ocidental e o chins, , pois, um exerccio fundamental, capaz de abrir uma janela sobre o novo mundo e nos dar um vislumbre do futuro. O fato que, enquanto o Ocidente luta para se recuperar economicamente e o Oriente Mdio se incendeia uma exploso causada pela injustia econmica e social , a sia cresce ace-leradamente. Pela primeira vez em geraes, a riqueza comea a dar

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    poder s pessoas: O crescimento econmico gera melhores padres de vida, novas oportunidades de negcios e um grau mais elevado de independncia. Entre ns, no entanto, poucos tm notcia do lento movimento rumo participao poltica impelido pelo crescimento econmico da sia e um nmero ainda menor est ciente da transfor-mao fundamental, em curso no continente, do paradigma socioeco-nmico conhecido como capitalismo e democracia um terremoto poltico causado no por uma revoluo, mas pela manuteno de uma forma centralizada de governo que muitos ainda definem como comu-nismo.

    Ao mesmo tempo que o vrus da liberdade infecta os pases do norte da frica governados por democracias de araque e regimes ditato-riais e as massas se empenham em derrubar lderes oligrquicos h dcadas sustentados pelo Ocidente democrtico, a frmula do auto-ritarismo oriental combinado liberdade econmica que ns no Ocidente h tanto tempo criticamos sem compreender torna-se uma alternativa atraente ao obsoleto modelo socioeconmico de desenvol-vimento ocidental. Faa a si mesmo as seguintes perguntas: Se eu fosse, hoje, um egpcio, qual regime econmico preferiria imitar: o ocidental ou o asitico? Confiaria nas lideranas e corporaes ocidentais que h dcadas fazem negcios com a elite oligrquica que me oprime e me rouba? Ou buscaria os polticos e empresas dos pases emergentes, pes-soas que at poucas dcadas atrs eram to pobres e espoliadas quanto eu sou?

    A mquina de propaganda que cega o mundo quer nos fazer crer que o calvrio por que passa o Oriente Mdio no tem nada a ver com o nosso modelo poltico e econmico e, mais ainda, que ns no fomentamos regimes repressivos e ditatoriais fantasiados de seguidores da liberdade econmica e da democracia. Em 2010, a Unio Europeia vendeu Lbia de Khadafi quase 400 milhes de euros em armamentos que, em 2011, ele usou contra o seu prprio povo. O preo da nossa

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    democracia parece ser a defesa de regimes antidemocrticos em pases distantes, como a Arbia Saudita, uma monarquia repressiva onde as mulheres tm muito menos direitos que os homens. Imagine as conse-quncias econmicas da queda da Casa de Saud, o segundo maior pro-dutor mundial de petrleo depois da Rssia e o maior exportador para o Ocidente: nosso bem-estar poderia desaparecer num piscar de olhos.

    A crise do crdito e a recesso expuseram a instabilidade endmica da nossa economia, evidenciando as suas idiossincrasias e contradies. O levante rabe parece ter revelado a fragilidade das nossas democracias quando privadas da energia abundante e barata fornecida por oligarcas e ditadores que, de quebra, asseguram a solvncia da nossa indstria blica. Numa sociedade verdadeiramente democrtica, um mundo ideal, quem compraria as nossas armas e a nossa proteo poltica?

    O mundo vem mudando rapidamente, rpido demais para aqueles que se mantm aferrados a um passado j distante. No espao de uma dcada, o Ocidente foi uma vez mais tomado de surpresa por acon-tecimentos perfeitamente previsveis. E, uma vez mais, nos sentimos totalmente a descoberto. medida que as notcias das atrocidades praticadas pelos modernos ditadores rabes contra as suas populaes chegam s nossas salas de estar, medida que a imprensa revela a verda-deira natureza das democracias do norte da frica e que Khadafi volta a ser um louco sedento de sangue, os ocidentais veem desvanecer as suas certezas. O Egito uma democracia, ainda que governada por um ditador; a China um pas comunista, embora defenda o capitalismo.

    A mquina de propaganda escondeu a tempestade poltica que se acumulava no norte da frica e no Oriente Mdio. Focados o tempo todo nas atrocidades e na falta de democracia na China, os nossos lderes e nossos meios de comunicao ignoraram o pssimo currculo de Mubarak, do Egito, em matria de direitos humanos, a impiedosa represso da oposio por Khadafi, o roubo da riqueza tunisiana por Ben Ali e muito mais. Essa mesma mquina de propaganda escondeu

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    de ns a verdadeira natureza do milagre econmico chins e as dificul-dades do nosso prprio modelo.

    O mundo est mudando ao ritmo dos trens-bala e ns temos de abrir os olhos para no acabar esmagados sob seus vages. A demo-grafia est redefinindo o Oriente Mdio, uma regio altamente instvel que experimentou, nas ltimas trs dcadas, um surto de crescimento populacional. Foi a exploso da juventude combinada a presses eco-nmicas no o terrorismo islmico que ps abaixo os impiedosos regimes ditatoriais norte-africanos. No se viram, na Tunsia e no Egito, brandir de espadas contra o Ocidente nem homens barbados pregando a charia, somente jovens armados com iPhones e BlackBerries. Graas ao Facebook, ao YouTube e ao Myspace, eles desafiaram a propaganda tradicional dos meios de comunicao, colocando diante de ns, oci-dentais, uma realidade nova e profundamente incmoda.

    Uma revoluo diferente est em curso na sia sem que tenhamos a menor ideia de sua natureza e objetivos. Bilhes de asiticos vm alcan-ando os nossos padres de vida e sero, em pouco tempo, a fora motriz de mudanas econmicas e financeiras que causaro grande impacto em nossas vidas cotidianas. Ainda que nunca vejamos a juventude chinesa contestando o status quo, ou que imagens desse gnero nunca cheguem s nossas telas, os nossos destinos estaro firmemente entrelaados. E, para entender o que nos espera na virada da esquina, precisamos deixar de lado a arrogncia e o fanatismo, nos elevar acima da propa-ganda e olhar para a China e a sia com humildade e esperana.

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    INTRODUO

    Quase um quarto de sculo aps o fim da Guerra Fria, as democracias ocidentais se veem de braos dados com a primeira crise econmica da globalizao. Enquanto isso, a China comunista consegue no apenas limitar o seu impacto, como tirar partido da contrao da demanda mundial para pr em movimento reformas sociais e econmicas verda-deiramente revolucionrias, como o aumento da segurana no trabalho e o esboo de um novo sistema monetrio internacional potencialmente atrelado sua moeda.1

    O norte verdadeiro da estabilidade econmica vem se deslocando para a China graas a uma srie de cataclismos financeiros que esto redefinindo a estrutura macroeconmica do planeta. O ltimo deles, a crise do crdito e a recesso, catapultou a China para o status de um dos pases mais poderosos do mundo. Hoje ningum pode negar que o New Deal chins foi, nessa imensa tempestade recessiva, a tbua de salvao que impediu que o mundo mergulhasse numa nova Grande Depresso. E muitos esto convencidos de que as mudanas atualmente em curso precipitaro o fim da supremacia econmica dos Estados Unidos.

    As transformaes na China no se limitam, no entanto, reestrutu-rao da economia com base nos princpios do livre-comrcio. O cres-cimento do Produto Interno Bruto (PIB) caminha de mos dadas com reformas sociais e polticas impensveis sob o maoismo, um estranho par num pas ainda comunista. Da defesa dos direitos humanos ao

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    desenvolvimento de fontes de energia renovvel, sem falar do indispen-svel respeito s regras da Organizao Mundial do Comrcio (OMC) e das aspiraes democracia participativa, esse pas parece plenamente comprometido com a produo de um novo modelo de sociedade. Ainda que a democracia do tipo ocidental no parea, no momento, figurar entre os objetivos da China, no deixa de ser verdade que, durante pelo menos uma dcada, o pas se distanciou do totalitarismo do ps-guerra para mirar exclusivamente um futuro econmico bri-lhante. Seria, ento, possvel falarmos de um capitalismo-comunismo, ou capicomunismo um hbrido poltico e econmico que pudesse vir a ser o modelo para o sculo XXI?

    Uma visita a cidades como Xangai e Pequim nos proporciona um vislumbre das metrpoles de amanh e a percepo do que significa a nova modernidade chinesa. O dinamismo dessas cidades uma autn-tica viagem para qualquer um, estrangeiros em esp