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Marcato Direito Processual Civil

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL

1. JURISDIO

1.1. Formas de Composio da Lide Relembrando a tripartio clssica de Montesquieu, a atividade jurisdicional reconhecida como sendo uma das funes do poder estatal, ao lado das funes administrativas e legislativas. O poder, em si, uno e indivisvel, estabelecido nas trs funes mencionadas, criando um sistema de freios e contrapesos. O objeto da atividade jurisdicional a soluo de conflitos de interesse (lide) no mbito do sistema jurdico. As formas de soluo da lide podem ser divididas em:

Autotutela: a primeira forma de soluo de litgio ocorre por meio da autotutela, isto , por meio da hiptese em que as partes solucionam suas controvrsias de maneira direta, sem a interveno de um terceiro estranho prpria lide. Qualquer meio poderia ser utilizado para a soluo do conflito, inclusive a fora bruta, representada pelo poder blico ou econmico. Como exemplo, cabe aqui a seguinte hiptese: caso o devedor no pagasse uma dvida, o credor se apropriaria de um bem do devedor, de valor equivalente ao crdito.

Hoje, a autotutela, via de regra, rechaada pelo Direito, a exemplo da previso contida no artigo 345 do Cdigo Penal, que prev o crime de exerccio arbitrrio das prprias razes, sendo, excepcionalmente, autorizada no Direito moderno, como por meio da legtima defesa da posse (artigo 502 do Cdigo Civil).

Autocomposio: aos poucos, a autotutela foi dando lugar a outra forma de soluo dos conflitos entre as partes, sinalizando um avano da civilizao, mediante o concurso de terceiro desinteressado e imparcial, eleito pelos contendores, como no caso da atual arbitragem.

Podemos visualizar a autocomposio por meio das seguintes hipteses:

submisso: uma das partes deixa de oferecer resistncia pretenso da outra, submetendo-se inteiramente pretenso desta; desistncia: uma das partes no se submete, mas abre mo da pretenso em si, em prol da outra; transao: concesses materiais recprocas entre as partes.

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Tais solues parciais e precrias geraram a arbitragem, forma integral e completa de autocomposio.

Jurisdio: somente com o desenvolvimento da noo de Estado e, bem mais tarde, com a noo de Estado de Direito, que a tarefa de solucionar a lide entre as pessoas foi admitida como funo do Estado.

H uma absoluta preferncia pela soluo jurisdicional estatal dos conflitos de interesses, de maneira que se considera monoplio do poder estatal. Tal assertiva verdadeira, porm no pode ser vista de maneira absoluta, pois a parte tem a opo de, em algumas hipteses, buscar o exerccio da arbitragem, de acordo com a previso da Lei n. 9.307/96, no substituindo a jurisdio, j que esta resguarda inclusive o correto e regular exerccio da arbitragem, passvel de eventuais anulaes, revises e modificaes pelo Poder Judicirio. Cumpre ressaltar ser a arbitragem uma opo feita pelos interessados para a soluo dos litgios expressamente prevista em lei. A arbitragem um meio alternativo de soluo de conflitos e, por conseguinte, de pacificao social, no afastando o controle jurisdicional (artigo 5., inciso XXXV, da Constituio Federal). A atividade jurisdicional estatal est em consonncia com o artigo 1.o da Lei n. 9.307/96, segundo o qual: As pessoas capazes de contratar podero valer-se da arbitragem para dirimir litgios relativos a direitos patrimoniais disponveis. Tratase, portanto, de mecanismo alternativo atividade do Poder Judicirio.

1.2. Conceito Jurisdio uma das funes do Estado, mediante a qual este se substitui aos titulares dos interesses em conflito para, imparcialmente, buscar, por meio da pacificao do conflito que os envolve, o maior bem jurdico do Direito que o justo. o poder-dever de aplicao do direito objetivo conferido ao magistrado, enquanto agente investido em tal funo. Tem, portanto, trplice enfoque, vista como poder, dever e atividade. Com efeito, o Estado, por meio do processo, seu instrumento, busca a atuao da vontade do direito objetivo. A jurisdio pode assumir trs papis:

poder: a jurisdio gera um poder de imprio, no qual as decises, quando no acolhidas espontaneamente, so impostas para gerar eficcia; funo (dever): expressa os encargos que tm os rgos estatais de promover a pacificao de todos os conflitos, quer interindividuais, quer difusos ou coletivos, mediante a realizao do direito justo, pelo processo; atividade: a jurisdio , ainda, um conjunto complexo e dinmico de atos do juiz no processo, exercendo o poder e cumprindo a funo por meio do princpio de legalidade.2

somente por meio do devido processo legal que vislumbramos o poder, a funo e a atividade jurisdicional.

1.3. Garantias e Princpios da Jurisdio Temos como garantias e princpios da jurisdio:

Devido processo legal: fica assegurado ao indivduo o direito de ser processado nos termos da lei, garantindo ainda o contraditrio, a ampla defesa e o julgamento imparcial. Esse princpio considerado informador de todo o sistema processual, civil e penal, dele decorrendo inmeros outros princpios. Contraditrio: , alm de um princpio fundamental, uma garantia de audincia bilateral, gerando uma indispensvel dialtica que rege o processo, pois o rgo judicante no pode decidir uma questo ou pretenso sem que seja ouvida a parte contra a qual foi proposta, resguardando, dessa forma, a paridade dos litigantes nos atos processuais. Mesmo no pronunciamento do juiz inaudita altera pars, h oportunidade de defesa contra quem a pretenso se dirige, gerando, inclusive, retratao por parte do rgo judicial, como forma de manifestao diferida, postergada, do contraditrio. Juiz natural: todos tm direito de serem julgados por juiz independente e imparcial, previsto como rgo legalmente criado e instalado anteriormente ao surgimento da lide. A prpria Constituio, como forma de garantir duplamente o juiz natural, probe os tribunais de exceo, isto , aqueles tribunais institudos para o julgamento de determinadas pessoas ou de crimes de determinada natureza sem previso constitucional, a exemplo do Tribunal de Nuremberg, criado aps a Segunda Guerra para julgamento dos delitos praticados pelos nazistas (artigo 5., inciso XXXVII, da Constituio Federal). Indelegabilidade: nenhum dos poderes pode delegar atribuies polticas. Por se tratar de questo atinente estrutura e ao funcionamento do Estado, o prprio texto constitucional fixa as atribuies de cada um dos rgos do Poder Judicirio, bem como do seu contedo, no podendo outra fonte, que no seja a prpria Constituio, modificar, por meio de delegao, as atribuies do Poder Judicirio. Por isso, nem a lei infraconstitucional pode, muito menos os prprios membros do Poder Judicirio, alterar seus mbitos de atuao, exceto no que tange a critrios legais de competncia interna dos tribunais. Indeclinabilidade (inafastabilidade): o princpio expresso no artigo 5., inciso XXXV, da Constituio Federal, que garante a todos o acesso ao Poder Judicirio, no podendo este deixar de atender a quem venha deduzir uma pretenso fundada no Direito e pedir uma soluo a ela. Nem mesmo em caso de lacuna ou obscuridade da lei, pode o juiz escusar-se de proferir3

deciso (artigo 126 do Cdigo de Processo Civil). o prprio acesso Justia; por conseguinte, est afastado do nosso sistema jurdico o non liquet, isto , o juiz deixar de decidir o mrito sob qualquer pretexto, adotando-se, por conseguinte, o sistema integrativo para as hipteses de anomia (ausncia de normas) .

Ampla defesa (artigo 5., inciso LV, da Constituio Federal): o princpio que assegura a todos que esto implicados no processo que, conforme o contraditrio, possam produzir provas de maneira ampla, por todos os meios lcitos conhecidos. A ampla defesa tem como elementos a defesa tcnica, por meio de advogado, e a defesa atcnica, consistente no direito de audincia e de presena. Fundamentao das decises: segundo esse princpio, todas as decises precisam ser fundamentadas sob pena de nulidade. A fundamentao indispensvel para que a parte tenha elementos para recorrer; para que a parte possa ter cincia do motivo da deciso; e para garantir o princpio da legalidade. Note-se que a deciso jurisdicional no discricionria, sendo o dever atribudo ao Estado-juiz de promover a subsuno do fato norma, de forma motivada, nos termos do artigo 93, inciso IX, da Constituio Federal/88. Princpio da investidura: as pessoas fsicas, representando o Estado no exerccio da jurisdio, quer por agentes polticos, quer por rgos, precisam de formal investidura para que encarnem o Estado e tenham poder delegado do mesmo para o exerccio da judicatura. Princpio da aderncia ao territrio: a jurisdio, por ser um poder, est sujeita soberania, isto , autoridade suprema do Estado, gerando sua independncia de outros, e, por bvio, tal exerccio de poder s pode ocorrer dentro dos limites fsicos do territrio, para no ferir a soberania de outro Estado. Por isso, a deciso de um juiz brasileiro s poder produzir efeitos nos Estados estrangeiros com a expressa autorizao dos rgos competentes desses Estados. Da mesma forma, as decises estrangeiras produziro efeitos no territrio nacional, desde que preenchidos os requisitos legais. Inevitabilidade: a autoridade dos rgos jurisdicionais advm do poder estatal soberano e impe-se independentemente da vontade das partes. Pouco importa se as mesmas vo ou no aceitar o resultado do processo, pois esto num sistema de sujeio ao Estado-juiz. Inrcia: o princpio que garante a imparcialidade do juiz, pois este deve manter-se eqidistante das partes, evitando-se que tenha qualquer iniciativa na relao processual. O juiz, caso desse incio ao procedimento, somente geraria mais conflitos em vez de solucionar os j existentes, alm da inevitvel parcialidade. Cumpre observar que h excees legais, informadas por critrios de ordem pblica, que possibilitam ao juiz o incio ex officio de relaes processuais, a exemplo da declarao de falncia no4

curso do processo de concordata, a concesso de habeas corpus, a abertura de invent