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Maria Adriana Sousa Carvalho e Lourenço Gomes … · Ana Maria de Almeida Domingos Hermínia Curado Ferreira José Carlos dos Anjos José Silva Évora ... Maria Adriana Sousa Carvalho

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Text of Maria Adriana Sousa Carvalho e Lourenço Gomes … · Ana Maria de Almeida Domingos Hermínia...

  • Maria Adriana Sousa Carvalho e Loureno Gomes

    (ORGANIZADORES)

    Memrias do Liceu da Praia

    Autores:

    Ana Cristina Pires FerreiraAna Maria de Almeida Domingos

    Hermnia Curado FerreiraJos Carlos dos Anjos

    Jos Silva voraLoureno Gomes

    Maria Adriana Sousa CarvalhoMaria Cndida Gonalves

    Edies Uni-CV

    Cidade da Praia

    2013

  • 7

    ndice

    Agradecimentos .................................................................................................................9

    PrefcioJorge Carlos Fonseca ......................................................................................................... 11

    Nota de apresentaoMaria Adriana Sousa Carvalho e Loureno Gomes ...................................................... 15

    I O LICEU NASCE COM A CIDADE

    1 - Praia de Santiago [2 metade do sculo XIX]Jos Silva vora ....................................................................................................... 23

    2 - O primeiro e efmero liceu da Praia [1860-62]Hermnia Curado Ferreira ................................................................................................ 37

    3 - O liceu continua a ser uma aspirao dos Praienses [finais do sculo XIX, 1 metade do sculo XX]Maria Adriana Sousa Carvalho ............................................................................ 47

    II OUTROS TEMPOS, OUTRAS VONTADES

    1 A cidade da Praia [meados do sculo XX]Loureno Gomes ...................................................................................................... 59

    2 O Liceu Gil Eanes de Mindelo expande-se para a Praia [anos 50 do sculo XX]Maria Adriana Sousa Carvalho .......................................................................... 73

    2.1 Estudar na Praia, fazer exames em Mindelo ............................................. 732.2 A Seco do Liceu Gil Eanes na Praia ........................................................ 85

    3 Uma professora exemplar Maria Cndida Gonalves ................................................................................... 129

    III O LICEU DA PRAIA

    1 - Dimenso esttica da obra arquitectnica e largo envolventeLoureno Gomes .................................................................................................... 157

  • 2 - O liceu na imprensa e a imprensa do liceu Maria Adriana Sousa Carvalho ...........................................................................................1772.1 - O liceu na imprensa [1955-1974] ............................................................. 1772.2 - A imprensa do Liceu Adriano Moreira [1965-1967] .............................. 219

    3 - Equipamentos e materiais didcticos: um legado a preservarMaria Adriana Sousa Carvalho ......................................................................... 233

    4 - Testemunhos de antigos alunos: da memria individual colectivaAna Cristina Pires Ferreira e Ana Maria de Almeida Domingos ................... 247

    5 - O liceu da Praia e o nascimento improvvel de uma nao africanaJos Carlos dos Anjos ............................................................................................ 267

    Autores ............................................................................................................................ 283

  • 11

    Prefcio

    O convite para a organizao do presente prefcio surgiu como a oportunidade, um bom motivo, para a descoberta mais minuciosa e acadmica do panorama hist-rico e social que envolveu a criao do Liceu Nacional da Praia, pouco tempo depois, Liceu Adriano Moreira e, a partir dela, reviver episdios que fazem dele, do Liceu da Praia, para ns, muito alm de um objecto de interesse meramente formal ou de estudo. Simplesmente, o Liceu. Sim, porque, para muitos de ns, o Liceu da Praia constitui pedaos vastos e ricos de nossa vida.

    Somando a percepo do interesse da obra ao gosto motivado pela viagem no tem-po a um espao que nos , pessoalmente, muito querido, o convite no poderia ser seno imediatamente aceite.

    A obra que ora se d a lume, com afluncia de minudncias, faz uma viagem pr-memria ou s memrias ntimas e fundas que nos do conta das peripcias, in-meras, por que passou a ideia da criao do Liceu da Praia at sua concretizao e, certamente, vem fortalecer o indispensvel conhecimento, dos estudantes, investiga-dores e curiosos acerca de dinmicas histricas e scio-educativas da cidade capital.

    Sabe-se que a dotao da Capital da Colnia com uma infra-estrutura de forma-o ao nvel do ensino secundrio, a acompanhar o dinamismo cultural da recente cidade, foi uma aspirao e uma necessidade exprimidas desde muito cedo pelos seus cidados, mas que demorou algum tempo a se concretizar; tempo que encerra seus custos, conquanto nem sempre contabilizveis. Que o futuro de muitos jovens poderia ter sido outro, que os movimentos sociais poderiam ter conseguido, mais cedo, lideranas mais esclarecidas e que os movimentos scio-polticos poderiam ter sido mais vigorosos, so algumas das possveis e compreensveis suposies que nos autorizamos a fazer.

    Contudo, no obstante as circunstncias precedentes e as descontinuidades havi-das no propsito de dotar a cidade da Praia de um liceu, - relacionadas a um combi-nado de razes que ser objecto de exame dos colaboradores da presente edio -, a construo do Liceu Nacional da Praia nos anos de 1960 vem satisfazer os anseios e ocupar as medidas dos praienses e de todos os pais e encarregados de educao.

  • Jorge Carlos de Almeida Fonseca

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    O Liceu, que qualquer coisa mais do que uma simples Escola Secundria, esti-mulou o sucesso dos pais e encarregados de educao da Praia e da ilha de Santiago e das ilhas vizinhas e mexeu com a auto-estima do santiaguense; no apenas pelo facto de ter sido, durante muito tempo, o nico estabelecimento de ensino secundrio de Santiago e redondezas, nem s pelo facto de ter sido edifcio mais emblemtico da Ca-pital da Colnia, o Liceu Nacional era o centro do saber, por excelncia, e lugar onde filhos de colonos e de autctones confraternizavam, onde ser aceite significava ter-se provado, ter as aptides necessrias e, para muito boa gente, em boa medida gente humilde, era o prenncio de uma nova vida, com os ps protegidos por sapatos.

    Desde logo, pela possibilidade de os jovens prolongarem seus estudos para alm do 1 e 2 graus. Depois, porque a cidade recebeu um belssimo edifcio, muito bem equipado para a poca e que levou tanto tempo a fazer quanto os brasileiros, sob a autoridade de Juscelino Kubitschek de Oliveira, levaram a construir a nova e geom-trica Capital Braslia.

    No contvamos com arquitectos como Licnio Cruz e o jovem scar Niemeyer, mas tnhamos o projectista Lus Mello, o engenheiro Tito Esteves e os mestres Armando Barros, Tito Barros e Manuel Nen dAnto Fortes e beneficivamos de trabalhadores que se entregaram de corpo e alma aco para nos deixarem as marmorites que fazem do Liceu, mais do que um simples espao de estudo, uma obra de referncia da cidade. So da mesma poca, e da mesma cepa, o Palcio da Justia e a Aerogare do Aeroporto da Praia. Na hora de reviver as memrias da Escola, preste-se tambm homenagem aos obreiros da infra-estrutura que to bem preencheu a Achada Monteagarro.

    Foi a realizao de um sonho to velho quanto o tempo. Contra ventos e mars, ultrapassando preconceitos, tinha-se feito justia aos habitantes da ilha maior e da capital. No mais ter de deixar filhos, adolescentes ainda, sair directamente de Santa Catarina para Mindelo; no mais ter de decidir qual filho iria estudar; no mais ter de suspender a participao na formao da personalidade e na vida do filho porque este tinha de sair de casa para poder fazer o curso secundrio. Podia-se, ENTO - no sem algum sacrifcio, certo - propiciar educao aos filhos que quisessem e pudessem fazer o liceu; podia-se conhecer os professores dos filhos; j se podia acompanhar a evoluo dos rapazes e raparigas; j se podia ir reunio de pais e encarregados de educao. um cenrio novo que surge e so possibilidades que se inauguram!

    Os frutos do Liceu so mltiplos, imensos na sua riqueza e diversidade. Por exem-plo, no LNAM que nascem algumas lideranas que mais tarde encabeariam os movimentos sociais e polticos que culminaram com a implantao da II Repblica, a da democracia e do Estado constitucional, sem esquecer a gerao de alguns jovens que ainda puderam dar a sua contribuio para a independncia nacional, nomeada-mente nas frentes da clandestinidade em Santiago e em Portugal, sobretudo.

  • Prefcio

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    Mas tambm mister a referncia aos jovens de ento que se tornaram figuras de relevo na vida cultural e social do arquiplago, de poetas e escritores a engenheiros, advogados ou arquitectos e economistas.

    Mas falar de memrias do LNAM falar tambm da Mic Associao Acadmica da Praia, agremiao surgida com o Liceu e que logo se notabilizou com uma das mais soberbas formaes de futebol amador que Cabo Verde j teve, sob o impulso de Moacyr (e outros), ento jovem professor liceal. Pensar no LNAM tambm recuar aos meus ainda dez anos de idade, espera de fazer os onze, e inaugurar o liceu onde passei sete anos de minha vida de adolescente e jovem em aulas e estudos mitigados com partidas de futebol trs di liceu (onde, curiosamente, me surgiu o nominho que at hoje trago pendurado), quando a Manito no passasse uma birra qualquer, em primeiros ensaios amorosos, quantas vezes com a cumplicidade amiga dos contnuos, em sabatinas nos in-tervalos deliciosos para ajustes de paixes, de estrias mais ou menos clandestinas, para o pique ou o pisca-pisca, ou, claro, para a corrida aos saborosssimos mas selectivos bolos da Dona Fim, vendidos pela desaforada mas simptica Fil, ou em ensaios e representao de peas de teatro organizados pelo professor Mrio Santos.

    Falar deste Liceu falar de afectos, de estrias muitas, de memrias. De amores, de paixes, de amizades, sucessos, experincias, irreverncias Lembrar alunos brilhantes ou muito bons que por ele passaram como Zequinha di Nha Laura (veio a ser, mais tarde, conhecido mais como Zeca Santos), mais velho e mais adiantado do que eu uns anos, Hdi Fonseca (irm minha, um pouco mais velha, mas sempre no mesmo ano do que eu), mais tarde as irms Georgina e Viviana Melo, Tolanta, Alda e Odete Macedo, sem esquecer Carlos Veiga, Jlio e Toge Lobo, Carlos Silva, Baltazar, o Djoi, o Jos Toms e muitos outros. Recordar professores que nos marcaram de uma forma ou outra, por uma razo ou outra, pela simpatia, pela competncia pedaggica na medida, seguramente muito pouco objectiva, tirada por adolescentes e jovens , pela relativa cumplicidade com os nossos interesses, a nossa postura e o nosso modo de afirmao, ou, ainda, pela excen-tricidade do comportamento ou maior ou menor rigor em sede de disciplina. Gabriela Mariano, Lusa Ribeiro, o inefvel e extico Jorge Roldo (que fazia passeios nocturnos ao largo do liceu apenas com camisola interior, o que lhe valera arrelia grossa com a exigente reitora Lusa Ribeiro), o casal Baltasar Barros e S e Fogaa, Mafalda Barreto, arquitecto Pedro Gregrio, Irene Rodrigues, Olavo Moniz, Jorge Monteiro, do Canto Coral, Se-nhor Barreto, no latim e com as suas famosas chamadas pedra, Fernanda Marques, Carlinhos Ribeiro, da Educao Fsica, um paciente apaixonado pelo desporto e pela ju-ventude, Corsino Fortes e o seu apelo constante poesia e patrocinador de jogatanas de futebol fora do espao da escola, Imelda Godinho, Arnaldo Frana, Moacyr Rodrigues, Mrio Santos, de quem se dizia ser exilado poltico, mas bom professor de histria e din-mico a fomentar e organizar realizaes teatrais que fizeram sucesso na poca, por vezes

  • Jorge Carlos de Almeida Fonseca

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    impetuoso na imputao de portugus di Tchadinha, Viriato Barros, Albano e Teresa Estrela, j no meu final do liceu, ou ainda a memria j longnqua de Marques de Oliveira ou Cunha Leal. E tantos outros

    Geraes e geraes de estudantes conheceram, conviveram, e deram dor de ca-bea aos senhores Osvaldo, Domingos, Armando, Chiquinho, Vicente, contnuos do Liceu, amide funcionando como educadores, quando no cmplices de traquinices muitas, incluindo namoros escondidos ou protegidos em recantos de salas desocupa-das de aulas ou de corredores mais ou menos desertos a certas horas.

    Quem, do nosso tempo, no se lembra ainda dos acampamentos em S. Jorge, opor-tunidade rara de sair e dormir fora de casa, fazer convvios mais horizontalizados socialmente e experimentar coisas mais ou menos proibidas? Ou das renhidas e por vezes durssimas disputas Praia - S. Vicente em diversas modalidades desportivas, as festas de finalistas organizadas com pompa e circunstncia, com os pais a vigiarem de perto movimentaes menos ortodoxas das filhas ou ainda o respeito que mereciam, dos colegas e da sociedade praiense, os integrantes do quadro de honra?

    tambm falar das equipas de sonho de andebol, de futebol de salo que l nas-ceram e medraram do incio da dcada de 60 dcada de 70. Como me lembro das actividades paralelas da JEC (Juventude Escolar Catlica), com o Padre Jos Gon-alves(?) , os retiros no Seminrio S. Jos e a equipa de futebol, com o Djoi, o Mait, o scar, o Odlio, o Jos Toms, o Victor, o Jos Aires Enfim, uma viagem s memrias do LNAM o desfiar de um rosrio de lembranas de sucessos que nunca chegariam se o liceu no tivesse acontecido.

    Quero, outrossim, aqui render justa homenagem aos cidados Bento Benoliel Levy, Joo Modesto e a uns tantos annimos, pelo tanto que se bateram para que o Liceu da Praia fosse uma realidade na altura em que o foi.

    Acabei por no fazer, em rigor, o prefcio da obra, mas, a pretexto dele, revisitar salas, corredores, ptios, espaos de memria e de rostos e estrias. Mas a obra fala por si.

    Que a leitura de MEMRIAS DO LICEU DA PRAIA, em boa hora organiza-das pelos doutores Adriana Beiro de Carvalho e Loureno Gomes, seja uma opor-tunidade para o revisitar de um templo, de um tempo e de um espao, onde muitas histrias, pessoais e da colectividade, conheceram o seu incio.

    Praia, Fevereiro de 2013Jorge Carlos de Almeida Fonseca

    Antigo aluno do Liceu Adriano MoreiraPresidente da Repblica de Cabo Verde

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    Nota de apresentao

    A presente obra reconstitui e desvenda as memrias do Liceu da Praia, numa pers-pectiva histrica e reflexo marcadamente sociolgica. o produto de um laborioso trabalho de investigao cientfica levado a cabo por um grupo de docentes da Uni-versidade de Cabo Verde, ao qual se associou um historiador e tcnico do Arquivo Histrico Nacional e uma prestigiada escritora e professora do ensino secundrio. O empenho dos vrios autores uniu-se em torno do propsito da fixao da memria de experincias passadas, em contexto de uma vivncia comum retractando, inclusi-vamente, a histria da vida estudantil e o percurso profissional na docncia de alguns dos elementos do grupo de investigao.

    Resultado de processos paralelos de investigao cientfica, os textos que integram as Memrias do Liceu da Praia, repousam na construo terica educacional con-tempornea. Representam um esforo heurstico, que se reflecte num olhar multi-disciplinar sobre a histria da educao em Cabo Verde e na aplicao de adequadas metodologias de pesquisa, com recurso a monumentos (iconografia), a documentos escritos, a palavras (etnotextos) e at a gestos (captados nas fotografias de alunos e professores).

    Destaca-se a ampla polissemia da palavra memria, patente no ttulo do livro e nas metodologias utilizadas, numa tenso permanente entre a memria individual e colectiva, plasmada, esta, no discurso escrito por representantes do poder colonial e diluda nas lembranas (auto-percepes) dos que aprenderam e ensinaram no Li-ceu da Praia. As memrias individuais1 de antigos alunos e professores permitem--nos aceder a diversos tipos de realidade: a que tem origem nos factos e a que nasce dos sentimentos e emoes que conformam as lembranas (Viao Frago, 19992). A exaltao da funo docente, atravs da aco educativa de uma professora para-

    1Consultar o texto de Ana Cristina Pires Ferreira e Ana Maria Almeida Domingos.2 Viao Frago, Antonio (1999), Las autobiografias, memorias y dirios como fuente histrico-educati-

    va: tipologia y usos. Citado em Rodrigues, Carla Marisa & Vicentoni, Paula Perin (2004). Memrias de sala de aula: uma anlise de autobiografias de professores. Cadernos Prestige 22. Lisboa: Educa.

  • Memrias do Liceu da Praia

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    digmtica3, incorpora a memria colectiva e remete-nos ao conceito gramsciano do professor, um intelectual orgnico da sociedade civil4.

    A primeira parte do livro intitulada O liceu nasce com a cidade situa-nos no contexto histrico da Praia de Santiago [2 metade do sculo XIX], da autoria de Jos Silva vo-ra que, em breves apontamentos sobre a Praia, revisita o burgo que se transforma em cidade. O autor apresenta uma disposio analtica e cronolgica dos dados histricos considerados de maior relevncia nos primeiros anos aps a ascenso categoria de cidade, altura em que, entre outras instituies importantes, foi criado o Liceu Nacional da Provncia de Cabo Ver-de. A histria da vila / cidade revela os problemas de saneamento, de abastecimento de gua, de gesto urbanstica, que como diz Jos vora acompanharam o percurso da cidade at ao presente.

    A histria do liceu comea com um texto de Hermnia Curado Ferreira que nos apresenta, com base em fontes documentais, O primeiro e efmero liceu da Praia. A autora mostra que o ensino secundrio em Cabo Verde teve o seu incio em 1860, ainda que de uma forma muito tmida. O Liceu Nacional desta Cidade e Provncia entrou em crise nascena, por dificuldades financeiras que provocaram a demisso dos professores, alguns dos quais viriam a leccionar no Seminrio-Liceu, fundado em S. Nicolau no ano de 1866. Numa ponte passado-presente, Hermnia Curado Ferreira lembra que os Paos do Concelho da Praia, que acolheram o primeiro liceu, cento e quinze anos mais tarde viriam a acolher a 1 e 2 sesses legislativas do pas independente (4 e 5 Julho de 1975).

    Face ao desencanto com o efmero liceu, os cidados da Praia persistem na procura de um estabelecimento de ensino secundrio. As trajectrias da cidadania so reconstitudas por Maria Adriana Sousa Carvalho no texto O liceu continua a ser uma aspirao dos Praien-ses. O fio condutor da narrativa est presente nos documentos de arquivo, que revelam as peties e outras tentativas de organizao de uma escola de ensino secundrio na Praia, no ltimo quartel do sculo XIX. Testemunham que, em 1907, por ocasio da visita colnia do prncipe Dom Lus Filipe, simbolicamente, as crianas da Praia pediram a criao de um liceu, acrescentando que um paiz vale o que vale a sua instruco. Outras diligncias no faltaram nos anos subsequentes, como a organizao de cursos de explicaes particulares, sendo de destacar, o Colgio-Liceu Serpa Pinto, criado em 1933 e que, no ano seguinte, en-trou em decadncia com uma perda considervel de alunos. Mais uma vez foram fechadas as portas ao ensino secundrio na capital da colnia.

    3 Consultar o texto de Maria Cndida Gonalves.4 Expresso de Rogrio Fernandes. In Felgueiras, Margarida Louro & Menezes, Maria Cristina (2004).

    Rogrio Fernandes: Questionar a sociedade, interrogar a histria, (re) pensar a educao. Lisboa: Edi-es Afrontamento.

  • Memrias do Liceu da Praia

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    A segunda parte desta obra colectiva reporta-nos a Outros tempos, outras vonta-des. Estamos em pleno sculo vinte e Loureno Gomes descreve A cidade da Praia em meados do sculo XX. Situa-nos num outro contexto, em meados da centria e deixa perceber que a urbe ainda se identificava com o pequeno planalto que correspondeu, durante muito tempo, ao povoado, vila e cidade, delimitada por barreiras naturais, com os bairros nos arredores a se revelarem em estruturao. Por essa altura, a urbanizao da cidade e a definitiva instalao do Liceu Nacional foram apenas uma face da dinmica da urbe. Os diversos eixos urbanos (ruas e largos) apresentavam-se asseados e bem pa-vimentados. Eram circundados ou ladeados por imponentes edifcios, alguns dos quais em construo. Paralelamente ao crescimento da urbe, afirmou-se na Cidade da Praia, um refi-nado gosto esttico, a evidenciar-se, principalmente, nos diversos largos e praas. Havia uma dinmica cultural e uma vida econmica, impulsionada esta ltima, essencialmente, pelo comrcio e pela actividade porturia.

    Maria Adriana Sousa Carvalho prossegue a narrativa histrica, com o texto O Liceu Gil Eanes de Mindelo expande-se para a Praia [anos 50 do sculo XX]. Documenta a saga das famlias da cidade e da ilha de Santiago, que estudavam na Praia e tinham de fazer os exames em Mindelo, onde ficava o nico estabelecimento de ensino secundrio do arquiplago, o Liceu Gil Eanes. Graa vontade cvica organizada, em 1955, foi instalada na cidade da Praia uma Seco do Liceu Gil Eanes, por decreto de 22 de Junho, sendo inaugurada no dia 15 de Outubro deste ano. Apesar da precariedade do prdio da Casa Serbam, na antiga rua S da Bandeira, onde foi instalada, iniciou com 219 alunos. Entre os professores, salientam-se os nomes de Arnaldo Frana e Alfredo de Carvalho Veiga, que tinham sido prestigiados explicadores de muitos jovens da cidade.

    O texto Uma professora exemplar constitui uma homenagem e um tributo de uma ex-aluna, Maria Cndida Gonalves a uma sua antiga professora, a Dra. Maria Lu-sa Tavares e Sousa Blanqui, que teve uma passagem efmera pela Seco do Liceu Gil Eanes na Praia, mas cujo impacto no desenvolvimento de valores ticos e de cidadania nos seus formandos foi incomensurvel. A anlise dos valores demonstrados na actuao da docente feita com um enquadramento terico pertinente que destaca as competncias profissio-nais de um professor de lnguas, a evoluo da metodologia de ensino/aprendizagem de uma lngua estrangeira bem como a preocupao recente das autoridades educativas nacionais para com a necessidade de desenvolvimento de competncias, no actual contexto educacional em Cabo Verde.

    Dimenso esttica da obra arquitectnica do liceu e largo envolvente o ttulo do artigo de Loureno Gomes, que inicia a terceira e ltima parte do livro. Foi o ensejo encontrado para ser realada a beleza arquitectnica do edifcio que albergou o to esperado liceu da cidade. Situado na extremidade norte do Plateau (Centro Histrico da Cidade da Praia), envolve o largo que hoje se apresenta na forma circular e ocupa uma parte

  • Memrias do Liceu da Praia

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    da rea conhecida pela denominao mais comum e mais antiga de Monteagarro. O edifcio ostenta caractersticas correspondentes s obras que foram edificadas na poca do Estado Novo, em Portugal. Representa, a par de outras obras arquitectnicas da mesma poca e do mesmo local, o estilo arquitectnico conhecido como Art Dco, uma corrente esttica que tem por matriz a predominncia de arranjos geomtricos, padronizados e geralmente, vis-veis nos edifcios. Algumas das solues decorativas valorizam a esttica desta edificao e do largo que a envolve. Este possui, no seu centro, um mobilirio urbano na forma de arte pblica decorativa. Esta obra artstica um monumento, a implantado, para assinalar os quinhentos anos dos descobrimentos das ilhas de Cabo Verde, efemride presente na inau-gurao do prprio edifcio do liceu.

    No texto O liceu na imprensa e a imprensa do liceu, Maria Adriana Sousa Car-valho, com a metodologia da anlise de contedos, colectou notcias, artigos de opi-nio e anncios sobre o liceu da Praia na imprensa da poca (2 metade do sculo XX). O Cabo Verde, Boletim de Propaganda e Informao, que versava temticas di-versificadas (agricultura, geologia, obras pblicas, vulcanologia, sade, vida cultural e cvica, literatura, histria, etnografia e arte) dedicou espao considervel ao ensino e educao. Deu destaque especial instalao da Seco do Liceu Gil Eanes na Praia (1955) e aos primeiros anos de vida do liceu na capital (1960 1963). O quo-tidiano do liceu da Praia (1962 a 1974) foi objecto de notcias regulares no jornal O Arquiplago. Nas pginas do peridico podemos reconstituir a vida do Liceu Adriano Moreira: professores, celebraes, saraus culturais, festas e bailes, a presena da igreja e do poder poltico, actividades desportivas, os melhores alunos, os exames, a Mo-cidade Portuguesa, entre outras. A autora apresenta, ainda, a imprensa do liceu, que publicou o jornal acadmico, Mais Alm e a revista Estudos Psicopedaggicos.

    Em Equipamentos e materiais didcticos: um legado a preservar, Maria Adriana Sousa Carvalho demonstra a complementaridade entre o saber terico/livresco e as prticas laboratoriais na poca. As salas com funes para as prticas laboratoriais eram bem equipadas e arrumadas e a biblioteca, na sua funo de auxiliar do ensino deveria promover a leitura domiciliria. Numa abordagem virada para o presente, considera-se que o conjunto de peas laboratoriais, ainda existentes no liceu, podem contribuir para a perdurabilidade da arte de ensinar e aprender, devendo ser preser-vados, porque conservam um assinalvel valor patrimonial e museolgico.

    Ana Cristina Pires Ferreira e Ana Maria Domingos em Testemunhos de anti-gos alunos: da memria individual memria colectiva, recolheram as lembranas e esquecimentos de experincias passadas no liceu da Praia. As fontes orais recons-troem a vida acadmica e os eventos so lembrados luz da experincia do presente. De modo geral, os testemunhos apontam para uma viso agradvel e algo idlica do Liceu. A memria colectiva foi marcada ainda pela existncia, antes de 25 de Abril

  • Memrias do Liceu da Praia

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    de 1974, de um clima controlado no Liceu. Este foi tambm recordado por um lado, como uma importante referncia de qualidade educativa, de organizao institucio-nal e de dinmica cultural e desportiva. Por outro lado, foi um espao de movimento estudantil em prol da independncia.

    O livro fecha com uma reflexo sobre O liceu da Praia e o nascimento improvvel de uma nao africana, da autoria de Jos Carlos dos Anjos. Sob a gramtica de con-traposies entre africanidades e europeidades, o autor analisa uma conjuntura, no caso concreto, centrada nas dcadas de 60 e 70, em que uma intelectualidade cabo--verdiana emergente investe na africanidade como sentido, destino e desejo, mais do que como interesse de classe. O liceu visto por Jos Carlos dos Anjos como uma esfera pblica literria no arquiplago, onde circulou o discurso potico que visava um crculo restrito de leitores: cabo-verdianos, portanto alfabetizados falantes do crioulo. Neste crculo (consubstancias no auditrio do liceu) emerge um poema diferente [] para o povo das ilhas. O autor conclui que na superfcie incorporal do que declamado e que logo depois se desvanece que insiste e subsiste o sentido do acontecimento: independncia nacional como pas africano.

    O texto est ordenado numa lgica passado-presente. A capa do livro, da autoria de Ana Sousa, que tambm foi aluna do liceu, pretende agarrar o modo como o tempo ido capturado numa moldura de azulejos se insinua no presente, fugazmente percebido pelo olhar de um aluno de hoje, de amanh.

    Loureno Gomes

    Maria Adriana Sousa Carvalho