Maria Alice Rezende de Carvalho (CEDES / IUPERJ) – I –

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  • CENTRO DE ESTUDOS DIREITO E SOCIEDADE CADERNOS CEDES NO. 09

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    TEMAS SOBRE A ORGANIZAO DOS INTELECTUAIS NO BRASIL

    Maria Alice Rezende de Carvalho (CEDES / IUPERJ)

    I

    Pensada em chave macroestrutural, isto , na sua relao com o processo de

    modernizao do pas desde o sculo XIX, pode-se dizer que a inteligncia brasileira obedeceu

    a formas de organizao que transitaram (1) das Academias e Institutos, em moldes similares

    aos das monarquias administrativas europias do perodo da Restaurao, para (2) a

    constituio de uma comunidade cientfica centrada na Universidade e na institucionalizao

    do sistema nacional de ps-graduao durante o sculo XX, e, mais recentemente, para (3)

    uma pulverizao de agncias nucleadoras de intelectuais, que, sem deslocar o predomnio da

    modalidade organizacional precedente, vm competindo com ela por jurisdio sobre

    problemas pblicos no tanto em termos de uma disputa por competncias para definir a

    natureza ou a causalidade daqueles problemas, mas no sentido de se avocarem como

    instituies responsveis por sua soluo (GUSFIELD, 1981). ilustrativo desse fenmeno o

    notvel crescimento do nmero de intelectuais reunidos em torno de organizaes no-

    governamentais nas duas ltimas dcadas, bem como a ampliao da influncia dessas

    agncias no espao pblico brasileiro.

    Destacam-se, desse modo, trs eras organizacionais distintas, delineadas a partir da

    forma predominante de institucionalizao do ambiente intelectual no Brasil o que significa

    dizer que, embora Academias, Universidade e ONGs no esgotem as possibilidades de

    organizao da inteligncia nos ltimos dois sculos, so elas as instituies que, cada uma a

    seu tempo, vm fornecendo parmetros para o exerccio da atividade intelectual e a inscrio

    social de seus praticantes.

    II

    Assim, por exemplo, durante o Imprio, ainda que existissem cursos regulares de

    direito, medicina e engenharia, tais Escolas no conformavam o centro da vida intelectual no

    Brasil, consistindo, antes, em espaos de socializao de jovens da elite, sobretudo no caso

    das Escolas de Direito, para ocupao de cargos pblicos. Na prtica, portanto, eram

    instncias do jogo poltico, mais do que agncias de produo intelectual e inovao tcnico-

    cientfica.

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    bem verdade que no sculo XIX a separao entre os campos poltico e intelectual

    no se completara, mesmo em lugares onde a Universidade j existia (FINK, LEONARD & REID,

    1996). E o que se convencionou chamar de intelectual era o letrado que, por aquela poca,

    comeava a ampliar sua margem de autonomia em relao ao poder, animando uma incipiente

    opinio crtica que ser determinante da moderna histria da intelligentsia ocidental

    (MANNHEIM, 1956). As Academias francesas ilustram bem esse percurso, pois, tendo sido

    organizadas sob o Antigo Regime, momento em que vigorou maior identificao entre sbios e

    reis, foram mantidas na era napolenica e mesmo depois dela, no contexto da Restaurao, j

    a com tonalidade um tanto distinta, inclusive pela incorporao de intelectuais de extrao

    social mais baixa, cuja chegada quelas agncias era sintomtica das mudanas observadas

    na relao entre o Estado e a opinio (AUERBACH, 1974).

    Tal modelo de organizao da inteligncia espalhou-se pela Europa e alcanou o Brasil,

    onde, ao longo de todo o sculo XIX, Academias e Institutos constituram-se em espaos de

    animao intelectual e de construo de ideologias profissionais, decisivas, como se sabe,

    para o estabelecimento de jurisdio sobre reas do saber at ento reivindicadas por

    prticos rbulas, no caso de advogados, curandeiros, no de mdicos e mestres-de-obras,

    no mbito da construo civil. Portanto, mais do que as Escolas, foram aquelas agncias que

    conferiram estatuto de profisso ao exerccio das artes liberais no Brasil (COELHO, 1999).

    Alm disso, pode-se dizer que a proliferao das Academias sob o Imprio foi parte de

    uma poltica devotada ampliao da esfera estatal, mediante o incremento dos quadros do

    funcionalismo e a democratizao do acesso a eles, principalmente no ramo militar (MOTTA,

    1976), a extenso da instruo pblica referida formao tcnica de artfices e grficos do

    que exemplo a criao do Imperial Instituto Artstico , e a construo de espaos de

    organizao de intelectuais e artistas sob o padro dominante no continente europeu. Assim,

    como realidade tpica dos Estados ampliados do perodo da Restaurao, a reproduo das

    Academias no sculo XIX, na Europa como no Brasil, atesta, no plano cultural, o andamento de

    uma modernizao em compromisso com o passado (GRAMSCI, 2002). Se, no continente

    europeu, as dinastias monrquicas restauradas no lograram cancelar a novidade introduzida

    pelas foras sociais do Terceiro Estado e o recrutamento alargado das Academias conota

    transformaes intersticiais ou moleculares em curso naquelas sociedades , no Brasil, caso

    mais recessivo de revoluo passiva (WERNECK VIANNA, 1997), a iniciativa do Poder

    Moderador em organizar agncias intelectuais conforma um movimento de modernizao sob

    controle poltico do Imperador.

    De modo que, pensar a organizao dos intelectuais brasileiros no sculo XIX impe

    atentar para o processo de centralizao do poder, cuja trajetria compreendeu uma ampliao

    do escopo do Estado, ao definir como de interesse pblico a produo das cincias e das artes

    no Brasil. Tal fato, em ltima anlise, evidencia a fora diretora da tradio, na medida em que

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    implicou atualizar, em pleno Oitocentos, a velha matriz do absolutismo portugus, segundo a

    qual o Rei busca incrementar seu poder sem confrontar diretamente as classes senhoriais,

    agregando, para tanto, outros espaos, materiais e simblicos, que o direito tradicional no

    poderia disputar (HESPANHA, 1994; BARBOZA FILHO, 1999). No contexto do renascimento

    lusitano isso se traduziu na incorporao de novos territrios na frica, Amrica e Oriente,

    enquanto no sculo XIX, no mbito do Estado nacional brasileiro, consistir na dupla frmula

    da defesa da unidade territorial que conferia reservas de soberania ao monarca e da

    criao de espaos simblicos de poder exclusivos ao rei, do que a criao de agncias

    intelectuais foi expresso.

    O fato que, tomando a organizao dos intelectuais para si, como elemento

    constitutivo do seu poder, a monarquia brasileira conferiu dimenso pblica atividade

    intelectual, e essa ser a marca de origem da moderna inteligncia no pas. Instituies como a

    Academia Cientfica do Rio de Janeiro, precursora desse formato organizacional e devotada a

    estudos prticos de agricultura, ainda no contexto colonial (1772-1779); a Real Academia

    Militar e o Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, ambos de 1810, o ltimo criado

    especificamente para abrigar a Coleo Werner, trazida para o Rio de Janeiro por D. Joo VI; o

    Museu Nacional, instituio de pesquisa em cincias naturais, notadamente a mineralogia e a

    geologia, e antecessora, nesse sentido, da Escola Politcnica e da Escola de Minas de Ouro

    Preto, ambas criadas na dcada de 1870; a Academia Imperial de Belas Artes, resultado da

    Misso Francesa de 1816; o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (1838), esteio da

    ideologia nacional no sculo XIX; a Academia Imperial de Medicina e a Santa Casa de

    Misericrdia do Rio de Janeiro, essa ltima aplicada, desde 1887, ao desenvolvimento de

    pesquisas contra a varola; o Instituto dos Advogados Brasileiros (1843); a Sociedade de

    Geografia; o Clube de Engenharia, criado em 1880 e tornado, juntamente com a Sociedade

    Auxiliadora da Indstria Nacional, um plo de coordenao poltica e intelectual do estrato de

    engenheiros; a Associao de Homens de Letras e o Colgio Pedro II, dentre tantas outras,

    ilustram o modo dominante de organizao da vida intelectual em terras brasileiras.

    Em suma, o Brasil no sculo XIX foi palco de intensa atividade intelectual, conjugada

    ao diretiva do Estado. A interveno estatal nesse plano no derivou fundamentalmente da

    adeso monrquica ao iluminismo tardio, ou de inclinaes pessoais de D. Pedro II embora

    as tivesse para se acercar de sbios. Indica, antes, uma concepo poltica da prtica

    intelectual, entendendo-a como reserva de soberania do rei e, nessa dimenso, como matria

    de interesse pblico (KANTOROWICZ, 1998).

    Tal lgica de reproduo do poder, contudo, produziu efeitos positivos o principal

    deles, a quebra do monoplio que as classes dominantes classicamente exercem sobre o

    processo de constituio da atividade intelectual, abrindo-se uma porta de oportunidades para

    os que, apartados do mundo relativamente homogneo das elites senhoriais, souberam

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    transp-la. Intelectuais oriundos de estratos mdios da sociedade, e mais o numeroso

    contingente de mulatos urbanos que Gilberto Freyre (1990) surpreende em ofcios modernos no

    ltimo quartel do sculo XIX, expressam relativa diferenciao do ambiente intelectual sob o

    Imprio, malgrado sua intencionalidade. Enfim, o quadro institucional que explica a forma de

    articulao entre poltica e cultura no Oitocentos brasileiro igualmente explicativo da

    dimenso estratgica conferida s agncias intelectuais. Tal cenrio no resistiria

    proclamao da Repblica.

    III

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