Maria Clotilde Rossetti-Ferreira Katia de Souza Amorim Zilma de .2010-06-09 · Zilma de Moraes Ramos

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  • 437PSICOLOGIA USP, So Paulo, julho/setembro, 2009, 20(3), 437-464.

    OLHANDO A CRIANA E SEUS OUTROS: UMA TRAJETRIA DE PESQUISA EM EDUCAO INFANTIL1 2

    Maria Clotilde Rossetti-FerreiraKatia de Souza Amorim

    Zilma de Moraes Ramos de Oliveira

    Resumo: Com o objetivo de contribuir para o atual e intenso processo

    de reviso de concepes e de seleo e fortalecimento de prticas pedaggicas mediadoras

    da aprendizagem e desenvolvimento das crianas em creches e pr-escolas, e com base nas

    experincias de pesquisa do CINDEDI, abordamos neste artigo uma srie de questes que nos

    parecem relevantes para a compreenso desse fenmeno da educao coletiva de bebs. Que

    contribuies as pesquisas sobre o desenvolvimento humano tm a oferecer para essa discusso?

    De que concepo de desenvolvimento elas partem? Que perspectiva metodolgica pode abrir

    caminhos promissores para se compreender as formas das crianas e seus educadores atuarem

    e se modifi carem com a experincia? Como entender as noes de estgios de desenvolvimento,

    a funo do professor na aprendizagem, os fatores explicativos do desenvolvimento infantil e a

    avaliao do desenvolvimento nessa faixa etria? Tanto os familiares como os profi ssionais da

    creche interagem com a criana e organizam seu ambiente conforme suas expectativas sobre o seu

    desenvolvimento e sobre seu prprio papel em relao a ela. Tais expectativas so adquiridas atravs

    de suas experincias de vida naquela cultura. Vrias expectativas, crenas e teorias psicolgicas

    1 Este artigo foi reformulado a partir de uma conferncia de abertura de evento da Sociedade Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento (SBPD), proferida pela primeira autora, cuja referncia de publicao vem a seguir: Rossetti-Ferreira, M. C.(2006). Olhando a pessoa e seus outros, de perto e de longe, no antes, aqui e depois. In D. Colinvaux, L.B. Leite & D. D. DellAglio (Orgs) Psicologia do desenvolvimento: teorias e pesquisas e aplicaes (pp. 19-59). So Paulo: Casa do Psiclogo.

    2 As autoras agradecem os auxlios e bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfi co e Tec-nolgico (CNPq), Fundao de Auxlio Pesquisa do Estado de So Paulo (FAPESP) e Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior (CAPES), que possibilitaram suas pesquisas.

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    tm, assim, um forte poder auto-realizador, ajudando a construir competncias e

    defi cincias. Sem dvida, as crianas e as equipes de educadores das instituies de

    Educao Infantil tm muito a ganhar conforme repensam essas questes.

    Palavras-chave: Educao infantil. Concepes sobre desenvolvimento. Interao

    criana-criana. Rede de signifi caes.

    A rea de educao infantil vive hoje intenso processo de reviso de concepes e de seleo e fortalecimento de prticas pedaggicas media-doras da aprendizagem e desenvolvimento das crianas em creches e pr-escolas. Em particular, a discusso sobre como orientar o trabalho junto s crianas de at trs anos em creches tem se mostrado prioritria. Essa temtica apenas agora comea a ser tratada em cursos de formao de professores e os conhecimentos neles trabalhados necessitam responder a vrias questes, como: Que contribuies as pesquisas sobre o desenvol-vimento humano tm a oferecer educao de bebs em creches? De que concepo de desenvolvimento elas partem? Que perspectiva metodol-gica pode abrir caminhos promissores para se compreender as formas das crianas e seus educadores atuarem e se modifi carem com a experincia? Como entender as noes de maturao, de estgios de desenvolvimento, a funo do professor na aprendizagem, os fatores explicativos do desen-volvimento infantil e a avaliao desse desenvolvimento?

    Vises terico-metodolgicas contribuem para construir realidades sociais que podem, por sua vez, infl uir, modifi car e ampliar/restringir o de-senvolvimento e a qualidade de vida das pessoas, podendo muitas vezes at inseri-las em um movimento de excluso. As teorias, em funo de seus pressupostos, consolidam formas no s de compreender e estudar os pro-cessos desenvolvimentais, como tambm elas constituem as relaes que lhes daro suporte e as prticas profi ssionais que incidiro sobre elas. Isso chama a ateno para a responsabilidade moral e tica do pesquisador.

    Em funo dessas questes, ao longo de quase trs dcadas, no CIN-DEDI, temos investigado vrios temas sobre educao infantil coletiva, de uma forma articulada com a participao em discusses e proposies de polticas e prticas sociais na/para a rea. Ao longo desse perodo, cons-trumos uma perspectiva terico-metodolgica que nos tem possibilitado compreender e orientar formas de educao e cuidado de crianas peque-nas em instituies, como o caso da creche, da pr-escola e de abrigos.

    Entendemos o desenvolvimento humano como um processo que envolve coconstruo nas e atravs das interaes que as pessoas estabe-lecem em cenrios especfi cos, os quais so socialmente regulados e cul-turalmente organizados. (Amorim, 2002, p. 2). De uma perspectiva scio-

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    histrica, tal processo se d pela imerso das pessoas em prticas culturais onde atuam a partir de posies historicamente construdas em relao a seus parceiros (Oliveira, 2002).

    Essas concepes serviram de base para a perspectiva terico-meto-dolgica de anlise dos comportamentos e do desenvolvimento humano por ns elaborada, denominada Rede de Signifi caes (RedSig) (Rossetti-Ferreira, Amorim, & Silva, 2004). Ela estuda o desenvolvimento humano dentro de uma abordagem que contempla o paradigma da complexidade e possibilita que o foco de anlise de uma situao ou proposta se coloque nas interaes que as pessoas estabelecem, em contextos concretos, e que so permeadas por uma matriz scio-histrica e por signifi caes que tm materialidade no aqui e agora das situaes.

    Nossa contribuio aqui ser a de mostrar como aquela perspectiva abre novos olhares para a educao e o desenvolvimento de crianas de at trs anos. Para tanto, vamos inicialmente fazer algumas consideraes e dialogar com algumas linhas da Psicologia do Desenvolvimento.

    O foco no indivduo/pessoa

    Ao propor sua teoria ecolgica de desenvolvimento humano, Urie Bronfenbrenner (1979, 1986) apontou, a partir de extensa reviso biblio-grfi ca, que tem predominado na Psicologia do Desenvolvimento o estudo dos processos de desenvolvimento com foco no indivduo (geralmente na criana). O foco na dade adulto-criana teria surgido posteriormente, sen-do priorizada a dade me-criana. Apesar das intensas mudanas ocorri-das desde o levantamento de Bronfenbrenner, outras anlises revelaram que esses focos continuam a prevalecer nas investigaes e intervenes dos psiclogos (Cairns, 1983; Horowitz, 1987).

    A maioria dos Manuais de Psicologia do Desenvolvimento refl ete bem a predominncia de uma viso fragmentada e descontextualizada na rea. Fala-se no desenvolvimento linear do indivduo, agrupando os fatos de tal processo em estgios, etapas ou fases. No entanto, vale destacar que entre os diferentes autores que tm trabalhado com a concepo de est-gios e fases, h diferenas importantes, traduzindo concepes de estgios muito diversas e at mesmo opostas. Apesar disso, os autores esforam-se por defi nir os estgios e sua sucesso; por discutir o problema da passagem de um estgio a outro e, ainda, por colocar a questo sobre a continuida-de/descontinuidade do desenvolvimento. Como frisa Horowitz (1987), trs tm sido as caractersticas centrais da busca por sedimentar essa linha: 1) apesar das aparentes amplas variaes nos ambientes nos quais as crianas crescem e se desenvolvem, h uma grande correspondncia entre crianas normais com respeito a comportamentos e capacidades gerais; 2) o surgi-mento e transformao daquelas habilidades so vistas como tendendo a

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    ocorrer ao longo de um plano e de uma sequncia muito semelhantes na maioria das crianas; e, 3) h uma tendncia a que os desvios e defl exes do curso normal de desenvolvimento sejam curtos e de infl uncia tempo-rria com respeito trajetria desenvolvimental.

    Outro aspecto marcante nessa linha de que, at cerca de duas d-cadas atrs, esse desenvolvimento e suas fases inclua apenas a infncia, a idade escolar e a adolescncia. Aps essas fases, compreendia-se que era atingida a maturidade, qual se seguia o declnio, a decadncia, tanto que a rea por muito tempo foi denominada de Psicologia da Criana. No entanto, a presso do crescimento demogrfi co da populao idosa nos pases de primeiro mundo imps uma reviso desses conceitos (como em Baltes, Staudinger & Lindenberger, 1999), j prenunciada por autores como Jung e Erikson, passando-se a incluir os indivduos na idade adulta e velhi-ce como seres em desenvolvimento.

    Em anos recentes, no entanto, a perspectiva de estgios tem sofrido uma srie de questionamentos, como discute Horowitz (1987). Uma das crticas refere-se ao fato de que as sequncias relativamente estveis re-lacionadas inteligncia e ao desenvolvimento da linguagem tm sido identifi cadas em um nmero limitado de crianas. A maior evidncia de se-quncia tem sido mais claramente observada no desenvolvimento motor. No entanto, apesar da sequncia ser um critrio necessrio para o estabe-lecimento de estgios, em si ela no seria um critrio sufi ciente.

    Como diz a autora, embora no haja dvidas de que existe uma or-dem sequencial, permanecem, todavia, vrios questionamentos. Os est-gios, apesar de darem a aparncia de um progresso na organizao com-portamental, no representam um recurso teoricamente simplifi cador, j que, como conceitos organizacionais, eles no permi