Marie Lu - [Legend 02] Prodigy

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Text of Marie Lu - [Legend 02] Prodigy

  • OS O P O S T O S PERTO DO CAOS

    PRUMO

    tiliS

  • M A R I E L U

    UM ROMANCE DA TRILOGIA LEGEND

    PRODIGY OS OPOSTOS PERTO DO CAOS

    Traduo EBRIA DE CASTRO ALVES

    PRUMO leia

  • Para Primo Gallanosa, meu farol

  • LAS VECAS, NEVADA REPBLICA DA AMRICA

    o o o

    POPULAO: 7.427.431 HABITANTES

  • 4 DE JANEIRO, 19H32. HORRIO PADRO DO OCEANO. 35 DIAS DEPOIS DA MORTE DE METIAS.

    Day acorda assustado ao meu lado. Sua testa est coberta de suor, e seu rosto, molhado de lgrimas. Ele respira com dificuldade.

    Eu me debruo sobre ele e afasto uma mecha de cabelo molhada de seu rosto. A esfoladura rio meu ombro j est coberta por uma casca, mas meus movimentos fazem com que volte a latejar. Day senta-se, esfrega os olhos, e olha ao redor como se procurasse por alguma coisa dentro do vago inclinado. Olha primeiro para as pilhas de engradados num canto escuro, depois para a lona que forra o cho e para a pequena sacola de comida e gua entre ns. Ele demora um minuto para se reorientar, e para se lembrar de que estamos pegando carona num trem com destino a LasVegas. Passam-se alguns segundos at ele relaxar a postura rgida e se largar contra a parede.

    Dou um tapinha afetuoso em sua mo.

    -Voc est bem? Essa minha pergunta constante. Day d de ombros e murmura:

    - Estou. Foi s um pesadelo.

    Nove dias se passaram desde que samos de Batalla Hall e fugimos de Los Angeles. Desde ento, Day tem pesadelos toda vez em que fecha os olhos. Logo que fugimos, conseguimos dormir algumas horas em um ptio de manobras abandonado, e Day acordou gritando. Tivemos sorte, e nenhum soldado ou policial fazendo a ronda nas ruas o ouviu. Depois disso, criei o hbito de acariciar seus cabelos, assim que ele adormece, e de beijar seu rosto, a testa e as plpebras. Ele ainda acorda aos soluos, e os olhos procuram freneticamente todas as coisas que perdeu, mas, pelo menos, faz isso em silncio.

  • Prodigy

    s vezes, quando Day fica tranqilo assim, eu me pergunto se ele est conseguindo manter a sanidade. Essa idia me assusta. No posso me dar ao luxo de perd-lo.

    Fico tentando me convencer de que me sinto assim por razes prti-cas: teramos reduzida nossa possibilidade de sobreviver sozinhos a esta altura, e as habilidades dele complementam as minhas. Alm do mais, no me restou ningum a quem proteger.

    Tambm tenho minha cota de lgrimas, embora sempre espere para chorar depois de ele ter dormido. Ontem noite gritei o nome de OUie. Sinto-me meio boba ao chorar por meu cachorro quando a Repblica ma-tou nossas famlias, mas no posso evitar. Foi Metias que o levou para casa; era uma bolinha branca com patas enormes, orelhas penduradas e grandes e afetuosos olhos castanhos. A criatura mais doce e desengonada que eu havia visto. Ollie era muito amado, e eu o deixara para trs.

    - Com o que voc sonhou? - sussurrei.

    - No me lembro - respondeu ele.

    Day mudou de posio, e estremeceu ao raspar sem querer a perna 11 ferida no cho. A dor fez seu corpo enrijecer e percebi que seus braos estavam rgidos sob a camisa, protuberncias de puro msculo, resultado de sua luta pela vida nas ruas. Um respirar forado lhe escapou dos l-bios. A maneira como ele me empurrou contra a parede daquele beco, o ardor de seu primeiro beijo. Desviei o olhar de sua boca e tentei afugentar aquela lembrana, constrangida.

    Ele aponta com a cabea para as portas laterais do vago e pergunta: - Onde estamos agora? Devemos estar perto, no?

    Eu me levantei, satisfeita porque a pergunta me deu algo novo em que pensar e me apoiei na parede oscilante enquanto espreitava pela janela minscula do vago. A paisagem no havia mudado muito: filas interminveis de prdios de apartamentos e fbricas, chamins e antigas autoestradas abauladas, todas banhadas pelos tons azuis, acinzentados e roxos da chuva vespertina. Ainda estvamos passando pelas favelas, que pareciam idnticas s de Los Angeles. Uma enorme represa se estendia ao longe. Esperei at um enorme telo comear a piscar, depois apertei os olhos para ver as letrinhas no canto debaixo da tela.

  • J u n e

    - Boulder City, Nevada. Estamos bem perto agora. O trem provavel-

    mente vai parar aqui por algum tempo, mas depois no deve demorar

    mais de cinco minutos para chegar aVegas.

    Day inclina a cabea, concordando. Ele se debrua, abre a nossa sacola

    de alimentos, procura algo para comer, e diz:

    - Beleza! Quanto mais rpido chegarmos, mais rpido vamos encontrar

    os Patriotas.

    Ele parece distante. As vezes, Day me conta seus sonhos: ser repro-

    vado na sua Prova, perder Tess nas ruas ou fugir das patrulhas contra a

    praga. Tem tambm pesadelos sobre ser o criminoso mais procurado da

    Repblica. Em outras ocasies, quando fica do jeito que est agora e no

    me conta nada, sei que ele sonhou com a famlia dele: a morte da me,

    ou de John. Talvez seja mesmo melhor que ele no me fale sobre seus

    pesadelos. Meus sonhos ruins j so suficientes para me assombrar e

    no sei se tenho coragem de saber os dele.

    -Voc est mesmo determinado a encontrar os Patriotas, no est?

    - pergunto quando Day tira da sacola de alimentos um naco ranoso de

    massa frita. Esta no a primeira vez em que questiono sua insistncia

    em ir aVegas, e sou cautelosa quanto maneira de abordar o assunto. A

    ltima coisa que quero que Day pense que no me importo com Tess,

    ou que tenho medo de me defrontar com o famoso grupo rebelde dos

    Patriotas. -Tess foi com eles porque quis. Ser que estamos colocando-a

    em perigo ao tentar reav-la?

    Day no responde imediatamente. Ele parte a massa frita pela metade

    e me oferece um pedao:

    - Pega um pedao. J faz um tempo que voc no come.

    Ergo a mo gentilmente, num sinal negativo, e respondo:

    - No, obrigada. No gosto de massa frita.

    No mesmo instante, desejei engolir minhas palavras. Day baixa os

    olhos, recoloca a segunda metade na sacola, e comea a comer seu

    pedao. Eu sou uma idiota: "No gosto de massa frita". Quase consigo

    ouvir o que se passa na cabea dele: Pobre menina rica, com suas frescuras

    e modos elegantes. Ela pode se dar o luxo de no gostar da comida.

  • Prodigy

    Eu me censurei em silncio, e prometi ter mais cuidado na prxima vez.

    Aps mastigar um pouco, Day finalmente responde: - Eu no vou deixar Tess pra trs sem saber se ela est bem.

    Claro que ele no faria isso. Day jamais deixaria para trs uma pessoa com quem se importasse, especialmente a menina rf com quem cres-ceu nas ruas. Tambm compreendo o valor em potencial de encontrar os Patriotas; afinal de contas, os rebeldes nos ajudaram a fugir de Los Angeles. So um grupo grande e bem organizado.

    Talvez eles tenham informaes sobre o que a Repblica est fazendo com den, o irmozinho caula de Day. Pode ser at que possam ajudar a curar seu ferimento na perna. Desde aquela manh fatdica em que a Comandante Jameson lhe deu um tiro na perna e o prendeu, a leso de Day parece uma roda-gigante: melhora e depois piora. Sua perna esquerda agora uma massa de ossos quebrados e carne sangrenta. Ele precisa de cuidados mdicos.

    Temos, porm, um problema. - Os Patriotas s vo nos ajudar se forem pagos, Day. Que podemos 13

    dar a eles?

    Para enfatizar o que disse, meto a mo nos bolsos e deles tiro um pequeno mao de dinheiro, quatro mil Notas. Era tudo que eu tinha co-migo antes de fugirmos. E incrvel como sinto falta do luxo da minha antiga vida. Existem milhes de Notas em nome da minha famlia, Notas s quais jamais voltarei a ter acesso.

    Day fica examinando o pedao de massa em sua mo, e considera minhas palavras, com os lbios cerrados.

    - , eu sei - diz ele, passando a mo no cabelo louro emaranhado -, mas o que voc sugere que a gente faa? A quem mais podemos recorrer?

    Sacudo a cabea, em sinal de impotncia. Day est certo a esse res-peito; embora eu no tenha o menor prazer em rever os Patriotas, nossas opes so bastante limitadas. Antes, quando os Patriotas nos ajudaram a fugir do Batalla Hall, quando Day continuava inconsciente e eu estava ferida no ombro, pedi aos Patriotas que nos deixassem ir com eles at Vegas. Eu esperava que eles continuassem a nos ajudar, mas...

    Eles se recusaram.

  • June

    - Tu s pagou a gente para impedir que Day fosse executado; no pagou para levar esse rabo machucado de vocs daqui at Vegas - foi o que Kaede disse na ocasio. E completou: - Porra, os soldados da Repblica esto caando vocs por a. Isso aqui no uma instituio de caridade. No vou arriscar meu lindo pescocinho por vocs dois de novo; s se tiver grana na jogada.

    At essa altura, eu quase havia acreditado que os Patriotas se im-portavam conosco, mas as palavras de Kaede me trouxeram de volta realidade. Eles s nos ajudaram porque paguei Kaede 200.000 Notas da Repblica, o dinheiro que recebi como recompensa pela captura de Day. Mesmo assim, foi necessria alguma persuaso antes que ela mandasse seus companheiros Patriotas nos ajudar.

    Permitiram que Day visse Tess. Deram um jeito em sua perna machu-cada. Ajudaram-nos com informaes sobre o paradeiro do irmo de Day. Todas essas coisas implicam suborno.

    Foi uma pena eu no ter tido oportunidade de pegar mais dinheiro antes de irmos embora.

    -Vegas o pior lugar possvel para ficarmos perambulando sozinhos - digo a Day enquanto cuidadosamente esfrego meu ombro em proces-so de cura. - Talvez os Patriotas nem nos recebam. S quero ter certeza de que estamos fazendo a coisa certa.

    - June, sei que voc no consegue acreditar que os Patriotas sejam nossos aliados - respondeu Day. -Voc foi treinada para odi-los, mas eles so mesmo aliados em potencial. Confio neles mais do que na Re-pblica. Voc no?