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Marie Lu - Legend

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  • Para Minha Me

  • LOS ANGELES, CALIFRNIA

    POPULAO: 20.174.282 HABITANTES

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    A

  • Minha me pensa que estou morto.

    Obviamente, no estou morto, porm mais seguro para ela pensar

    que estou.

    Pelo menos duas vezes por ms vejo meu cartaz de "Procura-se",

    exibido nos teles de TV espalhados no centro de Los Angeles. Ele parece

    meio deslocado l. A maioria das fotos nas telas mostra coisas felizes:

    crianas sorridentes sob um cu de brigadeiro, turistas posando diante

    das runas da Golden Gate, comerciais da Repblica em cores de non. H

    tambm propaganda anticolnias. "As Colnias querem nossas terras",

    afirmam os anncios. "Eles querem o que no tm. No permita que eles

    conquistem seus lares. Apoie nossa causa!"

    E ento aparece minha ficha criminal. Ela ilumina os teles de TV, em

    toda a sua glria multicolorida:

    PROCURADO PELA REPBLICA

    Arquivo N 462178-3233 DAY

    ---------------------------------------------------- PROCURADO POR AGRESSO, INCNDIO, ROUBO, DESTRUIO DE PROPRIEDADES MILITARES E POR PREJUDICAR O ESFORO DE GUERRA. RECOMPENSA DE 200.000 NOTAS DA REPBLICA POR INFORMAES QUE LEVEM PRISO DESSE ELEMENTO.

    Os cartazes sempre trazem uma foto diferente com minha ficha. Certa

  • vez era a de um menino de culos, com a cabea cheia de grossos cachos

    cor de cobre. De outra vez, a foto era de um garoto de olhos negros e

    carequinha. s vezes sou negro, s vezes, branco, outras vezes pardo,

    moreno, amarelo ou vermelho, ou qualquer outra coisa que lhes venha

    cabea.

    Em outras palavras: a Repblica no tem ideia da minha aparncia.

    Parece que eles no sabem quase nada sobre mim, exceto que sou jovem e

    que, quando verificam minhas impresses digitais, no encontram no seu

    banco de dados nenhuma que corresponda. E por isso que me odeiam,

    porque no sou o criminoso mais perigoso do pas, e sim o mais

    procurado. Eu fao que eles paream ineficientes, pois no conseguem me

    capturar.

    Estamos no incio da noite, mas j est um breu l fora, e os reflexos

    das telas grandes de TV so visveis nas poas da rua. Eu me sento no

    parapeito esfacelado de uma janela a trs andares de altura, oculto da

    viso, atrs das vigas de ao enferrujadas. O prdio era um conjunto de

    apartamentos, mas agora est em runas. Lmpadas quebradas e cacos de

    vidro se espalham, desordenadamente no cho deste cmodo, e todas as

    paredes esto com a tinta descascada. Em um canto, no cho, um velho

    retrato do Primeiro Eleitor jaz no cho, virado para cima. Eu me pergunto

    quem morava ali. Ningum pirado o bastante para deixar seu retrato do

    Primeiro Eleitor abandonado no cho daquele jeito.

    Meu cabelo, como sempre, est enfiado num velho bon de jornaleiro.

    Meus olhos esto fixos na pequena casa de um andar do outro lado da rua.

    Minhas mos mexem com o medalho pendurado no meu pescoo.

    Tess se debrua na outra janela do cmodo, ela me observa

    atentamente. Estou inquieto e, como sempre, ela percebe isso.

    A praga atingiu com fora o setor Lake. O brilho dos teles

    possibilita, a Tess e a mim, ver os soldados no fim da rua, medida que

    eles inspecionam todas as casas, com suas capas negras reluzentes, usadas

    soltas por causa do calor. Cada um deles usa uma mscara de gs. s

    vezes, quando aparecem, marcam uma casa com um grande X vermelho na

    porta da frente. Depois disso, ningum entra ou sai da casa. Pelo menos,

  • no enquanto algum est olhando.

    Voc ainda no consegue ver os caras? Murmura Tess. As sombras

    ocultam sua expresso.

    Numa tentativa de me distrair, monto um estilingue improvisado com

    pedacinhos de antigos tubos de PVC:

    Eles no jantaram. Faz horas que eles no se sentam mesa.

    Eu mudo de posio e estendo meu joelho ruim.

    Vai ver eles no esto em casa.

    Olho irritado para Tess. Ela est tentando me consolar, mas no

    estou a fim.

    Uma luz est acesa. Veja aquelas velas. Mame no gastaria velas

    se ningum estivesse em casa.

    Tess se aproxima e diz:

    A gente devia sair da cidade por umas duas semanas, n? Ela

    tenta manter a voz calma, mas d para notar seu medo. -logo a praga vai

    acabar e voc pode voltar para visitar. Temos dinheiro mais do que

    suficiente para duas passagens de trem.

    Sacudo a cabea e digo:

    Uma noite por semana, lembra? S quero ver como eles esto uma

    noite por semana.

    Sei... voc veio aqui todas as noites essa semana.

    S quero ter certeza de que eles esto bem.

    E se voc ficar doente?

    Vou me arriscar. E voc no precisava ter vindo comigo, podia ter

    me esperado em Alta.

    Tess d de ombros e diz:

    Algum tem de vigiar voc.

    Ela tem dois anos a menos do que eu, embora s vezes parea velha o

    bastante para tomar conta de mim.

    Observamos em silncio enquanto os soldados se aproximam da casa

    da minha famlia. Toda vez que eles param numa casa, um soldado bate

    porta enquanto um segundo homem fica ao lado, de arma em punho. Se

    ningum abre a porta em dez segundos, o primeiro soldado a arromba com

  • um pontap. No consigo v-los quando entram s pressas, mas conheo

    esse procedimento: um soldado vai colher uma amostra de sangue de cada

    membro da famlia, depois vai conect-la num leitor porttil para

    verificar se h indcios da praga. Todo o processo demora dez minutos.

    Conto as casas entre o local onde os soldados esto agora e onde

    mora minha famlia. Vou precisar esperar uma hora antes de saber o que

    aconteceu com meus familiares.

    Ouve-se um guincho vindo do outro lado da rua. Meus olhos se movem

    rapidamente em direo ao barulho, e minha mo agarra a faca

    embainhada no meu cinto. Tess engole em seco.

    uma vtima da praga. Essa mulher deve estar se deteriorando h me-

    ses, porque sua pele est rachada e sangrando. Eu me pergunto como os

    soldados no repararam nela nas inspees anteriores. Ela cambaleia por

    um tempo, desorientada, depois vai frente, tropea e cai de joelhos.

    Olho mais atrs, na direo dos soldados. Eles agora a veem. O soldado

    com a arma na mo se aproxima, enquanto os outros onze ficam onde

    esto e observam. Uma vtima da praga no uma grande ameaa. O

    soldado ergue a arma e mira. Uma salva de fascas acaba com a mulher

    infectada.

    Ela desmorona, depois fica imvel. O soldado volta a unir-se aos com-

    panheiros.

    Eu gostaria que pudssemos pegar uma das armas dos soldados. Uma

    arma bonita como aquela no custa muito no mercado, 480 Notas, menos

    que um fogo. Como todas as armas, tem preciso, guiada por ms e

    correntes eltricas, e pode atingir com exatido um alvo a trs

    quarteires de distncia. E tecnologia roubada das Colnias, disse papai

    uma vez, embora seja claro que a Repblica jamais admitiria isso. Tess e

    eu poderamos comprar cinco armas daquela, se quisssemos... Ao longo

    dos anos aprendemos a estocar o dinheiro extra que roubamos, e a

    mant-lo escondido, para emergncias. Mas o verdadeiro problema em ter

    uma arma no a despesa, que muito fcil de ser rastreada, levando

    at voc. Toda arma tem um sensor que informa o formato da mo de

    quem a usa, impresses digitais, e localizao. Se isso no me

  • denunciasse, nada mais o faria. Ento, permaneo com minhas armas

    caseiras, estilingues de tubos de PVC e outras bugigangas.

    Eles encontraram outra casa diz Tess. Ela aperta os olhos para

    conseguir ver melhor.

    Olho e vejo os soldados sarem rapidamente de outra casa. Um deles

    sacode uma lata de spray de tinta e desenha um X vermelho gigantesco na

    porta. Conheo essa casa. H tempos, a famlia que mora l tinha uma

    filhinha da minha idade. Meus irmos e eu brincvamos com ela quando

    ramos mais novos, de pega-pega e hquei de rua, com ps de ferro e

    bolinhas de papel.

    Tess tenta me distrair ao apontar com a cabea para o embrulho de

    pano perto dos meus ps:

    Que foi que voc trouxe a dentro?

    Sorrio e depois me abaixo para desamarrar o n do pacote:

    Algumas das coisas que a gente conseguiu esta semana. Vo render

    uma tima comemorao depois que eles passarem pela inspeo.

    Meto a mo na pequena pilha de objetos legais no pacote e mostro

    um par usado de culos de proteo. Eu os examino bem, para me

    certificar de que os vidros no esto rachados. "Para John, um presente

    adiantado de aniversrio." Meu irmo mais velho faz dezenove anos no fim

    da semana. Ele trabalha em turnos de catorze horas na fbrica de fornos

    de frico do bairro, sempre chega a casa esfregando os olhos por causa

    da fumaa. Dei a maior sorte de poder surrupiar esses culos de um

    carregamento de material militar.

    Largo os culos e reviro o resto das coisas. A maioria de latas de

    ensopadinho de carne e batata que roubei da despensa de um avio, alm

    de um velho par de sapatos com as solas intactas. Eu queria muito estar

    na sala com eles quando entregar esses troos todos, mas John a nica

    pessoa que sabe que estou vivo, e ele prometeu no contar mame nem

    ao den.

    Daqui a dois meses den faz dez anos, o que quer dizer que ele

    precisar ento submeter-se Prova. Eu prprio fui reprovado quando

    completei dez anos. Por isso me preocupo com den, porque mesmo ele

  • sendo o mais inteligente dos trs irmos, pensa de maneira muito

    parecida com a minha.

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