máscaras do destino

  • View
    217

  • Download
    2

Embed Size (px)

Text of máscaras do destino

  • AS MSCARAS DO DESTINO

    FLORBELA ESPANCA

    CONTOS

    Esta obra respeita as regras

    do Novo Acordo Ortogrfico

  • A presente obra encontra-se sob domnio pblico ao abrigo do art. 31 do

    Cdigo do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (70 anos aps a morte do

    autor) e distribuda de modo a proporcionar, de maneira totalmente gratuita,

    o benefcio da sua leitura. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a

    sua troca por qualquer contraprestao totalmente condenvel em qualquer

    circunstncia. Foi a generosidade que motivou a sua distribuio e, sob o

    mesmo princpio, livre para a difundir.

    Para encontrar outras obras de domnio pblico em formato digital, visite-nos

    em: http://luso-livros.net/

  • Ao meu irmo

    Ao meu querido morto

    Quando h oito anos traava com orgulho e ternura, na primeira pgina do

    meu primeiro livro, onde encerrara os sonhos da minha dolorosa mocidade,

    estas palavras de oferta: querida alma irm da minha, ao meu Irmo, que

    voz de agoiro, que voz de profecia teria segredado aos meus ouvidos surdos,

    minha alma fechada s vozes que se no ouvem, estas palavras de pavor:

    Aquele que igual a ti, de alma igual tua, que o melhor do teu orgulho e da

    tua f, que alto para te fazer erguer os olhos, moo para que a tua mocidade

    no trema de o ver partir um dia, bom e meigo para que vivas na iluso

    bendita de teres um filho, forte e belo para te obrigar a encarar sorrindo as

    coisas vis e feias deste mundo, Aquele que a parte de ti mesma que se

    realiza, Aquele que das mesmas entranhas foi nascido, que ao calor do mesmo

    amplexo foi gerado, Aquele que traz no rosto as linhas do teu rosto, nos olhos

    a gua ciara dos teus olhos, o teu Amigo, o teu Irmo, ser em breve apenas

    uma sombra na tua sombra, uma onda a mais no meio doutras ondas, menos

    que um punhado de cimas nu cncavo das tuas mos?!...

    Que voz de agoiro, que voz de profecia teria segredado aos meus ouvidos

    estas palavras de pavor?!

  • Ah, a misria dos nossos ouvidos surdos, das nossas almas fechadas! Les

    morts vont vite... No verdade! No verdade! Os mortos so na vida os

    nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e

    s morrem connosco. Mas eu no queria, no queria que o meu morto

    morresse comigo, no queria! E escrevi estas pginas...

    Este livro o livro de um Morto, este livro o livro do meu Morto. Tudo

    quanto nele vibra de subtil e profundo, tudo quanto nele alado, tudo que nas

    suas pginas luminosa e exaltante emoo, todo o sonho que l lhe pus, toda

    a espiritualidade de que o enchi, a beleza dolorosa que, pobrezinho e humilde,

    o eleva acima de tudo, as almas que criei e que dentro dele so gritos e soluos

    e amor, tudo dEle, tudo do meu Morto!

    A sua sombra debruou-se sobre o meu ombro, no silncio das tardes e das

    noites, quando a minha cabea se inclinava sobre o que escrevia; com a

    claridade dos seus olhos lmpidos como nascentes de montanha, seguiu o

    esvoaar da pena sobre o papel branco; com o seu sorriso um pouco

    doloroso, um pouco distrado, um pouco infantil, sublinhou a emoo da

    ideia, o ritmo da frase, a profundeza do pensamento.

    Bastar-me-ia voltar a cabea para o ver...

    Este livro de um Morto, este livro do meu Morto. Que os vivos passem

    adiante...

    FLORBELA ESPANCA

  • NDICE

    O AVIADOR

    A MORTA

    OS MORTOS NO VOLTAM

    O RESTO PERFUME

    A PAIXO DE MANUEL GARCIA

    O INVENTOR

    AS ORAES DE SOROR MARIA DA PUREZA

    O SOBRENATURAL

  • O AVIADOR

    No veludo glauco do rio lateja fremente a carcia ardente do Sol; as suas mos

    doiradas, como afiadas garras de oiro, amarfanham as ondas pequeninas,

    estorcendo-as voluptuosamente,-as arfar, suspirar, gemer como um infinito

    seio nu. Ao alto, os lenos claros, desdobrados, das gaivotas, dizendo adeus

    aos que andam perdidos sobre as guas do mar... Algumas velas no rio,

    manchazinhas de frescura no crepitar da fornalha. Mais nada.

    Um leo pintado a chamas por um pintor de gnio. As tintas flamejam ainda

    hmidas: so borres vermelhos as colinas em volta; doirado, o indistinto

    turbilho da casaria ao longe.

    A vida estremece apenas, pairando quase imvel, numa agitao toda interior,

    condensada em si prpria, exttica e profunda. A vida, parada e recolhida, cria

    heris nos imponderveis fluidos da tarde.

    Os homens, saindo de si, borboletas como salamandras que a chama no

    queimara, abrem os braos como asas... e pairam! Acima do leo pintado a

    chamas por um pintor de gnio ascende... o qu? Outra gaivota?... Outra

    vela?... O Sol debrua-se l do alto e fica como uma criana que se esquecesse

    de brincar no trgico assombro do nunca visto! Outra gaivota?... Outra vela?...

  • Tudo em volta flameja. O pincel de gnio d os ltimos retoques ao cenrio

    de epopeia. As tintas tm brilhos de esmaltes. So mais vermelhas as colinas

    agora, mais doirada a cidade distante.

    Os filhos dos homens, c em baixo, deixam cair nos campos a enxada que faz

    nascer o po e florir as rosas; os pescadores largam os remos audaciosos que

    rasgam os mares e os rios, e os filhos dos homens mais duramente castigados,

    os que habitam o formigueiro das cidades, param nas suas insensatas correrias

    de formigas, e todos voltam a face para o cu.

    O que anda sobre o rio? Outra gaivota?... Outra vela?...

    L em cima, a formidvel apoteose desdobra-se no meio do pasmo das coisas.

    um homem que tem asas! E as asas pairam, descem, redopiam, ascendem de

    novo, giram, latejam, batem ao sol, mais geis e mais robustas, mais leves e

    mais possantes que as das guias. um homem! A face enrgica, vincada a

    cinzel, emerge, extraordinria de vida intensa, na indeciso dos contornos que

    lhe fazem, vagos e plidos, um vago pano de fundo; a face e as mos. um

    Rembrandt pintado por um tit.

    Os msculos da face adivinham-se na fora brutal das maxilas cerradas. Nos

    olhos leva vises que os filhos dos homens no conhecem. Os olhos dele no

    se veem; olham para dentro e para fora; so de pedra como os das esttuas e

    veem mais e mais para alm do que as mseras pupilas humanas. So astros.

  • um homem! Deixou l em baixo todo o fardo pesado e vil com que o

    carregaram ao nascer; deixou l em baixo todas as algemas, todos os frreos

    grilhes que o prendiam, toda a suprema maldio de ter nascido homem;

    deixou l em baixo a sua sacola de pedinte, o seu bordo de Judeu Errante, e,

    livre, indmito, sereno, na sua msera couraa de pano azul, estendeu em cruz

    os braos que transformou em asas!

    No h uma sombra de nervosismo, uma crispao, naquele perfil de medalha

    florentina, naquela face moldada em bronze, um bronze plido que lateja e

    vibra; no h uma ruga naquele olmpico modelo de estaturia antiga,

    recortado no oiro em fuso da tarde incendiada. O seu corao, ao alto, mais

    uma onda do rio, embaladora, rtmica, na sensualidade da tarde; uma voz

    que sussurra, que ele sente sussurrar em unssono com outra voz que sussurra

    mais spera, mais rude , a voz do corao de ao que, sob o esforo das

    suas mos, palpita e responde.

    O Sol ascende mais ao alto, vai mais para alm, tem agora um fulgor maior, e,

    sobre o bronze vibrante das mos -triunfantes, vai pr a mordedura da sua

    boca vermelha. So brutais aquelas mos, formidveis de esforo,

    assombrosas de vontade! Esqueceram as carcias e os beijos, o frmito dos

    contactos inconfessveis, o trmulo tatear das carnes moas e cobiadas;

    deixaram l em baixo os gestos de doura e piedade, o aroma das cabeleiras

    desatadas, a forma dos rostos desejados moldados nas suas palmas nervosas,

    todas as posses onde se crisparam e os desejos para que se estenderam;

  • perderam as curvas harmoniosas, a tepidez dolente e macia de preciosos

    instrumentos de amor! Contraram-se em garras e, no alto, crispadas sobre a

    presa, so elas que algemam, so elas que escravizam, que subjugam as asas

    cativas!

    E, l no alto, o homem est contente. Como quem atira ao vento, num gesto

    de desdm, um punhado de ptalas, atira c para baixo uns miserveis restos

    de oiro que levou; do seu oiro de lembranas de que se tinha esquecido. O

    homem est contente.

    E a apoteose continua. O pintor de gnio endoideceu; atira sem cambiantes,

    sem sombras, sem esbatidos, traos como setas que se cravam; arroja

    brutalmente todos os vermelhos e os oiros da sua paleta, e pinta como quem

    esmaga em gestos tumultuosos de demente. Donde vem tanto oiro? Prodgio!

    Miragem! Deslumbramento! At as velas sangram e as asas, peneiradas de

    cinza, das gaivotas se encastoam de rutilantes pedrarias raras. irisado agora o

    veludo glauco do rio; o sol atira-lhe a rir, como um menino, prdigo e

    inconsciente, as suas ltimas gemas. As colinas, em volta, so mos abertas de

    assassino, e o casario, chapeado de luz, um manto de prpura rasgado, cujos

    farrapos vo prender-se ainda nas labaredas do horizonte a arder. O homem

    est contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, j fora

    do mundo, na sensao maravilhosa e embriagadora de um ser que se

    ultrapassa! Sente-se um deus! As mos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe

    da terra onde as tem presas um derradeiro fio de oiro... e cai na eternidade.

  • Tanto azul!... As filhas dos deuses, ondinas, sereia