Material filosofia

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  • 1. (Retirado da Revista Nova Escola edio 179 - jan-fev/2005 grandes pensadores )SCRATESO pensamento do filsofo grego Scrates (469-399 a.C.) marca uma reviravoltana histria humana. At ento, a filosofia procurava explicar o mundo baseada naobservao das foras da natureza. Com Scrates, o ser humano voltou-se para simesmo. Como diria mais tarde o pensador romano Ccero, coube ao grego trazer afilosofia do cu para a terra e concentr-la no homem e sua alma, a psique. Apreocupao de Scrates era levar as pessoas, por meio do autoconhecimento, sabedoria e prtica do bem.Nessa empreitada de colocar a filosofia a servio da formao do homem,Scrates no estava sozinho. Pensadores sofistas, os educadores profissionais da poca,igualmente se voltavam para o homem, mas com um objetivo mais imediato: formar aselites dirigentes.Isso significava transmitir aos jovens um saber enciclopdico e desenvolver suaeloquncia, que era a principal habilidade esperada de um poltico.Scrates concebia o homem como um composto de dois princpios, alma (ouesprito) e corpo. De seu pensamento surgiram duas vertentes da filosofia que, em linhasgerais, podem ser consideradas como as grandes tendncias do pensamento ocidental.Uma a idealista, que partiu de Plato (427-347 a.C.), seguidor de Scrates. Aodistinguir o mundo concreto do mundo das ideias, deu a estas status de realidade; e aoutra a realista, partindo de Aristteles (384-332 a.C.), discpulo de Plato quesubmeteu as ideias, s quais se chega pelo esprito, ao mundo real.O dilogo como estratgia de ensinoNas palavras atribudas a Scrates por Plato na obra Apologia de Scrates, ofilsofo ateniense considerava sua misso andar por a (ruas, praas e ginsios, asescolas atenienses de atletismo), persuadindo novos e velhos a no se preocuparemtanto, nem em primeiro lugar, com o corpo ou com a fortuna, mas antes com a perfeioda alma.Defensor do dilogo como mtodo de educao, Scrates considerava muitoimportante o contato direto com os interlocutores o que uma das possveis razespara o fato de no ter deixado nenhum texto escrito. Suas ideias foram recolhidasprincipalmente por Plato, que as sistematizou, e por outros filsofos que conviveramcom ele. Scrates se fazia acompanhar frequentemente por jovens, alguns pertencentess mais ilustres e ricas famlias de Atenas.O mtodo socrticoScrates comparava sua funo com a profisso de sua me, parteira que nod luz a criana, apenas auxilia a parturiente. O dilogo socrtico tinha doismomentos, diz Carlos Roberto Jamil Cury, professor aposentado da PontifciaUniversidade Catlica de So Paulo.

2. O primeiro corresponderia s dores do parto, momento em que o filsofo,partindo da premissa de que nada sabia, levava o interlocutor a apresentar suas opinies.Em seguida, fazia-o perceber as prprias contradies ou ignorncia para queprocedesse a uma depurao intelectual. Mas s a depurao no levava verdade chegar a ela constitua a segunda parte do processo. A, ocorria o parto das ideias,momento de reconstruo do conceito, em que o prprio interlocutor ia polindo asnoes at chegar ao conceito verdadeiro por aproximaes sucessivas. O processo deformar o indivduo para ser cidado e sbio devia comear pela educao do corpo, quepermite controlar o fsico. J para a educao do esprito, Scrates colocava em segundoplano os estudos cientficos, por considerar que se baseavam em princpios mutveis.Inspirado no aforismo conhece-te a ti mesmo, do templo de Delfos, julgava maisimportantes os princpios universais, porque seriam eles que conduziriam investigaodas coisas humanas.O conhecimento leva prtica da virtudePara Scrates, ningum adquire a capacidade de conduzir-se, e muito menos osdemais, se no tiver autodomnio. Depois dele, a noo de controle pessoal setransformou em um tema central da tica e da filosofia moral. Tambm se formou a oconceito de liberdade interior: livre o homem que no se deixa escravizar por seusapetites e segue os princpiosque, com a educao, afloram de seu interior.Opondo-se ao relativismo de muitos sofistas, para os quais a verdade e a prticada virtudedependiam de circunstncias, Scrates valorizava acima de tudo a verdade eas virtudes fossem elas individuais, como a coragem e a temperana, ou sociais, comoa cooperao e aamizade. O pensador afirmava, no entanto, que s o conhecimento (ouseja, o saber, e nosimples informaes) leva prtica da virtude em si, que una eindivisvel.Segundo Scrates, s age erradamente quem desconhece a verdade e, porextenso, o bem.A busca do saber o caminho para a perfeio humana, dizia,introduzindo na histria dopensamento a discusso sobre a finalidade da vida.O papel do mestre despertar o espritoO papel do mestre , ento, o de ajudar o educando a caminhar nesse sentido,despertandosua cooperao para que ele consiga por si prprio iluminar suainteligncia e suaconscincia.Assim, o verdadeiro mestre no um provedor de conhecimentos, mas algumque despertaos espritos. Ele deve, segundo Scrates, admitir a reciprocidade ao exercersua funoiluminadora, permitindo que os alunos contestem seus argumentos da mesmaforma quecontesta os argumentos dos alunos. Para o filsofo, s a troca de ideias dliberdade aopensamento e sua expresso condies imprescindveis para oaperfeioamento do serhumano.A capital da democracia e do saber Sob o governo de Pricles (499-429 a.C.), a cidade-estado de Atenas,vitoriosa naguerracontra os persas e enriquecida pelo comrcio martimo, tornou-se o centro 3. cultural domundo grego, para o qual convergiam os talentos de toda parte. Fdias, oarquiteto eescultor que dirigiu as obras do Partenon, o maior templo da Acrpole, osdramaturgosSfocles, squilo, Eurpedes e Aristfanes e o orador Demstenes sonomes dessa poca.O regime democrtico ateniense restrito aos cidados livres, deixando deforaestrangeiros e escravos foi fortalecido por reformas que limitaram os poderesdaburguesia rica e ampliaram os da assemblia e do jri popular. A educao artsticado povofoi estimulada pela exibio de obras de arte em locais pblicos e pelasrepresentaesteatrais.BIOGRAFIAFilho de uma parteira e de um escultor, Scrates nasceu em Atenas por volta de 469 a.C.Estudou a arte do pai e trabalhou como escultor por algum tempo. Adquiriu a culturatradicional dos jovens atenienses, aprendendo msica, ginstica e gramtica. Prestouservio militar e lutou nas guerras contra Esparta (432 a.C.) e Tebas (424 a.C.). Duranteo apogeu de Atenas, onde se instalou a primeira democracia de que se tem notcia,conviveu com intelectuais, artistas, aristocratas e polticos importantes. Convenceu-sede sua misso de mestre por volta dos 38 anos, depois que seu amigo Querofonte, emvisita ao templo de Apolo, em Delfos, ouviu do orculo que Scrates era o mais sbiodos homens.Deduzindo que sua sabedoria s podia ser resultado da percepo da prpriaignorncia, passou a dialogar com as pessoas que se dispusessem a procurar a verdade eo bem.Em meio ao desmoronamento do imprio ateniense e guerra civil interna,quando j era septuagenrio, Scrates foi acusado de desrespeitar os deuses do Estado ede corromper os jovens. Julgado e condenado morte por envenenamento, ele serecusou a fugir ou a renegar suas convices para salvar a vida. Ingeriu cicuta e morreurodeado por seus amigos, em 399 a.C." sbio o homem que ps em si tudo que leva felicidade ou dela se aproxima"(Retirado da Coleo Os Pensadores PLATO, Ed. Nova Cultural)PLATO"Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram.Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim prprio, imediatamenteintervir na poltica." Quem assim escreve, em cerca de 354 a.C, o setuagenrio Plato,numa de suas cartas a carta VII, endereada aos parentes e amigos de Dion deSiracusa.O interesse de Plato pelos assuntos polticos decorria, em parte, decircunstncias de sua vida; mas era tambm uma atitude compreensvel num grego deseu tempo. Toda a vida cultural da Grcia antiga desenvolveu-se estreitamente,vinculada aos acontecimentos da cidade-Estado, a polis. Essa vinculao resultavafundamentalmente da organizao poltica, constituda por uma constelao de cidades- 4. Estados fortemente ciosas de suas peculiaridades, de suas tradies, de seus deuses eheris. A prpria dimenso da cidade-Estado impunha, de sada, grande solidariedadeentre seus habitantes, facilitando a ao coercitiva dos padres de conduta; ao mesmotempo, propiciava polis o desenvolvimento de uma fisionomia particular,inconfundvel, que era o orgulho e o patrimnio comum de seus cidados. O fenmenogeogrfico e o poltico associavam-se de tal modo que, na lngua grega, polis era, aomesmo tempo, uma expresso geogrfica e uma expresso poltica, designando tanto olugar da cidade quanto a populao submetida mesma soberania. Compreende-se,assim, por que um grego antigo pensava a si mesmo antes de tudo como um cidado oucomo um "animal poltico".Essa ligao estreita entre o homem grego e a polis transparece na vida e nopensamento dos filsofos. J Tales de Mileto (sculo VI a.C), segundo o historiadorHerdoto, teria desempenhado importante papel na poltica de seu tempo, tentandoinduzir os gregos da Jnia a se unirem numa federao e, assim, poderem oferecerresistncia ameaa persa que ento se configurava. Desse modo, com Tales que atradio considera o ponto inicial da investigao cientfico-filosfica ocidental teriacomeado tambm a linhagem dos filsofos-polticos e dos filsofos-legisladores, cujavida e cuja obra desenvolveram-se em ntima conexo com os destinos da polis. Noprprio vocabulrio dos primeiros filsofos manifesta-se essa conexo: muitas daspalavras que empregam sugerem experincias de cunho originariamente social,generalizadas para explicar a organizao do cosmo. Por outro lado, a estrutura polticafornece ao pensador esquemas interpretativos: a polis monrquica corresponde umainterpretao do processo cosmognico entendido como o desdobramento ou atransformao de um nico princpio (arque), tal como aparece nas primeirascosmogonias filosficas. Com o tempo, esses esquemas interpretativos vo, porm, sealterando, em parte pela dinmica inerente ao pensamento fi