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CAPA MARSHALL MCLUHAN OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM (UNDERSTANDING MEDIA) CULTRIX CONTRACAPA OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM Marshall McLuhan Neste livro revolucionário e desmistificador, um dos grandes pensadores de nosso século, que tem sido comparado, pelo alcance e pela profundeza de suas idéias, a Spengler e Toynbee, passa em revista as tecnologias do passado e do presente e mostra como os meios de comunicação de massa afetam profundamente a vida física e mental do Homem, levando-o do mundo linear e mecânico da Primeira Revolução Industrial para o novo mundo audiotáctil e tribalizado da Era Eletrônica. Um livro de leitura indispensável para estudantes e professores de Sociologia, Psicologia, Comunicações etc., bem como todo e qualquer leitor que queira estar em dia com o mundo em que vive. ORELHAS DO LIVRO OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM MARSHALL MCLUHAN Herbert Marshall McLuhan, ex-professor de literatura inglesa no Canadá, professor de diversas universidades dos Estados Unidos e hoje autoridade mundial em comunicações de massa, é, sem dúvida, o pensador contemporâneo cujas idéias, mercê do seu caráter visceralmente revolucionário, têm provocado as mais acesas e apaixonadas polêmIcas intelectuais de que se tem notícia nos últimos tempos. O ardor com que macluhanistas e anti-macluhanistas quebram lanças em defesa de suas posições advém do fato de McLuhan ser um pensador de vanguarda, que não teme levar às últimas conseqüências — ao profetismo inclusive (ou sobretudo) — suas formulações teóricas, as quais buscam abarcar todas as implicações, no plano humano, daquilo que singulariza o mundo de nossos dias: a complexíssima rede de comunicações em que está imerso o Homem na era da eletrônica, da cibernética, da automação, e que afetam profundamente sua visão e sua experiência do mundo, de si mesmo e dos outros. Os MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM — que a Editora Cultrix se orgulha de ora apresentar ao leitor brasileiro numa notável tradução de Décio Pignatari, poeta de vanguarda e professor de Teoria da Informação — é por excelência a summa do pensamento de Marshall McLuhan. Neste livro, o chamado “filósofo da era eletrônica” ou “humanista da era da comunicação” passa em revista as tecnologias como extensões do corpo e da inteligência do Homem e mostra como elas nos estão levando, do mundo linear, aristotélico, tipográfico, mecânico, da Primeira Revolução Industrial, para o mundo audiotáctil, tribalizado, cósmico, da Segunda Revolução Industrial, a Era Eletrônica em cujo limiar rios encontramos agora. Desmistificador no esquematismo agressivo de seus aforismos; estimulante e amiúde entontecedor nas perspectivas intelectuais que desvenda ao leitor — este livro irá certamente merecer do público ledor brasileiro, universitário ou não, a mesma

Mcluhan, marshall os meios de comunicação como extensões do homem

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  • 1. CAPAMARSHALL MCLUHANOS MEIOS DE COMUNICAO COMO EXTENSES DO HOMEM (UNDERSTANDINGMEDIA)CULTRIXCONTRACAPAOS MEIOS DE COMUNICAO COMO EXTENSES DO HOMEMMarshall McLuhan Neste livro revolucionrio e desmistificador, um dos grandes pensadores denosso sculo, que tem sido comparado, pelo alcance e pela profundeza de suas idias,a Spengler e Toynbee, passa em revista as tecnologias do passado e do presente emostra como os meios de comunicao de massa afetam profundamente a vida fsica emental do Homem, levando-o do mundo linear e mecnico da Primeira RevoluoIndustrial para o novo mundo audiotctil e tribalizado da Era Eletrnica. Um livro deleitura indispensvel para estudantes e professores de Sociologia, Psicologia,Comunicaes etc., bem como todo e qualquer leitor que queira estar em dia com omundo em que vive.ORELHAS DO LIVROOS MEIOS DE COMUNICAO COMO EXTENSES DO HOMEMMARSHALL MCLUHAN Herbert Marshall McLuhan, ex-professor de literatura inglesa no Canad,professor de diversas universidades dos Estados Unidos e hoje autoridade mundial emcomunicaes de massa, , sem dvida, o pensador contemporneo cujas idias, mercdo seu carter visceralmente revolucionrio, tm provocado as mais acesas eapaixonadas polmIcas intelectuais de que se tem notcia nos ltimos tempos. O ardorcom que macluhanistas e anti-macluhanistas quebram lanas em defesa de suasposies advm do fato de McLuhan ser um pensador de vanguarda, que no temelevar s ltimas conseqncias ao profetismo inclusive (ou sobretudo) suasformulaes tericas, as quais buscam abarcar todas as implicaes, no plano humano,daquilo que singulariza o mundo de nossos dias: a complexssima rede decomunicaes em que est imerso o Homem na era da eletrnica, da ciberntica, daautomao, e que afetam profundamente sua viso e sua experincia do mundo, de simesmo e dos outros. Os MEIOS DE COMUNICAO COMO EXTENSES DO HOMEM que a EditoraCultrix se orgulha de ora apresentar ao leitor brasileiro numa notvel traduo de DcioPignatari, poeta de vanguarda e professor de Teoria da Informao por excelnciaa summa do pensamento de Marshall McLuhan. Neste livro, o chamado filsofo da eraeletrnica ou humanista da era da comunicao passa em revista as tecnologiascomo extenses do corpo e da inteligncia do Homem e mostra como elas nos estolevando, do mundo linear, aristotlico, tipogrfico, mecnico, da Primeira RevoluoIndustrial, para o mundo audiotctil, tribalizado, csmico, da Segunda RevoluoIndustrial, a Era Eletrnica em cujo limiar rios encontramos agora. Desmistificador no esquematismo agressivo de seus aforismos; estimulante eamide entontecedor nas perspectivas intelectuais que desvenda ao leitor este livroir certamente merecer do pblico ledor brasileiro, universitrio ou no, a mesma

2. consagradora acolhida que teve nos Estados Unidos e nos pases da Amrica e daEuropa em que j foi traduzido.Outras obras de interesse:ODISSIA HomeroA DIVINA COMDIA Dante AlighieriMAQUIAVEL ou As Origens da Sociologia do Conhecimento Grard NamerO PRNCIPE MaquiavelVIDAS PlutarcoDILOGOS PlatoPITGORAS Uma Vida Peter GormanOS DEUSES GREGOS Karl KernyiPea catlogo gratuito EDITORA CULTRIX. Rua Dr. Mario Vicente, 374Fone: (011) 272-1399Fax: (011) 272-4770E-mail: [email protected]://www.pensamento-cultrix.com.brMARSHALL MACLUHANOS MEIOS DE COMUNICAO COM EXTENSES DO HOMEMTraduo de Dcio PignatariEditora CultrixSo PauloTtulo do original: Understanding Media: The Extensions of ManCopyright 1964 by Marshall McLuhan.Publicado nos Estados Unidos da Amrica por McGraw-Hill Book Company (Nova York,Toronto, Londres)Edio: 10-11-12-13-14-15-16-17Ano: 00-01-02-03-04-05Direitos de traduo para a lngua portuguesa adquiridos com exclusividade pelaEDITORA CULTRIX LIDA.Rua Dr. Mrio Vicente, 374 04270-000 So Paulo, SPFone: 272-1399 Fax: 272-4770E-mail: [email protected]://www.pensamento-cultrix. com.brque se reserva a propriedade literria desta traduo.Impresso em nossas oficinas grficas.NDICEIntroduo Terceira Edio em Ingls 9Prefcio 17PRIMEIRA PARTE 3. 1. O Meio a Mensagem 212. Meios Quentes e Frios 383. Reverso do Meio Superaquecido 514. O Amante de Gadgets: Narciso como Narcose 595. A Energia Hbrida: Les Liaisons Dangereuses 676. Os Meios como Tradutores 767. Desafio e Colapso: A Nmese da Criatividade 82SEGUNDA PARTE8. A Palavra Falada: Flor do Mal? 959. A Palavra Escrita: Um Olho por um Ouvido 10010. Estradas e Rotas de Papel 10811. Numero: O Perfil da Multido 12612. Vesturio: Extenso de Nossa Pele 14013. Habitao: New Look e Nova Viso 14414. Dinheiro: O Carn do Pobre 15315. Relgios: A Fragrncia do Tempo 16816. Tipografia: Como Morar no Assunto 18117. Estrias em Quadrinhos: MAD: Vestbulo para a TV 18818. A Palavra Impressa: O Arquiteto do Nacionalismo 19519. Roda, Bicicleta e Avio 20520. A Fotografia: O Bordel Sem Paredes 21421. A Imprensa: Governo por Indiscrio Jornalstica 23022. O Automvel: A Noiva Mecnica 24623. Anncios: Preocupando-se com os Vizinhos 25524. Jogos: As Extenses do Homem 26325. Telgrafo: O Hormnio Social 27626. A Mquina de Escrever: Na Era da Mania do Ferro 29027. O Telefone: Metais Sonoros ou Smbolo Tilintante? 29828. O Fongrafo: O Brinquedo que Esvaziou a Caixa (Torcica) Nacional 30929. O Cinema: O Mundo Real do Rolo 31930. Rdio: O Tambor Tribal 33431. A Televiso: O Gigante Tmido 34632. Armamentos: A Guerra dos cones 38033. Automao: Aprendendo a Ganhar a Vida 388Leituras Ulteriores para Estudo dos Meios de Comunicao 405INTRODUO TERCEIRA EDIO EM INGLS Contou o entrevistador de TV Jack Paar que, certa vez, perguntou a um jovemamigo: Por que vocs de agora usam frio para significar quente? Respondeu-lhe orapaz: Porque vocs, meu velho, gastaram a palavra quente, antes de nschegarmos. um fato que frio" muitas vezes utilizado hoje para significar o queantes era designado por quente. Antigamente, uma discusso calorosa ou quente(ou a coisa esteve quente) significava uma discusso ou cena em que as pessoas seenvolviam em profundidade. De outro lado, uma atitude fria costumava designar umaatitude de objetividade a distncia e desinteressada. Naqueles tempos, a palavradesinteressada significava a nobre qualidade de um carter bem formado. Como que 4. de repente passou a significar no dou a mnima bola. A palavra quente caiu emdesuso semelhante, na medida em que se foram processando profundas mudanas noambiente. Mas o termo de gria frio quer dizer muito mais do que a velha idia dequente. Indica uma espcie de empenho e participao em situaes que envolvemtodas as faculdades de uma pessoa. Neste sentido, podemos dizer que a automao fria, enquanto as velhas espcies mecnicas de empregos (trabalhos) especializadosou fragmentados so quadradas. As situaes e pessoas quadrada? no so friasporque apresentam muito pouco do hbito de envolvimento profundo de nossasfaculdades. Os jovens de hoje dizem: O humor no frio. Suas piadas favoritas odemonstram. Pergunta: O que Pg 9vermelho e zumbe? Resposta: Uma uva eltrica. E por que ela zumbe? Resposta:Porque no conhece as palavras. Presumivelmente o humor no frio porque nosinduz a rir de alguma coisa, em como dos filmes frios. Os filmes de Bergman e Felliniexigem muito maior participao do que os espetculos narrativos. Um enredo abrangeum conjunto de eventos muito semelhante linha meldica, em msica. A melodia,melos modos, o princpio-meio-fim uma estrutura contnua, encadeada e repetitiva,que no comparece na arte fria do Oriente. A arte e a poesia Zen criam oenvolvimento por meio do intervalo, da pausa, e no na conexo empregada no mundoocidental visualmente organizado. O espectador se torna artista na arte oriental porqueele mesmo deve contribuir com todos os elos.O captulo sobre os meios quentes e frios provocou a confuso de muitoscrticos de Understanding Media, incapazes de reconhecer as enormes mudanasestruturais que hoje esto ocorrendo no ambiente humano. A gria oferece umaindicao imediata da percepo em transformao. No se baseia em teorias, mas naexperincia imediata. O estudante dos meios de comunicao no apenas deve ter emconta a gria, como um guia para a percepo em transformao, mas tambm estudaresses meios enquanto introdutores de novos hbitos de percepo.O captulo sobre o meio a mensagem pode talvez mais bem esclarecidoobservando-se que toda tecnologia gradualmente cria um ambiente humano totalmentenovo. Os ambientes no so envoltrios passivos, mas processos ativos. Em seuesplndido trabalho Prefcio a Plato (Harvard University Press, 1963), Eric Havelockestabelece o contraste entre as culturas oral e escrita dos gregos. No tempo de Platoa palavra escrita tinha criado um novo ambiente, que j comeara a destribalizar ohomem. Anteriormente, os gregos se formavam graas ao processo da enciclopdiatribal. Tinham memorizado os poetas. Os poetas proviam uma sabedoria operacionalespecfica para to-Pg 10das as contingncias da vida Ann Landers em verso [Autora de uma espcie deenciclopdia popular (N. do T.)]. Com o advento do homem individual destribalizado,uma nova educao se fez necessria. Plato delineou esse programa para osalfabetizados, um programa baseado nas idias. Com o alfabeto fontico, oconhecimento classificado tomou o lugar do conhecimento operacional de Homero eHesodo e da enciclopdia tribal. Desde ento, a educao por dados classificados temsido a linha programtica no Ocidente. Hoje, no entanto, na era da eletrnica, a classificao dos dados cede aoreconhecimento de estruturas e padres. a frase-chave da IBM. Quando os dados sealteram rapidamente, a classificao por demais fragmentria. Para dar conta dos 5. dados em velocidade eltrica e em situaes caractersticas de sobrecarga dainformao, os homens recorrem ao estudo das configuraes, como o marinheiro doMaesltrom, de Edgar Allan Poe. Apenas comeou a se desenvolver a situao dosdesistentes (drop outs) em nossas escolas. Hoje, o jovem estudante cresce num mundoeletricamente estruturado. No um mundo de rodas, mas de circuitos, no ummundo de fragmentos, mas de configuraes e estruturas. O estudante, hoje, vivemiticamente e em profundidade. Na escola, no entanto, ele encontra uma situaoorganizada segundo a informao classificada. Os assuntos no so relacionados. Elesso visualmente concebidos em termos de um projeto ou planta arquitetnica. Oestudante no encontra meio possvel de participar dele, nem consegue descobrir comoa cena educacional se liga ao mundo mtico dos dados e experincias processadoseletronicamente e que para ele constitui ponto pacfico. Como diz um executivo da IBM:Quando entraram para o primeiro ano primrio, minhas crianas j tinham vividodiversas existncias, em comparao aos seus avs.O meio a mensagem significa, em termos da era eletrnica, que j se criouum ambiente totalmente novo. O contedo deste novo ambiente o velho ambienteme-Pg 11canizado da era industrial. O novo ambiente reprocessa o velho to radicalmentequanto a TV est reprocessando o cinema. Pois o contedo da TV o cinema. Ateleviso ambiental e imperceptvel como todos os ambientes. Ns apenas temosconscincia do contedo, ou seja, do velho ambiente. Quando a produo demquinas era nova, gradualmente foi criando um ambiente cujo contedo era o velhoambiente da vida agrria e das artes e ofcios. Este ambiente antigo se foi elevando categoria de forma artstica por obra do novo ambiente mecnico. A mquinatransformou a Natureza numa forma de arte. Pela primeira vez os homens comearama olhar a Natureza como fonte de valores estticos e espirituais. Maravilhavam-se deque as eras passadas tivessem sido to desapercebidas do mundo da Naturezaenquanto arte. Toda tecnologia nova cria um ambiente que logo considerado corruptoe degradante. Todavia o novo transforma seu predecessor em forma de arte. Quando oescrever era novo, Plato transformou o velho dilogo oral em forma artstica. A visodo mundo elisabetano era uma viso da Idade Mdia. E a Idade Industrial transformoua Renascena numa forma de arte, como se v na obra de Jacob Burckhardt. Em troca,Siegfried Giedion, na era da eletricidade, ensinou-nos como encarar o processo total damecanizao como um processo artstico (Mechanization Takes Command). medida que tecnologias proliferam e criam series inteiras de ambientes novos,os homens comeam a considerar as artes como antiambientes ou contra-ambientes que nos fornecem os meios de perceber o prprio ambiente. Como EdwardT. Hall explicou em The Silent Language, os homens nunca tm conscincia das normasbsicas de seus sistemas ambientais ou de suas culturas. Hoje, as tecnologias e seusambientes conseqentes se sucedem com tal rapidez que um ambiente j nos preparapara o prximo. As tecnologias comeam a desempenhar a funo da arte, tornando-nos conscientes das conseqncias psquicas e sociais da tecnologia. A arte como antiambiente se torna, mais do que nunca, um meio de treinar apercepo e o julgamento. APg 12arte ofertada como um bem de consumo e no como um meio de apurar a percepopermanece enganosa e esnobe como sempre. O estudo dos meios, de uma s vez, 6. abre as portas da percepo. E aqui vemos por que os jovens podem fazer trabalhos dealta pesquisa. O professor tem apenas de convidar o estudante a fazer um inventrioto completo quanto possvel. Qualquer criana pode fazer uma lista dos efeitos dotelefone, ou do rdio, ou do cano, no sentido de moldar a vida e o trabalho de seusamigos e de sua comunidade. Uma lista geral dos efeitos dos meios abre muitas viasinsuspeitadas de conscincia e investigao. Edmond Bacon, da comisso do plano-diretor de Filadlfia, descobriu que osescolares podiam ser colegas e pesquisadores de inestimvel valia na tarefa de refazera imagem da cidade. Ns estamos entrando na nova era da educao, que passa a serprogramada no sentido da descoberta, mais do que no sentido da instruo. Na medidaem que os meios de alimentao de dados aumentam, assim deve aumentar anecessidade de introviso e de reconhecimento de estruturas. A famosa experincia deHawthorne, na fbrica da Western Electric, perto de Chicago, ps a descoberto, hanos atrs, um fenmeno bastante misterioso. Por mais que se alterassem as condiesde trabalho dos operrios, eles trabalhavam mais e melhor. Quer fossem adversas ouagradveis as condies de temperatura, luz e mesmo de lazer, a qualidade daproduo aumentava. Os pesquisadores melancolicamente concluram que os testesdistorciam a realidade. No perceberam eles um fato da maior importncia: quando osoperrios conseguem juntar esforos num trabalho de aprendizado e descoberta, aeficincia que da resulta simplesmente extraordinria. Mais atrs fizemos referncia ao fenmeno dos estudantes desistentes, quesimplesmente abandonam a escola: esta situao vai piorar muito mais, devido frustrao dos estudantes em relao sua participao no processo de ensino. Estasituao se refere tambm ao problema da criana culturalmente retardada. Estacriana existe noPg 13somente nas favelas: o seu nmero aumenta tambm nos subrbios, nos ncleosfamiliares de razovel nvel econmico. A criana culturalmente retardada a criana-televiso. A televiso propiciou um ambiente de baixa orientao visual e altaparticipao, o que torna muito difcil a sua adaptao ao nosso sistema de ensino.Uma das solues seria elevar o nvel visual da imagem da TV, a fim de possibilitar aojovem estudante o acesso ao velho mundo visual da sala de aulas e da classe. Valeria apena tent-lo como expediente temporrio. A televiso, porm, apenas umcomponente do ambiente eltrico de circuito instantneo, que sucedeu ao velho mundoda roda, das porcas e parafusos e dos raios. Seramos tolos se no tentssemossuperar, por todos os meios, o mundo visual fragmentrio de nosso sistemaeducacional atual.A filosofia existencial, bem como o Teatro do Absurdo, representamantiambientes que apontam para as presses crticas exercidas pelo novo ambienteeltrico. Tanto Jean Paul Sartre, como Samuel Beckett e Arthur Miller, denunciam afutilidade dos projetos, dados classificados e empregos, como via de sada. Mesmopalavras e expresses como fuga e vida delegada derivam da nova cena e cenriodo envolvimento eletrnico. Os engenheiros da televiso j comearam a explorar overdadeiro carter Braille da imagem do vdeo, como meio de propiciar a sua viso aoscegos, projetando a imagem diretamente em sua pele. dessa maneira que devemosusar todos os meios e veculos, a fim de que possamos enxergar a nossa situao. 7. Na pgina 23 h algumas linhas extradas de Romeu e Julieta, marotamentemodificadas, fazendo aluso televiso. Alguns crticos logo pensaram que se tratavade uma involuntria citao errada. O poder das artes de antecipar, de uma ou mais geraes, os futurosdesenvolvimentos sociais e tcnicos foi reconhecido h muito tempo. Ezra Poundchamou o artista de antenas da raa. A arte, como o radar, atua como se fosse umverdadeiro sistema de alarme premonitrio, capacitando-nos a descobrir e a enfrentarobjetivos sociaisPg 14e psquicos, com grande antecedncia. O conceito proftico das artes entra em conflitocom o conceito corrente das artes como meios de auto-expresso. Se a arte umsistema de alarme prvio para usar uma expresso da Segunda Guerra Mundial,quando o radar era novidade tem ela a maior relevncia no apenas no estudo dosmeios e veculos de comunicao, como no desenvolvimento dos controles nessesmesmos meios. Quando o radar era novidade, verificou-se a necessidade de eliminar o sistemade bales que precedeu o radar como sistema de proteo das cidades. Os balesinterferiam na auto-alimentao eltrica da nova informao do radar. Este parece sero caso de nosso atual currculo escolar, para no falar das artes em geral. Tanto de umcomo de outras, apenas devemos utilizar aquelas manifestaes que acentuam a nossapercepo da tecnologia e de suas conseqncias psicolgicas e sociais. A arte, comoambiente-radar, exerce a funo de indispensvel treino perceptivo e no de papelde dieta privilegiada para a elite. A finalidade da arte, enquanto auto-alimentao tiporadar, que nos fornece uma imagem corporativa, dinmica e mutvel, no tanto depreparar-nos para as transformaes quanto a de permitir-nos manter um roteiroestvel em direo a metas permanentes, mesmo em meio a inovaes as maisperturbadoras. Pois j percebemos a futilidade que mudar nossos objetivos quandomudamos nossas tecnologias.Pg 15PREFCIOJames Reston escreveu no The New York Times (7-6-1957): Um diretor da sade pblica... noticiou esta semana que um ratinho que,presumivelmente, andara assistindo televiso, atacou uma menina e seu gato, jadulto... Ambos, gato e rato, sobreviveram, e o incidente fica registrado como lembretede que as coisas parecem estar mudando.Depois de trs mil anos de exploso, graas s tecnologias fragmentrias emecnicas, o mundo ocidental est implodindo. Durante as idades mecnicasprojetamos nossos corpos no espao. Hoje, depois de mais de um sculo de tecnologiaeltrica, projetamos nosso prprio sistema nervoso central num abrao global, abolindotempo e espao (pelo menos naquilo que concerne ao nosso planeta). Estamos nosaproximando rapidamente da fase final das extenses do homem: a simulaotecnolgica da conscincia, pela qual o processo criativo do conhecimento se estendercoletiva e corporativamente a toda a sociedade humana, tal como j se fez com nossossentidos e nossos nervos atravs dos diversos meios e veculos. Se a projeo daconscincia j antiga aspirao dos anunciantes para produtos especficos ser ou 8. no uma boa coisa, e uma questo aberta as mais variadas solues. So poucas aspossibilidades de responder a essas questes relativas s extenses do homem, se nolevarmos em conta todas as extenses emPg 17conjunto. Qualquer extenso seja da pele, da mo, ou do p afeta todo ocomplexo psquico e social.Algumas das principais extenses juntamente com algumas de suasconseqncias psquicas e sociais so estudadas neste livro. Para se ter uma idia dapouca ateno que se tem dado a esses assuntos no passado, basta referir-me verdadeira consternao que este livro provocou num de seus editores. Notou ele,desconsolado, que setenta e cinco por cento de sua matria nova. Um livro desucesso no pode arriscar mais do que dez por cento de novidade. Parece que emnossos dias vale a pena correr um tal risco: as barreiras esto cada vez mais altas e anecessidade de entender os efeitos das extenses do homem se torna cada vez maisurgente.Na idade mecnica, que agora vai mergulhando no passado, muitas aespodiam ser empreendidas sem maiores preocupaes. A lentido do movimentoretardava as reaes por considerveis lapsos de tempo. Hoje, ao e reao ocorremquase que ao mesmo tempo. Vivemos coma que miticamente e integralmente, mascontinuamos a pensar dentro dos velhos padres da idade pr-eltrica e do espao etempo fracionados.Com a tecnologia da alfabetizao, o homem ocidental adquiriu o poder de agirsem reao. As vantagens de fragmentar-se deste modo podem ser exemplificadaspelo caso do cirurgio, que se tornaria desamparado se tivesse de envolver-sehumanamente em suas intervenes. Adquirimos a arte de levar a cabo as maisperigosas operaes sociais com a mais completa iseno. A nossa iseno era umaatitude de no-participao. Mas na era da eletricidade, quando o nosso sistemanervoso central tecnologicamente projetado para envolver-nos na Humanidadeinteira, incorporando-a em ns, temos necessariamente de envolver-nos, emprofundidade, em cada uma de nossas aes. No mais possvel adorar o papelolmpico e dissociado do literato ocidental.O teatro do absurdo dramatiza este recente dilema do homem ocidental odilema do homem de ao que pa-Pg 18rece no estar envolvido na ao. Esta a origem e a atrao dos palhaos de SamuelBeckett. Depois de trs mil anos de exploso especializada, de especializao ealienao crescentes nas extenses tecnolgicas de nosso corpo, nosso mundo tornou-se compressivo por uma dramtica reverso. Eletricamente contrado, o globo j no mais do que uma vila. A velocidade eltrica, aglutinando todas as funes sociais epolticas numa sbita imploso, elevou a conscincia humana de responsabilidade a umgrau dos mais intensos. este fator implosivo que altera a posio do negro, doadolescente e de outros grupos. Eles j no podem ser contidos, no sentido poltico deassociao limitada. Eles agora esto envolvidos em nossas vidas, como ns na deles graas aos meios eltricos.Esta a Idade da Angstia, por fora da imploso eltrica, que obriga aocompromisso e participao, independentemente de qualquer ponto de vista. Pornobre que seja, o carter parcial e especializado do ponto de vista no tem maiorutilidade na idade da eletricidade. Ao nvel da informao, o mesmo abalo ocorreu com 9. a substituio do simples ponto de vista pela imagem inclusiva. Se o sculo XIX foi aidade da cadeira do chefe de redao e do editorialista, o nosso o sculo do div dopsicanalista. Enquanto extenso do homem, a cadeira uma ablao especializada dotraseiro, uma espcie de ablativo das costas. ao passo que o div prolonga ouestende o ser integral. O psicanalista utiliza o div porque ele elimina a tentao deexpressar pontos de vista particulares e afasta a necessidade de racionalizar os fatos. A aspirao de nosso tempo pela totalidade, pela empatia e pela conscientizaoprofunda um corolrio natural da tecnologia eltrica. A idade da indstria mecnicaque nos precedeu encontrou seu modo natural de expresso na afirmao veemente daperspectiva particular. Todas as culturas possuem seus modelos favoritos de percepoe conhecimento, que elas buscam aplicar a tudo e a todos. Uma das caractersticas denosso tempo a rebelio contra os padres impostos. Como que subitamente,passamos aPg 19ansiar por que as pessoas e as coisas explicitem seus seres totalmente. Nesta novaatitude h uma profunda f a ser procurada uma f que se refere harmonia ltimade todo ser. E com esta f que este livro foi escrito. Ele explora os contornos denossos prprios seres, prolongados em nossas tecnologias, buscando um princpio deinteligibilidade em cada um deles. Plenamente confiante em que possvel atingir umacompreenso dessas formas, de modo a orden-las utilmente, encarei-as de maneiranova, acolhendo muito pouco do acervo de conhecimentos convencionais que sobreelas se acumulou. Podemos dizer dos meios e veculos o que Robert Theobald disse dasdepresses econmicas: H um fator adicional que ajudou a controlar as depresses: amelhor compreenso de seu desenvolvimento. O exame da origem e dodesenvolvimento das extenses individuais do homem deve ser precedido de um lancede olhos sobre alguns aspectos gerais dos meios e veculos extenses do homem a comear pelo jamais explicado entorpecimento que cada uma das extenses acarretano indivduo e na sociedade.Pg 20PRIMEIRA PARTE1. O MEIO A MENSAGEMNuma cultura como a nossa, h muito acostumada a dividir e estilhaar todas ascoisas como meio de control-las, no deixa, s vezes, de ser um tanto chocantelembrar que, para efeitos prticos e operacionais, o meio a mensagem. Isto apenassignifica que as conseqncias sociais e pessoais de qualquer meio ou seja, dequalquer uma das extenses de ns mesmos constituem o resultado do novo estalointroduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extenso de nos mesmos.Assim, com a automao, por exemplo, os novos padres da associao humanatendem a eliminar empregos, no h dvida. Trata-se de um resultado negativo. Dolado positivo, a automao cria papis que as pessoas devem desempenhar, em seutrabalho ou em suas relaes com os outros, com aquele profundo sentido departicipao que a tecnologia mecnica que a precedeu havia destrudo. Muita genteestaria inclinada a dizer que no era a mquina, mas o que se fez com ela, queconstitui de fato o seu significado ou mensagem. Em termos da mudana que amquina introduziu em nossas relaes com outros e conosco mesmos, pouco 10. importava que ela produzisse flocos de milho ou Cadillacs. A reestruturao daassociao e do trabalho humanos foi moldada pela tcnica de fragmentao, queconstitui a essncia da tecnologia da mquina. O oposto que constitui a essncia datecnologia da automao. Ela integral e descentralizadora, em profundidade, assimcomoPg 21a mquina era fragmentria, centralizadora e superficial na estruturao das relaeshumanas.Neste passo, o exemplo da luz eltrica pode mostrar-se esclarecedor. A luzeltrica informao pura. algo assim como um meio sem mensagem, a menos queseja usada para explicitar algum anncio verbal ou algum nome. Este fato,caracterstico de todos os veculos, significa que o contedo de qualquer meio ouveculo sempre um outro meio ou veculo. O contedo da escrita a fala, assim comoa palavra escrita o contedo da imprensa e a palavra impressa o contedo dotelgrafo. Se algum perguntar, Qual o contedo da fala?, necessrio se tornadizer: um processo de pensamento, real, no-verbal em si mesmo. Uma pinturaabstrata representa uma manifestao direta dos processos do pensamento criativo,tais como poderiam comparecer nos desenhos de um computador. Estamos aqui nosreferindo, contudo, s conseqncias psicolgicas e sociais dos desenhos e padres, namedida em que ampliam ou aceleram os processos j existentes. Pois a mensagemde qualquer meio ou tecnologia a mudana de escala, cadncia ou padro que essemeio ou tecnologia introduz nas coisas, humanas. A estrada de ferro no introduziumovimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou eampliou a escala das funes humanas anteriores, criando tipos de cidades, de trabalhoe de lazer totalmente novos. Isto se deu independentemente do fato de a ferrovia estaroperando numa regio tropical ou setentrional, sem nenhuma relao com o frete oucontedo do veculo ferrovirio. O avio. de outro lado, acelerando o ritmo detransporte, tende a dissolver a forma ferroviria da cidade, da poltica e dasassociaes, independentemente da finalidade para a qual utilizado.Voltemos luz eltrica. Pouca diferena faz que seja usada para umainterveno cirrgica no crebro ou para uma partida noturna de beisebol. Poderiaobjetar-se que essas atividades, de certa maneira, constituem o contedo da luzeltrica, uma vez que no poderiam existir sem ela.Pg 22Este fato apenas serve para destacar o ponto de que o meio a mensagem, porque o meio que configura e controla a proporo e a forma das aes e associaeshumanas. O contedo ou usos desses meios so to diversos quo ineficazes naestruturao da forma das associaes humanas. Na verdade no deixa de ser bastantetpico que o contedo de qualquer meio nos cegue para a natureza desse mesmomeio. Somente hoje as indstrias se tornaram conscientes das diversas espcies denegcios em que esto mergulhadas. A IBM s comeou a navegar com boa visibilidadedepois que descobriu que no estava no ramo da produo de mquinas eequipamentos para escritrios e sim no de processamento da informao. A GeneralElectric aufere uma boa parte de seus lucros das lmpadas eltricas e dos sistemas deiluminao. Ela ainda no descobriu que, tanto quanto a A. T. & T., ela est no negcioda informao mvel e em mudana.No percebemos a luz eltrica como meio de comunicao simplesmente porqueela no possui contedo. o quanto basta para exemplificar como se falha no estudo 11. dos meios e veculos. Somente compreendemos que a luz eltrica um meio decomunicao quando utilizada no registro do nome de algum produto. O que aquinotamos, porm. no a luz, mas o contedo (ou seja. aquilo que na verdade umoutro meio). A mensagem da luz eltrica como a mensagem da energia eltrica naindstria: totalmente radical, difusa e descentralizada. Embora desligadas de seus usos,tanto a luz como a energia eltrica eliminam os fatores de tempo e espao daassociao humana, exatamente como o fazem o rdio, o telgrafo. o telefone e ateleviso, criando a participao em profundidade. Um manual bastante completo para o estudo das extenses do homem poderiaser organizado compilando-se citaes de Shakespeare. No chegaramos a pensar nateleviso se algum nos propusesse, como adivinha, estes versos de Romeu e Julieta?: Mas, veja! Que luz aquela, que passa pela janela? Ela fala e no diz nada.Pg 23 No Otelo, que, tanto quanto o Rei Lear, trata do tormento de pessoastransformadas por iluses, lemos estes versos, que bem falam da intuio deShakespeare em relao aos poderes de transformao dos novos meios: No h encantos Pelos quais a virtude de moos e moas Possa dar em desmandos? Voc, Roderigo, J no leu algo assim? Em Troilo e Cressida, que quase completamente dedicado ao estudo tantosocial como psicolgico da comunicao, Shakespeare reafirma a sua conscincia deque a verdadeira navegao poltica e social depende da capacidade de antecipar asconseqncias da inovao:A providncia de um estado previdenteDistingue cada gro do tesouro de Pluto,Encontra o fundo das profundas insondveis,Liga senso e lugar, e quase como os deusesDescobre os pensamentos em seus beros mudos.A conscincia crescente que se tem da ao dos meios, independentemente deseu contedo ou programao, vem indicada nesta quadrinha annima e irritada:No pensamento (e nos fatos) de hojeTudo induz e conduz ao ato e ao,De forma que s digno de elogioFalar da queda e no da contuso. A mesma espcie de conhecimento total e configuracional que revela por que,socialmente falando, o meio a mensagem, constatada tambm na mais recente eradical das teorias mdicas. Em sua obra, Stress of Life (A Tenso da Vida), HansSelye fala da consternao manifestada por um de seus colegas de pesquisa, ao ouvir asua teoria:Quando me viu embarcado em mais uma descrio extasiada do que euobservara em animais tratados com este ou aquele material impuro ou txico, olhou- 12. me com olhos angustiosamente tristes e disse, num desespero patente: Mas, Selye,veja bem o que vocPg 24esta fazendo, antes que seja tarde! Voc parece estar decidido a dedicar toda a suavida ao estudo da farmacologia da sujeira! (Hans Selye, The Stress 0/ Li/e) Assim como Selye trata da situao ambiental total em sua teoria da doenabaseada no stress, assim as mais recentes abordagens ao estudo dos meios levam emconta no apenas o contedo, mas o prprio meio e a matriz cultural em que ummeio ou veculo especfico atua, O antigo desconhecimento dos efeitos sociais epsicolgicos dos meios pode ser ilustrado praticamente por qualquer um dospronunciamentos oficiais. Ao aceitar um grau honorfico da Universidade de Notre Dame, h alguns anos, oGen. David Sarnoff declarou o seguinte: Estamos sempre inclinados a transformar oinstrumental tcnico em bode expiatrio dos pecados praticados por aqueles que osmanejam. Os produtos da cincia moderna, em si mesmos, no so bons nem maus: o modo com que so empregados que determina o seu valor. Aqui temos a voz dosonambulismo de nossos dias. o mesmo que dizer: Uma torta de mas, em simesma, no boa nem m: o seu valor depende do modo com que utilizada. Ouainda: O vrus da varola, em si mesmo, no bom nem mau: o modo como usado que determina o seu valor. E ainda: As armas de fogo, em si mesmas, no so boasnem ms: o seu valor determinado pelo modo como so empregadas. Vale dizer: seos estilhaos atingem as pessoas certas, as armas so boas; se o tubo de televisodetona a munio certa e atinge o pblico certo, ento ele bom. No estou querendoser maldoso. Na afirmao de Sarnoff praticamente nada resiste a analise, pois elaignora a natureza do meio, dos meios em geral e de qualquer meio em particular, bemno estilo narcisstico de algum que se sente hipnotizado pela amputao e extensode seu prprio ser numa forma tcnica nova. O General Sarnoff continuou a explicaode sua atitude frente tecnologia da imprensa dizendo que era verdade que aimprensa veiculava muita droga, mas, em compensao, havia disseminado a Bblia eos pensamentosPg 25dos profetas e filsofos. Nunca ocorreu ao General Sarnoff que qualquer tecnologiapode fazer tudo, menos somar-se ao que j somos. Economistas como Robert Theobald, W. W. Rostow e John Kenneth Galbraith, hanos vm expondo por que a economia clssica no consegue explicar as mudanasou o crescimento. E o paradoxo da mecanizao reside no fato de ser, ela mesma, acausa do desenvolvimento e das mudanas, enquanto que o princpio da mecanizaoexclui a prpria possibilidade de crescimento ou a compreenso dAs transformaes.Isto porque a mecanizao se realiza pela fragmentao de um processo, seguida daseriao das partes fragmentadas. Contudo, como David Hume mostrou no sculoXVIII, no h princpio de causalidade numa mera seqncia. O fato de uma coisaseguir-se a outra no significa nada. A simples sucesso no conduz a nada, a no ser mudana. Assim a eletricidade viria a causar a maior das revolues, ao liquidar aseqncia e tornar as coisas simultneas. Com a velocidade instantnea, as causasdas coisas vieram novamente tona da conscincia, o que no ocorria com as coisasem seqncia e em conseqente concatenao. Em lugar de perguntar o que veio 13. primeiro, o ovo ou a galinha, comeou-se a desconfiar que a galinha foi idia do ovopara a produo de mais ovos. Antes de o avio romper a barreira do som, as ondas sonoras se fizeram visveisnas asas do avio. A sbita visibilidade do som, justo no momento em que ele termina um exemplo adequado daquela grande estrutura do ser que revela formas novas econtraditrias precisamente quando as formas anteriores atingem seu desempenhomximo. A mecanizao nunca se revelou to claramente em sua naturezafragmentada ou seqencial no nascimento do cinema o momento em que fomostraduzidos, para alm do mecanismo, em termos de um mundo de crescimento e deinter-relao orgnica. O cinema, pela pura acelerao mecnica, transportou-nos domundo das seqncias e dos encadeamentos para o mundo das estruturas e dasconfiguraes criativas. A mensagem do cinema enquanto meioPg 26 a mensagem da transio da sucesso linear para a configurao. Foi esta transioque deu nascimento observao, hoje perfeitamente correta: Se funciona, ento obsoleto. Quando a velocidade eltrica sucede seqncia mecnica do cinema, aslinhas de fora das estruturas e dos meios se tornam audveis e claras. Retornamos forma inclusiva do icone. Para uma cultura altamente mecanizada e letrada, o cinema surgiu como ummundo de iluses triunfantes e de sonhos que o dinheiro podia comprar. Foi nesta fasedo cinema que o cubismo apareceu, e foi descrito por E. H. Gombrich (Art and Illusion)como a mais radical tentativa de extinguir a ambigidade e acentuar a leitura integraldo quadro que se torna uma construo feita pelo homem, uma tela colorida. Ocubismo substitui o ponto de vista, ou faceta da iluso perspectivista, por todas asfacetas do objeto apresentadas simultaneamente. Em lugar da iluso especializada daterceira dimenso, o cubismo erige na tela um jogo de planos contraditrios ou umdramtico conflito de estruturas, luzes e texturas, que foram e transmitem amensagem por insolvncia. E h muitos que tm isto como exerccio praticado nocampo da pintura e no no campo da iluso. Em outras palavras, o cubismo, exibindo o dentro e o fora, o acima e o abaixo, afrente, as costas e tudo o mais, em duas dimenses, desfaz a iluso da perspectiva emfavor da apreenso sensria instantnea do todo. Ao propiciar a apreenso totalinstantnea, o cubismo como que de repente anunciou que o meio a mensagem. Nose torna, pois, evidente que, a partir do momento em que o seqencial cede aosimultneo, ingressamos no mundo da estrutura e da configurao? E no foi isto queaconteceu tanto na Fsica como na pintura, na poesia e na comunicao? Os segmentosespecializados da ateno deslocaram-se para o campo total, e por isso que agorapodemos dizer, da maneira a mais natural possvel: O meio a mensagem. Antes davelocidade eltrica e do campo integral ou unificado, que o meio fosse a mensagemera algo que no tinha nada de bvio. Parecia, ento que a mensagem era o conte-Pg 27do, como costumavam dizer as pessoas ao perguntarem sobre o que significava umquadro, ou de que coisa tratava. Nunca se lembravam de perguntar do que tratavauma melodia, ou uma casa ou um vestido. Nestes assuntos, as pessoas sempreconservavam um certo senso de integralidade, de forma e funo como unidade. Masna era da eletricidade, esta idia integral de estrutura e configurao se tornou todominante que as teorias educacionais passaram a lanar mo dela. Em lugar deoperar com problemas particulares de aritmtica, a abordagem estrutural agora 14. segue as linhas de fora do campo dos nmeros e passamos a ver crianasmeditando sobre a teoria dos nmeros e dos conjuntos. O Cardeal Newman disse de Napoleo: Ele compreendeu a gramtica daplvora Napoleo dedicou alguma ateno a outros meios tambm, especialmente aotelgrafo semafrico, que lhe deu grande vantagem sobre seus inimigos. E os anaisregistram a sua declarao de que trs jornais hostis so mais de temer do que milbaionetas. Alexis de Tocqueville foi o primeiro a dominar a gramtica da imprensa e datipografia. Capacitou-se assim a decifrar a mensagem das mudanas iminentes naFrana e na Amrica, como se estivesse lendo em voz alta um texto que lhe tivessempassado s mos. De fato, o sculo XIX, na Frana e na Amrica, se apresentava comoum livro aberto a Tocqueville, pois havia aprendido a gramtica da imprensa. E sabiatambm quando a gramtica no funcionava. Perguntado por que no escrevia um livrosobre a Inglaterra, uma vez que a conhecia e admirava tanto, respondeu: Somente quem estivesse afetado por um elevado grau de delrio filosficoacreditar-se-ia capaz de julgar a Inglaterra em apenas seis meses. Um ano semprepareceu um tempo por demais breve para conhecer bem os Estados Unidos, e muitomais fcil ter uma noo clara e precisa da Unio Americana do que da Gr-Bretanha.Na Amrica, todas as leis, num certo sentido, derivam da mesma linha de pensamento.A sociedade como um todo se funda sobre um simples fato, por assim dizer; tudo brotade um mesmo principio. Pode-se comparar a Amrica a uma floresta atravessada pornumerosas estradas retas, convergindo para um mesmo ponto. BastaPg 28encontrar um centro e tudo o mais se revela, num relance. Na Inglaterra, os caminhosse emaranham e s percorrendo um por um pode-se traar um quadro do todo.Em trabalho anterior sobre a Revoluo Francesa, De Tocqueville j haviaexplicado como a palavra impressa, atingindo sua saturao cultural no sculo XVIII,havia homogeneizado a nao francesa. Os franceses se tornaram a mesma espcie degente, do norte ao sul. Os princpios tipogrficos da uniformidade, da continuidade e dalinearidade se haviam superposto s complexidades da antiga sociedade feudal e oral.A revoluo foi empreendida pelos novos literatos e bacharis.Na Inglaterra, contudo, era tal a fora das antigas tradies orais do direitocostumeiro, estribadas na instituio medieval do Parlamento, que nenhumauniformidade ou continuidade da nova cultura impressa e visual poderia vir aprevalecer completamente. O resultado foi que o mais importante acontecimento dahistria inglesa simplesmente no houve vale dizer, a Revoluo Inglesa na trilha daRevoluo Francesa. A parte a monarquia, a Revoluo Americana no teve quedescartar ou desenraizar instituies legais medievais. E muitos tm sustentado que apresidncia americana se tornou muito mais personalista e monrquica do quequalquer monarquia europia.O contraste entre a Inglaterra e a Amrica, estabelecido por De Tocqueville,baseia-se claramente na criao da uniformidade e da continuidade pela tipografia epela cultura impressa. A Inglaterra, diz ele, rejeitou esse princpio, permanecendo fiel tradio oral e dinmica do direito costumeiro. Da a qualidade descontnua eimprevisvel da cultura inglesa. A gramtica da imprensa no tem serventia naelaborao da mensagem das instituies e de uma cultura oral e no escrita. Aaristocracia inglesa foi justamente classificada como brbara por Mathew Arnold, 15. porque o seu poder e o seu status nada tinham que ver com a cultura letrada ou comas formas culturais da tipografia. Dizia o Duque de Gloucester a Edward Gibbon, porocasio do lanamento da Declnio e Queda do Im-Pg 29prio Romano, deste ltimo: Mais um maldito tijolo. hein Sr. Gibbon? Escrevinhar,escrevinhar, escrevinhar, hein, Sr. Gibbon? De Tocqueville era um aristocrataaltamente letrado, mas perfeitamente capaz de desligar-se de valores e pressupostosda tipografia. Eis por que s ele entendeu a gramtica da tipografia. E somenteassim, permanecendo margem de qualquer estrutura ou meio, que os seus princpiose linhas de fora podem ser percebidos. Pois os meios tm o poder de impor seuspressupostos e sua prpria adoo aos incautos. A predio e o controle consistem emevitar este estado subliminar de transe narcsico. Mas o melhor adjutrio para este fimconsiste simplesmente em saber que o feitio pode ocorrer imediatamente, por contato,como os primeiros compassos de uma melodia. Passagem para a ndia, de E. M. Forster, um estudo dramtico da inabilidadedas culturas orientais, intuitivas e orais, de assimilar e compreender os padres deexperincia europeus, racionais e visuais. Para os ocidentais, h muito tempo,racional, naturalmente significa seqncia uniforme e contnua. Em outras palavras,confundimos razo com instruo letrada e racionalismo com uma tecnologia isolada.Dessa forma, na era da eletricidade, o homem parece tomar-se irracional aos olhos doocidental comum. No romance de Forster, o momento da verdade e da desalienao dotranse tipogrfico ocidental ocorre nas Cavernas Marabar. A fora de argumentao deAdela Quested no pode medir-se com o campo de ressonncia total e inclusiva que a ndia. Depois das Cavernas, a vida continuou como sempre, mas semconseqncias, isto , os sons no tinham eco nem o pensamento se desenvolvia. Tudoparecia cortado pela raiz e infectado de iluso. Passagem para a ndia (a expresso de Whitman, que viu a Amrica marchando para o Oriente) uma parbola do homemocidental na era da eletricidade e s incidental-mente se refere Europa ou ao Oriente.O conflito ltimo entre a viso e o som, entre as formas escritas e orais de percepo eorganizao da existncia, est ocorrendo agora. Uma vez que a compreenso paralisaa ao, como obser-Pg 30vou Nietzsche, podemos moderar a rudeza desse conflito pela compreenso dos meiosque nos- prolongam e que provocam essas guerras dentro de nos.A destribalizao pela escrita e seus efeitos traumticos no homem tribal otema de um livro do psiquiatra J. C. Carothers, The African Mind in Health and Disease(A Mentalidade Africana, na Sade e na Doena), editado pela Organizao de Sade,Genebra, 1959. A maior parte desse material apareceu num artigo da revistaPsychiatry, intitulado A Cultura, a Psiquiatria e a Palavra Escrita (novembro, 1959) -Novamente aqui, vemos a velocidade eltrica revelando as linhas de fora que, a partirda tecnologia ocidental, operam nas mais remotas reas da caatinga, da savana e dodeserto. Um exemplo o beduno levando, no camelo, seu rdio transistor. Submergiros nativos com torrentes de conceitos para os quais no foram preparados a aonormal de toda a nossa tecnologia. Mas com os meios eltricos, o prprio homemocidental comea a sofrer exatamente a mesma inundao que atinge o remoto nativo.No estamos mais bem preparados para enfrentar o rdio e a televiso em nossoambiente letrado do que o nativo de Gana em relao escrita, que o expulsa de seumundo tribal coletivo, acuando-o num isolamento individual. Estamos to sonados em 16. nosso novo mundo eltrico quanto o nativo envolvido por nossa cultura escrita emecnica. A velocidade eltrica mistura as culturas da pr-histria com os detritos dosmercadologistas industriais, os analfabetos com os - semiletrados e os ps-letrados.Crises de esgotamento nervoso e mental, nos mais variados graus. constituem oresultado, bastante comum, do desarraigamento e da inundao provocada pelas novasinformaes e pelas novas e infindveis estruturas informacionais. Wyndham Lewisescolheu este tema para o seu ciclo de romances chamado The Human Age (A EraHumana). O primeiro deles, The Childermass (O Dia dos Santos Inocentes), abordaprecisamente a questo da mudana acelerada dos meios, vista como uma espcie demassacre dos inocentes. Em nosso prprio mundo, medida em quePg 31ganhamos conscincia dos efeitos da tecnologia na formao e nas manifestaespsquicas, vamos perdendo toda a confiana em nosso direito de atribuir culpas. Asantigas sociedades pr-histricas tm como pattico o crime violento. O assassino encarado da mesma forma como encaramos uma vtima do cncer. Deve ser horrvelsentir-se assim, dizem eles. J. M. Synge desenvolveu essa idia de maneira bastanteconseqente em sua pea O Playboy do Mundo Ocidental.Se o criminoso visto como um inconformista, incapaz de atender aos ditamesda tecnologia, no sentido do comportamento segundo padres uniformes e contnuos, ohomem letrado se inclina a encarar pateticamente aqueles que no se enquadram nosesquemas. Mais especialmente, a criana, o aleijado, a mulher e as pessoas de corcomparecem como vtimas da injustia, no mundo da tecnologia tipogrfica e visual.Por outro lado, numa cultura que distribua papis (sentido teatral) em lugar deempregos, o ano, o deformado e a criana criam seus prprios espaos. Deles no seespera que venham a caber em nichos uniformes e repetitivos sempre fora demedida para os seus tamanhos. Veja-se a. frase: um mundo para homens. Comoobservao quantitativa, infindavelmente repetida numa cultura homogeneizada, ela serefere a homens que precisam ser Dagwoods em srie, se quiserem integrar-se nela. em nossos testes de Q. I. que produzimos a maior enchente de padres esprios.Inscientes de nossa tendncia cultural tipogrfica, nossos pesquisadores partem doprincpio de que hbitos uniformes e contnuos constituem ndices de inteligncia, dessaforma eliminando o homem-ouvido e o homem-tato.C. P. Snow, resenhando um livro de A. L. Rowse (The New York Times BookReview, 24-12-61), sobre o Apaziguamento e a estrada de Munique, traa umadescrio dos crebros e da experincia dos ingleses, nos anos 30. Seu Q. I. era muitomais elevado do que o habitual entre os prceres polticos. Como puderam chegar a umtal fracasso?. E Snow aprova a opinio de Rowse: No davamPg 32ouvido a advertncias porque no queriam ouvir. O fato de serem anticomunistastornava-lhes impossvel a leitura da mensagem de Hitler. Mas o fracasso deles no foinada em comparao com o nosso atual. Os padres americanos fincados na escritacomo tecnologia uniforme aplicvel a todos os nveis educao, governo, indstria evida social esto agora ameaados pela tecnologia eltrica. A ameaa de Stalin ouHitler era externa. A tecnologia eltrica est dentro dos muros e ns somos insensveis,surdos, cegos e mudos, ante a sua confrontao com a tecnologia de Gutenberg, na eatravs da qual se formou o modo americano de vida. Mas no o momento de sugerirestratgias, quando a existncia da ameaa sequer foi reconhecida. Estou na mesma 17. posio de Pasteur, ao dizer aos doutores que seu maior inimigo era perfeitamenteinvisvel e perfeitamente irreconhecvel por eles. Nossa resposta aos meios e veculosde comunicao ou seja, o que conta o modo como so usados tem muito dapostura alvar do idiota tecnolgico. O contedo de um meio como a bola de carneque o assaltante leva consigo para distrair o co de guarda da mente. O efeito de ummeio se torna mais forte e intenso justamente porque o seu contedo e um outromeio. O contedo de um filme um romance, uma pea de teatro ou uma pera. Oefeito da forma flmica no est relacionado ao contedo de seu programa. Ocontedo da escrita ou da imprensa e a fala, mas o leitor permanece quase queinteiramente inconsciente, seja em relao palavra impressa, seja em relao palavra falada.Arnold Toynbee ignora at inocncia a funo dos meios na formao dahistria, mas contm muitos exemplos teis ao estudante dos media. Em certa altura,chega at a sugerir que a educao de adultos atravs da Associao Educacionaldos Trabalhadores, na Inglaterra pode constituir-se numa fora eficaz contra aimprensa popular. Toynbee acha que, embora todas as sociedades orientais j tenhamaceitado a tecnologia industrial e suas conseqncias polticas, no plano cultural, noentanto, no se observa uma tendncia uniforme correspondente (Somer-Pg 33vell. 1. 267). Esta a voz do letrado que, aos tropees no mundo dos anncios,garganteia: "Pessoalmente, no dou ateno a anncios. As reservas espirituais eculturais que os povos orientais possam ter em relao nossa tecnologia no lhespodero valer muito. Os efeitos da tecnologia no ocorrem aos nveis das opinies edos conceitos: eles se manifestam nas relaes entre os sentidos e nas estruturas dapercepo, num passo firme e sem qualquer resistncia. O artista srio a nicapessoa capaz de enfrentar, impune, a tecnologia, justamente porque ele um peritonas mudanas da percepo.A operao do meio monetrio no Japo do sculo XVII produziu efeitossemelhantes aos da operao tipografia no Ocidente. A penetrao da economia dodinheiro, escreveu G. B. Sansom (Japan, Cresset Press, Londres, 1931), provocou umarevoluo, lenta mas irresistvel, que culminou com o esfacelamento do governo feudale a retomada do intercAmbio com pases estrangeiros, depois de mais de dois sculosde isolamento. O dinheiro reorganizou a vida dos sentidos dos povos precisamenteporque ele uma extenso da vida de nossos sentidos. Esta mudana no depende daaprovao ou desaprovao dos membros constitutivos da sociedade.Arnold Toynbee abordou o tema do poder de transformao dos meios, em seuconceito da "eterizao, que ele tem como o princpio da simplificao e da eficinciaprogressivas em qualquer organizao ou tecnologia. Mas significativo que ele ignoreo efeito do desafio dessas formas sobre as reaes de nossos sentidos. Acha que aresposta expressa por nossas opinies que relevante em relao aos efeitos dosmeios e da tecnologia na sociedade um ponto de vista claramente resultante dofeitio tipogrfico. O homem de uma sociedade letrada e homogeneizada j no sensvel diversa e descontnua vida das formas. Ele adquire a iluso da terceiradimenso e do ponto de vista pessoal como parte de sua fixao narcsica, excluindo-se assim da conscincia de um Blake ou do Salmista, para os quais ns nostransformamos naquilo que contemplamos.Pg 34 18. Hoje, se quisermos estabelecer os marcos de nossa prpria cultura,permanecendo margem das tendncias e presses exercidas por qualquer formatcnica de expresso humana, basta que visitemos uma sociedade onde uma certaforma particular ainda no foi sentida ou um perodo histrico onde ela ainda eradesconhecida. O Prof. Wilbur Schramm efetuou essa manobra ttica, ao estudar aTelevision in the Lives of our Children (A Televiso na Vida de Nossas Crianas).Encontrou reas onde a televiso ainda no havia penetrado o suficiente e efetuoualguns testes. Como no havia feito nenhum estudo sobre a natureza especfica daimagem televisada, seus testes versaram sobre preferncias de contedo, tempo deexposio ao vdeo e levantamentos de vocabulrio. Numa palavra, sua abordagem doproblema foi puramente literria, embora inconsciente. Em conseqncia, no tevenada a relatar. Tivesse empregado tais mtodos em 1500 para descobrir os efeitos dolivro impresso sobre a vida de crianas e adultos, nada teria concludo sobre asmudanas provocadas pela tipografia sobre a psicologia humana e social. A imprensacriou o individualismo e o nacionalismo no sculo XVI. A anlise de programas econtedos no oferece pistas para a magia desses meios ou sua carga subliminar. Leonard Doob, em seu relatrio Communication in Africa (Comunicao nafrica), conta de um africano que sofria um bocado para ouvir, todas as noites, onoticirio da BBC embora no entendesse nada do que se falava. Mas estar empresena daqueles sons, s 7 horas da noite, diariamente, era importante para ele. Suaatitude para com a fala era igual nossa diante da melodia: a entonao ressonante j bastante significativa. No sculo XVII, nossos ancestrais ainda partilhavam dessaatitude do nativo ante as formas dos meios, como bem nos faz sentir o francs BernardLam, em The Art of Speaking (A Arte de Falar, Londres, 1697): uma virtude da sabedoria de Deus, que criou o Homem para a felicidade, queo que lhe til na conversao e no modo de vida tambm lhe agradvel ... porquetoda vitualha que prov nutrio saborosa, enquanto inspidas se tornam outrascoisasPg 35que no podem ser assimiladas e transformadas em nossa prpria substncia. Nopode agradar ao Ouvinte um Discurso que no flua fcil da boca do Orador, nem podeser ele facilmente proferido se com deleite no for ouvido.H aqui uma teoria do equilbrio da expresso e da dieta humanas. que s agoraestamos tentando recuperar em relao aos meios depois de sculos defragmentao e especializao.O Papa Pio XII preocupava-se profundamente com o desenvolvimento deestudos srios sobre os atuais meios de comunicao. Dizia ele, em 17 de fevereiro de1950: No um exagero dizer-se que o futuro da sociedade moderna, bem como daestabilidade de sua vida interior, dependem em grande parte da manuteno de umequilbrio entre a fora das tcnicas de comunicao e a capacidade de reao doindivduo. Durante sculos, o fracasso da Humanidade a esse respeito tem sidocaracterstico e total. A aceitao dcil e subliminar do impacto causado pelos meiostransformou-os em prises sem muros para seus usurios. Como observou A. J. 19. Liebling em seu livro The Press (A Imprensa), um homem no consegue ser livre seno consegue enxergar para onde vai, ainda que tenha um revlver para ajud-lo.Todo meio ou veculo de comunicao tambm uma arma poderosa para abateroutros meios e veculos e outros grupos. Resulta da que os tempos que correm se tmcaracterizado por numerosas guerras civis, que no se limitam ao mundo da arte e doentretenimento. Em War and Human Progress (A Guerra e o Progresso Humano), oProf. J. U. Nef declara: As guerras totais de nosso tempo tm resultado de uma sriede erros intelectuais..." Como a fora plasmadora dos meios so os prprios meios, questes de largoalcance se impem nossa considerao; embora meream volumes, no podem aquiser seno mencionadas. Uma delas que os meios tecnolgicos so recursos naturaisou matrias-primas, a mesmo ttulo que o carvo, o algodo e o petrleo. Todosconcordaro em que uma sociedade cuja economia depende de um ouPg 36dois produtos bsicos, algodo ou trigo, madeira, peixe ou gado, apresentar, comoresultado, determinados e evidentes padres sociais de organizao. A nfase emcertas matrias-primas bsicas responsvel pela extrema instabilidade da economia,mas tambm pela maior capacidade de resistncia da populao. O pathos e o humordo estadunidense do Sul se implantam numa economia desse tipo, de produtoslimitados. Uma sociedade configurada segundo o apoio que lhe fornecem algunspoucos bens tende a aceit-los como liames ou elos sociais, tal como a metrpole emrelao imprensa. O algodo e o petrleo, como o rdio e a televiso, tornam-setributos fixos para a inteira vida psquica da comunidade. este fato que, permeandouma sociedade, lhe confere aquele peculiar sabor cultural. Cada produto que moldauma sociedade acaba por transpirar em todos e por todos os seus sentidos. Que os nossos sentidos humanos, de que os meios so extenses, tambm seconstituem em tributos fixos sobre as nossas energias pessoais e que tambmconfiguram a conscincia e experincia de cada um de ns pode ser percebido naquelasituao mencionada pelo psiclogo C. G. Jung: Todo Romano era cercado por escravos. O escravo e a sua psicologiainundaram a Itlia antiga, e todo Romano se tornou interiormente e, claro,inconscientemente um escravo. Vivendo constantemente na atmosfera dos escravos,ele se contaminou de sua psicologia, atravs do inconsciente. Ningum consegue evitaressa influncia. (Contributions to Analytical Psychology, Londres, 1928).Pg 372. MEIOS QUENTES E FRIOS O surgimento da valsa explicou Curt Sachs, em sua World History of theDance (Histria Mundial da Dana) foi o resultado daquela aspirao pela verdade,simplicidade, convvio com a natureza e primitivismo propiciados pelos ltimos doisteros do sculo XVIII." No sculo do Jazz, ns tendemos a subestimar o aparecimentoda valsa, expresso humana quente e explosiva, que rompeu aquelas barreiras formaisdo feudalismo representadas pelos estilos da dana coral e palaciana. H um princpio bsico pelo qual se pode distinguir um meio quente, como ordio, de um meio frio, como o telefone, ou um meio quente, como o cinema, de um 20. meio frio, como a televiso. Um meio quente aquele que prolonga um nico denossos sentidos e em alta definio. Alta definio se refere a um estado de altasaturao de dados. Visualmente, uma fotografia se distingue pela alta definio. Juma caricatura ou um desenho animado so de baixa definio, pois fornecem poucainformao visual, O telefone um meio frio, ou de baixa definio, porque ao ouvido fornecida unia magra quantidade de informao. A fala um meio frio de baixadefinio, porque muito pouco fornecido e muita coisa deve ser preenchida peloouvinte. De outro lado, os meios quentes no deixam muita coisa a ser preenchida oucompletada pela audincia. Segue-se naturalmente que um meio quente. como o rdio,e um meio frio, como o telefone, tm efeitos bem diferentes sobre seus usurios.Pg 38Um meio frio como os caracteres escritos hieroglficos ou ideogrmicos atua demodo muito diferente daquele de um meio quente e explosivo como o do alfabetofontico. Quando elevado a um alto grau de intensidade visual abstrata, o alfabeto setransforma em tipografia. A palavra impressa, graas sua intensidade especializada,quebrou os elos das corporaes e mosteiros medievais, criando forma, de empresas ede monoplios extremamente individualistas. Mas a reverso tpica ocorreu quando omonoplio extremado trouxe de volta a corporao, com seu domnio impessoal sobremuitas vidas. O aquecimento do meio da escrita pela intensificao da imprensarepetitiva conduziu ao nacionalismo e s guerras religiosas do sculo XVI) Os meiospesados e macios, como a pedra agem como inter-ligadores do tempo. Usados para aescrita, so em verdade bastante frios e servem para unificar as eras e as idades; j opapel um meio quente, que serve para unificar os espaos horizontalmente, seja nosimprios do entretenimento, seja nos imprios polticos.Um meio quente permite menos participao do que um frio: uma confernciaenvolve menos do que um seminrio, e um livro menos do que um dilogo. Com aimprensa, muitas formas anteriores foram excludas da vida e da arte, enquanto outrasganharam uma nova intensidade. Mas o nosso prprio tempo est cheio de exemplosdo princpio segundo o qual a forma quente exclui e a forma fria inclui. Quando asbailarinas comearam a danar nas pontas dos ps, h um sculo atrs, todos sentiramque a arte do bal havia adquirido uma nova espiritualidade. Devido a essa novaintensidade, as figuras masculinas foram excludas do bal. O papel das mulherestambm se tornou fragmentrio com o advento da especializao industrial e aexploso das funes caseiras em lavanderias, padarias e hospitais na periferia dacomunidade. A intensidade, ou alta definio, produz a fragmentao ouespecializao, tanto na vida como no entretenimento; isto explica por que todaexperincia intensa deve ser esquecida, censurada e reduzida a um estado bastantefrio antes de ser aprendida ou assimilada. A censura freudiana menos umaPg 39funo moral do que uma indispensvel condio do aprendizado. Aceitssemosintegral e diretamente todos os choques causados nas vrias estruturas de nossaconscincia, e logo no passaramos de pobres nufragos neurticos, gaguejando eapertando botes de alarme a cada minuto. A censura protege nosso sistema centralde valores, bem como nosso sistema nervoso, arrefecendo e esfriando bastante asarremetidas da experincia. Para muita gente, este sistema de esfriamento redundanum perptuo estado de rigor mortis psquico, ou de sonambulismo, particularmentenotvel em perodos de novas tecnologias. 21. Um exemplo do impacto dilacerante de uma tecnologia quente sucedendo-se auma tecnologia fria fornecido por Robert Theobald em The Rich and the Poor (OsRicos e os Pobres). Quando os missionrios deram machados de ao aos nativosaustralianos, sua cultura baseada no machado de pedra entrou em colapso. Omachado no apenas era raro como sempre fora um smbolo de classe (status), deimportncia viril. Os missionrios providenciaram uma grande quantidade de afiadosmachados de ao e os entregaram s mulheres e s crianas. Os homens tinhammesmo de pedi-los emprestados s mulheres, o que causou a runa da dignidade dosmachos. Uma hierarquia feudal e tribal de tipo tradicional entra rapidamente emdecadncia quando se defronta com qualquer meio quente do tipo mecnico, uniformee repetitivo. Enquanto meios, o dinheiro, a roda, a escrita ou qualquer outra formaespecializada de acelerao, de intercmbio e de informaes. operam no sentido dafragmentao da estrutura tribal. Igualmente, uma acelerao extremamenteacentuada, como a que ocorre com a eletricidade, contribui para restaurar os padrestribais de envolvimento intenso, tal como a que ocorreu com a introduo do rdio naEuropa, e como tende a acontecer na Amrica, como resultado da televiso. Astecnologias especializadas destribalizam. A tecnologia eltrica no especializadaretribaliza. O processo de perturbao resultante de uma nova distribuio dehabilidades vem acompanhado de muita defasagem cultural: as pessoas se sentemcompelidas a encarar as novas situaesPg 40como se fossem velhas, da derivando idias como a da exploso demogrfica, numarea de imploso. No tempo dos relgios, Newton acabou por apresentar o universofsico imagem de um relgio. Poetas como Blake, porm. estavam bem adiante deNewton, em suas reaes ao desafio do relgio. Blake falou da necessidade de livrar-seda viso nica e do sono de Newton, percebendo muito bem que a resposta deNewton ao desafio proposto pelo novo mecanismo no era seno uma repetiomecnica desse mesmo desafio. Blake via Newton, Locke e outros como Narcisoshipnotizados, totalmente incapazes de enfrentar o repto do mecanismo. W. B. Yeatsdeu a sua verso blakeana integral sobre Newton e Locke num famoso epigrama:Locke adormece a sonhar:O jardim se esvai.De seu flanco Deus extraiO fuso do tear.Yeats apresenta Locke, o filsofo do associacionismo mecnico e linear, como quehipnotizado por sua prpria imagem. O jardim ou conscincia unificada desaparece. Ohomem do sculo XVIII prolongou-se a si mesmo sob a forma do tear mecnico, queYeats dota de toda a sua significao sexual. A prpria mulher assim vista como umaextenso tecnolgica do ser do homem. A contra-estratgia de Blake para o seu tempo era a de opor ao mecanismo omito orgnico. Hoje. imerso na era da eletricidade, o prprio mito uma respostasimples e automtica passvel de expresso e formulao matemtica, sem nadadaquela percepo imaginativa de Blake. Estivesse mergulhado na era eltrica e Blakeno teria aceito o desafio em termos de mera repetio da forma eltrica. Porque omito a viso instantnea de um processo complexo que normalmente se prolonga porum longo perodo. O mito a contrao ou imploso de qualquer processo e avelocidade instantnea da eletricidade confere dimenso mtica a todas as corriqueiras 22. aes sociais e industriais de hoje. Ns vivemos miticamente, mas continuamos apensar fragmentariamente e em planos separados.Pg 41Os estudiosos esto perfeitamente cnscios da discrepncia entre as maneirascom que abordam os assuntos e os prprios assuntos. Os eruditos das Escrituras, tantodo Velho como do Novo Testamento, freqentemente declaram que o objeto de suasindagaes no linear, embora julguem que assim deva ser tratado. O tema o dasrelaes entre Deus e o homem, entre Deus e o mundo e entre o homem e o seuprximo e todas as relaes so conjuntas, agindo e reagindo umas sobre as outrasao mesmo tempo. No incio de uma discusso, o modo de pensamento oriental ehebraico o de atar e atacar simultaneamente o problema e a sua resposta, o que tpico das sociedades orais em geral. A mensagem integral traada e retraadaincessantemente, seguindo o fio de uma espiral concntrica com redundncia aparente.- Basta parar em qualquer parte, depois das primeiras sentenas, para recuperar toda amensagem quando se est preparado para escav-la. Este tipo de plano parecehaver inspirado Frank Lloyd Wright em seu projeto da Guggenheim Art Gallery, apoiadonum partido espiral e concntrico. uma forma redundante inevitvel na era daeletricidade, pois a estrutura concntrica superpondo-se em profundidade impostapela qualidade instantnea da velocidade eltrica. O concntrico, com sua infindvelinterseo de planos, necessrio para a introviso. Em verdade, ele a prpriatcnica da introviso e, como tal, necessrio para o estudo dos meios, uma vez quenenhum meio tem sua existncia ou significado por si s, estando na dependncia daconstante inter-relao com os outros meios.A nova configurao e estruturao eltrica da vida cada vez mais se ope aosvelhos processos e instrumentos de anlise, lineares e fragmentrios, da idademecnica. E cada vez mais nos apartamos do contedo das mensagens para estudar oefeito total. Kenneth Boulding tocou no assunto em The Image (A Imagem), ao dizer:O significado de uma mensagem a mudana que ela produz na imagem." Ointeresse antes pelo efeito do que pelo significado uma mudana bsica de nossotempo, pois o efeito envolve a situao total e no apenas um plano do movi-Pg 42mento da informao. Por estranho que parea, a precedncia do efeito sobre ainformao est implcita na idia de libelo, no Direito Ingls: Quanto maior a verdade.maior o libelo. Inicialmente, o efeito da tecnologia eltrica foi a angstia. E agora parece estarcriando tdio. Vimos atravessando os trs estgios alarma, resistncia, exausto que caracterizam qualquer doena ou stress vital, seja individual ou coletiva. Pelomenos, nossa queda cansada aps o primeiro entrevero com a eletricidade inclinou-nospara a expectativa de novos problemas. Entretanto, os pases subdesenvolvidos quemostraram pouca permeabilidade nossa cultura mecnica e especializada esto emmuito melhores condies para enfrentar e entender a tecnologia eltrica. No apenasas culturas atrasadas e no-industriais no possuem hbitos de especializao quedevam superar em sua confrontao com o eletromagnetismo, como, na cultura oral desua tradio, ainda possuem muito daquele campo unificado total de nosso novoeletromagnetismo. Nossas velhas reasindustrializadas, tendo corrodoautomaticamente suas tradies orais, encontram-se na posio de ter de redescobri-las se desejarem manter-se altura da era da eletricidade. 23. Em termos de meios frios e quentes, os pases atrasados so frios e ns somosquentes. O citadino bem posto e quente, o rstico do interior frio. Mas em termos dareverso dos procedimentos e valores da era eltrica, os tempos mecnicos passadoseram quentes, enquanto ns da era da TV somos frios. A valsa era uma dana quente,rpida e mecnica, adequada aos tempos industriais, em seus aspectos de pompa ecerimnia. O twist, ao contrrio, e uma forma fria de gesto improvisado, envolvente etagarela. No tempo do cinema e do rdio, que eram novos meios quentes, o jazz eraquente (hot jazz). Em si mesmo, porm, o jazz tende a ser forma danvel de dilogoinformal, tendo muito pouco das formas mecnicas e repetitivas da valsa. Depois que oprimeiro impacto do rdio e do cinema foi absorvido, o jazz frio (cool jazz) surgiunaturalmente.Pg 43No nmero da revista Life de 13-9-1963, dedicado Rssia, menciona-se que,nos clubes noturnos e restaurantes russos, embora o charleston seja tolerado, o twist tabu. Tudo isto no indica seno que um pas em vias de industrializao tende aconsiderar o hot jazz como mais consentneo com seus programas dedesenvolvimento. De outra parte, o twist, forma fria e envolvente, chocaria essacultura, por retrgrado e incompatvel com a recente nfase no mecnico. Ocharleston, em seu aspecto de boneco mecnico tirado a cordel, se constitui numaforma de vanguarda para os russos. De nossa parte, encontramos a vanguarda no frioe n~ primitivo, que nos prometem envolvimento em profundidade e expresso integral.A venda pesada (hard sell) e a linha quente (hot line) tornam-se cmicas na erada televiso, e a morte de todos os caixeiros-viajantes, a um simples golpe da TV, fezpassar de quente a fria a cultura americana, ainda incapaz de reconhecer-se. Emverdade, a Amrica mais parece estar vivendo segundo o processo inverso ao descritopor Margaret Mead, na revista Time (4-9-1954): Muito se lamenta o fato de asociedade ter de mudar depressa demais para acompanhar a mquina. H uma grandevantagem em caminhar rpido, se voc caminha de maneira completa, se as mudanassociais, educacionais e de recreao estejam de passos acertados. Necessrio se tornamudar toda a estrutura de uma vez e todo o grupo junto e as prprias pessoasdevem decidir-se a mudar.Margaret Mead toma aqui a mudana como acelerao uniforme do movimentoou uma elevao uniforme das temperaturas nas sociedades atrasadas. No h dvidade que estamos chegando bastante prximos de um mundo controladoautomaticamente, a ponto de podermos dizer: Menos seis horas de rdio naIndonsia, na prxima semana, seno haver uma grande queda no ndice de atenoliterria. Ou: Programemos vinte horas mais de TV na frica do Sul, na prximasemana, para esfriar a temperatura tribal, elevada pelo rdio na ltima semana.Culturas inteiras podem agora ser programadas, no sentido de que seuPg 44clima emocional se mantenha estvel, assim como j comeamos a saber alguma coisasobre a manuteno do equilbrio nas economias comerciais do mundo. Na esfera puramente pessoal e privada, muitas vezes nos lembramos de comomudanas de tom e atitude so requeridas em diferentes estaes e ocasies, a fim demanter a situao sob controle. Os clubmen ingleses, a bem do companheirismo e daamabilidade, h muito excluram de sua conversao certos tpicos particularmentequentes. tais como religio e poltica, no mbito de seus clubes altamenteparticipacionais. Explorando essa veia, W. H. Auden escreveu. em sua introduo ao 24. livro de John Betjeman, Slick But Not Streamlined (Bem Passado mas noPassageiro): "... nesta temporada, o homem de boa vontade deve usar o corao aoalcance da mo, mas no nela... O estilo escorreito do homem hoje apenas cai bem emlago. No Renascimento, quando a imprensa aqueceu o milieu do homem a um graubastante elevado, o cavalheiro e o corteso (no estilo Hamlet-Merccio), adotavam,como contraste, a atitude descontrada e informal de um ser superior e ldico. A alusode Auden a Iago nos lembra de que Iago era o alter ego e o assessor do serissimo enada descontrado General Otelo. Imitando seu honesto e reto general, Iago aqueceusua prpria imagem, deixando mostra seu corao, at que o General Otelo opronunciasse claramente honesto Iago, um homem imagem e semelhana de seuprprio corao honesto e implacvel. Em The City in History (A Cidade na Histria), Lewis Mumford se mostrafavorvel s cidades frias e informalmente estruturadas, contra as cidades quentes edensamente povoadas. Acha ele que o grande perodo de Atenas foi aquele em queainda estavam vivos os hbitos democrticos aldees de viver e participar. Foi entoque floresceu toda a gama de expresses e indagaes humanas que posteriormentese tornaram impossveis nos centros urbanos altamente desenvolvidos. Por definio,uma situao altamente desenvolvida baixa em oportunidades de participao erigorosa em suas exigncias de fragmentaoPg 45especializada para com aqueles que pudessem control-la. Por exemplo, o que hoje sechama aumento de empregos, nos negcios e no empresariado, consiste em permitirao empregado maior liberdade na descoberta e definio de sua funo. Assimtambm, ao ler uma estria policial, o leitor participa como co-autor, simplesmente porque muita coisa deixada fora da narrativa. A meia de seda de malha larga muitomais sensual do que o nylon macio, porque o olho manipula, preenchendo-a ecompletando a imagem, tal como no mosaico da imagem da TV.Douglas Cater, em The Fourth Branch of Government (O Quarto Poder doGoverno), narra como o pessoal de servio de imprensa de Washington se comprariaem completar ou preencher as lacunas da personalidade de Calvin Coolidge. Ele era toparecido com uma simples charge, que eles sentiam necessidade de completar suaimagem, para ele mesmo e para o seu pblico. No deixa de ser instrutivo o fato de aimprensa aplicar o adjetivo frio (cool) a Cal. No sentido real de um meio frio, CalvinCoolidge era to carente de dados articulados em sua imagem pblica que s haviauma palavra para ele. Ele era realmente frio. Nos quentes anos 20, o quente meio daimprensa achava Cal bastante frio, e se regozijava com sua falta de imagem, poisesta mesma falta convidava a imprensa a elaborar uma imagem para o pblico. Emcontraposio, F. D. R. (Franklin Delano Roosevelt) era um quente homem deimprensa, que rivalizava com o jornal e se compraria em derrotar a imprensa atravsde um rival, o meio quente do rdio. Como contraste, Jack Paar, famoso entrevistadorda TV americana, levava um espetculo frio ao frio meio da televiso, tornando-se umrival dos fofoqueiros noturnos e de seus aliados nas colunas sociais. A guerra de JackPara com os colunistas foi um estranho exemplo do choque entre um meio frio e ummeio quente, tal como ocorreu com o escndalo da trapaa do show de TV O cu olimite. A rivalidade entre os meios quentes da imprensa e do rdio, de um lado, e ateleviso, do outro, na conquista das verbas de publicidade, apenas serviu paraconfundirPg 46 25. e superaquecer as questes implicadas no negcio, que acabou por envolverdespropositadamente Charles Van Doren.Um despacho da Associated Press, de Santa Mnica. Califrnia, de 9-8-1962,informava que: Uns cem infratores de trnsito assistiram hoje a uma fita sobre acidentes detrnsito, como castigo s suas infraes. Dois deles foram acometidos de choqueemocional e acessos de nusea. Aos assistentes se oferecia uma reduo de cincodlares nas multas, desde que concordassem em assistir ao referido filme, Signal 30,feito pela polcia do Estado de Ohio. O espetculo mostrava ferragens retorcidas ecorpos mutilados, alm de gravaes dos gritos das vtimas. Que um meio quente, com contedo quente. possa servir para esfriar motoristasquentes coisa muito discutvel. Mas a questo interessa compreenso dos meios. Oefeito do tratamento por meios quentes dificilmente implica a empatia e a participao.A este propsito, um anncio de seguros de vida que mostrava o Papai num pulmo deao rodeado de um alegre grupo familiar fez mais para despertar sentimentos de horrorno leitor do que as mais sbias advertncias do mundo. Este problema tambm surgeem relao pena capital. Uma pena rigorosa constitui o melhor meio de dissuasopara os grandes crimes? E quanto bomba atmica e guerra fria, as ameaas deretaliao macia sero o meio mais eficaz para a paz? No parece evidente quequando se fora uma situao humana a um ponto extremo de saturao, o resultadomais provvel a precipitao? Quando todos os recursos e energias disponveis soaplicados a um organismo ou estrutura. d-se uma espcie de reverso da estrutura. Oespetculo da brutalidade empregado como dissuaso pode brutalizar. Sob certascondies, pelo menos, a brutalidade usada no esporte pode humanizar. Com respeito bomba e retaliao como antdotos, podemos dizer que o entorpecimento oresultado bvio de todo terror prolongado, como ficou comprovado ao se tornar pblicoo programa dos abrigos atmicos. A indiferena o preo da eterna vigilncia. Todavia, importa muito saber se um meio quente utilizado numa culturaquente ou fria. O rdio, meio quente,Pg 47aplicado a culturas frias ou no letradas, provoca um efeito violento, contrariamente aoque acontece, por exemplo, na Inglaterra e na Amrica, onde o rdio consideradodivertimento. Uma cultura fria, ou pouco letrada, no pode aceitar como simplesdivertimentos os meios quentes, como o rdio e o cinema. Estes meios so toperturbadores para elas como o meio frio da televiso acabou por se mostrar em nossomundo altamente letrado.Quanto ao pavor da guerra fria e da bomba quente, a estratgia cultural maisnecessria a que envolve o humor e o jogo. O jogo esfria as situaes quentes davida real, arremedando-as. A competio esportiva entre a Rssia e o Ocidentedificilmente servir ao propsito da distenso. Estes esportes so inflamveis, eis averdade. O que consideramos divertimento ou piada em nossos meios, inevitavelmentese transforma em violenta agitao poltica numa cultura fria.Um modo de estabelecer a diferena bsica entre os empregos dos meiosquentes e frios o de comparar e opor a transmisso de um concerto sinfnico e atransmisso de um ensaio sinfnico. Dois dos melhores espetculos da CBC foram osque focalizaram Glenn Gould na gravao de recitais de piano e a apresentao de IgorStravinsky ensaiando a Sinfnica de Toronto, numa de suas novas peas. Um meio frio 26. como a TV, quando corretamente empregado, exige este envolvimento no processo. Asmensagens bem delineadas so mais adequadas aos meios quentes. como o rdio e avitrola. Francis Bacon nunca se cansava de comparar a prosa fria e a prosa quente.Escrever mtodos, ou embalagens completas opunha-se, para ele, ao escrever poraforismos ou por observaes simples, tais como A vingana uma espcie de justiaselvagem. O consumidor passivo deseja pacotes j prontos, mas, dizia Bacon. aqueleque est interessado no avano do conhecimento e na indagao das causas recorreraos aforismos porque so incompletos e solicitam a participao em profundidade.O princpio que distingue os meios frios e quentes est perfeitamentecorporificado na sabedoria popular: GarotaPg 48de culos no convida a cantadas. Os culos intensificam a viso de dentro para fora,saturando a imagem feminina sem embargo da imagem antifeminina clssicarepresentada pela bibliotecria. J os culos escuros criam a imagem inescrutvel einacessvel que convida participao e complementao. Numa cultura visual altamente letrada, ao sermos apresentados a algum, comum acontecer que a aparncia visual ofusque o som do nome da pessoa, o que nosobriga a expedientes de autodefesa, tais como perguntar: Como mesmo o seu nomecompleto? J numa cultura auditiva, o que se impe o som do nome da pessoa,como bem sabia Joyce, ao dizer em Finnegans Wake: Quem lhe deu esse hipnome? Onome de algum um verdadeiro passe hipntico a que a pessoa fica submetidadurante toda vida. Pregar peas e passar trotes tambm constituem bons testes para a verificaodas diferenas entre os meios frios e quentes. O meio literrio quente exclui osaspectos prticos e participantes das brincadeiras, a ponto de Constance Rourke, emAmerican Humor (O Humor Americano). negar mesmo a sua qualidade debrincadeira. Para as pessoas letradas, pregar peas, com seu envolvimento fsicointegral, e de to mau gosto quanto o trocadilho, que nos obriga a sair da linhaestabelecida pela ordem tipogrfica, com seu avano suave e uniforme. Na verdade,para a pessoa letrada, em geral pouco consciente da natureza altamente abstrata domeio tipogrfico, as formas de arte mais gritantes e participantes que parecemquentes, enquanto que a forma abstrata, mais intensamente literria, parece fria.Bem pode a senhora perceber disse o Dr. Johnson, com um sorriso pugilstico que sou bem criado a ponto de ter escrpulos doentios. E o Dr. Johnson estava certoem supor que bem criado passara a significar o toque da camisa branca naapresentao pessoal, em consonncia com o rigor da pgina impressa. O confortoconsiste em abandonar uma disposio visual em favor de uma disposio que permitea participao informal dos sentidos um estadoPg 49que no se obtm quando se aquece apenas um dos sentidos (o visual em especial), aponto de torn-lo dominante numa situao qualquer.De outro lado, em experincias em que se incluem todas as sensaes externas,a pessoa d incio a um furioso processo de preenchimento e completao, queredunda em pura alucinao. Dessa forma, o aquecimento de um dos sentidos tende aproduzir hipnose, o esfriamento de todos os sentidos redunda em alucinao.Pg 50 27. 3. REVERSO DO MEIO SUPERAQUECIDOUma manchete de 21/6/1963 declarava: LINHA QUENTE WASHINGTON-MOSCOU DENTRO DE 60 DIASDo servio do Times de Londres, em Genebra:O acordo para o estabelecimento de uma linha de comunicao direta entreWashington e Mascou, para casos de emergncia, foi ontem assinado aqui. CharlesStelle representou os Estados Unidos e Semyon Tsarapkin a Unio Sovitica...A ligao, conhecida como linha quente, dever ser inaugurada dentro desessenta dias, de acordo com o porta-voz americano. Utilizar concesses de circuitoscomerciais, um cabo e outros meios sem fio, empregando um equipamento de teletipo. A deciso de utilizar um meio quente, o impresso, em lugar de um meio maisparticipante, frio, como o telefone, infeliz em todos os sentidos. Sem dvida a decisofoi produto da tendncia literria do Ocidente. inclinando-se para a forma impressa, soba alegao de que mais impessoal do que o telefone. As implicaes da formaimpressa so bastante diferentes em Moscou e em Washington. O mesmo acontececom o telefone. A estima dos russos por este instrumento, to de acordo com suastradies orais, deve-se ao rico envolvimento no-visual que ele propicia. O russo utilizao telefone para os mesmos efeitos que ns associamos a uma ansiosa conversa cara acara.Pg 51 Tanto o telefone como o teletipo so amplificaes de tendncias culturaisinconscientes de Moscou e Washington. respectivamente; como tais, so verdadeirosconvites aos mais terrveis desentendimentos. Os russos acham muito natural aespionagem por via auditiva, mas se sentem ultrajados por nossa espionagem visual,que eles no consideram nada natural. velha doutrina o princpio segundo o qual as coisas se apresentam, nas fasesintermedirias de desenvolvimento, sob formas contrrias s que apresentaro em seuestgio final. Chistosas ou srias, muitas e variadas so as observaes que denotaminteresse nesse poder que tm as coisas de se transformarem em seu contrrio, porevoluo. Assim escrevia Alexander Pope:O vicio um monstro de to feio aspecto,Que para abomin-lo basta a vista;Mas se o vemos demais, a face horrendaDe abjeta a familiar, chega a benquista. E disse o lagarto, contemplando uma borboleta: No, voc nunca vai me pegarnuma dessas malditas antenas. Em outro nvel, temos visto, em nosso sculo, a zombaria aos mitos e legendastradicionais transformar-se em estudo reverente. medida que comeamos a reagir emprofundidade vida e aos problemas sociais de nosso globo-aldeia, tornamo-nosreacionrios. O envolvimento que acompanha nossas tecnologias imediatas transformaas pessoas mais socialmente conscientes em pessoas conservadoras. Quando o primeiro Sputnik entrou em rbita, uma professora de ginsio pediuaos seus alunos da segunda srie que escrevessem alguns versos a respeito. Um delesescreveu: 28. As estrelas so to grandes,A Terra to pequena:Fique como est.Para o homem, o conhecimento e o processo de obter conhecimento possuem amesma magnitude. Nossa habi-Pg 52lidade em compreender, ao mesmo tempo, galxias e estruturas subatmicas ummovimento de faculdades que as inclui e transcende. O ginasiano que escreveu osversos acima vive num mundo muito mais vasto do que aquele que pode ser descritopor conceitos ou medido por instrumentos de um cientista de nossos dias. Sobre estareverso, escreveu W. Butler Yeats: O mundo visvel j no mais uma realidade e omundo invisvel j no mais um sonho. Associado a esta transformao do mundo real em fico cientfica, situa-se oprocesso de reverso, que ora se vai desenvolvendo rapidamente, pelo qual o Ocidentese aproxima do Oriente, e o Oriente do Ocidente. Joyce codificou esta reversorecproca em sua frase crptica:O Ocidente alerta, o Oriente despertaQuando se troca a noite pelo dia. O ttulo de seu Finnegans Wake um conjunto de trocadilhos de mltiplos nveisa propsito da reverso pela qual o homem ocidental reingressa em seu ciclo tribal, ouFinn, seguindo a trilha do velho Finn, bem desperto desta vez, enquanto tornamos aentrar na noite tribal; como nossa conscincia contempornea do Inconsciente. A acelerao da velocidade da forma mecnica para a forma eltrica instantneafaz reverter a exploso em imploso. Em nossa atual era eltrica, as energias de nossomundo, implosivas ou em contrao, entram em choque com as velhas estruturas deorganizao, expansionistas e tradicionais. At recentemente, nossas instituies edisposies sociais, polticas e econmicas obedeciam a uma organizaounidirecional. Ainda acreditamos que ela seja explosiva ou expansiva; e embora ela jno impere. ainda falamos em exploso da populao e exploso de ensino. Emverdade, no o aumento numrico que cria a nossa preocupao com a populao;trata-se antes do fato de que todo mundo est passando a viver na maior vizinhana.criada pelo envolvimento eltrico que enreda umas vidas nas outras. Do mesmo modona educao, no o aumen-Pg 53to do nmero daqueles que buscam o conhecimento que gera a crise. Nossa novapreocupao com a educao vai na esteira da mudana dos currculos organizadossegundo disciplinas estanques rumo inter-relao dos conhecimentos. A soberaniados departamentos se dissolve to rapidamente quanto as soberanias nacionais, sob ascondies da velocidade eltrica. A obsesso com as velhas estruturas de expansomecnica e unidirecional, do centro para a periferia, j no tem mais sentido em nossomundo eltrico. A eletricidade no centraliza, mas descentraliza. como a diferenaentre o sistema ferrovirio e o sistema da rede eltrica: um exige terminais e grandescentros urbanos, enquanto que a energia eltrica, presente tanto na fazenda quanto nasala do executivo, faz com que todo lugar seja centro, sem exigir grandes conjuntos eaglomeraes. Esta estrutura reversa se manifestou logo nas primeiras utilidades 29. destinadas a poupar esforos tostadores, lavadoras ou aspiradores. Em lugar depoupar trabalho, os eletrodomsticos permitem que cada qual faa seu prpriotrabalho. O que o sculo XIX delegara a servos e empregadas, agora executamos nsmesmos. Este princpio se aplica in toto na era da eletricidade. Em poltica, ele permiteque Fidel Castro exista como ncleo ou centro independente. E permitiria a Quebecdeixar a Unio Canadense. o que seria totalmente inconcebvel sob o regime dasferrovias. As ferrovias requerem um espao poltico e econmico uniforme. De outrolado, o avio e o rdio permitem a mais completa descontinuidade e diversidade naorganizao espacial. Hoje, o grande princpio da Fsica, da Economia e da cincia poltica clssicas o da divisibilidade de todo processo sofreu uma auto-reverso por simples extensoda teoria do campo unificado; a automao na indstria substituiu a divisibilidade doprocesso pelo entrelaamento orgnico de todas as funes do complexo produtivo. Afita magntica sucedeu a linha de montagem. Na nova Era da Informao eltrica e da produo programada. os prprios bensde consumo assumem cada vez mais o carter de informao, embora esta tendnciase ma-Pg 54nifeste principalmente nas crescentes verbas publicitrias. significativo que os bensde consumo mais usados na comunicao social cigarros, cosmticos sabonetes sejam tambm os maiores responsveis pela manuteno dos meios de comunicaoem geral. medida que aumentam os nveis da informao eltrica, praticamente todae qualquer espcie de material atender a qualquer espcie de necessidade ou funo,obrigando mais e mais o intelectual a investir-se no papel de comando social e deservio da produo. Foi Julien Benda, com Great Betrayal (A traio dos intelectuais), quemcontribuiu para esclarecer a nova situao do intelectual, que subitamente passou a sero brao-aoite da sociedade. Benda percebeu que os artistas e intelectuais, h muitoalienados do poder e que desde Voltaire estavam na oposio, passavam a serconvocados para o servio da tomada de decises nos altos escales. Traram aoassinar a rendio de sua autonomia, tornando-se os lacaios do poder, tal como o fsicoatmico, hoje, o lacaio dos senhores da guerra. Tivesse Benda conhecido melhor sua histria e teria ficado menos furioso emenos surpreso. Sempre foi papel da inteligncia agir como ligao e mediadora entreos velhos e os novos grupos no poder. familiar o caso dos escravos gregos, queforam por muito tempo os confidentes intelectuais e os educadores do poder romano. E precisamente este papel servil do intelectual confidente do tubaro comercial,militar ou poltico que o educador continuou a interpretar no mundo ocidental, atnossos dias. Na Inglaterra, os Angries (jovens irados) constituram um grupo deste tipode intelectuais, vindos dos escales mais baixos por fora da vlvula-chocadeira daeducao. Quando vieram tona do mundo do poder descobriram que o ar no eranem puro, nem estimulante. Mas perderam o sangue-frio mais depressa do queBernard Shaw e, como ele, logo se acomodaram s fantasias e bizarrias e ao cultivo devalores de diverso. Em seu Study of History (O Estudo da Histria), Toynbee anota numerosasreverses de forma e dinmica,Pg 55 30. como a que ocorreu em mead