Medicalização da vida: uma análise sobre a psiquiatrização ...· Sociologia Política pela UFSC

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Medicalizao da vida: uma anlise sobre a psiquiatrizao do campo educacional como estratgia biopoltica

Karina Gomes Giusti*1

RESUMO

O artigo discute a psiquiatrizao da infncia e sua influncia no cotidiano escolar, evidenciando que a medicalizao de comportamentos prprios da infncia est fortemente presente nas instituies escolares, bem como nos discursos dos agentes educacionais. Nosso estudo mostra que a descrio dos comportamentos infantis em termos biolgicos e neuroqumicos contribui para a patologizao da vida e da infncia. Tomando como ponto de partida os estudos sobre biopoltica da populao de Michel Foucault e as reflexes de Peter Conrad sobre a expanso de categorias diagnsticas, o artigo analisa em que medida a infncia capturada pelos transtornos desloca a procura de solues polticas e educativas para o campo das solues biologizantes e medicalizantes.Palavras-chave: medicalizao; educao; biopoltica.

* Graduao em Cincia Sociais pela USP (Universidade de So Paulo). Graduao em Pedagogia pela Universidade So Marcos. Mestrado em Sociologia Poltica pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Atualmente doutoranda no Programa de Ps Graduao em Sociologia Poltica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). membro do NESFHIS Ncleo de pesquisa em Sociologia, Filosofia e Histria das Cincias da Sade.

Revista Brasileira de Sociologia | Vol. 04, No. 08 | Jul. Dez, 2016Artigo recebido em 16/06/2016 / Aprovado em 05/12/2016

http://dx.doi.org/10.20336/rbs.168http://dx.doi.org/10.20336/rbs.170

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ABSTRACT

MEDICALIZATION OF LIFE: AN ANALYSIS OF THE PSYCHIATRICIZATION OF THE EDUCATIONAL FIELD AS A BIOPOLITICAL STRATEGY

The article discusses the psychiatrization of childhood and its influence on every-day school life. It shows that the medicalization of childhood behavior is strongly present in schools and in the discourses of educational agents. Our study shows that the description of childhood behavior in biological and neurochemical terms con-tributes to the pathologization of life and of childhood. Based on Michel Foucaults studies on population biopolitics and Peter Conrads reflections on the expansion of diagnostic categories, the article analyzes the extent to which childhood, defined in terms of disorders, substitutes the search for political and educational solutions with biologizing and medicalizing ones.Keywords: medicalization; education; biopolitics

Nas sociedades ocidentais, os problemas inerentes vida tm sido deslocados para o campo mdico e, assim, nos encontramos em plena Era dos Transtornos. Vivemos hoje em uma sociedade onde problemas coletivos e sociais so gerenciados por um processo de medicalizao que avana a passos largos sobre todas as esferas da vida, diagnosticando fatos cotidianos e ocultando desigualdades. Os problemas de origem social, histrica e poltica so transformados em problemas individuais, inerentes ao sujeito e solucionados no pla-no biolgico. Com essa reflexo, Moyss (2013) problematiza sobre alguns dilemas que enfrentamos atualmente, situando-os nesse pro-cesso denominado medicalizao da vida. No que tange infncia, os campos de aprendizagem e comportamentais so o grande cenrio de atuao.

Foi esse o contexto que circunscreveu a pesquisa desenvolvida nesse trabalho, onde procuramos investigar de que forma o saber m-dico adentrou o mbito escolar e passou a influenciar e a controlar as esferas da vida social e poltica, a partir da anlise das prticas que sustentaram a interveno mdica na populao e que, na atualidade, possibilitam sua ingerncia em grande escala na educao.

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A fim de alcanarmos nossos objetivos e compreendermos como o processo de medicalizao penetrou no campo educacional utilizando, nos dias de hoje, o medicamento como instrumento de soluo para os problemas que ali se manifestam, tomamos como ponto de partida as anlises tericas de Michel Foucault sobre a biopoltica e as anlises de Peter Conrad sobre a expanso de categorias diagnsticas. Esse escopo terico nos permitiu observar as estratgias de controle sobre as popu-laes e a proliferao de diagnsticos configurados no DSM (Manual de Diagnstico e Estatstica dos Transtornos Mentais) que esto na base do processo de medicalizao. O local de estudo foi a cidade de Floria-npolis/SC, mais especificamente oito colgios da rede de ensino p-blica e privada que nos ofereceram um bom panorama de como o tema em questo trabalhado no mbito escolar. Investigamos as estratgias utilizadas para a definio de diagnsticos, bem como as estratgias teraputicas e o uso de psicofrmacos prescritos para os ditos transtor-nos mentais da infncia dentro dessas instituies de ensino.

Uma investigao como essa no indita, j que muito se dis-cute sobre a medicalizao da vida. Nesse sentido, este trabalho re-toma algumas das produes que j foram realizadas a respeito do poder-saber mdico e sua influncia no mbito escolar, mas procura compreender como a medicalizao de comportamentos prprios da infncia se apresenta atualmente nesse mbito. Com base no exposto, este artigo tem por objetivo analisar como a prescrio e utilizao de psicofrmacos atua no cotidiano escolar, tendo como parmetro a realidade educacional da cidade de Florianpolis no estado de Santa Catarina nos anos de 2013 a 2015.

A tematizao da sade, como uma questo sociolgica e poltica, foi objeto de preocupao de muitos pensadores. Canguilhem (2009) sustentava a tese de que a sade no pertencia ordem dos clculos e no poderia ser medida por tabelas comparativas. Ela era um conceito de alcance de todos e, nesses termos, comum a qualquer ser humano vivo. Canguilhem estava consciente de que ter sade, no no adoe-cer, mas poder adoecer e se recuperar. O sofrimento, segundo o autor, deveria engendrar novas formas de lidar com a prpria vida.

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Peter Conrad (2007) classificou o processo de medicalizao como reducionista j que convertia questes sociais a fenmenos de cau-salidade orgnica. De acordo com sua perspectiva, a medicina passa, ento, a organizar a prpria vida e a descontextualizar as questes histricas, culturais, polticas e sociais.

Foucault (1979), por sua vez, apesar de no fazer uso sistemtico do termo medicalizao, faz referncia ao processo quando aponta para a constituio de uma sociedade na qual o indivduo e a populao so entendidos e manejados por meio da medicina. A medicina moderna que nasceu no final do sculo XVIII se apresentou como uma prtica social e transformou o corpo individual em fora de trabalho com o objetivo de controle da sociedade. Primeiramente, o investimento era realizado diretamente nos indivduos por intermdio da ao sobre o biolgico e, posteriormente, controlavam-se as conscincias e ideolo-gias. Dessa forma, Foucault fala do desenvolvimento de um poder so-bre a vida um biopoder que exercido sobre os corpos por meio da tecnologia disciplinar. A partir de suas anlises sobre a biopoltica, Foucault aponta o controle sob o qual a populao est submetida. O autor contrape o poder que era exercido na soberania a essa nova no-o que surge como alvo de interveno sobre os fenmenos que se prescrevem na esfera da populao (FOUCAULT, 2006, 2008b).

Esse poder de controle adentrou o campo da infncia e, atualmen-te, pode ser verificado no encaminhamento de um grande nmero de crianas e adolescentes aos consultrios psiquitricos em busca de explicaes e respostas para problemas comuns do cotidiano, e essa resposta est fortemente associada prescrio de psicofrmacos. Na esfera escolar, crianas sem nenhum comprometimento cognitivo so consideradas alunos com problemas e, via de regra, recebem trata-mento base de medicamentos. Neste contexto, agentes educacio-nais e profissionais da sade mental demandam por um diagnstico mdico que nomeie os problemas comportamentais e de aprendizado apresentados pelas crianas.

Esse processo teve seu incio na passagem do sculo XIX para o s-culo XX a partir da consolidao das produes tericas da medicina

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e da psicologia que partiam da construo de categorias universais a respeito do comportamento humano. At o sculo XX, a criana era objeto da pedagogia e foi dentro desse campo do saber que a medicina comeou a analisar os problemas relacionados ao desenvolvimento infantil. Segundo Guarido (2007), a preocupao inicial era de que as crianas no atingissem a idade adulta com o pleno funcionamento de suas capacidades mentais. A partir de ento, a criana passou a ser constantemente vigiada pela psiquiatria e o domnio do saber sobre a infncia se transferiu do campo pedaggico para o mdico-psicolgi-co, como demonstra Foucault:

Em linhas gerais, a psiquiatria diz: deixem vir a mim as crian-

cinhas loucas. Ou: no se jamais demasiado jovem para ser

louco. Ou ainda: no esperem ficarem maiores ou adultos para

serem loucos. E isso tudo se traduz por essas instituies ao

mesmo tempo de vigilncia, de deteco, de enquadramento, de

teraputicas infantis, que vocs veem desenvolver-se no fim do

sculo XIX (FOUCAULT, 2006, p. 155).

Surge o que Foucault chama de psicologizao da criana. Seu comportamento, carter e sexualidade passam a ser constantemente vigiados, possibilitando, assim, a introduo dos mecanismos de con-trole psiquitrico nas famlias, transformando a criana em objeto de ingerncia desse saber.

A instituio escolar, nesse contexto, o local ond