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Medicamentos e corpo. Consumidores de frmacos: o que pensam e o que sabem...

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I Introduo

Segundo o DL 176/2006 de 30 de Agosto (1), define-se, no artigo 3., pargrafo 1, alnea

ee) medicamento como toda a substncia ou associaes de substncias apresentada

como possuindo propriedades curativas ou preventivas de doenas em seres humanos ou

dos seus sintomas, ou que possa ser utilizada ou administrada no ser humano com vista

a estabelecer um diagnstico mdico ou, exercendo uma aco farmacolgica,

imunolgica ou metablica, a restaurar, corrigir ou modificar funes fisiolgicas. Pela

alnea ff) do mesmo artigo e pargrafo, definido medicamento base de plantas como

qualquer medicamento que tenha exclusivamente como substncias activas uma ou

mais substncias derivadas de plantas, uma ou mais preparaes base de plantas ou

uma ou mais substncias derivadas de plantas em associao com uma ou mais

preparaes base de plantas.

Este diploma legal define ainda, na alnea oo) do artigo 3., pargrafo 1, medicamento

homeoptico como medicamento obtido a partir de substncias denominadas stocks ou

matrias-primas homeopticas, de acordo com um processo de fabrico descrito na

farmacopeia europeia ou, na sua falta, em farmacopeia utilizada de modo oficial num

Estado membro, e que pode conter vrios princpios. So ainda definidos pelo mesmo

artigo e nmero, mas agora nas alneas aaa) e bbb), respectivamente, as preparaes

base de plantas e o preparado oficinal. As primeiras so preparaes obtidas

submetendo as substncias derivadas de plantas a tratamentos como a extraco,

destilao, expresso, fraccionamento, purificao, concentrao ou fermentao, tais

como as substncias derivadas de plantas pulverizadas ou em p, as tinturas, extractos,

leos essenciais, sucos espremidos e os exsudados transformados. O preparado oficinal

qualquer medicamento preparado segundo as indicaes compendiais de uma

farmacopeia ou de um formulrio oficial, numa farmcia de oficina ou em servios

farmacuticos hospitalares, destinado a ser dispensado directamente aos doentes

assistidos por essa farmcia ou servio. Para efeitos do presente trabalho

consideraremos medicamento como o definido na alnea ee); os restantes, aos quais

poderemos juntar outras tecnologias teraputicas, como, por exemplo, a medicina

popular e a acupunctura, so considerados como remdios.

A toma de medicamentos pode ter vrios indutores, que esto na esfera das expectativas

e do conhecimento individual sobre o produto a manejar para um determinado

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resultado, com excepo do uso em crianas, em que a indicao do mdico fulcral (2).

No parece despicienda a frequncia da automedicao, definida como a deciso de

tomar medicamentos numa lgica no ditada pela indicao expressa de mdico, ou pela

simples aquisio de medicamentos sem receita mdica, que pode atingir uma

frequncia de 17% dos atendimentos em balco de farmcia em Portugal e na qual a

interveno regulamentar do farmacutico, ou de quem o substitui, importante para

questes de segurana, sendo a aquisio muito dependente do preo (3,4). Num

contexto de teraputica analgsica, a automedicao pode ser muito frequente, com todo

o cortejo de problemas teraputicos e de resultados em sade que podem advir da toma

de medicamentos no referidos ao mdico (3,5). As questes da medicao segura so

tambm valorizadas por quem adere automedicao, sendo esta julgada segura dado

que os medicamentos se encontram disponveis em parafarmcias para aquisio directa

(6).

As questes relacionadas com a percepo da dor e da sua implicao na qualidade de

vida, sero, porventura, das principais determinantes do consumo de medicamentos quer

em automedicao, muitas vezes sem informao do mdico assistente (7), quer em

pedido directo de prescrio, sendo fonte de conflito com os mdicos pelo seu pedido

insistente, apesar das contra-indicaes que estes podem colocar sua

prescrio/utilizao (8,9,10).

Existe hoje, na classe mdica, uma reflexo aprofundada sobre a prescrio, sendo

discutidos temas como a obrigatoriedade de prescrever para atingir alvos definidos em

relatrios ou linhas de orientao (11,12,13,14,15), bem como sobre o tipo de medicamentos

prescritos, questionando-se a sua eficincia (16), e ainda sobre se no haver excesso de

medicalizao, ao estarem a ser utilizados cada vez mais medicamentos sem a certeza

do seu benefcio, em atitude defensiva, numa sociedade em que associaes de doentes

ou de doenas suportam o seu uso para a qualidade de vida (17).

Em Portugal, a autoridade regulamentadora de medicamentos decidiu difundir

informao acerca dos perigos que a medicao de venda livre pode ter, mas a

eficincia de tal medida estar ainda por verificar (18). So claras as regras quanto aos

locais de actividade, tipo de medicamentos e remdios vendveis e estrutura de pessoal

que trabalha em tais instalaes de venda de medicamentos no sujeitos a receita

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mdica obrigatria (19). O Instituto Nacional da Farmcia e do Medicamento descreve a

evoluo recente do mercado de medicamentos no sujeitos a receita mdica obrigatria

da seguinte forma: as vendas, no perodo de Janeiro a Maro de 2008, atingiram um

valor (Preo de Venda ao Pblico) de 4 700 737 uros, correspondente a 1 076 621

embalagens. O maior volume de vendas de Medicamentos No Sujeitos a Receita

Mdica ocorreu nos distritos de Lisboa, Porto e Faro. O grupo farmacoteraputico

Analgsicos e Antipirticos foi o que registou maiores vendas com 26,5% do total das

unidades vendidas. O Paracetamol foi a substncia activa mais vendida em volume e a

Nicotina a mais vendida em valor. Pela anlise desta publicao podemos verificar

que, em volume de vendas em embalagens, o Paracetamol representa 11,7% do total,

logo seguido do Ibuprofeno com 5,4% das embalagens (20).

Este relatrio permite, assim, verificar que o tipo de medicamentos mais acedidos tem

relao com a dor. O Paracetamol e o Ibuprofeno passaram ao estatuto de

Medicamentos No Sujeitos a Receita Mdica pelo facto de apresentarem uma boa

relao risco/benefcio. Dada a necessidade de contnua monitorizao, a manuteno

da actividade de notificao de Reaces Adversas a Medicamentos deve ser

incentivada. Em Portugal esta acividade de notificao tem tido resultados escassos,

pelos mdicos, enfermeiros e farmacuticos, no sendo realizada pelos utilizadores de

medicamentos e remdios, por tal no estar previsto na Lei (1,21). Tanto para o

Paracetamol, como para o Ibuprofeno, so bem conhecidas as vias de metabolizao e

os eventuais concorrentes para aumento ou reduo de tal metabolizao, sejam estes

outros medicamentos ou nutrientes (22, 23).

A autoprocura de medicamentos para alvio de queixas pode ter vrias razes. O

contacto directo com os pacientes em ambulatrio permite verificar a noo da

necessidade de prescrio, talvez por ser julgado o medicamento um mitigante de

sofrimento ou, em alternativa, por ser considerado uma imposio resultante de um

contacto com um mdico (7,8). No entanto, nem todas as consultas em Clnica Geral

terminam com a emisso de uma receita e, em muitos casos, no s a apresentao de

queixa que implica a prescrio (8,24,25).

Segundo a definio de Sade da OMS (26), o estado de sade ser difcil de existir na

sua plenitude. No entanto, a sociedade actual deve preocupar-se no s com a sade

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para todos, segundo Alma Ata (27), mas tambm com a responsabilizao dos

indivduos pelo seu estado de sade, levando-os a adoptar os estilos de vida mais

adequados para a obteno de um melhor estado, por vezes custa de alguns sacrifcios

individuais. Estes resultam de aconselhamento tcnico que dever ser obtido em

sistemas organizados e funcionantes, oficiais ou particulares, que os estados devem

prover segundo o funcionamento proposto pelas Declaraes de Sundsvall e Jacarta

(28,29,30).

A informao contempornea e a globalizao impem modelos de vida e de consumo

de bens que se coadunam mal e so at mesmo conflituantes com o bom estado de

sade (28,29,30). A informao pblica, atravs dos rgos de comunicao escrita, visual

ou falada, ao definir padres, impr conceitos e orientar para tcticas conducentes

estratgia do bem-estar, pode determinar a excessiva medicalizao da sociedade (31).

De uma forma ambgua, e pelos sinais dados sociedade, trata-se e paga-se o

tratamento de situaes que, em muitos casos, no se deveriam tratar, do foro fsico ou

do foro psquico.

A simplificao da realidade, criando modelos estereotipados de repetio, tipificao e

esquematizao, pode desencadear situaes em que o prprio julga a deciso e assume

o padro de consumo (31). O conhecimento atravs da oralidade e transmisso

longitudinal de conhecimentos foi, em tempos, e s-lo- porventura ainda hoje

forma importante de manuteno de tcnicas de cura e preveno, um pouco em

contraponto massificao transversal que hoje se veri