Memoria Loucura1

  • View
    213

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Memoria Loucura1

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    1/37

    Memria da Loucura

    Braslia DF2003

    MMINISTRIO DA SADE

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    2/37

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    3/37

    MINISTRIO DA SADESecretaria-Executiva

    Subsecretaria de Assuntos AdministrativosCoordenao-Geral de Documentao e Informao

    Centro Cultural da Sade

    Memria da Loucura

    Srie J. Cadernos Centro Cultural da Sade

    Braslia DF2003

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    4/37

    2003. Ministrio da Sade.No permitida a reproduo parcial ou total desta obra, exceto com a autorizao prvia do autor.

    Srie J. Cadernos Centro Cultural da Sade

    Tiragem: 50 exemplares

    Elaborao, distribuio e informaes:

    MINISTRIO DA SADESecretaria-ExecutivaSubsecretaria de Assuntos AdministrativosCoordenao-Geral de Documentao e InformaoCentro Cultural da SadePraa Marechal ncora, s/n., Praa XVCEP: 20021-200, Rio de Janeiro RJTel.: (21) 2240-5568E-mail:[email protected] page:www.ccs.saude.gov.br

    Instituies parceiras:Instituto M unicipal de Assistncia Sade Nise da SilveiraInstituto Municipal de Assistncia Sade Juliano MoreiraInstituto Philippe Pinel

    Apoio:Arquivo NacionalMuseu Histrico Nacional/ IPHAN/ Ministrio da CulturaTV Pinel

    Projeto grfico:Joo Mrio P. d' A. Dias

    Capa:Ana Aparecida Soares Ramos

    Impresso no Brasil / Printed in Brazil

    Ficha Catalogrfica

    NLM WM 11 DB8

    Catalogao na fonte - Editora MS

    EDITORA MSDocumentao e Informao

    SIA, Trecho 4, Lotes 540/610CEP: 71200-040, Braslia DFTels.: (61) 233 1774/2020 Fax: (61) 233 9558E-mail:[email protected]: http://www.saude.gov.br/editora

    Brasil. M inistrio da Sade. Secretaria-Executiva. Subsecretaria de Assuntos Administrativos. Coordenao-Geral deDocumentao e Informao. Centro Cultural da Sade.

    Memria da loucura / Ministrio da Sade, Secretaria-Executiva, Subsecretaria de Assuntos Administrativos,

    Coordenao-Geral de Documentao e Informao, Centro Cultural da Sade Braslia: M inistrio da Sade, 2003.

    54 p.: il . color. (Srie J. Cadernos Centro Cultural da Sade)

    1. Psiquiatria - Histria - Brasil. 2. Disseminao da Informao. 3. Servios de Sade. I. Brasil. Ministrio da Sade. II.Brasil. Secretaria-Executiva. III. Brasil. Subsecretaria de Assuntos Administrativos. Coordenao-Geral de Documentaoe Informao. Centro Cultural da Sade. IV. Ttulo. V. Srie.

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    5/37

    SUMRIO

    Apresentao do Centro Cultural da Sade .................................................................................

    Apresentao da mostra................................................................................................................

    Um breve histrico da Psiquiatria.................................................................................................

    Philippe Pinel.................................................................................................................................

    Esquirol.........................................................................................................................................

    Poltica e hospital psiquitrico.......................................................................................................Aos loucos, o hospcio.....................................................................................................................

    Nuno de Andrade..........................................................................................................................

    Teixeira Brando...........................................................................................................................

    As classes sociais da corte e o hospcio de Pedro II.........................................................................

    Emil Kraepelin..............................................................................................................................

    Juliano Moreira.............................................................................................................................

    Luiz Cerqueira e Ulysses Pernambucano.......................................................................................

    Wilson Simplcio e Oswaldo Santos..............................................................................................

    Sigmund Freud..............................................................................................................................

    Sntese da psicanlise de Freud.....................................................................................................

    Sntese da teoria de Carl Jung.......................................................................................................

    Nise da Silveira.............................................................................................................................

    Sntese do trabalho de Nise da Silveira.........................................................................................

    Formas de tratamento e instrumentos utilizados...........................................................................

    Reforma Psiquitrica.....................................................................................................................

    Franco Basaglia.............................................................................................................................

    Cuidar sim, excluir no.................................................................................................................

    Fontes de consulta.........................................................................................................................

    5

    7

    9

    11

    14

    1720

    21

    22

    24

    26

    27

    2931

    33

    34

    35

    36

    37

    39

    45

    48

    49

    53

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    6/37

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    7/37

    O Centro Cultural da Sade (CCS) foi inaugurado em dezembro de 2001, poriniciativa da Coordenao-Geral de Documentao e Informao da Subsecretaria deAssuntos Administrativos da Secretaria-Executiva do Ministrio da Sade (MS).

    Localizado no Corredor Cultural do Rio de Janeiro, visa a integrar os campos dainformao e da comunicao utilizando-se de uma linguagem criativa que permite aopblico conhecer e compreender aspectos histricos, sociais, polticos e cientficos da SadePblica no Brasil, incentivando a participao da sociedade nas questes de sade,favorecendo a adoo de prticas preventivas.

    Tem como objetivo prestar atendimento ao pblico mediante servios de informao

    em Sade como exposies in locoe virtuais; eventos culturais e tcnicos; exibies de vdeos;orientao ao usurio da internet sobre consulta e pesquisa s redes governamentais deservios; divulgar e oferecer os servios da Biblioteca Virtual em Sade; apresentar aosvisitantes os servios de informao prestados pela esfera federal do SUS, como DisqueSade, Canal Sade, vdeos do MS e publicaes peridicas e avulsas correntes; empreenderfomento ao estudo, intercmbio, capacitao e pesquisa em Sade Pblica.

    Com um pblico superior a 16.000 visitantes desde a sua inaugurao, o CCS jabrigou as mostras Memria da Loucura, que apresenta a trajetria da psiquiatria no Brasil;Cinco Artistas de Engenho de Dentro, integrante da exposio Retrospectiva Cinqentenrio doMuseu de Imagens do Inconsciente, com 63 obras do acervo do Museu; A Sade Bate Porta,que traz a histria do Programa Sade da Famlia; as exposies cedidas pela Fundao

    Oswaldo Cruz e pela Fundao Nacional de Sade, Imagens da Peste Branca: Memria daTuberculoseeDengue; Sociedade Viva Violncia e Sade, que aborda a questo dos acidentes eviolncias e a preveno desses eventos, por meio da participao comunitria.

    Em parceria com as unidades psiquitricas municipais do Rio de Janeiro, o CCScoordena o Projeto de Recuperao Documental, disponibilizando 20 estagirios das reas debiblioteconomia, museologia, arquivologia e histria para dar apoio na organizao dosacervos arquivsticos, bibliogrficos e museolgicos.

    Editou e distribuiu a Legislao em Sade Mental 1990-2002, que encontra-seesgotada em sua terceira edio com tiragem total de 16.750 exemplares, e com a quartaedio, atualizada e revista, j programada. Assim tambm com o livro A Histria de Beta,relato de uma ex-usuria de instituies psiquitricas que conseguiu superar as dificuldades eprosseguir na luta cotidiana por uma vida digna. Com a primeira edio tambm esgotada(700 exemplares), uma nova tiragem est sendo editada.

    Seu sitena internet (www.ccs.saude.gov.br) oferece informaes atualizadas sobrequestes de sade, agendas, mostras virtuais e linkspara entidades acadmicas e culturaisrelacionadas.

    APRESENTAO DO

    CENTRO CULTURAL DA SADE

    5

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    8/37

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    9/37

    7

    APRESENTAO DA MOSTRA

    A Mostra Memria da Loucura apresenta, em cinco mdulos, a trajetria dos 150 anosda Histria da Psiquiatria no Brasil, expondo as diversas formas de tratamento, as

    personalidades relevantes, as influncias estrangeiras, os depoimentos, fotografias inditas e

    mostra de vdeos na rea de Sade Mental.

    A trajetria da assistncia psiquitrica foi marcada por isolamentos e teraputicas

    repressoras e desumanas. Uma histria que a sociedade hoje se empenha em reescrever,otornando realidade a Lei Antimanicomial n. 10.216, de 6/4/2001, que dispe sobre a

    humanizao da assistncia e a gradativa desativao dos manicmios. Apesar desse

    importante avano, muitos preconceitos ainda persistem e muitas conquistas ainda se fazemnecessrias para que o Pas garanta os legtimos direitos civis e humanos s pessoas

    acometidas de transtorno mental.

    O Ministrio da Sade pauta esse debate ao incorporar uma forma instigante e criativa

    de despertar o interesse do pblico e ao agregar valores nas instituies por onde passa,

    procurando mudar essa realidade e favorecer a incluso social dos usurios dos servios de

    Sade Mental e a atuao do Estado.

    Para realizar um trabalho de maior abrangncia, foi idealizada uma itinerncia da

    mostra pelas cidades brasileiras e tambm sua veiculao pela internet. A mostra Memria da

    Loucura j foi montada em Santo Andr (SP), Betim (MG) e Nova Friburgo (RJ), e o sitedo

    Centro Cultural da Sade (www.ccs.saude.gov.br), alm de apresentar a mostra virtual,

    complementa o conjunto de informaes. O usurio pode ter acesso legislao, aos

    documentos e s publicaes com textos na ntegra e linksde interesse, com destaque para o

    Portal da Sade (www.saude.gov.br) e os servios de pesquisa da Biblioteca Virtual em Sade

    (www.saude.gov.br/bvs).

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    10/37

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    11/37

    ! UM BREVE HISTRICO DA PSIQUIATRIA

    9

    Por muito tempo, os portadores de doenas mentais foram considerados alienados.Eram vistos como pessoas que viviam fora da realidade, sem capacidade para entender ouexercer seus direitos. Hoje, essa histria j mudou bastante e a luta diria para que osusurios de servios de Sade Mental possam ter um tratamento diferenciado e para que asociedade os respeite como seres humanos comuns, mesmo com capacidades restritas ealgumas limitaes. Apesar dos avanos do modelo assistencial e da humanizao doatendimento, a histria mostra que as atitudes em relao aos portadores de transtornosmentais nem sempre foram as mais adequadas.

    Na Grcia Antiga, acreditavam que os loucos possuam poderes divinos. Na IdadeMdia, eram associados ao demnio e vistos como entes possudos e, por isso, passavam seus

    dias acorrentados e expostos ao frio e fome ou, em casos extremos, queimados em fogueirascomo hereges.Esse tipo de tratamento se estendeu at o sculo XVIII. Nessa poca, ainda no se falava

    em doena mental e, como sempre, o desleixo com as pessoas acometidas de transtornosmentais persistia. Todos que apresentavam um comportamento diferente, sobretudo quandoagitados e agressivos, eram considerados loucos, e a sociedade, preocupada apenas com a suasegurana, permanecia com a mesma conduta: jogava os loucos em prises e eles l ficavam aolado de outros excludos espera da morte .

    As reformas polticas e sociais, na virada do sculo XVIII para o sculo XIX, inspiraramo francs Philippe Pinel a dar o primeiro passo para mudar a vida dessas pessoas. A loucuratornou-se uma questo mdica e passaria a ser vista como uma doena que poderia e deveriaser tratada. Surgiram a clnica, como local de internao, e os estudos sobre psiquiatria. Comessa nova estrutura, coube aos enfermeiros os cuidados com os loucos. Na constantetentativa de dominar a loucura e defender-se de tudo o que o desconhecido representava, asinstituies psiquitricas no mundo inteiro se transformaram em locais de represso, onde opaciente era isolado da famlia que desconhecia ou ignorava o que se passava com ele.

    A partir dessas mudanas, o mdico que se especializava no tratamento dos alienadosera chamado de alienista e, aps essas transformaes, grandes nomes se destacaram namedicina por suas pesquisas e inovaes nessa rea. Nesse perodo, pode-se destacar otrabalho de Esquirol, aluno e seguidor de Pinel, precursor da psiquiatria, e integroujuntamente com Morel (1809-1873) e Edouard Sguin (1812-1880) a escola francesa iniciadapor Pinel. No sculo XIX, Emil Kraepelin, integrante da corrente organicista alem, que apscuidadosa descrio de sintomas clnicos, a evoluo e a anlise anatomopatolgica, formulauma nova doutrina que serve de referncia s prximas geraes de especialistas. No sculoXX, Freud cria a psicanlise que se populariza em todo o mundo e se impe como marco nocampo da Sade Mental.

    Apesar de toda a evoluo dos estudos sobre a mente, entre 1940 e 1960 algumasterapias beiravam barbrie. Havia o eletrochoque (ainda usado, nos dias atuais, em casosgraves com laudo de junta mdica), a malarioterapia (contaminao do paciente com oprotozorio da malria na tentativa de criar distrbios), a insulinoterapia (coma diabticoprovocado por meio de injeo de insulina) e o uso do cardiazol (droga para provocarconvulses).

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    12/37

    Na dcada de 60, Kaplan e sua psiquiatria preventiva e as experincias dascomunidades teraputicas da Inglaterra criaram outros paradigmas at as idias de FrancoBasaglia, lanadas na Itlia, em 1968 e influentes at hoje no cuidado com o pacientepsiquitrico. Atualmente, o Brasil se encontra em pleno desafio de implementar um processode desospitalizao no tratamento de portadores de sofrimento psquico. O objetivo dos

    partidrios da Reforma Psiquitrica transformar o quadro da Sade Mental em uma novarealidade, que tenha como lema " Cuidar, sim, excluir, no".As palavras de Octvio Incio, paciente do Centro Psiquitrico Pedro II, atual Instituto

    Municipal de Assistncia Sade Nise da Silveira, descrevem bem o que representa para uminterno a conteno atrs das barreiras de uma instituio. "O muro bonito para quem estdo lado de fora, mas para quem est aqui, horrvel. Este muro serve para fechar nossa vidapara o lado de fora, ns nunca poderemos ser considerados gente com um muro dessestapando a nossa viso". Hoje, boa parte desse muro foi substituda por uma grade e os doentespodem circular dentro do hospital e inclusive fora dele.

    Esses esforos j do sinais positivos, especialmente pela forma com que se encara o

    problema. Nesse mesmo hospital, est sendo construda uma nova realidade: a CasadEngenho. Criada em 1990, esse espao no se parece com um hospital. Dentro dele o que h muito trabalho e calor humano.

    Pessoas portadoras de transtorno mental que so tratadas corretamente e vivem comdignidade participam da sociedade como qualquer outro cidado. E so vrios os exemplos deinstituies que, mudando a forma de tratar seus usurios, vm transformando a vida demuita gente. Muitos ambulatrios especializados em Sade Mental s recorrem internaoem ltimo caso e desenvolvem vrias atividades, no s com o usurio, mas tambm com suasfamlias, oferecendo assistncia ambulatorial de consultas e oficinas teraputicas.

    A cidade de Santos, no litoral de So Paulo, foi a pioneira na transformao da Sade

    Mental no Brasil. Foi a primeira cidade brasileira e a quarta do mundo a construir uma rede deservios que substitua inteiramente o asilo e o manicmio.No Instituto Philippe Pinel, no Rio de Janeiro, tambm se realiza um trabalho

    diferenciado. Trata-se da TV Pinel, um espao em que os usurios tm a possiblidade de seexpressar por meio da televiso. Em Volta Redonda, tambm no Rio de Janeiro, existe umaexperincia muito interessante: A Usina dos Sonhos. Nesse ambulatrio especializado, osusurios do asas a sua criatividade e transformam sonhos em realidade. Fazem artesanato,jardinagem, pintura; escrevem em um jornal e possuem at um conjunto musical, osMgicos do Som.

    Com a implementao da Lei n. 36.570, de 1989, que consolida a substituio dos

    servios de natureza manicomial para servios abertos na comunidade, surgem os Centros deAteno Psicossocial (CAPS), dentre outros. Essas unidades de tratamento intensivo paraportadores de sofrimento psquico precisam contar com, no mnimo, um psiquiatra, umenfermeiro e mais trs profissionais de nvel superior, podendo ser clnico geral, psiclogo,assistente social, terapeuta ocupacional, dentre outras categorias, alm de quatroprofissionais de nvel mdio como auxiliar de enfermagem, arteso, tcnico administrativo eeducacional, dentre outros, de acordo com a proposta do centro. Nessas equipes, enfatizadaa busca de autonomia, emancipao, liberdade e o direito de expresso dos usurios.

    A luta pela melhoria da ateno Sade Mental uma bandeira do Sistema nico deSade (SUS), responsvel pela quase totalidade do tratamento psiquitrico. No Brasil,

    experincias bem-sucedidas no faltam e podem ser reproduzidas. A conscientizao polticase faz presente para a ampliao desses servios, de forma igualitria e humanizada,proporcionando aos portadores de transtornos mentais a possibilidade de reinsero social.

    10

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    13/37

    PhilippePinel

    1745-1826

    "(...) h sempre umresto de razo no mais alienado dos alienados.

    Publica oTratado mdico-filosfico sobre a alienao ou a mania(1801), no qual descreve uma nova especialidade mdica queviria a se chamar psiquiatria (1847).

    Sintonizado com os ideais revolucionrios franceses de liberdade,

    igualdade e fraternidade, preconiza o tratamento moral para osalienados e desacorrenta os loucos em Paris. Sua prtica mdicaexercida durante os anos em que chefia os hospitais em Bictre eLa Salptrire na Frana, aliada a sua profunda reflexo sobre aalienao mental, concorre para inaugurar a Escola dos AlienistasFranceses.

    11

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    14/37

    PHILIPPE PINEL

    1745-1826

    Jlia Paglioza lvares1

    Philippe Pinel nasceu em 20 de abril de 1745, em Saint-Andr, Tam, Frana, e faleceu em 25 de

    outubro de 1826, em Paris. Filho de mdico, formou-se em medicina em Toulouse no ano de 1773.

    Mudou-se para Paris em 1778 e, para se sustentar, traduzia obras de medicina, ao mesmo tempo em

    que lecionava matemtica.

    Nessa poca, Pinel visitava doentes mentais confinados e escrevia artigos sobre suasobservaes. Em 1792, tornou-se mdico-chefe do asilo para homens, em Bictre. Em 1794, passou

    a ocupar idntico posto no Hospital La Salptrire, para mulheres. Em 1803, foi eleito membro do

    Institut de France e, mais tarde, professor de patologia da Escola de Medicina de Paris.

    Sob sua direo, o Hospital La Salptrire tornou-se um dos mais conhecidos

    estabelecimentos neuropsiquitricos do mundo, sendo que, mais tarde, com acertada justia, l

    seria erguida uma esttua em sua memria.

    Costuma-se falar de Philippe Pinel como um homem dotado de generosidade incomum suapoca. Homem bondoso, cheio de atos caridosos para com os sofredores. O libertador dos alienados,

    aquele que lhes quebrou as correntes e lhes deu dignidade, que os retirou das celas s quais estavam

    confinados h anos, atos que deixaram a sociedade e a classe mdica estarrecidas.

    Pinel, como se v, teve fartas razes para ser considerado pioneiro no tratamento de doentes

    mentais, sendo um dos precursores da psiquiatria moderna, ramo da medicina a que ele se dedicou

    aps a tragdia ocorrida com um amigo seu conta-se que tendo enlouquecido, o amigo fugiu para

    a floresta onde foi devorado por lobos.

    Sem dvida, foi um revolucionrio no mtodo de tratamento dos doentes mentais. Para a

    Frana Revolucionria, era de profundo interesse que seus cientistas se sobressassem e Pinel se

    constituiu, na rea da medicina e da psicologia, em um dos seus principais expoentes. Seus escritos

    privilegiam o refinamento literrio, caracterstico da Europa do sculo XVIII e incio do sculo XIX,

    em que predominaram as concepes de humanismo e liberalismo, de forte influncia iluminista.

    Pinel elevou a categoria dos doentes mentais, antes tratados como criminosos ou endemoniados,

    condio dehomo paciense essa doena, como resultado de uma exposio excessiva a estresses sociais e

    psicolgicos, e, em certa medida, a danos hereditrios, sendo que tais enfermidades decorriam de

    12

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    15/37

    alteraes patolgicas no crebro. Com isso, baniu tratamentos antigos tais como sangrias, vmitos,

    purgaes e ventosas, preferindo terapias que inclussem a aproximao e o contato amigvel com o

    paciente, proporcionando-lhe, ainda, um programa de atividades ocupacionais, no qual o tratamento

    digno e respeitoso foi a tnica.

    O sculo XVIII na Europa foi aquele em que reinou, de forma absoluta, a razo, emanada do

    pensamento de Descartes e entronizada pelos iluministas. Dessa forte tradio, procedeu o pensamento

    de Philippe Pinel, em que o psquico se tornou matria de conhecimento objetivo e quantitativo.

    Pinel foi o primeiro a elaborar uma classificao para as doenas mentais, fato este que

    constituiu extraordinrio avano da psiquiatria. Utilizou como principal mtodo a observao e a

    anlise de seus pacientes.

    Em sua primeira obra, Nosographie Philosophique (1798), destinada classificao das

    doenas, distinguiu vrias psicoses e descreveu, dentre outros fenmenos, alucinaes, isolamentos,

    e uma variedade de outros sintomas, o que lhe rendeu grande projeo. Seu principal livro, um dos

    clssicos da psiquiatria,Trait Mdico-philosophique sur l'alination Mentale ou la Manie (1801),

    discutiu sua abordagem psicologicamente orientada.

    Pode-se dizer que Philippe Pinel distinguiu-se pelas inovaes que introduziu. Sua orientao

    foi visivelmente psicolgica, suas idias caractersticas de sua poca, do Iluminismo e das tendncias

    promovidas pela Revoluo Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade.A psicologia, tendo em vista o momento em que as cincias fsico-qumicas e biolgicas

    monopolizavam as atenes, adotou, com a contribuio de Pinel, um modelo de cientificidade,

    inspirado no marco referencial Galileico-Baconiano, uma nova epistemologia e uma nova viso do

    homem que, em determinadas circunstncias da vida e de sua conflitualidade, expressa o sofrimento

    humano atravs da mente e da alma.

    Foi dessa forma que a psicologia, na metade do sculo XIX, aprendeu a considerar o seu material

    de estudo como parte da natureza e a tentar explic-lo em termos naturais, ou seja, a psicologia tornou-se capaz de construir uma cincia, tanto na matria como no mtodo, faltando pouco para passar a ser

    experimental, tarefa empreendida por Wundt, em Leipzig, ao criar o primeiro laboratrio de psicologia.

    Assim, por qualquer lado que se olhe a vida e a obra desse extraordinrio psiquiatra e

    psiclogo, encontrar-se- sempre a marca de algum que revolucionou a concepo de loucura de

    um tempo e promoveu um caminho de humanizao e de libertao para o enfermo mental,

    inscrevendo-o nos mais nobres iderios da modernidade: dignidade e liberdade!

    O moderno movimento de humanizao dos manicmios, a que esto engajados osorganismos de ponta da evoluo social, no podem esquecer, na sua trajetria de luta, que o seu

    representante primeiro, foi, sem sombra de dvida, Philippe Pinel.1 Jlia Paglioza lvares psicloga e integrante da Academia Brasileira de Psicologia.

    13

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    16/37

    "No hospcio o que cura o prprio hospcio. Por sua estrutura efuncionamento, ele deve ser um operador de transformaes dosindivduos."

    Precursor da psiquiatria, integra, juntamente com Auguste Morel(1809-1873) e douard Sguin (1812-1880) a escola francesainiciada por Pinel. Ao penetrar a mente humana, com o intuito decompreender os transtornos do humor e da melancolia comoimportantes agentes que conduzem perda do juzo, eleva pelaprimeira vez os alienados condio de homens.

    Reformador de asilos e hospcios franceses, funda o primeirocurso para o tratamento das enfermidades mentais e luta pelaaprovao da primeira Lei de Alienados na Frana. Seu trabalhoinfluencia sobremaneira a criao do Hospcio de Pedro II,primeira instituio brasileira de assistncia aos doentes mentais.

    Esqu

    irol

    1772-1840

    14

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    17/37

    Em Paris, Esquirol conhece Pinel trabalhando no hospital La Salptrire.

    Esquirol, atuando como reformador das instituies psiquitricas, visita os asilos,

    hospitais e prises de toda a Frana.

    nomeado mdico plantonista da diviso de alienados de La Salptrire, tornando-se

    mdico titular no ano seguinte.

    Inaugura em La Salptrire um curso clnico de medicina mental, onde suas qualidades

    de orador atraem um grande pblico. Torna-se um discpulo ortodoxo de Pinel. Como seu

    mentor, Esquirol acha que a loucura tem causas fsicas e morais, insiste na tendncia

    hereditria e coloca na raiz do organismo a causa principal do transtorno mental. Critica os

    conceitos mesogrficos de seu mestre Pinel, e volta a dividir as molstias mentais em quatro

    grupos principais: demncia, cuja forma aguda e curvel chamada de estupidez; idiota,

    termo que ele prefere a idiotismo;mania, delrio geral com exaltao; e a parte mais original e

    criticada de sua obra clnica, o vasto grupo de monomanias, derivado do desdobramento da

    melancoliade Pinel, delrio parcial crnico, de natureza alegre ou triste, mas limitado a um

    nmero pequeno de objetos. Esquirol subdivide esse novo conceito em trs categorias: as

    monomanias intelectuais, no qual o delrio est no primeiro plano uma das mltiplas formas

    possveis a lipomania ou melancolia, com delrio crnico parcial, sustentado por uma triste

    paixo, debilitante e opressiva; asmonomanias afetivasou ressonantesque levam o doente a

    condutas bizarras e inconvenientes; e asmonomanias instintivasque reagrupam as futuras

    perverses e psicopatias e que sero a fonte de violentas contestaes, na medida em que

    parecem fornecer as justificativas de comportamentos criminais, num tempo em que a

    medicina legal estava em vias de formao.

    Acolhe em sua casa alguns alienados pagantes.

    Torna-se membro da Academia de Medicina.

    Assume o posto de mdico chefe da Maison Royale de Charenton por falecimento de

    Royer Callard.

    nomeado membro do Conselho de Salubridade Pblica do Departamento do Sena,

    participando ativamente com seus alunos Ferrus e J.P. Falret, dos trabalhos preparatrios da

    Lei n. 1.838 sobre os alienados.

    15

    ESQUIROL

    1772-1840

    1799

    1807

    1811

    1817

    1817

    1820

    1825

    1826

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    18/37

    Adquire uma vasta propriedade e nela instala uma casa de sade que dirige com seu

    sobrinho, M itivi. Comea a colocar em prtica suas idias sobre a construo de asilos que

    ele tinha apresentado no seu clebre relatrio de 1819 ao Ministro do Interior,

    Os estabelecimentos destinados aos alienados na Frana e os meios de melhor-los.

    Publica os dois volumes Consideraes das Doenas Mentais sob as vises da

    Medicina, da Higiene e da Medicina Legal, que nada mais do que uma coletnea de suas

    publicaes anteriores.

    1827

    1838

    16

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    19/37

    Roberto Machado2

    O incio do sculo XIX assinala o momento em que o hospital percebido como fator

    patognico, causa de doena e de morte e, portanto, incompatvel com a medicina moderna.

    At ento, o hospital no uma instituio mdica; uma entidade religiosa destinada

    assistncia a doentes pobres, forasteiros, soldados, marinheiros e outros. No tem por

    objetivo a sade, mas a salvao: o planto, por exemplo, do capelo da agonia. Sua

    arquitetura no obedece a um plano mdico. No h mdico em sua administrao. Aassistncia hospitalar , portanto, menos uma assistncia doena do que misria na hora

    da morte, parte de uma ao criativa da Santa Casa da Misericrdia que inclui crianas

    abandonadas, indigentes e prisioneiros.

    nesse espao que se encontram os loucos, quando no vagam pelas ruas ou no caso

    dos ricos so contidos pelas famlias. E no hospital, ele est como em uma priso: trancado e

    at mesmo preso a um tronco de escravos. No considerado um doente; no recebe

    tratamento; no tem mdico ou enfermeiro especfico; vive sem condies higinicas. Pode

    ser louco, mas ainda no doente mental.

    No sculo XIX, a medicina coloniza o hospital. Ruptura com o passado que pode ser

    compreendida no s a partir de transformaes mdicas, mas tambm econmicas

    advindas da abertura dos portos, intensificao do comrcio, implantao de manufaturas e

    polticas que modificaro o Rio de Janeiro depois de 1808 e integraro ainda mais o Brasil na

    nova ordem capitalista internacional.

    Nesse contexto, o papel que desempenham os mdicos tem um objetivo claro:

    combater a desordem social, o perigo dos homens e das coisas decorrente da no-planificao

    da distribuio e do funcionamento da cidade. A medicina comea a se interessar por tudo o

    que diz respeito ao social. Deixa de ter fronteiras. Pea integrante da nova estratgia poltica

    de controle dos indivduos e da populao, vai pouco a pouco no sem lutas e obstculos

    impregnar o aparelho de Estado e se interessar por instituies como a escola, o quartel, a

    priso, o cemitrio, o bordel, a fbrica, o hospital, o hospcio...

    Sua poltica em relao ao hospital clara: dominar o perigo que grassa no seu interior.

    E para isso no basta expulsar o hospital do centro da cidade; necessrio transformar o seu

    POLTICA E HOSPITAL PSQUITRICO

    17

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    20/37

    espao, para capacit-lo a realizar a cura. O hospital um operador teraputico, uma

    mquina de curar.

    Essa poltica orientou, em 1841, criao, no Rio de Janeiro, do primeiro hospital

    psiquitrico brasileiro. Resultado de uma crtica higinica e disciplinar s instituies de

    recluso, o Hospcio de Pedro II significou a possibilidade de inserir, como doente mental, uma

    populao que comea-se a perceber como desviante nos dispositivos da medicina social

    nascente. De que forma? Realizando os seguintes objetivos: isolar o louco da sociedade;

    organizar o espao interno da instituio, possibilitando uma distribuio regular e ordenada

    dos doentes; vigi-los em todos os momentos e em todos os lugares, atravs de uma pirmide

    de olhares composta por mdicos, enfermeiros, serventes...; distribuir seu tempo,

    submetendo-os ao trabalho como principal norma teraputica. Terrvel mquina de curar,que levou Esquirol a afirmar: no hospcio o que cura o prprio hospcio. Por sua estrutura e

    funcionamento, deve ser um operador de transformao dos indivduos. Em suma, uma

    nova mquina de poder, resultado de uma luta mdica e poltica que impe, cada vez com

    mais peso, a presena normalizadora da medicina como uma das caractersticas essenciais da

    sociedade capitalista.

    Mas o hospital psiquitrico no est isento de crticas. Elas o acompanham desde sua

    origem. E no s crticas externas. Principalmente crticas internas: de seus mdicos ou seusdiretores. Como os ilustres Nuno de Andrade, Teixeira Brando, Juliano Moreira que atacam

    sua organizao arquitetnica, a subordinao do mdico ao pessoal religioso, a ignorncia ou

    a maldade dos enfermeiros, o processo no-mdico de internao, a falta de uma lei nacional

    para alienados e de um servio de assistncia organizado pelo Estado.

    Essas crticas, hoje ainda mais virulentas, so importantssimas para fazer pensar no

    s no fracasso real da psiquiatria como instncia teraputica, mas, principalmente, na

    exigncia de medicalizao cada vez maior do espao social que ela representa. Por um lado, se

    a medicina mental apresenta a cura como sua aquisio cientfica, at hoje nunca deixou de

    reconhecer o seu lado negro: s se entra no hospcio para no sair ou, na melhor das hipteses,

    para logo depois voltar. Por outro lado, essa reconhecida incapacidade teraputica, longe de

    pr em questo a prpria psiquiatria, serve fundamentalmente de apoio a uma exigncia de

    maior medicalizao. A crtica faz a psiquiatria, cada vez mais, refinar seus conceitos para

    atingir novas faixas da populao numa evoluo que vai do doente mental ao anormal e do

    anormal ao prprio normal , tornando a sociedade uma espcie de asilo sem fronteiras.

    18

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    21/37

    A questo poltica da psiquiatria me parece assim mais profunda do que em geral se

    pensa. Ser que as transformaes contemporneas propostas prtica e teoria

    psiquitricas, mesmo as que se vestem de psicanlise em seus conceitos bsicos, se intitulam

    psiquiatria como instncia poltico-cientfica de controle normalizador da vida social,

    caracterstica que a acompanha desde sua constituio?

    2 Roberto Machado psicanalista e professor titular do Instituto de Filosofia e Cincias Sociais da UFRJ , autor de vrios livros editados por

    algumas das mais importantes editoras do Pas. 19

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    22/37

    Paulo Srgio da Silva Alencar3

    Em 1830, no h ainda no Brasil tratamento para os doentes mentais: os ricos so

    mantidos isolados na casa da famlia, longe dos olhares curiosos, enquanto os pobres

    perambulam pelas ruas ou vivem trancafiados nos pores da Santa Casa de Misericrdia.

    Nessa poca, inspirados pelos ideais revolucionrios franceses de Pinel e Esquirol,

    propem-se novas formas de assistncia doena mental, que tem na existncia da

    instituio manicomial o prprio mtodo de tratamento.

    Essas idias contagiam a recm-criada Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, que se

    mobiliza em torno do lema Aos loucos o hospcio!, pleito esse formulado em 1839 nocontundente relatrio de Jos Clemente Pereira:

    Parece que entre ns a perda das faculdades mentais se acha qualificada como crime

    atroz, pois punida com a pena de priso, que pela natureza do crcere onde se executa, se

    converte na de morte.

    Sensibilizado por essas denncias e impressionado com os gritos dos loucos vindos dos

    pores da Santa Casa, Pedro II assina, em 1841, o decreto de criao do primeiro hospcio

    brasileiro que, por 40 anos, leva seu nome.

    Sagrao de Pedro I I e decreto de criao do hospcio. Jos Clemente Pereira faz

    relatrio a D. Pedro II em que descreve a real situao dos doentes mentais na Santa Casa.

    O Hospcio de Pedro II inaugurado com 140 leitos.

    A inaugurao do suntuoso Hospcio de Pedro II, em 1852, instalado na praia da

    Saudade, retira os pacientes da Santa Casa de Misericrdia, que se encontravam em condies

    insalubres, e acena com a possibilidade do tratamento moral. Surge a primeira instituio

    psiquitrica do Brasil.

    Localizado em uma chcara afastada do centro da cidade, foi construdo com dinheiro

    de subscries pblicas. O edifcio, em estilo neoclssico, era provido de espaos suntuosos e

    decorao de luxo, e passa a ser popularmente conhecido como o palcio dos loucos.A amplido dos espaos, a disciplina, o rigor moral, os passeios supervisionados, a

    separao por classes sociais, os diagnsticos e a constante vigilncia dos enfermos,

    materializada arquitetonicamente como um panptico, representam o nascedouro da

    psiquiatria no Brasil.

    3 Paulo Srgio da Silva Alencar psiquiatra e atualmente trabalha na Escola Politcnica Joaquim Venncio Fiocruz

    1841

    1852

    AOS LOUCOS, O HOSPCIO

    20

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    23/37

    21

    Nuno de Andrade foi trabalhar no Hospcio de Pedro II onde foi o primeiro a lutar pela

    desanexao da Santa Casa de Misericrdia.

    Permanece no Hospcio de Pedro I I at a chegada de Teixeira Brando. Deixa o cargo e

    passa a dar aulas de psiquiatria na Faculdade de Medicina e a escrever artigos para jornal.

    Realizado o primeiro concurso da rea de psiquiatria no Pas, no qual cinco

    candidatos se inscrevem. Dentre eles Teixeira Brando, um mdico do interior do Rio de

    Janeiro.

    1883

    NUNO DE ANDRADE

    1851-1922

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    24/37

    22

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    25/37

    23

    TEIXEIRA BRANDO

    1854-1921

    considerado o primeiro alienista brasileiro devido ao concurso de 1883, no qual

    aprovado com louvor e assume, portanto, o cargo de diretor do Hospcio de Pedro II. Ao

    assumir, Teixeira Brando se choca com o poder das freiras e entra em confronto com a

    administrao. Tambm se torna um dos grandes responsveis pela desanexao do Hospcio

    de Pedro II da Santa Casa de Misericrdia.

    Essa desanexao acontece com a chegada da repblica e assim o hospcio passa a se

    chamar Hospcio Nacional de Alienados. Sob sua administrao, Teixeira Brando funda, em

    1904, a Escola Alfredo Pinto, a primeira de enfermeiros do Brasil. Era o incio da formao em

    enfermagem no Pas.

    Assim, criada a assistncia mdica aos alienados e Teixeira Brando assume, com essa

    mudana, outro cargo dentro do mesmo hospital, acumulando os cargos de diretor e o de

    administrador.

    Em 1902, Teixeira Brando se torna deputado federal e elabora a primeira lei de

    Assistncia aos Alienados.

    Devido lei que probe o acmulo de funes, Teixeira Brando obrigado aabdicar de

    algum cargo, e com isso acaba optando em deixar o Hospital Nacional de Alienados e passa a

    se dedicar poltica, a dar aulas na faculdade e a escrever para jornal, fazendo uma trajetria

    parecida com a de Nuno de Andrade.

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    26/37

    Edmar de Oliveira4

    Alguns pronturios encontrados nos arquivos do Centro Psiquitrico Pedro II nos levam

    aos anos entre 1854 e 1861 e com eles classificao social do paciente, subdivididos em

    primeira, segunda e terceira classes, o que parece ser um dado importante para as anamneses

    da poca.

    Entre os de primeira classe, chama ateno serem pacientes moradores da corte,

    brancos, cidados, fazendeiros ou funcionrios pblicos, e em nmero muito pequeno em

    relao s outras classes.

    Na segunda classe, encontramos lavradores e pessoas que tm o ofcio de prendas

    domsticas, ainda brancos e livres.

    Na terceira, so todos escravos, pretos, pertencentes a um senhor importante, j que na

    sua identificao possuam apenas o primeiro nome seguido da nomeao senhorial: escravo

    de tal senhor, com nome e sobrenome para o seu imediato reconhecimento na corte.

    Acrescente-se ainda a nao africana de origem: Nag, Congo, Iorub, Mirra, dentre outras.

    Nesse perodo, no havia sido abolida oficialmente a escravido no Pas, no entanto, outra

    classificao aparece em maior nmero do que as das trs classes anteriores. So os

    indigentes. s vezes, possuam apenas o primeiro nome, outras vezes j traziam

    sobrenome. Nessa classificao esto, sobremaneira, os pretos ou pardos libertos. Eram

    funileiros, carvoeiros, quitandeiros ou cozinheiros, mas, em sua maioria, no tinham

    profisso. Essa parece ser uma classe inferior terceira, pois libertos no possuam ostatusde

    pertencerem a um senhor.

    Foi encontrado ainda um nico pronturio que no pertence s classificaes anteriores.

    Est classificado como pobre. Possua nome e sobrenome, era branco, livre, brasileiro,

    paulista, morador da corte, tinha 26 anos, era solteiro e estudante.

    Quais seriam os tratamentos ou a destinao arquitetnica que o Hospcio de Pedro II

    disporia para essas novas classificaes?

    Os pacientes de primeira e segunda classes habitavam quartos individuais ou duplos,

    ficavam entretidos com pequenos trabalhos manuais ou jogos. Os de terceira e muito

    AS CLASSES SOCIAIS DA CORTE E O

    HOSPCIO DE PEDRO I I

    24

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    27/37

    provavelmente, os pobres e indigentes trabalhavam na manuteno, na jardinagem, na

    limpeza e na cozinha. Paradoxalmente, se recuperavam em maior nmero que os primeiros

    que, paralisados pelo cio, perpetuavam-se na internao.

    4 Edmar de Oliveira psiquiatra e diretor do Instituto Municipal de Assistncia Sade Nise da Silveira (IM ASNS).

    25

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    28/37

    "O manicmio deve diferir o mnimo possvel de uma casa particular."

    Discpulo de Wilhelm Griesinger (1817-1868), integra a correnteorganicista alem. Aps a descrio acurada de sintomas clnicos,sua evoluo e a anlise anatomo-patolgica, formula suadoutrina que, expressa no livro Psychiatrie, serve de referncia amuitas geraes de especialistas em doenas mentais. Isola asformas bsicas da enfermidade psquica: psicose manaco-depressiva e demncia precoce; e promove a separao entredemncia senil e paralisia geral.

    Dirige durante muitos anos a Clnica de Munique, onde buscaoferecer aos pacientes um ambiente semelhante ao domstico,que influencia a formulao da primeira legislao brasileira deassistncia s doenas mentais.

    EmilK

    raepelin

    1855-1926

    26

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    29/37

    27

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    30/37

    Poucas personalidades da histria da psiquiatria brasileira tiveram uma trajetria igual a

    de Juliano Moreira. Do pobre menino negro, nascido em Salvador, Bahia, em 1873, filho de

    gente humilde, ao mdico de rara cultura, inteligncia e distinta sensibilidade, foi reconhecido

    em todo o mundo como um dos grandes de sua poca. Foi um dos mdicos que introduziu a

    psiquiatria no Brasil.

    Aps formar-se mdico, aos 19 anos de idade, Juliano aprende alemo, ingls e francs,

    que o auxiliaram a recolher influncias estrangeiras, a mostrar o seu trabalho e ser

    reverenciado fora de seu Pas. Organizou a maior biblioteca de Psiquiatria da Amrica Latina,

    com publicaes de vrios pases, hoje no Instituto Municipal de Assistncia Sade Nise da

    Silveira.

    Em 1903, o governo Rodrigues Alves, disposto a profundas mudanas, delega a Juliano

    Moreira a direo do Hospcio Nacional de Alienados, da Praia Vermelha, cargo que ocupou

    durante 27 anos, acumulando posteriormente com a Direo Geral da Assistncia aos

    Alienados no Brasil.

    Juliano implementa medidas que visam a novos rumos na psquiatria brasileira. Incinera

    as camisas-de-fora e abre espao para dilogo com seus pacientes. Ele afirmava que com

    enfermeiros preparados se podia reduzir pela metade o nmero de pacientes que se tornavam

    crnicos.

    Realiza reformas separando o hospital em classes sociais, aplica diagnsticos, cria

    sesses e pavilhes, com destaque para o pavilho Bourneville para crianas, separando-as dos

    adultos. Cria tambm lugares para epilticos, tuberculosos e separa os internos por gnero,

    criando alas femininas e masculinas.

    A reforma do hospcio, entretanto, dependia da reforma da legislao. Teixeira Brando,

    seu antecessor na direo do hospcio e fundador da primeira escola de enfermagem do Brasil,

    em 1890, j como deputado, aprova a primeira legislao da assistncia a alienados no Brasil.

    JULIANO MOREIRA

    1873-1933

    28

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    31/37

    1892-19431911-1984

    Incansvel em suas lutas, Ulysses Pernambucano,empreendedor de uma psiquiatria politicamente engajada,dirige o Hospital da Tamarineira Pernambuco, em que ospacientes, no mais contidos nos leitos, ocupam-se dapraxiterapia.

    Alm das inmeras contribuies no campo da psiquiatria e dapsicologia social, destaca-se pelos trabalhos no campo dasdrogas entorpecentes e alucinognicas, dos testes psicolgicose nas pesquisas de laboratrio e reas clnicas epsicopatolgicas.

    Discpulo de Pernambucano, Luiz Cerqueira, um pioneiro dadesospitalizao psiquitrica, cria, como Coordenador deSade Mental do Estado de So Paulo, o Centro de AtenoDiria (1973).

    Alm de docente da Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto ede autor de vrios livros, entre os quais Psicologia Social,destaca-se pelo trabalho incansvel de levantamentos sobre ascondies da assistncia sade mental no Brasil e, sobretudo,pela denncia dos rumos mercantilistas da atividadepsiquitrica que qualifica de"indstria da loucura".

    29

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    32/37

    Ulisses era incansvel em suas lutas, empreendedor de uma psiquiatria diferenciada e

    engajada politicamente. Sempre crtico, dirigiu os servidores do Hospital de Tamarineira, em

    que os pacientes no eram mais contidos no leito e se ocupavam em servios praxiterapia.

    Ulisses defendia trabalhos em nveis de preveno primria, secundria e terciria.

    Foi preso durante a ditadura do Estado Novo, acusado de pregar idias subversivas aos

    seus alunos. Ao contrrio dos seus colegas de ofcio, considerava os pacientes plenamente

    capazes. Estimulava o lado bom e crtico de cada um.

    Desta maneira, Luiz Cerqueira, psiquiatra alagoano, destaca-se como um dos

    precursores da psiquiatria social no Brasil.

    Cerqueira trabalhou com dados estatsticos denunciando as condies precrias da

    assistncia e os rumos mercantilistas das atividades mdico-psiquitricas, que chamou de

    indstria da loucura.

    A indignao de Cerqueira, associada com a de seus inmeros alunos do Rio de Janeiro e

    Ribeiro Preto, lugares onde foi professor, contribuiu para a aprovao da lei que hoje

    extingue progressivamente os manicmios no Brasil.

    ULISSES PERNAMBUCANO E LUIZ CERQUEIRA

    1911-19841892-1943

    30

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    33/37

    31

    ....

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    34/37

    No perodo em que Oswaldo Santos e Wilson Jos Simplcio trabalharam no antigo

    Centro Psiquitrico Pedro II, inovando a psiquiatria brasileira com o modelo das

    Comunidades Teraputicas, vivamos os anos mais duros da ditadura militar.

    A psiquiatria degradada era em sua maior parte repressora e carcerria.

    A rotina das enfermarias era o cio, o abandono e a insalubridade. Enfermeiros e carcereiros se

    confundiam. Eletrochoques e injees eram aplicados nos mais agressivos.

    Simplcio e Oswaldo, o primeiro como supervisor e o segundo como um jovem mdico

    paulista, criaram dentro do hospcio uma sociedade em miniatura. Desenvolveram um tipo

    de tratamento que j havia sido experimentado no Brasil por Marcelo Blaya, na Clnica Pinel

    de Porto Alegre. Nele o poder mdico era diludo entre equipe e pacientes. Havia direitos e

    deveres iguais para todos. Pacientes escreviam em livros de ocorrncia e suas idias eram

    valorizadas. A meta era fazer sobressair o lado bom de cada um, incentivando a criao.

    Apesar de reformular o tratamento sem questionar a existncia do hospcio, essa experincia

    foi o marco importante de liberdade e democracia no tratamento da loucura.

    WILSON SIM PLCI O E OSWALDO SANTOS

    1933-20001924-2001

    32

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    35/37

    SigmundFreud

    "Suponhamos que umexplorador chegue regio pouco conhecida, naqual as runas despertamseu interesse (...) ele poder contentar-se emexaminar a parte visvel (...) Mas poder atacar o campo das runas,praticar escavaes e descobrir, a partir dos restos visveis, a partesepultada.

    Impressiona-se com as influncias do hipnotismo e, depois de

    uma investigao rigorosa dos sonhos, prope a existncia deuma atividade psicolgica inconsciente que extrapola a razo e avontade dos pacientes. Cria a psicanlise como mtodo detratamento das neuroses e faz com que o ato de ouvir no possajamais se afastar da prtica cotidiana em sade mental. Suasidias popularizam-se em todo o mundo e se impem comomarco no campo da sade mental. Seu af de penetrar os espaosrecnditos do ser, o levam condio de"arquelogo da psique".

    1856-1939

    33

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    36/37

    Freud elaborou a prtica e a teoria psicanaltica. A finalidade bsica da psicanlise trazer de volta o contedo rejeitado pelo indivduo para a vida consciente, preencher a lacuna

    criada pela sua rejeio e assim curar a ferida que divide a personalidade contra si mesma. Isto

    , tornar consciente o que estava inconsciente.

    Freud traz a luz existncia do processo inconsciente do indivduo. Um fato esquecido,

    porm incmodo, quer seja uma lembrana ou um desejo, tornou-se inconsciente no apenas

    por haver sido esquecido ou porque saiu da conscincia, mas porque foi forado a isso.

    O indivduo reprime ou rejeita a lembrana ou os desejos proibidos por serem

    traumticos, da o esquecimento. Porm esse contedo recalcado no est de forma alguma

    extinto, age no inconsciente, exercendo a sua influncia de forma encoberta, distorcendo a

    conduta de forma fora do comum.

    O eu consciente ou ego no pode elimin-lo ou mesmo torn-lo inativo, o ego pode

    apenas conserv-lo no inconsciente.

    A revelao do inconsciente o eixo central da teoria psicanaltica. Freud desenvolve a

    teoria dos sonhos, porque ele descobre que o sonho essencialmente uma satisfao disfarada

    dos desejos proibidos que foram reprimidos. As interpretaes dos sonhos revelam o caminho

    tortuoso do inconsciente e tambm o carter algico de suas funes. uma das tcnicas que

    orientam o psicanalista no processo analtico para tornar consciente os conflitos do indivduo

    que se apresentam como sintonia (exemplos: neurose de angstia, medo ou fobia, neurose de

    pensamentos obsessivos, hipocondria, parania, esquizofrenia, melancolia, etc.).

    Outro ponto fundamental da teoria psicanaltica a nfase sobre a sexualidadeinfantil. Freud conceitua sobre os impulsos sexuais e descreve a fase oral (prazer oral

    independentemente das necessidades de alimentar-se suco); a fase anal (prazer nas

    necessidades fisiolgicas) e o complexo de castrao (descoberta da diferena entre menina e

    menino, em conseqncia disso, a ameaa), dentre outros.

    SNTESE DA PSICANLISE DE FREUD

    34

  • 7/28/2019 Memoria Loucura1

    37/37

    Era discpulo de Freud, porm afastou-se de seu mestre, para fundar uma nova escola de

    psicologia analtica.

    Em seus diversos trabalhos, Jung desenvolveu suas concepes, tendo como foco

    principal o inconsciente coletivo, que podemos sintetizar dizendo que o fundamento da

    imaginao est no inconsciente coletivo que comum a todos os povos atravs dos sculos,

    que se manifesta nas religies, nos mitos e nas doutrinas esotricas.

    Para verificar essa concepo fundamental, Jung realizou uma vasta pesquisa viajando

    por vrios pases, estudou as religies primitivas e orientais, a alquimia, e meditou sobre as

    obras artsticas com James Joyce e Pablo Picasso.

    Essa imensa pesquisa confirmou a crena quanto existncia de um fundo comum

    universal, produtos dos chamados "arqutipos", imagens e smbolos independentes do tempo

    e do espao.

    Jung observou o caso de um esquizofrnico paranide que dizia: se movesse a cabea

    de um lado para o outro olhando o sol, o pnis do sol tambm se movia, e esse movimento era

    a origem do vento. Ento Jung encontrou mais tarde na descrio de vises de adeptos de

    mitra, publicadas pela primeira vez em 1910, a mesma imagem, a mesma idia daquele

    paciente. Pesquisas posteriores continuaram a trazer confirmao para as observaes iniciais

    em estudos sobre a esquizofrenia.

    Jung, em 1957, escreve:

    "Os sintomas especficos da esquizofrenia, na aparncia, so caticos e sem sentido.

    Entretanto, examinados em profundeza, caracterizam-se, como certos sonhos, por associa-

    es primitivas ou arcaicas estreitamente afins com temas mitolgicos".

    Foi da experincia clnica que Jung deduziu os conceitos de inconsciente coletivo e de

    arqutipo, importantssimos para a compreenso da prpria natureza da psique.

    SNTESE DA TEORIA DE

    CARL JUNG