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MEMORIAL & CURRICULUM VITAE

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Text of MEMORIAL & CURRICULUM VITAE

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    Lilian Lopes Martin da Silva

    Apresentados como requisitos para o pedido de

    promoo por mrito para o nvel de Professor

    Doutor MS 05

    Faculdade de Educao - Unicamp

    Janeiro de 2012

    MEMORIAL

    &

    CURRICULUM VITAE

  • 1

    Sumrio

    I..................................................................................................................................... 03

    Saudade

    Memria... memorial....

    Escrita do Memorial

    Leitura de um memorial

    Algumas Palavras

    II................................................................................................................................... 08

    Um comeo

    Todo comeo tem um antes

    O individual sempre coletivo

    Andar no acmulo

    O Tempo... ah! O tempo...

    Vidas entre vidas

    Eu, leitora e narradora

    III.................................................................................................................................. 14

    Ensino de Portugus e Formao de Professores

    Equilbrio e Coerncia

    Educao e Linguagem

    IV................................................................................................................................... 19

    O que termina, no termina

    Estgio, escola e cultura

    Pesquisa em Parceria Universidade Escola Bsica

    1998-2000

    V..................................................................................................................................... 26

    Para alm do ensino, da formao de professores e da disciplina de lngua portuguesa

    O Grupo de Pesquisa Alfabetizao, Leitura e Escrita (ALLE)

    Polticas e Prticas, espaos de leitura e comunidades de leitores

    Um Estudo Investigativo das Prticas Escolares de Mobilizao Cultural na Rede Escolar

    Municipal de Campinas (SP)

    30 Anos de Associao de Leitura do Brasil e de Congresso de Leitura do Brasil: memrias

    Coordenao de Pedagogia e Sub-Comisso Permanente de Formao de Professores

    VI.................................................................................................................................... 35

    Enfim

    Notas............................................................................................................................... 36

  • 2

    Saudade

    Domingo, 21 de maro de 1999. 17h17min

    Passei o dia hoje traduzindo um texto para a prxima aula, de um neoplatnico espanhol, uma fbula da criao do homem, pelos deuses do Olmpo. Estou com o aparelho sentador bem dolorido...

    Mas, para seu fim de tarde, ou comeo de noite, mando para voc um lindo texto de Santo Agostinho que li na segunda aula.....beijos, Milton.

    Santo Agostinho, confisses, X, 8.

    E eis que venho aos campos e aos vastos palcios da memria, onde esto os tesouros das inmeras imagens trazidas de percepes multiformes dos sentidos. Ali esto recolhidas todas as coisas que pensamos, que aumentam ou diminuem, ou ainda variam de qualquer modo, aquilo que nossos sentidos ajuntaram e qualquer coisa que nela seja confiada ou depositada antes que seja absorvida e sepultada pelo esquecimento.

    Quando estou l, convoco todas as imagens que desejo, e algumas apresentam-se subitamente, outras fazem-se esperar mais longamente e emergem como dos mais secretos receptculos, e outras, ainda, precipitam-se em massa, enquanto buscavam e desejavam coisas diversas e colocando-se em primeiro plano parecem quase dizer: Somos ns, talvez? Eu as afasto, com a mo do corao, do vulto de minha recordao at que desa da bruma aquela que desejo e se oferece a meu olhar do fundo do seu segredo (...)

    A memria recebe-as todas em seu grande recesso, em seu seio inefvel e secreto, para convoc-las e retom-las quando precisa. Essas lhe entram todas pela porta reservada a cada uma e recolocam-se em ordem. E no entram somente essas, mas tambm as imagens das coisas percebidas pelos sentidos em prontido e disposio do pensamento que as evoca.

  • 3

    I

    Memria... memorial....

    O que vai fazendo as escolhas da gente ao longo de uma vida? Ser que as ligaes, nexos, articulaes no so to somente fruto de nosso desejo de coerncia do presente, a partir do qual olhamos para o passado? Podemos pensar em trajetria de uma vida? Nesse esforo de significar e costurar o vivido, d-se a construo de uma memria... melhor seria acolher no corao da gente momentos lembrados que vo e que vem, s trazendo essa vida aos borbotes e em pedaos, fora de qualquer esforo de cronologia, hierarquia, ordem... ser que isso seria um memorial? A gente aguentaria?

    A imagem das guas de um rio, correndo em seu leito, contidas por ele, ladeadas por ele, que define seu curso, num percurso de incio, meio e fim no serve para representar o processo incerto e escorregadio de uma vida. Essa surpreendente, ardilosa, porosa, bifurcada, multiplicada. De um rio, talvez seu fundo, o que vai por baixo das guas, aquilo que no se sabe e de repente se acha. Talvez essa imagem sim.

    Nenhuma vida pode ser to previsvel; por mais que parea.

    Poderia recorrer a vrios pensamentos escritos a fim de buscar um sentido para esse gnero especfico

    de texto, que o memorial. Afinal, ele entrou em ascenso, quer seja na produo literria ou na

    educacional e h atualmente muitas reflexes especializadas e escritas sobre ele. Cada qual me oferece

    uma ponderao particular, uma compreenso que no quero desprezar. Mas tambm podemos pensar

    que os textos que narram nascem antes das teorias que os classificam. So apenas narrativas que do

    conta de nossa necessidade e vontade de narrar. No ?

    Entretanto, escolhi recorrer inicialmente s colocaes de Couto (Abril Cultural - Revista Bravo! Ano 14.

    n. 172 - Dezembro de 2011), um crtico de cinema e tradutor. Elas recentemente e acidentalmente se

    ofereceram para minha leitura numa reportagem de revista, numa viagem praia.

    Na reportagem, o crtico comenta o ltimo filme de Eduardo Coutinho, um conhecido diretor de

    documentrios, chamado As Canes. Nele, o diretor entrevista e filma pessoas comuns cantando a

    cano que um dia mudou sua vida. Em meio exposio dos motivos que levaram Coutinho a sua

    escolha, bem como s formas utilizadas por ele para obteno das narrativas, Couto afirma que parece

    sempre existir um momento em que recorremos a uma cano para expressar um sentimento ou

    lembrana. como se a msica servisse ali [no documentrio] como um catalisador de afetos. (pg. 76)

    Observa no filme a enorme diversidade de dramas evocados ou ilustrados pelas canes. Ento alerta

    para a possvel ingenuidade dos mais cndidos de virem a pensar nessas canes como expresso de

    sentimentos autnticos e, ainda, no documentrio como um registro fidedigno dessas relaes.

  • 4

    Antes, diz ele, e com toda razo: os indivduos mais se constroem do que propriamente se revelam

    diante da cmara. (pg. 76)

    Assim, trago uma cano, para o personagem principal deste memorial e que pode expressar o

    sentimento que o acompanha nesse momento. Afinal, ele olha para tudo o que realizou no passado

    profissional, mas tambm constantemente levado a pensar no que deixou de fazer:

    Devia ter amado mais

    Ter chorado mais

    Ter visto o sol nascer

    Devia ter arriscado mais

    E at errado mais

    Ter feito o que eu queria fazer...

    Queria ter aceitado

    As pessoas como elas so

    O acaso vai me proteger

    Enquanto eu andar distrado

    O acaso vai me proteger

    Enquanto eu andar...

    Devia ter complicado menos

    Trabalhado menos

    Ter visto o sol se pr

    Devia ter me importado menos

    Com problemas pequenos

    Ter morrido de amor...

    Queria ter aceitado

    A vida como ela

    A cada um cabem alegrias

    E a tristeza que vier...

    Devia ter complicado menos

    Trabalhado menos

    Ter visto o sol se pr...

    Epitfio Tits

    A crtica de Couto me recorda imediatamente (e depois me motiva a retomar anotaes feitas e

    guardadas por mim) a palestra de uma colega de departamento Cristina Bruzzo - no Laboratrio de

    Estudos Audiovisuais (OLHO), em meados dos anos 90. Discorria ali sobre o uso do documentrio, em

    sala de aula.

    Comumente entendido como registro de uma realidade, ao contrrio do cinema de fico, que prioriza a

    imaginao e est mais associado criao e autoria, ela vai argumentar que nenhum tipo de filme

    podia ser considerado real e que era bom no se sair procurando a realidade. O documentrio no

    existe, tudo cinema. E, assim, o documentrio to ficcional quanto o cinema de fico, mas conta

    com a crena de que real.

    Penso que essa seja essa uma boa idia para pensar o memorial. Se o documentrio cinema de fico, o

    memorial pode ser significado como uma construo, uma fico.

    Mas vejo a mim mesma, tentando produzir, com fragmentos recolhidos de documentos vrios,

    recolhidos dos arquivos de vida que fui fazendo ao longo do tempo como estudante e professora;

    citaes de autores lidos, etc., o tal efeito de verdade, ou um aumento do realismo dessa histria. Ora!

  • 5

    Escrita do Memorial

    Este memorial, antes mesmo de ser palavra escrita, foi palavra pensada, imaginada, sonhada. Assim, se

    fez e se refez sem parar. Em fragmentos e sucessivos esquecimentos e modos. Texto sempre mvel,

    parcial, inexato, fluido, difano.

    Como a leitura, essa escrita em pensamentos no se acumula. Mas faz levantar os olhos na busca dos

    sentidos. Olhos imaginativos. Uma escrita de va

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