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0 Lilian Lopes Martin da Silva Apresentados como requisitos para o pedido de promoção por mérito para o nível de Professor Doutor MS 05 Faculdade de Educação - Unicamp Janeiro de 2012 MEMORIAL & CURRICULUM VITAE

MEMORIAL & CURRICULUM VITAE

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  • 0

    Lilian Lopes Martin da Silva

    Apresentados como requisitos para o pedido de

    promoo por mrito para o nvel de Professor

    Doutor MS 05

    Faculdade de Educao - Unicamp

    Janeiro de 2012

    MEMORIAL

    &

    CURRICULUM VITAE

  • 1

    Sumrio

    I..................................................................................................................................... 03

    Saudade

    Memria... memorial....

    Escrita do Memorial

    Leitura de um memorial

    Algumas Palavras

    II................................................................................................................................... 08

    Um comeo

    Todo comeo tem um antes

    O individual sempre coletivo

    Andar no acmulo

    O Tempo... ah! O tempo...

    Vidas entre vidas

    Eu, leitora e narradora

    III.................................................................................................................................. 14

    Ensino de Portugus e Formao de Professores

    Equilbrio e Coerncia

    Educao e Linguagem

    IV................................................................................................................................... 19

    O que termina, no termina

    Estgio, escola e cultura

    Pesquisa em Parceria Universidade Escola Bsica

    1998-2000

    V..................................................................................................................................... 26

    Para alm do ensino, da formao de professores e da disciplina de lngua portuguesa

    O Grupo de Pesquisa Alfabetizao, Leitura e Escrita (ALLE)

    Polticas e Prticas, espaos de leitura e comunidades de leitores

    Um Estudo Investigativo das Prticas Escolares de Mobilizao Cultural na Rede Escolar

    Municipal de Campinas (SP)

    30 Anos de Associao de Leitura do Brasil e de Congresso de Leitura do Brasil: memrias

    Coordenao de Pedagogia e Sub-Comisso Permanente de Formao de Professores

    VI.................................................................................................................................... 35

    Enfim

    Notas............................................................................................................................... 36

  • 2

    Saudade

    Domingo, 21 de maro de 1999. 17h17min

    Passei o dia hoje traduzindo um texto para a prxima aula, de um neoplatnico espanhol, uma fbula da criao do homem, pelos deuses do Olmpo. Estou com o aparelho sentador bem dolorido...

    Mas, para seu fim de tarde, ou comeo de noite, mando para voc um lindo texto de Santo Agostinho que li na segunda aula.....beijos, Milton.

    Santo Agostinho, confisses, X, 8.

    E eis que venho aos campos e aos vastos palcios da memria, onde esto os tesouros das inmeras imagens trazidas de percepes multiformes dos sentidos. Ali esto recolhidas todas as coisas que pensamos, que aumentam ou diminuem, ou ainda variam de qualquer modo, aquilo que nossos sentidos ajuntaram e qualquer coisa que nela seja confiada ou depositada antes que seja absorvida e sepultada pelo esquecimento.

    Quando estou l, convoco todas as imagens que desejo, e algumas apresentam-se subitamente, outras fazem-se esperar mais longamente e emergem como dos mais secretos receptculos, e outras, ainda, precipitam-se em massa, enquanto buscavam e desejavam coisas diversas e colocando-se em primeiro plano parecem quase dizer: Somos ns, talvez? Eu as afasto, com a mo do corao, do vulto de minha recordao at que desa da bruma aquela que desejo e se oferece a meu olhar do fundo do seu segredo (...)

    A memria recebe-as todas em seu grande recesso, em seu seio inefvel e secreto, para convoc-las e retom-las quando precisa. Essas lhe entram todas pela porta reservada a cada uma e recolocam-se em ordem. E no entram somente essas, mas tambm as imagens das coisas percebidas pelos sentidos em prontido e disposio do pensamento que as evoca.

  • 3

    I

    Memria... memorial....

    O que vai fazendo as escolhas da gente ao longo de uma vida? Ser que as ligaes, nexos, articulaes no so to somente fruto de nosso desejo de coerncia do presente, a partir do qual olhamos para o passado? Podemos pensar em trajetria de uma vida? Nesse esforo de significar e costurar o vivido, d-se a construo de uma memria... melhor seria acolher no corao da gente momentos lembrados que vo e que vem, s trazendo essa vida aos borbotes e em pedaos, fora de qualquer esforo de cronologia, hierarquia, ordem... ser que isso seria um memorial? A gente aguentaria?

    A imagem das guas de um rio, correndo em seu leito, contidas por ele, ladeadas por ele, que define seu curso, num percurso de incio, meio e fim no serve para representar o processo incerto e escorregadio de uma vida. Essa surpreendente, ardilosa, porosa, bifurcada, multiplicada. De um rio, talvez seu fundo, o que vai por baixo das guas, aquilo que no se sabe e de repente se acha. Talvez essa imagem sim.

    Nenhuma vida pode ser to previsvel; por mais que parea.

    Poderia recorrer a vrios pensamentos escritos a fim de buscar um sentido para esse gnero especfico

    de texto, que o memorial. Afinal, ele entrou em ascenso, quer seja na produo literria ou na

    educacional e h atualmente muitas reflexes especializadas e escritas sobre ele. Cada qual me oferece

    uma ponderao particular, uma compreenso que no quero desprezar. Mas tambm podemos pensar

    que os textos que narram nascem antes das teorias que os classificam. So apenas narrativas que do

    conta de nossa necessidade e vontade de narrar. No ?

    Entretanto, escolhi recorrer inicialmente s colocaes de Couto (Abril Cultural - Revista Bravo! Ano 14.

    n. 172 - Dezembro de 2011), um crtico de cinema e tradutor. Elas recentemente e acidentalmente se

    ofereceram para minha leitura numa reportagem de revista, numa viagem praia.

    Na reportagem, o crtico comenta o ltimo filme de Eduardo Coutinho, um conhecido diretor de

    documentrios, chamado As Canes. Nele, o diretor entrevista e filma pessoas comuns cantando a

    cano que um dia mudou sua vida. Em meio exposio dos motivos que levaram Coutinho a sua

    escolha, bem como s formas utilizadas por ele para obteno das narrativas, Couto afirma que parece

    sempre existir um momento em que recorremos a uma cano para expressar um sentimento ou

    lembrana. como se a msica servisse ali [no documentrio] como um catalisador de afetos. (pg. 76)

    Observa no filme a enorme diversidade de dramas evocados ou ilustrados pelas canes. Ento alerta

    para a possvel ingenuidade dos mais cndidos de virem a pensar nessas canes como expresso de

    sentimentos autnticos e, ainda, no documentrio como um registro fidedigno dessas relaes.

  • 4

    Antes, diz ele, e com toda razo: os indivduos mais se constroem do que propriamente se revelam

    diante da cmara. (pg. 76)

    Assim, trago uma cano, para o personagem principal deste memorial e que pode expressar o

    sentimento que o acompanha nesse momento. Afinal, ele olha para tudo o que realizou no passado

    profissional, mas tambm constantemente levado a pensar no que deixou de fazer:

    Devia ter amado mais

    Ter chorado mais

    Ter visto o sol nascer

    Devia ter arriscado mais

    E at errado mais

    Ter feito o que eu queria fazer...

    Queria ter aceitado

    As pessoas como elas so

    O acaso vai me proteger

    Enquanto eu andar distrado

    O acaso vai me proteger

    Enquanto eu andar...

    Devia ter complicado menos

    Trabalhado menos

    Ter visto o sol se pr

    Devia ter me importado menos

    Com problemas pequenos

    Ter morrido de amor...

    Queria ter aceitado

    A vida como ela

    A cada um cabem alegrias

    E a tristeza que vier...

    Devia ter complicado menos

    Trabalhado menos

    Ter visto o sol se pr...

    Epitfio Tits

    A crtica de Couto me recorda imediatamente (e depois me motiva a retomar anotaes feitas e

    guardadas por mim) a palestra de uma colega de departamento Cristina Bruzzo - no Laboratrio de

    Estudos Audiovisuais (OLHO), em meados dos anos 90. Discorria ali sobre o uso do documentrio, em

    sala de aula.

    Comumente entendido como registro de uma realidade, ao contrrio do cinema de fico, que prioriza a

    imaginao e est mais associado criao e autoria, ela vai argumentar que nenhum tipo de filme

    podia ser considerado real e que era bom no se sair procurando a realidade. O documentrio no

    existe, tudo cinema. E, assim, o documentrio to ficcional quanto o cinema de fico, mas conta

    com a crena de que real.

    Penso que essa seja essa uma boa idia para pensar o memorial. Se o documentrio cinema de fico, o

    memorial pode ser significado como uma construo, uma fico.

    Mas vejo a mim mesma, tentando produzir, com fragmentos recolhidos de documentos vrios,

    recolhidos dos arquivos de vida que fui fazendo ao longo do tempo como estudante e professora;

    citaes de autores lidos, etc., o tal efeito de verdade, ou um aumento do realismo dessa histria. Ora!

  • 5

    Escrita do Memorial

    Este memorial, antes mesmo de ser palavra escrita, foi palavra pensada, imaginada, sonhada. Assim, se

    fez e se refez sem parar. Em fragmentos e sucessivos esquecimentos e modos. Texto sempre mvel,

    parcial, inexato, fluido, difano.

    Como a leitura, essa escrita em pensamentos no se acumula. Mas faz levantar os olhos na busca dos

    sentidos. Olhos imaginativos. Uma escrita de vai e vem, igual a nossa vida, nunca reta e lgica, de

    momentos discretos e sucessivos, mas itinerrio incerto, feito de escolhas muitas vezes sem qualquer

    comando ou planejamento (quantas vezes o acaso me protegeu?)... feito de encontros. Nem sabemos, ao

    certo, onde algo comea ou termina. Uma vida que tambm no se sustenta na cronologia que

    usualmente usamos para marcar os tempos, nem tampouco na causalidade das coisas. Uma vida

    plasmvel.

    Uma vez iniciada a escrita alfabtica sobre a pgina em branco, comea o drama da gente. Como colocar

    o vivido em letra e papel? Como fazer essa espcie de usinagem? Que lngua essa, caramba?

    Uma tcnica regulada pelo princpio da economia. Linearidade, segmentao, direo. Seu carter

    alfabtico permite que seja tomada como mercadoria. Numa sociedade escriturstica, o modo de se lidar

    com a linguagem mercantil.

    Escrevemos nessa lngua guiados pelo nosso conhecimento das letras, em que uma letra escolhida

    elimina todas as outras.. Na lngua alfabtica os caracteres so discretos. Assim, ela difere da lngua

    como imagem. Toda lngua tem uma dimenso imagtica e em nossa sociedade, como ela nos dada

    mecanicamente, essa dimenso fica perdida. A tecnizao que marca a linguagem escrita retira o carter

    sagrado dessa lngua. Um carter que est tambm na oralidade no na oralidade da linguagem, mas

    dos sujeitos, sua performance na interao com o mundo.

    E se escrevemos textos, nossa sociedade deu conta de classific-los em muitos tipos ou gneros

    diferentes. Cada qual com seu estilo de gnero, suas regras, seus limites e possibilidades. Como a lngua,

    essa dimenso tambm se coloca para ns. Operamos nas interaes - orais e escritas - com gneros

    diversos. H texto sem gnero?

    Mas tambm escrevemos para o outro. E esse outro habita e se faz presente na configurao de nosso

    dizer. Como habitam nossos textos aqueles que nunca lemos, mas que fazem parte de nosso repertrio

    inconsciente, herana ocidental e religiosa. Palavras alheias presentes nas palavras prprias, segundo

    Bakhtin.

    Alm disso, ns escrevemos encarnados na vida. Se temos um com que... um para quem.... dessa

    escrita, ela tambm responde a um porqu e a um para qu.

    Este memorial produzido na injuno de muitas coisas.

    Entre a vida e a narrativa escrita da vida, o conflito. Como se reinventar nisso?

  • 6

    Leitura de um memorial

    L-se aquilo que est escrito? L-se aquilo que no est na escrita? O que pode ser lido naquilo que se

    escreve?

    As perguntas j indicam um modo de pensar, que reconhece o espao do leitor na produo de sentidos

    para um texto. Mas recolher o que o texto diz ou quer dizer , sem dvida, uma das operaes de leitura.

    O que est na superfcie do texto, ou aquilo que nele se diz, dialoga, na verdade, com um enunciado de

    base, uma formao discursiva, que governa ideologicamente os homens, suas formas de pensar e de

    dizer. So esses enunciados latentes que informam nossas prticas discursivas.

    Podemos percorrer essa superfcie textual, procurando em cada uma delas aquilo que j foi dito e que

    possvel de ser dito, porque admitido naquela formao discursiva. Mas possvel pensar (e com

    Foucault) que essa base apresenta descontinuidades e que a semelhana apenas nossa referncia para a

    diferena.

    Parto do princpio de que toda e qualquer interao social ocorre no interior de uma formao social. E

    que toda e qualquer formao social fabrica um sistema de controles, em que a lngua no exceo. Ela

    nos parece um sistema fechado e regrado em que, ao nascermos, penetramos e, pela escola, podemos

    acessar e dominar em sua normatividade. Mas esse sistema se altera no tempo e no espao das diferenas

    e se produz nas interaes realizadas, sendo na verdade um sistema aberto de signos, gerado no trabalho

    lingstico dos homens.

    Um memorial no , portanto, o espelho da vida de algum. Mas sua percepo (possvel) dessa vida.

    Algumas Palavras

    As primeiras palavras que me ocorrem dizer aos colegas que me avaliaro nesse processo dizem respeito

    aos motivos que me levaram a solicitar a progresso na carreira s vsperas de minha aposentadoria.

    Perguntei-me isso, muitas vezes. Hesitei, ouvindo conselhos de alguns amigos queridos. Dividi-me entre

    justificativas de ordem mais institucional e outras bastante pessoais e que se ocultavam at de mim

    mesma. Vivi muitos conflitos nesse tempo. Ento julgo procedente colocar as circunstncias de meu

    pedido. No acredito que expliquem nada. Nem que exista algo a explicar. Apenas porque quero

    compartilhar.

    Meu tempo de trabalho para aposentadoria se completou em julho de 2010. Optei por aguardar o

    vencimento do quinqunio a que tenho direito, agora em fevereiro de 2012. Assim posicionei-me frente

    ao DELART, departamento ao qual perteno, porque temos a prtica, neste departamento, de

    constantemente planejar as aposentadorias e afastamentos de colegas. Atitude coletiva bastante saudvel,

    que procura reservar esses momentos para todos, equitativamente, sem que se gere muito transtorno aos

    que permanecem na instituio.

  • 7

    Mas, decidi mudar de idia e adiar um pouco esse projeto, mesmo que ele v de encontro s expectativas

    do departamento.

    **********************

    Ao me deparar com uma discusso no departamento acerca dos perfis docentes da nova carreira

    implantada pela Unicamp (que estabelece nveis intermedirios nos nveis existentes), observei que me

    encontrava no menor e mesmo nvel destinado a um doutor iniciante na universidade. Nossa

    universidade no alocaria automaticamente os doutores que j tinham produo (at porque com muitos

    anos de trabalho) no nvel intermedirio imediatamente superior ao do ingressante, mesmo tendo nossos

    relatrios trienais para realizar essa avaliao. Achei que era demais.

    Essa espcie de indignao se misturou posteriormente a certo constrangimento de ter descuidado tanto

    e por tanto tempo de minha carreira profissional. Por que tinha feito isso? No era novidade para mim,

    h muito tempo, que podia cuidar de minha ascenso na carreira. Tinha produo que correspondia a

    um nvel acima do meu. Por que no me dediquei a isso?

    Na FE muitos que cuidaram - individualmente e insistentemente - de suas carreiras, acabaram se

    ausentando, por sucessivos perodos, do cotidiano da instituio e de suas necessidades. Ganharam

    olhares de reprovao. Talvez tenha desejado me desviar de tais olhares de censura. Talvez tenha

    compartilhado com tais colegas desse mesmo olhar.

    Atualmente, penso que o caminho na carreira de trabalho no algo individual. institucional. Deve

    haver mecanismos de progresso que no dependam exclusivamente da vontade e iniciativa deste ou

    daquele sujeito.

    Isso sempre foi deixado em nossa instituio e unidade como deciso bastante pessoal. E o concurso

    pblico para livre docente sempre foi colocado como caminho previsto, mesmo que no fosse o nico.

    H tambm a possibilidade de progredir sem a obteno da titulao correspondente aos nveis. Obtm-

    se apenas a mudana de nvel. Mas o concurso sempre foi, sem sombra de dvida, o nico caminho

    prestigiado entre ns. Com isso, solicitar progresso na carreira, unicamente por concurso, acabou sendo

    uma prtica usual e tida como nica.

    *****************************

    Se o concurso no havia se colocado como opo para mim durante tanto tempo, aps o ano de 2008,

    quando retornei de uma grande licena mdica e com algumas limitaes fsicas para assumir aulas,

    cargos etc., ele se colocou para mim como algo mais distante ainda.

    Entretanto, as circunstncias que levavam s discusses da nova carreira e os sentimentos que me

    acompanhavam acabaram me levando descoberta de que seria possvel para mim (considerada uma

    docente do quadro em extino da universidade, como alguns outros colegas da FE que haviam

    ingressado h muito tempo) solicitar a progresso de MS 03 para MS 05 atravs de currculo

    comprovado e memorial.

  • 8

    Como esse no era o caminho usual na FE e como a prpria universidade atualmente se atrapalha muito

    com a questo da normatizao da nova carreira, foi necessrio muito empenho, dentro e fora da FE,

    para que se estabelecesse o conjunto de procedimentos necessrios tramitao do pedido que planejava

    fazer. Nesse processo, feito de muitos descaminhos, confesso que me desgastei e quase desisti. No

    fossem os gestos atenciosos e amorosos que encontrei.

    Tentei no encaminhar a questo sozinha. Encontrei respaldo para isso, sobretudo na chefia de meu

    departamento. Creio que assim como eu, muitos colegas esto se movimentando na direo de obter

    sua progresso, por concurso ou por anlise de produo.

    II

    Um comeo

    Ao final de 1981, o ento chefe do departamento de Metodologia de Ensino - Professor Hilrio

    Fracalanza - encaminha ofcio ao diretor da FE expondo os motivos pelos quais solicita a designao de

    quatro professores em nvel MS1 e MS2, durante o perodo de afastamento sem vencimentos da Prof.

    Roslia de Arago - MS 4. Precisava deles para docncia em disciplinas da pedagogia e licenciaturas, que

    ocorreriam no ano seguinte e que estavam sem docentes.

    Essa designao seria pelo perodo de um ano a contar de 1 de janeiro de 1982. O diretor poca

    encaminha o pedido ao reitor, reforando a argumentao. Ofcio vai, ofcio vem e apenas em 12 de

    abril, aps 40 dias do incio do semestre letivo, a situao se resolveria com a designao - ao menos em

    meu caso - por 120 dias!!! Fui designada como Professora Instrutora em RTC, MS1, para me ocupar de

    duas disciplinas: EL 646 Didtica para o Ensino de Portugus e EL 784 Prtica de Ensino e Estgio

    Supervisionado em Lngua Portuguesa I.

    Nova rodada de ofcios se iniciaria em julho daquele ano, solicitando minha contratao, sua

    desvinculao do afastamento da Prof. Roslia e a passagem para atuao em RDIDP. Nessa rodada,

    encabeada novamente pela chefia do DEME, outros colegas da FE entraram no circuito, manifestando-

    se a favor da solicitao. Finalmente, um despacho favorvel da Comisso para Tempo Integral

    Pesquisa e Docncia (CPDI), que tambm me dispensava da entrevista.

    A Faculdade, nesse momento, iniciava seu Programa de Ps- Graduao. Era uma unidade nova na

    universidade (criara-se em 1972), que atendia as licenciaturas e a pedagogia. Formava seu quadro de

    profissionais, assim como outros institutos do campus.

    Tnhamos, em 1982, menos de cem alunos matriculados no programa de ps, em que havia um extenso

    currculo de disciplinas obrigatrias, a que precisavam se dedicar os professores mais titulados. A

    unidade enfrentava tambm os afastamentos de muitos deles em busca de suas prprias titulaes e/ou

    de outros interesses particulares.

  • 9

    Aps tantos anos trabalhando nessa instituio, vejo hoje que a questo ligada falta de docente,

    sobretudo para as disciplinas e turmas de graduao, se coloca desde ento. Uma questo que no

    recente como se pode pensar, mas que vem se recolocando ano aps ano, obtendo diferentes solues.

    Mas sempre solues parciais e capengas que apontam para a precarizao cada vez maior do nosso

    trabalho.

    O trmite burocrtico e poltico que cerca uma necessidade de contratao uma disputa demorada e

    delicada, atualmente bastante acirrada, que exige daqueles que ocupam os cargos uma tenacidade e

    perspiccia sem igual.

    Ento, o comeo de minha vida profissional na FE da Unicamp est ligado falta. Entrei na roda para

    preencher um vazio. Mesmo admitindo algum mrito para isso, e sabendo que naquela ocasio esse

    caminho se colocava tambm para os demais institutos e outros pesquisadores, acho que no foi nada

    bonito. Mas essa ausncia cercaria ainda muita coisa em minha vida. Talvez querendo nos mostrar que

    nos explicamos sempre por aquilo que no est somente em ns.

    Mas bonito mesmo (e emocionante) foi poder ver e ler em meu processo de vida funcional os

    documentos e arrazoados escritos ou assinados, naquela ocasio, por colegas que foram ao longo do

    tempo ficando muito queridos. A todos eles, meu agradecimento comovido, especialmente ao Hilrio,

    por quem tenho enorme afeto e de quem tenho imensa saudade.

    Todo comeo tem um antes (que tambm se coloca como comeo)

    Fora do tempo cronolgico, e do modo com que nos acostumamos a dividir o tempo

    (passado/presente/futuro), a vida mistura tudo.

    Tinha me formado em Lingustica na Unicamp. Era um bacharelado. Como me ligava na questo da

    educao e do ensino, fizera ao longo do curso e como extracurricular todas as disciplinas de

    licenciatura. Quando consegui me matricular em didtica para o ensino de fsica, o professor me

    repassou para o colega que na FE tinha formao na rea de letras e realizava pesquisa no campo da

    leitura. At hoje, a universidade se relaciona com os conhecimentos atravs dos especialistas. Mesmo

    tendo produzido, com essa prtica, muitas reflexes interessantes que nos levam a interagir com a

    questo da cincia e da produo de conhecimento, de forma alternativa, essa prtica permanece entre

    ns, na universidade, justificando muitas coisas.

    Bom, naquela ocasio, transformei-me em assistente de pesquisa, do Prof. Ezequiel Theodoro da Silva,

    como atividade para a disciplina. Isso ocorria em 1977. No ano seguinte ingressava no Mestrado em

    Educao Metodologia de Ensino, realizando provas de contedo e entrevistas em torno de meu

    primeiro projeto de pesquisa. Eu o teria como orientador at o ano de 80, quando solicitei a alterao

    para o Professor Milton Jos de Almeida. Fui aluna do programa, tambm uma representante constante

    dos alunos no departamento e outras instncias de discusso na FE. Dessa forma, fui ganhando

    conhecimento no s do campo da educao, mas tambm dos modos de pensamento e funcionamento

    que entravam em conflitos na instituio.

  • 10

    O individual sempre coletivo

    Ao mesmo tempo em que me dedico a produzir um memorial que diga respeito minha vida

    profissional na FE/Unicamp, penso na comemorao aos 30 anos da Associao de Leitura do Brasil

    (ALB). Meu itinerrio na FE se mistura ao da ALB e se cruza tambm com o de outra entidade que

    emergia, naquele momento, do interior da faculdade: o Centro de Estudos Educao e Sociedade

    (CEDES).

    As duas entidades surgiriam entre o final dos anos 70 (CEDES em 1979) e incio dos anos 80 (ALB em

    1981). Ambas nasceriam no interior de eventos (1. Seminrio da Educao Brasileira - 1978) de onde

    surgiria a primeira e o 3 Congresso de Leitura do Brasil, de onde viria a surgir, em 1981, a ALB.

    Envolvi-me com as duas: na secretaria do CEDES, desde seu incio e por algum tempo e na tesouraria

    da ALB, desde seu comit provisrio e nesses 30 anos por muitas vezes, que se revezaram com outras

    funes nas diretorias. Organizei eventos nas duas. Fiz trabalhos de reviso de textos para as principais

    publicaes das duas: a Revista Educao e Sociedade e a Revista Leitura: Teoria e Prtica. Alm de

    auxiliar na publicao de jornais, boletins, circulares, etc.

    Fui aluna e tornei-me amiga de pessoas que trabalhavam nas duas. E, penso que, sobretudo, formei

    muito do meu pensamento naquilo que eram os desafios que se colocavam para ambas:

    A reflexo e ao ligadas s relaes da educao com a sociedade e o objetivo de ser um instrumento

    de luta, ao lado de outras instituies que atuam no movimento social, no sentido da democratizao da

    sociedade. (http://www.cedes.unicamp.br/objetivos.htm - acesso em 09/02/2012);

    lutar pela redemocratizao do pas; buscar garantir o direito palavra sendo um veculo de expresso

    de diversos segmentos sociais; promover e estimular a leitura. (http://alb.com.br/alb/apresentacao - acesso em

    09/02/2012).

    Todo meu envolvimento com o cotidiano dessas entidades e a participao em outros fruns de

    discusso da educao aconteceu em meio a meu ingresso em 1982 na Faculdade, aumentando em muito

    meu interesse pela educao e por tudo aquilo que se colocava como desafio naquele momento. Eu viria

    a registrar esse momento em minha tese de doutorado (1994) da seguinte forma:

    Ao longo dos ltimos anos [estava em 1994 e me referia retrospectivamente aos ltimos 10

    anos], incontveis questes suscitadas pela realidade educacional brasileira foram ocupando

    o espao acadmico das discusses, transformando educao e ensino em objeto de um

    constante e vigoroso debate interdisciplinar. Nesse perodo emergiram e se cruzaram muitas

    vozes, multiplicaram-se estudos, pesquisas e publicaes que, versando sobre diferentes

    aspectos de uma problemtica que recobre campos e interesses diversos, buscaram

    equacionar o fenmeno educacional em sua totalidade e complexidade. Fatores variados

    concorreram para o adensamento da reflexo sobre ensino e educao entre ns. Dentre

    eles, podem-se registrar alguns, possveis de serem considerados significativos na formao

  • 11

    de uma intrincada rede de iniciativas, circunstncias, movimentos, discursos, textos,

    trabalhos acontecidos nesse perodo.

    O primeiro foi sem dvida o incio do processo de abertura poltica e distenso gradual do

    regime militar instalado em 1964. Mesmo lento e gradual representou concretamente o fim

    do perodo mais severo de censura e a anistia aos polticos e intelectuais exilados,

    viabilizando a emergncia de um discurso at ento sufocado, sobre a realidade brasileira,

    de modo geral, e em particular sobre a educao. Neste caso, um discurso inicialmente

    ancorado em inmeras denncias a uma pedagogia oficial e sua articulao com o regime de

    exceo. Para mim, nesse momento de certa forma inaugural em questes de educao,

    histria e poltica, a expresso mais concreta dessa abertura foi a voz de Paulo Freire num

    gravador frente de um auditrio repleto e emocionado que o aguardara em vo para a

    Conferncia de Abertura do 1. Seminrio Brasileiro de Educao, realizado em Campinas,

    de 22 a 28 de novembro de 1978 (...).

    O segundo fator a se considerar diz respeito a uma nova literatura que, entrando em

    circulao, prioritariamente no meio acadmico, viria colocar em questo o mito da

    neutralidade em educao e do ensino, a abordagem excessiva e exclusivamente tecnicista

    para os desafios que se colocavam, sobretudo aos professores, e a ideologia presente no

    modelo educacional existente (...).

    Decorrncia imediata desse desenvolvimento foi o nmero de encontros, congressos e

    seminrios que, ao longo desses anos, puderam contar com pblicos cada vez maiores e os

    inmeros peridicos especializados em educao, bem como inmeras sries ou colees,

    todas surgidas a partir dos anos finais da dcada de 70.

    Tendo iniciado meu trabalho no campo da educao no ano de 1978, participei de

    diferentes maneiras desse esforo coletivo, que hoje posso chamar de uma resposta

    concreta e entusiasmada das foras progressistas daquele momento ao desafio e ao

    compromisso de reanimar a audincia, o debate e a crtica em torno dos problemas

    educacionais brasileiros, a fim de repensar a educao passo a passo com a reconstruo da

    sociedade, reconhecendo que esta a grande tarefa atual das cincias da educao. (SILVA:

    1994, 2-4)

    Andar no acmulo

    Considerando o conjunto de trabalhos nos eixos do ensino, da pesquisa e da extenso universitrias -

    pelos quais comumente distribumos nossa produo ao fazermos nossos relatrios trienais (e que

    sabemos ser tudo inseparvel) - sou tentada a organizar esse acmulo em duas partes, mesmo

    conhecendo os riscos dessa espcie de diviso didtica.

    E embora tambm deseje resistir ao tempo cronolgico, me submeto a ele nesse momento, mesmo que

    parcialmente.

  • 12

    H um primeiro ncleo de trabalho que se situa entre os anos de 1982 e o final dos anos 90. Nesse

    perodo concentro grande parte de meu esforo na questo do ensino escolar de portugus, em vrios de

    seus aspectos, e nos desafios da formao inicial e continuada de professores para esse ensino. Esse foi

    um ciclo importante e que incluiu o desenvolvimento e a defesa de minha pesquisa de doutorado em

    1994. Nesse trabalho procurei lanar um primeiro olhar retrospectivo e reflexivo sobre as experincias

    vividas em torno de uma proposta metodolgica para o ensino de portugus nas quatro ltimas sries do

    1. grau e sobre os projetos de formao de professores. Essas experincias configuraram-se como

    conjunto de prticas, naquele momento, pouco revestidas de grande valor acadmico na universidade e

    que envolviam sobremaneira o trabalho na extenso e a docncia na graduao, especialmente na

    superviso dos estgios. Tomei a deciso de recuper-las como tese, a partir de diversos documentos

    dispersos, escritos e orais; busquei registr-las e pens-las, identificando e equacionando suas

    contradies, problematizando aes, evidenciando limites; discutindo um itinerrio de trabalho. Desejei

    fazer delas meu objeto de conhecimento. Desejei cont-las por escrito para que no ficassem de todo

    esquecidas.

    Um segundo ncleo de trabalho se inicia depois desse momento e se estende at o momento atual,

    implicando o adensamento das atividades ligadas pesquisa e ao ensino na Ps- Graduao. Nele me

    dedico, de modo mais concentrado, ao tema das prticas da leitura, como objeto de pesquisa, mas no

    exclusivamente da leitura como prtica escolar. Entretanto, esse perodo continua incluindo meu

    trabalho na licenciatura, como elemento catalisador de muitas aes. Isso se expressa, sobretudo, no

    movimento com outros colegas responsveis pelas disciplinas de estgio, com quem iniciei a modificao

    das prticas em seu interior, em termos de pensamento e organizao de trabalhos. Inclui tambm a

    participao na Coordenao de Pedagogia (como coordenadora associada) e posteriormente na Sub-

    Comisso Permanente de Formao de Professores (como vice-presidente). Perodo que contempla,

    ainda, a criao e coordenao do grupo de pesquisa (Alfabetizao, Leitura e Escrita) ao qual perteno e

    a coordenao do Frum Permanente Desafios do Magistrio.

    Embora sucessivos no tempo, esses dois ciclos se interpenetram. Eles permitem observar gestos de

    mudana, mas tambm apresentam outros que significam uma espcie de continuidade.

    A preocupao com a leitura, por exemplo, est presente desde o incio de meu ingresso na FE, pois

    constitua meu projeto de Mestrado no Programa de Ps-Graduao e permanece ainda hoje. (Uma

    espcie de obsesso ou fixao particular, no dizer irnico de um colega querido).

    Para enfrentar os desafios da formao de professores, mudarei de posio no tabuleiro, mas eles vo

    permanecer at momento atual.

    Ento, no ser possvel enquadrar trabalhos nesse ou naquele ciclo. As fronteiras entre os ciclos so

    mveis e porosas e permitem todo tipo de passagem.

    Entretanto, ao propor dois grandes blocos (1982 a 1996 e 1996 a 2010), tomando como referncia de

    tempo, aquele institucional, que assinala os relatrios trienais, destaco alguns aspectos em cada um deles.

  • 13

    O Tempo... ah! o tempo....

    Procuro recuperar meus movimentos nessa cronologia, consultando meu processo de vida funcional, no

    arquivo setorial da FE. Em dois volumes encontro todos os registros escritos que documentam essa

    linha do tempo e as inmeras e distintas atividades desse itinerrio. Mas a cada movimento de leitura, se

    abrem outros tempos... outras lembranas... outros caminhos e tambm os caminhos percorridos por

    outros, que participam de minhas lembranas...... De quantos tempos nosso tempo feito? De quantos

    caminhos que podiam ter sido escolhidos e foram descartados? Fiquei com saudade do futuro, como

    diria um dia para mim, meu amigo Wanderley!

    Vidas entre vidas

    Em meio a todos os tempos, entre os textos e o leitor, insinua-se a vida de todo dia, aquela nunca escrita,

    que no obedece objetividade, ao previsvel, ao planejado e que no cabe nem na linguagem verbal e

    muito menos na linha do tempo.

    Vida circular... fora do tempo linear.

    Houve, no entanto, aquele colega, provavelmente mais sensvel do que eu naquele momento, que

    desejou registrar um sinal dessa vida por ocasio de meu relatrio de atividades referente ao trinio 1984-

    1987.

    Mas no testemunho do trabalho cotidiano da Prof. Lilian que encontramos articulado seu

    processo de produo cientfica: nos corredores; na articulao com colegas de outros

    departamentos e mesmo de outros institutos; na participao em associaes (ALB, de

    modo especial); nas mil e uma reunies; nos muitos debates, conversas, avanos e recuos de

    propostas. Estes so os trabalhos que revelam a presena da professora Lilian no

    departamento, na faculdade, nas assemblias, e tambm fora do campus, na rede de ensino

    de 1. e 2. graus. isto que se l tanto no que publicado quanto no que dito. Parecer DEME 1988

    Eu, leitora e narradora

    No arquivo setorial da FE pude ler a mim mesma em sucessivos relatrios (nove no total - de 1982 a

    2010); pude ler o modo pelo qual fui dando sentido quilo que vivera e ali narrava, lendo o que dizia nos

    campos para auto-avaliaes, espao de nosso respiro. Mesmo considerando que essa narrativa acontece

    assinalada por todas as suas condies de produo (quem escreve/para quem/para

    que/quando/porque, etc.) e que ela se configura e se constrange no jogo entre materialidade, forma,

    contedo, posso pensar que nesse espao sou capaz de me encontrar um pouco.

  • 14

    Li tambm os diversos pareceres emitidos: pelo departamento, por comisses, colegas de outras

    instncias da universidade. Os pareceres mais antigos no tempo, distintamente dos pareceres atuais, to

    objetivos e centrados no quantitativo das coisas, traziam consideraes de seus autores. Encontrei num

    deles, naquilo que dizia, (parecer do relator da CADI de 1991) mesmo que muito elogioso a meu

    trabalho, o modo (que me pareceu pouco lisonjeiro) com que considerava as realizaes do campo da

    educao. Sugeria que os parmetros de qualidade e seriedade cientficos estavam (e parece que ainda

    esto) em outro lugar:

    O relatrio presente mostra at que ponto positivo pode ir uma colaborao entre os

    diversos institutos da Unicamp, no caso, o IEL e a FE. As tcnicas utilizadas na pesquisa

    recebem primorosa ateno mostrando que os pesquisadores pedaggicos, quando desejam,

    podem ser to rigorosos quanto os seus pares de outras reas.

    III

    Ensino de Portugus e Formao de Professores

    Pensar o ensino escolar de lngua portuguesa, bem como a formao de docentes para ele, e a formao

    do leitor na escola se colocaram como centro de minhas atenes desde o momento em que ingressei na

    Faculdade, em 1982, vindo a assumir as disciplinas de didtica e prtica de ensino (com o estgio

    supervisionado) da recm-criada Licenciatura em Letras. S no primeiro ano e meio de contrato assumi

    12 turmas.

    O curso de Lingustica na universidade (que era um bacharelado) no contemplava as preocupaes com

    o ensino. No havia ainda o Instituto de Estudos da Linguagem, nem o curso de Licenciatura em Letras

    e nem mesmo o Departamento de Lingustica Aplicada. ramos to somente um departamento do

    Instituto de Filosofia e Cincias Humanas (IFCH). Nossa formao, como pesquisadores do campo da

    linguagem, tinha sido a tnica nesse percurso.

    O ingresso no mestrado em educao, em 1978, aproximara-me de uma rea e de uma problemtica

    distintas daquelas trazida pelo curso. Alm de todo o meu envolvimento com os eventos, entidades e

    publicaes daquele momento, o encontro e as trocas com muitos colegas de mestrado oriundos da

    escola bsica, com uma experincia de vida e de ensino bastante diversa da minha, haviam sido decisivos.

    Igualmente seriam decisivas as primeiras incurses que faria pela escola pblica, acompanhando os

    estagirios, meus primeiros alunos. Quase tnhamos a mesma idade. Eles vinham de um instituto que eu

    conhecia e que tudo indicava ter uma posio de muita reticncia em relao ao ensino na escola bsica

    como possibilidade de trabalho profissional.

    Fiz a difcil opo, de deslocamento desses alunos para um universo distante e diferente daquele que

    tinham na universidade. A escola bsica e pblica. Ela se revelaria uma opo cujo efeito seria a

    humanizao desses alunos. No estava sozinha. Meus colegas tambm agiam assim.

  • 15

    O trabalho na licenciatura motivou os primeiros esforos de reflexo e pesquisa coletiva na universidade,

    com colegas de departamento e de outras unidades do campus que no traziam a mesma formao

    bsica que a minha no campo da linguagem; os primeiros esforos na extenso, com os cursos de curta

    durao e projetos de formao envolvendo colegas do Instituto de Estudos da Linguagem; as primeiras

    discusses sobre a formao de professores em fruns externos prpria Unicamp; bem como as

    primeiras publicaes.

    Nesse processo destacam-se as pessoas do Prof. Joo Wanderley Geraldi e da Prof. Raquel Salek Fiad

    ambos do Instituto de Estudos da Linguagem e que vieram a tornar-se grandes e importantes amigos.

    Situam-se nesse ciclo:

    A participao no Encontro Nacional de Prtica de Ensino (ENPE), que depois veio a constituir os

    Encontros Nacionais de Didtica e Prtica de Ensino (ENDIPE), atualmente em sua 12.a Edio. Ao

    lado desse evento, outros, em que pudemos apresentar e discutir um modo de organizao e de

    concepo do trabalho que se fazia na FE com formao inicial e que era distinto do modo habitual

    existente nas demais IES do pas;

    O debate da formao continuada de professores em fruns, encontros e seminrios, visando

    colocao, em nvel regional, nacional e mesmo internacional, de uma viso que problematizava a ao

    dos poderes pblicos; a relao que se estabelecia entre os diferentes graus do ensino e a integrao da

    universidade com a escola bsica;

    Os cursos de curta durao voltados aos professores em exerccio, que privilegiavam os temas:

    da metodologia de ensino, como tendo necessariamente uma dimenso poltica;

    do ensino da lngua, numa perspectiva interacionista; como sendo prioritariamente ensino da

    escrita e da leitura em detrimento de uma viso estrutural e instrumental da lngua;

    da necessria ressignificao do trabalho gramatical nas escolas;

    da regularidade, coletividade e oralidade exigidos como condio para o trabalho com a escrita;

    da necessidade de acervos, mediao e tempo livre para a formao dos leitores;

    do problema dos livros didticos; etc.

    Os trabalhos de assessoria a prefeituras; secretarias de educao e escolas; em diferentes lugares do

    estado e do pas;

    As publicaes resultantes das pesquisas que eram levadas a efeito nesse perodo e que priorizavam os

    aspectos do ensino da lngua; formao do leitor; formao de professores.

    Um quadro, mesmo com informaes genricas, que podem ser conferidas no curriculum vitae e sua

    documentao comprobatria, que acompanham este memorial rene o conjunto dessas atividades. Ele

    tem a capacidade de, pelo acmulo, evidenciar as preocupaes priorizadas naquele momento.

  • 16

    Cursos de Curta Durao

    Curso de Atualizao em Lngua Portuguesa

    Curso sobre Lngua Portuguesa

    Curso sobre Ensino de LP no 1. Grau

    Metodologia e Prtica do Ensino de LP

    Metodologia do Ensino de Lngua Portuguesa

    Fundamentos Bsicos do Ensino de LP

    Leitura e Produo de Textos nas Sries Iniciais

    A Produo do Texto Escrito na Escola

    Leitura e Literatura Infantil

    Curso de Prtica de Anlise Lingustica

    Fundamentos Lingsticos da Alfabetizao e Prtica de Leitura de Textos

    Metodologia do Ensino de Lngua Portuguesa Projeto de Erradicao do Analfabetismo

    Capacitao de Recursos Humanos para o Ensino de 2. Grau

    Assessorias

    Departamento de Planejamento e Orientao da Secretaria Municipal de Educao So Paulo

    Delegacias de Ensino de Campinas I-II-III (monitoria de LP)

    Escola Dinmica Espiral Franca/SP

    36. Delegacia de Ensino de Passos/MG

    Secretaria de Educao do Municpio de So Paulo

    Secretaria Municipal de Educao de Campinas

    Pesquisas

    A Escolarizao do Leitor: a didtica da destruio da leitura (Dissertao de Mestrado)

    Na discusso do Ensino os desafios da formao. (Tese de Doutoramento)

    Projeto Material Didtico: a crtica ao livro didtico e a construo de prticas alternativas

    (MEC/INEP/FE/BIBLIOTECA CENTRAL);

    Desenvolvimento de Prticas de Produo, Leitura e Anlise Lingustica

    (MEC/SESU/UNICAMP/IEL)

    Publicaes e Apresentaes em Eventos

    A Escolarizao do Leitor: a didtica da destruio da leitura (livro)

    O Ensino de Lngua Portuguesa no 1. Grau (em co-autoria)

    s vezes ela mandava ler dois ou trs livros por ano (captulo de livro)

    Pr que a gente l? (artigo)

    O significado da leitura na escola (artigo)

    O livro didtico de LP: didatizao e destruio da atividade lingustica (artigo)

  • 17

    A destruidora didtica dos livros (matria em jornal)

    Ensino de LP: integrao entre a leitura, gramtica e redao (matria em jornal)

    O prazer da leitura cm liberdade de escolha (matria em jornal)

    Para repensar o ensino de portugus (matria em jornal)

    Construo da Autonomia do Professor de Portugus: experincias e problemas (painel)

    Metodologia de Ensino, estgio e pesquisa na formao do professor (painel)

    Interao, linguagem e ensino de portugus (palestra)

    O tratamento ideal da leitura na escola de 1. e 2. graus (palestra)

    Abordagens metodolgicas no Ensino de Lngua Materna (palestra)

    O professor leitor (palestra)

    Os Caminhos Pensados da Alfabetizao (palestra)

    O ensino de LP numa perspectiva interacionista (palestra)

    Planejamento e Ensino de LP (palestra)

    Formao de professores (mesa redonda)

    A Prtica de Ensino e a Didtica na FE/Unicamp (painel)

    Possveis Alternativas para o Ensino de LP (painel)

    Ensino de Lngua Portuguesa: perspectivas metodolgicas (painel)

    A Sala de Aula uma Oficina de Dizer Coisas (entrevista a revista)

    Equilbrio e Coerncia

    Muito embora as atividades sejam distintas e discretas e se distribuam de modo relativamente equilibrado

    entre os eixos da pesquisa, docncia e extenso, relacionam-se e remetem-se umas s outras. Essa uma

    caracterstica de meu trabalho nesse momento. Tal aspecto aliou-se a outro, o do trabalho coletivo, e

    ambos no passaram despercebidos nesse parecer (CADI-1991).

    O relatrio apresentado pode ser considerado como exemplar. Contempla ele os planos da

    pesquisa, docncia, servios comunidade, de forma harmnica, acentuando os lados mais

    estratgicos de seu labor. Saliente-se que o prisma terico bem equilibrado com as aes

    desenvolvidas pelo docente (...). Um trao relevante o trabalho em equipe, em nvel

    interdisciplinar, caracterstica rara e recente em cincias humanas, tal como praticadas no

    Brasil.

    No perodo anterior, (1984 -1987) a chefia do DEME j havia se pronunciado em termos muito

    parecidos.

    A leitura do relatrio de atividades da professora demonstra que, no perodo, a grande

    preocupao com o ensino norteou seu trabalho, sem esquecer qualquer dos aspectos dos

    trs ngulos do trabalho docente universitrio: ensino, pesquisa, extenso.

  • 18

    E no perodo posterior (1993-1996) eu mesma destacaria, como preocupao, a ausncia de equilbrio

    entre os trs eixos:

    Comparando o conjunto de atividades (ensino pesquisa - extenso) desse trinio com os

    anteriores, observo uma reduo em minha dedicao extenso, que ao longo de toda a

    dcada de 80 transformara-se na base de toda a minha formao. Penso que a defesa de

    minha tese em setembro de 1994, na qual tematizei minhas experincias nos projetos de

    formao de professores de portugus, ps fim a um ciclo importantssimo em minha

    trajetria intelectual e profissional.

    Segundo os relatrios e pareceres que recobrem quase 30 anos de atividade profissional na FE-Unicamp,

    o equilbrio parece ser uma marca de meu trabalho. Ele ser referido em muitos relatrios e pareceres

    como trao positivo. Mesmo quando, numa esfera, as atividades sejam inexistentes por qualquer razo,

    se constri em texto e linguagem bons argumentos para isso. Talvez esse equilbrio (previsto em nosso

    contrato de RDIDP) corresponda mais a nosso desejo de uma avaliao positiva, do que a uma

    constatao. Bom pensar.

    Embora eu reconhea a fora desse equilbrio em minha formao, verifico agora que todas as atividades

    voltadas a docncia e extenso, acomodavam-se em meio a consideraes (e suas entrelinhas) que

    apontam para a pesquisa e a publicao como sendo as atividades revestidas de um valor maior. O

    Valor, eu diria. Aquele que diferencia, do ponto de vista de importncia e significado, essas atividades

    (Mais srias? Mais tericas? Mais caractersticas do trabalho universitrio?) das primeiras.

    Tais colocaes, alm de se insinuarem nos textos, se apresentaram para mim oralmente, aqui e ali, por

    todo esse tempo, em meio a ponderaes que procuraram associ-las ao plano das teorias, receosas de

    que as prticas de ensino, na universidade ou na extenso, estivessem desprovidas dessa dimenso. Um

    modo claro de pensar as prticas como aes irreflexivas, opostas teoria. Um simples colocar a mo na

    massa.

    A este receio, minha percepo atual de que todo esse conjunto de aes na docncia, pesquisa e

    extenso envolvia aes intencionais e coordenadas que desejavam mobilizar objetos culturais, valores,

    memria, e um sentimento de pertena a uma comunidade profissional determinada social e

    culturalmente.

    Outro trao que vai aparecer como atributo (positivo) do trabalho e de modo articulado ao equilbrio

    sua coerncia.

    A despeito de extrapolar o olhar das atividades em curso de licenciaturas, gostaria de

    registrar a fecunda coerncia do trabalho docente, que em todos os espaos institucionais,

    mantm ntima ligao com a escola publica, com os alunos em formao e com os

    prprios professores que j esto atuando nos chamados locais de estgio supervisionado.

  • 19

    Coerncia esta tambm presente nas suas participaes efetivas nas discusses institucionais

    no campo da reformulao curricular... Parecer FE/1999

    Atuar de modo equilibrado e coerente nos trs eixos de trabalho universitrio fez desse ciclo uma

    espcie de teia na qual, por algumas vezes, me senti aprisionada. Havia outros desejos, de conhecimento,

    de assuntos, igualmente estimulantes, atraentes e socialmente relevantes. Eles apareciam em conversas,

    leituras, aulas... Com a fora da docncia na graduao, sua obrigatoriedade a cada semestre, a fixidez dos

    currculos, certa identidade que se vai ganhando na vida profissional, esses desejos apenas se esboavam

    e, de fato, no conseguiam me movimentar.

    Educao e Linguagem

    Nesse perodo estive bastante enlaada a colegas do instituto em que havia me formado na graduao.

    Eram poucos os professores que ali se preocupavam com o ensino, a escola bsica, a formao dos

    professores. Embora as assessorias s equipes tcnicas dos rgos pblicos no campo da linguagem

    fossem de responsabilidade de muitos deles, suas disciplinas no currculo do curso de licenciatura no

    abordavam o assunto. Pouco ou quase nada se envolviam com a extenso universitria.

    Estivemos por todo o perodo explorando as relaes entre linguagem, educao, ensino escolar e

    formao de professores, entendendo a necessidade de uma escola popular e de uma educao

    lingustica das camadas populares pautada no repdio ao preconceito e padronizao. Uma escola

    orientada pela necessidade de ajudar os alunos a construrem uma desenvoltura no uso da linguagem na

    esfera pblica, lugar da desproteo e do confronto cultural e social. Uma instncia onde, diferentemente

    da instncia privada, os referenciais culturais no so sempre compartilhados; h o privilgio da escrita,

    inclusive quando esta serve para a organizao da fala; h objetivos mais mediatos; as interaes se do

    numa certa distncia quer seja de tempo, espao ou de posio social e hierarquia profissional.

    Entendendo a linguagem como acontecimento interlocutivo ou dialgico entre os sujeitos. Defendendo,

    no uma educao para a linguagem correta e culta, mas a impossibilidade de uma educao fora da

    linguagem e a centralidade dela no processo. (1)

    Pensar a educao dessa maneira foi colocando para mim a vontade de construir objetos de investigao

    que no se colocassem nas fronteiras da sala de aula, nem do ensino escolar e disciplinar de Lngua

    Portuguesa, nem na formao dos profissionais para esse ensino.

    IV

    O que termina, no termina

    A pesquisa de doutorado, concluda em 1994, relacionou-se com toda a atividade do perodo anterior,

    centrada na docncia da licenciatura em letras e na formao de professores para o ensino de portugus.

  • 20

    Muito embora eu viesse a afirmar que ela encerraria um ciclo importante em minha vida, o envolvimento

    com essas duas questes se manteria.

    O relatrio de atividades do perodo de 1996 a 1999 apresenta, ainda, muitas produes decorrentes

    dessas preocupaes como:

    Lingustica, ensino de lngua materna e formao de professores (artigo)

    Por mudanas no Ensino de LP e de Literatura no Brasil (Texto Completo em Anais)

    Al? Quem fala? (pster)

    Novas Propostas para o Ensino de LP no Ensino de 1. e 2. Graus (palestra)

    Aponta, tambm, para os primeiros trabalhos de orientao na ps-graduao e na iniciao cientfica,

    que estaro muito identificados com o tema do ensino:

    O que sabemos de Livro Didtico de LP para o 2. Grau? (IC)

    O Jornal Escolar como Metodologia de Ensino de Redao (IC)

    A Leitura que o aluno faz do Texto do Outro em Sala de Aula (Dissertao de Mestrado)

    Histria de Leitura em Narrativas de Professoras: uma alternativa em formao (Tese de

    Doutorado)

    Pontua as atividades realizadas em Cursos de Extenso ou Especializao internos o externos

    Unicamp, todos eles relacionados a aspectos da Escola.

    Curso de Especializao Cincia, Arte e Prtica Pedaggica

    Curso de Especializao Avaliao Escolar e Ensino nas Sries Iniciais do Ensino

    Fundamental

    Curso de Especializao Teoria e Metodologia da Educao

    E, ainda, informa sobre as inmeras atividades que, uma vez titulados, comeamos a executar na

    instituio, quer queiramos ou no, como emisso de pareceres, participao em bancas, comisses, etc.

    Mas, nesse relatrio, novamente, volto a afirmar o carter de centralidade que o ensino na graduao,

    especialmente e de forma concentrada na licenciatura e nos estgios, continua tendo em minha vida

    profissional:

    Penso, no entanto, poder afirmar que a docncia na licenciatura, (...) em disciplinas que

    buscam a aproximao com as prticas e os desafios cotidianos do ensino de lngua no nvel

  • 21

    fundamental e mdio, tem se constitudo na base de meu trabalho da universidade.

    Deve-se a essa centralidade o meu envolvimento na ocasio com a pesquisa que busca integrar

    universidade e escola; a Coordenao da Pedagogia; a Comisso de Graduao do Instituto de Estudos

    da Linguagem e as reformulaes do curso; o colegiado de representantes dos equipamentos de

    educao da universidade e a participao em fruns externos.

    Uma centralidade que continuaria existindo nos anos seguintes, dos quais destaco:

    A participao na organizao dos Encontros de Estudantes de Graduao dos Cursos de Formao

    de Professores da Unicamp, atualmente em sua nona edio;

    A passagem, como vice-presidente, pela Sub-Comisso Permanente de Formao de Professores;

    A participao no movimento iniciado em 2002, por um conjunto de professores responsveis pela

    disciplina de estgio (licenciaturas integradas), que veio a culminar numa modificao curricular do

    conjunto de disciplinas oferecidas pela FE aos cursos de formao de professores;

    A criao da disciplina de Escola e Cultura e o termino do estgio atrelado prtica de ensino em um

    campo disciplinar especfico.

    Na impossibilidade de discorrer e ponderar sobre o conjunto de experincias, destaco algumas para

    considerar nesse memorial.

    Estgio, escola e cultura

    O relatrio trienal de 1999 discorre sobre as caractersticas do trabalho feito na disciplina de Prtica de

    Ensino e Estgio Supervisionado, chamando a ateno dos leitores-avaliadores para a relao

    quantidade-qualidade. Alerta que a simples relao de disciplinas elencadas no tempo daquele trinio no

    podia ser interpretada como suficiente para caracterizar o trabalho efetivamente realizado no perodo, no

    que dizia respeito docncia. No campo aberto para complementaes lia-se:

    Olho e considero minha atuao na graduao, toda ela concentrada em disciplinas obrigatrias do curso de letras; a maior parte delas do ltimo ano e relacionadas ao estgio supervisionado. Vejo um mesmo e nico conjunto de disciplinas, no interior de um mesmo e nico curso, sempre para alunos do ltimo ano. Por fora da burocracia sempre num mesmo dia e hora da semana e quando h sorte, sempre no mesmo local.

    Mas ento isso o meu trabalho na graduao? Algo que se repete ano a ano e sempre igual?

    No. A listagem das disciplinas no d conta de narrar devidamente o trabalho que tem se constitudo na base de meus outros trabalhos na universidade. Por isso a necessidade de complementar as informaes do quadro.

    Nada do que um nestas disciplinas (estou me referindo s prticas de ensino) permanece um, aps o primeiro dia de aula. As 60 horas semestrais dividem-se em dois blocos de 30 horas, cada um deles relacionado a um tipo de trabalho necessrio disciplina: aquele semanalmente vivido no campo de estgio e aquele vivido semanalmente na universidade.

    Os alunos se organizam em duplas para atuao no estgio e em funo desta atuao e de

  • 22

    critrios como estar no 1 ou 2 graus, escola pblica ou privada, trabalho com literatura ou com produo de textos, etc., organizam-se em pequenos grupos para os momentos de superviso. Voltam a ser, periodicamente, o grande grupo para discusso de temas/problemas comuns a todos e partilhar as experincias em campo. Tudo mltiplo: o local, o dia da semana e os horrios. So diferentes escolas, sries, perodos do dia.

    O professor do estgio tambm deixa de ser um, para ser com todos os outros - os que acolhem os estagirios nas escolas - os interlocutores das prticas dos iniciantes.

    O contedo da disciplina - que obrigatoriamente remete s prticas de ensino vividas no interior do ensino da lngua portuguesa tanto no primeiro quanto no segundo grau - tem como base de sustentao as experincias de cada conjunto de alunos. Estas se definem semestralmente num amplo horizonte de possibilidades e em acordos entre estagirios, professores e escolares.

    Essas caractersticas da disciplina e sua dinmica tornam impossvel sua repetio ano a ano, mesmo que seja possvel admitir certa carga de previsibilidade na atuao dos estagirios.

    A proposta carrega com ela tantas diferenas em relao s vivncias curriculares j conhecidas dos estudantes em trs anos de curso, que frequentemente a desentendem: resistem ao estgio, perdem-se nos novos espaos, atrapalham-se nos diferentes tempos das instituies, hesitam diante dos novos desafios.

    O trabalho parece no caber nas sessenta horas e, de fato, para aqueles que se envolvem

    totalmente no cabe: so conversas com o outro de sua dupla; conversas com os

    professores das escolas; conversa com outras duplas na superviso; elaborao de proposta

    de atuao; pesquisa e leitura de material de apoio; registro das experincias em dirio de

    campo; confeco de relatrios...

    Com essas ponderaes buscava qualificar e valorizar o trabalho realizado no mbito da disciplina,

    detalhando uma maneira de pensar e sua forma de organizao. Ela no combinava com o ponto de

    vista habitual e em circulao no meio universitrio de que esta era uma espcie de no disciplina. S

    representava uma superviso (e no currculo se valoriza mesmo a disciplina) e se ocupava da prtica (e

    no currculo universitrio se valoriza mesmo a teoria). Podia ser liderada mesmo por algum que no

    fosse um professor universitrio. No precisava ter vnculo algum com a pesquisa, atividade que define

    por excelncia o trabalho em uma universidade pblica. No a realizava dessa forma. No a concebia

    assim.

    No tendo como ponto de partida uma bibliografia definida, nica, e especializada; no considerando,

    como tambm habitual entre ns da universidade, que estaremos, com os estgios, levando escola

    bsica um modo atualizado, especializado, cientificamente correto e fadado ao sucesso de realizar o

    ensino, a disciplina frequentemente desentendida e desqualificada. Afinal, quem produz

    conhecimento para o ensino?

    A esse pensamento, apoiado no conhecimento disciplinar; na transferncia e adaptao dos

    conhecimentos cientficos para o mundo da didtica; nas atuaes guiadas pelas unidades de trabalho por

    ns desenvolvidos para serem aplicadas pelos professores; nos contedos e mtodos; o trabalho

    realizado nos estgios respondia com muitas e acaloradas discusses.

  • 23

    Ao longo de 20 anos estive me ocupando da prtica de ensino e do estgio supervisionado em letras,

    ocorrendo prioritariamente no ambiente escolar. Em 2002 criamos as licenciaturas integradas.

    Reunimos alguns professores de diferentes licenciaturas especficas (letras, histria, cincias sociais e

    biologia) em torno de um trabalho partilhado entre ns e nossos alunos. Esse trabalho seria organizado

    em mdulos temticos em alternncia com as aes integradas e de cunho prtico e educativo e turmas

    que misturavam alunos procedentes de unidades diferentes e com formao diferenciada. Como campos

    de estgio, no apenas as instituies escolares, mas todas aquelas que tivessem uma dimenso educativa:

    ONGs, entidades, museus, etc.

    Essa experincia de trabalho enraizou-se no trabalho coletivo, integrado, com caractersticas estranhas s

    rotinas e padres da vida universitria. Representou para aqueles que dele participaram novas e

    desafiadoras interlocues e aprendizagens. Novas formas de organizao do trabalho. Espao

    importante para a vivncia de diferenas: de formao; opinio; cultura, linguagem, etc.

    Apostou na possibilidade de envolvimento de colegas da FE, que no sendo do departamento,

    tradicionalmente responsvel por esse trabalho, pudessem agregar ao trabalho, suas conquistas no plano

    da pesquisa.

    Apoiou-se no pensamento de que as prticas de ensino na escola situam-se para alm da sala de aula, dos

    conhecimentos disciplinares, da metodologia.

    Enfrentou a dificuldade das experincias bastante particulares dos alunos quanto s nfases e formas de

    organizao do conhecimento na universidade, sem momentos para flexibilidade, integrao e

    identificao com a questo da formao do profissional em educao.

    Representou um novo arranjo curricular - que exigiu dos alunos muitos deslocamentos: de turmas, de

    ambientes, de professor, de assunto - e a introduo de uma forma de pensar e de realizar o ensino que

    provocaram estranhamento, surpresa e crtica.

    Com a reorganizao curricular de todas as licenciaturas da Unicamp, em 2005, a FE, aps inmeras e

    conturbadas discusses, passou a oferecer um conjunto de disciplinas em que as experincias de estgio

    no se situavam apenas ao final dos percursos curriculares; representavam uma possibilidade real de

    integrao dos estudantes de diferentes cursos; constituam uma experincia acadmica, distinta daquela

    organizada segundo os campos especializados de conhecimento.

    No s a Prtica de Ensino de (portugus, matemtica, biologia, etc.) saa de cena do currculo, mas

    tambm a Didtica Aplicada para o Ensino de (portugus, matemtica, biologia, etc.), disciplina que a

    antecedia e era seu pr-requisito.

    Para mim, a experincia reorientou o trabalho at ento realizado. Representou espao para acolhida no

    ensino de graduao e nos estgios- dos desejos de trabalho e de discusso que se colocavam para alm

    da disciplina de LP. Muitos deles, em desenvolvimento na pesquisa.

  • 24

    Pesquisa em Parceria Universidade Escola Bsica

    1998-2000

    Seguiu-se ao trabalho de doutorado, a pesquisa intitulada Pesquisa em Parceria: Unicamp e Escola

    Estadual de Primeiro e Segundo Graus Baro Geraldo de Rezende, financiada pela FAPESP e

    iniciada em 1998.

    Esse trabalho teve um carter de pesquisa coletiva, ligada a vrios professores do departamento de

    metodologia de ensino e o ensino de lngua portuguesa, fsica, qumica, artes, histria, cincias; pesquisa-

    ao, envolvendo docentes da escola como pesquisadores; muitos estudantes da prtica de ensino como

    estagirios; alunos de ps-graduao e graduao como bolsistas.

    Era um desafio que se relacionava com o tema da formao de docentes, o ensino de LP, a leitura e as

    disciplinas de graduao, especialmente os estgios.

    Em seu interior coordenei o subprojeto chamado Entre Leitores: na sala de aula, cuja tnica foi a

    pesquisa e composio de uma sala ambiente para a disciplina de Lngua Portuguesa que privilegiasse as

    prticas de escrita e de leitura em diferentes linguagens e a reflexo sobre o ensinar com os livros.

    Nesse subprojeto, embora articulado a disciplina de LP, do currculo escolar, comeamos a desenvolver

    a preocupao com as imagens, com seus instrumentos de produo, com as tecnologias, seu dilogo

    com a leitura e a literatura; sua relevncia para o ensino e a discusso em sala de aula.

    Entre os anos de 1998 e anos iniciais da dcada seguinte, a pesquisa motivou a apresentao de alguns de

    seus resultados e os percursos realizados em vrios eventos, problematizando muitos de seus aspectos.

    Sempre em parceria com alunos, colegas, professores, estagirios, etc.

    Como exemplos:

    Professores da Universidade e Escola Bsica: parceiros no ensino e na pesquisa (artigo)

    Buscando Formas de Ler e de Escrever: um trabalho em parceria universidade - escola pblica (artigo)

    Pesquisa-Ao: jornal na escola Baro Geraldo de Rezende(pster)

    Notas para uma Educao do Leitor (artigo)

    Uma Estante de Livros na Aula de Portugus (artigo)

    Na sala de Aula: entre leitores (comunicao)

    Na Sala de Aula, entre leitores ou leitura de escolha pessoal e biblioteca de classe (comunicao)

    Formar Leitores: desafios da sala de aula e da biblioteca (captulo de livro)

  • 25

    Gerou tambm uma Dissertao de Mestrado, defendida em 2003:

    Os Livros na Escola Estadual Baro Geraldo de Rezende entre a biblioteca e a sala

    ambiente.

    O trabalho com as disciplinas de estgio, bem como as experincias vividas nas escolas viriam a motivar

    muitos e sucessivas reflexes sobre a formao de professores e os estgios nesse processo.

    Relaciono abaixo algumas dessas produes:

    Dirios de Campo na Prtica de Ensino: um gnero em construo (artigo)

    Leitura da Prtica Pedaggica na e pela Literatura (pster)

    Comeando a Viver os Planos para o Futuro (Texto de Apresentao para Coletnea de

    Estagirios)

    Leitura e Escrita da Escola: relatos da Prtica de Ensino (artigo)

    Literatura no Ensino de Portugus: questes de ensino, pesquisa, formao (Comunicao

    coordenada)

    Oficina de Sons, Imagens, Sentidos (Texto de Apresentao para Coletnea de Estagirios)

    Entre estgios, dirios de campo, leituras (prefcio)

    Vou Te Contar (estgio e formao de professores) (captulo de livro)

    Os estudantes de Ps-Graduao e de Graduao desenvolveriam, nesse perodo e em todos os outros

    subsequentes, pesquisas versando sobre a prtica pedaggica do professor de portugus ou aspectos da

    leitura escolar. Demonstrando, at para mim mesma, o quanto profissionalmente estou identificada aos

    desafios da escola e do ensino com a linguagem. Mas tambm evidenciando os primeiros passos em

    direo a questes que extrapolam uma abordagem mais convencional do ensino de LP.

    Exemplos disso esto no quadro abaixo:

    O Corpo e a Palavra: escrita, oralidade e performance no ensino de LP (Dissertao de

    Mestrado)

    O ler por prazer: a construo de um entendimento da leitura nos anos 80. (Dissertao de

    Mestrado)

    Produo de Textos: uma experincia com alunos de 5. srie do ensino fundamental

    (Dissertao de Mestrado)

    Cultura Miditica na Licenciatura em Letras (Tese de Doutorado)

    Contribuies da Lingustica para a Anlise das Prticas de Leitura e Escrita de Professores

  • 26

    Bem Sucedidos (Superviso de Ps Doutorado)

    Representaes do Professorado Paulista: um estudo sobre a imagem da professora da

    escola pblica do Estado de So Paulo a partir de fotografias do curso de formao

    continuada Teia do Saber (Tese de Doutorado)

    Leitura e Envolvimento: a escola, a biblioteca e o professor na construo das relaes

    entre leitores e livros (Dissertao de Mestrado)

    Iderios que movimentam a produo de livros para crianas (Dissertao de Mestrado)

    A Biblioteca Escolar na Perspectiva das Polticas Pblicas de Fomento ao Livro e Leitura

    (Tese de Doutorado)

    Ler e Escrever: prioridade na escola municipal e as prticas culturais de ensino de leitura e

    escrita na rede municipal de So Paulo (Tese de Doutorado)

    Programa de Leitura Silenciosa Contnua: estudo de uma proposta de educao do leitor e

    de sua implementao numa escola ( Trabalho de Concluso de Curso)

    A Literatura na Escola: maneiras de ler na Ed. Infantil (Trabalho de Concluso de Curso)

    V

    Para alm do ensino, da formao de professores e da disciplina de lngua

    portuguesa

    J no perodo, imediatamente posterior defesa de doutorado, em 1994, comeam a aparecer as

    primeiras preocupaes com a leitura, como uma prtica que diz respeito cultura de modo geral e no

    apenas a instituio escolar.

    So sinais dessa perspectiva nascente trs pesquisas, de estudantes de Ps- Graduao e de Graduao,

    versando sobre aspectos da leitura que no dizem respeito nem s questes de formao, nem a questes

    de ordem metodolgica, ou escolar, mas colocam em destaque a perspectiva histrica e cultural que

    ganhar cada vez mais fora em meu trabalho, vindo a constituir-se num ncleo de interesse

    permanente, embora no exclusivo. Esses trabalhos focalizam tambm as representaes e outros

    espaos destinados leitura.

  • 27

    Leitores de Gabinete: o Gabinete de Leitura Ruy Barbosa, de Jundia (Orientao de

    Trabalho de Concluso de Curso de Pedagogia)

    Entre Prticas e Representaes: um estudo sobre aspectos da leitura na universidade

    (Orientao de Mestrado)

    Cartas e Escrita: a histria revisitada (Orientao de Doutorado)

    A Leitura Inscrita nas em Teses de Doutorado e nas Dissertaes de Mestrado no Brasil

    (1980-1995) (Orientao de Doutorado)

    A essas pesquisas, de certo modo pioneiras, juntarem-se algumas outras que as sucederam no tempo.

    Estas, pelos desafios que apresentavam e desejos que assinalavam, auxiliaram na busca de perspectivas

    tericas e metodolgicas cada vez mais articuladas a pensamentos de historiadores, socilogos e

    antroplogos.

    Levaram a um distanciamento das questes pedaggicas e didticas, mesmo que estas desde o incio

    estivessem articuladas a questes de ordem poltica e filosfica e pudessem ser colocadas tambm nessa

    forma de pensamento.

    Vo constituir o grupo de pesquisa Alfabetizao, Leitura e Escrita (ALLE), representando dentro

    dele uma frente de trabalho a amadurecer.

    O Grupo de Pesquisa Alfabetizao, Leitura e Escrita (ALLE)

    O Grupo de Pesquisa Alfabetizao, Leitura e Escrita (ALLE) surgiu na FE-Unicamp em 1998, e seu

    surgimento est relacionado a duas ordens de motivaes: as de ordem pessoal e as de ordem

    institucional.

    Foi formado inicialmente por quatro docentes da FE (atualmente somos cinco docentes) que de um lado

    vinham realizando individualmente seus trabalhos, mas que frequentemente se ajudavam nos desafios.

    Fiz parte desse conjunto desde o incio.

    De certa forma, as diferenas existentes entre ns e o fato de estarmos vinculados institucionalmente a

    departamentos distintos no nos impediam de nos ajudar mutuamente, tanto na docncia quanto na

    pesquisa. No nos impediram de ficarmos atrados pela idia de trabalharmos juntos e talvez

    comearmos a construir uma identidade profissional para alm daquela que individualmente j tnhamos.

    Por outro lado, a FE, desde meados da dcada de 80, vinha se organizando timidamente em grupos e

    laboratrios de pesquisa. No incio de 95, o aparecimento de uma nova instncia na unidade,

    denominada Frum dos Grupos de Pesquisa e Laboratrios alavancou aquilo que se esboava desde

    ento. O Frum cresceu em funcionamento, principalmente como lugar de discusso de uma nova base

    de organizao, que articulasse os trinta e trs grupos ento existentes e reorganizasse a Ps-Graduao.

  • 28

    Foi neste ambiente institucional de mudana, construda com muito esforo conjunto de entendimento,

    muito conflito, muita turbulncia, mas geradora de uma pulsao diferente para a unidade e que se

    traduziu quotidianamente em vrios eventos de natureza diversa, como conferncias, seminrios,

    reunies de trabalho, cursos, etc., que o ALLE apareceu.

    O grupo est ligado rea temtica (e hoje, tambm departamento), denominada Educao,

    conhecimento, linguagem e arte. Ela rene ao todo sete grupos de pesquisa e descrita como uma

    rea que se volta a Estudos sobre as diferentes formas de linguagem, arte e cultura; imagens e sons na

    sociedade contempornea; corpo, movimento e significao; discurso, memria, histria; leitura, escrita e

    literatura como modos de produo de conhecimento.

    Para ns, pertencentes ao ALLE, a sequncia que denomina a rea - educao, conhecimento, linguagem

    e arte - enumera diferentes fenmenos da cultura, tomados como objetos de investigao pelos

    diferentes grupos em suas mltiplas realizaes e em seus diferentes aspectos. Mas, todos os trabalhos

    desenvolvidos no interior desta rea estariam considerando ou tomando a cultura como instncia de

    produo da educao, da arte, da linguagem, da memria e do conhecimento.

    O ALLE apresentou desde seu incio como seu maior desafio: refletir sobre a cultura escrita e a leitura,

    suas formas de existncia nas sociedades, em diferentes tempos e lugares, sua produo e transmisso,

    dentro e fora das instituies e suas relaes com outras linguagens e tecnologias.

    Nesses doze anos de existncia do grupo, muitos deles sob minha coordenao, creio ser possvel

    afirmar:

    Que o grupo fortaleceu ainda mais uma relao, que j era forte por parte dos docentes,

    individualmente, com a comunidade de professores da regio, atravs dos seminrios que realiza

    anualmente, desenvolvendo, com base em suas pesquisas, um bom trabalho de discusso;

    Potencializou os trabalhos nos campos da cultura e histria da leitura, dimenso presente desde seu

    incio;

    Contribuiu para as discusses do letramento e alfabetizao;

    Instalou, investigou e colocou em circulao o tema da afetividade na constituio de leitores e no

    ensino, de modo geral;

    Estabeleceu uma boa divulgao dos trabalhos atravs do site que desenvolveu e vem mantendo

    atualizado (http://www.fe.unicamp.br/alle/); coletivizou os trabalhos de orientao na ps-graduao

    bem como de seleo de candidatos ao programa de ps em educao;

    Desenvolveu uma coleo de livros com o selo do ALLE, reunindo produes de muitos de seus

    integrantes, alunos e colegas, cuja temtica contemplava as preocupaes do grupo;

    Exigiu a organizao dos projetos de pesquisa em ncleos ou eixos que pudessem acolher e orientar

    candidatos ao programa de ps.

    Polticas e Prticas, espaos de leitura e comunidades de leitores

    (1998-2007/2008...)

    Esses dois projetos definiram-se e se sucederam no contexto do grupo. Eles procuram aglutinar

    trabalhos em desenvolvimento, de modo que seja possvel no s uma produo de conhecimento

  • 29

    assinalada pelo coletivo, como tambm a oferta de pistas das questes e desafios que tem movimentado

    os diferentes integrantes do grupo. Ambos alinham-se numa mesma direo, representando uma das

    frentes que vem sendo investigada e que est relacionada a objetos, espaos e prticas de leitura,

    tomando-os como objetos culturais, histricos e sociais.

    A descrio do projeto atualmente em desenvolvimento afirma que com ele:

    Busca-se conhecer e discutir aspectos culturais e histricos que configuram os discursos, as

    prticas e as polticas relacionadas educao dos leitores, em diferentes instituies,

    formao de comunidades leitoras e prticas de leitura.

    Essa frente de trabalho se inspira nos pensamentos de autores como Chartier, Darnton, Bakhtin,

    Certeau, Elias, Bourdieu, etc. que, tendo seus textos traduzidos, publicados e multiplicados entre ns

    desde os anos 80, vieram alavancar no Brasil um conjunto, hoje significativo, de investigaes sobre livro

    e leitura.

    No dizer de Pcora (1996) em prefcio a obra organizada por Chartier (2) e traduzida neste ano para o

    pblico brasileiro, a apropriao de Chartier no Brasil representaria riscos e ganhos. Deixo os riscos de

    fora dessa reflexo, porque penso serem eles impertinentes para no dizer preconceituosos. Mas julgo,

    aps 14 anos dessa traduo, que sua circulao entre ns levou a mais ganhos do que riscos. Entre os

    ganhos imaginados por ele, o trabalho dependeria:

    ... do exame de material primrio, da visita a arquivos e do levantamento de dispositivos

    finos de leitura desses mundos aparentemente arruinados ou mortos. Aponta, tambm,

    como um possvel e desejvel desdobramento a constituio de corpus cada vez mais

    complexos. (Pcora,1996:16)

    Considero que a produo que se desencadeou entre ns com a perspectiva cultural e histrica, trazida

    por esse autor e todos aqueles referidos por ele em suas obras, alm de outros, se agigantou, se

    materializando em trabalhos importantes para uma historia da leitura.

    Nesse sentido, destacaria algumas idias que tem presidido nosso trabalho (meu e da Professora Norma,

    especialmente) no ALLE, recorrendo a um pequeno texto elaborado por ns para circular entre os

    leitores de um jornal escolar:

  • 30

    A leitura como produo de sentidos entendida no s como encontro entre leitor e

    texto. Ambos no abstrato. Fora do espao e do tempo. Fora da cultura e da histria. Ela

    uma prtica situada. Culturalmente e historicamente aprendida e ensinada, dentro ou fora

    da escola. Nem todo o poder para os textos, nem aos leitores. Sentido, compreenso,

    entendimento, na leitura, so questes que envolvem a relao texto e leitor, na cultura e na

    historia.

    No h compreenso autnoma, como no h um sentido nico e possvel do texto. No

    h leitores nicos fora da comunidade na qual aprendem a ler, a dominar cdigos, gostos,

    competncias, modalidades de leitura. Cada meio (grupo, comunidade e entre eles, a escola)

    produz suas modalidades (partilhadas) e aceitas, legitimadas de ler.

    Leituras equivocadas e inadequadas existem quando fora do contrato cultural-histrico

    estabelecido entre parceiros - leitores em uma situao de leitura particularmente datada,

    estabelecida e situada.

    A leitura construda na distncia entre os sentidos atribudos pelo autor/ilustrador/editor,

    materialmente depositados no objeto dado a ler e seu uso ou apropriao por um leitor de

    carne e osso.

    Os trabalhos abaixo so os que melhor expressam essa perspectiva:

    Programa Bibliotecas Escolares: memrias/histrias de uma experincia de leitura nas

    escolas municipais de Campinas (1993-2001) (Dissertao de Mestrado)

    Programa Bibliotecas Escolares da Rede Municipal de Campinas/SP (1993-2001): um

    estudo das avaliaes feitas pelas unidades escolares em 1997. (IC)

    Mulheres, leitoras de romance, clientes de uma locadora de livros (Dissertao de

    Mestrado)

    A Revista Illustrada (1876-18878): prticas de leitura e leitores (Tese de Doutorado)

    Ensino de Leitura e Escrita na Escola Modelo Baro de Melgao Cuiab/MT: prticas,

    propostas, iderios pedaggicos e circulao de cartilhas e livros de leitura nas primeiras

    dcadas do sculo XX (Ps- Doutorado)

    Para uma Memria da Leitura: a fotonovela e seus leitores (Tese de Doutorado)

    Circuito do Livro Escolar: elementos para a compreenso de seu funcionamento no

    contexto educacional amazonense (1852-1910) (Tese de Doutorado)

    Relao entre Literatura para Crianas e Escola nos 30 Anos de Congresso de Leitura do

    Brasil (Trabalho de Concluso de Curso)

    Biblioteca e Leitura: o que nos apontam as dissertaes e teses defendidas entre 2000-2009?

    (Dissertao de Mestrado)

    Leituras e Leitores do Jornal Super Notcia (Tese de Doutorado)

  • 31

    Caminhos de Formao da Biblioteca Csar Bierremback do Centro de Cincias, Letras e

    Artes: utopia e conhecimento na Campinas do incio do sculo XX (Dissertao de

    Mestrado)

    Incluem-se nesse bloco participaes em eventos e algumas produes escritas (muitas delas em

    coautoria) como:

    Entre Cartas de ABC e Cartilhas: com quais materiais se ensinavam as crianas de

    antigamente a ler? (artigo)

    Para Alem das Fronteiras: notas sobre a circulao de livros didticos portugueses nas

    escolas primrias da Amaznia Brasileira (1870-1875) (artigo)

    Encenando a Leitura: a leitura, o leitor e a biblioteca construdos numa campanha

    publicitria veiculada no jornal (artigo)

    Ler e Escrever na Escola de Ontem: uma realidade a conhecer (resenha)

    Uma produo da histria acadmica da leitura no Brasil (1965-2010): entre dissertaes e

    teses (artigo)

    A Circulao de uma Cartilha Portuguesa nas Escolas Primrias do Amazonas (1850-1875)

    (anais)

    Mergulhar no passado e produzir memrias (orelha de livro)

    Um Estudo Investigativo das Prticas Escolares de Mobilizao Cultural na Rede

    Escolar Municipal de Campinas (SP) (2007-)

    A perspectiva acima apresentada se traduz mais facilmente em muitos trabalhos voltados a realidades

    mais antigas e remotas. Inclusive as escolares. Foi amplamente abraada pela Histria, Histria da

    Literatura e Histria da Educao e essas reas geraram muitos e significativos trabalhos, que tem nos

    servido sobremaneira.

    Entretanto, suas contribuies podem nos ajudar a pensar nas realidades escolares de hoje e propor

    caminhos de trabalho. Pensar, por exemplo, na escola como instncia que tem uma cultura prpria. Que

    constitui uma comunidade especfica, singular. Em que se difundem e se compartilham iderios e

    protocolos particulares, que precisam ser considerados no interior desta cultura.

    O contexto escolar feito de muitas prticas. Entre elas, as prticas de leitura. Mas, como considerar, na

    escola, as prticas de leitura como experincias que resistem exatido? Uma prtica que se apresenta

    como territrio de multiplicidades? Ambiguidades? Feito de relaes e trnsitos?

    Como desenhar possibilidades nesse contexto, que estejam assentadas em vises que defendem os

    acontecimentos e as interlocues? A descontinuidade? A porosidade das fronteiras entre campos

  • 32

    disciplinares? A produtividade das experincias de conhecimento? Os limites das reas de cincia

    constitudas tradicionalmente? O indisciplinar? A necessidade de se priorizar as prticas em detrimento

    das prescries? Os sujeitos?

    Neste projeto coletivo de pesquisa, envolvendo docentes do departamento de Educao, Conhecimento,

    Linguagem e Arte (Delart) e do departamento de Ensino e Prticas Culturais (Deprac), nos colocamos

    como propsito investigar prticas escolares de mobilizao cultural que vm sendo realizadas nos anos

    iniciais de escolas da Rede Municipal de Campinas. Atravs das avaliaes que fazem desses quotidianos

    de trabalho algo bastante complexo.

    Uma linha indisciplinar de pesquisa que toma como objeto de investigao as prticas culturais (e seus

    jogos discursivos correspondentes) realizadas no mbito da atividade educativa escolar

    comparativamente s prticas culturais (e jogos discursivos correspondentes) realizadas em outras

    atividades humanas.

    Sua base documental constituda por: 1. Materiais que circulam ou so produzidos no mbito dessas

    escolas, tais como cadernos de alunos, livros didticos, planejamentos, provas escritas e projetos; 2.

    Filmes das sesses de interao ocorridas por ocasio de curso de formao, envolvendo professores das

    sries iniciais da rede municipal, visando produo da Prova Campinas - 2010; 3. Provas individuais

    realizadas por alunos de cerca 118 turmas de 4os anos do Ensino Fundamental da Rede Municipal de

    Campinas nos anos de 2008 e 2010.

    uma pesquisa em andamento, iniciada em 2007 e que, a partir do segundo semestre de 2010, entrou

    em uma segunda fase que culminou na elaborao e aplicao da Prova Campinas 2010.

    A prova foi organizada para todos os contedos envolvidos nas disciplinas comumente desenvolvidas

    nas primeiras sries, sem demarcao por disciplina. Estruturou-se em textos acompanhados de questes

    e campos abertos para respostas discursivas. Desenvolveu uma grade de correo para uso de equipe de

    professores-corretores, com uma gama de possibilidades de resposta mais ampla do que o usual.

    Aps tratamento estatstico, lanar mo dos professores da escola bsica como equipe que trabalhar

    em conjunto com o grupo de professores universitrios na anlise e produo escrita dos resultados.

    Ancora-se em estudos que relevam o carter social e cultural das prticas.

    Como resultados deste trabalho:

    Frum Permanente Desafios do Magistrio - Avaliao Institucional e a Avaliao do

    Ensino. Avaliao de desempenho em Lngua Portuguesa da Rede Municipal de Campinas:

    um enfoque qualitativo (palestra em mesa redonda)

    Avaliar Prticas Culturais de Leitura (artigo)

    Avaliao de Desempenho em Lngua Portuguesa e Matemtica - 2 ano do ciclo II da

    Rede municipal de Campinas - SP. 2008. (Relatrio de pesquisa).

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    30 Anos de Associao de Leitura do Brasil e de Congresso de Leitura do Brasil:

    memrias (2009-)

    Difcil dissociar meu trabalho na FE-Unicamp de minha atuao junto da Associao de Leitura do

    Brasil (ALB) nesses anos todos de minha vida profissional, porque as duas histrias se confundem

    desde o incio. Estive presente na entidade desde sua fundao em 1981, j vinha participando dos dois

    primeiros Congressos de Leitura (1978 e 1979) anteriores fundao e por muitas vezes atuei em seu

    quotidiano, ocupando diferentes funes nas diretorias. O mesmo posso dizer em relao em relao a

    sua principal publicao, a revista Leitura: Teoria e Prtica, atualmente em seu 57 nmero. A ALB

    mantm uma periodicidade semestral deste peridico ao longo deste tempo.

    No ano de 2009, delineei um projeto de pesquisa, visando constituio e organizao do acervo

    histrico da entidade, de modo a fazer dele um ncleo para pesquisa, investindo na preservao deste

    patrimnio e em sua movimentao no tempo.

    Trata-se de um esforo que se define em meio aos processos de revitalizao da memria, s crticas s

    polticas de preservao de arquivos e centros de documentao, sobretudo em meio ao conjunto de

    iniciativas dirigidas ao patrimnio material escolar e educativo.

    Trabalho em que se procura localizar, identificar, reunir, classificar e digitalizar fontes impressas,

    sonoras, iconogrficas e flmicas dos Congressos de Leitura do Brasil, existentes na sede da

    Associao de leitura do Brasil (ALB) ou localizadas e resgatadas das bibliotecas pessoais de associados

    muito antigos e que se mantm ligados entidade.

    Trata-se de um esforo coletivo, que conta com a participao de docente da Puccamp, e orientanda de

    doutorado, bolsista, etc., alm do apoio da prpria entidade e que deseja - atravs da constituio deste

    acervo - tornar possvel a construo de memrias, que podem percorrer distintos itinerrios atravs dos

    vrios temas j debatidos nos COLEs, sob a forma de conferncia, palestra, comunicao de trabalhos,

    oficinas, etc.

    O acervo constitudo de variados materiais que expressam ou indiciam vises, relevncias, pontos de

    vista, olhares, etc. Vo de: fotos, fitas em udio, fit