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Memórias fotográficas de cidade fronteiriç · PDF fileque imagens são mediações entre o homem e o mundo; são códigos que traduzem eventos em situações, processos em cenas

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Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXVIII Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao Rio de Janeiro, RJ 4 a 7/9/2015

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Memrias fotogrficas de cidade fronteiria1

Antnio WEBER2

Vitor LEGES3

Cristvo ALMEIDA4

Wesley GRIJ5

Universidade Federal do Pampa, So Borja, RS

Resumo: O artigo tem como objetivo entender as relaes entre produo de fotografias

analgicas e digitais e a memria histrica da cidade de So Borja-RS, localizada na

fronteira entre Brasil e Argentina. Assim, o marco terico alicerado nas noes de

imagem tcnica, fotografia e memria. A partir do mtodo qualitativo, com auxlio de

pesquisa bibliogrfica e documental, os dados foram coletados entre julho e outubro de

2014 em acervos pblicos e pessoais da referida cidade fronteiria. Por fim, aborda-se a

relao entre registros fotogrficos e a memria histrica so-borjense.

Palavras-chave: Imagem tcnica; Fotografia; Memria; Histria.

Introduo

A presena da fotografia no cotidiano, enquanto materializao da representao do

mundo, nos remete ao que vem sendo chamado de civilizao das imagens (JOLY, 1996;

KOSSOY, 2001). Nesse percurso histrico at chegar ao atual estgio das imagens

fotogrficas digitais, a fotografia passou por vrios estgios histricos desde o incio do

sculo XIX, at chegar tecnologia digital e sua maior reprodutibilidade.

Se durante muito tempo a fotografia enfrentou o dilema em ser ou no considerada

arte, devido crtica reprodutibilidade tcnica apregoada por Benjamin (1994), hoje

uma das mais expressivas formas de manifestaes artsticas e culturais existentes.

Assim, independente da discusso sobre imagem fotogrfica e o estatuto da arte,

consideramos aqui o lado social da fotografia. Ao considerar esse lado da imagem

fotogrfica, Briggs e Burke (2004) consideram que, historicamente, a fotografia est

presente no cotidiano das pessoas por se tratar de um mecanismo que permite congelar e

eternizar os momentos, ativando as memrias posteriormente.

1 Trabalho apresentado no GP Fotografia do XV Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicao, evento componente

do XXXVIII Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao. 2 Graduado em Relaes Pblicas com nfase em Produo Cultural pela Universidade Federal do Pampa, email:

[email protected] 3 Estudante de Graduao do 8. semestre do Curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Pampa,

email: [email protected] 4 Doutor, Professor da Universidade Federal do Pampa, Campus So Borja, email: [email protected] 5 Doutor, Professor da Universidade Federal do Pampa, Campus So Borja, email: [email protected]

mailto:[email protected]:[email protected]:[email protected]:[email protected]

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A introduo da fotografia no cotidiano e na ativao da memria das pessoas pode

ser considerada desde quando, em 1839, o inventor Louis Jacques Daguerre apresenta em

Paris a inveno que mudaria o modo de se registrar acontecimentos, momentos histricos e

cenas cotidianas: o daguerretipo, mtodo para se gravar imagens sobre uma superfcie.

Posteriormente, segundo Briggs e Burke (2004), o lado social da fotografia ganhou

maior impulso quando em 1988 foi criada a primeira cmera fotogrfica comercial, a

Kodak N 1. A mquina fotogrfica e os servios de revelaes oferecidos pela empresa

tornaram o ato fotogrfico possvel a qualquer amador a partir do slogan: You press the

button, we do the rest. Com a proposta de tornar a fotografia acessvel, fcil, sem

necessidade de muita tcnica para realiz-la.

Com isso, o ato de fotografar tornou-se uma ao ldica e cotidiana na sociedade,

prolongando-se at os tempos atuais, cuja ao foi potencializada mais de um sculo aps o

advento da cmera da Kodak com o advento da fotografia digital, da miniaturizao e

barateamento do equipamento fotogrfico. Assim, no atual momento da fotografia digital,

conforme Ang e Szlak (2007), h profuso de mquinas digitais que facilitam o ato

fotogrfico, pois no existe mais a necessidade de se programar as lentes para a obteno de

imagens de melhor qualidade. Alm de que as novas tecnologias integradas ao computador

possibilitam a impresso de fotografias sem a necessidade da revelao qumica.

Desse modo, independente da fotografia ser analgica ou digital, ela nos faz deparar

com as diferentes formas de registro da memria e, consequentemente, da histria da

sociedade, conforme apontam estudos de Kossoy (2005) e Felizardo e Samain (2007).

Assim, no universo familiar, espao no qual se estrutura uma famlia, sempre encontramos

fotografias atravs das quais podemos reconstituir um momento histrico. Essas fotografias

aparecem materializadas de formas variadas: emolduradas, porta-retratos, quadros

decorativos, lbuns ou at mesmo em caixas de sapato.

Nessa perspectiva, vislumbramos observar a relao da fotografia e da memria

histrica a partir da experincia da produo de imagens estticas analgicas e digitais na

cidade de So Borja, municpio localizado na fronteira oeste do estado do Rio Grande do

Sul. Concebemos ainda, a produo de fotografias como importante instrumento para o

resgate histrico e cultural da primeira cidade dos Sete Povos das Misses6 a partir das

5 Essa configurao se estabeleceu atravs das seguintes fundaes no Rio Grande do Sul: San Nicols (1687), San Miguel

(1687), San Luiz Gonzaga (1687), San Borja (1690), San Lourenzo (1691), San Juan Bautista (1698) e San Angel

Custdio (1706). (FURLONG, 1962)

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percepes dos fotgrafos do referido municpio: registros de cenas familiares, momentos

culturais, religiosos, entre outros.

Dessa forma, com o objetivo de entender as relaes entre produo de fotografias

analgicas e digitais e a memria histrica da cidade de So Borja, este estudo parte do vis

metodolgico qualitativo (FLICK, 2004), baseado na pesquisa documental e bibliogrfica.

Por sua vez, o material fotogrfico foi coletado atravs de pesquisa documental entre os

meses de julho e outubro de 2014, a partir de visitas s residncias de famlias so-

borjenses com acervos fotogrficos pessoais e nos acervos pblicos. Ao todo, tivemos

acesso ao material de um fotgrafo adepto do registro analgico e ao material preservado

por trs (03) famlias: uma famlia de um fotgrafo profissional, outra famlia que trabalha

com fotografias digitais e uma famlia tradicional da cidade. Foram coletadas e digitalizadas

cem fotografias analgicas e cinquenta fotografias em formato digital, contudo devido s

limitaes de espao deste artigo enfatizamos aqui a anlise de oito fotografias sendo: seis

analgicas e duas digitais, que foram escolhidas levando em considerao a poca do

registro, e a no repetio do teor de contedo da fotografia, ou seja, a temtica de

produo.

Imagem tcnica, fotografia e memria

Ao longo da histria, as imagens sempre estiveram presentes no cotidiano das

sociedades, desde aquelas produzidas de forma artesanal at as imagens digitais

contemporneas, estticas ou em movimento. Sobre essa questo, Flusser (2002) considera

que imagens so mediaes entre o homem e o mundo; so cdigos que traduzem eventos

em situaes, processos em cenas. Nesse sentido, o referido autor conceitua as imagens

atuais - que nos interessa na presente discusso - como imagem tcnica, ou seja, aquelas

produzidas pelo que ele denomina de aparelhos (fotografia, cinema, vdeo, televiso,

computador).

As imagens tcnicas se contrapem s imagens tradicionais (pintura e escultura),

visto que estas imaginam o mundo; j aquelas conceituadas como tcnicas por Flusser,

imaginam textos que concebem imagens que imaginam o mundo. O pesquisador pondera

ainda que a aparente objetividade das imagens tcnicas ilusria, pois so to simblicas

quanto outros tipos de imagens. Por conta disso, o que observamos ao contemplar as

imagens tcnicas no a realidade objetiva, mas determinados conceitos relativos a essa

realidade.

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Alm disso, a produo de fotografias analgicas ou digitais deve ser pensada a

partir de trs paradigmas, conforme Santaella e Nrth (2001): o pr-fotogrfico, o

fotogrfico e o ps-fotogrfico. No entanto, nosso estudo est baseado nas fotografias

realizadas nos paradigmas fotogrfico e ps-fotogrfico.

O paradigma fotogrfico refere-se a todas as imagens que so produzidas por

conexo dinmica e captao fsica de fragmentos do mundo visvel, por isso, so imagens

que dependem de uma mquina de registro, implicando necessariamente a presena de

objetos reais pr-existentes, como o caso da fotografia analgica.

O

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