Merleau-Ponty e as Ciências Sociais corpo, sentido e existência

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Merleau-Ponty e as Cincias Sociais: corpo, sentido e existncia.Miriam C. M. Rabelo1

Um dos aspectos caractersticos da filosofia de Merleau-Ponty sua curiosidade para as reflexes e achados de outros campos disciplinares, sua disposio para pensar filosoficamente estes achados redescrev-los sob o ponto de vista da filosofia (da fenomenologia) e para atravs deste pensamento abrir trilhas pelas quais a reflexo histrica, sociolgica, antropolgica etc. pudessem se aventurar. Aqui pretendo iluminar algumas dessas trilhas e refletir sobre o trabalho que, no mbito das cincias sociais, pode ser feito a partir delas. Se nos pedirem para identificar a contribuio de Merleau-Ponty s cincias sociais, imediatamente nos ocorrero questes priorizadas pelo filsofo, que ao serem incorporadas pelos cientistas sociais, no demoraram de render frutos importantes para suas disciplinas. Entre estas est sem dvida a temtica do corpo ou corporeidade a qual me voltarei em breve. Mas alm de oferecer um conjunto de tpicos, ou melhor, de novas categorias para problematizao e anlise do social, Merleau-Ponty brinda-nos tambm com um certo estilo de reflexo uma maneira de colocar os problemas, de seguir as pistas ou rastros deixados pelas aes dos outros que nos propomos a compreender, de descrever interpretativamente estas aes. No menos importante que os conceitos, categorias e concluses analticas de fato, talvez mais importante, porque efetivamente os engloba este estilo mais elusivo para os cientistas sociais, mais difcil em converter em um programa de pesquisa, mais desafiador enquanto guia s nossas interpretaes. Nesta minha fala me deterei em trs questes chaves que a filosofia de MerleauPonty coloca s cincias sociais embora significativas, certamente no so as nicas. A primeira diz respeito a uma re-descrio da experincia humana ou da prtica, para usar um termo mais corrente nas cincias sociais, a partir da corporeidade; a segunda a uma re-descrio da significao (e de noes como a de expresso e representao, bastante correntes na anlise social) a partir de um questionamento radical da ciso entre materialidade e sentido e a terceira uma proposta de interpretao que recusando1

Professora Dra. do Departamento de Sociologia e Programa de Ps-Graduao em Cincias Sociais, pesquisadora do Ncleo de Estudos em Cincias Sociais e Sade (ECSAS) da Universidade Federal da Bahia.

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explicitamente o pensamento causal, possa dar conta do movimento da existncia enquanto dinmica em que se articulam no s natureza e cultura, corpo e alma, mas tambm a generalidade da histria e dos ciclos orgnicos e a singularidade dos atos pessoais. Enquanto a primeira questo pelo qual inicio foi em grande medida assumida pelas cincias sociais contemporneas, ou ao menos por algumas de suas correntes mais expressivas, as duas seguintes ainda mantm o carter de questes marginais no quadro destas cincias.

Merleau-Ponty, seus leitores e a teoria da ao atravs de sua reflexo radical sobre o corpo, que a fenomenologia de Merleau-Ponty primeiro impacta as cincias sociais. Embora, enquanto objeto de estudo, o corpo seja uma presena recorrente na sociologia (e na antropologia), a tematizao explcita da corporeidade enquanto problema sociolgico deve-se em grande medida a recuperao das idias de Merleau-Ponty por estudiosos destas disciplinas. Entre estes se destacam sem dvida Michel Foucault e Pierre Bourdieu que dialogam com Merleau-Ponty sem maiores pretenses de fidelidade mas tambm toda uma gerao de cientistas sociais contemporneos, em sua maioria antroplogos, que introduzem idias do filsofo no mbito de suas disciplinas. Graas s suas contribuies o termo embodiment (corporeidade) estabeleceu-se na literatura para enfatizar a dimenso encarnada corporificada da cultura e das prticas sociais (do conhecimento, das emoes, da moral, etc). A teoria da ao um dos campos que sofre reorientao significativa sob o impulso da reflexo fenomenolgica no s de Merleau-Ponty como tambm de Husserl e Heidegger2 e talvez seja o campo em que a discusso sobre o corpo primeiro produz deslocamentos importantes. Para dar uma medida destes deslocamentos, vale a pena apresentar rapidamente alguns dos elementos chaves das abordagens a ao que durante muito tempo dominaram as cincias sociais. No modelo parsoniano, certamente o mais influente entre o que estou chamando de abordagens tradicionais ao, toda ao pode ser pensada em termos da articulao entre quatro elementos: um ator, um fim ou estado futuro antecipado que este ator visa provocar, uma situao (composta de meios e condies) em que ele atua, e a orientao normativa, que corresponde a2

Enquanto as idias de Husserl inspiram diretamente o programa sociolgico de Schutz e, atravs deste, exercem forte influncia sobre a etnometodologia; a sociologia de Pierre Bourdieu que articula mais diretamente elementos da filosofia de Heidegger e Merleau-Ponty em uma teoria de prtica formulada para superar os impasses do subjetivismo e do intelectualismo.

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valores e normas interiorizados pelo ator. essa ltima que preside tanto a definio dos fins quanto a seleo dos meios e que, portanto, integra os demais elementos da ao, conferindo-lhe uma dimenso sistmica. Neste modelo analtico, vale notar, a situao neutra com relao ao que nela se desenrola: simplesmente o palco onde so executadas diretrizes normativas. Queria examinar cada um destes termos e sua articulao, a luz do pensamento de Merleau-Ponty. Na Fenomenologia da Percepo nosso filsofo volta-se contra as teorias que igualam o sujeito da experincia conscincia e relegam o corpo a condio de simples instrumento a seu servio. Parsons um claro exemplo desta orientao: no seu modelo analtico o corpo no pertence ao plo do ator; funciona antes como instrumento ou meio do qual ele se serve. A unidade de referncia que estamos considerando como ator no o organismo, mas um ego ou self. Para o ator seu corpo to parte da situao da ao quanto o ambiente externo (Parsons, 1968: 47). Central na crtica merleau-pontiana a noo de corpo vivido (claramente ausente do esquema de Parsons). Antes de constituir um objeto para reflexo - nosso corpo que miramos no espelho, o corpo do outro cuja figura avaliamos ou o organismo ao qual se voltam as cincias biomdicas, dotado de propriedades universais e passveis de anlise - o corpo o fundamento de nossa experincia no mundo, dimenso mesma do nosso ser. No domnio da experincia constitui o ponto de vista pelo qual nos inserimos no mundo. partir da perspectiva que o corpo fornece que nos orientamos no espao (ou melhor, que somos no espao) e apreendemos e manipulamos os objetos. Enquanto centro de instrumentalidade, o corpo no tem o mesmo status que os demais objetos que percebemos e empregamos na lida cotidiana; ele se confunde com nosso prprio ser. Postular a imbricao necessria entre corpo e conscincia no para MerleauPonty retirar o corpo de seu lugar consagrado na natureza, para jog-lo no terreno da subjetividade. Trata-se antes de redefinir os dois termos a partir desta sua imbricao. Perpassado pelo subjetivo (todo ele psquico), o corpo no mais matria inerte ante o espetculo da cultura, corpo vivido. Ancorada no corpo, por sua vez, a subjetividade j no pode mais ser tomada como interioridade, lcus de onde emanam e onde so armazenadas representaes acerca do mundo. O corpo enraza no mundo da cultura e da histria (mas tambm dos sensveis), nos enreda nas aes de outros e faz os outros inevitavelmente participar de nossas aes. Imiscuda no corpo, a subjetividade j no pode mais ser entendida como espao bem demarcado de existncia 3

pessoal (caracterizado por atributos como racionalidade, autonomia e controle). No corpo encontramos uma dimenso de existncia annima, pr-pessoal que diz respeito tanto ao ritmo de nossa vida natural, quanto generalidade dos papis sociais, que nos remete tanto para a esfera das funes e processos orgnicos, quanto a ao do hbito arraigado, das aspiraes no articuladas e disposies sedimentadas, dificilmente acessveis reflexo. Essa existncia annima, escreve Merleau-Ponty, traa um halo de generalidade em torno de minha individualidade absoluta: H um sujeito abaixo de mim, para quem existe um mundo antes que eu ali estivesse... Esse esprito ativo ou natural meu corpo (ibid: 589). A reflexo sobre o corpo produz assim um descentramento do sujeito tema que se tornou verdadeira palavra de ordem nas cincias sociais contemporneas. Ao mesmo tempo enfatiza a cumplicidade operante entre corpo e mundo, no apenas expondo a presena do mundo e do outro no fundo da prpria subjetividade, como tambm revelando a sociabilidade enquanto condio existencial que funda qualquer processo de subjetivao. Minha existncia encarnada se tece sob o horizonte da existncia do outro; meus gestos retomam e respondem ao outro, nos seus gestos descubro minhas intenes. Atravs dos nossos corpos, nossas aes entrecruzam-se, referem-se mutuamente e por vezes adquirem uma fluncia ou um ritmo que nos configura enquanto um ns, sujeito coletivo de prticas e discursos. Habitamos um mundo comum e dessa sociabilidade primria que posso surgir enquanto sujeito e que, por vezes, o outro, surge enquanto objeto ou me faz surgir nessa mesma condio. O sujeito que, na experincia, orienta-se por um senso de familiaridade com os espaos sociais que compem seu mundo cotidiano, compreende este mundo com o corpo ou justamente porque corpo: meu corpo tem seu mundo ou compreende seu mundo sem precisar passar por representaes, sem subordinar-se a uma funo simblica ou objetivante (ibid: 195). A noo de compreenso presente na Fenomenologia da Percepo revela ntida convergncia com o conceito heideggeriano. Para Heidegger a compreenso aponta para uma prioridade de nosso engajamento prtico no mundo sobre a atitude descolada de conhecimento. Na perspectiva de Heidegger, a prtica um retomar contnuo de contextos de dados de sentido que compreendemos sem precisar articular. De mane