Michels revisitado: a propsito de dois livros r e a Sociologia dos Partidos Polticos, publicada em 1911, influenciou decisivamente O Poltico como Vocao, de 1919,

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    Antnio de Arajo* Anlise Social, vol. XXXVII (165), 2003, 1261-1284

    Michels revisitado: a propsito de dois livros recentes

    Robert Michels, Para Uma Sociologia dos Partidos Polticos na DemocraciaModerna. Investigao sobre as Tendncias Oligrquicas na Vida dos Agru-pamentos Polticos, trad. Jos M. Justo, Lisboa, Edies Antgona, 2001, 552pginas.

    Maria da Conceio Pequito Teixeira, Robert Michels. A Teoria e a Polticada Democracia, Lisboa, Instituto Superior de Cincias Sociais e Polticas,2000, 289 pginas.

    1. A recente edio da obra Para Uma Sociologia dos Partidos Polticos naDemocracia Moderna e a publicao de um livro de uma autora portuguesa sobrea teoria poltica de Robert Michels so acontecimentos que no devem ser deixa-dos passar em claro. Considerado um dos pais fundadores do elitismo italianojuntamente com Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto, Michels uma figura essencialda teoria poltica do sculo XX, cujo iderio bem justifica o interesse que agoraparece ser manifestado entre ns atravs da publicao da sua obra mais conhecida.A publicao de uma importante tese de mestrado sobre a sua obra RobertMichels. A Teoria e a Poltica da Democracia, de Maria da Conceio PequitoTeixeira constitui um motivo adicional para que, em breves linhas, se procureapresentar sumariamente o pensamento de Michels. No se ir, naturalmente,proceder a uma recenso crtica destas duas obras agora vindas a lume, mas to--s tom-las como pretexto para uma digresso pela teoria poltica de Michels e,em particular, pela sua lei de ferro das oligarquias.

    2. Apesar de conhecido quase exclusivamente pelo livro agora dado estam-pa entre ns, Robert Michels (1876-1936) foi um autor bastante profcuo1.

    * Tribunal Constitucional; Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.1 Para uma aproximao bibliogrfica obra de Robert Michels, cf. Viviana Ravasi,

    Bibliografia degli scritti di Roberto Michels nel periodo 1900-1910, e Ettore A. Albertoni,Bibliografia scelta su Roberto Michels, in Robert Michels, Potere ed oligarchie. Antologia1900-1910, introd. e org. Ettore A. Albertoni, Milo, 1989, pp. 73-108 e 109-122, respec-

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    Ao longo de trinta livros e mais de setecentos ensaios e artigos, debateu-se emnumerosas ocasies com o problema das elites, mas, ao contrrio dos seuspredecessores, Mosca e Pareto, nunca se envolveu em querelas sobre a pater-nidade da tese elitista. O maior contributo de Michels para o elitismo foi, semdvida, a clebre lei de ferro das oligarquias, que exps no livro Para UmaSociologia dos Partidos Polticos na Democracia Moderna. Investigao sobreas Tendncias Oligrquicas da Vida dos Agrupamentos Polticos (1911)2.Robert [ou Roberto3] Michels adoptou uma perspectiva bastante mais locali-zada do que a de Gaetano Mosca ou Vilfredo Pareto, lidando primordialmentecom o fenmeno dos partidos polticos. Talvez por isso, as suas ideias somenos polmicas e porventura mais perenes do que a doutrina da classepoltica de Mosca ou a teoria das elites de Pareto.

    O tema no era novo. Bryce e Ostrogorski j o tinham explorado aoanalisarem as mquinas partidrias da Gr-Bretanha e dos Estados Unidos.Michels afirma que a sua perspectiva no se confunde com a destes autorese s os cita por trs vezes ao longo de todo o seu livro, mas indubitvelque sofreu a sua influncia. O mesmo se diga de Max Weber, um seumentor crtico, nas palavras de Mommsen, que sempre estimulou o traba-lho de Michels e apoiou a sua carreira acadmica e a quem este dedicou a1. edio de Zur Sociologie des Parteiwesens4. No se esquea, por ltimo,que a lei frrea das oligarquias tem a marca profunda de Gaetano Mosca

    tivamente, e Maria da Conceio Pequito Teixeira, Robert Michels. A Teoria e a Poltica daDemocracia, Lisboa, 2000, pp. 217 e segs.

    2 O ttulo original Zur Sociologie des Parteiwesens in der modernen Demokratie.Untersuchungen ber die oligarschischen Tendenzen des Gruppenslebens, Dr. WernerKlinkhardt, Philosophische-soziologische Bcherei, Band XXI, Lpsia, 1911.

    3 Michels mudou o seu primeiro nome para Roberto em 1913, quando renunciou cidadania alem e requereu a nacionalidade italiana (que s viria a obter em 1921).

    4 Segundo Jacob P. Mayer, Michels interessou-se primeiro do que Weber pelo fenmenopartidrio e a Sociologia dos Partidos Polticos, publicada em 1911, influenciou decisivamenteO Poltico como Vocao, de 1919, e Economia e Sociedade, de 1922 (cf. Jacob P. Mayer,Max Weber and German Politics, 2. ed., Londres, s. d., pp. 81-83). No entanto, a corres-pondncia entre ambos demonstra claramente a primazia de Weber e a profunda influnciaque este exerceu sobre o trabalho de Michels [cf. Wolfgang J. Mommsen, Max Weber andthe German Politics, 1890-1920, Chicago, 1984, em especial pp. 107 e segs. Mommsen falamesmo numa associao assimtrica (assymetrical partnership), com predomnio de Weber(assim, Wolfgang J. Mommsen, Max Weber and Roberto Michels. An assymetricalpartnership, in Archives europennes de sociologie, t. XXII, 1981, n. 1, pp. 100-116, RobertoMichels and Max Weber: moral conviction versus the politics of responsibility, in The Politicaland Social Theory of Max Weber. Collected Essays, Cambridge, 1992, pp. 87-105, em especialpp. 100 e segs., e Joining the underdogs? Webers critique of the social democrats inwilhelmine Germany, in The Political..., cit., pp. 74-86, em especial pp. 80 e segs.; cf. aindaLawrence Scaff, Max Weber and Robert Michels, in American Journal of Sociology, vol. 86,n. 6, 1981, pp. 1269-1286, Eugenio Ripepe, Gli elitisti italiani. Mosca-Pareto-Michels, vol. I,Pisa, 1974, p. 467, e Maria da Conceio Pequito Teixeira, Robert Michels..., cit., p. 52, n. 86].

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    e de Georges Sorel, dois autores com quem Robert Michels manteve relaespessoais relativamente estreitas.

    Neste sentido, pode dizer-se, com David Beetham, que a importncia deMichels no reside tanto na originalidade do seu pensamento, mas na snteseque procurou realizar dos contributos de vrios autores e correntes5. Naverdade, Robert Michels soube combinar elementos de Mosca e Pareto, deesquerda e de direita, da biologia e da psicologia sociais e da teoria dasorganizaes. A Gaetano Mosca foi buscar o conceito de classe poltica e aideia de inevitabilidade das oligarquias; de Pareto retirou a teoria da circu-lao das elites. Conciliou elementos de esquerda e de direita: criticou odespotismo das organizaes socialistas com argumentos similares aos daesquerda radical e do anarquismo, mas hostilizou o socialismo e desprezouas massas na linha da tradio poltica mais conservadora e reaccionria.Finalmente, justificou a proeminncia das elites com argumentos da biologiasocial, da psicologia social e da teoria das organizaes. Sem defender pro-priamente o darwinismo social de Spencer, afirmou que as qualidades deliderana se adquirem pelo treino e pelo exerccio, ou seja, que a falta daprtica de comando enfraquece os homens, condenando-os submisso. Aomesmo tempo, utilizou uma ideia da psicologia social cara a Sorel: as massasno actuam de modo racional e, nessa medida, so particularmente vulner-veis manipulao demaggica dos lderes carismticos e das elites. Por fim,recolheu diversos aspectos da teoria das organizaes e da burocracia: aimportncia da coordenao e continuidade de tarefas, da especializaofuncional, da prtica do segredo e do centralismo.

    3. justamente por aqui que comea o seu livro sobre os partidos. A tesecentral dessa obra sintetiza-se em poucas palavras: a democracia um idealirrealizvel, pois todo o poder exige organizao e toda a organizao sig-nifica oligarquia. Segundo Michels, todos os partidos acabam por atraioaros ideais democrticos, transformando-se em organizaes oligrquicas con-

    Alis, como nota Juan Linz, Max Weber j traara as linhas fundamentais de uma investigaosobre os partidos em 1905, numa nota breve que publicou no Archiv fr Sozialwissenshaftund Sozialpolitik (Max Weber, Bemerkungen im Anschluss an den vorstehenden Aufsatz,post scriptum a R. Blank, Die Soziale Zusammensetzung der sozialdemokratischenWhlerschaft Deutschlands, in Archiv fr Sozialwissenshaft..., cit., vol. XX, 1905, pp. 550--553, cit. por Juan J. Linz, Michels e il suo contributo alla sociologia politica, pref. a RobertMichels, Sociologia del partito politico nella democrazia moderna, Bolonha, 1966, p. XLII).

    5 Assim, David Beetham, Michels and his critics, in Archives europennes de sociologie,t. XXII, 1981, n. 1, pp. 82 e segs., Wolfgang J. Mommsen, Roberto Michels and MaxWeber..., cit., p. 87, e Maria da Conceio Pequito Teixeira, Robert Michels..., cit., p. 112.No mesmo sentido, certos autores afirmam que o pensamento de Michels o menos originalde todo o elitismo clssico (assim, W. G. Runciman, Social Science and Political Theory,2. ed., Cambridge, 1969, p. 71).

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    troladas por um pequeno nmero de indivduos. Tomando um exemplo queconhecia de perto, o Partido Social-Democrata alemo (SPD), Michels procu-ra demonstrar aquela tese atravs do seguinte percurso: primeiro, justifica anecessidade de organizao a democracia no pensvel sem organizao(p. 53); depois, analisa a estrutura interna e o funcionamento da organizao,mostrando que, no seu seio, a tendncia oligrquica inevitvel quem dizorganizao, diz tendncia para a oligarquia (p. 54); finalmente, conclui quea democracia pode ser o regime ideal, mas no concretizvel.

    A necessidade de organizao parece-lhe de tal forma evidente que noperde muito tempo a demonstr-la. Segundo Michels, ela o nico meiocapaz de criar uma vontade colectiva: sejam de natureza econmica oupoltica, os interesses e as reivindicaes dos indivduos s podem afirmar--se atravs de uma estrutura que os enquadre e tutele. E esta necessidade tanto maior quanto mais fracos forem os interesses a defender. Por isso,concorda com os socialistas e considera que os pro