Miguel Torga Contos Da Montanha

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Miguel Torga Contos da Montanha

8 Edio Coimbra

OBRAS DO AUTOR Edies do AutorPOESIA: Ansiedade - 1928 (Fora do mercado). Rampa - 193O (esgotado). Tributo - 1931 (esgotado). Abismo - 1932 (esgotado). O Outro Livro de Job - 1936; 2. ed., 1944; 3. ed., 195 l; 4. ed., 195 8; 5. ed., 1986. Lamentao - 1943; 2. ed., 1958; 3. ed., 197O. Libertao - 1944; 2. ed., 1952; 3. ed., 196O; 4. ed., 1978. Odes - 1946; 2. ed., 195 l; 3. ed., revista, 1956; 4. ed., 1977. Niffil Sibi - 1948; 2. ed., 1956; 3. ed., 1975. Cntico do Homem - 195O; 2. ed., 195O; 3. ed., 1954; 4. ed., 1974. Alguns Poemas Ibricos - 1952 (esgotado). Penas do Purgatrio - 1954; 2. ed., aumentada, 1954; 3. ed., 1976. Orfeu Rebelde - 1958; 2. ed., 197O; 3. ed., 1992. Cmara Ardente - 1962; 2. ed., 1983. Poemas Ibricos - 1965; 2. ed., 1982. Traduo espanhola, 1984. Traduo francesa, 199O. Antologia Potica - 1. ed., 1981. 2. ed., aumentada, 1985. 3. ed., aumentada, 1992. 4. ed., aumentada, 1994. Traduo norueguesa, 1979; Traduo romena, 199O. PROSA: Po zimo - 1931 (esgotado). A Terceira Voz - 1934 (esgotado) A Criao do Mundo - Os dois Primeiros Dias - 1937; 2. ed- revista, 1948; 3. ed., 1952; 4. ed., refundida, 1969; 5. ed., 1994. O Terceiro Dia da Criao do Mundo - 1938; 2. ed., refundida, 1948; 3. ed., revista 1952; 4. ed., refundida, 197O. O Quarto Dia da Criao do Mundo - 1939 (Fora do mercado); 2. ed., refundida, 1971. Bichos - 194O; 2. ed., 1942: 3. ed., 1944; 4. ed., 1946. Traduo espanhola, 1948. Traduo inglesa ilustrada, 195O. Traduo romena, 195O; 5. ed., refundida, 1954; 6. ed- remodelada, 196 l; 7. ed., 198O; Traduo francesa, 198O; 11. ed., 198 l; 12. ed., 1982; 13. ed., 1983; 14. ed., 1984. Traduo japonesa, 1984; 15. ed., 1985. Traduo servo-croata, 1985; 16. ed., 1986; Traduo alem, 1986. Contos da Montanha - 1941 (fora do mercado); 2. ed., refundida e aumentada Rio de Janeiro, 1955; 3. ed., remodelada - Rio de Janeiro, 1962; 4. ed., revista aumentada e com um prefcio. Coimbra, 1969; 5. ed., 1976; 6. ed., revista 1982; 7. ed., 1987; 8. ed., 1996; Traduo holandesa, 1993; Traduo espanhola, 1988. Traduo galega, 1993. Traduo inglesa, 1992; 8.* ed., 1996. O Senhor Ventura - 1943; 2. ed., refundida, 1985; Traduo francesa, 1992; Traduo chinesa, 1989; Traduo alem, 199 1. Um Reino Maravilhoso (Trs-os-Montes) - Conferncia, 1941 (esgotado). Rua - 1942; 2. ed., 195 l; 3. ed., refundida, 1956; 4. ed., refundida e aumentada, 1967; Traduo francesa 1987; trad. espanhola, 1994. O porto - Conferncia, 1944 (esgotado). Portugal - 195O; 2. ed- refundida, 1957; 3.* ed., revista, 1967; 4.* ed., 198O; 5. ed., 1986: Traduo francesa, 1988: Traduo chinesa, 199O. Novos Contos da Montanha - 1944; 2.1 ed., 1945; 3. ed., refundida e aumentada 1952, 4. ed- refundida e aumentada, 1959; 5. ed., acrescentada, revista e com um prefcio, 1967; 6. ed., revista, 1975; 7. ed., 1977; 8. ed., 1978; 9. ed., revista, 198O; 1O. ed., 198 1; 11 . ed., 1982; 12. ed., 1984; 13. ed., 1986; 15. ed., 1991. Traduo chinesa, 1994. Traduo francesa, 1994. Vindima - Romance, 1945; 2. ed., refundida, 1954; 3.* ed., revista. 1965. Traduo alem 1965; 4. ed. revista 1971; Traduo inglesa, 1988; 5. ed., 1994. pedras Lavradas -

1951; 2. ed., revista, 1958; 3. ed., 1976. Traduo francesa, 1982; Traduo alem, 1993; Traduo espanhola, 1987; 2. ed., 1988. Trao de Unio - 1955, 2. ed., revista. 1969. o Quinto Dia da Criao do Mundo - 1974. Fogo Preso - 1976; 2.* ed., 1989. o Sexto Dia da Criao do Mundo - 198 1. A Criao do Mundo - Traduo francesa num s volume, 1985; Traduo espanhola num s volume, 1986; Traduo catal num s volume, 1991. Edio portuguesa num s volume, 1991. TEATRO: Terra Firme, Mar - 1941 (esgotado) Terra Firme, 2. ed., ref., 1947; 3. ed., ref, 196O; 4. ed., remodelada, 1977. o Paraso - 1949 (esgotado). Traduo francesa, 1949; 2. ed., refundida, 1977. Sinfonia - Poema dramtico 1947. Coimbra Editora (fora do mercado). Mar - 2. ed., refundida, 1958; 3. ed- revista. 197O; 4. ed., 1983. POESIA PROSA: Dirio (1. volume) - 1941; 2. ed., 1942; 3. ed.. 1946; 4.* ed., revista 196O; 5. ed., revista, 1967. Dirio (2. volume) - 1943; 2.* ed., 1949; 3. ed., revista, 196O; 4.* ed., 1977. Dirio (3. volume) - 1946; 2, ed., 1954; 3. ed., 1973. Dirio (4. volume) - 1949; 2. ed- 1953; 3. ed., 1973. Dirio O.- volume) - 1951; 2.* ed., 1955; 3.'ed., revista, 1974. Dirio (6. volume) - 1953; 2. Dirio (7. volume) - 1956; 2. Dirio (8 volume) - 1959: 2. Dirio (9. volume) - 1964; 2. ed., revista, 196O. 3. ed., 1978. ed- revista, 1961; 3. ed., revista, 1983. ed- 196O; 3. ed1976. ed- 1977. Dirio (1O. volume) - 1968; 2.* ed., revista, 1992, Dirio (11. Volume) - 1973; 2.'ed., revista, 1991. Dirio (12. volume) - 1977; 2. ed,, 1977; 3. ed., revista, 1986. Dirio (13. volume) - 1983. Dirio Traduo francesa (seleco num s volume) - 1982. Traduo sueca (seleco num s volume) 199O. Traduo blgara (seleco num s volume) 199O. Traduo espanhola (seleco num s volume) 1988. Dirio (14. o volume) - 1987. Dirio (15.o volume) 199O. Dirio (I 6.o volume) - 1993; 2. ed., 1995. Dirio (ed. integral) - 1995.

Prefcio Quarta EdioDepois de muitos anos de desterro, regressam novamente ao torro natal os heris deste atribulado livro. Numa poca em que tantos portugueses de carne e osso emigraram por fome de po, exilaram-se eles, lusitanos de papel e tinta, por falta de liberdade. Enfarpelados num duro surrobeco de embarcadios, l se foram afoita- mente em demanda do Brasil, o seio sempre acolhedor das nossas aflies. E ali viveram, generosamente acarinhados, assistidos de longe pela ternura correctiva do autor. Voltam agora ao bero, rodos de saudades. E no sem apreenso que os vejo pisar, j menos toscos de aparncia, o amado cho da origem. que muita gua correu sob a ponte desde que se ausentaram. Quatro dcadas de opresso desfiguraram completamente a paisagem do pas. A humana e a outra. Velhos desamparados, adultos desiludidos, jovens revoltados - num palco de desolao. Almas amarfanhadas e terras em pousio. Que alento poder receber dum ambiente assim uma esperana de torna-viagem? Mas a ptria um iman, mesmo quando a universalidade do homem, como neste preciso momento, sai finalmente dos tacanhos limites do planeta. Poucos resistem sua atraco ao verem-se longe dela, seja qual for a rbita em que se movam. At os seus filhos de fico. Por mais fortuna que tenham pelo mundo a cabo, com o ninho onde nasceram que sonham noite e dia. que s nele se exprimem correctamente, esto certos nos gestos, so realmente quem so. De maneira que no me atrevi a contrariar a vinda das minhas humildes criaturas, como a prudncia talvez aconselhasse. Pelo contrrio: favoreci-a. Pode ser que o exemplo seja seguido, e o xodo, que empobreceu a nao, comece a fazer-se em sentido inverso, e as nossas misrias e tristezas mudem de fisionomia. Portugal necessita urgentemente de ser repovoado. S. Martinho de Anta, Natal de 1968 Miguel Torga

A Maria Liona

Galafura, vista da terra ch, parece o talefe do mundo. Um talefe encardido pelo tempo, mas de slido granito. Com o cu a servir-lhe de telhado e debruada sobre o Varosa, que corre ao fundo, no abismo, quem quiser tomar-lhe o bafo tem de subir por um carreiro torto, a pique, cavado na fraga, polido anos a fio pelos socos do Preguias, o moleiro, e pelas ferraduras do macho que leva pela arreata. Duas horas de penitncia. L, uma rua comprida, de casas com craveiros janela, duas quelhas menos alegres, o largo, o cruzeiro, a igreja e uma fonte a jorrar gua muito fria. Montanha. O bero digno da Maria Liona. Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emoo contida, como quando se ouve tocar a Senhor fora. E nem ler sabia! Bens - os seus dons naturais. Mais nada. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que, por parentesco ou mais chegada convivncia, lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a grandeza da herana estava apenas no ntimo sentido desses panos. Na recatada alvura que traziam da arca e na regularidade dos fios do linho de que eram feitos, vinha a riqueza duma existncia que ia ser a legenda de Galafura. Quando Deus a levou, num Maro que se esforava por dar remate prazenteiro a trs meses de invernia sem paralelo na lembrana dos velhos, Galafura no quis acreditar. Embora a visse estendida no caixo, lvida e serena, aspergia sobre o cadver a gua benta do costume, sem que o seu rude entendimento concebesse o fim daquela vida. O prprio Prior, to acostumado transitria durao terrena, ao ser chamado pressa para lhe dar a extrema-uno, ungiu-a como se ela fosse me dele. Tremia. At o latim lhe saa da boca aos tropees, parecendo que punha mais f no arquejar do peito da moribunda do que na epstola de S. Tiago. Apenas o Dr. Gil, o mdico, a tomar-lhe o pulso e a senti-lo a fugir, no teve qualquer estremecimento. Receitou secamente leo canforado e saiu. Mas o Dr. Gil pertencia a outros mundos. Mdico municipal em Carrazedo, vinha a quem o chamava, dando a santos e a ladres a mesma tintura de jalapa e a mesma digitalina. Por isso, a insensibilidade que mostrou no teve signficao para ningum. A rotina do oficio empedernira-lhe os

sentimentos. O ele declarar calmamente, j no estribo do cavalo, que no havia nada a fazer, foi como se um vedor afirmasse que a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna, por ser um olho marinho. E assim que a moribunda exalou o ltimo suspiro, e do quarto a Joana R deu a notcia, lavada em lgrimas, c de fora respondeu-lhe um soluo prolongado, que, em vez de embaciar nos espritos a imagem da Maria Liona, a clarificava. E o enterro, no outro dia pela manh, talvez por causa do ar tpido da primavera que comeava e da singeleza das flores campestres que bordavam as relheiras do caminho, pareceu a todos uma romagem voluntria e simples ao cemitrio, onde deixavam como uma Salve-rainha pela alma dos defuntos o corpo da Maria Liona. No. No podia morrer no corao de ningum uma realidade que em setenta anos fora o sol de Galafura. Em pequenina, logo o seu riso e