Mito Dragao

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Mito Dragao Jung

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  • Brathair 3 (1), 2003: 42-64. ISSN 1519-9053

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    O Mito do Drago na Escandinvia (Primeira Parte: Perodo Pr-Viking)

    Prof. Dr. Johnni Langer Facipal, Faculdades Integradas de Palmas, PR.

    [email protected]

    Resumo A presente pesquisa procura determinar a gnese e a concepo do mito da serpente-drago na

    cultura escandinava e suas implicaes simblicas.

    Palavras-chave: Cultura Viking, Epigrafia megaltica, Mitologia germnica

    Abstract The present research aims to determine the genesis and conception of the myth of the serpent-

    dragon in the Scandinavian culture and its symbolic implications

    Keywords: Viking culture, Megalithic epigraphy, Germanic mythology

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    Nosso inconsciente, sem dvida, decidiu pr no Norte um mundo de quimeras ou utopias que, em nossos momentos de lucidez, sabemos muito bem o quanto falacioso o seu carter. Acontece que as imagens a que nos conduzem os mitos escandinavos tm demasiado encanto, ou melhor, magia: elas respondem s vezes absurdamente e muitas vezes ingenuamente, mas nem sempre magicamente nossa necessidade de compensao.

    Rgis Boyer, Os mitos escandinavos, 1997.

    H cerca de 20 anos, as pesquisas envolvendo a cultura Viking (1) vem tomando uma grande importncia paradigmtica e metodolgica por diversos especialistas europeus. Estudos de arte, msica, cultura material, comrcio, tcnicas de navegao e principalmente, religio e mitologia. Porm, temos percebido que os estudos de mitologia vem direcionando todas as suas perspectivas na anlise das fontes dicas (2) e das Sagas (3), relegando para segundo plano um segmento com um enorme potencial de possibilidades investigativas: a epigrafia megaltica. Nosso objetivo bsico investigar a relao entre documentos epigrficos pagos com a mitologia escandinava redigida no perodo cristo (4). As principais fontes adotadas em nossa pesquisa so as denominadas runestones (5) da rea Escandinava, tendo como tema central o mito do drago e suas implicaes simblicas.

    Inicialmente definimos algumas problemticas para o nosso tema de pesquisa: qual era a importncia e significado do drago para os escandinavos? Esse mito sofreu influncia da rea continental (mitologia crist medieval) ou possua um princpio original?

    1. Tipologia das runestones:

    A maioria das runestones localizam-se em reas afastadas dos grandes centros urbanos, com exceo de alguns exemplares mais famosos, como a pedra de Jelling na Dinamarca e Jarlabankes na Sucia. Suas dimenses variam entre 0,5 a 2 metros, geralmente sendo aproveitadas as superfcies lisas de grandes blocos com forma quadrangular natural, alguns poucos exemplares com polimento artificial (uma prtica comum ao megalitismo mundial, conf. Langer, 1997: 90-91). A quantidade total e os parmetros tipolgicos gerais das runestones ainda so pouco conhecidos (6). Para informaes cronolgicas, adotamos a verificao do tipo de runa (7), bem como do estilo artstico (8) e simblico-esttico (9).

    As runestones e o alfabeto rnico possuem uma continuidade estilstica com os antigos signos pr-histricos existentes na Escandinvia. Diversos smbolos adotados como runas j existiam na regio h muitos milnios, como a sustica e a roda solar. Alguns signos cermicos como os sinnbilder da Alta Silsia so considerados predecessores dos futhark nrdicos (Louth, 1979: 330). Na Era Viking existiam trs padres bsicos de runestones, no aspecto de estrutura iconogrfica, no importando a finalidade de sua construo: as que apresentam apenas inscries, as que mesclam inscries com desenhos e motivos alegrico-artsticos e por ltimo, runestones que alm de integrarem os dois primeiros, incorporam cenas mitolgicas ou referncias divindades e smbolos religiosos. Este ltimo tipo, o mais importante nossa investigao, ocorre principalmente na rea da Sucia. Em especial, a ilha de Gotland

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    (Bltico sueco) apresenta as mais complexas e importantes runestones com cenas mitolgicas (10).

    As runestones eram edificadas principalmente para servirem como monumentos, possuindo carter funerrio, comemorativo, jurdico, definio de parentesco, pormenores das faanhas de um guerreiro ou motivo religioso (Graham-Campbell, 1997: 101; Page, 2002: 43-52). Alguns tipos de runestones so mais comuns em certas reas da Escandinvia, enquanto outras regies de forte colonizao nrdica (como a Islndia e a Normandia) desconhecem sua incidncia, mas no se sabe exatamente qual a razo desta distribuio geogrfica (11). Outras runestones fazem parte de conjuntos megalticos, geralmente de forma circular ou imitando navios os cromlechs (12) - demarcando reas de sepulturas, como as impressionantes estruturas de Gettlinge (Sucia) e Lindholm Hje (Dinamarca), semelhantes ao alinhamento neoltico de Carnac na Frana. Alguns cromlechs Vikings, como o de Ales (Sucia) possuem finalidade incerta, talvez cerimonial ou at mesmo uma funo astronmica (Follow the Vikings, 1996: 53).

    2. A origem do drago na Escandinvia pr-Viking.

    Para seguirmos nossas problemticas, necessrio definir o que o drago. Animal, fabuloso, monstro simblico existente em quase todas as culturas e perodos da Histria, e por isso mesmo, um tema complexo de seguir uma tipologia. Para Juan Cirlot o drago seria uma espcie de confabulao de elementos diferentes, tomados de animais particularmente agressivos e perigosos: serpentes, crocodilos, lees (1984: 213). Outro autor, Francis Huxley, define-o em primeiro lugar como uma serpente e um animal com escamas (1997: 7). Aps uma anlise iconogrfica em diversas manifestaes mitolgicas do Ocidente e Oriente, conclumos que o drago apresenta-se genericamente com formas reptilianas ou ofdicas, um ou mais chifres, duas ou mais patas, hbitos terrestres e aquticos. Eventualmente ocorrem asas, essa uma variao tpica do Ocidente Medieval cristo (13). Mas e qual a origem desse animal no imaginrio escandinavo?

    2.1 Os petrglifos da Idade do Bronze

    Antes do perodo medieval, quase no encontramos referncias ao drago, mas de um animal muito associado com este, a serpente e sua variao, a serpente-drago. O primeiro perodo em que possvel investigarmos as manifestaes religiosas dos escandinavos a Idade do Bronze (1500-500 a.C.), pelo surgimento de um testemunho visual incomparvel: os petrglifos (14). A principal temtica das gravuras pr-histricas do norte europeu so smbolos relacionados com uma cosmogonia solar, cultos fertilidade e fecundidade, e o estilo das imagens mescla naturalismo antropomrfico com geometrismos abstratos (15). Alm de humanos portando machados e escudos, percebemos outras figuras muito recorrentes: barcos dos mais variados aspectos e diversos crculos (concntricos, raiados, cruciformes). O que mais destaca-se nas embarcaes a utilizao de serpentes, tanto na proa quanto na popa. Uma antecipao do famoso drakkar dos Vikings em muitos sculos (16).

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    Foto 1: Petrglifo de Bakkehaugen (Skjeberg, Noruega), Idade do Bronze, 1500-500 a.C. Norwegian rock carvings: http://www.ludvigsen.hiof.no/webdoc/petroglyphs.html

    No conjunto petroglfico de Bakkehaugen (Noruega, foto 1), percebemos a utilizao de uma embarcao com a figura de uma serpente com um grande olho e vasta cabeleira, denotando um aspecto marinho ao animal. Dentro da embarcao, trs homens armados erguem os braos para cima. O conjunto completado com o desenho de quatro circunferncias, e o sentido cerimonial torna-se muito evidente. Podemos notar essa inteno tambm em outro conjunto, T 248 (Sucia, foto 2): diversas embarcaes com popas de motivos serpentiformes, algumas inclusive com chifres na cabea, cercam dois gigantes, com o primeiro portando lana e machado.

    Foto 2: Conjunto petroglfico T 248 (Kalleby, Sucia), Idade do Bronze, 1500-500 a.C. Tanums Hllristningsmuseum, Scandinavian Society for prehistoric Art: http://www.ssfpa.se/eng/scandi.html

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    Mais do que simples efeito esttico, a serpente aparece nesses petrglifos como smbolo de um significado religioso mais amplo. A figura central, o gigante portando uma enorme lana, domina o conjunto e sua hegemonia ainda maior pelo fato de situar-se acima de um grupo de trs homens com tamanho bem reduzido, estes tocando uma espcie de trombeta. Na base de sua lana, dependura-se uma diminuta figura humana. Dentro do modelo proposto por Rgis Boyer para interpretao mitolgica da arte rupestre escandinava (1981) (17), esta gravura denotaria um ritual mgico sobre o elemento lquido, e a figura central seria a representao do deus inn e sua lana Gungnir (18). Essa hiptese reforada pelo fato de existirem nove embarcaes em torno do gigante, um nmero mgico associado este deus na religio germnica. E tambm pela ocorrncia de diversos corpos mutilados ao lado do gigante: homem sem cabea, outro sem braos e um par de pernas isolado. Vestgios de sacrifcios humanos? Na Escandinvia antiga, a ocorrncia de suicdios, oferendas e sacrifcios rituais ao deus inn eram muito comuns (Brndsted, s.d.: 258; Dumzil, 1992: 180; Boyer, 1997b: 129).

    Um dos detalhes mais interessantes deste conjunto, o fato de um dos trs humanos que toca trombeta pisar sobre uma serpente! Com certeza, uma alegoria do domnio humano sobre as foras materiais da natureza: A serpente visvel uma hierofania do sagrado natural, no espiritual, mas material (Chevalier & Gheerbrant, 2002: 814). Ao mesmo tempo, o conjunto tambm apresenta outra manifestao para a serpente, nas figuras das embarcaes. E a mais elaborada de todas as nove, justamente a utilizada pelo gigante dominador, cuja cabea de proa nitidamente uma serpente-drago, com dois chifres. Se analisarmos todo o conjunto como uma imensa procisso cerimonial, tpica tambm em outros stios rupestres (19), a serpente-drago configura-se como uma representao da alma e da libido (Chevalier & Gheerbrant, 2002, p. 815). O deus-gigante controlando toda a cena, domina do mesmo modo a alma e o desejo dos homens.

    2.2 O perodo de migrao (sc. V-VI d.C.)

    Um dos mais importantes vestgios arqueolgicos da Escandinvia durante o perodo de migrao so os dois cornos de Gallehus (Dinamarca) (20), repletos de animais e figuras antropomrficas por toda a sua superfcie. Nos dois objetos, a representao da serpente a segunda mais constante, logo aps a representao humana (21). No chifre de Jute, a serpente praticamente s aparece no segundo anel de desenhos. Ela foi representada ao lado de uma figura humana com trs cabeas. No alto desta cena, predomina um conjunto de guerreiros armados com escudos e lanas, sendo o mais bizarro dois homens portando chifres na cabea e segurando colares e armas. Essa imagem pode ser comparada com petrglifos da idade do Bronze (22) e com o deus celta Cernunnos, este ltimo muitas vezes representado segurando argolas e serpentes simbolizando a fertilidade, o renascimento e a sabedoria (May, 2002: 52) (23). Para a especialista Hilda Davidson, a figurao da argola e do animal em cada mo simbolizaria a cura e a riqueza da deidade. J para os chifres do mesmo deus, a especialista reconhece um sentido de poder e relao com as criaturas do mundo natural (1988, p. 209). Em algumas representaes como na Irlanda - a serpente aparece portando cornos, um aspecto derivado do touro, como a mesma funo simblica: fertilizar e participar da fora fertilizante do mundo (Guibert, 1997: 202). Obtemos assim uma relao extremamente comum na religiosidade europia pr-crist: chifres + serpentes = poder sobre a vida.

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    Foto 3: Angles Horn, Gallehus (Jutlndia, Dinamarca), sc. V d.C. Golden horns from Gallehus: http://freepages.history.rootsweb.com/~catshaman/23erils2/0horn.htm

    Muito mais rico em detalhes simblicos o chifre de Angle (foto 3). Em cinco anis surgem diversas imagens de serpentes: as que esto em alto relevo apresentam-se de forma individual e em espiral; as que foram gravadas, ao contrrio, ou esto entrelaadas com outras serpentes ou apresentam estruturas antropomrficas. Mas a principal diferena morfolgica encontra-se nas prprias representaes dos dois primeiros anis. O primeiro e maior, apresenta diversos homens e serpentes sentados, em posio de orao, celebrao e festividade. No segundo anel surgem homens armados e humanos com a metade do corpo serpentiforme. Nitidamente percebemos uma continuidade do simbolismo geral deste animal, iniciada com a pr-histria escandinava. O homem e o animal ctniano por excelncia colocados num mesmo plano, num mesmo nvel: Homem e serpente so opostos, complementares, Rivais. Nesse sentido, tambm, h algo da serpente no homem e, singularmente, na parte de que seu entendimento tem o menor controle (Chevalier & Gheerbrant, 2002: 814, grifo dos autores). Os humanos do chifre de Angle (1 anel) comemoram com a serpente (e tambm celebram, por sua vez, a fertilidade/fecundidade), mas tambm a combatem (2 anel) e finalmente, metamorfoseiam-se no prprio animal (2 e 3 anel). A serpente o ser que encarna o alm, o esprito dos mortos e toda a sabedoria que este aspecto pode conceber. Portanto, sua metamorfose representa o controle da morte, o desejo de sobrevivncia eterna (Boyer, 1997b: 431). Mais uma vez, o poder sobre a vida.

    2.3 A ilha de Gotland, Sucia (400-700 d.C.).

    A representao da serpente como senhora da morte praticamente surgiu no mesmo perodo que os chifres de Gallehus, mas numa regio mais distante da Escandinvia, nas runestones da ilha bltica de Gotland (24). Elas consistem em lpides de pedra calcrea, polidas e esculpidas com cenas mitolgicas e representaes naturalistas, ocorrendo principalmente no norte da ilha. Foram erigidas como

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    monumentos comemorativos em honra dos antepassados ou dedicados a cultos nesta regio (Graham-Campbell, 1997: 46-47).

    Grande parte das runestones deste perodo trazem representaes de espirais e discos radiados girando, um tema muito comum no megalitismo europeu (25), acrescentadas de serpentes, mamferos, guerreiros e navios. Infelizmente todas as runestones pr-Vikings foram datadas dentro do mesmo perodo (400-600 d.C.), e como no possuem inscries rnicas, fomos impedidos de realizar maiores anlises de evoluo estilstica e mesmo desenvolvimento simblico ou cronolgico na arte da ilha.

    Partiremos de um pressuposto morfolgico-temtico, obtendo assim dois tipos de runestones gotlandesas: as que apresentam espirais e/ou discos raiados e as que prescindem destas (26).

    Na maioria das runestones, as figuras centrais e que ocupam a maior parte dos conjuntos so desenhos de um grande crculo, preenchido por motivos que vo desde uma roda raiada at um conjunto de espirais sempre dispostas sugerindo movimento. A roda tem sido freqentemente interpretada nas culturas de origem indo-europia como smbolo do sol. Nos povos germnicos, o carro com duas rodas raiadas relacionado ao mito de origem do astro-rei. Em muitas cerimnias religiosas, um disco ou roda dourado era transportado em cima de carros (27) (Chevalier & Gheerbrant, 2002: 783). Especificamente nas runestones em questo, todas as rodas centrais apresentam-se em movimento raiado com dextrogiro, e possuem relao direta talvez uma antecessora de outro smbolo: a sustica, tambm chamada cruz gamada ou tetraskelion (28). Outro padro constante o desenho de figuras humanas ou animais na base do crculo principal (em algumas tambm na parte superior), sempre em posio antagnica, sugerindo uma situao de conflito ou luta. Na runestone de Martebo III e Vallstenarum Vallstena I, as figuras laterais ao crculo constituem-se de dois homens portando lanas e escudos. Um detalhe interessante que o desenho interno dos escudos tambm so de espirais. Em Havor II as figuras antagnicas so duas serpentes semi-estilizadas, enquanto que em Havor I dois cavalos permanecem em posio de ntida luta. A prtica de lutas ritualsticas entre cavalos era comum nas sociedades escandinavas (Boyer, 1997: 41).

    Foto 4: Runestone Martebo I, Gotland (Sucia), 400-600 d.C. Arild Hauges Runes: http://home.no.net/ahruner/go-rune/martebo1.jpg

    A primeira runestone que nos interessa diretamente a de Martebo I (foto 4). Abaixo do disco solar, percebemos as figuras de dois cavaleiros em posio de luta,

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    armados com lanas e escudos. Emergindo entre os dois cavaleiros, surge a figura de uma imensa serpente, que circunda dois crculos com espirais em movimento de sinistrogiro. A importncia dessa runestone de que constituiu uma das primeiras representaes do animal como serpente-drago (junto com a runestone Bjrkome I), isto , uma besta de grandes propores, uma animal fabuloso. Mas que ainda guarda certas caractersticas subterrneas: por todo seu corpo saem pequenos riscos laterais, tpicos de animais e vermes rastejantes. Analisando o conjunto como um todo, percebemos um carter de oposio das foras da natureza. A espiral geralmente considerada um smbolo lunar, oposto ao disco solar central (29). E do mesmo modo, representa a viagem da alma pelo reino dos mortos. (Chevalier & Gheerbrant, 2002, p. 398-400). Mais uma vez, a serpente surge dos mundos subterrneos como a senhora da morte. As runestones de Sanda IV e Bro II repetem as mesmas disposies de Martebo I, porm, duas serpentes confrontam-se entrelaadas sobre espirais, logo abaixo de um imenso disco solar ao centro.

    Ainda na runestone de Sanda IV (e nas de Bro I, Martebo II, Bjrkome I) um barco surge como ltimo tema, bem abaixo das outras representaes, reforando o carter de simbolizao subterrnea. A barca dos mortos um emblema grfico que frequentemente acompanha os motivos solares e lunares. um smbolo de segurana, pois favorece a travessia da existncia (Chevalier & Gheerbrant, 2002: 121-122) (30). A pesquisadora Hilda Davidson tambm percebe o navio de Sanda IV como smbolo da viagem pelo mundo subterrneo durante a noite, associando-o com antigos funerais da Escandinvia (1988: 169).

    Foto 5: Runestone de Smiss at Nr (Gotland, Sucia), 400-600 d.C. Fotografia de Raymond Hjdstrm. Museu Histrico de Visby (Lnsmuseet p Gotland), http://www.gotmus.i.se/1engelska/1.htm

    Muito mais enigmtica a runestone de Smiss at Nr (foto 5), onde o tema serpentiforme predomina. O primeiro desenho da rocha a representao de trs ofdios girando entre si, num movimento de dextrogiro. Cada serpente tem uma cabea diferente da outra: um porco selvagem (com os dentes projetando-se alm da mandbula), um cavalo e um bode. Ou seja, os animais consagrados tradicionalmente aos trs principais deuses do panteo germnico: javali (Freyr), cavalo (inn) e bode (rr). A estrutura geral do conjunto lembra o smbolo do triskele (triskelion), muito

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    comum na cultura celta (associado ao deus irlands Mannans), mas tambm presente entre os povos germnicos (31), como por exemplo na lana de Dahmsdorf (Alemanha, 250 d.C.), onde percebemos a presena de um triskelion com movimento contrrio a uma sustica (tetraskelion). Durante o perodo Viking, o triskelion passou a ser representado como trs cornos girando entre si.

    Logo abaixo dessa figura na runestone de Smiss at Nr, surge uma mulher nua segurando uma serpente em cada mo (32). Um detalhe interessante que uma serpente possui a boca aberta e a outra fechada. As mulheres possuam uma funo preponderante nos cultos ritualsticos conhecidos como Seir, Sp e Galdr prticas divinatrias e de magia e eram conhecidas como vlvas, spkonas e seikonas (33). Alguns dos principais simbolismos do culto seir eram os relacionados com a transformao dos seres em animais, muito comum entre o xamanismo, buscando solucionar situaes de crise social ou controle de entidades sobrenaturais. Em especial, segundo a mitologia nrdica, o deus inn teria sido o primeiro a utilizar a magia seir (DuBois, 1999: 122-138), e uma das suas aplicaes foi transmutar-se em serpente para recuperar o hidromel roubado pelos gigantes (Davidson, 1988: 175). Vlvas eram particularmente relacionadas com simbolismos da morte e a inciso de runas nas rochas (34). Seria a cena da mulher com serpente de Smiss at Nr a representao de um culto xamnico para inn ou trade principal do panteo germnico? No caso da imagem acima desta cena, um triskelion de serpentes, trata-se de uma figurao tradicionalmente associada ao deus inn. Acreditamos que essa runestone um dos nicos registros grficos de uma motivao mgico-religiosa inquestionvel, na cultura escandinava medieval.

    Foto 6: Runestone de Austers-Hangvar (Gotland, Sucia), 400-600 d.C. Fotografia de Raymond Hjdstrm. Museu Histrico de Visby (Lnsmuseet p Gotland: http://www.gotmus.i.se/1engelska/1.htm

    A figurao da serpente surge em outro contexto na runestone de Austers-Hangvar, um bloco com desenhos simples mas muito importante (foto 6). O crculo central constituido por espirais e logo abaixo vem o desenho fragmentado de uma embarcao. Sem dvida todo o conjunto denota o mundo subterrneo, distante do sol e seus simbolismos. Acima do crculo, vemos a imagem de um imenso animal com forma

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    de centopia dois olhos, boca aberta e inmeras e pequenas patas laterais. Logo a sua frente, um minsculo homem tenta agarrar sua boca. Alguns pesquisadores quiseram identificar nesta cena a luta entre o heri germnico Sigurr (35) e o drago Ffnir (36). uma interpretao possvel, desde que seja seguida literalmente a primeira verso escrita do mito: Vlsunga Saga (Islndia, sc. XIII). Nela no temos a imagem de um tpico drago medieval, mas a representao de ser habitante da gua e da terra, que se arrasta ou seja, no tem patas: Ok er ormrinn skrei til vatns (37) (Agora rasteja a serpente para seu lugar na gua). Em todo o texto, foram utilizadas nove vezes a expreso orms, serpente em Old Norse e verme em Noruegus moderno (38). Quando um dos protagonistas da trama, Regin, compara Ffnir com outras serpentes, utiliza expresses diferentes:

    S vxtr er eptir htti lyngorma (a fascinao e o aumento dele igualado ao de outros lingorms). at sagir , at dreki sj vri eigi meiri en einn lyngormr, en mr snast vegar hans var miklir (Como tu afirmou, esse drago no era grande como outros lingorms, parece a trilha dele assim to maravilhosa?).

    A palavra lyngorma, algo como serpente comprida (lingworm ou longworm em ingls moderno), reala o carter descomunal da besta. Na herldica medieval, o drago Lindorm possua um par de patas e nenhuma asa. Segundo Rgis Boyer, o termo orm significava no Old Norse tanto serpente como verme (1997: 44). Por sua vez, a expresso dreki utilizada essa nica vez em todo o texto uma adaptao da palavra latina drako pelo autor annimo do manuscrito, possivelmente um cristo. O sentido geral de todas essas terminologias pelo texto, de uma besta de grandes propores que se arrasta com certa dificuldade pela terra.

    De qualquer maneira, o momento em que o monstro foi morto justamente quando sai da gua tornando-se mais vulnervel. Mais do que nunca, estamos prximos tambm da imagem de uma grande serpente ou verme aqutico:

    Ger grf eina ok sezt ar . Ok er ormrinn skrr til vatns, legg til hjarta honum ok vinn honum sv bana. ar fyrir fr mikinn frama (Faa tu uma toca. Sente-se dentro disso, e quando a serpente for para a gua, atinga ela no corao. E assim prepare a sua morte, cuja vitria lhe dar grande fama).

    Com isso, percebemos que o desenho da runestone de Austers-Hangvar representa a transio entre a concepo da serpente-verme para uma grande besta serpentiforme, cuja forma definitiva como drago com patas s ser realizada pela arte escultural durante a Era Viking. Essa nossa interpretao reforada com outra runestone do mesmo local, Sandegaarde I (foto 7) um pouco posterior Austers-Hangvar.

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    Foto 7: Runestone de Sandegaarde I (Sanda, Gotland, Sucia), 500-700 d.C. Tombstones Gotland 2: http://freepages.history.rootsweb.com/~catshaman/25pictst/0gotl2.htm

    Na runestone em questo, um grande ofdio ladeado por duas serpentes pequenas. Estas ltimas apresentam um detalhe revelador: metade do corpo recortado em movimento, caracterizando-as como vermes terrestres. A grande serpente central possui, por sua vez, um imenso chifre na cabea. Definitivamente, forma-se na cultura escandinava a idia de uma besta serpentiforme de grandes dimenses, que cristalizou-se no perodo seguinte. At o momento podemos sintetizar o desenvolvimento morfolgico do mito do drago na cultura escandinava pela sequncia: serpente (pr-histria) serpente-verme (perodo de migrao) serpente-drago (perodo de migrao/Vendel) drago tradicional com patas (perodo Viking). E todos esses animais so ao mesmo tempo aquticos e ctnicos, semelhantes s serpentes-drages registradas na Irlanda, sendo por isso mesmo mestres da gua (vida), da morte e da regenerao (Guibert, 1997: 204).

    2.4 O perodo de Vendel (sc. VII-VIII)

    Um vestgio arqueolgico com imenso valor artstico, o capacete de Vendell (foto 8), o ltimo representante da figurao do animal fabuloso antes do perodo mais famoso da Histria nrdica. Confeccionado em ferro com adornos de bronze, foi encontrado numa embarcao-tmulo real do sc. VII, em Vendel (Sucia). Suas principais caractersticas estruturais so uma proteo para olhos e o nariz em forma de entrolhos (Graham-Campbell, 1997: 35). Trs conjuntos de animais esto representados: uma enorme serpente com crista dorsal e anis laterais encimando o capacete at tocar os entrolhos; duas serpentes formando a sobranelha do capacete, logo abaixo de dois possveis cavalos. A semelhana do elmo de Vendel com os encontrados em outros stios arqueolgicos notvel, principalmente em Vasgrde (Sucia) e Sutton Hoo (Inglaterra) (39).

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    Foto 8: Capacete de ferro de Vendell (Sucia), sc. VII d.C. Museu Histrico de Estocolmo (Sucia): http://www.historiska.se/collections/treasures/vendel/71-e.html

    Acreditamos que as figuraes animalescas de Vendel no so apenas decorativas, mas representam as bestas que examinamos at agora, e que serviro como referencial para analisarmos a tradio mitolgica posterior. Assim, temos duas hipteses: a serpente de maior dimenso seria Nhggr (40), e os ofdios dos dos entrolhos do capacete, as companheiras de menor tamanho da besta segundo a mitologia. Outra possibilidade, muito mais interessante, que o ofdio maior seja a serpente marinha Jrmungandr (41), um terrvel monstro que rodeava o mundo de ponta a ponta. Mas porque representar uma grande besta na ornamentao do equipamento de um rei? Para Rgis Boyer, Jrmungandr garantiria a ordem ao mesmo tempo que o caos no universo: simultaneamente a evidncia tranquilizadora de nosso ser diurno e o delicioso terror de nossos sonhos noturnos (1997: 435). Nada melhor para pensarmos a importncia que o simbolismo deste mtico animal desempenhar nos futuros Vikings, eles mesmos representantes de uma cultura ambgua e paradoxal. O tempo do drago encontrava-se prximo de seu esplendor.

    AGRADECIMENTOS: Ao historiador Luiz Galdino (IHGSP) pelo envio de livros reproduzidos do acervo da USP, especialmente Dumzil (1939), Brondsted (1968) e Boyer (1976). A Luciana de Campos (UNESP) por informaes sobre os Celtas, apoio na pesquisa e seu eterno companheirismo.

    Principais Fontes Primrias que Tratam do Mito do Drago da Cultura Germnico-Escandinava:

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    Notas

    1. Viking: termo adotado tradicionalmente a partir do sculo XVIII para designar todas as culturas de origem germnica que habitavam a Escandinvia entre os sculos VIII e XII de nossa era. No perodo, estas culturas no auto-identificavam-se com essa expresso, que na verdade designava somente os escandinavos que aventuravam-se pelo mar em busca de comrcio pacfico, colonizao, ou mais genricamente, pilhagens e saques na Europa continental. Apesar de vasta polmica sobre a origem e o significado da terminologia, recentemente o especialista Jesse Byock demonstrou a perspectiva que acabamos de enunciar. Byock, 2001: 11-13. Para uma discusso historiogrfica dessa questo ver: Brndsted, s.d.: 31-34. 2. Fontes dicas: so os manuscritos escritos na Islndia a partir do sculo XIII, geralmente por religiosos, e baseados em fontes orais/folclricas, como a Edda em Prosa (um livro de aprendizagem para os poetas, redigido pelo islands Snorri Sturluson) e a Edda Potica (um livro que contm antigos temas e motivos hericos e mitolgicos da Era Viking). Conf. Graham-Campbell, 1997: 224-225. A grande problemtica dessas fontes determinar o grau de interferncia da concepo crist para prticas de origem pagnica, originando concepes moralistas para certas divindades, como os Vanes, ou personagens, como o deus Loki. 3. Sagas: Histria em Old Iceland. Nome dado s narrativas orais islandesas e escandinavas, que misturavam eventos histricos com contedos imaginrios. Conf. Graham-Campbell, 1997: 103, 225. 4. Ou seja, investigaremos fontes elaboradas originalmente no perodo pr-Viking (anteriores ao sculo VIII) e Viking (793-1100 d.C.: aqui ocorre certa polmica. Alguns autores, como DuBois, 1998, p. 5, estendem a era Viking at 1300, o que consideramos um grande exagero. Adotamos a cronologia do maior especialista em arqueologia escandinava da atualidade - Graham-Campbell, 1997: 200 estabelecendo o incio do sculo XII para o final do perodo Viking). Apesar da mitologia redigida a partir do sculo XIII ser considerada primria, ela tem que ser relativizada pelos motivos apontados por ns na nota 1. 5. Runestones: Rune-stones, pedras rnicas. Termo moderno para designar os monumentos megalticos europeus, mais comumente os menires, no qual foram elaborados inscries, desenhos, pinturas. Menires (Baixo breto: men pedra, hir longa) so rochas erigidas verticalmente com os mais variados propsitos, existindo em quase todas as culturas e em todos os perodos. Conf. Langer, 1997: 90-91. O megalitismo Viking praticamente no apresenta evidncia de Dlmens (Baixo breto: dol mesa, men pedra), monumentos de pedra horizontais sustentados por dois ou mais blocos verticais ao plano do nvel do solo. Os mais famosos dlmens do mundo so os existentes no conjunto de Stonehenge, sul da Inglaterra, de origem neoltica. Conf. Langer, 1997: 90. Para teorias que relacionam os monumentos megalticos como forma de coeso social e outros detalhes conceituais, terminolgicos e arqueolgicos ver: Renfrew, 1982. Para questes genricas do megalitismo ver: Orens, 1978. 6. A nossa principal fonte iconogrfica para as runestones o site: Runic inscriptions: http://home.no.net/ekerilar/ que apresenta fotografias para 584 conjuntos de inscries rnicas de todo o mundo: 172 suecas, 81 norueguesas, 207 dinamarquesas, 80 para a regio de Shane/Halland/Blekinge, 19 gotlandesas, 7 groelandesas e 18 da Europa continental. Somadas outras fotografias que possumos de diversas bibliografias e outros sites da Web, totalizamos uma tipologia de aproximadamente 600 runestones. A lista e a quantidade total de runestones europias desconhecida (Calcula-se que sobrevivam aproximadamente 2.900 inscries rnicas em estruturas permanentes pela Escandinvia, conf. Graham-Campbell, 1997: 103), mas acreditamos que os exemplares examinados conseguem satisfazer nossos propsitos e metodologia de investigao. 7. Runas: Alto-alemo: rnen cochichar; Anglo-saxo: reonian murmurar; Old Norse: rnar - mistrio. Conf. Louth, 1979: 328. As letras do alfabeto germnico, consistindo em linhas retas incisas na madeira ou pedra. Tambm tinham uso mgico-religioso, mas Graham-Campbell (1997: 100) limita sua funcionalidade no estudo das runestones e questiona o seu uso na atualidade como instrumento proftico. Existiam diversos tipos de alfabetos rnicos, permitindo datar com certa preciso as runestones, conforme o estilo adotado. Os alfabetos rnicos eram chamados futhark (nome derivado dos primeiros caracteres: f, u, , a, r, k) e mais antigo conhecido como Elder Futhark, comum a todos os povos germnicos. A era Viking conheceu dois tipos bsicos derivados do Elder Futhark, o Rama Longa (Dinamarca) e o Rama Curta (Sucia e Noruega), mas tambm ocorriam muitas variaes regionais e temporais. As melhores tabelas epigrficas para estudo da variao cronolgica dos sistemas rnicos so as fornecidas por Arild

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    Hauges Runes http://www.arild-hauge.com/eindex.htm. Adquirimos por meio de diversos sites da Web, fontes True Type para Word dos sistemas rnicos: Elder Futhark (Copyright 1995: Curtis Clark), Olof Viking 16 characters, Runar Viking 16 characters, Anglo Saxon Runes (C. 1996: Daniel Steven Smith), Gulskoen (C.: Altsys F.), Gullhornet (C. Macromedia), Germanic runes (C. 1996: Daniel Steven Smith), Futhorc B (C. 1997: John Osborne), Futharken, Runic Regular (C. 1991: Altysys F.). Mas sem dvida a fonte True Type mais importante para nossa pesquisa Pi Rho Runestones (C. 1998: Peter Rempel), que apresenta diversos padres simblicos das runestones. Tambm obtivemos pela Web um formidvel banco de dados para textos rnicos: Rundata fr Windows/Smanordisk Runtextdatabas (Institutionen fr Nordiska Sprk Uppsala Universitet, Sweden). Copyright 1995-97: Nico Mac Computing http://www.nordiska.uu.se/samnord.htm Para traduo do Old Norse, adquirimos dicionrios, gramticas e sentenas para o ingls moderno pelo Old Norse Languages Institute: http://www.verbix.com/languages/oldnorse.shtml Para uma discusso bibliogrfica sobre epigrafia rnica ver: Runic Academia http://home.ica.net/~runesmith/bibliogr/acad.html Para uma discusso sobre metodologia, problemticas e histria da runologia Viking consultar: Page, 2002. 8. Divide-se a arte Viking em seis estilos sucessivos: Oseberg/Broa: 750-840 d.C.; Borre: 830-970 d.C.; Jelling: 880-1000 d.C.; Mammem: 950-1060 d.C.; Ringerike: 980-1050 d.C.; Urnes: 1040-1150 d.C. Esses estilos so bem perceptveis nas esculturas e runestones, facilitando a datao e a determinaco do contexto geogrfico-cultural. Conf. Graham-Campbell, 1997: 98-99; 2001: 130-152; Viking Art: ornamentation styles and the picture stones. www.vikingart.com/VikingArt.htm 9. Principalmente a utilizao da cruz e suas variaes (cruz latina, celta e sustica composta). Como o cristianismo penetrou na Escandinvia aps o ano mil de nossa era, temos outro elemento importante para datar as runestones. 10. As runestones do perodo Viking de Gotland apresentam poucas cenas envolvendo o drago ou a serpente, sendo este tema mais comum na ilha antes do sc. IX a.C. Envolvem muito mais o tema do Valhll, a vida aps a morte, o simbolismo da recompensa do guerreiro e a interferncia de inn no mundo dos vivos. Futuramente apresentaremos uma pesquisa especfica para essas importantes e muito mal estudadas fontes epigrficas. 11. Para o arquelogo James Graham-Campbell esses motivos podem ser de ordem econmica ou reflexo direto das condies sociais e polticas: algumas classes podem ter estado condicionadas mais do que outras para erigir monumentos rnicos; provavelmente em algumas regies deveria haver mais dinheiro disponvel para semelhantes luxos (1997: 103). 12. Cromlechs: Celta: crom curva, men pedra. Alinhamento circular de menires ou dlmens. O mais famoso cromlech do mundo o de Avebury, no sul da Inglaterra, de origem neoltica. Conf. Langer, 1997: 90. Muitas necrpoles megalticas Vikings imitam a forma de embarcaes como em Anundshg e Gettlinge (Sucia) e Lindholm Hje (Dinamarca). Para maiores detalhes ver Follow the Vikings, 1996. 13. Para consideraes acadmicas sobre o mito do drago, especialmente sua morfologia, tipologia e simbolismo geral na Eursia, consultar: Le Goff, 1980; Seringe, 1997; Vade, 1997; Guibert, 1997; Verdier, 1997; Huxley, 1997. Especialmente Le Goff faz uma excepcional discusso bibliogrfica sobre o tema, alm de inseri-lo dentro de diversas problemticas na Europa medieval, principalmente para o imaginrio cristo do perodo. Tambm Yves Vad realizou uma interessante reconstituio geogrfica do drago, a partir de sua relao com o simbolismo das guas (Pour un atlas des dragons euro-asiatiques/Dragons au bord du fleuve, 1997: 54). 14. Petrglifos: Latim: petra rocha, glifos desenhos. So gravuras elaboradas diretamente em suportes fixos de pedra (paredes de grutas, rochedos, meglitos) por meio de instrumentos pontiagudos e consistentes. Conf. Langer, 2002a: 77. Existem vrias tcnicas para confeco de petrglifos, como o polimento, raspagem ou corte. Conf. Mendona de Souza, 1997: 99. 15. Sobre arte rupestre europia (classificao, morfologia, cronologia dos perodos e estilos) consultar Leroi-Gourhan, 1985. Para uma detalhada anlise dos petrglifos escandinavos e sua relao com a antiga religio nrdica ver Boyer, 1981, p. 58-81. Em relao imagens de petrglifos escandinavos, ver: Harlan, 2002; Kaplan, 1975; Norther Scandinavia: http://www.fu.org/jkl/anabasis/alta.html; Norwegian rock carvings: http://www.ludvigsen.hiof.no/webdoc/petroglyphs.html, e principalmente Scandinavian Society for Prehistoric Art: http://www.ssfpa.se/eng/scandi.html 16. Drakkar Denominao latinizada de origem francesa, empregada para navios Vikings. O termo escandinavo original para navio de guerra era Langskip. No petrglifo de Knaegtern (Bornholm, Dinamarca) tambm notamos a utilizao de cabeas de outros animais na proa e popa de uma embarcao, talvez carneiros e cabras. De modo similar, a posterior cultura Viking empregou alm da serpente e do drago, diversas formas animais para as figuras de navios. A tapearia de Bayeux (sc. XI) confirma esse aspecto, conf. Cohat, 1988: 118-128. Por sua vez, a embarcao atualmente considerada um smbolo do deus germnico Njrr (entidade Vanir relacionada com o oceano). Conf. Holy signs of Heathenry: www.ealdriht.org/symbols.html

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    17. Seguindo o modelo de tripartio social enunciado por Georges Dumzil, Boyer identificou trs temticas na arte rupestre escandinava: 1 - Cosmogonia solar, identificada ao deus Tr (divindade germnica da guerra) e simbolizada por homens com machados; 2 Elemento lquido, identificada ao deus inn (divindade germnica da magia e guerra) e simbolizada por gigantes portando lanas em meio a embarcaes; 3 Elemento ctnico, identificado ao deus Freyr (divindade germnica da fertilidade) e simbolizado por homens e figuras flicas. Conf. Boyer, 1981: 59-81; 1997: 68-70. A grafia das divindades e topnimos que adotamos nesse trabalho seguem o original em Old Norse, uma tendncia definida pelos especialistas renomados: Boyer, 1981; Davidson, 1988; DuBois, 1999. 18. inn O deus-chefe supremo da mitologia germnica (tambm denominado Wodan, Woden, Wotan). Era filho de Brr e de Bestla e pai de rr, Baldr e Tr. Seu nome significava fria (Old Norse: ; alemo moderno: Wten [do Old German Wutan], que originou a palavra Wut, clera, raiva). Sendo o mais sbio e senhor da magia e da poesia, das runas e da adivinhao. A partir do sculo IX d.C., inn substituiu Tr como deus inspirador das batalhas e dos guerreiros. Conf. Eliade, 1979: 179; Cotterell, 1998: 214-215; Grant, 1997: 13-14; Spalding, 1999: 33-34. Gungnir - era a lana mgica de inn (...) Foi forjada pelos anes, filhos de Ivaldi (...) era costume dos Vikings atirarem uma lana sobre a cabea dos inimigos antes de comearem uma batalha, como forma de obter os favores de inn Cotterell, 1998: 194. 19. As procisses religiosas nrdicas se estenderam at o sculo XIII, em locais como a Islndia, inclusive ocorrendo a utilizao de fantasias e mscaras de animais. Conf. Boyer, 1981: 62-63, 68. 20. Os cornos de Gallehus consistem de dois chifres cerimoniais de ouro slido, descobertos em 1639 e 1734. No chifre de Jute, a maior pea, existe uma inscrio no alfabeto germnico Elder Futhark: Eu, Hlewagast, filho de Holt, fiz o chifre. Conf. Bahn, 1996: 88. O Museu Nacional da Dinamarca (Copenhage) iniciou o ano de 2003 com uma exposio permanente especial, apresentando os dois objetos com grande destaque. 21. Segundo nosso levantamento, identificamos a seguinte quantidade de smbolos e figuraes nos cornos de Gallehus: homens e mulheres: 37 figuras; serpentes: 30; mamferos: 28; peixes: 7; aves: 2. 22. Vrios conjuntos petroglficos da Escandinvia da Era do bronze (datados entre 1500-500 a.C.) representam homens com chifres: Bohusln, Sucia (gigante flico portando uma espada e segurando uma pequena embarcao, com imenso cornos); T 248, Kalleby, Sucia (no conjunto, duas figuras portam chifres: um gigante numa embarcao e um homem tocando uma trombeta). Mas a figura mais interessante que ns conhecemos de um stio apresentado em Bronze Age Petroglyphs in Sweden http://www.ruach.net/petroglyphs_sweden.shtml, infelizmente sem maiores detalhes de localizao. Trata-se da representao de uma embarcao serpentiforme onde sete homens agachados portando remos so comandados por uma figura de p e com imenso tamanho, com chifres e segurando uma espcie de foice. Em objetos materiais mveis tambm constatamos essa imagem: em placas de bronze do sc. VI d.C. de Olndia (Bltico), representando um homem com duas lanas e capacete com cornos; gravuras de metal de Obrigheim, Alemanha (sc. VIII d.C.) e uma figura de bronze com um homem portando elmo crneo (Idade do Bronze, Dinamarca) (conf. Graham-Campbell, 2001: 178 e contra-capa; Davidson, 1988: 88). A mesma imagem surge quase identicamente em um alto-relevo do capacete de Sutton Hoo do sc. VI (encontrado na Inglaterra anglo-sax mas criado na Sucia). Os capacetes com chifres (tamanho natural) recuperado at agora pela arqueologia foram todos de bronze e criados para atividades ritualsticas: Veks (Seeland, Dinamarca, datado de 1000-700 a.C., conf. Klindt-Jensen, 1960: 91); Londres (sc. I d.C. conf. Byam, 1990: 11). O capacete de Veks foi descoberto em 1942 e est exposto atualmente no Museu Nacional da Dinamarca (segundo o curador Flemming Kaul, em mensagem enviada por correio eletrnico). Sem sombra de dvidas, o carter cerimonial-religioso ou mesmo simblico predomina nessa utilizao de apndices corniformes. O chifre est associado com poder, fora, simbolismos lunares e solares. Na mitologia celta, o personagem Conganchnes, o de pele de chifres, totalmente invulnervel. Conf. Chevalier & Gheerbrant, 2002: 233-235. A popular representao dos chifres em capacetes Vikings no tem nenhuma relao com esse passado religioso, sendo uma criao fantasiosa do imaginrio oitocentista europeu. Os capacetes dos nrdicos para batalha durante a Idade Mdia eram cnicos e sem qualquer tipo de protuberncia, e tambm no ocorrem registros de objetos crneos para rituais na Escandinvia do perodo Viking. Conf. Haywood, 2000: 204-208; Langer, 2002b. 23. No podemos deixar de mencionar que o principal vestgio iconogrfico do deus Cernunnos o caldeiro de Gundestrup, encontrado na Dinamarca, a mesma origem geogrfica dos cornos de Gallehus. Porm, ao contrrio dos homens chifrudos de Gallehus (portando armas e em posio marcial), o deus celta de Gundestrup est numa posio meditativa e cercado de vrios animais. Outra famosa representao iconogrfica do deus Cernunnos em Val Camonica, Itlia (sc. IV a III a..C.). Conf. Sharkey, 1997: 84-85. 24. A ilha bltica de Gotland considerada culturalmente diferenciada do resto da Sucia e Escandinvia, por suas jias, tesouros e principalmente, as runestones. Conf. Graham-Campbell, 1997: 46-47. Antes da

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    Era Viking, as pedras decoradas ou esculpidas eram desconhecidas fora de Gotland temos evidncias de runestones escandinavas portando apenas inscries com o alfabeto rnico Elder Futhark, no perodo anterior ao sculo IX d.C. As runestones de Gotland durante a era Viking tambm consistem em documentos epigrficos nicos, como poderemos constatar na segunda parte da pesquisa. Para nossos trabalhos iconogrficos, utilizamos as fotografias disponveis do Museu Histrico de Visby (Lnsmuseet p Gotland): http://www.gotmus.i.se/1engelska/1.htm Outro recurso importante foi o site Arild Hauges Runes http://www.arild-hauge.com/eindex.htm, com excelentes reprodues. Foram descobertos ao todo 400 runestones em Gotland, sendo a maioria dos monumentos ptreos levados para conservao no Museu Histrico de Visby (Gotland), Museu ao ar livre de Bunge (Gotland) e Museu de Antiguidades de Estocolmo (Sucia). 25. O tema das espirais encontrado principalmente na Irlanda, cujo exemplar mais famoso New Grange, conf. Orens (1978: 228-236). Segundo alguns autores, a espiral megaltica teria como finalidade mostrar a viagem da alma atravs da morte para encontrar o descanso e o renascimento na cmara central. Outro famoso stio megaltico com fartas evidncias de petrglifos e gravuras espiraladas a tumba de Gravrinis, Larmor-Barden (Morbihan, Frana). Conf. Sharkey, 1997: 78-79. Para o pesquisadora francesa Vronique Guibert, a espiral megaltica representa a serpente e seu corpo, mas no se limitando a este animal, e adquirindo ambiguidade e complexidade simblica muito maior, como a relao com simbolismos da vida, fertilidade, energia, eternidade, movimento, ciclo e tempo (1997: 193). 26. Todas as nossas anlise nas runestones do perodo pr-Viking partem do pressuposto que a primeira cena a do alto, seguindo em ordem os conjuntos temtico de cima para baixo. A relao das principais runestones gotlandesas com espirais/discos solares so: Sanda Church IV, Bro I, Bro II, Ire I, Vallstenarum I, Vskinde V, Martebo I, Martebo II, Bjrkome I, Havor I, Havor II, Austers-Hagvar. As que no apresentam esse tema so: Larsave I, Sandegarda I, Halla Broa VII, Ire III, Lilla Soivide, Fole, Smiss at Nr, Smiss at Garda, Ire, Laxare, Larsave at Eskelhem. 27. O vestgio arqueolgico mais famoso desta cerimnia solar foi encontrado em Trumdholm, Dinamarca (1000 a.C.) e constitui num disco de bronze repleto de espirais, puxado por um cavalo. Conf. Sharkey, 1997: 48; Boyer, 1997, p. XXIV. Na runestone do tmulo real de Bredarr, Skne (Sucia, possivelmente pr-Viking), tambm encontramos o mesmo tema. Na representao gravada ocorre uma grande cerimnia, homens tocam trombeta, enquanto a figura central representa uma carruagem com uma roda de quatro raios. No bloco lateral, tambm ocorrem smbolos de crculos com quatros raios. 28. A sustica sempre foi identificada ao movimento solar e teve uma antiguidade remota nos povos de origem indo-europia, aparecendo j em 2000 a.C. em selos de Harappa (ndia). Conf. Cirlot, 1984: 541. Outros autores a identificam com uma significado de ao, movimento, de ciclo e de perptua regenerao. Conf. Chevalier & Gheerbrant, 2002: 852-853. A sustica tambm denominada de Fyolt, Mundilfari, cruz teutnica, gammadion. associada em alguns casos ao movimento do martelo do deus rr Mjllnir (Old Norse: triturador, conf. Boyer, 1981: 118; Eliade, 1979: 182). Sobre o simbolismo da sustica ver: Jrgen S. The swastika in heathen esoterics. www.infernalhorde.com/atopbihsf/swastika.html; Names and definitions of the Swastika. Northvegr: www.northvegr.org/lore/swastika/004.html Na segunda parte de nossa pesquisa, poderemos constatar a presena de susticas em runestones durante o perodo Viking e mesmo com a posterior chegada do cristianismo na Escandinvia. 29. O movimento interno da espiral de Martebo I um sinistrogiro, direo contrria roda solar da mesma runestone (dextrogiro). Por sua vez, a espiral dupla de movimento inverso - como observada na runestone em questo - considerada um smbolo das mudanas lunares e do trovo, pois a tempestade muitas vezes associada s mudanas da Lua Chevalier & Gheerbrant, 2002: 399. A pesquisadora Hilda Davidson tambm percebe um carter de oposio simblica nestas figuras de Gotland: which could represent day and night, corresponding to the round faces of sun and moon on Roman memorial stones. Davidson, 1988: 169. 30. Alguns desenhos da runestone de Sanda IV logo abaixo das serpentes espiraladas - foram realizados posteriormente aos motivos centrais (levando-se em conta a tcnica/estilo de execuo). Representam uma rvore (possivelmente a representao do freixo de Yggdrasill) e um cavalo. Por sua vez, a tcnica de execuo do desenho de barco de Sanda IV totalmente diferente das antigas representaes encontradas em petrglifos e runestones pr-Vikings da Escandinvia. Assim como as runestones gotlandesas de Auster-Hangvar, Bro e Martebo III, seu estilo surpreendentemente aproxima-se dos navios utilizados em painis minico-cretenses. 31. O triskelion tambm chamado triquerta e possui relao com outros smbolos e mitos, como a Trinacria. Na Europa, foi muito comum na ilha de Man, Siclia e em Siracusa. No mundo celta, simbolizava os princpios da criao, destruio e preservao e a tripla divindade. Em algumas verses, as pontas do triskelion so representadas por pernas, e a figura central por uma face humana. Conf. The Triskele: www.heraldica.org/topics/triskele.htm; The Triskele: www.fabrisia.com/triskele.htm Segundo

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    Rgis Boyer, o triskelion Viking teve origem celta (1981, p. 92). Hilda Davidson estabelece uma relao simblica entre a figura celta dos trs cornos com o Sol e o mundo subterrneo (1988: 51). 32. O renomado especialista Rgis Boyer interpreta a figura humana da runestone de Smiss at Nr como sendo um homem, mais especificamente o heri Gunnar (Gunther), que segundo a Edda teria morrido em um fosso com serpentes. Conf. Boyer, 1997b, figura da pgina XIII. Ns apresentamos uma proposta diferente. A maioria das figuras de Gunnar nas runestones, representam um homem de perfil, barbudo e com roupas masculinas. A figura de Smiss at Nr apresenta tranas, rosto sem barbas e o corpo frontal, em posio sentada e de pernas abertas. Uma imagem muito pouca masculina, do ponto de vista da sociedade escandinava! 33. Spakona: profetisa (Sp: Old Norse narrao do destino, profecia; Kona mulher); Vlva: mulher vidente. Seikona : mulher do ritual Seir. Conf. Old Norse Languages Institute: http://www.verbix.com/languages/oldnorse.shtml 34. Seg. Ed Richardson, Seir magic: www.phhine.ndirect.co.uk/archives/ess_seidr.htm Sobre o culto Seir ver ainda: Thomson, Sandra & Peturdsdottir, Kristin, Vefrett Volu: the oracle of the Vala: www.worlandi.com/public/1990/february/c14.cfm; Paxson, Diana. Sex, status, and Seidh: homosexuaty and germanic religion. Idunna n. 31, 1997: www.hrafnar.org/seidh/Sex-status-seidh.html; Boyer, 1981: 96, 144, 151, 188; DuBois, 1999: 122-138, 192-194, 209. Um dos melhores artigos sobre o papel da mulher na magia Viking Women and Magic in the Sagas www.vikinganswerlady.com 35. Sigurr O maior heri da mitologia germnica, Siegfried em alemo. Filho de Sigmundr, foi adotado pelo ferreiro Regin. O pai de Regin, Hreidmar, obtivera um tesouro do ano Andvari. Para se apoderarem do ouro, Regin e o irmo Ffnir mataram Hreidmar, mas Ffnir quis ficar com o tesouro s para si e transformou-se num drago para o guardar. Apunhalando o drago por baixo, Sigurr conseguiu mata-lo, conquistando a riqueza e a sabedoria dos anes. Conf. Cotterell, 1998: 224. 36. Ffnir Filho do mago Hreidmar, foi corrompido pelo anel amaldioado de Andvari. Cobiando o fabuloso anel do tesouro, matou o pai com o auxlio do irmo Regin. A ganncia deformou-lhe a natureza e o aspecto, tendo-se transformado num drago para guardar o seu tesouro. A lenda desta fortuna atraiu ao seu covil muitos heris anelantes em busca de fama e riqueza. A maioria deles sucumbiu na urze abrasiva que rodeava o covil de Ffnir, mas o jovem, armado com a espada do pai e guiado por Regin, venceu o drago e conquistou o tesouro aziago. Cotterell, 1998: 188. 37. Vlsunga Saga, annimo, Islndia sc. XIII. Original em Old Norse: Fornaldarsgur Norurlanda: http://server.fhp.uoregon.edu/Norse/ Todas as citaes seguintes em Old Norse foram retiradas desse texto e verso, e no citamos paginao pela inexistncia destas no site da Web. A traduo para o portugus de nossa autoria. 38. ORM (Old Norse: serpente, drago ou verme); WURM/GEWURM (Old German: verme, drago); WIVERE (Saxo: serpente). As palavras wurm e orm deram origem, respectivamente, a um tipo de drago na Idade Mdia: o LINDWORM (tambm chamado Lindwyrn, Lingworm, Lindorm, Longwyrm, Lindwurm e Longworm), que segundo a herldica seria uma besta com um par de patas e sem asas. Deve possuir relao com o Old Norse LYNGORMA. Outros tipos de drages medievais so o WYVERN/WVERM, que possui um par de patas e asas; GUIVRE, serpente com cabea de drago; AMPHIPTERE, drago sem patas mas com asas. Conf. Dragons http://www.fewsite.com/dragons.html; Dragons http://www.eaudrey.com/myth/dragons.htm; Draconic creatures in Heraldry http://www.polenth.demon.co.uk/myth/draconic.html; Dragons of the world http://www.igolddragon.com/europeandragons.htm Quanto aos idiomas modernos: Ingls moderno: worm - verme; ingls coloquial: wyrm/wurm: drago; Alemo: wurm verme; Noruegus: orm verme; Sueco: orm cobra. Percebe-se uma tendncia em perpetuar a expresso para seres sem patas, terrestres e que rastejam sobre a terra. Apesar disso, o sueco moderno conserva mais o sentido original do Old Norse. 39. Para detalhes do capacete de Vasgrde (Sucia) ver: Brown, 1999: 19-21; em relao ao elmo de Sutton Hoo (Inglaterra) consultar: Campbell, 1982: 69. 40. Nhggr Na mitologia germnica, era o drago que vivia numa das trs razes da rvore csmica Yggdrasill. O nevoeiro glido e a escurido de Niflheimr, o mais subterrneo dos nove mundos, onde habitava o drago, despedaando cadveres e comendo-os (...) Quando por vezes se fartava do sabor da carne morta, Nhggr roa a prpria raiz de Yggdrasill, provavelmente na esperana de infligir qualquer dano ao cosmos. Tanto Yggdrasill como Nhggr estavam destinados a sobreviver catstrofe final do Ragnark, a queda dos deuses e o fim do mundo. Nem o fogo nem o dilvio poderiam demover o drago de se banquetear regaladamente com a enorme e inesgotvel quantidade de mortos. Cotterell, 1998, p. 210. Segundo Marcelo Magalhes Lima (nota para a traduo brasileira da Edda em Prosa, 1993), Nhggr significa aquele que ataca e destri, 1993: 170. 41. Jrmungandr Na mitologia germnica, era a serpente filha de Loki, o deus do fogo, e da gigante do gelo Angrboda, e irm de Fenrir e Hel. inn ordenou que estas crianas monstruosas fossem raptadas e trazidas a sgarr. Depois, atirou Jrmungandr para o oceano, onde se tornou to comprida que envolveu

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    a terra, sendo conhecida como a Serpente de Migar. No Ragnark, Jrmungandr emergiria sobre a terra, para ser morta por rr Cotterell, 1998: 202. No Gylfaginning de Sturluson, o monstro ocenico Jrmungandr descrito com orminum e ormur (as mesmas terminologias que Ffnir) e Migarsormur (a serpente de Midgar). Por sua vez, para a besta Nhggr no utilizada nenhuma expresso ou terminologia descritiva, tanto na Gylfaginning (Prsaedda) quanto no Grmnisml. Desta maneira, o motivo pelo qual Nhggr considerado um drago por quase todos os mitlogos algo a ser futuramente desvelado por ns. A respeito de Nhggr como besta das profundezas e sua comparao com mitos indianos, consultar Dumzil, 2000: 193-194.