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MONOGRAFIA ATUALIZADA

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ESCOLA SUPERIOR DA MAGISTRATURA DO ESTADO DO PAR Centro Universitrio do Estado do Par (CESUPA)

O PROCESSO DE EXTRADIO DE CESARE BATTISTI E O PRINCPIO DE SEPARAO DOS PODERES

Flvio Snchez Leo

Belm-PA Maro - 2011

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Flvio Snchez Leo

O PROCESSO DE EXTRADIO DE CESARE BATTISTI E O PRINCPIO DE SEPARAO DOS PODERES

Monografia apresentada ao Curso de Ps-Graduao Lato Sensu em Direito Processual Penal. ESCOLA SUPERIOR DA MAGISTRATURA DO ESTADO DO PAR. Centro Universitrio do Estado do Par (CESUPA). Orientador: Pinheiro. Professor Dr. Jorge

Belm-PA Maro - 2011

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SUMRIO

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INTRODUO ----------------------------------------------------------------------5 EXTRADIO CONCEITO E FUNDAMENTOS BSICOS ----------6 EXTRADIO E PRISO --------------------------------------------------------8 EXTRADIO E REFGIO -----------------------------------------------------12 EXTRADIO E O PRESIDENTE DA REPBLICA ---------------------33 EXTRADIO E O TRATADO -------------------------------------------------42 CONCLUSO -----------------------------------------------------------------------44 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS -------------------------------------------46

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1. INTRODUO.

A presente monografia aborda o pedido de extradio de Cesare Battisti feito pela Repblica Italiana e que recebeu no Supremo Tribunal Federal a designao de Extradio n 1.085 da Repblica Italiana (BRASIL, 2009c). Battisti pertencia a um grupo de esquerda que optou pela luta armada na Itlia na dcada de 70. Ele foi acusado e condenado priso perptua em razo de quatro assassinatos, que, conforme o pedido da Itlia, teriam sido: homicdio premeditado do agente penitencirio Antonio Santoro, fato que aconteceu em Udine em 6 de junho de 1977; homicdio de Pierluigi Torregiani, ocorrido em Milo em 16 de fevereiro de 1979; homicdio premeditado de Lino Sabbadin, ocorrido em Mestre em 16 de fevereiro de 1979; homicdio premeditado do agente de Polcia, Andra Campagna, ocorrido em Milo em 19 de abril de 1979. Tendo-se foragido, Battisti esteve muitos anos na Frana, onde o expresidente francs Franois Mitterrand deu asilo poltico ao italiano. Com a eleio de Jacques Chirac, Battisti perdeu o asilo e fugiu de novo. Veio parar no Brasil, para quem a Itlia pediu sua extradio. Aps ter incio o processo de extradio perante o STF, o Ministro da Justia, Tarso Genro, concedeu a condio de refugiado ao italiano (BRASIL, 2009). Entretanto, no julgamento da extradio, de forma preliminar, o Supremo Tribunal Federal declarou a nulidade absoluta do ato do Ministro da Justia, afastando o bice para que se apreciasse o mrito do pedido de extradio. Por fim, o Supremo Tribunal Federal deferiu a extradio, mas a maioria dos Ministros fez com que se assentasse no Acrdo que a palavra final sobre a entrega do extraditando Itlia cabia ao Presidente da Repblica que no estaria vinculado deciso do Tribunal, mas teria de se ater aos termos do tratado assinado com o Estado requerente. Em deciso tomada no ltimo dia de seu mandato, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva negou a entrega do extraditando, fundamentado a deciso em parecer da Advocacia-Geral da Unio (BRASIL, 2010b).

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Porm, aps a deciso do Executivo, o Ministro Presidente do Supremo Tribunal Federal, indeferiu o pedido de libertao de Cesare Battisti (BRASIL, 2011), mandando desarquivar o processo de Extradio n 1.085 e remetendo os autos para o relator do caso, o Ministro Gilmar Mendes, reabrindo a discusso no seio do Supremo Tribunal Federal. O objetivo do presente trabalho no discutir se Battisti inocente ou culpado das acusaes, embora o Italiano negue ter cometido os crimes. No nosso objetivo, nem mesmo, discutir se foram crimes polticos ou comuns os cometidos. Nossa inteno apreciar como interfere no processo de extradio o princpio da separao de poderes. Investigar se a posio adotada pelo Supremo Tribunal Federal, tanto no que tange a ter declarado nula a concesso do refgio pelo Ministro da Justia, quanto, agora, que no liberta Cesare Battisti, mesmo aps a deciso da Presidncia da Repblica, respeita o princpio fundamental que a separao dos poderes na Repblica.

2. EXTRADIO CONCEITO E FUNDAMENTOS BSICOS.

A extradio o ato pelo qual um Estado entrega um indivduo, presente no seu territrio, acusado de um delito criminal ou j condenado como criminoso, justia de outro Estado, que o reclama e que competente para julg-lo e, caso j condenado, executar a pena aplicada, permitindo, assim, o julgamento de pessoas que cometeram ilcitos e deslocaram-se a outros pases para fugir de julgamento ou execuo da pena a que foram condenados. Quanto ao conceito de extradio, vale destacar a acepo de Francisco Rezek, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e ex-membro do Tribunal Internacional de Justia das Naes Unidas (Corte da Haia), em que este coloca em relevo o envolvimento do Poder Judicirio de ambos os estados, requerente e requerido (da extradio) na soluo do pedido, definindo que:

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extradio a entrega, por um Estado a outro e a pedido deste, de indivduo que, em seu territrio, deve responder a processo penal ou cumprir pena, cuidando-se de uma relao executiva, com envolvimento judicirio de ambos os lados: o governo requerente da extradio s toma essa iniciativa em razo da existncia de processo penal findo ou em curso - ante sua Justia; e o governo do Estado requerido [...] no goza, em geral, de uma prerrogativa de decidir sobre o atendimento do pedido seno depois de um pronunciamento da Justia local. (REZEK apud VELLOSO, 2003, p. 117)

Em nosso ordenamento jurdico a extradio abordada na Constituio Federal (BRASIL, 1988), no Estatuto do Estrangeiro - Lei 6.815/80 (BRASIL, 1980) - e no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal - STF (BRASIL, 2010). Segundo o art. 22, XV, da Constituio Federal de 1988, compete privativamente Unio legislar sobre extradio. A lei vigente sobre o tema o Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815/80). Duas disposies sobre extradio presentes na Constituio Federal consistem em garantias individuais, sendo, portanto, clusulas ptreas que no podem ser sujeitas emenda (Art. 60, 4, IV da CF). So os incisos LI e LII do art. 5, que dispem, o primeiro, que nenhum brasileiro ser extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalizao, ou de comprovado envolvimento em trfico ilcito de

entorpecentes e drogas afins, na forma da lei e, o segundo, que no ser concedida extradio de estrangeiro por crime poltico ou de opinio. O pedido de extradio, geralmente, funda-se num tratado entre os dois pases envolvidos. Em sua ausncia, pode ser concedido com base na reciprocidade, ou seja, no compromisso de que eventual pedido de entrega posterior do pas que atendeu extradio tambm ser atendido (art. 76 da Lei 6.815/80). A competncia para processar e julgar originariamente pedidos de extradio solicitados por Estado estrangeiro do STF, segundo o art. 102, I, g, da Constituio Federal de 1988. A concesso depende de prvio pronunciamento do plenrio do STF sobre sua legalidade e procedncia, no cabendo recurso da deciso (art. 83 da Lei 6.815/80).

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Entretanto, dispe a Constituio Federal, em seu art. 84, VII, que compete privativamente ao Presidente da Repblica manter relaes com Estados estrangeiros. Donde surge a questo jurdica que aqui ser abordada, pois ponto polmico do caso Cesare Battisti, a respeito de que a efetiva concesso da medida de extradio, com a entrega do estrangeiro, da competncia exclusiva do Chefe de Estado, limitando-se a deciso do STF apreciar a legalidade do pedido. A questo se tornou crucial com a negativa do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva em entregar o extraditando para a Itlia. De antemo possvel afirmar que impossvel a extradio se o Supremo Tribunal Federal indeferir o pedido, ainda que o Presidente da Repblica quisesse efetiv-la, sob pena de violao de uma competncia da Excelsa Corte (art. 102, I, g, da Constituio Federal de 1988).

3. EXTRADIO E PRISO.

Segundo o art. 80 da Lei 6.815/80 a extradio ser requerida por via diplomtica, ou na falta de agente diplomtico, diretamente de governo a governo. Recebido o pedido, o Ministrio das Relaes Exteriores o enviar ao Ministrio da Justia, que o remeter ao Supremo Tribunal Federal (art. 81 da Lei 6.815/80). A priso que poderia ser ordenada pelo Ministro da Justia, conforme previa o mesmo art. 81 da Lei 6.815/80, foi derrogada pela Constituio Federal de 1988. Ainda dispe a Lei 6815/80 que o Ministrio da Justia ordenar a priso do extraditando, colocando-o disposio do Supremo Tribunal Federal, porm, promulgada em 1988, a Constituio Federal, ao tratar dos Direitos e Garantias Fundamentais, assegura ningum ser preso seno em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciria competente, salvo nos casos de transgresso militar ou crime propriamente militar, definidos em lei (CF, art. 5, inciso LXI).

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A Jurisprudncia do STF confirma a revogao do referido dispositivo em deciso unnime do Tribunal Pleno, em pedido de Habeas Corpus de extraditando:Ementa: - Priso de Extraditando: artigos 80 e 81 da Lei n 6815/80, de 19.08.1980, alterada pela Lei 6.964, de 09 de 12.1981. [...] O art. 81 da Lei 6815, de 19.08.1980, alterada pela Lei 6964, de 09.12.1981, atribua ao Ministro da Justia o poder de decretar a priso do extraditando. Tal norma ficou, nesse ponto, revogada pelo inciso LXI do art. 5 da Constituio Federal de 1988, em razo do qual, excetuadas as hipteses referidas, ningum ser preso seno por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciria competente. 3. Tal competncia passou, ento, para o Ministro do Supremo Tribunal Federal, a quem caber, tambm, relatar o pedido de Extradio, conforme decidiu o S.T.F. (RTJ 127/18). [...]. (BRASIL, 1996)

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