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Monografia - Natalia Langenegger

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Text of Monografia - Natalia Langenegger

  • Natalia Langenegger

    RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURDICA:

    O ordenamento jurdico brasileiro est preparado

    para reconhec-la?

    Monografia apresentada Escola de

    Formao da Sociedade Brasileira

    de Direito Pblico SBDP, sob a

    orientao da Professora Marta

    Rodriguez de Assis Machado.

    SO PAULO

    2009

  • 2

    Sumrio

    1. Introduo ......................................................................................4

    1.1 Delimitao do tema .......................................................................6

    2. Metodologia....................................................................................8

    3. O STF e a Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica .......................... 13

    4. HC 92921-4: O STF tentou estabelecer critrios para viabilizar a RPPJ? 16

    5. Como decidem os Tribunais Brasileiros sobre a RPPJ? ......................... 23

    5.1. Possibilidade de haver Responsabilidade Penal de Pessoa Jurdica ..... 24

    5.1.1. RPPJ est expressamente prevista no artigo 225, 3 da CF .......... 25

    5.1.2. A Lei n 9.605/98 regulamentou a RPPJ ...................................... 27

    5.1.3. Conformidade com a jurisprudncia ............................................ 28

    5.1.4. Natureza jurdica da pessoa jurdica ............................................ 29

    5.1.5 Importncia do bem jurdico tutelado ........................................... 31

    5.1.6. Potencial agressor da pessoa jurdica .......................................... 32

    5.1.7. A RPPJ prevista na Lei 9.605/98 invivel ................................... 33

    5.1.8. Impossvel haver RPPJ para Pessoa Jurdica de Direito Pblico ........ 35

    5.2. Possibilidade de impetrar habeas corpus em favor de pessoa jurdica . 36

    5.2.1. No possvel impetrar habeas corpus em favor de pessoa jurdica 37

    5.2.2. possvel impetrar habeas corpus em favor de pessoa jurdica ...... 38

    5.3. Possibilidade de impetrar mandado de segurana em favor de pessoa

    jurdica .......................................................................................... 39

    5.4. Necessidade de imputao simultnea da pessoa jurdica e da pessoa

    fsica ............................................................................................. 41

    5.5. Penas aplicveis pessoa jurdica ................................................. 47

    5.5.1. Penalidades previstas para a pessoa jurdica na Lei 9.605/98 so

    viveis ........................................................................................... 47

    5.5.2. Penalidades previstas para a pessoa jurdica na Lei 9.605/98 so

    inviveis ........................................................................................ 50

    5.6. RPPJ e sucesso de empresas ....................................................... 54

    5.7. Requisitos da denncia em crimes envolvendo pessoa jurdica .......... 55

    6. HC 92921-4 e a jurisprudncia dos Tribunais brasileiros...................... 58

    6.1. Possibilidade de conceder habeas corpus em favor de pessoa jurdica 58

  • 3

    6.1.1. Tese vencedora - no possvel deferir habeas corpus em favor de

    pessoa jurdica ............................................................................... 58

    6.1.2. Tese vencida - possvel deferir habeas corpus em favor de pessoa

    jurdica .......................................................................................... 59

    6.2. Possibilidade de haver RPPJ .......................................................... 60

    6.3. Possibilidade de impetrar mandado de segurana em favor de pessoa

    jurdica .......................................................................................... 61

    6.4. O julgamento do HC 92.921-4 influenciou o posicionamento dos demais

    Tribunais? ...................................................................................... 62

    7. Concluso ..................................................................................... 63

    8. Bibliografia .................................................................................... 68

  • 4

    1. Introduo

    A responsabilidade penal da pessoa jurdica - RPPJ um tema que

    ainda hoje desperta muita controvrsia entre os estudiosos do direito penal.

    Isto porque a pessoa jurdica tem assumido cada vez mais um papel

    determinante dentro da sociedade e, depois do seu reconhecimento como

    ente personalizado capaz de praticar atos da vida civil, tem permitido

    indivduos a se abrigarem debaixo de seu manto protetor1 para realizarem

    condutas delituosas.

    Sendo certo que o direito penal no permite a responsabilizao

    objetiva, muitas vezes condutas ilcitas restam impunes pelo fato de ser

    difcil individualizar dentro das grandes corporaes a responsabilidade das

    pessoas fsicas que tenham determinado a realizao do fato criminoso (ou

    que tenham restado inertes frente a obrigaes legais).

    Essa realidade, somada ao poderio financeiro das empresas, deu

    ensejo ao nascimento do fenmeno da criminalidade econmica, que atenta

    geralmente contra direitos difusos, coletivos e individuais homogneos,

    como os exemplos da ordem econmica, do meio ambiente e das relaes

    de consumo.

    A necessidade de desestimular referidas prticas fez com que

    internacionalmente os estudiosos de direito penal buscassem uma forma de

    punir as pessoas jurdicas pela prtica de ilcitos penais. Em diversos pases,

    tais como o Canad, a Frana, a Sua, a Espanha, o Japo, o Mxico, Cuba

    e Holanda, a soluo adotada foi a atribuio de responsabilidade penal

    pessoa jurdica.

    No Brasil, onde o sistema penal inteiramente baseado na

    responsabilidade individual, ainda h muita resistncia em aceitar a

    responsabilizao penal de pessoas jurdicas. Entretanto, a Constituio

    Federal de 1988 abriu espao para essa nova realidade ao dispor nos

    artigos 173,5 e 225, 3, respectivamente, que:

    1 ROCHA, Fernando A. N. Galvo da Rocha: Responsabilidade Penal da Pessoa jurdica, in Revista de Direito Ambiental n 27, ano 7. So Paulo: Editora Revista dos tribunais, 2002; pg. 70.

    Guilherme PereiraHighlight

  • 5

    A lei, sem prejuzo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurdica, estabelecer a responsabilidade desta, sujeitando-a s punies compatveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econmica e

    financeira e contra a economia popular., e

    As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitaro os infratores, pessoas fsicas ou jurdicas, a sanes penais e administrativas, independentemente da obrigao de reparar os danos

    causados.

    Ainda assim a responsabilidade penal da pessoa jurdica no

    ordenamento ptrio continuou a enfrentar grande resistncia pela doutrina.

    A despeito disso, o legislador infraconstitucional editou uma lei que a

    recepciona e regulamenta: a Lei de Crimes Ambientais, n 9.605/98.

    Referida Lei determinou em seu artigo 3 que a pessoa jurdica

    poder responder penalmente pela prtica de crimes ambientais, e nos

    artigos 212, 223, 234 e 245 elencou as penas que lhe sero aplicadas. S.

    Muito embora o sistema penal brasileiro esteja todo fundado na

    antiga teoria do crime, baseada na conduta humana, o legislador

    infraconstitucional se preocupou to somente em estabelecer as

    penalidades que sero impostas pessoa jurdica. Assim sendo, no

    surpreendentemente, a incluso despreparada desse novo sujeito no direito

    2 As penas aplicveis isolada, cumulativa ou alternativamente s pessoas jurdicas, de acordo com o disposto no art. 3, so: I - multa; II - restritivas de direitos; III - prestao de servios comunidade. 3 As penas restritivas de direitos da pessoa jurdica so: I - suspenso parcial ou total de atividades; II - interdio temporria de estabelecimento, obra ou atividade; III - proibio de contratar com o Poder Pblico, bem como dele obter subsdios, subvenes ou doaes. 1 A suspenso de atividades ser aplicada quando estas no estiverem obedecendo s disposies legais ou regulamentares, relativas proteo do meio ambiente. 2 A interdio ser aplicada quando o estabelecimento, obra ou atividade estiver funcionando sem a devida autorizao, ou em desacordo com a concedida, ou com violao de disposio legal ou regulamentar. 3 A proibio de contratar com o Poder Pblico e dele obter

    subsdios, subvenes ou doaes no poder exceder o prazo de dez anos.

    4 A prestao de servios comunidade pela pessoa jurdica consistir em: I - custeio de programas e de projetos ambientais; II - execuo de obras de recuperao de reas

    degradadas; III - manuteno de espaos pblicos; IV - contribuies a entidades ambientais ou culturais pblicas. 5 A pessoa jurdica constituda ou utilizada, preponderantemente, com o fim de permitir, facilitar ou ocultar a prtica de crime definido nesta Lei ter decretada sua liquidao forada, seu patrimnio ser considerado instrumento do crime e como tal perdido em favor do Fundo Penitencirio Nacional.

    Guilherme PereiraHighlight

  • 6

    penal tem gerado diversas dvidas e dificuldades na operao do processo

    crime.

    exatamente em torno dessa problemtica que se funda o presente

    estudo. Deseja-se descobrir se o sistema penal brasileiro est realmente

    preparado para receber a responsabilidade penal da pessoa jurdica e qual o

    posicionamento dos tribunais brasileiros sobre o assunto.

    1.1 Delimitao do tema

    No bastasse o conflito doutrinrio em torno da possibilidade de

    haver responsabilidade penal de pessoa jurdica, o legislador

    infraconstitucional editou Lei determinando que a pessoa jurdica poder

    praticar crime, sem ao menos fixar conceitos e estabelecer instrumentos

    legislativos aptos a torn-la vivel.

    Em razo disso, possvel afirmar que a RPPJ se encontra em um

    vcuo legislativo, pois o ordenamento jurdico ptrio padece de normas

    nas quais ela pode incontroversamente se apoiar.

    Dois exemplos que ilustram esta realidade so a dificuldade de fixar

    pena para a pessoa jurdica e a ausncia de instrumento processual apto a

    tutelar seus direitos em processo crime.

    No h na Lei de Crimes Ambientais qualquer indicativo de como

    realizar o clculo da pena de uma pessoa jurdica. Assim sendo, quando do

    julgamento de ao penal movida em face de pessoa jurdica, o magistrado

    ser obrigado a aplicar as regras constantes do artigo 59 do Cdigo Penal,

    que so:

    O juiz atento culpabilidade, aos antecedentes, conduta social, personalidade do agente, aos motivos, s circunstncias e consequncias do crime, bem como ao comportamento da vtima, estabelecer conforme seja necessrio e suficiente para reprovao e preveno do crime (...)

    Verifica-se, pois, que dentre os elementos a serem considerados no

    clculo da pena est a culpabilidade, que para muitos elemento subjetivo

    prprio do ser humano. Nesse sentido, como dever proceder o julgador?

    Guilherme PereiraHighlight

    Guilherme PereiraHighlight

    Guilherme PereiraHighlight

  • 7

    Quais elementos relacionados ao crime praticado por pessoa jurdica sero

    observados na quantificao da pena?

    Bem assim, a Lei tambm no estabeleceu qual instrumento

    processual dever ser utilizado quando a pessoa jurdica estiver sofrendo

    injusta coao no curso de processo-crime. Ser possvel lanar mo do

    Habeas Corpus? Ou seria o Mandado de Segurana a via adequada? A quem

    cabe determinar isso?

    Estas e outras dvidas chegaram ao poder judicirio, que est sendo

    forado a adotar um posicionamento: ou declara a inviabilidade de

    responsabilizar penalmente a pessoa jurdica na atual conjuntura do sistema

    penal, ou flexibiliza conceitos e procedimentos para viabilizar o

    processamento de ao penal em face de pessoa jurdica.

    Inclusive, aos poucos essas questes esto sendo encaminhadas ao

    Supremo Tribunal Federal - STF que, enquanto guardio da Constituio,

    dever posicionar-se sobre a constitucionalidade da responsabilidade penal

    da pessoa jurdica, verificar se esse vcuo legislativo afronta direitos e

    garantias fundamentais da pessoa jurdica e de seus dirigentes, e decidir se

    competir ao Poder Judicirio estabelecer os critrios para viabilizar a

    responsabilidade penal da pessoa jurdica prevista na Lei de Crimes

    Ambientais.

    Assim sendo, alm de identificar quais problemas decorrentes da

    previso da RPPJ pela Lei de Crimes Ambientais esto sendo encaminhados

    ao Poder Judicirio brasileiro, deseja-se desvendar qual o posicionamento j

    adotado pelo Supremo Tribunal Federal e confront-lo com as respostas

    oferecidas pelos demais Tribunais.

  • 8

    2. Metodologia

    A idia inicial para a elaborao do presente estudo era verificar

    como o Supremo Tribunal Federal se posiciona frente aos diversos

    questionamentos que lhe so propostos referentes Responsabilidade Penal

    da Pessoa Jurdica.

    Para tanto, realizou-se busca no campo de pesquisa jurisprudencial

    do site do STF6 com as seguintes palavras-chave: responsabilidade penal

    da pessoa jurdica, responsabilidade penal e pessoa jurdica,

    responsabilidade penal e pessoa e jurdica, crime ambiental e

    responsabilidade, ambiental e responsabilidade, e ambiental e pessoa

    jurdica.

    Dos acrdos e decises monocrticas encontrados, foi possvel

    identificar trs tendncias temticas: (i) julgados que versam sobre a

    responsabilidade penal de dirigentes da pessoa jurdica, (ii) julgados que

    somente abordam questes processuais no diretamente relacionadas

    Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica (exemplo: deciso que nega

    seguimento ao Recurso Extraordinrio por entender que a matria versada

    na controvrsia trata de ofensa reflexa constituio); e (iii) julgados que

    abrangem questes diretamente relacionadas Responsabilidade Penal da

    Pessoa Jurdica.

    Tendo em vista que a pesquisa buscava analisar especificamente a

    relao entre a pessoa jurdica e o direito penal, apenas as decises

    constantes da terceira tendncia temtica foram selecionadas. Isto porque

    as matrias abrangidas pelas demais tendncias no analisavam

    diretamente aspectos referentes RPPJ ou versavam unicamente sobre a

    relao entre pessoas fsicas e o direito penal.

    Ocorre que, dentre as decises encontradas na terceira tendncia

    temtica, somente uma efetivamente questiona e debate aspectos da RPPJ:

    o Habeas Corpus n 92.921-4. As demais decises abordam muito

    brevemente o tema, no constituindo material suficiente para pesquisa.

    6 www.stf.jus.br

  • 9

    Somando-se a isso, HC 92.921-4 no representa o posicionamento de

    todo o Supremo Tribunal Federal, uma vez que fora julgado por Turma. Em

    outras palavras, referido Habeas Corpus no foi levado a plenrio, tendo

    sido apreciado por apenas cinco Ministros.

    A despeito disso, o HC 92.921-4 no deixa de ser importante deciso

    proferida pelo STF. No somente se trata da primeira manifestao efetiva

    da Corte acerca da Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica, como

    demonstra a preocupao de alguns Ministros com o fato do sistema penal

    brasileiro ainda no estar plenamente aparelhado para reconhecer a

    responsabilidade penal da pessoa jurdica.

    Nesse contexto, optou-se por modificar o escopo da pesquisa,

    tomando o Habeas Corpus 92.921-4 como referencial. O estudo buscar

    verificar comparativamente o posicionamento do STF com o dos demais

    Tribunais brasileiros em relao insero de pessoas jurdicas no plo

    passivo de aes penais enquanto o ordenamento jurdico ainda no est

    devidamente aparelhado para tanto.

    Assim, as perguntas desta pesquisa passaram a ser: (i) Quais

    problemticas decorrentes dessa falta de aparelhamento do sistema penal

    brasileiro esto sendo propostas ao Poder Judicirio?; (ii) Quais solues

    esto sendo adotadas?; (iii) No julgamento do HC 92.921-4 o STF tentou

    estabelecer critrios para viabilizar a RPPJ?; e (iv) Houve alterao no

    posicionamento dos demais tribunais depois dessa deciso?

    Objetivando alcanar uma resposta a estes questionamentos com a

    observncia de um rigor metodolgico, a pesquisa foi dividida em quatro

    etapas, que sero elucidadas abaixo.

    A primeira etapa do trabalho consistiu na anlise qualitativa do

    Habeas Corpus n 92.921-4. Neste momento, foi realizado o levantamento

    dos argumentos apresentados por cada Ministro, bem como buscou-se

    identificar se eles tentaram flexibilizar conceitos e procedimentos penais

    para viabilizar a responsabilizao penal de pessoa jurdico no ordenamento

    jurdico ptrio.

  • 10

    Na segunda etapa da pesquisa foi realizado o levantamento de

    acrdos e decises monocrticas proferidas por todos os Tribunais

    brasileiros sobre questes relacionadas RPPJ. A busca pelos julgados foi

    realizada no banco de dados disponibilizado pelos Tribunais na internet7, por

    meio da ferramenta de pesquisa jurisprudencial.

    Para tanto, foram utilizadas as mesmas palavras-chave

    anteriormente empregadas na busca de decises sobre RPPJ no site do

    Supremo Tribunal Federal. Entretanto, constatou-se que em alguns

    Tribunais a maioria das ocorrncias encontradas no era relacionada ao

    tema objeto de pesquisa ou possua pessoa jurdica no plo passivo de

    aes penais, mas sem haver referncia alguma Responsabilidade Penal

    de Pessoa Jurdica.

    Assim, optou-se por empregar palavras-chaves menos abrangentes,

    mas que selecionassem a totalidade das decises que tratam

    especificamente da responsabilidade penal da pessoa jurdica prevista na Lei

    9.605/98 e no artigo 225, 3, da Constituio Federal. As palavras-chaves

    que melhor corresponderam a essas exigncias foram: {responsabilidade

    penal e pessoa jurdica e ambiental} e {responsabilizao penal e

    pessoa jurdica e ambiental}8.

    Realizada a busca, verificou-se uma enorme variao no nmero de

    acrdos obtidos em cada Tribunal. Enquanto no Tribunal de Justia do

    Estado de Santa Catarina foram encontradas 60 decises, nos Tribunais de

    Justia dos Estados do Cear, da Paraba, de Pernambuco, de Sergipe, de

    Piau, de Tocantins, de Alagoas, do Maranho, do Amazonas, do Acre e de

    Roraima no foi encontrada nenhuma deciso. Ainda, noutros Tribunais de

    7 www.tjsp.jus.br, www.tjrj.jus.br, www.tjmg.jus.br, www.tj.es.gov.br, www.tj.mt.gov.br, www.tjms.jus.br, www.tjgo.jus.br, www.tjpr.jus.br, www.tjsc.gov.br, www.tjrs.jus.br, www.tjrr.jus.br, www.tjdft.jus.br, www.tj.to.gov.br, www.tjpi.jus.br, www.tjba.jus.br,

    www.tjse.jus.br, www.tjce.jus.br, www.tjpe.jus.br, www.tjpb.jus.br, www.tj.pa.gov.br, www.tjrn.jus.br, www.tj.al.gov.br, www.tjma.jus.br, www.tjam.jus.br, www.tjac.jus.br,

    www.tj.ro.gov.br, www.trf1.jus.br, www.trf2.jus.br, www.trf3.jus.br, www.trf4.jus.br, www.trf5.jus.br, www.stj.jus.br. 8 No site de alguns Tribunais no possvel fazer uso de aspas na ferramenta de busca jurisprudencial. Nesses casos, as palavras-chaves foram inseridas sem as aspas.

  • 11

    Justia, como os do Estado de Gois, do Par, da Bahia, e do Mato Grosso

    do Sul, somente uma deciso foi encontrada.

    Esta enorme diferena se deve ao fato dos Tribunais, por vezes, no

    disponibilizarem todas suas decises no banco de dados de seu stio

    eletrnico, e muitas vezes apresentarem mecanismos de busca no

    confiveis9.

    Assim, reconhece-se que o universo de decises obtidas no

    representa a totalidade de decises j proferidas pelos Tribunais brasileiros

    sobre o assunto.

    Enfim, a pesquisa no site dos Tribunais foi realizada entre os dias 20

    e 26 de outubro de 2009, e o nmero total de decises encontradas foi

    23810.

    Devido grande quantidade de decises obtidas, foi necessrio

    realizar um recorte temporal: tendo em vista que se desejava confrontar o

    resultado e a argumentao dessas decises com o HC 92.921-4, optou-se

    por tom-lo como referncia e analisar todas as decises cuja data de

    julgamento foi 1 ano e 2 meses antes ou depois de seu julgamento pelo

    STF11. Ou seja, o universo de pesquisa foi composto por 90 julgados,

    acrdos e decises monocrticas, proferidos entre 12 de junho de 2007 e

    26 de outubro de 2009.

    9 H uma pesquisa realizada que, para justificar suas escolhas metodolgicas, busca constatar o nvel de transparncia e a forma como as informaes so disponibilizadas no

    banco de dados do site de cada um dos Tribunais brasileiros. Vide Projeto de Pesquisa: Arbitragem e o Poder Judicirio. Parceria institucional acadmico-cientfica da Escola de Direito de So Paulo da Fundao Getlio Vargas (Direito GV) e do Comit Brasileiro de Arbitragem (CBAr), in Revista Brasileira de Arbitragem, ano IV, n.19. So Paulo. 10 Foram encontradas 3 (trs) decises no Tribunal de Justia do Estado do Rio Grande do Norte, 19 (dezenove) no Tribunal de Justia do Estado de Minas Gerais, 6 (seis) no Tribunal de Justia do Estado do Rio de Janeiro, 37 (trinta e sete) no Tribunal de Justia do Estado de

    So Paulo, 4 (quatro) no Tribunal de Justia do Estado de Rondnia, 11 (onze) no Tribunal de Justia do Mato Grosso, 7 (sete) no Tribunal de Justia do Estado do Paran, 5 (cinco) no Tribunal de Justia do Estado do Rio Grande do Sul, 2 (duas) no Tribunal de Justia do Distrito Federal e Territrios, 23 (vinte e trs) no Tribunal Regional Federal da Primeira Regio, 17 (dezessete) no Tribunal Regional Federal da Segunda Regio, e (trs) no Tribunal

    Regional Federal da Terceira Regio, 11 (onze) no Tribunal Regional da Quarta Regio, e 4 (quatro) no Tribunal Regional Federal da Quinta Regio, e 21 (vinte e uma) decises no

    Superior Tribunal de Justia. 11 Esse recorte temporal levou em conta o tempo entre a data do julgamento do HC 92.921-4 e o ltimo dia de coleta de decises. Procurou-se repetir o mesmo perodo para as decises proferidas antes do julgamento do referido HC.

  • 12

    J a terceira etapa da pesquisa consistiu na anlise quantitativa dos

    acrdos e decises monocrticas coletados na segunda etapa. Reunidos os

    julgados, eles foram tabulados de forma a identificar os seguintes dados: (i)

    nmero do processo; (ii) classe processual; (iii) Tribunal; (iv) rgo

    julgador; (v) demandante; (vi) demandado; (vii) data do julgamento; (viii)

    houve unanimidade?; (viii) quais assuntos foram abordados?; (ix) deciso

    recorrida; (x) pedido; (xi) argumentao; (xii) artigos da Lei 9.605/98

    citados; (xiii) outras normas citadas; (xiv) deciso; (xv) precedentes; e

    (xvi) outros12.

    Ato contnuo, os julgados foram divididos em grupos temticos,

    dentro dos quais foram separados e quantificados os argumentos

    encontrados, bem como foram computados os resultados finais de cada

    julgamento para ser possvel obter um panorama geral do posicionamento

    dos tribunais sobre as questes relacionadas Responsabilidade Penal da

    Pessoa Jurdica.

    Por fim, na quarta etapa do trabalho foram cruzados os dados obtidos

    na primeira e na segunda fase da pesquisa, de modo a tentar identificar

    uma possvel mudana no posicionamento dos Tribunais aps o julgamento

    do HC 92.921-4.

    12 Esse ltimo campo da tabela somente para anotaes do pesquisador.

  • 13

    3. O STF e a Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica

    Conforme foi informado no captulo metodolgico, ainda no foram

    proferidas muitas decises pelo Supremo Tribunal Federal que tenham

    enfrentado substancialmente qualquer aspecto da Responsabilidade Penal

    da Pessoa Jurdica.

    A despeito disso, na pesquisa inicial realizada no site do STF, foi

    possvel identificar 6 (seis) decises que, muito embora tratem

    superficialmente da RPPJ, podero ser utilizadas como indicativo de futuro

    posicionamento da corte sobre o assunto. Este tpico do trabalho se

    preocupar em analisar referidas decises.

    H duas decises, HC 83301-2 e RHC 85658-6, em que o Ministro

    Cezar Peluso se manifesta expressamente contra a possibilidade de haver

    RPPJ, consoante se verifica pelo trecho de acrdo abaixo transcrito:

    Ora, como sabe toda a gente, empresas no cometem crimes. Em nosso sistema penal, a despeito do que estatui a Lei 9.605/98, vige o princpio da societas delinquere non potest, sendo a responsabilidade penal pessoal e, mais que

    isso, subjetiva. 13

    Nessas decises o Ministro claramente afirma que a Lei de Crimes

    Ambientais (Lei n 9.605/98) est em desconformidade com princpio

    vigente em nosso ordenamento jurdico, qual seja, o da societas delinquere

    non potest14.

    A partir desse posicionamento, natural que se espere por duas

    declaraes futuras do ministro: (a) a RPPJ no est prevista no artigo 225,

    3 da Constituio, e (b) a Lei de Crimes ambientais inconstitucional.

    Entretanto, no somente essas declaraes so apenas suposies,

    como o debate nessas decises girava em torno de outro assunto - a

    responsabilidade penal de dirigente de pessoa jurdica pelo cometimento de

    crimes societrios.

    13 HC 83301-2/RS, julgado em 16.03.2004. Min. Rel. Marco Aurlio e RHC 85658-6/ES, julgado em 21/06/2005. Min. Relator: Cezar Peluso. 14 O princpio do societas delinquere non potest determina que pessoa jurdica no poder delinquir.

  • 14

    Os 4 (quatro) demais casos encontrados foram todos proferidos em

    Habeas Corpus, sendo que trs cuidamse de deciso liminar, e apenas um

    foi exarado em momento de cognio exauriente.

    O primeiro HC, n 8.6001, foi impetrado em favor de pessoa jurdica e

    dois de seus dirigentes contra deciso que denegou o pedido de

    trancamento da ao penal. O Ministro Relator, Gilmar Mendes, concedeu

    liminarmente a ordem requerida para suspender a ao penal de primeira

    instncia, por entender ser plausvel o direito invocado pelas partes.

    O segundo HC, n 88544, foi impetrado em favor de pessoas fsicas

    contra deciso que denegou ordem de Habeas Corpus para exclu-los do

    plo passivo de ao penal movida contra a pessoa jurdica da qual so

    dirigentes. O ministro relator, Ricardo Lewandoski, deferiu liminar para

    impedir que fosse proferida deciso definitiva no processo de primeira

    instncia antes do julgamento final do HC. , sob a justificativa de que na

    atual configurao constitucional, possvel, em tese, a responsabilizao

    penal da pessoa jurdica, segundo o sistema da dupla imputao e em bases

    epistemologicamente diversas das utilizadas tradicionalmente.

    O terceiro HC, n 88747, tambm impetrado em favor de dirigente de

    pessoa jurdica, foi rejeitado liminarmente pelo ministro Cezar Peluso, sob a

    seguinte argumentao: (...) a ao penal no foi instaurada contra o

    paciente, mas, sim, contra a pessoa jurdica de que ele representante

    legal e que, nos termos dos incs. do art. 21 da Lei n 9.605/98, somente

    poder ser punida com multa, pena restritiva de direitos e/ou prestao de

    servios comunidade. Dessa forma, no vislumbro interesse que legitime

    o paciente ao uso de HC, pois inexiste risco de constrangimento ilegal sua

    liberdade de locomoo em razo da Ao Penal.

    O ltimo Habeas Corpus, n 92921-4, ser analisado mais

    detidamente no prximo captulo.

    Verifica-se nas decises acima tratadas um tmido posicionamento da

    Corte sobre o tema da Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica. O

    Ministro Gilmar Mendes, ainda que em momento de cognio sumria e sem

  • 15

    enfrentar diretamente a possibilidade de haver RPPJ, entendeu ser possvel

    conceder ordem de Habeas Corpus para pessoa jurdica.

    Bem assim, o Ministro Ricardo Lewandowski, afirmou ser possvel

    responsabilizar criminalmente uma pessoa jurdica, mas desde que

    respeitado o princpio da dupla imputao.

    J o Ministro Cezar Peluso determinou ser impossvel conceder ordem

    de Habeas Corpus em favor de dirigente de empresa quando a pessoa

    jurdica for o sujeito passivo da ao penal. Ainda que em primeira instncia

    haja imputao de crime pessoa jurdica, a argumentao utilizada pelo

    Ministro neste julgado diz respeito unicamente pessoa fsica.

  • 16

    4. HC 92921-4: O STF tentou estabelecer critrios para viabilizar a

    RPPJ?

    O Habeas Corpus 92.921-4 / BA foi impetrado em favor de Curtume

    Campelo S/A e seus diretores em face de deciso proferida pela 5 Turma

    do Superior Tribunal de Justia, que denegou a ordem de Habeas Corpus

    (n 61.199 / BA), sob a justificativa de que o trancamento de ao penal

    por esta via processual somente seria cabvel quando manifesta a

    atipicidade da conduta, a extino da punibilidade ou a ausncia de indcios

    de autoria e prova de materialidade, o que no se verificava no caso.

    O objetivo dos pacientes era o deferimento de liminar para a

    suspenso da ao penal de primeira instncia at o julgamento do Habeas

    Corpus e, ao final, a concesso de ordem definitiva para seu trancamento.

    O Ministro Relator, Ricardo Lewandowski, em momento de cognio

    sumria, entendeu presentes o periculum in mora e o fumus boni iuris,

    motivo pelo qual determinou o sobrestamento liminar da ao penal.

    Levada a ao para a apreciao da turma julgadora, composta

    tambm pelos ministros Marco Aurlio, Carmen Lcia, Menezes Direito e

    Carlos Ayres Britto, decidiu-se por excluir a pessoa jurdica do Habeas

    Corpus, quer considerada a qualificao como impetrante, quer como

    paciente. O Ministro relator restou vencido no caso.

    O Ministro Ricardo Lewandowski, cujo voto foi favorvel concesso

    de ordem de Habeas Corpus em favor de pessoa jurdica, fundamentou sua

    deciso em torno da falta de aparelhamento do sistema penal para receber

    a responsabilidade penal da pessoa jurdica.

    Inclusive, iniciou seu voto com as seguintes afirmativas: nosso

    sistema penal ainda no est plenamente aparelhado para reconhecer a

    responsabilidade penal da pessoa jurdica e conquanto tenha o art. 225 ,

    3, da Constituio Federal feito expressa meno responsabilidade

    penal da pessoa jurdica, inexistem instrumentos legislativos, estudos

  • 17

    doutrinrios ou precedentes jurisprudenciais, aptos a coloc-la em prtica,

    sobretudo de modo consentneo com as garantias do processo penal.

    A despeito de reconhecer estar a RPPJ expressamente prevista na

    Constituio, afirma ser invivel processar criminalmente pessoa jurdica

    sem que haja um microssistema prprio para tanto. Assim sendo, entende

    que enquanto no forem criadas normas penais e processuais penais

    especficas para a RPPJ, no pode pessoa jurdica figurar no plo passivo de

    ao penal.

    Outrossim, argumenta que a pessoa jurdica pode figurar como

    paciente em Habeas Corpus conjuntamente com pessoa fsica, uma vez que

    o artigo 3 da Lei 9.605/98 determina ser necessria a dupla imputao

    (responsabilizao simultnea da pessoa jurdica com a pessoa fsica que

    realizou ou determinou a realizao do ato). Em sendo as pessoas fsica e

    jurdica rs em um mesmo processo-crime, podem tambm as duas

    figurarem conjuntamente como pacientes em Habeas Corpus.

    Nessa mesma linha, afirma que a exigncia de dupla imputao

    importa em ofensa reflexa liberdade de locomoo do dirigente da pessoa

    jurdica. Desta forma, e reconhecendo que a pessoa jurdica no possui

    liberdade de locomoo, o Ministro defende que o Habeas Corpus abarcaria

    os efeitos reflexos que recairo sobre a pessoa fsica decorrentes de sua

    imputao em processo-crime.

    Mais adiante, abriu debate sobre a possibilidade da jurisprudncia

    construir uma evoluo no referido instrumento processual. Para tanto,

    apresentou dois exemplos em que a jurisprudncia ampliou conceitos para

    permitir pessoa jurdica direitos que antes eram tidos como exclusivos dos

    seres humanos: a assistncia judiciria gratuita e o dano moral.

    Para concluir seu voto, afirmou:

    apenas o que me causa uma certa perplexidade - quero assinalar isso como ltimas palavras minhas o seguinte: Uma ao penal instaurada sem justa causa, flagrantemente sem justa causa, exclusivamente contra uma pessoa jurdica no encontrar remdio em nosso ordenamento jurdico.

  • 18

    O segundo Ministro a se manifestar foi o Marco Aurlio, que se

    posicionou contrariamente possibilidade de conceder Habeas Corpus para

    pessoa jurdica. Em seu voto o Ministro defende categoricamente que o

    Habeas Corpus tutela exclusivamente a liberdade de locomoo e que a

    pessoa jurdica jamais poder sofrer reprimenda a essa liberdade.

    No somente argumenta que a liberdade de locomoo exclusiva do

    ser humano, como afirma que as penas previstas na Lei de Crimes

    Ambientais para pessoas jurdicas no colocam em risco tal liberdade.

    Desta forma, defende que para impedir que sanes penais recaiam

    sobre a esfera de direitos das pessoas jurdicas a via apropriada a

    tradicionalmente utilizada para contestar uma deciso judicial, qual seja, o

    Recurso.

    Para refutar o argumento do Ministro Ricardo Lewandowski acerca da

    imputao reflexa, o Ministro Marco Aurlio afirma que a simples imputao

    em processo-crime no importa necessariamente no direito de obter ordem

    de Habeas Corpus. Assim, entende que no cabe impetrar HC em favor de

    pessoa jurdica, ainda que seus dirigentes sejam reflexamente ofendidos.

    Ao final, determina que o instrumento cabvel para tutelar direito de

    pessoa jurdica envolvida em ao penal instaurada flagrantemente sem

    justa causa o Mandado de Segurana.

    O terceiro Ministro a se manifestar foi o Menezes Direito, que iniciou

    seu voto lembrando ter o Mandado de Segurana surgido de uma ampliao

    do Habeas Corpus, e afirmando:

    Agora, se admitirmos a pessoa jurdica como paciente no Habeas Corpus, faremos o caminho inverso: retomaremos necessidade de uma nova doutrina do Habeas Corpus.

    Mostrando-se avesso possibilidade de criar uma nova doutrina para

    o Habeas Corpus, justificou estar na prpria Constituio Federal a limitao

    desse instrumento proteo da liberdade de locomoo. Bem assim,

    afirmou que a pessoa jurdica no ter essa liberdade cerceada, seja porque

  • 19

    impraticvel, ou porque a pena privativa de liberdade no est dentre as

    penas elencadas no rol taxativo do artigo 21 da Lei 9.605/9815.

    Somando-se a isso, informou que todas as modificaes sofridas pelo

    Habeas Corpus foram reducionistas e sempre envolveram pessoas fsicas.

    Desta forma, se posicionou contrrio possibilidade de pessoa jurdica

    figurar como paciente em Habeas Corpus.

    Em seguida se manifestou a Ministra Carmen Lcia, cujo voto

    acompanhou os Ministros Marco Aurlio e Menezes Direito. A Ministra iniciou

    seu voto relatando que antes da Constituio de 1988 era impensvel

    atribuir responsabilidade penal pessoa jurdica, mas que hoje esse

    entendimento est superado.

    Ato contnuo, afirmou que antes no era possvel conceder Habeas

    Corpus para pessoa jurdica pelo simples fato delas no cometerem crimes,

    mas que hoje elas continuam no podendo ser pacientes de Habeas Corpus

    porque este instrumento protege somente a liberdade de locomoo.

    Em resposta ao debate levantado pelo Ministro Ricardo Lewandowski

    sobre a possibilidade de alargar o objeto do Habeas Corpus, a Ministra

    concordou que h essa possibilidade, inclusive apresentando outros

    exemplos em que o poder judicirio ampliou o objeto de remdios

    constitucionais16, mas argumentou que o Habeas Corpus incompatvel com

    as pessoas jurdicas, pois estas no podem sofrer cerceamento liberdade

    de locomoo.

    Por ltimo, o Ministro Carlos Ayres Britto se manifestou brevemente,

    realizando uma interpretao gramatical dos dispositivos constantes do

    artigo 5 da Constituio para, ao final, concluir que os direitos previstos

    15 Art. 21, Lei 9.605/98: As penas aplicveis isolada, cumulativa ou alternativamente s pessoas jurdicas, de acordo com o disposto no art. 3, so: I - multa; II - restritivas de direitos; III - prestao de servios comunidade. 16 Quero s lembrar: o Ministro Ricardo Lewandoswki chamou a ateno para a circunstncia de que essa possibilidade se abriria, at porque, para um mandado de segurana, tambm houve uma ampliao muito grande. E o Supremo hoje, tem feito outras

    ampliaes, por exemplo: entre as garantias constitucionais est previsto o mandado de injuno, mas, para se ter um mandado de segurana coletivo, foi preciso que essa Constituio de 88 fizesse. No entanto, o Supremo est admitindo o mandado de injuno coletivo que no est previsto expressamente.

  • 20

    naquele artigo so exclusivos de pessoas fsicas. Assim, determinou que o

    disposto no artigo 5, LXXVII17, da CF no aplicvel s pessoas jurdicas.

    Assim sendo, foi possvel identificar no HC 92.921-4 dois

    posicionamentos distintos: houve 1(um) voto favorvel possibilidade de

    deferir Habeas Corpus para pessoa jurdica, e 4(quatro) contrrios.

    Em relao argumentao, obviamente houve diferenas

    significativas entre os votos vencedores e o vencido. Enquanto o voto

    vencido baseou-se na falta de um microssistema de RPPJ, os votos

    vencedores apoiaram sua argumentao na limitao do objeto do Habeas

    Corpus proteo da liberdade de locomoo.

    Entre os votos vencedores tambm houve nuances, mas os

    argumentos principais (seja porque estiveram presentes na maioria dos

    votos, ou porque foram decisivos para o resultado da deciso) foram os

    mesmos. So eles: (a) O Habeas Corpus tutela somente liberdade de

    locomoo, e (b) A natureza da pessoa jurdica no permite que ela sofra

    restrio liberdade de locomoo.

    Interessante notar que os Ministros Ricardo Lewandowski e Carmen

    Lcia se manifestaram expressamente no sentido de reconhecer que a

    responsabilidade penal da pessoa jurdica est incontestavelmente presente

    na constituio federal.

    J os Ministros Marco Aurlio e Menezes Direito afirmaram

    veementemente que o objeto daquele julgamento no era a

    responsabilidade penal da pessoa jurdica, motivo pelo qual no se

    manifestaram sobre o assunto.

    Realizadas estas consideraes, passa-se a responder a pergunta

    deste captulo da monografia: No HC 92.921-4 o STF tentou estabelecer

    critrios para viabilizar a RPPJ?

    17

    So gratuitas as aes de habeas corpus e habeas data, e, na forma da lei, os atos necessrios ao exerccio da cidadania.

  • 21

    Certamente a resposta para este questionamento seria mais simples

    se todos os Ministros tivessem se posicionado especificamente sobre a

    possibilidade de haver responsabilidade penal de pessoa jurdica.

    Caso posicionassem contrariamente possibilidade de haver RPPJ,

    certamente no estariam tentando flexibilizar conceitos e procedimentos

    penais para viabiliz-la. Se no a reconhecem, no h motivos para criar

    mecanismos aptos a torn-la exercvel.

    Na hiptese de reconhecerem a possibilidade de haver RPPJ, todas as

    manifestaes no sentido de permitir ou no permitir a flexibilizao de

    conceitos e instrumentos processuais penais para se adaptarem pessoa

    jurdica seriam considerados como tentativa de estabelecer critrios para

    recepcionar a responsabilizao penal da pessoa jurdica.

    Por outro lado, reconhecer a possibilidade de haver RPPJ, mas negar

    sua aplicao pela inexistncia de instrumentos e conceitos aptos a torn-la

    exercvel importa em uma postura mais contida do magistrado, que opta

    por aguardar a criao de novos instrumentos legislativos e doutrinrios

    sobre o assunto. Nesse caso, no h flexibilizao de conceitos e

    procedimentos penais para recepcionar a RPPJ.

    Noutras palavras, permitir ou no permitir a flexibilizao de conceitos

    e instrumentos processuais penais por qualquer motivo que no a

    impossibilidade de haver RPPJ no ordenamento jurdico ptrio e a

    inviabilidade de responsabilizar a pessoa jurdica na atual configurao do

    sistema penal, significa a criao de critrios para viabilizar a

    responsabilizao penal da pessoa jurdica.

    Nesse sentido, tendo os Ministros Ricardo Lewandowski e Carmen

    Lcia se manifestado sobre a possibilidade de haver RPPJ, ser possvel

    responder com maior grau de certeza o questionamento em relao a eles.

    Consoante acima demonstrado, o Ministro Ricardo Lewandowski

    afirmou em seu voto que a responsabilidade penal da pessoa jurdica est

    expressamente prevista na Constituio Federal. Bem assim, posicionou-se

  • 22

    pela inviabilidade de pessoa jurdica figurar atualmente no plo passivo de

    processo-crime em razo da falta de aparelhamento do sistema penal para

    receber a responsabilidade penal da pessoa jurdica.

    Verifica-se que referido Ministro se enquadra no conceito do

    magistrado contido, que opta por aguardar a criao de novos

    instrumentos legislativos e doutrinrios antes de responsabilizar

    criminalmente uma pessoa jurdica.

    A Ministra Carmen Lcia tambm se posicionou favoravelmente

    possibilidade de haver responsabilidade penal de pessoa jurdica.

    Entretanto, diferentemente do Ministro Ricardo Lewandwski, a Ministra

    analisou a possibilidade de flexibilizar o instrumento do Habeas Corpus para

    abarcar pessoa jurdica.

    Assim sendo, denota-se que a Ministra estabeleceu critrios para

    viabilizar a RPPJ, quais sejam: a pessoa jurdica envolvida em ao penal

    no poder beneficiar-se do Habeas Corpus.

    Sendo certo que os demais Ministros no se manifestaram sobre a

    possibilidade de haver RPPJ e analisaram a possibilidade de pessoa jurdica

    figurar como paciente em Habeas Corpus, a resposta em relao a eles ser

    a mesma. Todavia, duas so as solues possveis: (a) Se os ministros

    futuramente manifestarem-se contrariamente possibilidade de haver

    RPPJ, no tero tentado estabelecer critrios para viabiliz-la, e (b) Se os

    Ministros futuramente se manifestarem favoravelmente possibilidade de

    haver RPPJ, tero, nos mesmos termos do defendido em relao Ministra

    Carmen Lcia, tentado estabelecer critrios para viabilizar a RPPJ.

    Desta forma, possvel concluir que a Ministra Carmen Lcia tentou

    estabelecer critrios para viabilizar a responsabilizao penal de pessoa

    jurdica no ordenamento jurdico ptrio, e h grandes chances dos demais

    Ministros que votaram em conformidade com a tese vencedora,

    independentemente dos argumentos apresentados, tambm terem tentado

    estabelecer tais critrios. Outrossim, conclui-se que o Ministro autor do voto

    vencido no tentou estabelecer mencionados critrios.

  • 23

    5. Como decidem os Tribunais Brasileiros sobre a RPPJ?

    Empregados os mecanismos de busca explicitados no captulo

    metodolgico, realizado o recorte temporal e excludas as decises que no

    versavam especificamente sobre a responsabilidade penal de pessoa

    jurdica pelo cometimento de crime ambiental previsto na Lei 9.605/98, o

    universo de pesquisa encontrado foi de 90 decises.

    A quantidade de decises proferidas por cada Tribunal, todavia, foi

    bastante varivel: 79% das decises foram proferidas por somente cinco

    Tribunais (STJ, TJSC, TJSP, TRF1 e TJMG), e as restantes foram proferidas

    por 12 Tribunais.

    Abaixo esto colacionados dois grficos que demonstram,

    respectivamente, a quantidade de decises proferidas por cada Tribunal e a

    porcentagem que elas representam no universo total da pesquisa.

  • 24

    Depois de tabuladas todas as decises e separados os argumentos

    apresentados em cada uma, foi possvel identificar 7 (sete) temas centrais

    tratados sobre a Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica: (1)

    possibilidade de haver RPPJ, (2) possibilidade de impetrar habeas corpus

    em favor de pessoa jurdica, (3) possibilidade de impetrar mandado de

    segurana em favor de pessoa jurdica, (4) necessidade de imputao

    simultnea da pessoa jurdica e da pessoa fsica, (5) penas aplicveis

    pessoa jurdica, (6) RPPJ e sucesso de empresas, e (7) requisitos da

    denncia em crimes envolvendo pessoa jurdica.

    Abaixo h tabela com a quantidade de vezes que cada assunto

    abordado nas decises18:

    A seguir sero analisados com maior profundidade os temas e as

    argumentaes apresentadas nas decises analisadas.

    5.1. Possibilidade de haver Responsabilidade Penal de Pessoa

    Jurdica

    No surpreendentemente, a dvida acerca da possibilidade de ser

    adotada a Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica em nosso

    ordenamento foi o tema mais abordado nas decises. Inclusive, 1/3 das

    18 Para verificar quais decises trataram sobre cada tema, consulte o Apndice n 1.

  • 25

    decises que enfrentaram diretamente o tema o analisaram

    exclusivamente, sem abordar nenhuma outra questo da RPPJ.

    Interessante verificar que em todas essas 63 (sessenta e trs)

    decises o resultado final foi pela possibilidade de haver responsabilizao

    penal da pessoa jurdica no ordenamento jurdico brasileiro.

    Entretanto, a despeito disso, em alguns acrdos existiram

    manifestaes em contrrio: houve 1(um) voto vencido que se posicionou

    totalmente contra a responsabilidade penal de pessoa jurdica, 1(um)

    acrdo com votao unnime que julgou no ser possvel responsabilizar

    penalmente pessoa jurdica de direito pblico, e 4(quatro) acrdos que

    votaram por unanimidade pela possibilidade de haver responsabilizao

    penal da pessoa jurdica, mas, da forma como prevista na Lei 9.605/98, ela

    juridicamente invivel.

    Assim sendo, no restam dvidas de que a jurisprudncia brasileira

    tem, nos ltimos dois anos e seis meses, aceitado a possibilidade de pessoa

    jurdica figurar como r em processo-crime.

    Em regra, a argumentao apresentada para justificar tal

    posicionamento no apresentou variao: resultou da combinao entre 6

    (seis) principais argumentos, conforme ser adiante demonstrado.

    5.1.1. RPPJ est expressamente prevista no artigo 225, 3 da CF

    H na doutrina nacional uma divergncia acerca do disposto no 3

    do artigo 225 da Constituio Federal, que assim determina:

    As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitaro os infratores, pessoas fsicas ou jurdicas, a sanes penais e administrativas, independentemente da obrigao de reparar os danos causados.

    Alguns autores afirmam que o texto constitucional foi expresso ao

    permitir a penalizao de condutas praticadas por pessoas jurdicas.

    Outros, no entanto, afirmam ser a RPPJ incompatvel com diversos

    princpios penais constitucionais, tais como a personalidade da pena e a

  • 26

    responsabilidade penal subjetiva, motivo pelo qual interpretam o 3 do

    artigo 225 de modo a remover a possibilidade de haver RPPJ19.

    Tal debate foi transportado para a jurisprudncia, estando presente

    em 85% das decises que abordavam a possibilidade de haver RPPJ na

    ordem jurdica brasileira. Entretanto, o fato dos tribunais terem aceitado a

    criminalizao de condutas das pessoas jurdicas significou que o argumento

    majoritariamente utilizado foi no sentido da RPPJ estar incontestavelmente

    prevista na Constituio.

    A seguir esto transcritos alguns trechos de decises nas quais

    referido argumento est presente:

    ntida a inteno da Carta Magna de permitir a responsabilizao penal de pessoa jurdica, no fosse assim, o legislador constituinte teria redigido o dispositivo supracitado da seguinte forma: "As condutas e atividades

    consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitaro os

    infratores a sanes penais e administrativas, sendo pessoa fsica, ou apenas a administrativas, sendo pessoa jurdica, em ambos os casos independentemente da obrigao de reparar os danos causados"20,

    Isso porque, a CF/88, em seu art. 225, 3, autoriza, expressamente, a responsabilizao penal da pessoa jurdica.21,

    O art. 225, 3 da CF possibilitou a punio da PJ por condutas e atividades consideradas lesivas ao ambiente.22, e

    Por sua vez a Constituio Federal, no captulo destinado ao meio ambiente, inserido no Ttulo da Ordem Social (VIII), preceitua em seu 3 do art. 225 2) Concretizando a

    previso constitucional, a Lei dos Crimes Ambientais (Lei n

    19 O pargrafo transcrito (3, art. 225, CF) tem ensejado uma discusso de matriz acentuadamente gramatical. Uns tm sustentado que o legislador ao falar em condutas e atividades quis expressar que a pessoa natural realiza condutas e a pessoa jurdica atividades. s primeiras s condutas se destinariam as sanes penais, s pessoas jurdicas se cominariam as sanes administrativas. e Na espcie em anlise o texto do 3 do art. 225, se endossado o entendimento de que literalmente est admitida a responsabilidade penal da pessoa jurdica, entra em claro conflito com os princpios explcitos

    reitores e embasadores do nosso ordenamento constitucional. Ou seja, com os princpios da pessoalidade da pena e da culpabilidade, enquanto condio e da aplicao da pena. (LUISI, Luiz: Notas sobre a Responsabilidade Penal das Pessoas Jurdicas, in Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica: Em defesa do princpio da imputao penal subjetiva, coordenado por Luiz Regis Prado. So Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2001; pgs. 89 e 91.) 20 TJSC, Terceira Cmara Criminal, Mandado de Segurana n 2008.013386-0. Julgado em 31 de julho de 2008. 21 TJSC, Segunda Cmara Criminal, Apelao Criminal n 2008.035284-8. Julgado em 29 de abril de 2009. 22 TRF3, Segunda Turma, Apelao Criminal n 2003.60.00.006077-0. Julgado em 17 de fevereiro de 2009.

  • 27

    9.605, de 12/02/1998), traou os pressupostos para a responsabilidade penal das pessoas jurdicas.23

    A segunda corrente se fez presente apenas no j mencionado voto

    vencido, conforme se verifica abaixo:

    O art. 225, 3, da Constituio Federal mais um daqueles tantos que suscita divergente interpretao. Quando o Poder Constituinte diz que para pessoas fsicas ou

    jurdicas podero ser impostas sanes penais e administrativas, no obrigatrio interpretar-se que so as

    duas modalidades punitivas para as duas espcies de pessoas. possvel que tenha pretendido regrar que para pessoas fsicas as sanes penais e para as jurdicas as administrativas. Ou quem sabe sanes penais e administrativas para as pessoas fsicas e somente as

    administrativas para as pessoas jurdicas.24

    Independente do sentido apresentado ao argumento (do art. 225,

    3 prever a RPPJ ou no), quando presente, ele geralmente foi a principal

    motivao da deciso.

    5.1.2. A Lei n 9.605/98 regulamentou a RPPJ

    O segundo argumento mais presente nas decises o de que a Lei

    dos Crimes Ambientais (n 9.605/98) recepcionou e regulamentou a

    Responsabilidade Penal da Pessoa Jurdica.

    Esta justificativa esteve presente em 66% das decises que tratam da

    possibilidade de haver RPPJ no ordenamento jurdico ptrio. Inclusive, em

    diversas oportunidades esse argumento veio acompanhado do argumento

    apresentado no tpico acima (5.1.1), de modo a significar que o fato do

    legislador ter editado lei que prev a possibilidade de imputao penal

    pessoa jurdica retira qualquer dvida acerca do disposto no 3 do artigo

    225 da Constituio Federal.

    Em apenas duas das decises em que este argumento aparece no

    houve referida combinao de argumentos, mas seu significado se

    manteve: a Lei 9.605/98 encerrou o debate acerca da possibilidade de

    haver RPPJ no ordenamento ptrio.

    23 TRF1, Terceira Turma, Apelao Criminal n 2005.41.00.001244-4. Julgado em 11 de dezembro de 2007. 24 TJRS, Quarta Cmara Criminal, Habeas Corpus n 7002297/1998. Julgado em 06 de maro de 2008.

  • 28

    Abaixo esto transcritos alguns trechos de acrdo que demonstram a

    utilizao do argumento tratado neste tpico, bem como sua combinao

    com o argumento do tpico anterior (5.1.1):

    Inicialmente, vale ponderar que a Lei n. 9.605/98 encerra, expressamente, que as pessoas jurdicas cujos representantes legais ou contratuais, ou conselho gestor, no uso de suas atribuies, forem responsveis pelo cometimento de infraes ambientais, estaro sujeitas responsabilizao criminal.25,

    Ainda que se discuta quanto a penalizar ou no a pessoa jurdica, no novidade em nosso momento jurdico internacional, como tambm no inovao to grande assim na legislao ptria; s que a Lei no. 9.605/98 - Lei Ambiental pela primeira vez assim mencionou

    expressamente.26, e

    A opo legislativa evidente. Tanto isso verdade, que o art. 3 da Lei 9.605/98, (...), e dando substncia ao pargrafo 3 do art. 225 da CF/88, prev a responsabilizao penal das pessoas jurdicas em crimes ambientais.27

    5.1.3. Conformidade com a jurisprudncia

    O convencimento segundo a orientao jurisprudencial predominante

    foi uma tcnica argumentativa recorrente nas decises. Ao total, 79% das

    decises que trataram da possibilidade de haver RPPJ se apoiaram na

    jurisprudncia.

    Foi possvel verificar que a jurisprudncia assumiu dois nveis de

    importncia na argumentao das decises: em alguns casos ela foi

    utilizada apenas para reforar os argumentos j expostos, mas em outros

    ela foi a nica justificativa apresentada.

    A seguir esto colacionados alguns trechos que demonstram tais

    posturas:

    25 TJSC, Primeira Cmara Criminal, Apelao Criminal n 2008.000442-8. Julgado em 24 de abril de 2008. 26 TJSP, Sexta Cmara Criminal, Embargos Infringentes n 4031243902. Julgado em 28 de fevereiro de 2008. 27 TRF1, Quarta Turma, Apelao Criminal n 2006.41.00.004409-1. Julgado em 27 de janeiro de 2009.

  • 29

    (...) entendendo, de acordo com a maioria da Cmara e do 2 Grupo Criminal, que esta pode ser responsabilizada criminalmente.28,

    No que tange a Madeireira RVC Ltda., em que pese ao fato de ser pessoa jurdica de direito privado deve ser responsabilizada criminalmente, no rumo das decises dos Tribunais Superiores, que vem reiteradamente deliberando neste sentido, no havendo ensejo a que se insista na sua inviabilidade, consoante entendia esta Cmara.29,

    Este rgo julgador refluiu desse entendimento e, na esteira da jurisprudncia do Superior Tribunal de Justia, vem aceitando a possibilidade de imputao de responsabilidade penal pessoa jurdica, mormente em se tratando de crimes

    ambientais.30, e

    Destaca-se que este relator, em decises pretritas, posicionou-se pela impossibilidade de condenao penal de pessoas jurdicas (vide: Recurso Criminal n. 2004.037168-8, de Itaja); contudo, atento jurisprudncia majoritria do

    Superior Tribunal de Justia e deste Tribunal, reviu o posicionamento e agora entende ser possvel a responsabilidade penal da pessoa jurdica em crimes ambientais, desde que respeitada a teoria da dupla imputao, a qual determina a descrio simultnea das condutas da pessoa jurdica e da fsica que atua em seu

    nome ou em seu benefcio.31

    5.1.4. Natureza jurdica da pessoa jurdica

    No debate doutrinrio sobre a possibilidade de haver responsabilidade

    penal de pessoa jurdica geralmente est presente a anlise terica sobre a

    natureza jurdica dos entes morais.

    Duas so as principais teorias adotadas pelos penalistas para tratar do

    tema: a da fico e a da realidade. A primeira, conforme leitura destes

    estudiosos, foi criada por Savigny e defende que as pessoas jurdicas so

    fruto de abstrao, possuindo existncia fictcia. Nesse sentido, a elas

    carece o elemento da vontade e seus atos necessariamente sero realizados

    mediante representao de pessoas fsicas.

    28 TJRS, Quarta Cmara Criminal, Habeas Corpus n 7002297/1998. Julgado em 6 de maro de 2008. 29 TJSC, Segunda Cmara Criminal, Apelao Criminal n 2007.060790-8. Julgado em 8 de abril de 2008. 30 TJSC, Segunda Cmara Criminal, Apelao Criminal n 2008.035284-8. Julgado em 29 de abril de 2009. 31 TJSC, Terceira Cmara Criminal, Apelao Criminal n 2008.078472-2. Julgado em 30 de julho de 2009.

  • 30

    Para esta corrente, o fato das sociedades no possurem vontade

    prpria lhes retira a capacidade de delinquir. Caso se reconhea que delitos

    podem ser imputados pessoa jurdica, inexoravelmente as condutas sero

    praticadas pelas pessoas fsicas que a compe.

    Por outro lado, os penalistas explicam que a segunda teoria

    encabeada por Otto Gierke e atribui s pessoas jurdicas existncia real,

    independentemente das pessoas fsicas que a compe. Desta forma, elas

    so dotadas de vontade prpria e possuem a capacidade de delinquir.

    As teorias sobre a natureza jurdica da pessoa jurdica tambm

    estiveram presentes no debate jurisprudencial acerca da possibilidade de

    haver RPPJ, sendo, contudo, apenas suportes ou complementao da

    argumentao principal.

    Em todas as decises que a teoria da fico foi abordada, afirmou-se

    que a pessoa jurdica poder delinquir, mas somente se a conduta tpica for

    praticada por pessoa fsica e em seu benefcio, consoante se verifica nos

    excertos que seguem:

    (...) direcionar ao penal contra a PJ, de forma exclusiva, como aqui se constata, totalmente desconsoante, pois uma PJ , ente abstrato e fico jurdica, no pode ser autora de um crime, mas apenas por ele ser responsabilizada, nos

    termos da lei. A PJ, como sabido, no tem os atributos fsicos nem as reaes humanas de querer e pensar (...) o que afasta a possibilidade de anlise do dolo em sua conduta. Ela responde pelos atos de seus diretores.32, e

    O infrator o representante legal ou contratual. A pessoa jurdica, que tem existncia jurdica, no atua por si, mas atravs de seus dirigentes, seus associados, seus empregados. As pessoas jurdicas no podem ser dissociadas

    dessa realidade de que atuam atravs de pessoas fsicas, sendo estas as naturais destinatrias das normas penais de incriminao. E a responsabilizao penal das pessoas jurdicas, que no a regra geral do Direito Penal, s se faz presente no momento em que se vincula sua atuao deciso de uma pessoa fsica causando a infrao.33

    32 TJSP, Dcima Sexta Cmara de Direito Criminal, Recurso em Sentido Estrito n 990.09.006672-5. Julgado em 11 de agosto de 2009. 33 TRF1, Quarta Turma, Recurso em Sentido Estrito n 2007.41.00.002598-6. Julgado em 25 de setembro de 2007.

  • 31

    J nas decises em que a teoria da realidade foi abordada, defendeu-

    se que as pessoas jurdicas possuem vontade prpria formada pelas

    deliberaes de seus rgos sociais (por vezes nomeada vontade social),

    e distinta daquela de uma pessoa fsica, conforme se verifica abaixo:

    Cumpre ressaltar, no entanto, que uma das preocupaes do legislador constituinte de 1988 foi a necessidade de responsabilizao penal das pessoas jurdicas como entes autnomos das pessoas fsicas que as compem, justamente

    pelo fato de elas apresentarem-se perante o mundo jurdico como sujeitos de direitos e deveres, o que acarreta a sua

    punio quando agem em desconformidade com os dispositivos penais vigentes.34,

    (...) as pessoas jurdicas possuem vontade, embora no no sentido atribudo s pessoas fsicas, e a externam em sentido

    pragmtico-sociolgico. (...) Se a pessoa jurdica tem existncia prpria no ordenamento jurdico e pratica atos no meio social atravs da atuao de seus administradores, poder vir a praticar condutas tpicas e, portanto, ser passvel de responsabilizao penal.35, e

    Obstculos foram colocados pelas teorias da culpabilidade clssica que, em razo da individualidade do agente, obstaria a apenao da pessoa jurdica, j que esta desprovida de inteligncia e vontade, pelo que no poderia, por si prpria, cometer crimes, fazendo retroceder a sua punio aos domnios da responsabilidade objetiva, fundada apenas no dano, no elo de causalidade. Todavia, estas objees foram

    superadas pela concepo de uma culpabilidade institucional. A responsabilidade penal passa, nesse sentido, a ser associada responsabilidade social da pessoa jurdica, que permite construir um juzo de reprovao sobre a sua conduta, no como um fato psicolgico, mas como um comportamento institucional voltado para a consecuo dos

    seus fins prprios.36

    5.1.5. Importncia do bem jurdico tutelado

    O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado um direito

    fundamental da pessoa humana, cuja proteo obrigao imposta a todos

    pela Constituio Federal.37

    34 TJSC, Terceira Cmara Criminal, Recurso Criminal n 2007.007506-0. Julgado em 13 de junho de 2008. 35 TRF1, Terceira Turma, Recurso em Sentido Estrito n 20074100006063-4. Julgado em 08

    de abril de 2008. 36 TRF1, Terceira Turma, Apelao Criminal n 2005.41.00.001244-4. Julgado em 11 de dezembro de 2007. 37 Art. 225, caput, CF: todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder

  • 32

    Em 9(nove) acrdos essa necessidade de proteger o meio ambiente

    para a presente e para as futuras geraes foi apontado como um

    argumento que justifica a possibilidade de haver RPPJ.

    Entretanto, ele somente foi utilizado como reforo aos demais

    argumentos presentes nos votos; se considerado individualmente, ele no

    seria capaz de determinar o resultado da deciso.

    Abaixo esto dois trechos de acrdos que ilustram a utilizao de tal

    argumento:

    Apesar das oposies de parte da doutrina, muitos defendem a punio das empresas pelo direito penal: uma realidade no mundo, sendo adotada por diversos pases, ao lado da tradicional responsabilidade individual, bem como as

    penalidades de carter civil, tributrio e administrativo. A insero dessa responsabilidade constitui avano inegvel na evoluo do direito penal. Responsabilizar penalmente a PJ representa adotar meios eficazes para proteger a sociedade e o meio ambiente. Representa tambm uma vontade do

    Legislador brasileiro de reeducar os principais responsveis

    pela degradao ambiental. As PJs podem e devem participar dessas preservao e proteo, atravs da insero de valores ambientais em seu prprio gerenciamento e da adoo de medidas preventivas.38

    De fato, incabvel a aplicao da teoria do delito tradicional PESSOA JURDICA, o que, todavia, no pode ser considerado um obstculo sua responsabilizao, j que as infraes contra o meio ambiente atentam contra interesses coletivos e difusos39

    5.1.6. Potencial agressor da pessoa jurdica

    Por fim, outro argumento utilizado na motivao das decises que

    enfrentaram o tema da possibilidade de haver Responsabilidade Penal da

    Pessoa Jurdica foi o potencial agressor das pessoas jurdicas.

    Nas decises em que este argumento foi empregado, buscou-se

    ilustrar a necessidade de ser aceita a RPPJ para a finalidade de frear as

    Pblico e coletividade o dever de defend-lo e preserv-lo para as presentes e futuras geraes. 38 TJSP, Dcima Cmara do Quinto Grupo da Seo Criminal, Apelao Criminal n 11494003600. Julgado em 12 de maro de 2008. 39 TJMG, Quinta Cmara Criminal, Apelao Criminal n 1.0223.06.202025-8/001(1). Julgado em 30 de junho de 2009.

  • 33

    grandes empresas que utilizam de sua estrutura e poder econmico para

    praticar ilcitos ambientais.

    Ele tambm foi empregado como reforo aos demais argumentos

    presentes nos votos, uma vez que, se considerado individualmente, no

    seria fundamental para o resultado da deciso .

    A seguir esto colacionados trechos de decises em que referido

    argumento foi utilizado:

    A Constituio da Repblica Federativa do Brasil, promulgada em 1988 e considerada uma das mais avanadas mundialmente no aspecto ambiental, traz a previso regulamentada pelo art. 3 da Lei de Crimes Ambientais de responsabilizao penal da pessoa jurdica (...). No fosse apenas isso, de se anotar que as pessoas jurdicas, em sua

    maioria, so as grandes agressoras do meio ambiente, devido ao seu poder econmico e ao potencial destrutivo que detm, o que justifica a penalizao.40,

    Certo que a proliferao de pessoas jurdicas na sociedade moderna nem sempre visa a realizao dos fins lcitos erigidos pela lei, podendo, no raro, ser usadas para o cometimento de ilcitos, dentre os quais os criminosamente ofensivos ao meio ambiente e ao patrimnio histrico-cultural.41, e

    No cometimento do crime, deve o agente fazer utilizao da infra-estrutura da empresa, das suas foras econmicas, pois so elas que conferem ao delito um potencial ofensivo do bem jurdico marcadamente superior ao que se verifica na criminalidade comum e tradicional de matriz individual. 42

    5.1.7. A RPPJ prevista na Lei 9.605/98 invivel

    Segundo afirmado no tpico 5.1. (Possibilidade de haver

    Responsabilidade Penal de Pessoa Jurdica), foram encontradas 4(quatro)

    decises que julgam ser possvel responsabilizar a pessoa jurdica pela

    prtica de crimes, mas no da forma como prevista na Lei de Crimes

    Ambientais (Lei n 9.605/98).

    40 TJSC, Segunda Cmara Criminal, Recurso Criminal n 2007.049732-1. Julgado em 27 de fevereiro de 2008. 41 TJSC, Primeira Cmara Criminal, Apelao Criminal n 1.0024.05.817111-7/001(1). Julgado em 4 de novembro de 2008. 42 TRF1 , Terceira Turma, Apelao Criminal n 2005.41.00.001244-4. Julgado em 11 de dezembro de 2007.

  • 34

    Afirma-se nessas decises que o sistema penal brasileiro, da forma

    como previsto no Cdigo Penal, est inteiramente baseado em condutas

    humanas. Para que a RPPJ fosse vivel, deveria a Lei que a introduziu

    definitivamente no ordenamento jurdico ter determinado alguns conceitos e

    instrumentos processuais aptos a recepcion-la.

    A Lei 9.605/98, todavia, se limitou a criar um rol de penalidades que

    sero impostas pessoa jurdica, e a indicar que ela somente poder

    cometer crime se a conduta tpica for praticada por pessoa fsica que atue

    em seu interesse e benefcio.

    Por esse motivo, as decises julgaram ser a lei inaplicvel s pessoas

    jurdicas, conforme se verifica pelos textos colacionados abaixo:

    O que no se pode tolerar, sob pena de srias violaes a princpios legais e constitucionais, desconsiderar os equvocos e omisses da nova lei. Ainda que previsto na Lei

    de Introduo ao Cdigo Civil que na aplicao da lei o juiz atender aos fins sociais a que ela se dirige e s exigncias do bem comum. Dando pouca importncia sistematizao penal, definio clara e precisa dos tipos penais relacionados com delitos ambientais, o legislador de 1998

    perdeu grande oportunidade para elaborar legislao exemplar, trazendo vigncia lei repleta de equvocos e que dificultam a sua exata compreenso. As imprecises tcnicas, os conceitos vagos e as violaes Constituio Federal so as verdadeiras causas que fazem da Lei n 9.605/98 uma lei que nasceu pedindo reforma. Urgente reforma. Por isso mesmo j se escreveu: "O mundo jurdico aguardava

    ansiosamente a regulamentao ordinria do dispositivo constitucional da responsabilidade penal das empresas. Lamentvel que tenha vindo de maneira to deficiente e

    lacunosa" (Srgio Salomo Shecaira, Boletim do IBCCrim 65, ed. Especial, pg 3). Em conseqncia do exposto, e prejudicados os demais temas trazidos pela empresa, d-se

    provimento ao recurso da Mancepar - Associao Mantenedora de Cemitrios particulares, para reconhecer a inpcia da pea acusatria inicial e em conseqncia anular a ao penal, desde o seu incio, deciso que se entende mais abrangente do que a sentena absolutria.43

    Destarte, apesar de no enveredar pela inconstitucionalidade das disposies legais que tratam da responsabilidade da pessoa jurdica, que at seria matria de reserva de rgo especial, dou por certo que a Lei n. 9.605/98 ainda no foi capaz de contemplar, completamente,

    a disciplina infralegal apta a possibilitar a adoo da responsabilizao penal das pessoas jurdicas. Portanto,

    nulo o recebimento da denncia no tocante sociedade S.A

    43 TJSP, Dcima Cmara do Quinto Grupo da Seo Criminal, Apelao Criminal n 11494003600. Julgado em 12 de maro de 2008.

  • 35

    PARATY INDUSTRIAL, por carncia de uma das condies da ao, qual seja, a legitimidade passiva, considerando que, a meu ver, atualmente, no possvel que pessoa jurdica figure como acusada em ao penal.44

    5.1.8. Impossvel haver RPPJ para Pessoa Jurdica de Direito

    Pblico

    Somente 1(uma) deciso encontrada enfrentou o tema da

    possibilidade de pessoa jurdica de direito pblico ser responsabilizada

    penalmente pela prtica de conduta prevista na Lei de Crimes Ambientais.

    Trata-se de Apelao Criminal45 interposta pelo Ministrio Pblico em

    face de sentena que excluiu a prefeitura Municipal de Barra Longa MG do

    plo passivo de processo-crime.

    Muito embora o Tribunal tenha declarado ser possvel haver RPPJ,

    julgou improcedente o recurso por entender que ela se aplica somente s

    pessoas jurdicas de direito privado. As pessoas jurdicas de direito pblico

    no estariam sujeitas s sanes penais, pois isso representaria um duplo

    prejuzo sociedade.

    A seguir est transcrito um trecho da deciso:

    Ora, no caso de uma Prefeitura Municipal, foroso entender, sem nenhuma demagogia, que os programas e aes por ela desenvolvidas devem visar to-somente o interesse coletivo e o bem social, e no o benefcio prprio da entidade pblica. Por isso, no se pode admitir que o ato

    ilcito cometido por determinada administrao ou pelo chefe do executivo municipal venha a acarretar penalidades entidade pblica, uma vez que, indiretamente, tais sanes seriam arcadas pela populao, no bastasse o j prejuzo sofrido pelo constatado dano AMBIENTAL, em detrimento da sade pblica. Por isso, houve por bem o legislador ressalvar no pargrafo nico do art. 3 da Lei 9.605/98 a possibilidade

    da responsabilizao das pessoas fsicas no caso de ilcitos ambientais, como autores, co-autores ou partcipes, hiptese em que a legislao alcana os administradores pblicos no exerccio de suas funes ou mandatos. (...) Portanto, a polmica surge diante da particularidade do caso. Na hiptese de prevalecer o entendimento ministerial, haveria

    questes de difcil transposio. A multa se reverteria ao

    prprio ente estatal? As penas privativas de direitos aplicar-

    44 TRF2, Primeira Turma, Apelao Criminal n 1996.51.11.0272905. Julgado em 17 de dezembro de 2007. 45 TJMG, Primeira Cmara Criminal, Apelao Criminal n 1.0521.03.022385-8/001(1). Julgado em 25 de agosto de 2009.

  • 36

    se-iam em prejuzo da continuidade dos servios pblicos? A pena que colocasse bice celebrao de contratos e convnios com a Unio, Estados e Municpios afrontaria, in casu, o pacto federativo? No seria incua a pena aplicada

    para que o municpio custeie programas ambientais, se um dos seus objetivos constitucionalmente estabelecidos amparar, proteger, recuperar e preservar o meio ambiente? (art. 23, VI, da CR/88). Com tais consideraes, entendo descabido responsabilizar-se penalmente a Prefeitura Municipal de Barra Longa, nos termos da Lei 9.605/98, por se tratar de entidade jurdica de direito pblico, consoante os

    fundamentos supramencionados, sem prejuzo da

    responsabilizao criminal do administrador pblico, este que, no caso dos autos, foi condenado nos termos do diploma supramencionado.46

    5.2. Possibilidade de impetrar habeas corpus em favor de pessoa

    jurdica

    Conforme se verificou na anlise do HC 92921-4, h divergncia

    acerca da possibilidade de pessoa jurdica ser paciente de Habeas Corpus.

    Esse tema esteve presente em 17(dezessete) das decises contidas no

    universo de pesquisa, sendo que em 10(dez) delas esse foi o nico assunto

    tratado.

    Diferentemente do ocorrido no tema anterior (tpico 6.1.1), neste no

    houve unanimidade nos resultados encontrados: 11(onze) decises

    julgaram no ser possvel conceder ordem de Habeas Corpus para Pessoa

    Jurdica, 4(quatro) concederam a ordem, e 2(duas) no se posicionaram

    especificamente sobre o tema, tendo indeferido o HC por motivos

    estritamente processuais.47

    Desta forma, verifica-se que o entendimento majoritrio em relao a

    este tema que no possvel conceder Habeas Corpus para pessoa

    jurdica.

    Salvo as decises que indeferiram o writ por motivos estritamente

    processuais, os outros dois grupos de resultados sero analisados mais

    atentamente a seguir.

    46 TJMG, Primeira Cmara Criminal, Apelao n 1.0521.03.022385-8/001(1). Julgado em 25

    de agosto de 2009. 47 Nesse caso, foi considerado como estritamente processual a deciso que denegou o Habeas Corpus pela impossibilidade de aprofundamento probatrio, ou por ser o Habeas Corpus a via inadequada para requerer trancamento da ao penal.

  • 37

    5.2.1. No possvel impetrar habeas corpus em favor de pessoa

    jurdica

    A motivao das decises que se posicionaram contrariamente

    possibilidade de deferir Habeas Corpus em favor de pessoa jurdica baseou-

    se em somente trs argumentos: (a) o Habeas Corpus instrumento que

    tutela unicamente a liberdade de locomoo, (b) a natureza da pessoa

    jurdica impede que ela se locomova, e (c) conformidade com a

    jurisprudncia48.

    Mais de 2/3 das decises combinaram os argumentos (a) e (b),

    5(cinco) combinaram todos os trs argumentos, e 2(duas) julgaram

    somente levando em considerao o argumento (c).

    Abaixo esto transcritos alguns excertos que demonstram a

    combinao dos argumentos utilizados:

    Como cedio, o habeas corpus o remdio constitucional a ser manejado quando "algum sofrer ou se achar ameaado de sofrer violncia ou coao em sua liberdade de locomoo, por ilegalidade ou abuso de poder" (art. 5, LXVIII, da CF/88, grifei). In casu, por bvio, a PESSOA JURDICA carece de interesse na utilizao do writ impetrado, pois sua eventual

    responsabilizao penal no importar em pena privativa de liberdade.49,

    Orientao jurisprudencial do STJ se firmou no sentido de no admitir a utilizao do remdio herico em favor de PJ50,

    O Habeas Corpus via restrita a garantir a liberdade ambulatorial, mediata ou imediata, de pessoa fsica.51, e

    Apesar de ser legitimada para atuar no plo passivo de ao penal, invivel conceder-se pedido de HC para trancamento de ao penal interposta contra PJ. O remdio invocado pelo impetrante, tem seu conceito - e mbito de atuao - na CF, art. 5o., LXVIII. No h como vislumbrar-se, evidncia, constrangimento liberdade deambulatria de PJ.52

    48 Ainda que a conformidade com a jurisprudncia seja apenas um argumento de reforo, entendeu-se necessrio apresent-lo dentre os argumentos constantes das decises, uma vez que esteve bastante presente. Inclusive, por vezes, foi o nico argumento apresentado. 49 TJMG, Primeira Cmara Criminal, Habeas Corpus n 1.0000.08.472390-7/000(1). Julgado

    em 22 de abril de 2007. 50 STJ, Quinta Turma, Habeas Corpus n 93.867. Julgado em 8 de abril de 2008. 51 STJ, Habeas Corpus n 138.645, 138.644, 138.643 e 138.641. Julgados em 9 de junho de 2009. 52 TJSP, Stima Cmara de Direito Criminal, Habeas Corpus n 990.08.040400-8. Julgado em 18 de dezembro de 2008.

  • 38

    5.2.2. possvel impetrar habeas corpus em favor de pessoa

    jurdica

    Dentre as quatro decises que julgaram ser possvel deferir Habeas

    Corpus em favor de pessoa jurdica foi possvel identificar trs

    argumentaes diferentes:

    (a) dirigentes de pessoa jurdica podem figurar como pacientes em

    Habeas Corpus contra deciso que recebeu denncia somente em face de

    pessoa jurdica53;

    (b) possvel conceder ordem de Habeas Corpus quando pessoas

    fsica e jurdica figurarem conjuntamente no plo passivo da ao (excertos

    abaixo);

    Muito embora o habeas corpus tutele a liberdade de locomoo da pessoa fsica, tem-se admitido a impetrao por pessoa jurdica nos crimes ambientais, quando ambas se apresentem como pacientes no mesmo pedido de

    trancamento da ao penal.54, e

    O Habeas Corpus, tal como posto no artigo 5, LXVIII da CF, bem como no art. 648 do CPP, se presta somente para sanar ilegal coao liberdade de locomoo das pessoas, o que exclui a tutela de empresas e sociedades comerciais. 2)

    Todavia, no h como negar que, caso o writ seja procedente para os demais pacientes, a ao penal no teria como subsistir somente em relao PJ, eis que os fundamentos contidos na impetrao para tranc-lo so os mesmos em relao a todos os pacientes, no havendo, portanto, razo

    para deixar a empresa de fora do mbito da deciso.

    (c) o fato da pessoa jurdica poder ser denunciada pela prtica de

    crime por si s autoriza a impetrao de Habeas Corpus (excerto abaixo);e

    Se a PJ pode ser denunciada pela prtica de crime ambiental, pode buscar tambm a tutela jurdica excepcional visando o trancamento de ao penal contaminada de vcios, at mesmo mediante a via clere do Habeas Corpus.55

    53 STJ, Deciso monocrtica, Habeas Corpus n 106.493. Julgado em 3 de maro de 2009. 54 TJDFT, Primeira Turma Criminal, Habeas Corpus n 2009002002334-2. Julgado em 14 de maio de 2009 55 TJGO, Primeira Cmara Criminal, Habeas Corpus n 2008.0486752. Julgado em 11 de dezembro de 2008.

  • 39

    Assim sendo, no foi possvel estabelecer uma tendncia

    argumentativa em relao s decises que entendem ser possvel conceder

    Habeas Corpus em favor de pessoa jurdica.

    5.3. Possibilidade de impetrar mandado de segurana em favor de

    pessoa jurdica

    Tendo em vista que o Habeas Corpus instrumento de proteo ao

    direito de locomoo, exclusivo do ser humano, as pessoas jurdicas

    envolvidas em ao penal tem recorrido ao mandado de segurana como

    um instrumento alternativo proteo de seus direitos.

    Dentro do universo de pesquisa foram identificadas 7(sete) decises

    que versam sobre a possibilidade de impetrar mandado de segurana em

    favor de pessoa jurdica envolvida em processo-crime, sendo 5(cinco)

    favorveis a essa possibilidade e 2(duas) contrrias.

    As duas decises que denegaram o mandamus justificaram seu

    posicionamento por afirmar que se cuida de via inadequada para trancar

    ao penal. Uma das decises foi adiante, alegando tambm que estavam

    ausentes os requisitos formais de validade do instrumento. Abaixo esto

    trechos dos referidos acrdos:

    Houve indeferimento liminar do mandamus no em razo apenas da via inapropriada, mas porque este no preenche os requisitos formais de validade, pois para o trancamento da ao penal ou no recebimento da denncia, haveria que estar flagrantemente eivada de nulidade por ilegalidade a

    serem observadas na prpria deciso ora combatida, porm, no o que se vislumbra nos autos56

    A ao constitucional no se presta para a finalidade de trancamento da ao penal57

    J as decises que julgaram procedente o mandado de segurana,

    utilizaram-se dos seguintes argumentos: (a) admite-se a utilizao de MS

    56 TJPR, Segunda Cmara Criminal em Composio Integral, Agravo Regimental em Mandado de Segurana n 0594101-5/01. Julgado em 11 de agosto de 2009. 57 TJPR, Segunda Cmara Criminal em Composio Integral, Mandado de Segurana n 0594101-5. Julgado em 26 de junho de 2009.

  • 40

    por no ser possvel impetrar HC em favor de pessoa jurdica; (b) os

    requisitos para a concesso de MS estavam presentes; (c) conformidade

    com a jurisprudncia; e (d) ou concede HC ou desconsidera-se os requisitos

    do MS.

    O argumento (a) est presente em 4(quatro) dessas decises, sendo

    que a deciso na qual ele no est presente, os argumentos utilizados

    foram o (b) e o (c)58. Ou seja, o argumento que assumiu maior fora nos

    julgados para justificar a concesso de mandado de segurana em favor de

    pessoa jurdica envolvida em processo-crime justamente a impossibilidade

    de lanar mo da via tradicionalmente utilizada, qual seja, o Habeas

    Corpus.

    possvel verificar referida argumentao no excerto abaixo:

    Impossibilidade de uso de habeas corpus por pessoa jurdica, com o manejo substitutivo de MS - Afirma (o

    impetrante), em sntese, que, no se pode ter seu direito de locomoo restrito por razes obvias, tornar-se-ia invivel o manejo da ao mandamental do art. 648, I do CPP. sabido que essa idia acolhida sem ressalvas pela jurisprudncia, e no merece ser refutada no presente momento. Todavia, no h como no reconhecer que ela revela um certo descompasso entre esse novo fenmeno jurdico-penal, que

    a admisso de PJs como sujeitos ativos de crimes, e a legislao processual a ser aplicada. (...) obvio que a locomoo de uma pessoa jurdica no pode ser reduzida, pois ela sequer possvel. Todavia, essa primeira impresso no pode afastar a concluso necessria de que a legislao brasileira adaptou-se para conceber a responsabilidade penal da pessoa jurdica, mas no para criar um direito processual

    compatvel com ela. Por essa razo, permanece um hibridismo claro de aes mandamentais, que, se no prejudica as partes no plano prtico, ao menos revela uma crise na prpria ideia de crime e seu processo.59

    Um debate possvel em relao esta utilizao do Mandado de

    Segurana sobre a possibilidade de flexibilizar seus requisitos

    58 Inicialmente, cumpre destacar que, recentemente, a Terceira Seo desta Corte considerou que, figurando no plo passivo da ao penal apenas pessoa jurdica, o remdio

    adequado para buscar o seu trancamento o mandado de segurana(STJ, Deciso Monocrtica, Medida Cautelar n 14.663. Julgado em 16 de agosto de 2008.) 59 TRF5, Quarta Turma, Mandado de segurana n 2006.05.00.000591-4. Julgado em 14 de agosto de 2007.

  • 41

    processuais60 quando o impetrante for pessoa jurdica. Em 3(trs) acrdos

    o Tribunal verificou se os requisitos do mandado de segurana estavam

    presentes antes de defer-lo. Entretanto, em uma deciso o Tribunal

    argumentou que, na impossibilidade de conceder HC para pessoa jurdica, o

    prazo para impetrar mandado de segurana deve ser flexibilizado.

    Os dois posicionamentos podem ser verificados nos excertos que

    seguem:

    Inicialmente, tem-se que o presente mandado de segurana atende a todos os pressupostos de admissibilidade e, apesar

    do entendimento contrrio da douta Procuradoria Geral de Justia, a medida mais adequada ao presente caso. que o habeas corpus, geralmente utilizado com o fim de trancar a ao penal, objetivo tambm desta medida, serve proteo da liberdade de ir e vir, direito individual personalssimo e, justamente por isso, exclusivo das pessoas naturais61

    De imediato percebe-se que o presente mandado de segurana faz as vezes da ao constitucional de habeas corpus. Em razo da natureza das sanes penais, impostas

    pessoa jurdica, na medida em que a rigor no envolve limitao de liberdade, o instrumento constitucional admitido,

    nos termos do artigo 5o, LXIX, da Constituio da Repblica, o mandado de segurana. Contudo, pode-se perceber que, na hiptese presente, substitui o habeas corpus. Em decorrncia disso, ou se conhece da segurana, afastado o pressuposto processual referente ao prazo de interposio da medida, ou se conhece da impetrao como habeas corpus.

    O certo que, em se tratando de responsabilidade da pessoa jurdica, o trancamento da ao penal no pode ficar na dependncia do decurso de prazo para a interposio de ao constitucional que assegura direitos fundamentais.62

    No h como negar que o tema tratado nesse tpico demonstra a

    clara falta de aparelhamento do sistema penal para responsabilizar

    penalmente uma pessoa jurdica, bem como que a jurisprudncia est, aos

    poucos, estabelecendo critrios para solucionar essa falha.

    5.4. Necessidade de imputao simultnea da pessoa jurdica e da

    pessoa fsica

    60 Um exemplo de requisito processual do Mandado de Segurana o prazo de 120 dias para

    ser impetrado 61 TJSC, Terceira Cmara Criminal, Mandado de Segurana n 2008.013386-0. Julgado em 31 de julho de 2008. 62 TJSP, Dcima Segunda Cmara do Sexto Grupo da Seo Criminal, Mandado de Segurana n 10187883400. Julgado em 25 de julho de 2007.

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    Dispe o artigo 3 da Lei 9.605/98 que:

    As pessoas jurdicas sero responsabilizadas administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infrao seja cometida por deciso de seu representante legal ou contratual, ou de seu rgo colegiado, no interesse ou benefcio da sua entidade.

    A determinao constante dessa norma o segundo tema mais

    abordado: 37(trinta e sete) decises versam sobre a necessidade de

    imputao simultnea da pessoa jurdica e da pessoa fsica (ou dupla

    imputao).

    Desse total de decises, 86% afirmam ser necessria a dupla

    imputao, e apenas 4% se posicionam contrariamente.

    As decises que posicionaram-se pela necessidade de haver dupla

    imputao utilizaram os seguintes argumentos: (a) a dupla imputao

    requisito para haver RPPJ; (b) orientao jurisprudencial predominante

    entende ser necessria a dupla imputao; (c) a pessoa jurdica uma

    fico jurdica cuja vontade formada pelas pessoas fsicas que a compe;

    (d) a despeito da pessoa jurdica ser um ente autnomo com vontade

    prpr