Mpb Em Conversa

Embed Size (px)

DESCRIPTION

MILTON NASCIMENTO - A TRAVESSIA CONTINUA (26/10/2000 E 29/03/2001) JOO NOGUEIRA O GUERREIRO DO SAMBA (16/06/1999) ELZA SOARES - SOU UMA SAMBISTA ROQUEIRA (24/01/2002) PAULINHO DA VIOLA, O LORDE DO SAMBA (06/09/2001, 29/09/2003 E 29/06/2005) GILBERTO GIL CAMINHANDO JUNTOS (26/10/2000 E 28/03/2001) TOM Z IMPRENSA CANTADA (27/12/1999)

Text of Mpb Em Conversa

  • Trechos das entrevistas do livro: a mpb de conversa em conversa.

    CAETANO VELOSO - OS AMERICANOS ENFIM SE RENDERAM AO

    TROPICALISMO (23/08/1999)

    GILBERTO GIL CAMINHANDO JUNTOS (26/10/2000 E 28/03/2001)

    MILTON NASCIMENTO - A TRAVESSIA CONTINUA (26/10/2000 E 29/03/2001)

    PAULINHO DA VIOLA, O LORDE DO SAMBA (06/09/2001, 29/09/2003 E 29/06/2005)

    TOM Z IMPRENSA CANTADA (27/12/1999)

    JORGE MAUTNER O KAOS A IDEOLOGIA MOTRIZ DA MINHA OBRA

    (19/04/2005)

    JOO NOGUEIRA O GUERREIRO DO SAMBA (16/06/1999)

    ELZA SOARES - SOU UMA SAMBISTA ROQUEIRA (24/01/2002)

  • CAETANO VELOSO - OS AMERICANOS ENFIM SE RENDERAM AO TROPICALISMO (23/08/1999)

    Eu trabalho nessa profisso h mais de 30 anos e nunca dei importncia a nmeros de discos vendidos. Por que, ento, passaria a dar agora? Reconheo o valor de vender um milho de discos, mas essa marca no representa um desejo para mim.

    Todo bom reprter , por excelncia e vocao, um chato. No h excees. Reprter que se preza acredita na possibilidade de uma entrevista at o apito final do juiz - no caso, a hora de a edio ir para a grfica. Em alguns casos, vale pedir uma prorrogao - qual editor no gostaria de contar com algumas "aspas" de Caetano Veloso ou Gilberto Gil, mesmo que obtidas minutos aps o horrio de fechamento?

    O jogo de seduo que antecede uma entrevista permite o uso de diversos recursos, inclusive o de adular a fonte. Caetano Veloso, por exemplo, s concordou em me conceder uma entrevista exclusiva, em funo de seu ltimo show em Vitria, em 1999, no Ginsio do lvares Cabral, depois de ter acesso a uma matria de capa do Caderno Dois, de minha autoria, cujo ttulo era "Como querer Caetanear".

    Inicialmente, Caetano no daria entrevista. Sua assessoria de imprensa sequer viera a Vitria. Ele tinha acabado de chegar de uma elogiada turn pelos Estados Unidos e no parecia estar a fim de papo. Diante da negativa de sua produtora em levar-me ao cantor, resolvi dar uma ltima cartada: mostrei a ela um exemplar do jornal com a matria sobre o show que chamava a ateno para o fato de que Caetano no vinha h 17 anos ao Estado e pedi a ela para lhe entregar. Poucos minutos depois, Beni (esse era o nome dela) me trouxe a resposta que eu tanto esperava:

    "O Caetano vai dar entrevista, sim, mas s para o seu jornal", disse-me sua produtora, pedindo que eu e a fotgrafa Hel Sant'Ana ficssemos na rea restrita aos msicos no final do show. "Yes!", gritei, saltitante, como quem canta vitria antes da hora.

    Como Caetano no ficaria muito tempo no camarim aps o show, tnhamos de ser rpidos. O espetculo Prenda minha foi tecnicamente correto, apesar da frieza. Era o auge da balada Sozinho, de Peninha, e o cantor acabara de atingir pela primeira vez a marca de um milho de discos vendidos. Saudoso do Caetano cabeludo dos tempos da Tropiclia, o pblico ansiava por ouvir greatest hits como Alegria,alegria, Outras palavras, Voc linda, Trilhos urbanos e mais uma dezena de sucessos construdos pelo baiano em suas quatro dcadas de carreira.

    Terminado o show, dirijo-me aos bastidores e, para minha surpresa, sou barrado por um grupo de seguranas. A cena a mesma do incio do filme Almost famous (Quase famosos, EUA, 2001).

    Alis, driblar seguranas mal-preparados mais uma das tarefas do reprter. Como isto nem sempre possvel na base do futebol-arte, em alguns casos necessrio partir para o ataque, na garra. Por sorte, no caso do Caetano, sua produtora nos viu travando uma batalha verbal com os seguranas e autorizou, enfim, nossa subida ao backstage.Na porta do camarim, depois de deixar a fila de fs para trs, enfim nos deparamos com a estrela da noite, acompanhado de sua ento esposa Paula Lavigne. Enquanto espervamos

  • pela entrevista, rolava aquele friozinho "bsico" na barriga. Esse friozinho, alis, fundamental: por mais experiente que seja o reprter, ele sinaliza que, no fundo, no somos to seguros assim como desejamos. E se Caetano fosse indelicado? Ou arrogante? Se me despachasse? E se eu falasse alguma incorreo sobre o Tropicalismo, logo perto de um dos mentores do movimento?

    Essas inquietaes se dissiparam no momento em que o cantor recebeu a equipe do jornal com surpreendente gentileza. Educado, respondeu a todas as questes com profissionalismo e em nenhum momento demonstrou a presuno com que costuma tratar a imprensa paulista e carioca. bvio que se trata de relaes diferentes. No eixo Rio-SP, personalidades como Caetano so figurinhas fceis nos cadernos culturais. A proximidade geogrfica faz com que o artista conhea pessoalmente os jornalistas e torne-se amigo - ou inimigo - desses profissionais. Ok, talvez eu no tenha feito nenhuma pergunta mais agressiva a Caetano. Tambm no era esse o caso: ele tinha acabado de fazer um show excelente, havia dado uma trgua nas polmicas e estava no caminho para conquistar, no ano seguinte, o Grammy de World Music pelo CD Livro.A carapua de antiptica teve que ficar mesmo com Paula Lavigne: enquanto conversvamos com o cantor, ela apontava a todo o momento para o relgio, sinalizando que o tempo da entrevista havia acabado. Apesar da presso, Caetano concluiu o dilogo com cordialidade e em seguida fez questo de abraar um sobrinho de Joo Gilberto que mora no Esprito Santo. Confira a entrevista a seguir, com a reproduo do abre (termo usado pelos jornalistas para definir o pargrafo que introduz uma entrevista) publicado no jornal:

    Aps o fim do show, Caetano Veloso recebeu a reportagem de A GAZETA no camarim do Ginsio lvares Cabral para uma entrevista exclusiva. Simptico e solcito, posou para fotos e falou sobre o reconhecimento tardio do Tropicalismo nos Estados Unidos, o processo de abertura da MTV para a ax music e o pagode, e a sensao de atingir, pela primeira vez, a marca de um milho de discos vendidos.

    Voc passou 17 anos sem se apresentar em Vitria. Por que tanto tempo ausente da cidade? curioso, porque eu sabia que no vinha j h algum tempo a Vitria, mas no tinha noo de que era tanto tempo assim. Foi uma surpresa para mim e para toda a equipe, um fato que nos atemos quando chegamos na cidade. Mas valeu a pena, porque o show foi muito bonito, a platia estava muito simptica e receptiva.

    Voc se surpreende com a aceitao do Tropicalismo junto crtica norte- americana? No, porque eu sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Os crticos e o pblico americano consideram o Tropicalismo muito instigante, mas esse reconhecimento ganhou impulso a partir do momento em que o David Byrne (exlder do Talking Heads) lanou uma coletnea chamada Brazil collection pela sua gravadora, a Luaka Bop; depois, o mesmo selo lanou o Tom Z, os Mutantes, o disco Tropiclia e, a partir da, senti que o Tropicalismo teria receptividade por l. O Gil tambm tem um trabalho conhecido nos EUA, mas a diferena que eu fui mais associado ao movimento, em termos estticos.

  • Tanto que vrios pop stars hoje se interessam pelo Tropicalismo, inclusive o Beck, que comps uma msica chamada Tropiclia... E foi por causa do Beck, inclusive, que as msicas Maria Bethnia e Baby entraram no show Livro vivo. Ele quis cant-las comigo e elas acabaram ficando no repertrio.

    O que voc achou da incluso das categorias de pagode e ax music na premiao do Video Music Brasil, da MTV? Achei excelente, porque uma forma de se arrancar o preconceito que existe no Brasil em torno de determinados estilos musicais. Primeiro porque essa diviso de categorias j meio maluca: quem pode dizer o que e o que no MPB? Se a MTV fosse especializada em msica de alta qualidade, elitista, poderia at no veicular a ax e o pagode. Mas ela toca pop/rock, e o rock, quando nasceu, era considerado lixo. A gente escutava o jazz de Miles Davis e Chet Baker, uma poro de msicos virtuosos, enquanto Elvis era considerado brega. A base do rock sempre foi comercial, ento, no faz sentido a MTV se recusar a exibir clipes de ax e pagode.

    Como voc se sente ao vender um milho de cpias pela primeira vez? Olha, eu trabalho nessa profisso h mais de 30 anos e nunca dei importncia a nmeros de discos vendidos. Por que, ento, passaria a dar agora? Reconheo o valor de vender um milho de discos, mas essa marca no representa um desejo para mim.

    O sucesso de Sozinho desmistifica o abismo entre o cult e o popular, j que foi composta por Peninha, um compositor tachado de brega pela crtica? Mas eu j fao isso h muito tempo. Eu gravei Trs caravelas (verso de Braguinha para Las tres carabelas, de A. Algueir Jr. e G. Moreau) e Corao materno (sucesso de Vicente Celestino), j gravei Peninha em 1982 (a msica Sonhos, do disco Cores, nomes), gravei Yes, ns temos bananas; a Bethnia tambm gravou um disco s com canes sentimentais de Roberto Carlos, tidas como popularescas. Mas importante observar que no qualquer um que est cantando, a Maria Bethnia. A leitura de uma msica vai depender sempre do seu intrprete.

    GILBERTO GIL CAMINHANDO JUNTOS (26/10/2000 E 28/03/2001)

    A atividade necessria para a manuteno da energia, do empenho, do gosto de viver. No tenho razes para adotar a inatividade como situao bsica da minha vida. Pelo contrrio, adoto a atividade porque me d uma sensao mais clara de pulsao, de vida, de sade, de juventude. Estou repousado no movimento.

  • A antena parabolicamar de Gilberto Gil to aguada que, no meio jornalstico, costuma-se dizer que durante as entrevistas o baiano tem o hbito de ir s estrelas e voltar Terra apenas para exemplificar uma opinio. Comigo no foi diferente.

    Nas trs oportunidades em que conversei com Gil, ele demonstrou ser inteligentssimo, dono de raciocnio rpido e dotado de uma sede de vida espantosa.

    No entanto, minha primeira possibilidade de entrevist-lo terminou em uma grande brochada pela qual me lamento at hoje.