Mudando Jamie

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MUDANDO JAMIEBy DAKOTA CHASE Traduo Anderson Vieira

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Captulo Um

O mundo mudou no ano em que eu completei dezessete anos, mas ningum notou isso, exceto eu. Eu admito que foi sutil. Tudo parecia o mesmo: o cu continuava azul, a grama verde e todo esse bl-bl-bl. Carteiros entregavam as correspondncias, telefones tocavam e a TV de manh ainda era uma porcaria. Meu nome ainda era Jamie Waters, eu ainda morava na casa da minha me, na Avenida Midland, meus olhos ainda eram azuis e meu cabelo era de uma cor engraada, que no se decidia entre o loiro e o marrom. Eu era um exmio escritor de mensagens de texto, com os dedos mais rpidos na cidade e eu no era um Guitar Hero eu era um Guitar God, detonando sempre que eu poderia. As coisas haviam mudado e, embora eu nunca tenha descoberto exatamente quais foram essas mudanas, eu sabia que minha vida nunca mais seria a mesma de novo. A manh em que eu percebi que alguma coisa estava fora de ordem comeou como qualquer outra manh com o despertador danando na minha cabeceira, fazendo aquela vibrao maluca que acontece quando agente deixa o volume no ltimo. Eu sempre o deixava assim para que eu nunca dormisse com ele tocando e tudo. Minha me costumava dizer que eu dormia como os mortos ela dizia isso mesmo quando eu ainda era bebe. Tipo de coisa esquisita para dizer a um garotinho isso costumava me dar pesadelos. De qualquer maneira o alarme parou e eu levantei eventualmente depois de apertar o boto soneca umas duzentas vezes tomei banho, me barbeei e coloquei uma torrada Pop Tart na tostadeira. Minha primeira aula era as 8h20, o que me deixava exatamente vinte e trs minutos para correr por sete quadras at a escola. Isto era bastante tempo, mais do que o normal. Mas ainda assim eu sentia aquela sensao estranha de que alguma coisa no estava certa. No ERRADO, exatamente. Nem como quando agente percebe que esqueceu a carteira e faz aquela coisa estranha de ficar batendo por toda a bunda e quadris na esperana de que a carteira esteja l, escondida em algum lugar. Voc sabe como . aquela sensao em que seu peito fica apertado e seu corao pulsando na garganta e agente diz coisas entre os dentes que fariam nossas avs engolirem as agulhas de tric, por que como, no inferno, que agente vai pagar pelos dois cheeseburgers duplos que acabamos de comer, se no temos nossas carteiras? No esse tipo de errado. Apenas... no certo.

2 Eu tampouco poderia apontar para nada em especifico, eu simplesmente no conseguia descobrir o que estava errado. Eu me sentia ok. Eu no tinha febre, dor de garganta ou estava espirrando e no havia crescido nenhuma parte extra no meu corpo durante a noite. A casa parecia normal: nenhum serial killer havia invadido, nenhum manaco havia escrito meu nome com sangue na parede atrs do sof. Minha me estava na cozinha, j vestida para o trabalho, jogando cenouras, batatas e cubos de bife na panela automtica. Era tera feira, o que significava que a gente teria gororoba de bife para o jantar. Eu nunca culpei a minha me por no ser a Ana Maria Braga. Ela era garonete no Curbside Diner... sempre foi, desde quando eu podia me lembrar. E eu sabia que ela dava duro servindo hambrgueres e o que mais se passasse por comida naquela espelunca engordurada. Gororoba de bife era a nica refeio que ela poderia fazer em um dia de trabalho. Mas eu a culpava pelo Doug. E ainda culpo. Meu pai morreu quando eu tinha trs anos no me lembro muito dele, exceto que ele era um homem grande e policial. Tenho duas fotografias dele emolduradas no meu guarda roupa, ele est de uniforme nas duas em uma ele esta me segurando nos braos e na outra ele est montado em sua moto. Ele morreu no inverno seguinte ao que minha me havia tirado aquela ltima foto. Ele escorregou numa pista congelada e se enfiou debaixo das rodas de uma caminhonete. Fim da histria. Doug era o segundo marido da minha me, ela o conheceu dois anos atrs, na lanchonete, e se casou seis meses depois. Ele construtor ou o que diz. Pessoalmente eu nunca o vi construindo nada mais complexo do que um sanduche e Doug passava todo o tempo livre reclamando sobre estar desempregado e assistindo reprises de programas de carros e construo. Se tiver um martelo ou um motor no programa, ele vai assistir. Desde o momento em que entrou em casa a televiso foi proclamada sua propriedade pessoal. Eu me surpreendi que ele no houvesse mijado nela para demarcar territrio. - Darlene - Doug gritou da sua cadeira, na sala de estar. Ele estava usando seu uniforme: uma regata branca, samba-cano azul e meias pretas - Quem ferrou com o gravador de DVD? Eu no gravei esta porcaria! Esse viadinho mexeu nas minhas coisas de novo! Esse viadinho seria eu. Sim, eu sou gay, mas eu no sou assumido no para minha me, Doug ou qualquer outra pessoa, exceto para o meu melhor amigo, Billy. E eu, definitivamente, no queria ter esta conversa com a minha me enquanto Doug estava falando sobre viados e o ltimo episdio de Danando com as Estrelas que eu tinha gravado. Eu acho que ele me chama de viadinho no por causa da minha sexualidade, mas porque ele me odiava e na sua mente pequena e atrasada esse o pior insulto que algum poderia dizer para mim.

3 Doug ficaria realmente irritado se soubesse que eu era gay. Eu quase contei, s para ver aquela veia no meio da testa dele explodir. Mas o fato que eu poderia ser um jogador de futebol, passar todo o meu tempo com os cotovelos numa janela de carro e encher meu quarto com psteres de mulheres da Sport Illustraded Edio Biqunis e mesmo assim Doug ainda acharia que eu sou da escria, s porque no sou seu filho biolgico. Eu percebi, depois disso tudo, que nada que eu fizesse ou falasse seria bom o bastante para ele. Billy dizia que isso era problema do Doug e no meu e ele provavelmente estava certo. Ele conhece todos os problemas com os pais, principalmente os dos pais com filhos gays. Os pais dele, por exemplo, haviam tentado enfiar ele em internatos desde que ele se assumira, h trs anos. Billy se chateou com isso? No. Ele voltou pra casa com o papel da expulso da escola e esfregou nos narizes deles. s vezes Billy era meu Heri. - No esquea seu lanche, Jamie. Eu estou trabalhando dobrado hoje, ento eu no volto at a meia-noite. A comida vai estar pronta as cinco - disse minha me ignorando Doug. Minha me tem o dom de simplesmente desligar o Doug da mesma maneira que algumas pessoas tm o dom de desligar a msica do elevador ou o barulho do trnsito. Infelizmente isso tambm significava que ela nunca dizia nada quando ele me chamava de tudo quanto nome. Vai ver ela apenas no queria se meter entre a gente. Na verdade acho que ela no queria que o temperamento dele se voltasse contra ela. Este o motivo pelo que eu a culpo, por deix-lo fazer parte das nossas vidas. Ela se casou com ele, no eu, mas era eu que tinha que agentar todas as porcarias dele. - Me, eu tenho que correr depois da escola. Eu no vou estar em casa antes das seis, talvez das sete - eu disse s para lembr-la de que eu tinha uma vida s minha. Na verdade eu no tinha, mas ela no precisava saber disso. Correr era uma das coisas que eu fiz para tentar agradar ao Doug. No funcionou, mas, surpreendentemente, eu descobri que era bom em correr e acabei gostando. Alm do mais, Dylan Anderson estava no time de corrida e eu tinha uma queda por ele desde a oitava srie. A torradeira jogou minha torrada e eu a agarrei, jogando-a de mo em mo at que ela estivesse fria o suficiente para enfi-la na minha boca. Eu peguei meu saco de papel da geladeira, aquele que eu sabia, sem olhar, que tinha o sanduche de resto de carne e enfiei na minha bolsa. Tomei alguns goles de leite, da caixinha mesmo, antes de fechar a porta. Depois de levar o beijo obrigatrio da minha me, eu sa. L fora tudo parecia como deveria ser: minha bicicleta ainda estava encostada do lado de fora da casa, no jardim, da mesma maneira que eu havia deixado na noite anterior; haviam alguns carros na rua e pessoas indo para o trabalho.

4 No importava o quo normal as coisas parecessem, alguma coisa ainda no parecia certo. Eu me lembro de arrancar esse sentimento, dizendo para mim mesmo que eu no vivia em um filme de terror em que havia plantas de homens maus no poro ou zumbis escondendo-se nas sombras, esperando para comer meu crebro. No haviam aliens ou hamster gigantes e raivosos saindo do esgoto: s haviam coisas comuns e pessoas esquecveis, vivendo vidas comuns e esquecveis. Nada estava errado. Nada estava diferente. Eu me lembro de pensar que, talvez, se eu repetisse isso vezes o suficiente, o nada estava errado se tornaria realidade.

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Benjamin Jackson Good High School, nomeada aps a morte de um dos ilustres fundadores da cidade e carinhosamente chamada de BJ Good pelas geraes de alunos, era um prdio achatado, com dois andares e tijolos vermelhos. Esparramava-se por alguns acres em uma colina no centro da cidade. As colinas eram ngremes, o que fazia delas timas para snowboarding no inverno, mas eram uma porcaria quando as chuvas de primavera as transformavam em lama. Estacionar na BJ Good era coisa de gente que podia; as vagas eram pequenas e as nicas pessoas autorizadas a dirigir seus prprios carros eram os funcionrios e os alunos do ltimo ano. Mesmo assim o estacionamento para os alunos custava cem pratas por ano, ento a maioria dos veteranos optava por andar de nibus. Umas centenas de dlares poderiam fazer diferena quando os nicos empregos disponveis na cidade pagavam menos do que o salrio mnimo. Eis o motivo de eu ir de bike at a escola. Mesmo que eu houvesse um carro, que eu no tinha, eu nunca me renderia e daria meu dinheiro suado pelo privilgio de estacionar no precioso asfalto da escola. Isso no ia acontecer nesta vida...eu tinha outros milhes de usos para as minhas poucas economias. Eu estava no meu caminho at as portas da frente da escola quando escutei meu nome. - Hey, Jamie. Espera! Me virei e vi uma cabea com cabelos vermelhos se destacando no mar de alunos a