Multiculturalismo e o direito à autodeterminação dos povos indígenas

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

ANTONIO ARMANDO ULIAN DO LAGO ALBUQUERQUE

MULTICULTURALISMO E O DIREITO AUTODETERMINAO DOS POVOS INDGENAS

FLORIANPOLIS

2003

ANTONIO ARMANDO ULIAN DO LAGO ALBUQUERQUE

MULTICULTURALISMO E O DIREITO AUTODETERMINAO DOS POVOS INDGENAS

Dissertao apresentada Universidade Federal de Santa Catarina como exigncia para a obteno de ttulo de mestre em Direito na rea de Filosofia e Teoria do Direito

ORIENTADORA PROF. DR. THAS LUZIA COLAO

FLORIANPOLIS

2003

Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Cincias Jurdicas

Departamento de Direito Curso de Ps-Graduao em Direito

A dissertao: Multiculturalismo e o direito autodeterminao dos povos indgenas elaborada por Antonio Armando Ulian do Lago Albuquerque e aprovada por todos os membros da Banca Examinadora foi julgada adequada para a obteno do ttulo de Mestre em Direito.

Florianpolis, 19 de Maio de 2003.

Prof. Dr. Thas Luzia Colao Orientadora

Prof. Dr. Antonio Carlos Wolkmer Membro

Prof. Dr. Alvaro Reinaldo de Souza Membro

s pessoas que mais amo: Meus pais, minhas irms e minhas sobrinhas; memria do saudoso amigo: Levy Silva Alt; Aos amigos de jornada em relao s questes indgenas: Elias Renato da Silva Janurio, Luciano Pereira e Silva, Renata Bortoletto; Ao amigo e grande incentivador de minha potencialidade: Edmundo Lima de Arruda Jnior; Aos amigos de todos os momentos: David Atala Sobrinho, Alexandre Mendes Vieira, Emerson Hideki Hayashida; Aos(s) companheiros(as) do mestrado e doravante da vida pelo convvio mpar, amizade sincera e troca de conhecimentos: Camila, Carlos, Ernani, Guilherme, Isaac, Marcelo, Marisse, Tiago; Aos amigos e professores, Reginaldo Tapirap e Welber Tapirap.

Muito obrigado, Ao grande esprito, pela vida concedida; Ao meu pai, Armando do Lago Albuquerque Filho e, minha me, Iveti Ulian Albuquerque, pelas sugestes, incentivos e auxlios nos momentos desesperadores; Silvana do Lago Albuquerque, pelo apoio humano e material irrestrito; Selene Cristina do Lago Albuquerque, pelo auxlio ao chegar em terras mato-grossenses; Soraya do Lago Albuquerque, pelo carinho incondicional; Ao Ncleo de Assuntos Indgenas da Universidade do Estado de Mato Grosso, pela primeira experincia de contato com os povos indgenas; A Edmundo Lima de Arruda Jnior, por ter acreditado em meu potencial ainda quando estudante de graduao; minha orientadora, pela livre disposio com que cedeu sua biblioteca particular para a elaborao desta pesquisa; A Antonio Carlos Wolkmer, pelo exemplo de profissional dedicado docncia e pesquisa, e pelos conselhos na conduo de uma sala de aula; Aos(s) queridos(as) amigos(as): Camila, Carlos, Ernani, Guilherme, Isaac, Marcelo, Marisse e Tiago, pelos momentos compartilhados em nossa convivncia; A Guilherme Soares, pela amizade, sugestes e companheirismo.

A nau da ousadia quase nunca ultrapassa os recifes da certeza, e vai a pique desejando o oceano sem jamais ter sado do cais. (Carlos Alberto Reyes Maldonado)

RESUMO

Esta investigao pretende contribuir para com a causa poltica dos povos indgenas. Atravs de uma anlise vinculada Histria, Poltica e Direito, primeiramente estabeleceu-se as caractersticas de ascenso de um Estado-moderno, sua concretizao e estabilizao atravs de uma poltica centralizadora, objetivando homogeneizao. Inviabilizada essa proposta, demonstrou-se o declnio desse projeto poltico estatal e do Direito por ele criado, devido a no satisfao das demandas dos novos sujeitos de Direito e das reivindicaes tnicas ento insurgentes. Estabeleceu-se, em momento posterior, uma anlise do fenmeno multicultural nas obras dos principais tericos sobre o tema em questo, pretendendo situar o debate multicultural entre comunitaristas e liberais, e apresentando uma proposta alternativa localizada nos referenciais tericos de Jrgen Habermas e Peter Mclaren, perpassando nessa discusso, as reivindicaes indgenas e a possibilidade de autodeterminao desses povos.

No segundo captulo, elaborou-se um panorama histrico em relao aos grupos tnicos indgenas, evidenciando as origens de sua espoliao enquanto grupos tnicos diferenciados da sociedade envolvente, bem como a poltica indigenista estatal desenvolvida com pretenses assimilao nacional dessas minorias tnicas. Por outro lado, tambm evidenciou-se um contra-discurso situado desde Bartolom de Las Casas at Jos Carlos Maritegui em propostas polticas favorveis e reconhecedoras da diversidade cultural. Por fim, traou-se um esboo terico de uma perspectiva multicultural brasileira vinculada ao multiculturalismo crtico de Peter Mclaren e ao pluralismo jurdico comunitrio-participativo de Antonio Carlos Wolkmer, ambos formando um liame em prol de uma pedagogia libertadora, estabelecendo-a atravs de um ensino jurdico especfico para as comunidades indgenas acarretando uma autonomia progressiva desses grupos tnicos fundamentada na proposta de Luis Villoro.

RESUMEN Esta investigacin piensa contribuir a la causa poltica de los pueblos indgenas.

Primeramente a travs de un anlisis se unido a la Historia, Poltica y Derecho, estableciendo las caractersticas de ascensin de lo Estado-moderno, su materializacin y estabilizacin a travs de una poltica centralizadora que apunta a la homogeneizacin. Hecho impracticable esa propuesta, fue demostrado el declive de ese proyecto poltico del Estado y del Derecho para l producido, debido a ninguna satisfaccin de las demandas del nuevos sujetos de Derecho y de las demandas tnicas entonces rebeldes. Se estableci, en el momento subsecuente, un anlisis del fenmeno multicultural en los trabajos de los principales tericos sobre el asunto, pensando poner el debate multicultural entre el comunitaristas y liberal, presentando una propuesta alternativa localizada en el referenciais tericos de Jrgen Habermas y Peter Mclaren, perpassando en esa discusin, las demandas indgenas y la posibilidad de libre determinacin de eses pueblos.

En el segundo captulo, se elabor un panorama histrico a respecto mientras grupos tnicos indgenas, evidenciando las orgenes de expoliacin de los grupos tnicos diferenciados de la sociedad enredada, as como la poltica indigenista estatal desarrolladas con pretensiones a la asimilacin nacional de esas minoras tnicas. Por otro lado, tambin se evidenci un contra-discurso localizado desde Bartolom de Las Casas hasta Jos Carlos Maritegui en propuestas polticas favorables y reconhecedoras de la diversidad cultural. Finalmente, fue trazado un esbozo terico de una perspectiva multicultural brasilea se ligando el multiculturalismo crtico de Peter Mclaren y el pluralismo jurdico comunidad-participativo de Antonio Carlos Wolkmer, ambos formando un lazo en nombre de una pedagoga libertadora, a travs de lo establecimiento de una enseanza jurdica especfica por la comunidades indgenas propiciando, desta manera, una autonoma progresiva de esos grupos tnicos bas en la propuesta de Luis Villoro.

SUMRIO

RESUMO ............................................................................................................................ 07 RESUMEN.......................................................................................................................... 08 INTRODUO................................................................................................................... 10 CAPTULO I A HOMOGENEIZAO DURANTE A FORMAO DOS ESTADOS-MODERNOS E A AFIRMAO DAS DIFERENAS POR MEIO DA ETNICIDADE.................................. 17 1. Transio do feudalismo para os Estados-Modernos......................................................... 17 1.1. A aurora da modernidade estatal na teoria contratualista................................................ 24 1.2. Monismo jurdico enquanto expresso do Estado-Moderno ........................................... 42 1.3. Declnio do projeto poltico-jurdico do Estado-Moderno e a emergncia da etnicidade. 57 CAPTULO II O DEBATE SOBRE O MULTICULTURALISMO............................................................. 74 2. Pluralismo cultural e multiculturalismo ............................................................................ 74 2.1. A proposta multicultural e a poltica da diferena de Charles Taylor ............................. 80 2.2. O projeto de Michael Walzer sobre as esferas de justia e sua crtica proposta de John Rawls................................................................................................................................... 92 2.3. O multiculturalismo liberal de Will Kymlicka ............................................................. 102 2.4. A teoria multicultural de Alain Touraine ..................................................................... 111 2.5. A perspectiva habermasiana sobre o multiculturalismo................................................ 119 2.6. Multiculturalismo crtico: o princpio da diferena e da autodeterminao................... 129 CAPTULO III A POLTICA INDIGENISTA HOMOGENEIZANTE FRENTE HETEROGENEIDADE CULTURAL INDGENA.................................................................................................. 165 3. Conquista ontem e hoje: contradies entre dois mundos ............................................... 165 3.1. O processo de conquista da Amrica Indgena e a problemtica das etnias indgenas no Brasil ................................................................................................................................. 176 3.2. A poltica indigenista e o poder estatal brasileiro......................................................... 204 3.3. A tutela jurdica do Cdigo Civil de 1916 e sua revogao .......................................... 227 3.4. Direito do ndio nas Constituies brasileiras e O Es