Multiculturalismo esegurança societal - ?· «multiculturalismo» é um processo que teve a sua origem…

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  • Neste artigo propomo-nos abordar a complexa teia de relaes que se pode estabe-lecer entre o multiculturalismo e a segurana societal nas sociedades democrti-cas, pluralistas e abertas da Europa/Ocidente, tendo, para o efeito, delineado o seguintepercurso analtico: (i) clarificao conceptual do multiculturalismo nos sentidos descri-tivo e prescritivo do conceito; (ii) anlise do multiculturalismo enquanto ideologia epoltica pblica que promove as polticas de reconhecimento e/ou da diferena, bemcomo das suas repercusses sobre a concepo liberal e igualitria de cidadania, queremete as diferenas culturais para a esfera privada; (iii) discusso das potenciais conse-quncias do multiculturalismo ao nvel da segurana societal nas sociedades abertas,tentando avaliar em que medida existe um risco real de ruptura e/ou imploso, por desa-gregao das instituies, prticas e valores que as suportam e estabilizam, com algu-mas referncias empricas aos casos do Canad, Reino Unido e Frana e s comunidadesmuulmanas que vivem nestes pases.

    O QUE O MULTICULTURALISMO

    Antes de mais, vamos comear por efectuar uma breve resenha histrica sobre o uso dapalavra multiculturalismo que hoje est definitivamente implantado na linguagemacadmica das disciplinas culturais (Antropologia, Sociologia, Estudos Culturais,Cincias da Educao, etc.) e do discurso poltico, para depois clarificarmos conceptual-mente o(s) seu(s) contedo(s). Tanto quanto se sabe, a sua utilizao relativamente

    Multiculturalismo e segurana societal Jos Pedro Teixeira Fernandes 129

    Multiculturalismoe segurana societalJos Pedro Teixeira Fernandes

    Quando, algum tempo atrs, a Jugoslvia comeou o seu deslize inexorvel para o horror, uma notcia da CBC relatava que um nmero estimado em 250 descendentes de emigrantes croatas,

    jovens com corpo robusto e mente s, deixaram o pas para pegar em armas em defesa da Crocia. A notcia levantava de imediato uma questo: como que estes jovens se definiam a si prprios?

    Como croatas ou croatas-canadianos? Como canadianos de descendncia croata, ou croatas nascidos noCanad? E seria interessante saber que pas escolheriam se um dia fossem obrigados a isso:

    a terra dos seus pais, pela qual escolheram lutar, ou a terra do seu nascimento, da qual escolheram partir? [] Abandonar o seu pas para se empenhar numa batalha na terra dos seus antepassados,

    no por ideais intelectuais mas raciais, revela, na melhor das hipteses, lealdades divididas entre o pas e a etnicidade [] Lealdades divididas revelam uma alma dividida, um pas dividido.

    Estes jovens canadianos de descendncia croata no esto sozinhos na sua lealdade adulterada ao Canad.Outros tambm acham impossvel efectuar um compromisso sincero com a nova terra,

    os novos ideais, a nova maneira de olhar a vida. Neil Bissoondath1

  • recente tendo ocorrido pela primeira vez na lngua inglesa em meados do sculo XX(o primeiro registo do seu uso data de 1941). Por sua vez, na transio dos anos 60 paraos anos 70 do sculo XX o multiculturalismo surgiu na linguagem oficial do Canad ena Austrlia, para designar as polticas pblicas que tinham por objectivo valorizar e/oupromover a diversidade cultural2. Nessa mesma poca, iniciaram-se igualmente polticaspblicas que podem ser qualificadas como multiculturais noutros pases anglo-sax-nicos, como o Reino Unido, a Nova Zelndia e os EUA. Fora do mundo anglo-saxnicosurgiram ainda polticas similares em pases como a Holanda, embora o uso oficialdessa designao seja mais tardio. Em termos conceptuais, importa notar que o multiculturalismo um termo poliss-mico e que existem, pelo menos, dois sentidos diferentes em que este pode ser utilizado.Um primeiro sentido descritivo e reporta a um facto da vida humana e social, que adiversidade cultural, tnica e religiosa que se pode observar no tecido social, ou seja, umcerto cosmopolitismo que actualmente fcil de reconhecer em qualquer grande cidadeda Europa e da Amrica do Norte. Um segundo sentido prescritivo e est associado schamadas polticas de reconhecimento da identidade e/ou da diferena que os poderespblicos prosseguem, ou deveriam prosseguir, segundo os seus defensores, em nomedos grupos minoritrios e/ou subalternos. Devido a estes dois significados divergen-tes, h uma ambiguidade discursiva que vale a pena desde j realar: enquanto a maiorparte da opinio pblica interpreta o uso da palavra multiculturalismo no sentido des-critivo do conceito, o que est em causa nesta anlise essencialmente o sentido pres-critivo do mesmo. Quanto ao multiculturalismo como poltica de reconhecimento e/ouda diferena quer dizer, o multiculturalismo no sentido prescritivo do conceito umproduto estreitamente associado ao universo cultural anglo-saxnico. Mas, visto que setrata de poltica(s) pblica(s), que ideias e/ou ideologias sustentam e prescrevem estaopo poltica que se pretende afirmar como alternativa face concepo liberal e igua-litria de cidadania?Num conjunto de ensaios originalmente editado sobre o ttulo Multiculturalism, o profes-sor de Filosofia e de Cincia Poltica da Universidade McGill, em Montreal, no Canad,Charles Taylor3, refere que aquilo que actualmente no discurso poltico se designa pormulticulturalismo um processo que teve a sua origem na necessidade ou na exign-cia de reconhecimento, e que se faz sentir sob determinadas formas, mais ou menosligadas aco em nome de grupos minoritrios ou subalternos. Nestes casos, a exi-gncia de reconhecimento deriva de uma

    suposta relao entre reconhecimento e identidade, significando este ltimo termo qual-

    quer coisa como a maneira como uma pessoa se define, como que as suas caractersticas

    fundamentais fazem dela um ser humano. A tese consiste no facto de a nossa identidade

    ser formada, em parte, pela existncia ou inexistncia de reconhecimento e, muitas vezes,

    pelo reconhecimento incorrecto dos outros, podendo uma pessoa ou grupo de pessoas

    RELAES INTERNACIONAIS MARO : 2006 09 130

  • serem realmente prejudicados, serem alvo de uma verdadeira distoro, se aqueles que os

    rodeiam reflectirem uma imagem limitativa, de inferioridade ou de desprezo por eles mes-

    mos. O no reconhecimento ou o reconhecimento incorrecto podem afectar negativa-

    mente, podem ser uma forma de agresso, reduzindo a pessoa a uma maneira de ser falsa,

    distorcida, que a restringe.

    Apesar desta formulao de Charles Taylor ser bastante difundida, o multiculturalismono propriamente sustentado por um corpo terico homogneo, existindo diferentessensibilidades tericas que podem, de uma forma bastante simplificada, ser agrupadasem duas grandes verses, as quais vamos designar, respectivamente, por verso mar-xista-cultural/ps-moderna4 e por verso liberal/cidadania diferenciada.

    A ABORDAGEM MARXISTA-CULTURAL/PS-MODERNA

    As origens do multiculturalismo na verso marxista-cultural/ps-moderna so-nosexplicadas por um dos seus mais entusisticos proponentes, Douglas Kellner, quedetm a ctedra de Filosofia da Educao na Universidade da Califrnia. Num artigo inti-tulado Cultural studies, multiculturalism, and media culture (Estudos culturais, mul-ticulturalismo e cultura dos media), este analisa a convergncia de interesses entre osEstudos Culturais e o multiculturalismo, explicando-nos os objectivos partilhados porambos:

    Devido ao seu enfoque nas representaes da raa, gnero humano e classe, e s suas cr-

    ticas das ideologias que promovem vrias formas de opresso, os Estudos Culturais dedi-

    cam-se a um programa multiculturalista que demonstra como a cultura reproduz certas

    formas de racismo, sexismo e preconceitos contra membros das classes subordinadas,

    grupos sociais, ou estilos de vida alternativos. O multiculturalismo afirma o valor de dife-

    rentes tipos de cultura e grupos culturais, sustentando, por exemplo, que os negros,

    latinos, asiticos, nativos americanos, gays e lsbicas, e outras vozes oprimidas e margi-

    nalizadas tm a sua prpria validade e importncia. Um multiculturalismo rebelde procura

    mostrar como vrias vozes de povos e experincias so silenciadas e omitidas da cultura

    dominante e luta para ajudar a articulao de diversos pontos de vista, experincias e for-

    mas culturais, dos grupos excludos da cultura dominante.5

    Para um pblico europeu normalmente pouco familiarizado com as polticas pblicas domulticulturalismo a grandes excepes so, sobretudo, o Reino Unido e a Holanda ,este discurso de Douglas Kellner provavelmente parecer bastante estranho, at porquea ideia que normalmente este tem do multiculturalismo est associada ao j referido sen-tido descritivo do conceito, que o de diversidade cultural e de cosmopolitismo. Toda-via, conforme fizemos notar, no isso que est essencialmente em causa nomulticulturalismo enquanto poltica pblica, o qual tem por objectivo a implementao

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  • na sociedade de uma determinada viso poltica, sendo esta, naturalmente, o produtoimplcito ou explcito de determinadas concepes ideolgicas6. Mas, quais so, maisconcretamente, os fundamentos ideolgicos dessa viso poltica? Num outro paper aca-dmico, Douglas Kellner d-nos algumas pistas para uma genealogia do multicultura-lismo. Atente-se no seguinte excerto do mesmo:

    Nas ltimas dcadas surgiram muitas verses diferentes dos Estudos Culturais. Embora

    durante o seu perodo dramtico de expanso global, ocorrido nas dcadas de 1980 e 1990,

    os Estudos Culturais se identificassem, frequentemente, com a perspectiva sobre a cultura

    e a sociedade desenvolvida pelo Centro para os Estudos Culturais Contemporneos em

    Birmingham, na Inglaterra, esta perspectiva materialista sociolgica e poltica sobre a cul-

    tura tinha predecessores em diversos marxistas culturais. Muitos tericos marxistas do

    sculo XX, desde Georg Lukcs, Antonio