Mundi Carmo

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  • Revista Mosaico, v. 6, n. 1, p. 77-86, jan./jul. 2013. 77

    Dos

    si

    OS ANTIGOS QUE TRABALHAVAM PERFEITAMENTE MORRE-RAM: A MEMRIA DA UMBANDA EM ARAGUANA (TO)*

    Sariza Oliveira Caetano Venncio**Mundicarmo Ferretti***

    Resumo: processos migratrios possibilitam o dilogo entre diversas culturas. Em muitos casos, como no campo religioso, as trocas simblicas podem ser mais visveis do que em outros. A partir da, procura-se delinear a chegada da Umbanda a Araguana, norte do Tocantins, e, atravs da memria de alguns dirigentes, apresentar os primeiros umbandistas que viveram na cidade.

    Palavras-chave: Migrao. Memria. Umbanda. Araguana..

    THE ANCIENT PEOPLE, WHO WORKED PERFECTLY, DIED: THE MEMORY OF UMBANDA EM ARAGUANA (TO)

    Abstract: migration processes enable the dialogue among different cultures. In many cases, as in the religious field, symbolic exchanges may be more visible than others. Therefore, we tried to outline the arrival of Umbanda in Araguana, north of Tocantins. And, through the memories of some leaders, well present the first umbandistas in the city.

    Keywords: Migration. Memory. Umbanda. Araguana.

    * Recebido em: 01.04/2013. aprovado em: 25.04.2013.** Mestre em Cincias Sociais pela Universidade Federal do Maranho. E-mail: sarizacaetano@gmail.com.*** Doutora em Antropologia pela USP. E-mail: mundicarmorf@gmail.com

    O Tocantins o mais novo estado do Brasil. Aps diversos movimentos separatistas liderados por pessoas da regio norte de Gois em oposio ao centro-sul (CAVALCANTE, 2003) o estado criado em 1988. Com a criao do Tocantins a regio enfrentou diversas migraes, mas uma das mais impactantes ocorreu, antes ainda na dcada de 1970 quando da finalizao da pavimentao da estrada BR-153. Muitas cidades, que pertenciam a Gois, mesmo tendo surgido dcadas antes, como o caso de Araguana, instalada em 1959, teve um boom populacional com a construo da rodovia.

    Com os processos migratrios grupos religiosos de matriz crist vidos por disseminar o Evangelho e os bons costumes morais chegaram e se instalaram em Araguana. Relatos orais as-

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    sim como textos escritos por acadmicos e memorialistas descrevem a chegada e a instalao destes na regio. Grupos religiosos de matriz africana tambm chegaram em Araguana, contudo, h um silenciamento social da histria destes. Somente a partir de entrevistas com antigos dirigentes de terreiros pudemos obter informaes sobre a chegada dos primeiros umbandistas e compreender o cenrio afro-religioso atual.

    A princpio, a Umbanda surge como resultado da integrao e sntese de tradies africanas, espritas e catlicas. Autores como Cndido P. F. de Camargo (1961), Maria Helena V. B. Concone (1987), Reginaldo Prandi (1991; 1995/1996), Renato Ortiz (1991), Ismael Pordeus Jnior (2002; 2008), assim como outros pesquisadores, tm escrito sobre seu surgimento, dentre outros recortes diversos. Concone (1987) defende que esse carter integrador da Umbanda est situado historicamente em dois movimentos para legitimao da religio: o primeiro o branqueamento vincularia a Umbanda ao cristianismo e kardecismo, procurando distanci-la da influncia negra; no segundo movimento a negritude , ocorre o oposto: a valorizao da origem africana assumida num movimento de autovalorizao.

    Concone (1987) ainda acrescenta que uma tendncia de supervalorizao dos elementos in-dgenas poderia tambm ser apontada, pois este discurso buscaria uma nfase no carter brasileiro da religio negando vnculos com elementos negros. Porm a autora pontua a ambiguidade desta tendncia uma vez que na Umbanda alguns caboclos (ndios) so frequentemente visto como negros. Bastide (2006), em direo oposta, v essa valorizao do ndio como o primeiro de vrios motivos que levaram o encontro entre deuses africanos e espritos indgenas nas religies afro-brasileiras. A este motivo se seguiriam outros como um nacionalismo com discurso da miscigenao, mudanas nas divises de origem racial para a de classes sociais etc.

    Uma das narrativas de fundao da Umbanda mais divulgadas pela literatura acadmica es-pecializada e pelos umbandistas conta que esta teve seu marco mais importante em 1908, quando Zlio Fernandino de Moraes, em Niteri, recebeu pela primeira vez o Caboclo das Sete Encruzilhadas; alm disso, ainda no mesmo ano foi realizado o primeiro culto umbandista. Somente em 1920 foi construdo o primeiro centro de umbanda que, em 1938, teria ido se instalar numa rea mais central no Rio de Janeiro (PORDEUS JR, 2000; PRANDI, 1995/1996).

    A partir da dcada de 1930, inicia-se uma difuso da Umbanda pelo pas. Prandi (1995/1996) chega a afirmar que a dcada de 1950 foi o marco para sua consolidao como religio aberta a todos. Em sua forma clssica, a Umbanda se caracteriza pelo culto a espritos de pessoas que j morreram e pela manifestao destes atravs do transe de possesso. O transe visto como um estado, segundo Concone (1987), de alteraes de conscincia e comportamento; enquanto a possesso remete a um quadro extra somtico, cultural, denotando por sua vez uma crena (CONCONE, 1987, p.16). Os transes ocorrem, sobretudo, com entidades que podem ser agrupadas em duas categorias: espritos de luz caboclos, pretos velhos e crianas; e espritos das trevas os exus (ORTIZ, 1991).Os caboclos nessa religio se diferenciam daqueles recebidos na Mina, originria do Maranho, onde so mais conhecidos como encantados; enquanto os exus da Umbanda se diferem das entidades de mesmo nome cultuadas no Candombl e em outras denominaes religiosas afro-brasileiras (FERRETTI, M., 2000).

    Mesmo com as diferenas apontadas, as semelhanas encontradas nos trabalhos como so chamados os rituais religiosos da Umbanda com outras religies so imensas. O carter hbrido da Umbanda lhe permite ter uma capacidade de absoro e redefinio de traos religiosos diversos. Os santos catlicos esto presentes no altar e nas paredes, assim como as rezas e os benditos (rezas cantadas) em seus rituais. Cada orix do Candombl agregado a uma linha da Umbanda, dentre sete, como a entidade principal da linha correspondente. Em geral, os caboclos recebidos durante os trabalhos devem vir para trabalhar, ou seja, para ajudar as pessoas na terra atravs de conselhos e curas, a fim de que consigam evoluir no plano espiritual, tornando-se espritos de luz. Algo semelhante ocorre com alguns espritos no Kardecismo. Essas e outras especificidades das trs religies citadas aparecem nos mitos e ritos da Umbanda. Mas importante ressaltar que no so somente essas trs religies que podem ser adaptadas, negociadas e hibridizadas pela Umbanda.

    Compreendemos que os fluxos migratrios ocorridos, em especial, na regio de Araguana motivados pela extrao de ouro, criao de gado, construo da BR-153 e criao do Estado do To-cantins contriburam para as configuraes mltiplas das religies afro-brasileiras na cidade mediante

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    contatos culturais entre pessoas do Par, Maranho e Piau, estados responsveis por grande parte da presena populacional migrante em Araguana segundo dados dos ltimos Censos.

    DIFICULDADES DO CAMPO

    Encontrar as casas de culto afro-brasileiras em Araguana foi tarefa difcil. Os dados aqui apresentados foram recolhidos durante os anos de 2011 e 2012. Por se tratar de uma religio que no tem a escrita como base da sua tradio e por estarmos trabalhando com as memrias dos sujeitos informaes complementares surgiam e ainda surgem a todo tempo.

    Primeiramente, esbarramos no preconceito de boa parte das pessoas da cidade, as quais procu-ravam negar a presena dos terreiros, silenciando-se ou escondendo possveis informaes disponveis. Acreditamos que tais comportamentos tenham sua base na intolerncia religiosa praticada por muitas religies de matriz crist na cidade. Se, de modo geral e historicamente, as religies afro-brasileiras fo-ram e ainda so alvos de perseguies no Brasil, pensamos que no poderia ser diferente em Araguana, cidade que j surge com as trs principais religies da tradio crist: os catlicos, os protestantes e os pentecostais. Os cultos afro-brasileiros estavam tambm presentes quando do surgimento da cidade. Porm, o carter missionrio e proselitista das religies crists fizeram que estas se espalhassem pela regio, disseminando crenas e doutrinas que, margeadas pela rejeio e demonizao do outro as religies no crists , marcavam uma oposio aos terreiros. certo que entre aquelas h disputas simblicas e polticas pelos fiis, pela verdade, pelo poder. Mas o que vemos a materializao de um inimigo, um mal comum a todas elas as religies afro-brasileiras.

    A questo da intolerncia remonta ao perodo colonial, quando a liberdade religiosa era inexis-tente. A religio oficial era a catlica, que continuou at o imprio. Durante o processo de laicizao e secularizao, a Constituio de 1824 avanou, pois ningum poderia ser perseguido por motivos religiosos (ORO, 2008). Assim, uma tenso entre Estado e Igreja Catlica comea a se configurar, dentre outros fatores, devido s disputas no campo religioso, que agora estavam abertas de forma legal. A intolerncia dos catlicos relativa a religies protestantes, indgenas e de negros se intensifica nesse processo. Vagner Gonalves da Silva (2007) resume assim o modo como foi se configurando a intolerncia s afro-brasileiras:

    Foram perseguidas pela Igreja Catlica ao longo de quatro sculos, pelo Estado republicano, sobretudo na primeira metade do sculo XX, quando este se valeu de rgos de represso policial e de servios de controle social e higiene mental, e, finalmente, pelas elites sociais num misto de desprezo e fascnio pelo exotismo que sempre esteve associado s manifestaes culturais dos africanos e seus descendentes no Brasil. Entretanto, desde pelo menos a dcada de 1960, quando essas religies conquistaram relativa legitimidade nos centros urbanos, resultado dos mo