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Musicologia Historica Brasileira_Castagna

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Artigo Professor Paulo Castanha (UNICAMP) sobre a história da Musicologia no Brasil.

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    Avanos e Perspectivas Na

    Musicologia Histrica Brasileira1

    Paulo Castagna2

    Resumo: Apesar da existncia de trabalhos interessados no conhecimento da msica brasileira j no sculo XIX, a musicologia iniciou o seu desenvolvimento no Brasil enquanto uma atividade intermediria entre literatura e cincia a partir da dcada de 1900, mas comeando a ser praticada segundo concepes propriamente cientficas somente a partir da dcada de 1960. Surgiu, ento, no Brasil, uma disciplina que j podia ser denominada musicologia histrica e que estava essencialmente preocupada com o estudo da msica produzida e praticada no pas. At meados da dcada de 1990, no entanto, a musicologia brasileira esteve essencialmente ligada s suas razes positivistas, presa ideologia nacionalista e religiosa, e principalmente voltada a atividades como a comprovao de uma prtica musical brasileira em tempos remotos, a descoberta do que ento se denominava a grande msica do passado, a construo da biografia dos seus autores e a valorizao de sua produo musical, por meio de informaes histricas, catlogos e anlises. Na dcada de 1990, entretanto, iniciou-se o estabelecimento de uma musicologia mais crtica e reflexiva, preocupada no somente com a interpretao dos fenmenos estudados, mas tambm com a sistematizao de informaes que no haviam passado por esse processo na curta fase positivista que tal cincia teve no Brasil. Essa transformao, impulsionada pelo desenvolvimento dos programas de ps-graduao e pela proliferao dos eventos regulares e dos peridicos especializados, trouxe consigo novas preocupaes, como a necessidade de princpios ticos no trabalho musicolgico, do respeito aos fundos documentais, do rigor metodolgico na pesquisa, da ampliao do nmero de pesquisadores e da difuso da pesquisa em todo o pas. O presente trabalho visa apresentar um rpido panorama do desenvolvimento da musicologia no Brasil e abordar os resultados obtidos pela nova musicologia estabelecida no pas a partir da dcada de 1990, bem como as perspectivas de trabalho que se configuram para as prximas dcadas.

    Introduo: o estabelecimento da musicologia no Brasil

    Surgida na Europa no sculo XIX, a musicologia teve objetivos que foram

    se modificando com o passar do tempo. Ricardo TACUCHIAN (1994:98), por

    exemplo, informa que a musicologia histrica, no sculo XIX, foi

    principalmente factual e positivista, lembrando que seu maior objetivo foi o

    levantamento de documentos musicais e sua edio crtica. Por outro lado, se

    1Este texto foi originalmente apresentado no Ciclo de Palestras Musicologia e Patrimnio Musical, realizado na Biblioteca Central Reitor Macedo Costa da Universidade Federal da Bahia entre os dias 22 e 24 de outubro de 2004, evento organizado pelo Prof. Dr. Pablo Sotuyo Blanco (PPGMUS-UFBA), que autorizou sua publicao nesta Revista. Em funo de estar sendo impresso quatro anos aps sua apresentao em Salvador, o texto no cita eventos, publicaes e discusses posteriores a essa data. 2Instituto de Artes da UNESP - Universidade Estadual Paulista, So Paulo (SP).

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    a musicologia histrica comeava a ser praticada na Europa no sculo XIX, o

    estudo de documentos e sua edio crtica, no caso brasileiro, foram raros no

    perodo anterior dcada de 1960.

    Uma certa quantidade de textos sobre msica foi produzida no Brasil

    durante o sculo XIX, com destaque para os de Manuel de Arajo Porto Alegre,

    Afonso de Escragnolle Taunay (o Visconde de Taunay), Joo Barbosa Rodrigues

    e Slvio Romero, mas em geral estes tinham interesse quase somente literrio,

    estando ainda distantes do que se poderia denominar musicologia. Jos

    Cndido de Andrade MURICY (1934), por exemplo, afirma ter sido Mario de

    Andrade (1893-1945) o primeiro musiclogo brasileiro, consequentemente

    excluindo do conceito de musicologia a produo sobre msica que antecedeu a

    do pesquisador paulistano. Zlia e Isaac CHUECKE (2006) tambm acreditam

    que o incio da atividade musicolgica no Brasil situa-se na primeira metade do

    sculo XX.

    Mesmo assim, foram raras as publicaes brasileiras destinadas a refletir

    sobre os significados da musicologia nesse perodo. Luiz LAVENRE (1929)

    parece ter sido o autor da primeira obra do gnero impressa no pas, seguida

    dos textos de Jos Cndido de Andrade MURICY (1952) e Renato ALMEIDA

    (1957), na dcada em que j era defendida a CRIAO de um Instituto de

    Musicologia no Brasil (1954). As reflexes sobre a atividade musicolgica no

    Brasil ou por brasileiros no foram muito freqentes a partir de ento, mas

    existe um certo nmero de trabalhos dispersos em peridicos e anais de eventos

    cientficos que at agora no foi suficientemente referido e cujo estudo

    fundamental para uma futura histria da musicologia no Brasil, com destaque

    para os de Francisco Curt LANGE (1970, 1977 e 1985), Olivier TONI (1982),

    Grard BHAGUE (1989), Antonio Alexandre BISPO (1990 e 1998), Rafael Jos

    de Menezes BASTOS (1991), Neide Rodrigues GOMES (1991), Roger COTTE

    (1991), Sandra Loureiro de Freitas REIS (1991), Conrado SILVA (1991), Jos

    Maria NEVES (1991 e 1995), Regis DUPRAT (1991a, 1992 e 1996), Manuel

    VEIGA (1993 e 1996), Regina Mrcia Simo SANTOS (1998), Joo Baptista

    SIQUEIRA (1988), Alberto DANTAS FILHO (2000), Dimitri CERVO (2001) e

    Maria Ins GUIMARES (2001). Longe de aqui pretender a construo de uma

    histria da musicologia no Brasil, este texto est destinado apenas a uma

    tentativa de identificar e compreender o significado das principais mudanas

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    pelas quais esta disciplina passou no pas, procurando deter-se na ltima delas,

    localizada na dcada de 1990.

    Na primeira grande transformao da musicologia no Brasil, que ocorreu

    do incio do sculo XX at meados da dcada de 1960, observou-se a transio

    de uma fase literrio-musical para uma fase propriamente musicolgica, na qual

    os trabalhos passaram a se enquadrar em uma espcie de gnero intermedirio

    entre literatura e cincia, incluindo-se a as assim denominadas histrias da

    msica brasileira (ou no Brasil) e suas congneres, como as de Guilherme de

    MELLO (1908), Renato ALMEIDA (1926), Vincenzo CERNICHIARO (1926),

    Mrio de ANDRADE (1941), Renato ALMEIDA (1942), Maria Luiza de Queirs

    Amncio dos SANTOS (1942), Francisco ACQUARONE [c.1948] e Lus-Heitor

    Corra de AZEVEDO (1956), para citar apenas as mais conhecidas.

    Os autores dessas histrias, apesar de seus esforos, reconheciam uma

    tal carncia de informaes objetivas sobre a prtica e produo musical

    brasileira que acabava por limitar seus prprios trabalhos. Lus Heitor Correia

    de AZEVEDO (1956:377-386), em uma nota introdutria bibliografia de seu

    livro, intitulada A musicografia no Brasil, menciona as principais

    contribuies brasileiras da primeira metade do sculo XX, que classifica em

    cinco grupos: histria da msica brasileira, lexicografia musical, estudos sobre

    msica popular, crtica musical jornalstica e edio de revistas musicais.

    Afirmando ser a musicologia brasileira ainda nascente e incipiente, destaca,

    como uma das grandes contribuies musicolgicas daquele perodo, o tomo 6

    do Boletn Latino-Americano de Msica (1946), impresso no Rio de Janeiro

    pelo Instituto Interamericano de Musicologia.

    De fato, esse sexto tomo do Boletn pode ser considerado um importante

    marco na musicologia brasileira, por ter reunido trabalhos que procuravam sair

    do enfoque meramente literrio-musical, para investigaes mais profundas

    sobre o patrimnio musical brasileiro. O Boletn contou com vinte e dois

    trabalhos impressos, destacando-se os de Francisco Curt Lange, Mrio de

    Andrade e Pedro Sinzig, mas tambm incluiria textos de Lus Heitor Corra de

    Azevedo, Jos Cndido de Andrade Muricy, Clvis de Oliveira e outros autores

    em um segundo volume desse tomo, que nunca chegou a ser impresso, em

    funo dos problemas econmicos acarretados pela Segunda Guerra Mundial

    (VIDAL, 2005:132-136).

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    Ao lado dos pesquisadores que fizeram (ou teriam feito) parte do tomo 6

    do Boletn Latino-Americano de Msica, podemos destacar, na musicologia

    brasileira das dcadas de 1900 a 1950, a produo de autores como Guilherme

    de Melo, Jos Rodrigues Barbosa, Renato Almeida, Vincenzo Cernicchiaro,

    Serafim Leite, Carlos Penteado de Rezende, Joo da Cunha Caldeira Filho,

    Maria Luiza de Queirs Amncio dos Santos, Hebe Machado Brasil, Geraldo

    Dutra de Morais, Ayres de Andrade e Joo Batista Siqueira, que em seus

    trabalhos, em geral relacionados a diversos aspectos da histria da msica no

    Brasil, procuravam demonstrar a existncia de uma tradio musical que

    antecedia a msica erudita de sua poca. Tais autores eram movidos pela

    possibilidade de o Brasil ser reconhecido entre as naes que cultivavam seu

    passado musical, a exemplo dos pases europeus, mas possibilitaram mais a

    identificao e organizao cronolgica de objetos de estudo para a musicologia,

    do que efetivamente se propuseram a estud-los. No h dvida, entretanto, do

    papel de liderana que tiveram Mrio de Andrade em So Paulo e Lus Heitor

    Corra de Azevedo no Rio de Janeiro, com trabalhos pioneiros que caminhavam

    em direo a uma musicologia cada vez mais cientfica, alm de suas

    preocupaes em outras reas.

    Apesar dos esforos brasileiros, Francisco Curt Lange foi o primeiro

    pesquisador que atravessou a fronteira da musicologia histrica no pas, com

    uma srie de trabalhos, iniciada pelo texto impresso no sexto tomo do Boletn

    Latino-Americano de Msica (LANGE: 1946), mas q