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Narrativas de gênero na escolha por enfermagem e ... Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN

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    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    Narrativas de gênero na escolha por enfermagem e pedagogia: expectativas de

    estudantes mulheres no sistema privado de ensino superior

    Renata G. Mourão Macedo1

    Resumo: O trabalho analisa narrativas de gênero entre estudantes dos cursos de enfermagem e

    pedagogia em duas faculdades privadas na região metropolitana de São Paulo (SP). Apresento

    resultados parciais de pesquisa de doutorado em andamento sobre escolhas no ensino superior

    privado, esmiuçando os processos de escolha de cursos e instituições. Permeada pela análise de dados

    sobre ensino superior que demonstram a persistente feminização de algumas áreas universitárias e

    profissionais (como enfermagem e pedagogia), a apresentação traz reflexões sobre a pesquisa de

    cunho etnográfico realizada entre estudantes desses dois cursos. Em especial, analiso nessa

    apresentação as narrativas de gênero, elucidando como as próprias estudantes mulheres percebem

    suas escolhas em relação a gênero, articulado a outros marcadores sociais da diferença, como classe

    social e idade. No caso específico da escolha pelo curso de enfermagem, a apresentação chama a

    atenção para os relatos sobre as dificuldades de cursar medicina, por um lado, e as expectativas de

    ultrapassar o nível técnico, por outro. Já no caso de pedagogia, trata-se do desafio de conciliar a

    vocação para o trabalho docente com os aspectos pragmáticos, diante de um curso considerado

    acessível, embora pouco valorizado. Em ambas as carreiras, os processos de feminização dessas áreas

    se produzem e reproduzem por meio de associações persistentes entre feminilidade e cuidado.

    Palavras-chave: Escolhas profissionais. Ensino superior. Gênero e marcadores sociais da diferença.

    “Nós da enfermagem gostamos de gente, nós estudamos para cuidar de

    gente. E somos quase só mulheres na sala, hein? [...] Os médicos não, eles

    estudam para cuidar de patologias, de doenças. E a maioria deles gosta

    muito de dinheiro, se movem por isso, nós não”.

    Amanda, 25 anos, estudante de Enfermagem

    Introdução

    Nos esquemas classificatórios entre cursos de ensino superior, diplomas e instituições, constroem-

    se hierarquias segundo critérios de prestígio, status e rendimentos adquiridos posteriormente no

    mercado de trabalho. Nessas classificações, permanentemente feitas e refeitas por rankings

    educacionais, mídia, instituições de ensino, mercado e pelos próprios estudantes, alguns grupos

    profissionais valem mais enquanto outros valem menos. Entre os marcadores sociais da diferença que

    produzem tais diferenciações, gênero certamente ainda é uma categoria constitutiva de tais

    desigualdades.

    Em meio a tais disputas classificatórias, no momento de fazer escolhas para entrada no ensino

    superior, estudantes orientam-se conforme os repertórios mais ou menos amplos adquiridos em suas

    trajetórias, enfrentado diversas dúvidas: Se eu seguir nesse curso, vou ter emprego quando formada?

    1 Doutoranda no Programa de Antropologia Social da USP, com orientação da Profa. Heloisa Buarque de Almeida. E-

    mail: [email protected]

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    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    Terei espaço para trabalhar com o que gosto? Ganharei dinheiro? Ficarei rica? Serei realizada?

    Mais vale um curso de menor prestígio em uma faculdade de qualidade ou um curso mais prestigiado

    em uma faculdade mais popular? Conforme pesquisa de campo realizada entre 2015 e 2017 com

    mulheres jovens e adultas de baixa renda, ingressantes em faculdades privadas na região

    metropolitana de São Paulo2, essas são algumas das dúvidas que perpassam a entrada no ensino

    superior. Nessa pesquisa, a reflexão recai sobre as narrativas de gênero e de classe social diante de

    projetos de vida e expectativas em relação a essa etapa de ensino, levando em conta o campo de

    possibilidades em transformação (Velho, 2013), dada a organização atual do sistema universitário

    brasileira e paulistano3.

    Nessas classificações, enquanto o curso de Medicina tem se constituído historicamente como um

    dos mais prestigiosos no Brasil, conciliando status e expectativas de altos rendimentos no mercado

    de trabalho (bastante superiores à média nacional)4, os cursos de Pedagogia (licenciatura) e

    Enfermagem (bacharelado), analisados neste paper, não têm o mesmo prestígio nesse sistema

    classificatório. No entanto, ambos os cursos estão entre os dez maiores do Brasil, atraindo anualmente

    milhares de estudantes, em sua maioria mulheres. Apenas em 2015, foram 655.813 mil estudantes

    matriculados em Pedagogia (sendo 92% mulheres), constituindo-se como o terceiro maior curso

    superior do país, e 261.215 mil matriculados em Enfermagem (sendo 85% mulheres) (Inep, 2015)5.

    Conforme a estudante de enfermagem Amanda explicitou na fala6 mobilizada no início deste

    texto, delineiam-se assim disputas entre cursos, instituições e estudantes. No caso de Amanda, sua

    fala de resistência busca reposicionar o curso de Enfermagem em tais classificações, em oposição aos

    estudantes de Medicina, considerados por ela como “mais focados em dinheiro”. Enfermagem, ao

    2 Neste texto, mobilizo parte da pesquisa de doutorado realizada a partir de conversas e entrevistas com 13 estudantes desses dois cursos (9 estudantes de Enfermagem e 4 de Pedagogia, até o momento) de duas IES privadas em São Paulo,

    além das experiências etnográficas que tive ao cursar uma semana de cada um desses cursos em 2016 e 2017.

    Complementado essa parte da pesquisa, no período também participei de grupos de WhatsApp de tais cursos. Como

    contraponto, nas próximas etapas de pesquisa pretendo analisar as expectativas de estudantes de mesmo perfil em outros

    cursos menos feminizados, como Administração e Direito. 3 Nesse processo, destacou-se o grande crescimento do setor privado, indicando um forte processo de privatização e

    mercantilização dessa etapa de ensino no Brasil, abocanhando atualmente 76% do total de matrículas (Inep, 2015). 4 Segundo pesquisa realizada pelo IPEA em 2013, Medicina era o curso que garantia maiores rendimentos, calculados

    como de R$8.459, em média. Comparativamente, os salários da área de educação foram calculados nessa pesquisa como

    sendo, em média, de R$2.420 e em enfermagem, em média, R$3.495 (Ipea, 2013). 5 Conforme o censo de 2015, os dez cursos com maiores números de matrícula no Brasil foram: Direito (853 mil

    estudantes matriculados), Administração (766 mil), Pedagogia (655 mil), Ciências Contábeis (358 mil), Engenharia Civil

    (355 mil), Enfermagem (261 mil), Psicologia (223 mil), Recursos Humanos (177 mil), Serviço Social (172 mil) e

    Engenharia da Produção (170 mil). Juntos tais cursos concentram 49,8% das matrículas no ensino superior (Inep, 2015). 6 Neste texto, mobilizo diversos trechos de conversas e entrevistas realizadas com estudantes dos cursos de enfermagem

    e pedagogia entre 2015 e 2017. Devo dizer que o uso de entrevistas envolve o conhecimento de suas limitações: trata-se

    daquilo que a estudante reconstitui como sua trajetória passada e suas expectativas futuras buscando dar coerência em

    uma narrativa organizada - o que Bourdieu chamaria de ilusão biográfica (Bourdieu, 2007) - dirigida à pesquisadora.

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    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

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    contrário, concentra pessoas – mulheres, em especial, interessadas no que mais importa, segundo ela:

    cuidar de pessoas. Conforme argumentou Amanda nessa entrevista: “Sinceramente, medicina e

    enfermagem são coisas bem distintas. Eu nem que tivesse tempo e dinheiro, eu não faria medicina”.

    Amanda é estudante de Enfermagem no período vespertino em uma IES privada localizada na

    região central da cidade de São Paulo, que aqui chamarei de Faculdade 17. Trata-se de uma grande

    IES privada não confessional, reunindo dezenas de cursos de graduação e alguns cursos de pós-

    graduação, e bastante conhecida por suas campanhas publicitárias. Em abril de 2016, momento dessa

    conversa, Amanda tinha 25 anos. Conforme reconstitui sua trajetória na entrevista, aos 19 anos cursou

    o técnico de enfermagem e, posteriormente, convencida de sua afinidade com a área, optou por iniciar

    o ensino superior: “Eu acho que é a única forma da gente crescer dentro da enfermagem é

    estudando”.

    Em uma dessas conversas que tive com ela e duas amigas de curso em uma lanchonete localizada

    próxima à faculdade, Amanda discordava de uma de suas amigas que me contava que escolhera

    Enfermagem mas “o verdadeiro sonho” teria sido cursar Medicina. Nesse diálogo, ao debater com

    elas o tema de minha pesquisa e meu interesse em

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