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Universidade Estadual de Maringá 27 e 28 de abril de 2010 NARRATIVAS MIDIÁTICAS E IDENTIDADES JUVENIS SILVA, Franciele Alves da FABIANO, Luiz Hermenegildo Agência Financiadora – CAPES Narrativas e sociedade contemporânea: Os indivíduos têm um modo peculiar de compreender, agir e relacionar-se com o mundo à sua volta. É a cultura que fornece essas características peculiares, constituindo o modo como os homens interagem, se organizam e criam sentido para as ações que realizam. A cultura, portanto, é o que caracteriza o mundo humano: são as idéias, a produção dessas idéias, conceitos, valores, símbolos, hábitos, atitudes, habilidades e os sentidos para se realizá-las. Nas diferentes sociedades e épocas os homens elaboraram e elaboram sua cultura, bem como os meios para transmiti-la aos membros do seu grupo, sob a forma de conhecimentos, experiências, tradições, etc. As transformações que ocorreram na sociedade ocidental desde a consolidação do sistema capitalista desenvolveram diferentes modos de se elaborar, apreender e transmitir a cultura. Uma das características mais marcantes da sociedade contemporânea é a influencia do amplo e contínuo desenvolvimento tecnológico nas diversas esferas sociais, inclusive na cultura. Desse modo, conforme Theodor W. Adorno (1986, p.68), em Capitalismo tardio ou sociedade industrial? a atual sociedade pode ser considerada tanto industrial, porque o desenvolvimento das forças produtivas tornaram o trabalho industrial um modelo de sociedade. Como, por outro lado, a sociedade também caracteriza o capitalismo tardio devido às relações sociais que se estabelecem nas diversas instâncias sociais e nas quais cada indivíduo tem um papel/função determinada.

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Universidade Estadual de Maringá 27 e 28 de abril de 2010

NARRATIVAS MIDIÁTICAS E IDENTIDADES JUVENIS

SILVA, Franciele Alves da

FABIANO, Luiz Hermenegildo Agência Financiadora – CAPES

Narrativas e sociedade contemporânea:

Os indivíduos têm um modo peculiar de compreender, agir e relacionar-se com o mundo

à sua volta. É a cultura que fornece essas características peculiares, constituindo o modo

como os homens interagem, se organizam e criam sentido para as ações que realizam. A

cultura, portanto, é o que caracteriza o mundo humano: são as idéias, a produção dessas

idéias, conceitos, valores, símbolos, hábitos, atitudes, habilidades e os sentidos para se

realizá-las.

Nas diferentes sociedades e épocas os homens elaboraram e elaboram sua cultura, bem

como os meios para transmiti-la aos membros do seu grupo, sob a forma de

conhecimentos, experiências, tradições, etc. As transformações que ocorreram na

sociedade ocidental desde a consolidação do sistema capitalista desenvolveram

diferentes modos de se elaborar, apreender e transmitir a cultura. Uma das

características mais marcantes da sociedade contemporânea é a influencia do amplo e

contínuo desenvolvimento tecnológico nas diversas esferas sociais, inclusive na cultura.

Desse modo, conforme Theodor W. Adorno (1986, p.68), em Capitalismo tardio ou

sociedade industrial? a atual sociedade pode ser considerada tanto industrial, porque o

desenvolvimento das forças produtivas tornaram o trabalho industrial um modelo de

sociedade. Como, por outro lado, a sociedade também caracteriza o capitalismo tardio

devido às relações sociais que se estabelecem nas diversas instâncias sociais e nas quais

cada indivíduo tem um papel/função determinada.

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A novidade é que as necessidades se tornaram um meio para justificar a reprodução do

sistema econômico e não a finalidade a que se destine seu funcionamento. Forças

produtivas e relações de produção formam uma identidade, isso quer dizer que há uma

unificação tecnológica e organizatória que não atua apenas na produção material, mas

também na produção cultural. Ou seja, o desenvolvimento técnico passa a nortear as

relações que se estabelecem para além do âmbito do trabalho.

Para o historiador Eric Hobsbawn (1995), em A era dos extremos, o século XX pode ser

considerado um período de profundas transformações globais, no qual se destaca,

principalmente, a dissolução da memória histórica, ou seja, os indivíduos não ligam

suas experiências ao contexto público em que vivem. Assim, “a destruição do passado –

ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das

gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do

século XX.” (HOBSBAWN, 1995, p. 13).

Desse modo, o século XX oferece um paradoxo: é caracterizado pelos avanços

tecnológicos e científicos, grande produção de riquezas, aumento da população,

melhorias nas condições de vida, desenvolvimento dos meios de comunicação e

transporte, entre outras coisas. No entanto, ocorreram períodos de grandes crises (como

as duas guerras mundiais), que afetaram diversas esferas da sociedade como a

economia, a cultura e a política; além disso, não se conseguiu acabar, ou amenizar, as

desigualdades sociais, pelo contrário, elas se acirraram mais.

Estas mudanças oferecem um breve panorama sobre o contexto que subsidiou o

desenvolvimento das atuais formas de se “narrar” o mundo, de elaborar e reelaborar a

cultura. Sobretudo, pode-se ressaltar que esta conjuntura é marcada pela “desintegração

dos velhos padrões de relacionamento social humano, e [...] a quebra dos elos entre as

gerações, quer dizer, entre passado e presente.” (HOBSBAWN, p.25). Ou seja,

vislumbra-se uma exacerbação dos valores individualistas em detrimento da vida

coletiva. O passado perde seu elemento de conexão (de transmitir experiências) entre o

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individual e o coletivo; as relações pautam-se em experiências transitórias, criadas e

terminadas no presente.

A questão da experiência (Erfahrung) – esta entendida como o cultivo do saber

transmitido de geração em geração – no mundo capitalista se insere na problemática

trazida por Walter Benjamin (1994) em seus estudos sobre a modernidade. Nestes

estudos o autor apresenta uma crítica sobre a necessidade de reconstrução da

experiência e elaboração de uma nova forma de narratividade. As rápidas mudanças nas

condições de vida promovidas pelo capitalismo/técnica distanciam os grupos humanos

porque prejudicam a assimilação de uma experiência compartilhada. Isso tem gerado

um distanciamento das gerações, um comprometimento do diálogo e da troca e o

isolamento do indivíduo.

Em vista disso, este trabalho objetiva compreender de que forma as narrativas –

entendidas como instrumentos de formação social – contribuem para a constituição da

identidade dos jovens e para a inserção destes na vida social. Propõe-se verificar, ainda,

em que medida essas narrativas, ao atuarem como estimuladoras de identidades

estreitas, contribuem para a constituição de tribos ou comunidades fechadas, que

dificilmente dialogam com diferenças ou grupos sociais com idades distintas. Tendo em

vista que a cultura atual é marcada pela tecnologia nos referimos às narrativas

midiáticas, cuja estruturação perpetua o imediatismo e o consumo, focando

especialmente às que se voltam para o público jovem.

Este contexto, no qual as formas de agir mudam rapidamente e as realizações acabam

por não se solidificarem, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman denomina de vida

líquida. Segundo Bauman (2005) em seu livro homônimo, a vida líquida traz o

problema de uma identidade moderna que se estrutura na vivência do presente. O jovem

se vê inserido num processo em que é preciso estar em constante mudança, porque a

constituição da identidade depende de sua inserção e manutenção em uma lógica

“moderna”.

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Os discursos predominantes nessa sociedade carregam uma noção de indivíduo que

exige que este seja “singular”, “diferente”, “único”. Com isso, conforme Bauman (2005,

p.26), a imposição de ser diferente gera na verdade semelhantes por “terem de seguir a

mesma estratégia de vida e usar símbolos comuns”, a individualidade torna-se um

“imperativo universal”. Assim, a individualidade carrega uma contradição insolúvel:

que é precisar da sociedade para se realizar e esta, por sua vez, oferece os meios para

alcançar a individualidade embora esta não se realize.

O consumismo, por sua vez, aparece como fonte dos meios para se construir, preservar

e renovar a individualidade. A luta pela singularidade se torna motor para a produção e

consumo em massa. A economia de consumo, por sua vez, é veloz e rotativa, logo as

coisas se tornam “ultrapassadas” rapidamente e ser indivíduo termina por se caracterizar

pelo poder de consumir/ter dinheiro (BAUMAN, 2005, p.36-37).

Nesse contexto de uma sociedade moderna, estritamente marcada pelo consumo, que

consideramos a importância de uma reflexão sobre narração que ultrapasse a

superficialidade do “comumente aceito” para entendermos como tem se dado a

constituição do sujeito moderno diante das narrativas que o permeiam.

Identidade e possibilidades formativas:

Narrar para Benjamin (1994, p.200) consiste na arte de intercambiar experiências,

prática que está em vias de extinção na modernidade. A constante busca pelo novo (que

rapidamente se torna obsoleto) deteriora as experiências e o que tem se constituído são

experiências empobrecidas, as quais estão deixando de ser comunicáveis. “O conselho

tecido na substância viva da existência tem um nome: sabedoria. A arte de narrar está

definhando porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção”.

(BENJAMIN, 1994 p. 200-201).

Esse processo de deterioração das narrativas de que fala Benjamin (1994) não pode ser

considerado como mera característica da modernidade. Tal como as forças produtivas

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evoluem e modificam a dinâmica não só do mundo do trabalho, conceitos como os de

história, memória, identidade também sofrem transformações históricas.

Assim, conforme as contribuições teóricas de Walter Benjamin, a análise das narrativas

pode ajudar a compreender os dilemas da modernidade como, por exemplo, a perda por

parte dos indivíduos da capacidade de constituir experiências autênticas, de refletir

sobre sua existência, sobre o cotidiano e sobre a prática da cidadania.

O advento das tecnologias de informação e comunicação, por exemplo, permitem que

tenhamos acesso a notícias do mundo todo: as últimas tendências da moda, os conflitos

entre palestinos e israelenses, a vitória do primeiro negro à presidência dos EUA, o

aumento do desemprego e dos índices de criminalidade, as belezas dos desfiles de

carnaval, as novas fórmulas de emagrecimento, etc.

No entanto, não conseguimos inverter os péssimos índices de desempenho educacional,

combater a corrupção política e o desmatamento ilegal, (embora estejam estampadas

inúmeras informações em diversos veículos da mídia). Assim, apesar de termos muitas

informações (que já vêem acompanhadas das devidas explicações), a relação que

estabelecemos com estes não promove uma experiência formativa duradoura. As

informações e experiências têm que ser “consumidas” rapidamente; exigem-se respostas

imediatas, que geram uma percepção automática e a incorporação de impressões

superficiais.

Pode-se dizer, conforme Bauman (2005), que o conhecimento tornou-se descartável,

logo é preciso constante atenção para descartá-lo quando não for mais útil e substituí-lo

por outro. A educação nesse contexto se tornou perene, o conhecimento não é mais

construído como durável. Logo, “mais precisamente no ambiente líquido-moderno a

educação e a aprendizagem, para terem alguma utilidade, devem ser contínuas e

realmente por toda a vida” (BAUMAN, 2005, p. 155). A formação assim é um processo

inconcluso que deve ser exercido continuamente, de modo que a prática da cidadania

também seja algo contínuo e significante para o indivíduo.

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Para tanto se deve levar em conta que a escola precisa compreender essa lógica de

consumo em que os jovens estão inseridos e a qual oferece uma forma de participação e

inserção que se afasta do objetivo da educação de fornecer uma formação voltada para o

exercício da cidadania.

Segundo Néstor Canclini (1999, p. 37), em Consumidores e Cidadãos: conflitos

multiculturais da globalização, os indivíduos têm encontrado resposta para seu

reconhecimento como cidadãos por meio do consumo privado de bens e dos meios de

comunicação de massa “do que nas regras absolutas da democracia ou pela participação

coletiva em espaços públicos”. Por isso, para se refletir sobre essa função da educação

de formar cidadãos é premente, parafraseando Canclini, considerar a cidadania

vinculada às práticas que dão sentido de pertencimento na atualidade: o consumo, neste

caso especialmente, o de bens culturais.

A pesquisa Adolescentes e Jovens do Brasil: participação social e política,realizada em

âmbito nacional pelo IBOPE Opinião em 2007 com mais de 3000 jovens, apresenta um

estudo sobre o perfil da juventude brasileira, incluindo os principais problemas

enfrentados, o acesso a direitos básicos (saúde, educação, cultura, trabalho,esporte,

lazer,etc.), relação com a família e comunidade, e perspectivas e expectativas acerca das

políticas públicas para juventude. No campo da cultura/lazer a pesquisa constata que

35% dos jovens apontam a televisão como principal fonte de entretenimento e a internet

como principal meio de comunicação para 21%, atrás apenas do telefone.

Destaca-se, portanto, para estas análieses as narrativas midiáticas circunscritas no

âmbito televisivo e as de internet. No campo televisivo, pretende-se enfocar narrativas

para jovens como, por exemplo, a novela Malhação (veiculada pela Rede Globo a mais

de dez anos), que tem como foco prioritário o mundo adolescente e o ambiente escolar.

Na área da internet destaca-se as redes de relacionamento e comunidades virtuais, como

o Orkut, pela relação com os programas televisivos (blogs e sites de novelas,

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comunidades de fãs, etc.), e por expressarem uma das formas como o jovem “narra” seu

mundo.

A intenção é compreender como tais discursividades interferem na formação da

identidade e logo na constituição de hábitos sociológicos irracionais. “Irracionais” no

sentido de que podem cooperar com a constituição de um homem desmemoriado e

dotado de um comportamento repetitivo, reificado e passivo. Mas, ao mesmo tempo,

busca-se refletir sobre quais as possibilidades dessas narratividades oferecerem

elementos formativos mais consistentes para a subjetividade do sujeito.

Nesse sentido, é que se pretende abordar a reflexão sobre as narrativas midiáticas como

possibilidade de se evidenciar as articulações entre o público e o privado que tem

emergido dos meios de comunicação para os jovens, bem como evidenciar como estes

reelaboram estes significados para sua vida cotidiana.

Narrativas midiáticas e Identidades Juvenis: inscrição teórica

Para se aprofundar uma temática referente à constituição de identidades juvenis na

modernidade é preciso esclarecer o que é ser jovem hoje e como se dá a construção de

representações a respeito da juventude no campo das tecnologias midiáticas.

Primeiramente, destacamos que o a categoria jovem e adolescente não são termos

estáticos, pelo contrário, encontram-se em contínuo processo de discussão, o que

significa que sua definição está ligado ao contexto político, cultural e histórico em que

está inserido. De acordo com a Secretaria Nacional de Juventude, jovens são os

indivíduos compreendidos entre 15 e 29 anos. Já para o Estatuto da Criança e do

Adolescente entre 12 e 18 anos incompletos o indivíduo é considerado adolescente e

jovem entre 18 e 29 anos. Como este estudo pretende enfocar estudantes do Ensino

Médio (gerealmente entre a faixa etária de 14 a 18 anos) utilizaremos o termo “jovens

adolescentes”.

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De acordo com Cirlene Cristina de Sousa (2008), no artigo Os fios constitutivos da

interação: televisão, juventude e escola, na perspectiva de Dayrell e Abramo, é possível

destacar as instituições tradicionais (escola e família) e os meios de comunicação como

fontes de produção de imagens e representações acerca da juventude. Segundo Sousa,

no campo das instituições, a juventude é um período de transitoriedade, cujas

experiências se constituem em uma passagem para a vida adulta. Por outro lado, a

juventude também é descrita como período de conflitos, de busca de liberdade e prazer,

e do jovem como sujeito de direitos.

Nessa perspectiva, toma-se o sentido de “ser jovem” a partir da apreensão do contexto

histórico em que se insere essa geração, bem como das diferenças e desigualdades que

marcam os espaços de convivência de cada jovem, como a escola, e de seus modos de

ação e compreensão do cotidiano.

Desse modo, o tema da constituição da identidade na modernidade por meio dos

discursos produzidos na sociedade, levando-se em conta o contexto tecnológico que se

consolidou, tem perpassado diversos estudos na atualidade1. Para a fundamentação

teórica desse projeto destaca-se os estudos desenvolvidos pelos intelectuais da Escola de

Frankfurt, especialmente os de Theodor Adorno e Walter Benjamin. Os pensadores

frankfurtianos tinham a proposta central de formular uma teoria crítica acerca da

racionalidade da sociedade burguesa, enfatizando a questão da cultura e da ideologia na

constituição do sujeito. Esta perspectiva aponta para uma abordagem da realidade pela

análise da formação da consciência social comprometida pelas ideologias (ADORNO,

1999).

1 Essa afirmação se constituiu a partir da leitura de artigos sobre estudos relacionados à identidade, mídia, juventude e práticas sociais pesquisados em sites de busca. Dentre as leituras realizadas pode-se destacar a contribuição dos seguintes artigos para esse projeto: Os fios constitutivos da interação: televisão, juventude e escola, de Cirlene Cristina de Sousa; Cenas urbanas e culturas juvenis: cidade, consumo e mídia no Brasil de 60 e 70, de Rose de Melo Rocha; Mídia Educativa ou Educação Midiática? Os tortuosos caminhos da cidadania, de Manuela Barros e Erotilde Honório; Cinema e Walter Benjamin: para uma vivência da descontinuidade, de Cássio dos Santos Tomaim; Mídia e Juventude: experiências do público e do privado, de Rosa Maria Bueno Fischer; Ter atitude: escolhas da juventude líquida, de Sarai Patrícia Schmidt; Programação televisiva e socialização, Márcia Gomes.

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Um dos aspectos essenciais da filosofia de Benjamin é o desenvolvimento de uma

espécie de “Teoria da narração”, cujo cerne consiste em uma reflexão crítica sobre os

discursos da história e da prática. Essa reflexão está diretamente ligada à questão da

experiência (Erfahrung) entendida como o cultivo do saber transmitido de geração em

geração (BENJAMIN, 1994. p. 09).

Segundo Benjamin (1994), na obra Magia e técnica, arte e política, no mundo

capitalista as condições para a realização da arte de contar, ou seja, a transmissão de

experiência foram suprimidas e esta tornou-se uma prática empobrecida. Isso se dá

porque para a transmissão da experiência em seu sentido pleno é necessário que o ritmo

entre a vida e a palavra se dê de forma comunitária, opondo-se ao ritmo do trabalho

industrial.

Diante disso, Benjamin (1994) aponta para a necessidade de se resgatar as promessas da

modernidade (de liberdade, emancipação humana, progresso técnico, etc.) que não se

efetivaram e propor uma análise de desconstrução do passado para se reelaborar o

presente. Esta preocupação vai de encontro com as formulações do companheiro

frankfurtiano Theodor Adorno que propõe uma crítica ao Iluminismo (Alfklärung) à

medida que este acabou por não realizar sua proposta humanística.

As ponderações de Adorno (1999), no ensaio Conceito de Esclarecimento, nos revelam

que a promessa do iluminismo de esclarecer os homens pela razão na verdade reificou o

sujeito no processo técnico. Nessa conjuntura de evolução do modo de produção

capitalista, marcada por um amplo desenvolvimento técnico, as narrativas se tornaram

empobrecidas. Ou seja, temos a configuração de um processo de mercantilização da

cultura e de criação de padrões homogeneizantes promovidos pela indústria cultural. Os

avanços técnicos ao invés de tornarem as relações mais humanizadas incentivam o

consumo por meio da cultura.

Desse modo, o consumo se torna na modernidade um fator marcante das relações

sociais e da constituição da identidade do indivíduo. As experiências se descortinam em

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um ambiente de incertezas constantes, de reinícios e modos de vida descartáveis; as

relações são fluídas, ou como descreve Zygmunt Bauman, são líquidas. A vida líquida

traz o problema da identidade, que se centra em viver o presente, ou melhor, “consumir”

o presente.

As coisas e objetos são classificados de acordo com o padrão destes como objetos de

consumo, ou seja, como bens que são descartáveis e plenamente substituíveis. As

pessoas vivem com medo de serem também descartadas no lixo, por isso há uma

constante preocupação em se manterem no “progresso”. Assim, a identidade que se

configura na modernidade líquida requer um “constante auto-exame, auto-crítica e auto-

censura. A vida líquida alimenta a insatisfação do eu comigo mesmo” (BAUMAN, 2005

p. 19).

Tem-se, então, um mundo exterior que se pauta em um valor instrumental. O papel da

educação nessa realidade é transformar o mundo humano de modo que seja possível

uma “[...] reconstrução do espaço público, hoje em dia cada vez mais deserto, onde

homens e mulheres possam engajar-se numa tradução contínua dos interesses

individuais e comuns, privados e comunais, direitos e deveres.” (BAUMAN, 2005 p.

163).

Daí a importância de uma educação para a cidadania, que consiga se efetivar em meio

às práticas consumistas e passageiras que privilegiam primordialmente a “satisfação”

individual. Entretanto, é preciso compreender que elementos formativos as narrativas

consolidadas nesse contexto das tecnologias da informação e de consumo têm oferecido

ao indivíduo (jovem). Esta compreensão deve levar em conta que o consumo nos

discursos atuais aparece como fator agregador,ou seja, de inclusão nas diversas esferas

sociais.

Segundo Néstor Canclini (1999, p.37), as formas de exercer a cidadania sempre

estiveram ligadas à capacidade de apropriação e aos modos de usar os bens de consumo.

Porém, as diferenças quanto ao acesso aos bens de consumo supunham serem

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compensadas pela igualdade em direitos abstratos (votar, representar-se por partidos e

sindicatos). Junto com a crise política e das instituições outros modos de participação se

fortaleceram. O desenvolvimento das tecnologias audiovisuais de comunicação, por

exemplo, se constituíram como um dos principais instrumentos para o exercício da

cidadania no século XX.

A questão é que antes as identidades se definiam por essências a-históricas

(nacionalismo, etnias, tradições) e agora se definem no consumo; sua configuração

passa a depender daquilo que se possui ou que se pode chegar a possuir. Os meios de

comunicação, nesse sentido, inseriram as massas populares na esfera pública, mas

deslocaram o desempenho da cidadania em direção às práticas de consumo.

Por considerar que as narrativas expressam o modo como uma sociedade transmite e

perpetua sua cultura, um estudo sobre estas requer que além de desvelar suas

peculiaridades atuais, destacando-as no campo midiático, é preciso compreender a

conjuntura em que elas se estabelecem e como são apreendidas. Ou seja, é necessário

evidenciar, nesse caso, como os jovens são impactados pelas narrativas e como estes

compreendem e externalizam essa formação em suas práticas sociais.

Metodologia como guia

Este texto é produto do projeto de pesquisa para o mestrado em educação da

Universidade Estadual de Maringá. O método proposto é o da perspectiva de análise

qualitativa, ou seja, busca a compreensão da realidade pelo universo dos significados,

dos valores e atitudes. Entende-se, nesse sentido, os fenômenos humanos como parte da

realidade social, “[...] pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar

sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade partilhada com

seus semelhantes” (MINAYO, 2007, p. 21). Nessa perspectiva, esse estudo pretende

verificar como os jovens têm elaborado representações sociais a partir da sua relação

com as narrativas midiáticas.

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Cabe destacar que as narrativas midiáticas a serem estudadas para esta pesquisa, a saber,

programas televisivos e comunidades virtuais, foram eleitas por serem citadas,

conforme as fontes consultadas, como as de uso mais freqüente de jovens brasileiros.

O desenvolvimento da pesquisa abrangerá o levantamento e análise de fontes

bibliográficas sobre hábitos de jovens urbanos brasileiros realizados nos últimos cinco

anos para situar o impacto das narrativas contemporâneas em suas práticas sociais. A

partir da definição desse panorama será possível uma análise do discurso de alguns

programas televisivos mais assistidos e comunidades virtuais mais visitadas pelos

jovens, tendo como referencial o conceito de experiência de Walter Benjamin.

A utilização desse referencial teórico-metodológico tem o objetivo de “desconstruir” as

narrativas, procurando um entendimento para além do sentido explícito e reconhecido

que estas expressam (BENJAMIN, 1994 p.15). Para isso, leva-se em conta, sobretudo, o

entendimento do objeto de análise (os jovens) sobre estes discursos que os formam e

que são, ao mesmo tempo, formados por ele.

Ressalta-se que o perfil do público estudado compreenderá cerca de 20 jovens da faixa

etária dos 14 aos 18 anos (idade em que geralmente estão cursando o ensino médio) da

cidade de Maringá, preferencialmente de escola pública. Com este universo de

indivíduos serão realizadas entrevistas abertas acerca da apreensão destes sobre as

narrativas estudadas e o impacto destas em suas práticas sociais. Este instrumento

metodológico busca dar maior profundidade às reflexões da pesquisa, que é considerada

aqui como uma “forma privilegiada de interação social” e por isso “está sujeita à mesma

dinâmica das relações existentes na própria sociedade” (MINAYO, 2007, p. 65).

Portanto, a pesquisa é em si uma relação social, na qual, parafraseando Ecléa Bosi

(1994), somos sujeitos enquanto indagamos e objeto quando ouvimos e registramos as

informações. Constrói-se com isso uma relação de alternância entre pesquisador e

pesquisado, na qual o primeiro busca um posicionamento que questione suas próprias

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percepções da realidade para se elaborar uma reflexão para além do “aparentemente”

instituído.

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