Nem no convento, nem no cabaré, na imprensa operária: a ...· operária brasileira da República

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Nem no convento, nem no cabaré, na imprensa operária: a ...· operária brasileira da República

BOENAVIDES, Dbora Luciene Porto. Nem no convento, nem no cabar, na imprensa operria: a ampliao das esferas discursivas da mulher trabalhadora na Repblica Velha. Linguagem em (Dis)curso LemD, Tubaro, SC, v. 17, n. 3, p. 297-313, set./dez. 2017.

Pg

ina2

97

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-4017-170301-0317

NEM NO CONVENTO, NEM NO CABAR, NA IMPRENSA

OPERRIA: A AMPLIAO DAS ESFERAS DISCURSIVAS DA

MULHER TRABALHADORA NA REPBLICA VELHA*1

Dbora Luciene Porto Boenavides**

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Instituto de Letras

Porto Alegre, RS, Brasil

Resumo: Neste artigo, investiga-se como a escrita da mulher trabalhadora na imprensa

operria brasileira da Repblica Velha (1889-1930) influenciou e refletiu a realidade da

poca. Para tanto, o estudo, ancorado na teoria dialgica do discurso, primeiramente

contrape duas teses equivocadas advindas do imaginrio das elites que, em suas

representaes, colocavam como lugar das mulheres trabalhadoras da poca ora o

convento, ora o cabar, restringindo suas esferas discursivas e, com isso, as possibilidades

de sua atuao lingustica. Aps, o artigo apresenta a relao da mulher trabalhadora com

a imprensa operria como outra histria de sua linguagem. Desta forma, demonstra-se que,

a despeito de todas as tentativas de calar suas vozes, seja atravs do disciplinamento, da

censura ou da estereotipao, os textos das trabalhadoras na imprensa operria mostram

sua resistncia e apontam os embates pelos quais ocorreu a ampliao de suas esferas

discursivas na poca.

Palavras-chave: Dialogismo. Imprensa. Mulher. Trabalho.

1 INTRODUO

O trabalho aqui desenvolvido tem como tema a ampliao das esferas discursivas

das mulheres trabalhadoras no Brasil da Repblica Velha, atravs de sua atuao, por

meio da escrita2, na imprensa operria brasileira. Ao caracterizar nosso objeto de estudo,

importante, primeiramente, ressaltar que consideramos jornais operrios aqueles que

tinham como temtica principal a questo da explorao da classe trabalhadora, sendo

redigidos e lidos, assim, principalmente por trabalhadoras e por trabalhadores. Estes

jornais eram, na maioria das vezes, vinculados a partidos, associaes e sindicatos e

guiados por ideais anarquistas e socialistas. Alm disso, classificamos como

trabalhadoras aquelas mulheres que, por no pertencerem elite, no eram alheias ao

trabalho, podendo este ocorrer em atividades industriais (operrias), agrcolas

(agricultoras), comerciais (vendedoras, atendentes, etc.) ou educacionais (professoras).

* Este artigo resultado parcial de pesquisa de mestrado em andamento, intitulada Gnero, linguagem e

trabalho: a escrita da mulher trabalhadora na imprensa operria brasileira da Repblica Velha, sob a

orientao da Profa. Dra. Florence Carboni.

** Mestranda em Letras/Sociolingustica no Programa de Ps-graduao em Letras. Bolsista CAPES. E-

mail: professoradeboraporto@gmail.com.

2 Neste artigo, apesar de no menosprezarmos a atuao das mulheres enquanto leitoras dos jornais

operrios, nos limitaremos a analisar a produo dialgica dos textos por elas escritos.

BOENAVIDES, Dbora Luciene Porto. Nem no convento, nem no cabar, na imprensa operria: a ampliao das esferas discursivas da mulher trabalhadora na Repblica Velha. Linguagem em (Dis)curso LemD, Tubaro, SC, v. 17, n. 3, p. 297-313, set./dez. 2017.

Pg

ina2

98

O artigo fundamentado na teoria dialgica do discurso, que afirma que o

problema da relao recproca entre a infra-estrutura e as superestruturas [...] pode

justamente ser esclarecido, em larga escala, pelo estudo do material verbal, visto que o

que nos interessa compreender como a realidade (a infra-estrutura) determina o signo,

como o signo reflete e refrata a realidade em transformao

(BAKHTIN/VOLOCHNOV, 2010a, p. 42, grifos do autor). De tal modo, no presente

trabalho nosso objetivo, de modo geral, verificar e interpretar como a ampliao da

esfera discursiva das mulheres trabalhadoras, atravs da sua atuao nos jornais operrios,

influenciou a realidade da poca e refletiu/refratou a complexificao e a ampliao das

relaes trabalhistas brasileiras.

Temos como objetivos especficos analisar a presena de conscincia de classe e de

gnero nos textos publicados pelas mulheres trabalhadoras da Repblica Velha e delinear

o estilo desses textos, em comparao a textos de autoria masculina. Alm disso,

procuraremos compreender a motivao para o comeo da escrita das mulheres nos

jornais operrios. Buscaremos perceber, assim, se estas preencheram espaos vazios ou

se houve algum embate por estes espaos.

Para um recorte mais preciso, foram escolhidos dois jornais da imprensa operria

do Rio de Janeiro: A Classe Operaria e Voz do povo3, por serem jornais de grande

circulao e extensa tiragem, e pelo fato de o Rio de Janeiro, na poca, ser a capital do

Brasil e uma das cidades com maior nmero de habitantes, com maior desenvolvimento,

com menor ndice de analfabetismo e maior ndice de industrializao (BRAZIL, 1922).

Desta forma, neste artigo, primeiramente discorreremos sobre o conceito de esfera

discursiva a partir da teoria dialgica do discurso (TD), vinculando esta definio a outros

conceitos importantes da TD (lngua/linguagem, enunciado, gnero discursivo, estilo,

carnavalizao e polifonia). Aps, buscaremos compreender a imprensa operria no

contexto da Repblica Velha. Assim, a partir dos conceitos da TD e da contextualizao

scio-histrica, verificaremos os principais aspectos da imprensa operria da Repblica

Velha enquanto esfera discursiva possvel para as mulheres trabalhadoras da poca. Por

ltimo, verificaremos se os textos de autoria feminina na imprensa operria dos primeiros

anos da industrializao brasileira so evidncias para uma representao das mulheres

trabalhadoras no estereotipada pelas classes dominantes.

2 O CONCEITO DE ESFERA DISCURSIVA NA TEORIA DIALGICA

Cada campo de criatividade ideolgica tem seu prprio modo de orientao para

a realidade e refrata a realidade sua prpria maneira. Cada campo dispe de sua prpria

funo no conjunto da vida social. (BAKHTIN/VOLOCHNOV, 2009, p. 33). O

conceito de esfera discursiva4 de suma importncia para a teoria dialgica do discurso.

Primeiramente porque este conceito recorrente nos textos escritos por Bakhtin e

3 Muitos exemplares destes jornais podem ser encontrados na hemeroteca virtual da Biblioteca Nacional. 4 Este conceito pode ser tambm chamado de campo discursivo, ou campo de atuao lingustica, ou campo

de criatividade ideolgica, dependendo da traduo realizada ou da obra analisada.

BOENAVIDES, Dbora Luciene Porto. Nem no convento, nem no cabar, na imprensa operria: a ampliao das esferas discursivas da mulher trabalhadora na Repblica Velha. Linguagem em (Dis)curso LemD, Tubaro, SC, v. 17, n. 3, p. 297-313, set./dez. 2017.

Pg

ina2

99

Volochnov. Ele est presente em A Palavra na Vida e na Poesia (VOLOCHNOV,

1926), em Marxismo e Filosofia da Linguagem (BAKHTIN/VOLOCHNOV, 1929-

1930), em Problemas da potica de Dostoiviski (BAKHTIN, 1929), em Que a

linguagem? (VOLOCHNOV, 1930), em A construo da enunciao (VOLOCHNOV,

1930), em Os gneros do discurso (BAKHTIN, 1952-1953), em A Cultura Popular na

Idade Mdia e no Renascimento (BAKHTIN, 1965) e em vrios outros textos, visto que

a linguagem e a literatura, principais objetos da teoria dialgica do discurso, so vistas

por ela como indissociveis das esferas da atividade humana, como indissociveis da

histria. Em segundo lugar, porque o conceito de esfera discursiva vincula-se a outros

conceitos importantes da TD. No presente artigo, analisaremos sua relao com as

seguintes concepes: lngua/linguagem, enunciado, gnero discursivo, estilo,

carnavalizao e polifonia. No entanto, acreditamos que, coerentemente, outros conceitos

da TD5 possuem tambm relao com a concepo de esfera discursiva.

Iniciemos pela lngua/linguagem. O conceito de esfera discursiva est na base da

concepo bakhtiniana e volochinoviana de lngua/linguagem. Desta forma, para a TD, o

objeto de anlise do linguista deve ser a lngua como parte das prticas sociais, as quais

devem servir para explicar como o sentido construdo pelos interlocutores nas relaes

sociais de poder e como o sentido constri tais relaes. Isto porque, de acordo com a

TD, a lngua no um objeto sem significado ideolgico, como so, por exemplo, os

fenmenos da natureza, os instrumentos de produo, os objetos da vida cotidiana, etc.

(VOLOCHNOV, 2013, p. 191). Deste modo, de acordo com Volochnov em A palavra

e a sua funo social, podemos usar, examinar e analisar os objetos sem significado

ideolgico e, ainda assim, o que observaremos no ser mais que o prprio objeto, sua

materialidade se manter6. A lngua, no entanto, desde o incio um fenmeno ideolgico

(VOLOCHNOV, 2013, p. 192), uma vez que ela existe apenas enquanto interao, no

existe de forma independente dos seres humanos, como existem os objetos sem

significado ideolgico. Assim, o dado imediato, ou seja, a matria da linguagem, no